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31/07/2015

As Fontes de Vida no Brasil, de Alberto Torre


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Para esclarecimento
 A publicação deste estudo obedece ao propósito de destacar aos olhos da geração contemporânea de dirigentes dos nossos destinos dois aspectos radicais da soma de crises que perturbam a vida deste país: a crise da natureza e a crise do trabalho.
Ele revela a realidade pungente de um país novo que chegou a esta fase crítica da História sem haver nada construído e tendo estragado a sua terra e anemiado o vigor comprovado das suas raças, e confronta-a com as tendências irrefletidas da nossa política e com as dos centros financeiros e do pensamento superficial do mundo.
Em flagrante contraste com a verdade, a opinião dominante nos centros da nossa direção mental e governamental, ou professa as mais aéreas visões sobre a orientação da nossa política, propagando como normas da ação pública idéias que traduzem os mesmos preconceitos que foram causa destes descalabros, ou paira, de todo indiferente a tais problemas, numa atmosfera de fluidas divagações e de lutas bizantinas.
A restauração das forças da vida, nas terras e na gente do Brasil, impõe-se-nos como um problema imediato e urgente. A sanção da nossa incúria já não vale por simples ameaça, para os que leem a realidade, nas coisas e nos fatos. Base de toda a nossa vida é, entretanto, aquela obra impossível, sem a organização do nosso mecanismo político em moldes próprios.
Eis a síntese que aqui procuro fazer passar à vista dos brasileiros que estão de posse da direção e da força política, como a própria imagem cinematográfica do mal íntimo e profundo deste país.

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Trecho do livro

21/06/2015

Goiás, de Visconde de Taunay

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Contexto crítico de Taunay

Contexto crítico de Taunay Emerge agora questionar: nos variados níveis de abordagem do complexo romântico, qual o valor e a função da obra de Alfredo Taunay?

Na falta de um contorno mais específico, querer definir/enquadrar a obra e o escritor em estilos específicos de época, não é a intenção deste estudo. Mas aqui, essa totalidade é gênese e explicação, pois equilibrar os dois aspectos produz o efeito de sentidos no leitor. No primeiro caso, abre perspectivas de diferentes leituras que, de alguma forma, combatem a limitação da experiência literária; no outro, desperta o desejo de penetrar particularidades das obras que libertam a sensibilidade e a visão de mundo.

Vimos que determinados componentes de origem, como vinculações de pensamentos remotos e contemporâneos ao escritor e as mudanças da sociedade, podem ser postos em situação de análise, tematizados e lidos ao lado das abordagens estéticas. Convém esclarecer, em vista disso, que é inevitável o apelo à cultura, para que se possa explicar relações de sentido, entre outros elementos significativos que fizeram parte do complexo histórico, como a viagem e a questão da natureza transformada em paisagem.

Posicionamos, no item anterior, sobre a diversidade de expressão e de interpretação do fenômeno romântico no mundo europeu, totalmente adaptado, no Brasil, a uma “fonte que verdadeiramente lhe pertencia” (DENIS, 1978, p. 36)20. A literatura assumia, assim, uma fisionomia própria, necessária ao momento da independência, feita sob o signo do Romantismo.

Aos traços maiores do contexto, agregaram-se as formas de expressão, que produziram diferentes sentidos, revelaram o homem sedento de liberdade, ansioso por reconquistas de valores e de territórios, para alargar o próprio espírito e dominar o futuro. Daí a figuração mítica da nação e do herói, elementos necessários à afirmação cultural.

Até aqui entendemos que o acordo entre a busca do sentido do nacional e a construção de emblemas configurativos dessa idéias de nação, está feito com a historiografia literária. No entanto, o cenário político transformou-se e, nos anos 50/60, do século XIX, com a extinção do tráfico dos negros, o Brasil entrou num período de crises no regime de governo e nas instituições que o sustentavam.

Alfredo Taunay, em plena Guerra da Tríplice Aliança, iniciou seu labor literário, impulsionado pela viagem, ou melhor dizendo, elaborou a matéria-prima maturada pelo exercício da observação. Já não vigoravam somente as atitudes do eu romântico incapaz de resolver os problemas das diferenças sociais, os suspiros poéticos, as saudades, os códigos clássicos, exacerbação religiosa, a criação idealizada do herói e da natureza, mas o “contato de uma cultura citadina e letrada com a matéria bruta do Brasil rural, provinciano e arcaico” (BOSI, 1988, p. 155).

Esse era o “verdadeiro” Brasil ou a necessidade de (trans)fusão do sentido nacional? O sentido que Taunay tentou imprimir pode ser visto, pelo alcance de sua obra, na explicação da existência de dois “brasis”: o da “face culta da metrópole carioca e das capitais de algumas Províncias; e outro, da face oculta, diferenciada”, mas não menos necessária ao projeto de integração nacional (ibidem).

Taunay construiu-se personagem da história política e literária brasileira por “germes de origem”. Um deles é o de paisagista, “inoculados desde o berço e reforçados [...] pelos espetáculos inolvidáveis dos múltiplos panoramas do Rio de Janeiro, [...] sob a indicação do dedo mestre do pai”; o outro é o de escritor, pela “ação poderosíssima de longas e custosíssimas viagens pelo grande oeste pátrio, por São Paulo, Minas, Goiás e Mato Grosso feitas [...] aos vinte e dois anos [...]” (ROMERO, 2002, p. 407). Duas pontas das lanças utilizadas pelo civilizador, no caso Taunay, colocam-se frente ao povo a ser civilizado no interior do Brasil. Na busca do outro, foi despertado para o talento e o gosto de escrever, aspectos que a crítica compreendeu de variadas formas, muitas vezes, em detrimento de algumas qualidades dignas de nota.

Um panorama histórico-literário pode dar conta do que se pretende explicar aqui.

Da participação ativa nas viagens e na vida pública brasileira do Segundo Reinado, Alfredo Taunay integrou uma lista de nomes que soma ao de Joaquim Nabuco 60 e André Rebouças, todos vinculados, de alguma forma, ao Imperador Pedro II. Conhecer o pensamento dessa época é conviver com uma parcela da forma como se pensava o Brasil, mesmo que Taunay (meio francês, meio brasileiro) possa significar uma espécie de contradição que, segundo Sílvio Romero (ibidem), parece intrínseca e fundamental para compreender a causa de suas lutas pela imigração e contra a escravidão.

Situando a prosa romântica, Nelson Werneck Sodré (1960, p. 298-9) diz que o “verdadeiro Brasil”, original, puro, seria o do interior, o do sertão, “imune às influência externas, conservando em estado natural os traços nacionais”. Não por acaso, o índio foi focalizado como emblema nacional e, posteriormente, não representando mais a totalidade de caráter dessa expressão, foi substituído, mesmo que não totalmente, pelo sertanejo, trabalhador da terra e em harmonia com o cenário natural, e também romântico, embora carregado de outros aspectos singulares.

No estudo sobre “três romancistas de costumes rurais”, Lúcia Miguel- Pereira (1952) defendeu a tese – para Afrânio Coutinho (1955) “duvidosa” – da supremacia dos costumes sertanejos sobre as personagens da obra Inocência. Para ela, o romance aponta “sérios defeitos de técnica, complexidade e mistério”, apesar de o escritor conseguir criar um “mundo próprio das personagens” (op. cit., p. 107 e 110).

Para Antonio Candido (1997), Alfredo Taunay é tido como “mediano” e ao mesmo tempo como um “caso raro na literatura do tempo, para a qual trouxe uma rica experiência de guerra e de sertão, depurada por sensibilidade e cultura nutridas de música e artes plásticas” (op. cit., vol. 2, p. 266 e 275). As opiniões, a respeito do conjunto da sua obra, não encontram muita guarida entre os críticos, incluindo os contemporâneos. Pressupõe-se que ocorre certo desconhecimento sobre a contribuição da obra de Alfredo Taunay para a anexação do conceito de interior brasileiro, com as descrições de cidades, campos, natureza e homem. Um exercício do olhar que tornou visível o espaço desconhecido, mas também marcou uma forma de apropriação, estabelecendo uma história que se fez pelo imaginário. Neste caso, o discurso da descoberta foi acentuado, posteriormente, pela elaboração das lembranças da guerra, da política imperial, da persona do Imperador e dos acontecimentos nacionais do Segundo Império.

O que Antonio Candido analisa como peculiaridade cultural, Sílvio Romero21 reconheceu, nas raízes do pensamento de Alfredo Taunay, como “sentimento de paisagem” que se sobreeleva mais que a imaginação, o vigor e a poesia, quando comparado a românticos como Alencar, julgamento que foi seguido por quase toda uma geração de críticos.

Com José Veríssimo22, a obra de Alfredo Taunay aparece como “fórmula” literária e “cópia” em que falta “coesão e intensidade que lhe dessem mais solidez e distinção”, o que, para Afrânio Coutinho (1955, p. 906), faz com que o escritor se perca “na descrição da natureza, nas anotações dos costumes e, talvez, na excessiva preocupação de fidelidade [...] do que resulta certa falta de unidade, certo desequilíbrio no tônus do romance”. Nesse aspecto, Olívio Montenegro (1953) coloca-se ao lado de Coutinho ao considerá-lo mais um homem de ciência do que puro escritor. Montenegro ressalta, ainda, o descritivismo, a “maníaca cor local” ou “os dois olhos de Narciso” do romance Inocência (p. 72-78).

