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05/06/2016

Miragaia, de Almeida Garrett

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Que estranha forma de contar

Lembremos por ora, nos seus quadros mais significativos, o texto de Miragaia conforme a edição de 1853, procurando assinalar que cruzamentos das memórias anteriores se enxertam na organização das quatro cantigas do poema garretiano. Estando Dom Ramiro “bem ledo / com sua dama a folgar” é informado por um “perro bruxo judio” da formusura de Zara, “flor da beleza”, irmã do rei mouro Alboazar, pela qual se permite conquistar. Abandonando “a triste da rainha” Gaia, Ramiro vem “de cilada” além Douro e furta a bela moura, acolhendo-se com a mesma em Milhor, ao que Alboazar retalia determinando a captura da rainha cristã e levando-a para o seu castelo de Gaia. Conhecedor do rapto de sua esposa (ainda que o poema adiante informe que se haviam cumprido três anos sobre o rapto de Gaia), Dom Ramiro organiza a expedição de resgate, juntando seus homens em barcos “Douro acima a navegar [?], / a noite escura cerrada, / e eles mansinho a remar [!]”, e, aportando, toma as vestes de romeiro e acerca-se de uma fonte que mana na encosta do castelo mouro onde encontra uma”donzela” que vem a ser Peronela, criada, afinal, de Gaia. Ramiro coloca então na cântara de prata o anel que conforme as versões anteriores o revelará perante sua esposa, confiando a Peronela o transmitir a sua senhora da vontade de “um romeiro cristão / [que] lhe deseja falar / da parte de um que é já morto, / que morreu por seu pesar”. Ao beber da água, Gaia prova o anel de seu Ramiro e, neste passo, acautelando-se numa encenação de mistério que aliás já antes se confirma, quando o poema oculta o estratagema da buzina que Ramiro incumbe a seus homens, o contador opta por não revelar o reconhecimento de seu esposo pelo anel que este lhe faz chegar, adiando a tensão deste reencontro para o momento em que, sendo chamado à presença da rainha, Ramiro despe as vestes de romeiro e se revela:

“ - Minhas penas não são minhas,
Senão vossas, mal pesar!
Que uma rainha cristã
Feita moura vim achar...

- Romeiro, não tomeis cuita
Por quem não se quer cuitar:
Do que foi já me não lembro,
O que sou não me é dezar.

Deus terá dó da minha alma,
Que meu não foi o pecar;
E a esse traidor Ramiro
As contas lhe há-de tomar.

- Pois não espereis, senhora,
Por Deus, que pode tardar;
Dom Ramiro aqui o tendes,
Mandai-o já castigar.

Em pé está Dom Ramiro,
Já não há que disfarçar:
Aquelas barbas tão brancas
Caíram de um empuxar.”

Assaltada pelo desejo de vingança, e chegando o rei mouro ao castelo vindo da caça, Gaia indica a Ramiro um aposento anexo onde se esconder. Anunciando “grandes novas” a Alboazar, Gaia estende-lhe a chave do dito aposento, denunciando Ramiro. Confontado-se os reis mouro e cristão, Ramiro expõe a penitência que diz trazer encomendada por um santo confessor, ardil, ora, que lhe permitirá, executando-se a pena imposta, o acorrer de seus homens ao som da buzina, o assalto ao castelo mouro e o fender, de um só golpe, da cabeça de Alboazar. Estando tudo já “morto” ou “cativo”, “já o castelo está a queimar”, Ramiro e sua gente embarcam para além Douro, já que “daqui é moirama cerrada / até Coimbra e Tomar”, levando Ramiro a rainha à sua direita na galé real, “como quem a quer honrar”. Como esta não contivesse o choro, Ramiro sonda-lhe o motivo:


“Perguntas-me porque choro!...
Traidor rei, que hei-de eu chorar?
Que o não tenho nos meus braços,
Que a teu poder vim parar.
(...)
Se eu ali fui tão ditosa,
Se ali soube o que era amar,
Se ali me fica alma e vida...
Traidor rei, que hei-de eu mirar!”

