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02/03/2014

Livro das Donas e Donzelas, de Júlia Lopes de Almeida

 Livro das Donas e Donzelas, de Júlia Lopes de Almeida
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Livro das Noivas (1896)

Estado incerto, dúbio, o da noiva, ao ver aproximar-se a hora do seu casamento. Tudo em que não pensou durante meses, muitas vezes anos, ocorre-lhe no último dia ao pensamento. Sente-se feliz; sente-se desditosa!

Em fins do século XIX e começo do XX Júlia se preocupou com a instrução das moças, noivas, mães e donzelas da sociedade carioca. Para isso, a mesma encarregou-se da tarefa de escrever o compêndio Livro das Noivas (1896). A necessidade de se escrever um livro deste porte se deu no quadro de mudanças em que se encontrava a capital fluminense, pois havia um processo de transição na sociedade, em que essa passaria de senhorial, com base essencialmente agrária, para uma burguesia, progressivamente urbana e industrial.

Neste sentido, as mulheres se dedicariam e se adaptariam às novas relações sociais da cidade, bem como aos desafios da educação e formação profissional, em contrapartida à vida anterior a esta mudança, em que se dedicavam ao trabalho privado da casa. Sob a égide da República que alvorecia e preocupada com a reviravolta que ocorria no universo feminino a partir de então, Júlia Lopes de Almeida escreveu este primeiro livro voltado para as moças inexperientes que tinham a intenção de se casar.

No que se refere à materialidade, elemento de adornamento para alguns, mas que têm muita importância na pesquisa histórica, como bem mostrou Tania Regina de Luca, é importante estar atento aos “aspectos que envolvem a materialidade dos impressos e seus suportes, que nada têm de natural”. É preciso perceber as “condições técnicas de produção vigentes e a averiguação, dentre tudo que se dispunha, do que foi escolhido e por quê”. Ao manusear o primeiro manual de ciências domésticas de Júlia Lopes de Almeida notou-se a clara função social desses impressos, visto que não eram endereçados a qualquer público, e sim, destinados às moças leitoras das famílias da elite fluminense. Conforme pode-se constar em vários exemplares, O Livro das noivas foi confeccionado com todo o aparato técnico que até então dispunham as tipografias da época.

Trazia a capa dura em vermelho, adornado com uma flor branca e verde e escrito em dourado. Continha tanto os nomes – do livro e da autora – como a imagem da flor em alto-relevo. Segundo Joaquim Marçal Ferreira de Andrade, foi devido ao desenvolvimento do processo chamado autotipia pelo alemão George Meisenbach, patenteada em 1882, que ocorreu uma verdadeira revolução na imprensa ilustrada da época.

Nele, a imagem original de tons contínuos era reproduzida através de uma malha (ou retícula) de vidro, sendo então fragmentada em pequenos pontos, distribuídos de maneira regular e cujo tamanho variava em função da tonalidade específica de cada área da imagem. Através desse processo, gravava-se uma chapa denominada clichê, onde os pontos em alto-relevo, correspondiam as áreas escuras da imagem.

No que diz respeito à ilustração, teve a colaboração dos desenhos de E. Casanova, Roque Gameiro e Julião Machado. Este último,foi considerado por muitos o “pai da caricatura no Brasil” devido à colaboração em periódicos como o Jornal do Brasil e Gazeta de Notícias, o que o tornou um dos mais influentes ilustradores na virada do século.

Cabe destacar no livro o tom de intimidade com que a escritora conduziu a narrativa, recurso utilizado para seduzir o seu público leitor. Como bem lembrado por Lajolo e Zilberman, este auxílio teve êxito para a formação de uma sociedade leitora, que só por volta da segunda metade do século XIX, momento em que o Rio de Janeiro passou a exibir traços necessários para a formação e o fortalecimento de um público leitor. Tal auxílio estava materializado nos mecanismos mínimos para a produção e a circulação da literatura, como tipografias, livrarias e bibliotecas. Observa-se que a escolarização era precária, mas manifestava-se o movimento visando à melhoria do sistema, e o capitalismo ensaiava seus primeiros passos graças à expansão da cafeicultura e dos interesses econômicos britânicos.

Em capítulo intitulado “A construção do Leitor”, Lajolo & Zilberman dão exemplos de como foi a estratégia de sedução do público leitor ainda em formação e a consolidação do espaço para que suas obras nascessem, crescessem e se multiplicassem.

Ao publicar Memórias de um sargento de milícias (1852-1853), Manuel de Antonio de Almeida tomou cuidado diante da formação de tal público, sendo representativo seu empenho em tratar o leitor como frágil e despreparado. O escritor parecia conduzir o leitor pela mão, como se o caminho a percorrer – leia-se leitura autônoma da obra – fosse difícil.

Outra conduta bastante frequente do literato, nesse primeiro momento da formação do leitor no Brasil, foi simular reações do leitor e legitimá-las, dando-lhe razão, sugerindo indiretamente sua competência e, às vezes, até mesmo sua superioridade. Indicativas dessa cortesia de salão são expressões que aludem ao fato de o leitor já ter adivinhado o que estaria acontecendo ou ser suficientemente perspicaz para compreender o que se passa e tirar conclusões próprias.