Outros críticos não descem às minúcias dos anteriores e contentam-se em trazer a obra de Taunay, mesmo com as repetições que se sucedem, como representativa do “pitoresco da paisagem e da língua” (SODRÉ, 1960, p.301). Ronaldo de Carvalho (1937, p. 262) defende o artista como conhecedor da “justa medida das cousas”. Para ele, com Inocência, “começou o romance de amor a perder aquelle sainete puramente sentimental que lhe imprimira Macedo [...], desenhando as paixões com menos violência e as figuras com mais naturalidade do que era commum”. João Ribeiro (1952, p. 205) destaca alguns “traços novos” que compõem a fisionomia de Taunay, como as suas ligações com a Arte, o epos contido em A retirada da Laguna e a “suavidade de estilo” de Inocência.

A partir desses posicionamentos iniciais, a historiografia literária começa a visualizar outros aspectos da obra do escritor, reunindo ingredientes do contexto (aqui entendido como o conjunto das idéias e o diálogo entre textos). José Aderaldo Castello (s/d), lançando mão das Memórias do Visconde de Taunay (1946), demonstra como o escritor obteve elementos essenciais para a elaboração de Inocência e como esta obra está imbricada em outras, como Viagem de regresso e Céus e terras do Brasil (p. 47- 53). Numa pequena nota, em Presença da Literatura Brasileira (1976), Castello diz, em conjunto com Antonio Candido, que Taunay é, “sobretudo, visual, primando nas descrições; mesmo a sua narrativa, freqüentemente muito boa, se traduz em termos plásticos” (p. 79).

Vai-se, desta forma, afunilando uma visão menos formal de um regionalismo artificial, para se compreender os elementos constituidores do nacionalismo literário brasileiro que consistiu, basicamente, em “escrever sobre coisas locais” rumo a uma “intenção programática, a resolução patriótica de fazê-lo” (CANDIDO, 1997, p. 99). Não mais a obra isolada nas situações narrativas, mas as circunstâncias de sua realização. Não mais a “falha da visão” do condicionamento social, mas o cuidado com o “vínculo entre a obra e o ambiente, depois de termos chegado à conclusão de que a análise estética precede considerações de outra ordem”. Sem a dissociação das visões, há que “fundir texto e contexto numa interpretação dialeticamente íntegra, em que tanto o velho ponto de vista que explicava pelos fatores externos, quanto o outro, norteado pela convicção de que a estrutura é virtualmente independente, se combinam com momentos necessários do processo interpretativo” (CANDIDO, 2000, p. 3 e seguintes). Assim, compreender as condições sociais torna-se necessário para des-cobrir significados para construir outros olhares, desconstruindo e compondo singularidades.

Nessa vertente, a sociologia da literatura e o comparativismo tentam aproximações entre as obras, elaborando o objeto artístico, pela interpretação estética que assimilou a dimensão social como fator de arte (op. cit., p. 7).

Alceu Amoroso Lima (1948), em estudos sobre a contribuição à história do modernismo literário, coloca Alfredo Taunay e Euclides da Cunha no “balanço nacional”. Ambos militares, em épocas e operações de objetivos diversos, legaram “grandiosas sínteses de nossa nacionalidade”, apesar da impossibilidade de compará- los. De qualquer forma, se aquele nos deu “uma página imortal de dor e de heroísmo”, da nacionalidade, este “as mais poderosas, as mais profundas, as mais grandiosas sínteses de nossa nacionalidade em esboço”. Um a “tragédia da consciência”; outro, a “tragédia da terra” (p. 292).

Nesse aspecto, na perspectiva dos universos distintos do regional em Alencar e Taunay, José Maurício Gomes de Almeida (1981) privilegia um estudo minucioso sobre o sentido das epígrafes de Inocência, até então, em total desatenção crítica. Um artifício do narrador para “dialogar com a sua narrativa e, por via indireta, com o leitor”. Apesar das diferenças e da distância de trinta anos que os separam, a analogia das situações “trágicas” de páginas da história do Brasil está na facilidade de composição descritiva do regionalismo. Dessa forma, o regional deixa o “localismo redutor”, para o alcance de uma “estética global” (op. cit., p. 93-7). Ou seja, os sentidos percorrem o texto de dentro para fora e nas beiradas, no desejo de poder dizer em todos os quadrantes, inclusive nos universais.

Outros aspectos do potencial de universalidade contidos na narrativa de Alfredo Taunay chamam atenção. Massaud Moisés (1985) e Temístocles Linhares (1987) relevam a construção dos tipos nos romances do escritor. O primeiro fala no “equilíbrio dialético” da narrativa de Inocência e “da cosmovisão de Taunay (MOISÉS, op. cit., p. 281); o outro atesta a “contribuição nova” aos novos rumos do sertanismo brasileiro “não propriamente em favor de maior aproximação com a realidade, mas antes de mais rica e profunda imaginação na esfera criativa” (LINHARES, op. cit., p. 155). Wilson Martins (1977), meio que revertendo um antiga polêmica entre Taunay e Alencar23, sugere certa influência de Inocência sobre O Sertanejo, que “repete, no título, na paisagem, nos caracteres e na ação, a temática inaugurada por Taunay, com Inocência, e que, como já foi observado, permaneceria para sempre no foco central do nosso regionalismo” (p. 508).

Nesse vasto panorama crítico-historiográfico, Antonio Candido (1997) não se deixa levar pelas antigas cisões de estilos literários. Avaliando o horizonte da segunda metade do século XIX, inscreve a obra de Taunay no “nacionalismo literário”. Um escritor que, como poucos, efetuou “levantamento tão cabal do país [...], na ficção e no documentário, só fez descrever as suas cidades e campo, a natureza e o homem, preocupado em registrar, depor, interpretar” (p. 266). Assim, o regionalismo será visto como “programa e critério estético” que a “sensibilidade e o bom senso” de Taunay exprimiram (p. 267-282), o que diferencia o escritor de outros regionalistas. A combinação do estético e do pragmatismo da formação fundamenta o conjunto da obra e dimensiona as características da sua personalidade.



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Fonte:
Olga Maria Castrillon-Mendes:
“Taunay viajante e a construção da imagética de Mato Grosso”. (Tese apresentada ao Curso de Letras do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas - Instituto de Estudos da Linguagem - como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Letras. Orientador Prof. Dr. Carlos Eduardo Ornellas Berriel). Campinas, 2007.

15/01/2014

História da Grécia, de J. Fernandes Costa

 J. Fernandes Costa - Historia da Grecia - Iba Mendes
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O Mundo grego sob o olhar do ano de 1902

11/01/2014

Peru versus Bolívia, de Euclides da Cunha

 Euclides da Cunha - Peru versus Bolivia - Iba Mendes
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Euclides da Cunha: de engenheiro e jornalista a grande escritor da nação

Nesse capítulo, será analisada a popularização e a glorificação da figura e da obra euclidianas não somente a partir da criação do Grêmio Euclides da Cunha do Rio de Janeiro, em 1911,  mas a partir da própria publicação de “Os Sertões”, em 1902, que recebeu críticas muito  favoráveis e transformou Euclides, de engenheiro e repórter praticamente desconhecido, em  grande expoente da literatura nacional. Essas críticas tiveram um papel muito importante na consolidação do nome de Euclides da Cunha.

Na verdade, a literatura sobre o sertão não era exatamente uma novidade no momento em que  foi publicado “Os Sertões”. Outros escritores, como Coelho Netto e Artur Azevedo também  tinham o sertão como o tema principal de suas histórias. Esses escritores faziam parte de uma  corrente que, segundo Regina Abreu, era valorizada por estar associada à autenticidade, pureza, sinceridade, ao contrário da literatura urbana, associada à contaminação, ao engano e  à ilusão. 

Desse modo, a busca pelo “cerne da nacionalidade”, nas palavras do próprio Euclides, estava presente em outros escritores, que viam a literatura urbana dessa época como   excessivamente contaminada por influências estrangeiras e pouco afeita a uma realidade  genuinamente nacional. Outro ponto importante a ser ressaltado diz respeito, especificamente, ao tema da guerra de Canudos: esse foi um conflito amplamente noticiado  pelos jornais da época, e, além de Euclides, outros repórteres foram enviados para fazer a cobertura da guerra. Dentre eles, alguns também publicaram livros sobre o acontecimento,  como o major Barreto Dantas, Manuel Benício e Olívio de Barros. 

Mas nenhum desses escritores fez tanto sucesso quanto Euclides da Cunha. Tamanho e tão  repentino sucesso de um livro a respeito de um tema até certo ponto ultrapassado, já que no momento em que “Os Sertões” foi publicado, 1902, a guerra já havia terminado há alguns anos, mereceu uma investigação mais apurada de historiadores como Regina Abreu. Afinal, o  livro de Euclides da Cunha é considerado, mesmo nos dias atuais, um livro de difícil leitura, em razão da quantidade de termos científicos que o autor utiliza ao longo de seu texto. Considerando-se que a maior parte do público leitor daquele período histórico não estava familiarizado com os termos, conceitos e teorias utilizados por Euclides da Cunha, como o  seu livro conseguiu atingir um índice de vendas tão alto, já nos primeiros meses após a sua  publicação? Por que, afinal, o livro de Euclides da Cunha fez tanto sucesso já na época de seu lançamento? 