Ao que Ramiro, sentenciando as palavras da rainha Gaia, prontamente a degola:

“Foi-lhe a cabeça de um talho;
E com o pé, sem olhar,
Borda fora empuxa o corpo...
O Douro que os leve ao mar.”

Do “estranho caso” terá feito memória a toponímia local, Gaia e Miragaia, que “ainda hoje está dizendo / na tradição popular / que o nome tam – Miragaia / daquele fatal mirar”.

Como Pidal acertadamente dá conta, o poema de Garrett segue na sua generalidade o roteiro narrativo do texto do Livro de Linhagens do Conde D. Pedro, corrigindo-lhe algum défice de poetização, e adicionando-lhe, como vimos (na encenação de Ramiro vestido de romeiro, no ocultar da combinação da buzina...), uma certa desenvoltura dramática que, de alguma forma, excede o horizonte de mistério que o contar oral do relato já por si suporia, conferindo-lhe (como atrás se disse a propósito do poema de D. Bernarda Ferreira de Lacerda) uma literatura avessa à singeleza da tradição popular, e que com maior clareza se nota, por exemplo, no lançamento, ora ponderado e de toada reflexiva, ora cénico, de cada uma das quatro cantigas – a segunda, sobretudo marcada por este interesse por imagens como que teatrais, com o espanto do contador ao indagar “Oh!..que barcos são aqueles / Douro acima a navegar?”. Se o poema parece tomar norte narrativo no relato longo do nobiliário do célebre filho bastardo de D. Dinis, certo é que dele diverge em momentos pontuais, tanto no que ao comportamento final de Ramiro diz respeito, como na correcção da legitimação toponímica final (Gaia onde Âncora), como também na invenção de um nome para a irmã moura – anónima, como atrás se disse, no relato do livro do Conde – e que vem a ser o nome que já D. Bernarda Ferreira de Lacerda lhe atribuíra no seu poema de Hespaña Libertada: Zara. Se no que toca à prioridade da toponímia local sobre a indicação etimológica do relato longo a mesma parece certificar a fidelidade à tradição oral gaiense que Garrett hasteia na nota introdutória ao poema como juízo preferencial sobre outros procedimentos, já o horizonte de reconciliação sugerido pelo comportamento final de Ramiro, ao levar Gaia à sua direita “como quem a quer honrar”, presta-se inevitavelmente à invocação, não exactamente de uma modulação do relato popular, mas das ternas imagens finais da versão breve do Livro Velho, quando Ramiro, seguro do arrependimento de sua esposa, adormece tranquilamente no seu regaço. Ora, Garrett prevenira na nota que introduz o poema que “o conde. D. Pedro e os cronistas velhos também fabulam cada um a seu modo sobre a legenda”, ainda que no respeita ao nobiliário velho muitas dúvidas se levantem quanto ao conhecimento de Garrett em relação ao seu texto à época de composição da sua Miragaia. Pidal conjecura, nesse sentido, a possível descendência do relato oral gaiense em relação ao Livro Velho, de forma a justificar a benevolência de Ramiro que Garrett acompanhará no seu poema:

“Esse relato local, que Garrett ouviu em criança a velhos e barbeiros do Porto, devia inspirar-se mais do que no livro do conde D. Pedro de Barcelos, noutro relato mais curto da lenda ramirense, incluído num nobiliário um tanto anterior ao do conde, pois nesse relato breve D. Ramiro confia também no arrependimento da rainha.” (Pidal, 1954: 72)