Tais estratégias, se não garantem ao narrador a fidelidade do leitor a um texto que se prolonga, estreitam a cumplicidade entre ambos: o leitor é uma figura para quem se conta, em segredo, os acontecimentos da trama.

A técnica, também aplicada aos romances-folhetins, se adensou na época, tanto que foi mantida no desenrolar do gênero romance e reapareceu anos mais tarde na obra de Machado de Assis. No conto “Questão de vaidade”, datado de 1864, parece não haver limite para o esforço do narrador em estabelecer um clima de intimidade com o leitor. Com este objetivo, Machado traçou um cenário em que o autor e o leitor compartilharam um ambiente comum, íntimo e propício ao desfiar de histórias, ficcionais ou verídicas, como se verá no segmento a seguir, necessariamente longo para exemplificar a contento o que se afirma:

Suponha o leitor que somos conhecidos velhos. Estamos ambos entre as quatro paredes de uma sala; o leitor assentado em uma cadeira com as pernas sobre a mesa, à moda americana, eu a fio comprido em uma rede do Pará que se balouça voluptosamente, à moda brasileira, ambos enchendo o ar de leves e caprichosas fumaças, à moda de toda a gente.

Imagine mais que é noite. A janela aberta deixa entrar as brisas aromáticas do jardim, por entre cujos arbustos se descobre a lua surgindo em um límpido horizonte.

Sobre a mesa ferve em aparelho próprio um pouca de água para fazer uma tintura de chá. Não sei se o leitor adora como eu a deliciosa folha da Índia. Se não, pode mandar vir café e fazer com a mesma água a bebida de sua predileção.

Ora, como é noite, e como não hajam cuidados para nós, temos ambos percorrido toda a planície do passado, apanhando a folha do arbusto que secou ou a ruína do edifício que abateu.

Do passado vamos ao presente, e as nossas mais íntimas confidências se trocam com aquela abundância de coração própria dos moços, dos namorados e dos poetas.

Finalmente, nem o futuro nos escapa. Com o mágico pincel da imaginação traçamos e colorimos os quadros mais grandiosos, aos quais damos as cores de nossas esperanças e de nossa confiança.

Suponha o leitor que temos feito tudo isto e nos apercebemos de que, ao terminar a nossa viagem pelo tempo, é já meia-noite. Seriam horas de dormir se tivéssemos sono, mas cada qual de nós, avivando o espírito pela conversação, mais e mais deseja estar acordado.

Então o leitor que é perspicaz e apto para sofrer uma narrativa de princípio a fim, descobre que eu também me entrego aos contos e novelas, e pede que lhe forje alguma coisa do gênero.

E eu para ir mais ao encontro dos desejos do leitor imaginoso, não lhe forjo nada, alinhavo alguns episódios de uma história que sei, história verdadeira, cheia de interesse e vida. E para melhor convencer o meu leitor vou tirar de uma gaveta algumas cartas em papel amarelado, e antes de começar a narrativa, leio-as, para orientá-lo no que vou lhe contar.

O leitor arranja as suas pernas, muda de charuto, e tira da algibeira um lenço para o caso de ser preciso derramar algumas lágrimas. E, feito isso, ouve as minhas cartas e as minhas narrativas.

Suponha o leitor tudo isto e tome as páginas que vai ler como uma conversa à noite, sem pretensão nem desejo de publicidade.

Anos mais tarde, com a mesma proposta dos escritores Manuel Antonio de Almeida e Machado de Assis, é a vez de Júlia Lopes conduzir uma narrativa íntima com suas leitoras. A relação é de estreita intimidade tanto que por todo o livro vê-se a escritora chamar seu público leitor de “amigas”. Para respaldar esta aproximação, ela apresentou-se no livro como uma “velha conhecida” para suas leitoras. Aquela que vivenciara várias experiências comuns a todas as outras mulheres, entre elas, mães, moças, senhoras e noivas com quem Júlia procurou dialogar e ter uma íntima relação. Este tom fica claro nas palavras “as minhas leitoras que me desculpem, lembrando-se que isto não é literatura, mas uma palestra apenas”.

O livro é dividido em três partes. A primeira consiste nas seguintes crônicas: “O dia do casamento”, “Saber ser pobre”, “A roupa branca”, “A poesia da vida”, “Os doentes”, “Os livros”, “Belas artes”, “Concessões para a felicidade”, “Os bailes”, “As jóias”, “Os pobres”, “Falta de tempo”, “Carta a uma noiva”. Nesta primeira parte, o conselho foi dirigido às damas e donzelas nubentes, que aspiravam ensinamentos referentes ao grande dia de suas vidas, o casamento. Essas crônicas também pretendiam instruir em relação à convivência social, ao saber portar-se em situação de pobreza, com observações referentes ao altruísmo e, o principal eixo que praticamente em todas as suas obras pode-se encontrar, o incentivo à leitura. Percebe-se na narrativa uma preocupação em preparar as noivas para os conflitos que envolvem o casamento, o comportamento adequado e os primeiros anos de convivência em uma situação de estreita intimidade com o futuro marido.