Segundo Regina Abreu, uma das explicações possíveis, ainda que não seja a única, pode estar relacionada à aprovação do livro por parte de alguns dos grandes críticos literários da época: José Veríssimo, Araripe Junior e Silvio Romero. Os três literatos, que produziam  importantes críticas sobre novos e antigos escritores e seus livros em grandes jornais da  época, foram unânimes na aprovação do livro de Euclides. Mais do que isso: os três foram  unânimes na aprovação do caráter científico do livro, que talvez diferenciasse a obra  euclidiana da dos outros autores que haviam escrito sobre a guerra de Canudos. A crítica dos  literatos ao livro de Euclides deixa bem clara a importância dada por eles ao caráter científico   do livro. José Veríssimo, em 1902, escreveu o seguinte: 

O livro do Sr: Euclides da Cunha, ao mesmo tempo um homem de ciência,  um geógrafo, um geólogo, em etnólogo; de um homem de pensamento, um  filósofo, um sociólogo, um historiador, e de um homem de sentimento, um  poeta, um romancista, um artista, que sabe ver e descrever, que vibra e  sente tanto aos aspectos da natureza como ao contato do homem...

José Veríssimo, em sua análise sobre o livro de Euclides, fez questão de dar destaque à formação intelectual do autor. Veríssimo assinalou que o livro foi produzido por um homem  de ciência, que era geógrafo, geólogo, etnólogo, filósofo e historiador, entre outras  qualidades. Desse modo, para Veríssimo, por ser cientista além de escritor, é como se a  narrativa de Euclides tivesse mais legitimidade do que as outras produzidas sobre esse mesmo  assunto. Sendo assim, apesar de a guerra de Canudos já ter sido objeto de outros estudos e de uma extensa cobertura jornalística para os padrões da época, o livro de Euclides da Cunha não poderia ser ignorado, pois fornecia uma visão diferenciada, de um homem de ciência, sobre  aquele conflito ocorrido nos sertões brasileiros. Não é de se espantar que José Veríssimo  tenha dado importância ao caráter científico do livro de Euclides da Cunha. Assim como  Silvio Romero, e embora tenha discordado deste último em alguns pontos, Veríssimo  também era simpático às teorias e aos pensadores evolucionistas, que aparecem em profusão,  seja por citações nominais, seja pela aplicação de suas idéias, no livro de Euclides. Essa característica do pensamento de Veríssimo é destacada por Maria Auxiliadora Cavazotti, em  livro intitulado “O projeto republicano de educação nacional na versão de José Veríssimo”. No livro citado, a autora afirma que: 

O perfil intelectual de Veríssimo encontra ressonância no pensamento social  brasileiro à época republicana. As características de erudição, domínio  científico e qualidade literária presentes em Veríssimo são compartilhadas  por toda uma geração de intelectuais brasileiros- entre os quais denominada ‘geração de 70’- que viveram e produziram no ocaso do século  passado e início deste, ou seja, no período em que se gesta a república.

Mais adiante, a autora afirma: 

Mas é, principalmente, no pensamento de Spencer que Veríssimo vai buscar  luzes. Nisso segue uma tendência da época, de cunho liberal, ligada às lutas  republicanas. De fato, como lembra José Murilo de Carvalho, ‘a versão  final do século XIX na postura liberal era o darwinismo social, absorvido no Brasil por intermédio de Spencer.

Ainda sobre Veríssimo, completa a autora: 

Fica claro, assim, que é sob os auspícios da Biologia e da Sociologia,  integradas no evolucionismo social spenceriano, que Veríssimo vai buscar  os princípios com os quais busca fundamentar sua proposta de educação  nacional.

Sobre Os Sertões, escreveu Araripe Junior que o livro de Euclides “(...) resulta da soma da arte com a ciência, do épico com o trágico, da emoção com a razão (...)” . Essas palavras deixam claro que o caráter científico-literário do livro de Euclides da Cunha conferiu mais  credibilidade e até mais legitimidade à narrativa de Euclides da Cunha sobre o sertão e sobre a  guerra. 

Regina Abreu confirma a importância dada pela trindade crítica do realismo, na expressão  da autora, ao caráter científico da obra euclidiana em diversas afirmações, entre as quais: 

Apesar de desavenças pontuais, os três partilhavam idéias próximas e,  sobretudo, ocupavam o mesmo lugar de representantes de novo método de  crítica literária calcada em critérios científicos por oposição aos antigos  métodos acusados de pecar por excesso de subjetivismo.

Mais adiante, ao caracterizar a nova visão dos chamados críticos realistas, a autora afirma  que: 

A literatura devia estar a serviço da ‘realidade nacional’, e os escritores, regidos por novos critérios de consagração, pautados por crítica moderna e  científica. Romero expressava o ponto de vista de muitos dos excluídos da Rua do Ouvidor e das principais agências: arregimentar suas forças na  novidade da ciência e com ela mudar os rumos da literatura. Esse movimento, que se processou a partir dos anos 70 do século passado, foi crucial não apenas para que um engenheiro como Euclides da Cunha viesse  a produzir Os Sertões, bem como para que essa obra viesse a ser consagrada. A consagração de Os Sertões significaria o exercício da nova  crítica que buscava se afirmar no país. O criador e a criatura se  encontravam. Um alimentaria o outro. Tanto a crítica moderna e científica  seria fundamental para a consagração de Os Sertões quanto o aparecimento  de Os Sertões seria fundamental para o exercício e a afirmação da nova  crítica.

Ainda sobre esse assunto, Regina Abreu ressalta que: 

Como Araripe, Romero observava a importância dos estudos realizados sobre o meio físico, concordando com a visão determinista de que a terra moldava os homens à sua imagem e semelhança. 

Também não é surpresa que Romero concordasse com a linha interpretativa de Euclides da  Cunha sobre o acontecido em Canudos, já que, como vimos, os dois partilhavam das mesmas  convicções nas teorias evolucionistas da época. A aprovação de Silvio Romero ao trabalho de Euclides da Cunha é também uma evidência que contraria a hipótese de que Euclides da  Cunha foi um positivista convicto, uma vez que, repudiando o positivismo como Silvio  Romero repudiava, é pouco provável que ele aprovasse o trabalho produzido por um escritor que pertencesse a essa escola. A crítica favorável de Romero ao livro de Euclides demonstra a identidade de pensamento entre os dois, pelo menos no que se refere ao ocorrido em Canudos. 

Portanto, considero que um dos motivos do livro de Euclides ter sido valorizado por estes críticos é seu caráter científico, acadêmico, e não apenas literário. Deve-se ressaltar, no  entanto, que, conforme aponta Venâncio Filho, o uso em excesso de termos científicos e de uma linguagem muito prolixa também foi alvo de críticas por parte de José Veríssimo, ainda  que essas críticas tenham sido feitas em âmbito privado, apenas para o próprio escritor. Venâncio também afirma que a isso, Euclides respondeu:


Num ponto apenas vacilo-o que se refere ao emprego de termos técnicos. Aí,  a meu ver, a crítica não foi justa. Sagrados pela ciência e sendo de algum  modo, permita-me a expressão, os aristocratas da linguagem, nada justifica  o desprezo que lhes votam os homens de letras-sobretudo se considerarmos  que o consórcio da ciência e da arte, sob qualquer de seus aspectos, é hoje a  tendência mais elevada do pensamento humano. (...) Eu estou convencido  que a verdadeira impressão artística exige, fundamentalmente, a noção  científica do caso que a desperta- e que, nesse caso, a cometida intervenção  de  uma tecnografia própria se impõe obrigatoriamente e é justo, desde que se não exagere a ponto de dar um aspecto de compêndio ao livro que se escreve, mesmo porque em tal caso a feição sintética desapareceria e com ela a obra de arte.

É, portanto, a partir da publicação de “Os Sertões” que começou a ser consolidada a imagem  de Euclides como grande escritor de literatura enriquecida pelo conhecimento científico, que  chegaria ainda com bastante força aos nossos dias. Depois do grande sucesso de críticas e de  vendas de “Os Sertões”   - em menos de um ano o livro já estava na terceira edição, o  escritor passou a ocupar importantes cargos nos meios acadêmicos da época, como os de  membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Brasileira de Letras. 

Para esta última, o escritor recebeu votos de acadêmicos como o Barão do Rio Branco e Machado de Assis, então presidente da instituição. O discurso de posse do escritor na ABL é  também um indício de que essa memória do escritor recebeu contribuições dele mesmo, que fazia questão de não se definir como apenas um literato. Na ocasião, diria Euclides: 

Escritor por acidente- eu habituei-me a andar terra a terra, abreviando o  espírito à contemplação dos fatos de ordem física adstritos às leis mais  simples e gerais; (...) vai-se-me tornando mais e mais difícil esse abranger  os caracteres preexcelentes das cousas, buscando-lhes as relações mais  altas e formadoras das impressões artísticas, ou das sínteses estéticas.