O Romance da Gaia de 1601, texto que, apesar da estilização literária a que o sujeita João Vaz, não deixa de inspirar, pela sua muito rudimentar montagem narrativa, a ideia de um tratamento popular anterior, e onde a toponímia final surge já associada ao imaginário gaiense, não partilha, porém, e antes pelo contrário, da benevolência do Ramiro do Livro Velho que Garrett retomará. O que, uma vez a muito provável proximidade entre o texto de João Vaz e um relato oral entre as gentes de Gaia nos séculos XVI e XVII, parece indiciar que este relato gaiense (que o menino Garrett conhecerá) não descenderá daquele a que se associara a versão breve do Livro Velho, ou que esse mesmo relato corria em versões algo distintas, o que, bem vendo, a sensibilidade e o interesse de cada contador poderiam perfeitamente justificar. No que se refere ao poema de João Vaz, Garrett comenta na cartaprefácio a Adosinda (1828), dirigida a Duarte Lessa, “aquele romancezinho de Gaia e do Rei Ramiro, que V. descobriu em Londres com o precioso achado dos papéis e livros do nosso infeliz Oliveira”; posteriormente, na nota I da reedição de 1853 do primeiro volume do Romanceiro, Garrett retoma tal interesse:

É um curioso e raríssimo exemplar, documento notável da literatura portuguesa do século dezassete. Intitula-se Gaia, e é impresso no Porto em um folheto de 4ª, com 15 ou 20 páginas. Tenho hoje grande pena de não ter tirado cópia inteira dele antes de o restituir ao meu amigo o Sr. Lessa, em cujo espólio deve estar: mas não pude obter mais notícias dele; e outro exemplar não o vi nem sei quem o visse. Começa com duas oitavas que agora encontro, incompletas, entre os meus apontamentos. Todo o poema é na mesma rima.

I
Cantemos de Ramiro rei d’Espanha
E de el-rei Almançor de Berberia,
Quando por desventura tão estranha,
No mais de Espanha então mouros havia
Com ânimo cruel, com cruel sanha
Cada qual ao outro pretendia
Privar de sua fama, honra e estado,
Com todas suas forças e cuidado
 II
Desse Ramiro, digo, o esforçado,
Que deste nome três com ele hão sido
Daquele que com Gaia foi casado
Por que tantos trabalhos há sofrido…”

Um “romancezinho” impresso no Porto, tendo-o sido primeiramente em Lisboa, que testemunhará, com toda a certeza, a filiação num relato oral já então perfeitamente coincidente com o imaginário popular gaiense, e que, se dele não se ocupou Garrett para a composição do seu Romanceiro, não deixa de confimar a antiguidade local do relato e, da mesma forma, de especular uma leitura que poderia pôr em causa – neste lance final do texto – a fidelidade do autor de Folhas Caídas em relação ao mesmo relato: isto é, pensar em que medida o investimento de um certo interesse literário na sua composição lhe poderia afinal resolver e hipotecar fragilidades e divergências facilitadas pela transmissão oral, democracia, a da insegurança narrativa do relato popular, que o registo escrito veta, e que a informação do final conforme o relato breve do Livro Velho poderia, por outro lado, justificar. A intenção de seguir “muito pontualmente a narrativa oral do povo”, de “ser fiel ao estilo, modos e tom de contar e cantar dele” não implica, com efeito, que Garrett recopilador não reconheça no relato um potencial literário que lhe venha a merecer um tratamento não exactamente de recolha e mero registo de matérias da tradição oral mas, sobre essa primeira instância, um mais ou menos discreto intento reinventivo de princípio literário – ainda que termine a nota introdutória a Miragaia com a desarmante ingenuidade já antes comentada: “Assim olho para esta pobre Miragaia como para um brinco meu de criança que me aparecesse agora; e quero-lhe – que mal há nisso? – quero-lhe como a tal”.