Já na segunda parte figuram os seguintes textos: “A mesa”, “A cozinha”, “Os animais”, “As aves”, “Os criados”, “Notas de uma ménagère”, “Floricultura”, “Horticultura”, “Da sala à cozinha”. Nesses, os ensinamentos destinam-se às mulheres que já se encontravam casadas. As instruções recaíam no aperfeiçoamento da mulher em relação aos seus afazeres de ménagere: como se portar em determinadas situações domésticas, de que maneira organizar e disponibilizar os vários recintos da casa, qual deve ser a relação entre uma ménagere e um criado, além de sugestões para as mulheres aperfeiçoarem-se em floricultura e horticultura.

Por fim, no último capítulo podem ser vistas as crônicas: “Uma carta”, “Ser mãe”, “Entre dois berços”, “As crianças”, “Educação”, “Carinhosa hospitalidade” e “Carta de uma sogra”. Essa última parte concluiu a seqüência de pensamentos da autora, segundo a qual a mulher já se preparou para o matrimônio; tem conhecimento de como administrar um lar - tanto do ponto de vista físico, como arrumar e dispor os móveis pela casa - bem como tratar dos seus criados. Porém, ainda há uma última preocupação, com a incumbência de instruir as damas para serem mães. Como uma mãe deve se portar? Como educar seus filhos? E como às vezes uma sogra pode representar o papel de mãe de uma nora?

Apesar das três fases apresentadas por Júlia Lopes - noiva, esposa e mãe - a partir daqui, dividirá a análise em temáticas, dedicando-se primeiramente à higienização da família.


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Fonte:
Deivid Aparecido Costruba: “Conselho às minhas amigas”: Os manuais de ciências domésticas de Júlia Lopes de Almeida (1896 e 1906). (Dissertação apresentada à Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP – Universidade Estadual Paulista para a obtenção do título de Mestre em História (Área de conhecimento: História e Sociedade) Orientador: Prof. Dr. Milton Carlos Costa). Assis, 2011.

A Intrusa, de Júlia Lopes de Almeida

 A Intrusa, de Júlia Lopes de Almeida
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A composição estética de A intrusa

A intrusa, assim como boa parte dos romances do século XIX e início do século XX, apresenta um narrador onisciente de terceira pessoa, apesar de no primeiro capítulo da obra termos a impressão de que ela inicia-se sem a presença de um narrador a conduzir as ações e os personagens, como se a história narrasse a si própria, visto que somos postos, de imediato, diante da fala dos personagens:

– Que temporal!
– E um friozinho! Conhecem vocês nada mais gostoso do que ouvir- se o barulho da chuva quando se está agasalhado? Eu estou me regalando...
– Sempre o mesmo egoísta! Como estás em tua casa... mas... desalmado, lembra-te de nós! São quase horas de me ir recolhendo aos meus penates. E ali o padre Assunção, caso não fique pelo caminho, terá também que marchar um bom pedaço a pé. Ao Teles, esse o bonde leva-o até o quarto de dormir! Nasceu empelicado (ALMEIDA, 1994, p.03).

Com essa abertura em forma de diálogo, tem-se a impressão de que a trama romanesca irá se desenvolver à revelia de um narrador, permitindo-se, assim, que o leitor tenha acesso apenas ao que as personagens falam ou fazem. Todavia, embora, conforme Kayser (1976), no século XVIII, tenham sido compostos romances completamente dialogados, essa técnica, fenômeno típico de apresentação dramática, é dificilmente sustentável em textos longos. Em virtude disso, talvez, em lugar desse narrador em modo dramático, segue- se um narrador onisciente que, ainda no primeiro capítulo, emerge logo após o diálogo transcrito anteriormente:

Por essa feia noite de chuva, conversam em casa do advogado Argemiro Cláudio, no Cosme Velho, o seu grande amigo padre Assunção, o deputado Armindo Teles e o Adolfo Caldas, homem de quarenta anos, sem profissão determinada, mas muito bem aceito nas rodas políticas e literárias, que frequentava assiduamente. Tinham jantado tarde, fumavam agora na biblioteca de Argemiro, sentados à mesa do pôquer.

Menos por virtude que por começo, padre Assunção não quisera tomar parte no jogo e andava pela sala sacudindo o pano da batina a cada impulso das suas largas passadas. Era alto, magro anguloso, de uma cor pálida; e nas suas feições acentuadas, em que melhor condiria o sarcasmo, havia uma tal expressão de candura (…) (ALMEIDA, 1994, p.03).

Se o início do romance em análise é marcado pelo contato direto entre o leitor e o universo ficcional, o narrador, como mostra o excerto acima, assume a posição de intermediário entre o narratário e o que acontece na narrativa e com os personagens. Sob esse aspecto, A intrusa é um romance construído a partir da presença/ausência do narrador e a partir da acentuada recorrência de diálogos, momento em que o narrador se ausenta da história por algum tempo. Apesar da existência de momentos em que o narrador desaparece para nos colocar diante do que os personagens falam ou pensam e em virtude de ser quase impossível manter a ação romanesca sustentada apenas pela força de diálogos, o que vai predominar na condução da ação no romance em análise é a presença de um narrador demiurgo que dispõe de liberdade para narrar à vontade, para colocar-se acima dos fatos narrados, adotando, portanto, um ponto de vista divino, já que ele não só “tudo conhece da história (...) mas também tudo pode esquadrinhar, inclusive a vida mental das personagens”. (MOISÉS, 2004, p. 411).