E mais adiante:
  
(...) me desviei, sobremodo, dessa literatura de ficções, onde desde cedo se exercita e revigora o nosso subjetivismo.

O autor, nesse mesmo discurso, também fez questão de frisar que, como homem de ciência, sentia dificuldades de ingressar numa casa de homens de letras. A referência a uma postura  científica, tanto por parte do próprio autor como por alguns de seus críticos foi, portanto, recorrente desde a publicação de seu primeiro livro. No entanto, ao longo do tempo, essa postura, chamada na época apenas de científica, foi se convertendo, na crítica do autor, em  postura positivista. 

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Fonte:
Natalia Peixoto Bravo de Souza: “A militância em torno da glorificação de Euclides da Cunha: um projeto  político-ideológico”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em História Social do Departamento de História da  Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para a obtenção do título de Mestre em História. Orientador: Profa. Dra. Maria Amélia Mascarenhas Dantes). São Paulo, 2010.

Fragmentos e pequenos textos de Euclides da Cunha

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A intertextualidade dos textos euclidianos

Acredito ser necessário fazer uma breve incursão aos chamados estudos literários para falar sobre intertextualidade, pois é esse campo que tradicionalmente (em um momento inclusive anterior à emergência dos estudos culturais) tem se ocupado com os modos de tecer uma leitura armada (interessada e consciente dos seus propósitos) dos textos tidos como “literários”. Meu interesse é, exatamente, deter-me, um pouco, nas discussões que se processam nesse campo no que diz respeito ao seu cruzamento com outros campos discursivos (da história, da antropologia, da sociologia, da comunicação, da educação). Isso se torna importante, pois o conceito de intertextualidade remete, também, à noção de interdiscursividade; ou seja, não apenas ao cruzamento de vários textos em um único, mas de vários discursos que, mesmo sendo provenientes de diferentes instâncias de produção cultural, permeiam e constituem diferentes textos (sejam esses literários, televisivos, sociológicos, antropológicos, fotográficos, biológicos, entre outros). Porém, não me ocupo, aqui, com a captura de todas as discussões apresentadas pelos estudos literários, no que diz respeito à sua própria reflexão interna, enquanto campo discursivo permeado por outros discursos e, ao mesmo tempo, caracterizado por certas singularidades. Não faço esse mergulho de forma sistemática por dois motivos centrais, que passo agora a apresentar, embora tenha transitado pelos estudos literários que focam suas análises na obra de Euclides da Cunha, sobretudo naqueles que versam sobre seus escritos sobre a Amazônia.

Primeiramente, gostaria de marcar, de explicitar e de dizer enfaticamente que não faço um estudo literário. Talvez, até nem fosse preciso dizer isso de forma tão incisiva, em razão dos meus interesses de pesquisa não serem sobre a estética literária. Minha formação acadêmica (um pesquisador em educação com formação em ciências biológicas) e minha atuação profissional (um docente universitário formador de educadores) me remetem a questões e problemas de pesquisa não centradas na literariedade dos textos a serem analisados, mas a questões de pesquisa de outra ordem. Desenvolvo, sim, uma análise cultural centrada em um problema específico (os processos envolvidos na nacionalização da floresta amazônica) e estou interessado em ver, nos textos que pesquiso, questões que possa relacionar à educação ambiental (mas especificamente às análises construcionistas da natureza). Dessa forma, meus interesses de pesquisa e meus olhares para os artefatos culturais que selecionei, especialmente os textos de Euclides da Cunha, têm as marcas dessa minha trajetória.

Em segundo lugar, como será visto adiante, a literariedade dos textos euclidianos analisados na pesquisa que desenvolvo é de difícil definição, pois esses são vários e de gêneros muito diferentes (são cartas, relatórios, notas, ensaios, diários, atas, ofícios). Destaco, então, que os aspectos relativos à estética literária são, inclusive, de importância menor no meu estudo e que não foi, também, o estatuto ou valor literário dos textos que me ocupou no desenvolvimento da pesquisa. Esclareço, ainda, que as escolhas dos textos para análise decorrem, especialmente, do quanto esses materiais pareceram poder colaborar para o adensamento argumentativo e analítico do meu problema de pesquisa, que, destaco novamente, é a nacionalização da floresta amazônica no início do século XX nos textos euclidianos, sobretudo nos relativos à sua viagem à floresta. Para discuti-lo, interessou-me examinar a produção escrita advinda da viagem de Euclides da Cunha à Amazônia em 1905 e, inclusive, o “Diário” de viagem tecido pela tripulação que acompanhou o escritor. Além disso, considerei pertinente ao meu estudo, deter-me, também, em outros documentos como, por exemplo, as “instruções” oficiais formuladas para orientar a viagem de Euclides da Cunha pela Amazônia (escrita pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil), os textos decorrentes de outras viagens realizadas pelo interior do Brasil e da América Latina (como as conferências proferidas pelo Marechal Rondon relatando suas viagens pelo interior do Brasil para a implantação do telégrafo e os ensaios de viagem que o naturalista alemão Alexander von Humboldt escriturou sobre o chamado Novo Mundo, no início do século XIX), e, ainda, nos relatórios oficiais elaborados pelo Ministério das Relações Exteriores sobre a Amazônia no início da Primeira República brasileira.

Entretanto, devo ressaltar, desde já, que foram privilegiados neste estudo os textos decorrentes da viagem de Euclides da Cunha à Amazônia (ainda neste capítulo falarei mais detidamente sobre o material empírico da pesquisa).

Retomando as considerações a respeito dos estudos literários, gostaria de salientar que, conforme argumenta Walter Moser (1998), uma diferença entre os estudos culturais e os estudos literários diz respeito ao corpus textual da pesquisa, ou seja, os primeiros se apóiam em séries “heteróclitas não provenientes de coleções de textos institucionalmente constituídos e socialmente legitimados” (p.71). Em outras palavras, não é o aspecto canônico dos textos selecionados à pesquisa que importa para um trabalho de tese situado no campo dos estudos culturais, pois o privilégio dado a uma suposta “alta” cultura (como a literatura tem sido reconhecida) sobre uma também suposta “baixa” cultura (como as telenovelas, por exemplo, têm sido marcadas) é colocado sob uma forte suspeita nestes estudos (NELSON; TREICHLER e GROSSBERG, 1995). Neste sentido, minha pesquisa conecta e destaca como importantes os relatórios, as cartas, as notas, as atas, os diários – ou seja, documentos algumas vezes considerados como apresentando pouca importância literária quando comparados, sobretudo, ao livro escrito por Euclides da Cunha sobre a saga de Canudos. Porém, devo reconhecer que o fato de todos estes textos terem sido produzidos por Euclides da Cunha confere, por si só, legitimidade e importância aos mesmos, pois se trata de um autor canonizado na literatura brasileira e até, ouso dizer, latino-americana ou, quem sabe, mundial.

Mas não foi o cânone, insisto novamente, que me interessou, ou que me orientou na seleção dos textos de análise, como se fosse importante, para mim, apenas, as grandes obras, os ensaios de renomado prestígio literário. Meu mergulho nos estudos culturais já havia me permitido relativizar tal aspecto.

A escolha dos textos decorrentes da viagem de Euclides da Cunha à Amazônia, para minha pesquisa, diz respeito, sim, embora possa parecer paradoxal, à força constitutiva dos mesmos, ou seja, ao poder que a eles se pode destinar na instituição de um modo de ver, ler e narrar a Amazônia no início do século XX. É, exatamente, a consagração literária de Euclides da Cunha que confere tal força a suas diferentes produções (mesmo as tidas como de menor fôlego literário). Dessa forma, destaco que a construção discursiva da Amazônia se dá a partir de relações assimétricas de poder, pois a floresta foi inscrita discursivamente no mundo a partir de determinados textos, que lhe imprimem significações sempre parciais e provisórias, sendo alguns tidos como mais legítimos e importantes (como merecedores de serem lidos, como influentes em uma determinada época), mesmo que se possa afirmar estarem alguns deles embebidos de hibridação (como parece ter sido o caso dos textos euclidianos).

Continuando a apresentar algumas questões relativas ao campo dos estudos literários, quero salientar que há uma vertente que insiste na “intransitividade do texto” (MOSER, 1998, p.68). Nessa direção de pesquisa, o texto é tratado como um objeto absoluto e auto-referente. Ligia Chiappini (2000) também destaca que houve nos estudos literários um “largo período formalista, em que as relações dos textos com seus contextos foram postas entre parênteses, por uma atenção restrita à forma, entendida como estática e autônoma” (p.19). A autora chama a atenção para o crescente interesse dos estudos literários pelo “entrelaçamento das obras literárias com outros discursos” (p.19). Nessa direção, salienta-se a intertextualidade e a interdiscursividade dos mesmos. Como diz Moser (1998), outras tendências nesse campo têm acentuado a “transitividade do texto”, seu estatuto como documento histórico e suas relações com as estruturas sociais.