Sobremaneira interssante é a nomeação da irmã moura, Zara, que, salvo Garrett, só o poema de D. Bernarda Ferreira de Lacerda resgata do anonimato. Ora, não se conhecendo referência de Garrett ao poema de Hespaña Libertada, a possibilidade de uma maior permeabilidade do poema seiscentista em relação ao relato oral da época parece adquirir certa fundamentação e, neste caso, haveria que admitir que o nome Zahara, que o relato contemporâneo de Garrett já receberá actualizado, Zara, seria resultado de uma invenção popular de que D. Bernarda teria notícia à data de composição do seu poema. Por outro lado, e tendo em conta o horizonte sobretudo literário deste texto, o seu compromisso com uma lição textual bastante anterior (a do Livro de Linhagens do Conde D. Pedro), como que isolando-o da regeneração que o relato adquirira oralmente, poder-se-ia de igual forma resolver o interesse de D. Bernarda em oferecer à irmã moura outra presença que não aquela que o relato do nobiliário lhe concedia através, não do recurso a uma invenção de origem popular, mas da consulta de documentação genealógica das famílias árabes do tempo dos reinados ramirenses, o que lhe indicaria a existência, ao tempo de um Lovesendo Ramires, de uma Zaira Bint Zahadon, com a qual casará, matrimónio de que descenderá a família Maia. O mais certo que é que o relato escutado por Garrett em criança compreendesse já a nomeação da irmã moura, muito embora o Romance da Gaia de João Vaz, ao mantê-la no anonimato, pareça indicar que a mesma só surgirá já no século XVII e muito possivelmente a partir da própria informação do poema de D. Bernarda Ferreira de Lacerda, cenário que confirmaria, nestes dois livros do meio, uma importância decisiva naquela que vem a ser a gestão de memórias do recopilador oitocentista, Almeida Garrett, pela sua posição como que medial, mediadora entre a memória nobiliária e a invenção popular, tensão que o autor do Romanceiro não deixará de indiciar no seu poema, “brinco de criança”.

Eis pois uma Miragaia garretiana que se negoceia no relato popular da região de Gaia, que Garrett recupera de sua meninice, e que ao tempo do poema ainda se conserva na boca de “velhas e barbeiros do lugar”, que toma equilíbrio narrativo no relato longo do Livro de Linhagens do Conde D. Pedro de Barcelos, como que de forma a superar algum desajuste ou mutilação que a intriga do relato oral com efeito poderia permitir, e que, renunciando a esta mesma lição textual, prefere um desenlace em conformidade com a versão curta do Livro Velho, que Alexandre Herculano divulgará em 1856 nos “Scriptores” dos Portugaliae Monumenta Historica, e ao qual Garrett agradece no prefácio ao Romanceiro de 1843 o partilhar dos seus “preciosos achados, no seu incessante lavrar das minas arqueológicas”.

Estaria o Livro Velho entre estes preciosos achados compartidos com Garrett antes da sua edição em 1856? Que informação a do nome Zara? Apropriação pelo relato popular do século XVII da novidade do texto de D. Bernarda Ferreira de Lacerda?, invenção autónoma (e estranhamente aceitável22) deste relato oral?, ou investigação de Garrett no intuito de suprir uma lacuna deste último de forma a melhorar e embelezar o seu ambiente lírico? Estranha forma de contar, a de Garrett, investindo um seu romantismo na legitimação identitária e restauradora da literatura tradicional, tomando-a como memória prioritária na organização do Romanceiro, e que nesta sua tão querida Miragaia, uma das “primeiras coisas deste género em que [trabalhou]”, “a mais antiga reminiscência de poesia popular que [lhe] ficou da infância”, parece como que inventar essa mesma prioridade romanesca na condução do poema, dandolhe literatura e armando-lhe uma singeleza dificilmente populares – a um poema, como vimos, privado do seu lugar na primeira colecção do Romanceiro.

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Fonte:

Hugo M. Milhanas Machado: "Que estranha forma de contar" (apontamentos na Miragaia de Garrett, nos livros de linhagens e nos livros do meio). Publicado em “Estudios Portugueses 6 – Revista de Filología Portuguesa”. Universidad de Salamanca, 2006. Disponível em: http://cvc.instituto-camoes.pt/

11/08/2014

Tio Simplício (Teatro), de Almeida Garrett

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Romanceiro (Obra Poética), de Almeida Garrett

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10/08/2014

O Alfageme de Santarém (Teatro), de Almeida Garrett

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O Alfageme de Santarém. Análise da peça

Concebido, segundo se afirma no prefácio do livro, «em meados de 1839» e assinado em Benfica no 1º de Outubro de 1841, o texto que agora analisamos foi representado pela primeira vez «em março do anno seguinte, no theatro da rua dos Condes» (Amorim 1884: 678) e publicado na Imprensa Nacional em 1842 com um título duplo: O Alfageme de Santarém ou a Espada do Condestável. Curiosamente não aparece na capa o nome de Almeida Garrett, mas uma indicação de ser escrito «pelo auctor de Catão e Auto de Gil-Vicente».