Aliás, a relevância da existência da focalização ou do ponto de vista como componente estrutural está no fato de que, mediante o foco narrativo, é possível perceber “as relações que o narrador mantém com o universo diegético e também com o narratário, o que equivale a dizer que representa um fator de primordial relevância na constituição do discurso narrativo” (AGUIAR e SILVA, 1979, p. 319). Em A intrusa, é pelas palavras do narrador, pelos seus pensamentos e sensações que somos guiados e levados à descrição dos personagens, dos ambientes e dos espaços ficcionais. Assim, tomando, como exemplo, o mesmo trecho que consta na página anterior, o uso de adjetivos (feia, grande, largas, pálida, acentuadas), de sintagmas nominais ou preposicionados (homem de quarenta anos, sem profissão determinada), além da utilização da descrição de personagens (Era alto, magro anguloso, de uma cor pálida; e nas suas feições acentuadas, em que melhor condiria o sarcasmo, havia uma tal expressão de candura) ou ambientes, nos revela a existência de um narrador que se interpõe entre o narratário e a ação romanesca com mais liberdade, mais independência e mais autonomia, embora o faça de maneira neutra, abstendo-se de intervir na história, procurando exilar-se em absoluto da narrativa. Em outras palavras, em A intrusa, o narrador é marcado por uma presença discreta e, por meio do contar e do mostrar equilibrados, ele dá-nos a impressão de que a narrativa desenvolve-se por si própria.


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Fonte:
Marcelo Medeiros da Silva: “Júlia Lopes de Almeida e Carolina Nabuco: uma escrita bem-comportada?”. (Tese de Doutorado apresentada ao Programa  de Pós-Graduação em Letras da Universidade  Federal  da  Paraíba,  como requisito para a  obtenção do grau de Doutor em Letras.  Área de Concentração: Literatura e Cultura.  Linha de  Pesquisa: Memória e Produção  Cultural.  Orientadora:  Profa.  Dra.  Nadilza Martins de Barros Moreira).  João Pessoa, 2011.

22/02/2014

A viúva Simões, de Júlia Lopes de Almeida

 A viúva Simões - Júlia Lopes de Almeida - Iba Mendes
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Erotismo: sensualidade narrativa
  
O erotismo sempre esteve presente na literatura desde a Antigüidade, transitando no contexto das obras literárias até nossos dias. Sua manifestação se dá de           acordo com   determinado meio social   em cada   época. Voltado, predominantemente, para sensualidade, o jogo ficcional se dá obedecendo a fatores extra-textuais que influenciam a arte literária no cerne da sociedade em que a obra está inserida.

Mesmo na chamada Idade Média Européia, período de grande repressão da Igreja Católica, a literatura já se utilizava do jogo erótico, visível, na literatura portuguesa, nas cantigas de escárnio e de maldizer, usadas como formas de resistência e de transgressão aos valores religiosos e morais daquela época.

Compreendemos o erotismo como transgressão alicerçada no desejo de busca da satisfação. Na Literatura Brasileira, o erotismo seguiu os preceitos literários e morais portugueses e alicerçou-se na moral e nos costumes da época. O texto erótico transitou no cenário literário desde a literatura de informação, com a Carta de Achamento do Brasil, de Pero Vaz de Caminha, até o romantismo, no século XIX, com textos de raríssimos atrevimentos eróticos, destacando-se, por este caminho, a figura de Gregório de Matos Guerra, conhecido em nossa literatura como “Boca do Inferno”.

O sensualismo de nossas obras românticas, as grandes precursoras do jogo erótico no contexto de nossos romances, nos enredos adocicados pela formação do triângulo amoroso, é que dá um quê erótico na narrativa voltada para o amor idealizado, segundo o qual o carnal fica na esfera do jogo ficcional que envolve o idílio romanesco entre sensual/erótico até um final feliz.

A narrativa A viúva Simões está impregnada de um erotismo condizente com o realismo burguês, expressão esta entendida por Lúcia Miguel Pereira (1988) como o estilo que engloba os diversos movimentos do período realista: o realismo propriamente dito, o naturalismo e o regionalismo, que têm como unidade a tentativa de “fugir ao idealismo obedecendo em geral mais as idéias de seu tempo do que do seu temperamento”. (PEREIRA, 1988, p. 30)

Esse Realismo, para, ser estudado, implica, nas palavras de Lúcia Castello Branco (1985), a compreensão de que se deve levar em conta a análise de diferentes discursos eróticos, produtos de uma época em que imperava uma burguesia cada vez mais poderosa, portadora de uma ideologia moralizadora, que buscava confiscar a sexualidade através da família.

A família é o único espaço de sexualidade reconhecido, utilitário e fecundo na intimidade da alcova. Os espaços fora do contexto familiar não eram vistos com bons olhos pela sociedade. Logo “o sexo regulamentado mantinha, no canto escuro do quarto dos pais, equilíbrio e harmonia de toda uma sociedade” (BRANCO, 1985, p. 19).