Chiappini (2000) destaca algumas questões relativas, por exemplo, ao cruzamento da literatura com a história. A autora diferencia as duas formas de análise, argumentando, portanto, que não se deva perder a singularidade de tais estudos, marcando, inclusive, que o ponto central de um estudo de literatura é o valor estético das obras literárias. A pesquisadora tece críticas às leituras instrumentais, conteudistas, utilitaristas e ideológicas que, segundo ela, empobreceriam o texto literário. Nesta direção crítica, a autora pergunta: “numa época em que reina o utilitarismo, não seria útil defender um espaço para o aparentemente inútil? E, portanto, defender a gratuidade da arte e o seu poder de resistência à domesticação ideológica...” (p.23)? Chiappini (2000) argumenta que os estudos literários, buscando exatamente ultrapassar ao mesmo tempo a gratuidade e a autonomia absoluta, concebem a “literatura enquanto constituída pela história e produtora de história”. Assim, o encontro entre a literatura e a história seria imanente à própria produção do artefato literário, pois este não se constitui sem historicidade. Como nos lembra a pesquisadora, ao invés de querer localizar na história as obras literárias ou encontrar nelas fagulhas de “fatos” históricos, torna-se mais importante:

(...) buscar o modo de compreender a produção dessa mesma historicidade, sem esquecer a historicidade da leitura ela própria e tentando articular o passado e o presente, para evitar seja o anacronismo da projeção de um sobre o outro seja na ilusão de apanhar inteiramente o passado, visitá-lo, revivê-lo, senão enquanto metáfora (CHIAPPINI, 2000, p.26).

Posso dizer que concordo em parte com as argumentações da autora, pois em minha pesquisa não tive a intenção de demarcar, claramente, os limites e as fronteiras entre os campos da história e da literatura. Pelo contrário, estive interessado em colocá-los em articulação. Mesclá-los não apenas entre eles (ou entre suas subáreas tais como a literatura de viagem e a história ambiental), mas com outros campos como os da educação ambiental, da geografia, da sociologia. Promovi, assim, as articulações disciplinares que pensei serem produtivas para as questões que me propus discutir na tese. Além disso, borrar as fronteiras, atravessar diferentes campos de saberes, relativizar as presumidas “purezas” disciplinares (essas são, inclusive, estratégias analíticas assumidas pelos estudos culturais), foi algo que deliberadamente busquei desempenhar neste trabalho. Ademais, longe de pretender conter o surgimento de supostos anacronismos e contradições (como se tivesse que resolvê-los ou, até mesmo, escondê-los) busquei, ao contrário, assumir em todos os momentos da tese o caráter instável e híbrido da escrita euclidiana sobre a Amazônia. Nesta direção, os aparentes anacronismos, as presumidas contradições e os latentes paradoxos que lia nos escritos amazônicos do autor mostravam-me a produtividade da noção de hibridação para a pesquisa.

Aquilo que se vislumbrava, inicialmente (nas leituras que fazia dos textos euclidianos no início da tese), como paradoxal, foi-se, paulatinamente, configurando, a meu ver, como efeito da articulação promovida entre diferentes discursos. Em outras palavras, passei a argumentar e a defender a idéia de que a floresta emergida das páginas tecidas por Euclides da Cunha fora instituída em processos de hibridação (veremos melhor, e detidamente, esse aspecto no próximo capítulo).

Voltando às questões relativas às relações entre os estudos literários e os estudos históricos, posso pensar que os textos de Euclides da Cunha sobre a Amazônia não são, simplesmente, produzidos por efeito de um determinado contexto histórico da sua época, mas que eles igualmente instituem, produzem, certa historicidade. Como veremos no quarto capítulo da tese, esta historicidade construída através do texto euclidiano conecta-se fortemente, por exemplo, com toda a literatura científica de viagem do século XIX, relativamente às formas de ver, ler e narrar a floresta e os seres humanos que lá vivem; ou seja, Euclides da Cunha rompe deliberadamente com essa literatura ao inscrever a Amazônia nas linhas que foi tecendo, escriturando, em seu caderno de viagem. Articulando seus textos sobre a floresta com a literatura científica de viagem que, como veremos no próximo capítulo precisa ser apagada, desconstruída, passada a limpo, Euclides os dota de uma historicidade descontínua. Assim, esses textos talvez possam ser vistos como inaugurais, no que tange à produção de um “nova” discursividade sobre a Amazônia. Enfim, penso que é a ruptura e não a continuidade que marca a historicidade dos textos sobre a Amazônia escritos por Euclides da Cunha.

Até aqui, procurei argumentar que os textos euclidianos sobre a Amazônia são vários e diferentes; que tais artefatos apresentam não simplesmente uma relação contextual com a história, mas que produzem, eles mesmos, uma forma de ver a história, uma certa descontinuidade histórica que não se pode descolar facilmente do texto, estando, portanto, ligada de forma imanente a ele. Busquei argumentar, também, que buscar um valor estético definidor da qualidade literária dos textos não é uma intenção dessa pesquisa, mas, que, paradoxalmente, talvez, é exatamente a legitimidade conferida a Euclides da Cunha que me interessa, pois seus textos acabam adquirindo uma maior força constitutiva de significações sobre a Amazônia do que aqueles escritos por sujeitos não tidos como “literatos” à época.

Além disso, ouso dizer que os escritos sobre a Amazônia de Euclides da Cunha permitem construir uma cadeia nova de analogias a respeito da floresta. Tais considerações também me levam novamente a marcar que além de vários, diferentes e importantes produtores de uma historicidade descontínua, os textos euclidianos sobre a Amazônia são atravessados por muitos outros textos, ou seja, como já indiquei anteriormente, eles possuem um caráter intertextual.

Marise Amaral (2003) chama a atenção para a “fascinante intertextualidade” que a viagem enquanto texto nos apresenta (p.142). A autora argumenta que lhe interessou discutir em seu estudo “os relatos dos viajantes como complexas produções culturais”, ou seja, como artefatos culturais “que se cruzam, que se interpenetram, múltiplos textos, várias narrativas, muitas histórias” (p.141). Sem dúvida, parece ser o texto de viagem que traduz de forma mais latente e explícita seu aspecto intertextual. Porém, quem sabe, possa-se dizer que qualquer texto contempla já em suas linhas muitos outros. E o caráter intertextual dos artefatos literários que lemos diz respeito não apenas àquilo que está escrito, ao seu conteúdo, mas, também, e de forma complexa, às leituras que são tecidas sobre os mesmos, leituras armadas (tecidas sob o crivo consciente de uma ou mais teorias) ou desarmadas (desinteressadas ou ingênuas). Em outras palavras, nas leituras que se fazem dos textos também se interpenetram múltiplos outros. Como nos diz Enzensberger (1995):

Se dez pessoas lêem um texto literário, o resultado será dez leituras diferentes. Todos sabem disso. Inúmeros fatores, completamente incontroláveis, influenciam a leitura: a história social e psicológica do leitor, suas expectativas e interesses, seu estado de espírito no momento, a situação na qual está lendo - fatores que não apenas são absolutamente válidos e que por isso deveriam ser levados a sério, mas que simplesmente representam as condições que permitem que algo como a leitura ocorra. Conseqüentemente, o resultado não é determinado pelo texto e não é determinável. Nesse sentido, o leitor sempre tem razão e ninguém pode lhe tomar a liberdade de usar o texto do modo que lhe for mais convincente (...). A leitura é um ato de anarquia. A interpretação, principalmente a única correta, existe para frustrar esse ato (p.16-17).

Nesta direção de entendimento sobre a leitura, posso dizer que a intertextualidade atravessa os textos em mão dupla, ou seja, na sua própria produção (sempre uma bricolagem singular e, talvez, nova, de muitos outros textos) e, ainda, nas leituras que lhe são feitas. Jonathan Culler (1999) também salienta que teóricos recentes têm argumentado que as obras literárias se tornam possíveis pelas anteriores, as quais elas “retomam, repetem, contestam, transformam” (p.40). Este autor lembra, ainda, algo que considero muito importante: a intertextualidade pode também ser observada em outros lugares e não, apenas, na literatura. Nessa direção, lembrar que os textos literários analisados nessa pesquisa apresentam uma intertextualidade é fundamental para não lê-los como inaugurando ou encerrando em si mesmos as significações, por exemplo, sobre a floresta amazônica.


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Fonte:
Leandro Belinaso Guimarães: “Um olhar nacional sobre a Amazônia: apreendendo a floresta em textos de Euclides da Cunha”. (Tese apresentada como requisito parcial para a obtenção do grau de Doutor, pelo Programa de Pós-Graduação em Educação, da Faculdade de Educação, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Orientadora: Profa . Dra. Maria Lúcia Castagna Wortmann). Porto Alegre, 2006

Diário de uma Expedição, de Euclides da Cunha

 Euclides da Cunha - Diario de uma Expedicao - Iba Mendes
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Euclides, homem letra

Ao embrenhar-se na caatinga, Euclides da Cunha, embebido de idéias,  conhecimento e conceitos abstratos ia  ao contato da terra, adquiria alma nova e tudo descrevia com ênfase, vendo com  exagerado entusiasmo os humildes burgos do interior baiano (...) Súbito, à vista de um velha casa, uma vivenda histórica, abandona por um instante a paisagem, deixa o  espaço, voltando-se para o tempo.