Boa parte da constituição do teatro histórico, seja drama ou comédia, radica na escolha argumental e, em menor medida, na recriação de personagens da época, que em muitas ocasiões são conhecidos pelo público, factor que pode obrigar o autor a permanecer muito atento às características transmitidas por esse referente comum e a construir uma sequência minimamente fiel ao contado pelo discurso histórico.

No caso de O Alfageme de Santarém temos uma obra centrada nos acontecimentos que levaram à mudança de dinastia e à chegada ao trono português da dinastia de Avis. É sabido que este é um dos períodos mais relevantes da história portuguesa, símbolo desde muito cedo da independência do reino e, nomeadamente durante o século XIX, da vontade de autonomia e soberania do povo. Por isso, não resulta estranho Almeida Garrett afirmar no breve prefácio que acompanha a edição da obra:

Quiz-se pintar n’este quadro a face da sociedade em um dos grandes cataclysmos por que ella tem passado em Portugal. (Almeida Garrett 1842: 1)

E, com efeito, não deve ser por acaso que dos vinte e sete dramas históricos do período que vai de 1836 a 1856 – período de máxima efervescência na criação dramática garrettiana –descritos por Ana Isabel de Vasconcelos (2003: 495-551), seis são dedicados apenas a este breve período. Mas, no caso de O Alfageme de Santarém estamos perante o desenvolvimento de uma nova interpretação do episódio do Alfageme de Santarém, aparecido na Crónica do Condestável, como novamente afirma o autor:

Tomou para a primeira luz do quadro as principaes figuras da interessante anecdota da espada de Nun’alvares Pereira e da prophecia do alfageme de Santarem, tam sinceramente contada n’aquelle ingenuo stylo patriarchal da primeira «chronica do Condestabre», d’onde passou depois para os historiadores e poetas que a repettiram. (Almeida Garrett 1842: 1).

Neste sentido, a leitura do texto originário (vid. apêndice 1) e do drama que agora analisamos, resulta enormemente significativa, pois que oferece uma interpretação diferente dos dados básicos oferecidos no texto histórico. Com efeito, Garrett converte a acusação de “cismático” e pró-castelhano que fazem ao Alfageme no texto de origem, assim como o agradecimento de Nuno Álvares Pereira, não apenas num caso de “correcção” de uma espada, mas numa “correcção” de comportamento que se desenvolve à volta do trio amoroso Alfageme-Alda-Nuno. Todavia, a lição do Alfageme visa um objectivo mais amplo, uma vez que será também exemplo ao defender de maneira desinteressada a legitimidade dos infantes D. João e D. Dinis, filhos de D. Pedro I e D. Inês de Castro, e, nomeadamente, ao defender o povo, a quem considera verdadeiro protagonista da pátria, mesmo quando este se mostra volúvel e covarde, incapaz de assumir as suas responsabilidades (acto IV, cena V):

Essas armas que eu vos dei... para quê? Para defenderdes a vossa propria causa. A vossa causa que vós desertastes... que nunca defendestes; porque é ruím sinna do povo que nunca a sua causa soube defender (1842: 96)

Assim, a valentia e generosidade de Nuno Álvares Pereira converte-se numa verdadeira dívida pessoal e a posição ambígua do Alfageme numa atitude de extrema coerência. Por outras palavras, O Alfageme de Santarém propõe uma nova interpretação da história, quase diríamos que uma revisão. No entanto, fá-lo recolhendo os pontos básicos da narrativa original ao longo dos cinco actos, especialmente no primeiro e no quinto, onde concentra esta releitura dos factos narrados na Crónica do Condestável: a correcção da espada, o agradecimento ante a generosidade do Alfageme, a intervenção da sua mulher, a profecia que realiza da nomeação de Nuno Álvares Pereira como Conde de Ourém e o agradecimento deste último pelos serviços do Alfageme. Em qualquer caso, podemos afirmar já que a eleição de um argumento histórico é muito significativa. O passado apresenta-se como mais um conteúdo ideológico da peça.