Seria de se esperar, nesta época, em que o trabalho e a mão-de-obra eram cada vez mais exigidos, que a moral burguesa e os mecanismos de poder tentassem sufocar o erotismo, “regulamentar a sexualidade, varrer da literatura os corpos nus, vestindo-os com palavras de bom tom e figurinos de bom gosto” (BRANCO, 1985, p. 19). Uma vez que, segundo Branco, as pesquisas sobre a sexualidade em uma perspectiva política já demonstraram que trabalho e erotismo se opõem, que “renúncia e dilatação da satisfação constituem pré-requisitos do progresso”. (MARCUSE, 1981, p. 27)

Percebe-se, entretanto, que o erotismo, mesmo no realismo burguês brasileiro, não está ausente. O erotismo, como conjunto de expressões culturais e artísticas humanas referentes ao sexo, pode aparecer disfarçado, mascarado, sutilmente velado e está presente nas obras realistas.

Observa-se, nas obras realistas, a instauração do erotismo, palavra que etimologicamente vem do latim “eroticus” e este, do grego “erotikus”, que se referia ao amor sensual e à poesia de amor, mesmo nos tempos em que o decoro controlava os discursos, já que o erotismo “existe na base de qualquer trabalho de arte, como existe na base da vida”. (BRANCO, 1985, p. 19)

A obra A Viúva Simões (1897) se situa na perspectiva que engloba o realismo burguês, no qual a escritora Júlia Lopes de Almeida, com um texto de densidade narrativa complexa, já que mostra comportamentos e padrões impostos à condição feminina na época, consegue transpor as amarras do modelo patriarcal estabelecido na literatura e retratar os valores e as angústias a que as mulheres estavam condicionadas na sociedade do século XIX.

O jogo erótico que se dá na narrativa em foco é guiado por um narrador onisciente que pode, a priori, dominar todo o saber, conhecer, apresentar e opinar, ou seja, dizer tudo sobre as personagens, “conduzindo a trama narrativa como Deus no tocante a sua criação”. (REUTER, 2002, p.76)

No texto almeidiano em estudo, o narrador sensualiza a protagonista através das impressões naturalistas e, sob esta ótica descritiva, o leitor conhecerá a viúva Simões:

O seu temperamento, aparentemente frio, dava-lhe por vezes, momentaneamente, um ar de rija autoridade, muito em contradição com seu tipo moreno, de brasileira. (...)
A viúva já não tinha a frescura da primeira mocidade, mas era ainda uma mulher bonita. Era alta e esbelta e tinha um par de olhos pretos belíssimos e uma pele morena delicadamente penujenta e macia.
A sua carne já não tinha a rijeza do pomo verde, que resiste à dentada, e caía sobre ela toda um ar de moleza, de doce cansaço, que lhe quebrantava a voz e o gesto. Vinha dela um encanto esquisito e delicado, que ninguém afirmaria ser da pureza das suas linhas ou da maneira que tinha de andar, de sorrir ou de dizer as coisas (ALMEIDA, 1999, p. 37).

O narrador trabalha com o elemento que envolve miscigenação, uma vez que insere na descrição acima a oposição entre autoridade e cor, caracterizando o meio social da época em que cor morena e o perfil da mulher brasileira “eram” mais relacionados à sua sensualidade do que à sua classe social.

Vemos que a descrição da viúva é composta por dualidades estruturais, um discurso que joga com palavras que caracterizam um texto sensorial: pele morena, penujenta, macia, carne, rijeza, dentada. Esse estilo dá à narrativa um quê erótico/sensual por meio do qual o leitor parece ver e tocar a personagem através do narrador.

A posição do narrador onisciente revela-se também nos comentários que fez sobre o primeiro encontro de Luciano e a viúva. Suas impressões em relação a ela são intermediadas pela voz narrativa que assim procede:

(...) ele [Luciano] analisava a viúva. Achava-a com certeza muito menos fresca, mas talvez mais encantadora. Agora tinha a graça consciente, um pouco amaneirada, em todo caso cativante. As faces tinham decaído um pouco, mas o corpo era agora airoso e ondeante. Se as olheiras se haviam acentuado e os cabelos negros estriado de um ou outro fio branco, ao menos o sorriso tornara-se mais fino, mais inteligente e perspicaz, e para ele, homem de sociedade, no saber sorrir estava toda a arte e ciência da mulher de salão (ALMEIDA, 1999, p. 47).

Nesse fragmento, o narrador fornece informações a respeito do próprio Luciano, num discurso permeado pela oposição, caracterizando-se pelo desejo carnal, pelo tom erótico/sensual voltado para o perfil físico. Cabe lembrar que o texto fornece informações a respeito da educação da mulher burguesa, voltada para a questão das aparências, reforçada na referência à mulher de salão.