E que vivência única essa ruptura entre espaço e tempo, tão própria à literatura.  Cisão que é representada tanto pela multiplicação dos eus na escrita, uma vez que o   narrador, Euclides “se desdobra em personagem – sujeito do enunciado”. Está em  dois ou mais tempos ao mesmo tempo: na escrita automática da caderneta de campo; só, no momento de reflexão e lembrança; no que é narrado efetivamente em Os sertões. Ao  narrar-se junto à descrição, insere-se num mundo de vários tempos, ou num mundo em  que “o conceito de tempo, a sensação de que o tempo passa, supõe um movimento  incessante de recomeço, de reiteração”, tal qual em algumas culturas ditas arcaicas.

É essa cisão de eus que permite, ao texto literário, “tirar partido do fato de os  dois ‘eus’ não serem necessariamente coincidentes. Pressupõe mesmo que há uma  grande distância entre eles”. O processo da escrita realizada pela experiência literária  se constitui num debate entre vários eus, local por excelência em que as mudanças de  opinião, nem que minimamente, ocorrem.
Daí, como veremos posteriormente, que essa experiência resulte em escritura,  não somente na acepção de palavra escrita, mas principalmente naquela que estabelece  elos, linhagens, tradições enfim. Referência para textos passados e futuros. Atemporal e  que se constituem quando “o centro não é o centro”, conceito “contraditoriamente  coerente. E como sempre, a coerência na contradição exprime a força de um desejo”.

E, como sabemos, o desejo faz o sujeito. A escritura literária, como sujeito, atua no  mundo; deixa brechas à interpretação, estimula a criação.

Assim, o centro torna-se movimento contínuo e “disforme”, visto a diferença de  interpretações de diferentes sujeitos. Não só do sujeito multifacetado da escrita, nos  quais a “qualidade e a fecundidade de um discurso medem-se talvez pelo rigor crítico  com que é pensada essa relação com a história da Metafísica e aos conceitos herdados Trata-se aí de uma relação crítica à linguagem das ciências humanas e de uma  responsabilidade crítica do discurso”. Já citamos partes em que Euclides adota o  discurso de velhos mestres e, noutras, que os olha com um olhar crítico, tornando-os  relativos, descentrando-os. Relatividade legada à escritura, quando o deslocamento  etnocêntrico se dá literariamente, nos sujeitos múltiplos e distintos que se encontram na  experiência literária.

Conceito fragmentário, bem ao gosto de Benjamin, a experiência literária,  proposta pelo filósofo francês Maurice Blanchot, pode ajudar-nos a localizar um  silêncio fértil, em contraposição à “pobreza da experiência”. Uma fertilidade advinda não só do fato de que o calar é uma maneira de nos expressarmos, mas, principalmente,  da proposição de que preencher o silêncio é “a condição, a intenção e a virtude da  palavra”. A literatura alçada, se não à posição de último refúgio da experiência  humana, ao menos à condição de guardiã de sua riqueza.

E se duas experiências concretas e similares, a vivência da guerra de trincheiras  – clássica no início da 1ª Guerra Mundial e um tanto quanto “adaptada” no cerco  estabelecido durante a 4ª expedição do exército brasileiro contra Canudos –, ocasiona  silêncios tão distintos, certamente a diferença entre eles não está nas condições materiais, no vivido, mas na forma como esse vivido afeta o sujeito. Há, portanto, nesse  jogo de afetos que constitui a experiência literária, uma subversão da divisão entre  dentro e fora, sujeito e mundo, a qual acaba por abalar qualquer certeza constituída, uma vez que quem escreve já não é mais um, e o que se escreve também já não é mais, já era  e virá a ser.

O Euclides da Cunha surgido na escrita d’Os sertões desencadeou uma profusão  de discursos, não só sobre o tema de Canudos, como também sobre a própria condição  do homem sertanejo. Ao cunhar nesse livro o conceito de sertão, demonstrava o imenso  hiato entre os valores e princípios que a recém criada República Brasileira prometia e o  que se fazia no projeto modernizante brasileiro; uma “modernização sem modernidade,  sem a incorporação dos valores de um destino comum a ser compartilhado na arena  pública”.

Em Canudos, a arena era outra, da natureza – “elipse majestosa de  montanhas”, “ficção geográfica” na qual a “separação social completa (...) criava a  sensação nostálgica de longo afastamento da pátria”; povoado incômodo “reduzido a  grande praça deserta, sempre”. Para se afirmar como novo sistema político, essa  república não incorporava os párias – homens expatriados, não reconhecidos como  cidadãos em sua própria pátria. Ora deixava-os abandonados numa situação em que a  esperança é provisória e sobrenatural; ora promovia a barbárie para corrigir os supostos  desvios de conduta provenientes dessa situação. Contudo, não previa que a modernidade  literária – e a conseqüente incorporação heróica dos párias – já se mostrava nos textos  de um meio Positivista, afeito ao naturalismo, como o era Euclides; nem mesmo que os  crimes perpetrados por políticos e generais não sairiam impunes, perdidos na  “caducidade das coisas humanas”.

O que Euclides não sabia era que, ao embarcar, no Rio de Janeiro, em um navio  de nome Espírito Santo, rumo à Bahia, de fato, começava a adentrar os instáveis  caminhos da escritura – “toda arte nascida de uma experiência e ligada a ela (...) é sem  fim, sem repouso, termina contestando-se”.


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Fonte:
César Gonçalves de Oliveira: “Quant’Os sertões: Escritura e experiência literária em Os sertões, de Euclides da Cunha”. (Dissertação de Mestrado, orientada  pelo Professor Doutor Marcus Vinicius  de Freitas, apresentada ao Programa de  Pós-Graduação em Estudos Literários  (Pós-Lit) da Faculdade de Letras da  UFMG.  Orientador: Professor Doutor Marcus Vinicius de Freitas). Belo Horizonte, 2011.

08/01/2014

Contrastes e Confrontos, de Euclides da Cunha

 Euclides da Cunha - Contrastes e Confrontos - Iba Mendes
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06/01/2014

Canudos e Outros Temas, de Euclides da Cunha

 Euclides da Cunha- Canudos e Outros Temas - Iba Mendes
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A nova barbárie

Um dos eventos históricos que, certamente, marcaram tanto a história  nacional quanto a literatura e as artes em geral, no Brasil, foi o episódio conhecido  como Guerra de Canudos. Vários foram os leitores desse episódio – escritores  reconhecidamente do cânone; outros de renome em sua época; alguns através de  simples testemunho; outros, por pura ficção.

Há, no entanto, certa leitura que, a partir do evento histórico, pode ser  considerada como fundadora de uma tradição. Partindo do conflito ocorrido em  Canudos, Os sertões, de Euclides da Cunha, elaborou uma narrativa enciclopédica  do evento – com vistas a nomear e explicar as inúmeras variáveis existentes no  conflito: das geológicas às históricas, das políticas às factuais, das táticas às  sociais.

Talvez por isso, podemos atentar, principalmente, para o que podemos  chamar de “caráter aberto” de Os sertões – construído como uma espécie de  mosaico de saberes, “texto nascido de outros textos”,  acabou por criar uma  tradição que pensa, artística e intelectualmente, o Brasil. Nessa tradição, podemos  observar nomes como os de Gilberto Freyre, e seu ideal de miscigenação; Sérgio  Buarque de Holanda, e o olhar crítico ao liberalismo brasileiro; Guimarães Rosa, e a  gênese estética do “olhar voltado para o continente”; ou mesmo Glauber Rocha,  Graciliano Ramos e outros que ajudaram a formatar a chamada estética da seca.

Contudo, o livro de Euclides da Cunha não surgiu após um hiato de cinco anos  – aqueles transcorridos entre a destruição do arraial de Canudos e o lançamento de  Os sertões. Vários foram os livros que, lançados nem bem havia esfriado as cinzas  do arraial, de alguma forma influenciaram Euclides. Neste artigo, objetivo  perseguir, ao menos parcialmente, dois textos que, para além das experiências  vividas por Euclides – a factual e a literária –, contribuíram para o surgimento de  Os sertões, livro que, como já profetizara Machado de Assis,  eternizou o caráter  simbólico do episódio de Canudos – talvez dos maiores crimes, pecados e  monstruosidades já inscritos em nossa literatura.

Assim como o fato é fugaz, o símbolo é mordaz. À literatura, guardiã de  experiências, seria dada, mais uma vez, o papel de tentar constituir-se como limite  da nova barbárie – aquela apontada por Walter Benjamin em “Experiência e  pobreza” –, barbárie advinda do silêncio frente ao horror e à violência “em escala  industrial” que as modernas máquinas de guerra passaram a permitir, sobretudo na  I Guerra Mundial. Em Canudos, tal violência já fazia um ensaio regional.