No que ao tempo diz respeito, observamos que a acção se desenvolve entre o dia 8 de Dezembro de 1383 – como se verifica no parlamento de Mendo da cena 3 do acto IV (1842: 87) –, e o dia 15 de Agosto de 1385 – como explica Alda na primeira cena do acto V (1842: 116). No intervalo destes vinte meses encontramos uma série de personagens que agem e se preocupam pelos graves acontecimentos que o reino português está a viver, após a morte do rei D. Fernando e durante a regência da rainha D. Leonor, período de grande instabilidade e risco de absorção por parte da coroa castelhana. A nível formal, observamos que os acontecimentos são apresentados, como é habitual neste tipo de teatro (Ogando 2004: 95), nas primeiras cenas do acto I e nas dos actos IV e V, que se situam depois de duas elipses temporais, razão pela qual deve situar novamente o público e explicar o acontecido durante as elipses temporais.

Quanto à localização espacial, embora possa apresentar normalmente uma menor importância na configuração do drama histórico (Ogando 2004: 133), no caso d’O Alfageme de Santarém parece-nos muito relevante por várias razões. Primeiramente, pela unidade de espaço verificada nos cinco actos que, se não era o mais habitual nos dramas românticos, também não o era no teatro de Garrett. Porém, o cenário descrito na didascália inicial mantém uma presença constante ao longo dos cinco actos:

É no suburbio de Santarém, ditto A Ribeira. À esquerda uma casa antiga, apalaçada, com vestigios de grandeza senhorial, mas muito arruinada, com escada exterior de pedra, descuberta e praticavel, e collocada de modo que os actores, quando descem, ficam com a face para o spectador. No alto da escada, patim com parapeito, e cuberto com uma parreira. – À direita uma casa abarracada mas vasta e bem reparada, em que estão os armazens e serralharias do Alfageme, cujas forjas acesas e trabalhando são visiveis para o espectador: a parte mais posterior da casa é mais antiga e acanhada, com sos duas janelinhas agudas e porta no meio. – No fundo Marvila ou parte alta de Santarem. – Em baixo corre o Tejo. – Da esquerda vem a estrada de Lisboa, pela direita se sobe para Santarém. – No meio da scena, entre as duas casas, alguma árvore. – É de hynverno. – A mesma vista em todos os actos. (Almeida Garrett 1842: 5)

Pode-se observar assim que toda a acção se desenvolve num espaço público, no mesmo limiar da casa e oficinas do alfageme e da casa da família Paes, D. Guiomar e D. Mendo Paes, que moram agora com Froilão-Dias e Alda. Esta unidade espacial contrasta com a maior complexidade das personagens e até com a variação temporal, e obriga o autor a configurar os outros espaços relevantes na história – a cidade de Lisboa, a parte alta de Santarém, Abrantes ou o campo da batalha de Aljubarrota – mediante discursos indirectos, criando vários espaços ausentes, mais ou menos afastados do espaço patente. Da mesma maneira, têm uma relativa significação os espaços patentes, especialmente o interior das oficinas do Alfageme, que se fazem presentes na acção mediante os sons e cantigas dos trabalhadores.