A mudança de foco do narrador para a personagem Luciano não tira a função do narrador em terceira pessoa, a de onisciência. Dessa maneira, o narrador de A Viúva Simões tece comentários sobre os acontecimentos e as personagens. Ele tem um olhar do contexto da obra e domínio de todas as personagens, vendo-as por dentro, seus pensamentos, receios e desejos, e, por fora, vendo-as em seu aspecto físico e comportamental, apresentando, muitas vezes, um discurso voltado para a sensualidade da protagonista.

Sozinha naquele quarto, em que sua imagem se duplicava, Ernestina estudava os seus movimentos, procurando ao mesmo tempo adivinhar qual seria, entre tantos, o perfume preferido de Luciano. (...) Quem pudesse adivinhar! Ernestina abria os diversos frascos, consecutivamente, chegava-os bem perto, às narinas palpitantes; mas no fundo de todos encontrava o mesmo mistério, a mesma vertigem, a mesma dúvida!
Isso exacerbava a voluptuosidade da moça, irritando-a ao mesmo tempo. Desmanchava com as mãos nervosas, na água simples, as nuvens opalinas das essências e quedava-se depois observando os seus ombros delicados e nus, os seus formosos braços e a maciez do seu colo airoso.
Vestia-se devagar, demoradamente. A lã preta do luto repugnou-lhe; aquele traje áspero e triste não era o que seu corpo desejava. A pele bem tratada queria seda, um contacto macio que caísse sobre ela como uma carícia... (ALMEIDA, 1999, p. 81)
  
Como demonstra o fragmento acima, no romance A Viúva Simões, encontram-se aspectos narrativos cuja significação extrapola o texto, tanto na imagem que se duplicava, quanto no discurso naturalista no qual a cena narrada apresenta-se carregada de uma sensualidade aflorada e materializada em Ernestina.

O espaço doméstico é um dos eixos desta narrativa, pois há nele uma distinção afetiva em relação ao espaço público. Ele é o espaço conhecido da mulher, simbolizando o confinamento do feminino; entretanto, no caso da viúva, é também o ambiente onde ela materializa seus desejos, seus anseios e seus segredos mais íntimos. É no ambiente da sala de visitas da casa que os amantes se encontram:

Conservaram-se por algum tempo afastados, mas as mãos uniram-se outra vez, os olhos procuraram-se e ele beijou-a na fronte, na face, na boca.
Ernestina, meio oculta pela cortina de renda preta, deixava-se abraçar, amolecida, tonta, sem forças para resistir; o busto vergado para Luciano, os braços pendentes, o corpo trêmulo.
Nas paredes cinzentas da sala, os arabescos de ouro cintilavam, como se os milhares de gafanhotos que estampavam no papel as suas asas agudas e suas pernas finíssimas, se embaralhassem numa dança endiabrada!
O gás a toda força chamejava no cristal do espelho, amornando a atmosfera e fazendo uma bulha de sopro surdo, como riso abafado! Toda a energia da viúva tinha fugido. A luz? Que lhe importava a luz?
Ela não via, não pensava, resvalava sem pena nem cuidado, sentindo-se feliz, mais nada! (ALMEIDA, 1999, p. 102-103)

A cena, repleta de imagens sensuais, descreve um jogo de espelhos que mimetiza o cenário da sala. A descrição do ambiente vem acompanhada pelas ações das personagens; os objetos ganham características significativas que fogem à sua utilidade, servindo para explicitar o que se passa no interior da protagonista.

Os objetos, como cortina de renda preta, arabescos de ouro, o gás, funcionam como elementos de erotização da cena descrita, e deixam de ser apenas objetos inanimados para ganhar significados que extrapolam o desenvolvimento amoroso da cena. Há uma sensualidade contida, ocultada nestes objetos que adquirem características humanas e reforçam o aspecto sensual da viúva, inferindo possibilidades interpretativas que representam o feminino dentro de um outro paradigma. Podemos dizer que estas alusões são marcas de resistência na escritura de Júlia Lopes que culminam com a sensação de felicidade da protagonista. A viúva transgride a dicotomia entre o bem e o mal e se apresenta como uma mulher inteira, isto é, uma mulher cheia de demandas que rompem com a expectativa oitocentista do “eterno feminino”.

O espaço do lar é o ambiente em que se passam as cenas descritas. Elas envolvem sensações de foro íntimo de Ernestina e de Luciano e recorrem a um discurso dissimulado nem sempre percebido a leitores desatentos. A linguagem romanesca de A Viúva Simões traz consigo um pudor literário em que “os preceitos do decoro e do bom tom trabalham a favor da ordem e da preservação de uma sociedade moralmente digna” (BRANCO, 1985, p. 30), características marcantes na escrita realista.

A personagem da viúva é apresentada como “tocada pela afecção nervosa”. Ela é descrita por um temperamento frio em contraposição ao seu tipo moreno de brasileira (mestiça), valorizando mais o corpo sensual de mulher erotizada do que a condição de viúva enlutada.