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Fonte:
César Gonçalves de Oliveira (UFMG): “Estilhaços literários da Guerra de Canudos”, publicado em http://www.letras.ufmg.br

05/01/2014

À Margem da História, de Euclides da Cunha

 Euclides da Cunha- A Margem da História - Iba Mendes
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À Margem da História, de Euclides da Cunha

Quando “À Margem da História do Brasil” foi publicado em 1933, Vicente Licínio Cardoso já estava morto há dois anos. Organizado por amigos, este livro póstumo foi constituído por uma série de artigos e conferências, seguindo o estilo das outras publicações do autor lançadas entre os anos de 1924 e 1928. Vicente Licínio foi um ensaísta que optou por escrever breves estudos e artigos de opinião em detrimento de longos textos.

O livro se divide em seis grandes ensaios, intitulados, pela ordem: “Rio São Francisco Rio sem História”, “O Rio São Francisco Base Física da Unidade do Império”, “À Margem do Domínio Espanhol do Brasil”, “Diogo Antônio Feijó, Um Fantasma do Segundo Império”, “À Margem do Segundo Reinado” e “Euclides da Cunha”, este último dividido em três seções. Os textos foram produzidos em 1925, com exceção do primeiro, de 1923, e do quarto, escrito em 1926. Boa parte da produção literária e ensaística do autor foi feita nesse período, e em apenas dois anos (1924 e 1925) foram editados quatro livros de Vicente Licínio Cardoso!

Rio São Francisco, Segundo Reinado, Feijó, União Ibérica e Euclides. O que se pode depreender dessa diversidade temática? Não se trata de algo singular no pensamento brasileiro, pois outros intelectuais também se dedicavam tanto a temas históricos gerais, como a perfis de grandes vultos brasileiros. Note-se, aliás, a presença de objetos já clássicos na imaginação ilustrada do país, como o rio São Francisco, tema consagrado em análises anteriores de Capistrano de Abreu e João Ribeiro. Essa inscrição no coração da tradição intelectual nacional também se verifica no uso da expressão “à margem de” para introduzir um conjunto de comentários gerais sobre a marcha histórica da civilização brasileira em determinado contexto histórico. Como se sabe, Euclides da Cunha – não por acaso, ele próprio objeto do livro – consagrou a expressão no seu texto “À Margem da História” (Cunha, 1909), parafraseado na coletânea organizada por Vicente Licínio em 1924, “À Margem da História da República” (Cardoso, 1924).

Mas o que pode significar estar à margem? Em primeiro lugar, a expressão indica a posição do intérprete como um comentador que se vale de sua inscrição temporal para refletir sobre eventos passados. Assim como anotamos nas margens de textos, esses intelectuais se voltavam para o passado e produziam seus comentários e suas reflexões sobre o sentido da trajetória brasileira. Além disso, expressavam suas próprias biografias como intelectuais numa sociedade periférica e desigual, na qual se situavam de forma desconfortável.

[..]

Os Sertões, de Euclides da Cunha

 Os Sertões de Euclides da Cunha
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Os sertões: Fato e Fábula


Em continuidade, tomam-se as ideias elaboradas em Fato e Fábula (1999), de Lourival Holanda. Não é a intenção dissecar todo o texto no qual se vê o senso aguçado para a crítica que expressa seu autor. Trata-se na verdade de selecionar alguns pontos postulados e que se fizeram importantes para que fique melhor delineado o debate sobre a reescritura como ressignificação, além de promover a formação que aqui se desenha da concepção do gênero da obra euclidiana.

Pode-se dizer que o eixo da crítica elaborada por Lourival Holanda sustenta a ideia de que antes como palavras destinadas a meras anotações para um diário de guerra, o desejo da escrita, conjugado ao distanciamento dos fatos históricos, transfigura o real para o domínio da fabulação. Existiu o fato no registro de testemunho, mas é pelo movimento de criação literária, trabalho incessante com a linguagem, que o que se passou diante dos olhos do jornalista assumirá diverso significado: a reviravolta que o narrador constrói, depois de ver fracassadas as esperanças do novo governo, só encontra espaço para sua inscrição nas páginas do livro porque agora é concebida pela via fabulística. O autor postula que a fábula permite a ficção do fato, e este foi o meio possível para arrefecer a complexidade do real. O que são considerados como fantástico, imaginoso, fantasmal, sobrenatural a partir da totalidade discursiva de Os sertões entram em cena para dar conta de acontecimentos diante dos quais a linguagem objetiva e realista se mostrou insuficiente para fazêl-lo Aliada a tudo isso está a combinação de formas históricas, psíquicas e literárias, “variante da poética della maraviglia, de rasgo tão tipicamente barroco” (1999, p. 15).

É com bastante rigor crítico discutido que o que era antes “inteireza ideológica” Desconstruiu-se com o investimento lingüístico e com arranjo de imagens, caros ao modo literário de se apresentar discursivamente. Todo leitor é capaz de apontar no ato de leitura elementos recorrentes da aliteração, de construções verbais equiparadas a inteiros conceitos ─ como exemplifica o crítico a partir do trecho “a caça caçava o caçador”─, de anamorfose, quando a cena ou o objeto que se coloca à sua frente expõe sua imagem distorcida, tornando-se compreendida apenas se vista de outro ângulo. Aspectos estes capazes de conduzir à constatação de que o texto habita indubitavelmente a dimensão do literário. No entanto, deve-se ater diante da questão da não separação no estudo de Lourival Holanda entre a literatura e a ficção.

Ainda se vê como prática entre os trabalhos críticos atuais a indistinção entre história e ficção fomentada pelas belasletras por estas ainda serem coordenadas pelos direcionamentos da retórica desde o Renascimento até o éculo XVIII. O que Luiz Costa Lima discute em História.Ficção.Literatura é que o termo literatura alastra-se por cima dos gêneros ficcionais, “sem se conceber que a história neles caiba ─ o que implica simplesmente reativar a distinção feita pelos antigos romanos entre res ficta e res facta” (2006, p. 382). Isto não faz com que sejam excluídos do seu domínio textos não ficcionais, como as autobiografias e as crônicas. Mas é imprescindível o esclarecimento de que a literatura torna-se desobrigada de associação, principalmente, a três vias: a primeira configurada na atualização do imaginário, a segunda seria o cuidado com a linguagem e, por fim, o reconhecimento do ficcional (LIMA, 2006). O ponto frágil em Fato e Fábula está em limitar os aspectos analisados, fazendo com que restritamente apareçam as figuras e os recursos recorrentes em textos literários e ficcionais, como ironia, vazios súbitos executados em seguida aos cortes narrativos, entre outros já citados no parágrafo anterior. Sua análise prioriza majoritariamente os aspectos formais do discurso de Os sertões, simplificando uma questão que estava muito mais próxima da complexidade, porque envolvida por um panorama social e político regido pela crença no progresso por meio da ciência. É importante estar como ponto basilar das discussões acerca do livro de Euclides da Cunha o fato de que a legitimidade do discurso se fazia por razão de estar conformada com a doutrina científica. Os sertões se constituíram como símbolo, vale dizer, muito bem aceito pela comunidade de sentido formada no início do século XX, porque condizia moral e eticamente com a superioridade científica, mais até do que com o regime republicano, uma vez que a política estaria definida como parte dentro do processo coordenado pelas leis da evolução: a forma republicana era vista como naturalmente superior à monarquia.

Como já mencionado acima, o que foi antes registrado como acontecimento da realidade da batalha de Canudos, transcorrido seu tempo, se instaura agora como ficção por se guardar já longe do caráter imediato do desenvolvimento factual passado diante dos olhos de um correspondente de guerra. É certo que não se deve esquecer que o discurso registrado como mnemônico dispõe da pulsão criativa de seu autor, no entanto, tal pulsão em nada implica a caracterização do texto produzido como ficção.

A todo tempo no decorrer do estudo sobre Fato e Fábula percebe-e a referência aos termos “ficção” e “imaginário”. Tais referências se encontram apenas indiretamente discutidas. Indiretamente porque não há discussão dos conceitos possivelmente por inferir a compreensão, suscitando pontos de desacordo teórico em comparação ao que aqui será postulado.

As ideias a serem desenvolvidas ao longo do trabalho, estando em foco a reescritura como ressignificação, estão convencionadas com a distinção que Wolfgang Iser (2002) executa entre realidade, ficção e imaginário. Esta relação ternária isenta o leitor da admissão do “saber tácito” destinado ao reducionismo da evidência de que realidade é aquilo que não é ficção e viceversa. Ao invés, cabe primeiramente conceber que o discurso ficcional comporta sim realidade, como já dito antes. As realidades inseridas nos textos de ficção não se reproduzem igualmente ao seu funcionamento na vida. Transpostas aos textos são dasautomatizadas, deslocadas do estado de referência direta com o mundo, localizadas em seguida no imaginário da obra. Os atos de fingir de um texto ficcional, com seus processos de seleção de elementos do real, de combinação desses elementos e do desnudamento da ficção, implicam na fixação de um objetivo e isto faz com que o imaginário, por ter que abarcar agora as intenções do texto, se coloque como diverso das formas a que está sujeito dentro da experiência vivencial do indivíduo, em idealizações, projeção de ações, ou medo de uma dimensão fantasmal. Sendo própria do domínio do imaginário sua caracterização como algo amorfo e indefinível, posterior à transgressão de limites no ato de fingir, ele se desgarra de sua posição incapaz de ser nítido, para receber seu predicado de realidade e daí, obviamente, realizar-se. Tem-se agora a irrealização do real e a realização do imaginário.