Uma segunda razão na singularidade do espaço, que nos parece de maior importância, é a presença de uma velha e humilde casa integrada na poderosa casa do alfageme, ambas símbolo do seu magnífico comportamento e carácter, uma vez que consegue enriquecer-se mas que permanece ligado às origens, como explica D. Guiomar:

Guiomar.– Vès aquellas casarias todas, com tanta forja e trabalhar, tanta gente occupada, tantos armazens cheios de armas de toda a sorte e valia? – Pois tudo isso tem elle feito. A casita do pae era so aquillo que se ve la canto, no fim, com a portinha baixa e duas janellas estreitas, que o filho não quiz mudar, nem pôr á feição do resto da casa, por honra e memoria do pae, diz elle. (Almeida Garrett 1842: 8-9).

Como veremos, esta é uma das características fundamentais da figura do alfageme que «faz soberba e vaidade do que a mais gente se invergonha» (ib., 9), representando assim a capacidade do povo para ascender mediante o trabalho, a honestidade e a consciência da sua pertença a uma terra e ao povo português.

Em terceiro lugar, existe uma última razão que confere enorme relevância à situação espacial, embora proceda de outro texto, as Viagens na minha Terra, onde o término da viagem iniciada pelo narrador – Santarém, lhe permite fazer alusões a esta história, e mais concretamente ao espaço, que se fora símbolo de glória no passado, em 1843 tinha desaparecido completamente:

Cruzámos a povoação em todos os sentidos, procurando rastrear algum vestígio, confrontar algum sítio onde pudéssemos colocar, pela mais atrevida suposição que fosse, a tenda do nosso alfageme com as suas espadas bem «corregidas», as suas armaduras luzentes e bem postas — e o jovem Nun’Álvares passeando ali por pé, ao longo do rio — como diz a crónica — namorado daquela perfeição de trabalho, e dando a «correger» a bela espada velha de seu pai ao rústico profeta que tantos vaticínios de grandeza lhe fez, que o saudou condestável, conde de Ourém e salvador da sua pátria.

Nada pudemos descobrir com que a imaginação se iludisse sequer, que nos desse, com mais ou menos anacronismo, uma leve base tão-somente para reconstruirmos a gótica morada do célebre cutileiro-profeta que a história herdou das crónicas romanescas, e hoje o romance outra vez reclama da história. (1846, 2º vol.: 123)

O espaço ganha deste modo conotações simbólicas “mitificadoras” que estabelecem diferenças entre o passado e o presente – recurso frequentemente utilizado Garrett ao longo de todo este romance – que, com pouco esforço, poderemos trasladar à caracterização espacial d’O Alfageme de Santarém.

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Fonte:

Iolanda Ogando: O Alfageme de Garrett. A história, o teatro e a nação. Revista Limite. Vol. 1, 2007, pp. 137-158. Universidad de Extremadura. Disponível em: www.revistalimite.es

Mérope (Teatro), de Almeida Garrett

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Garrett e a tragédia de tema clássico: O Exemplo de Mérope

Almeida Garrett completou a sua tragédia Mérope em 1820, o ano da revolução liberal. No prefácio que para ela escreveu em 1841, diz que nunca se chegou a representar: «estavam ensaiados os primeiros três actos quando veio a revolução de vinte; poeta e actores e espectadores e o nosso teatrinho, tudo absorveu a excomungada política.» As palavras que o Autor dirige à sua primeira obra dramática de fôlego, mais de vinte anos depois de a ter escrito, envolvem- na com o ambiente político que parece ter estado presente em toda a sua vida. É pois essa vivência política, sustentada por posições ideológicas próprias do seu tempo, que a nosso entender justificam o facto de Garrett ter deixado Mérope sobreviver, dignamente editada e, em parte, comentada. A tragédia de tema grego parece-nos ser um meio de atestar a precocidade da consciência política do fundador do Teatro Nacional. A confirmação dessa hipótese será feita através do estudo da peça, que estruturámos em três partes: a lenda original grega e as fontes que a relatam; as influências e motivações de Garrett para a escolha e tratamento deste tema; e a análise da obra enquanto texto trágico.