A voz do narrador, de fora do espaço doméstico/familiar de Ernestina, sofre alterações, principalmente, nas informações que dá ao leitor acerca das possíveis intenções de Luciano para com a viúva. Entretanto, fora do espaço privado de Ernestina, assim se coloca:

Como dissera ao Rosas, furtava-se ao casamento, procurando no amor da viúva uma dessas páginas de paixão, freqüentes na vida dos homens. (...)
Não era positivamente como marido que ele queria beijar a boca pequena e rubra da viúva Simões! O corpo esbelto e ondeante da moça, o negro azulado do seu cabelo farto, a doçura dos seus olhos rasgados e úmidos, o moreno quente de sua pele rosada, acendiam-lhe no coração, não amor puro e casto que o homem deve dedicar à companheira eterna, mas o fogo sensual de uma paixão violenta e transitória. (ALMEIDA, 1999, p. 117-118)

A forma como o narrador relata as impressões de Luciano acerca da viúva é bem diferenciada do posicionamento do próprio narrador quando descreve a protagonista, conforme fragmento acima. O discurso narrativo é mais direcionado para a questão sensual, para o desejo carnal, para a realização dos prazeres do corpo, sem a evocação do amor romântico. O narrador constrói um discurso voltado para valores masculinizantes em que a mulher representa o objeto de desejo, de prazer sexual, não levando em conta outros valores que também eram apreciados, na época, como: o de mulher honesta, honrada, de postura social ilibada e reconhecida pela sociedade.

A forma narrativa do parecer de Luciano em relação às personagens da mãe e filha é notoriamente modificada na composição discursiva do narrador ao descrever o olhar da personagem masculina, geradora do conflito que envolve a viúva e sua filha:

Luciano contemplava estático a órfã do seu velho rival. Ela tinha os braços nus, brancos e roliços, estendidos para frente, as mãos sobre as pedras esverdeadas do muro, os olhos entrecerrados acompanhando as ondas, que iam e vinham brandamente, queixosas.
Luciano contemplava-a assim, achando-a bizarra naquele traje quente que envolvia, como uma injúria, o seu corpo delicado e virginal, sentindo-a ao mesmo tempo mais cândida, mais ideal, mais doce do que nunca! Aquela cisma e súbita melancolia da moça tornavam-na como uma imagem de santa milagrosa, que ele tivesse visto surgir por encanto daquelas flores ou daquele mar. Ora desejava vê-la sempre assim, imóvel e serena, ora sentia ímpetos de a beijar, de a morder, de lhe dizer que a amava! (ALMEIDA, 1999, p148-149)

A cena acima apresenta uma descrição de Sara que prima pela delicadeza e sutilidade trabalhadas pelo conjunto sensorial, na qual está inserido na narrativa, numa descrição onde o gesto, o olhar e as palavras estão empenhados em mostrar os aspectos voltados para os sentidos que envolvem a personagem descrita na cena. O narrador revela um Luciano com impressões acerca de Sara bem diferente das que ele tem pela mãe dela: há um misto de santidade e de desejo reforçado pelos elementos característicos da narrativa naturalista.

A narrativa sofre uma alteração na qual a sensualidade vem suavizada pelas comparações de cunho religioso que não só modificam a postura de Luciano como também o conduz por outras veredas do espírito, de certa forma por ele desconhecidas, um amor angelical e inesperado: “o coração abria-se lhe a um sentimento novo de simpatia e de piedade”. (ALMEIDA, 1999, p. 150)

A partir do capítulo XII, Luciano modifica seu comportamento e aparece com mais destaque no contexto da narrativa, pois esta parte do enredo dá os primeiros passos para o desencadeamento do conflito, ou seja, o jogo de Luciano é o causador da tragédia que se abaterá sobre as personagens: mãe e filha.

Luciano se descobre enamorado da filha da viúva, Sara, pois “ele também a preferia para esposa, quereria ser ele a conduzi-la ao altar, a chamá-la -- minha!” (ALMEIDA, 1999, p. 160). O que Luciano sentia pela viúva mudou: “o vulto de Ernestina ia-se esfumando no seu espírito, e numa irradiação de luz ele via Sara, dizendo-lhe na sua grande franqueza: -- Amo-a!” (ALMEIDA, 1999, p.160)

A narrativa mostra que a paixão de Luciano por Sara foi uma revelação da qual ele tinha consciência, mas não controle. Ele não tinha experimentado um amor que fosse além de seu interesse quanto à posição social e às paixões mundanas que envolvem o jogo da conquista e dos prazeres:

Em toda a sua vida era a primeira vez que essa palavra simples [amor] assumia no seu pensamento proporções tão belas! E Sara haveria de sagrar essas três sílabas divinas com as suas qualidades perfeitas, seria a esposa amorável e honesta a quem a mentira repugnasse e o sacrifício aprouvesse! (ALMEIDA, 1999, p. 161)

No trecho acima, o discurso perde a erotização que havia na fala do narrador. Há um retorno para o ideal de mulher direita estabelecido pela sociedade patriarcal, no qual o modelo de mulher honesta estava sujeita à subordinação do “poder do macho”, restrita ao espaço do lar e à vontade do marido.

Há também um parecer de oposição sentimental que se passa no espírito de Luciano, expressa no texto abaixo, pelo jogo amoroso que envolve o idílio sentimental entre a viúva e sua filha:

(...) Entretanto, percebia bem: se Ernestina era para ele a mulher de fogo que lhe queimava a carne, a filha era mulher de luz benéfica que lhe iluminava o futuro, e ele amava a ambas, a uma com os sentidos, a outra com o coração (ALMEIDA, 1999, p. 161).