Lourival Holanda aponta em Os sertões a recorrência de elaboração narrativa, concernente a determinados acontecimentos, carregada da eloqüência da língua de que fazia uso Euclides da Cunha. Em muitas dessas passagens o narrador carrega nos efeitos das palavras o que vai descrever sobre a atuação do jagunço no combate:

[...] à beira do fosso terrível e atirando, atirando, atirando sempre, despiedado, terrível, demoníaco, num duelo de morte contra mil homens!

No tangente a este trecho específico, o crítico explica:

Temor e atração do demoníaco: a profusão, o efeito de multiplicação e complexidade do real. Demoníaco é, nessa configuração, aquilo de que não se tem domínio, sob um nome ou um conceito. Daí porque Lope de Vega ou Barleus vão ver como demoníaco ou/e anômico o espaço novo da América. Aqui o fascínio pela alteridade vem no registro da estranheza.
O imprevisível alça o real à dimensão de ficção ─ porque escapa ao comum da convenção. Aos jagunços a queda final de Canudos “aparecialhes aos olhos como se fora uma ficção estupenda” (HOLANDA, 1999, p. 29).

Vê-se que neste caso o imaginário em questão se mostra de outra forma: trata-se de uma construção que o sujeito executa comumente quando diante de um fenômeno diverso daqueles vivenciados ou testemunhados normalmente. O narrador não consegue conter o espanto frente aos esforços surpreendentes que o jagunço pratica contra mil homens armados. É antes aqui o medo do inesperado, do que a preparação de seleção e combinação de elementos para que no ato de fingir façam com que o imaginário se realize.

É certo que o artifício de burilar a linguagem está em todo texto, no entanto se  mostra mais exposto exatamente nos trechos em que o arcabouço científico não se coloca como suficiente para que sejam descritas as cenas da batalha. Ou seja, como justificar pelas leis deterministas biológicas, raciológicas, que aquele povo bárbaro, distante da moderna vida social de avanços técnicos, resistia fortemente, legitimando sua grandiosidade bélica nas três primeiras expedições e estendendo a teimosia à rendição na quarta e última investida dos militares? O que Euclides opera para descrever o imprevisível aos seus olhos está vestido de construção retórica, mas que não toca na construção ficcional. O discurso anteriormente fechado e inteiro, munido também para ir ao encontro da batalha contra os “bárbaros” sertanejos, agora pelo distanciamento se encontra minado de lapsos, de certezas decaídas. Não só o imprevisível exige que os espaços vazios deixados pela ciência sejam preenchidos com belos arroubos de linguagem, como também o que se apresenta como desconhecido. É mencionado que o espaço da América, por fugir dos domínios conceituais europeus, por se formar como outra realidade diante de suas observações era encarado como demoníaco.  Por conta do signo da ficção ter sofrido o veto discursivo porque não obedecia aos parâmetros de verdade, passível de ser verificável, as crônicas de viagem se encontravam dentro de um campo social complexo. Como estava demasiadamente distante do leitor aquele mundo representado nos relatos, tornava-se-lhe impossível atestar como verídica ou não uma realidade totalmente diversa da sua representada por meio dos signos lingüísticos. No entanto, isto não faz com que sejam denominados de ficcionais os documentos de viagem. Como fundamentou Luiz Costa Lima em seu artigo “O Transtorno da Viagem”, o excesso de linguagem para a caracterização das coisas dispostas nessa inédita realidade esteve proposto como um meio de despertar no leitor o interesse e o convencimento necessários para que do discurso se fizesse a defesa de uma verdade. Afinal, as coisas descritas de fato existiam. Com a ressalva de que foram carregadas de adjetivações para significar o deslumbramento diante da alteridade (1992).

A problemática se prolonga. O espaço reservado à ficção

surge como uma instância crítica que não pretende propor uma verdade outra, mais densa e mais abrangente que a verdade que entretanto questiona [...] a crítica processada pelo ficcional atua [...]
ressaltando os pontos fracos e insuficientes da verdade constituída (LIMA, 1992, p.545).

Sendo Os sertões uma estrutura discursiva simbólica que encenou o desvelar do novo sistema de poder, como já dito anteriormente, sua diferenciação de um discurso ficcional se fixa exatamente em outra questão: a organização em que é posto seu discurso apóia-se numa vontade de verdade, sempre salvaguardada por um saber instituído. Vontade de verdade, que como coloca Foucault, relacionada “ao modo como o saber é aplicado em uma sociedade, como é valorizado, distribuído, repartido e de certo modo atribuído” (2006, p.17). Este saber era a ciência: cabia a esta área do conhecimento propagar a divisão de padrões sociais mediante as ações que obedeciam às teorias biológicas e de raça. Um texto propriamente de ficção escapa da prática de selar acordos com o poder estabelecido, principalmente se sua constituição estiver enredada na construção de um antidiscurso da ideologia. Mesmo pinçando aspectos que sinalizem a revisão inscrita no discurso euclidiano, estes ainda se viam envolvidos pela dimensão científica, reguladora da comprovação dos fatos. E assim foi caminhando a construção de um livro que passou a ser visto como obra fundante da identidade nacional.

Bom proveito se encontra em continuidade na observação da disposição de vazios figurativos em alguns capítulos da obra. A análise rodeia um dos últimos momentos da narrativa, o que toma por título “Canudos não se rendeu”, com atenção maior para o uso das reticências. Assim está em Os sertões:

Vimos como quem vinga uma montanha altíssima. No alto, a par de uma perspectiva maior, a vertigem...(1995, p. 513).

Em Fato e Fábula está a reflexão:

O dissenso euclidiano ─ suas frustrações com o rumo da república ─ se diz no encarecimento da catástrofe de Canudos [...] É pois possível que as figuras do vácuo, das reticências reenergizando a ordem do discurso, do hiato, do parêntese, operem uma exteriorização de um processo interno. A ser assim, o que foi interditado a nível discursivo, volta refigurado aqui (1999, p.77).

Não há negação de que verdadeiramente as reticências e o silêncio por elas provocado que fica agora ressonante no leitor diante das últimas páginas fazem parte da frustração pelo recebimento de uma “herança inesperada”, para falar da república, como desabafa o narrador. No entanto, a privação discursiva pela qual passou o narrador quando ainda correspondente de guerra, antes do afastamento do quadro a ser contemplado, não pode ser encarada quando livre, para sua mais alta expressão no seu direito de retorno narrativo, como refigurada no sentido do nível ficcional. A refiguração como signo da ficção seria abarcada pelo imaginário quando se realiza no fingimento. O imaginário em Os sertões não encontra realização porque não foi determinado a partir da reciprocidade entre sua dimensão, o real e aquilo que é fictício.

As reticências no texto atuam como instrumento retórico para a pontuação de um
discurso que agora abrigava a sensibilidade e o estigma, vistos também pelo alargamento da perspectiva que de tão vertiginosa convida o leitor ao fechamento do livro, no intuito de livrálo da imagem retardada do crime.

“A complexidade estrutural de ‘Os sertões’ metonimiza uma dada insatisfação com a realidade social” (HOLANDA, 1999, p. 86). Com efeito, esta questão central parece assinalar o núcleo de acordo da crítica de onde, seguidamente, partem as diversidades teóricas. Mas é certo que a análise da obra conserva este argumento desde as primeiras recepções do texto até as mais atuais reflexões sobre sua estrutura narrativa. No entanto, não será endossado aqui o ponto em que se vê que a descrição da realidade factual com tratamento polido de linguagem demude para o ficcional na representação desviada da corrente discursiva oficial, quando em outro nível é a própria obra de Euclides que opera ideologicamente seu status de verdade, atuando, entre outras maneiras, como sistema de exclusão. Houve a outra visão do passado quando sinalizou o cumprimento do crime pelas mãos dos oficiais. Porém, essa visão estava sustentada pelos mesmos artifícios marginalizadores demarcados nas variações de tipos raciais e nas oscilações entre o bom senso e a loucura.

Sendo assim, Fato e Fábula constrói uma via interpretativa que sobreleva o revisionismo do narrador de Os sertões por meio do trabalho com a linguagem estendida por uma visão de mundo barroca. A ficção se mostra por conta do campo do depois, pela fabulação do acontecimento desprendido do documento e ecoado apenas pelo silêncio dado como resposta a um discurso devedor da compreensão de uma realidade social.  Pensar a reescritura como ressignificação proporcionará repensar o sentido desse revisionismo através da escrita ficcional de A casca da serpente. Cabe refletir até que ponto este aspecto de reviravolta se configura como um ponto engessado, porque inseparável da ideologia positivista de fim de século, e assim insuficiente para redimir o discurso do narrador, ou como traço estimulante, por onde justamente a releitura da obra se apóia para então se reerguer pela lógica da suplementação.


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Fonte:
Rebeca Santos de Amorim Guedes: “Os Sertões e a casca da serpente: a reescritura como ressignificação”. (Dissertação de mestrado apresentada ao Programa de PósGraduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco como requisito para a obtenção do titulo de Mestre em Letras/Teoria da Literatura. Orientador a : Sônia Lúcia Ramalho de Farias). Recife, 2010.