Mérope é uma figura da galeria mitológica grega pertencente ao ciclo dos Heraclidas. As fontes clássicas que a ela se referem e que chegaram até nós são fundamentalmente a Biblioteca de Apolodoro, as Fábulas de Higino e a Descrição da Grécia de Pausânias. Sabemos que, entre 428 e 425 a. C., Eurípides escreveu uma tragédia de nome Cresfontes, cujo tema era um episódio da vida daquela heroína. Contudo, o texto perdeu-se e hoje apenas restam fragmentos e referências, como as feitas por Aristóteles na Ética e na Poética. A partir destes, porém, e juntamente com o que dizem Apolodoro, Higino e Pausânias, é-nos possível reconstituir o mito e em parte o argumento da tragédia perdida.

Mérope era filha do rei da Arcádia, Cípselo, e foi dada por este em casamento a Cresfontes, um dos Heraclidas, rei da Messénia. Cresfontes tinha obtido o seu reino por ocasião da partilha do Peloponeso entre os descendentes de Héracles. O episódio mais célebre que envolve a rainha da Messénia, e que motivou a tragédia de Eurípides, baseia-se na revolta que levou ao assassinato de Cresfontes. O rei foi vítima de uma rebelião, liderada por um outro Heraclida, chamado Polifontes. Este eliminou também os dois filhos mais velhos de Cresfontes e casou com a viúva do rei contra a vontade dela. Todavia, durante o assalto ao palácio, Mérope conseguiu salvar o filho mais novo, que recebe vários nomes, provenientes de diversas tradições: Eurípides adopta o nome de Cresfontes, tal como o pai, com que intitula a sua tragédia; Higino nomeia-o Telefontes e Pausânias chama-lhe Épito. A rainha confiou a criança a um servo, que o levou para a Etólia, e através dele manteve-se a par da vida do filho sobrevivo. Porém, Polifontes sabia que um dos enteados não morrera, o que lhe provocou alguma ansiedade, visto estar sempre na expectativa da vingança do jovem. Assim, Polifontes lançou publicamente a proposta de uma recompensa a quem encontrasse e matasse Épito.

Homem feito, o jovem decidiu vingar o pai e resgatar a mãe. Assumiu outra identidade e dirigiu-se a Polifontes afirmando que matara Épito e que tinha direito à recompensa prometida. O rei pediu-lhe algum tempo para confirmar a história. Entretanto, o servo que cuidara do príncipe veio ter com Mérope, para lhe comunicar o desaparecimento do filho. Tal revelação contribuiu para que a rainha acreditasse definitivamente na história do estrangeiro e pensou que o seu filho perecera às mãos do mercenário. Assim, Mérope dispôs-se a vingar a sua morte e, durante a noite, invadiu o quarto de Épito com a intenção de o executar. Quando já erguia a arma, apareceu o velho servo, que reconheceu o rapaz e atempadamente susteve a mão da rainha. Feita a revelação, Mérope e Épito combinaram a forma de se vingarem: a mãe vestir-se-ia de luto, como se o seu filho tivesse, de facto, morrido, e assumiria uma nova atitude, de resignação, para com o marido, que até então desprezara. Face a isso, o rei pensou dever oferecer um sacrifício aos deuses, agradecendo-lhes a benesse de que havia sido alvo. Convidou o hóspede a imolar a vítima sacrificial e este aproveitou para vingar o pai e os irmãos, bem como o sofrimento da mãe: em vez de matar o animal, matou Polifontes, tendo sido imediatamente aclamado rei da Messénia.
[...]

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Fonte:

Nuno Simões Rodrigues (Universidade de Lisboa Para a Senhora Professora Doutora Maria Helena da Rocha Pereira): Garrett e a tragédia de tema clássico: O Exemplo de Mérope. Disponível em: www.uc.pt

Lírica de João Mínimo, de Almeida Garrett

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Helena, de Almeida Garrett

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Flores sem fruto (Poemas), de Almeida Garrett

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09/08/2014

Dona Branca (Poesia), de Almeida Garrett

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Romances de Renascença (Poemas), de Almeida Garrett


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Adozinda (Poesia), de Almeida Garrett

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11/04/2014

Folhas Caídas, de Almeida Garrett

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