O clímax do dilema vem à tona quando o narrador esclarece que esse parecer de Luciano se justifica num jogo dicotômico, ou seja, se, por um lado, a viúva era a           mulher de fogo que simbolizava o desejo carnal, por outro, Sara representava o anjo, a mulher sensual e romântica:

Desde os tempos antigos, da sua primeira paixão, que ele fugira por medo!...
A beleza de Ernestina era então de uma singularidade atormentadora!
Vira sempre nela a tentação da carne, chamando-a por isso, de: -- virgem inconscientemente pecaminosa! Nunca lhe ocorrera dar-lhe uma flor. Se pensava em presenteá-la, vinham-lhe á idéia pedrarias caras, engastadas em metais rijos e vistosos.
A não ser como amante, lasciva e ardente, ele só podia conceber Ernestina casar-se com um príncipe poderoso ou um desses homens fantásticos, das lendas, que a vestisse de roupas suntuosíssimas e a fizesse servir em baixela de ouro. Era a mulher destinada, pela sua formosura emocionadora, ao luxo, à grandeza e ao amor.
Não que seu rosto fosse de linhas puras, nem que suas palavras denunciassem a volúpia; aquele ardor, aquele domínio, vinham da sua pele, do seu olhar, do seu porte e do seu sorriso. (ALMEIDA, 1999, p. 180)

Nessa passagem, é importante destacar que os elementos da prosa realista/naturalista, em oposição à prosa romântica, constituem uma imagem feminina poderosa, marcada por seus elementos raciais e por uma sedução quase ou até natural/espontânea. Ernestina não é caracterizada nem pela leviandade lasciva da prostituta, nem pela idealização da beleza, da bondade e do espírito magnânimo da mulher idealizada pelo patriarcado. Ela se constitui como uma pessoa, ela tem sua humanidade preservada através dos conflitos que vivencia e da resolução destes em atendimento às demandas da sua condição de mulher burguesa, de mãe e, sobretudo, de um ser responsável pelos que ama.

Ainda em relação ao excerto acima, notamos que a personagem masculina recorre à sua memória discursiva e mostra que seus sentimentos em relação à viúva não sofreram modificações, mesmo com o passar dos anos: Luciano ainda a vê com grande erotização, mulher de fogo, voluptuosa, lasciva “uma beleza de espantar maridos”.

A partir daí, o foco narrativo passa para outra representação das personagens, pois, principalmente no que tange a Luciano, há aparentemente uma modificação quanto à sua postura em relação às mulheres até aquele momento. A personagem que anteriormente se apresentara mais preocupada e decidida em atingir seus objetivos, caprichos e desejos, agora mostra uma atitude distinta em relação ao seu envolvimento com a viúva e sua filha: ”pobre mulher! Pensava Luciano com infinita tristeza. E sentia uma dor incompreensível, que seria talvez o remorso, imaginando que no fundo a causa de tudo aquilo... era ele!” (ALMEIDA, 1999, p. 182)

A provável redenção de Luciano, sugerida pelo narrador, se dá através das doenças que recaem sobre as duas personagens, mãe e filha:

Luciano entrava [com] medo no quarto da viúva, esperando sempre uma recriminação, temendo também exacerbar-lhe o mal. A sua consciência não o deixava à vontade entre aquelas duas mulheres enfermas. Entretanto, não se afastava dali, daquela casa. (ALMEIDA, 1999, p. 194)

Poderíamos, numa percepção ingênua, ser levados a pensar que a culpa e o remorso sugeridos no enredo fazem com que Luciano fique transitando no espaço doméstico da viúva, entre um quarto e outro, onde as personagens se encontram acamadas. Porém a nossa análise desta suposta redenção de Luciano apresenta-se mais como um traço de resistência na escrita deste romance, pois entendemos que a volta de Luciano para a Europa ratifica seu velho comportamento, ou seja, a fuga.

Ernestina fica sozinha para cuidar de si e de Sara.

O diálogo entre D. Candinha, senhora que ajudava a cuidar das doentes, e Luciano retrata, de certa forma, a opinião feminina em relação à postura dos homens e seus valores no plano da continuidade da vida, quando algo trágico se abate sobre seus destinos.

Concluindo uma série de reflexões quaisquer, Luciano murmurou a meia-voz, levantou-se:
-- Decididamente hei de morrer solteiro...
-- Está falando sozinho? Perguntou-lhe D. Candinha, que havia chegado sem ser pressentida.
-- Falei alto? Não admira, estou meio maluco... respondeu ele sorrindo.
-- É preciso ter cuidado... as paredes têm ouvidos... e...
-- Está tudo acabado...
-- Para Ernestina e para Sara, com certeza.
-- E para mim.
-- Isso... duvido! Conheço os homens, as impressões neles não duram como em nós... (ALMEIDA, 1999, p. 206)

O fragmento apresentado acima tem uma peculiaridade, uma vez que o diálogo entre as personagens se dá sem a mediação do narrador. A nosso ver, o discurso direto que aí se estabelece é proposital, pois, com esse recurso, o autor se isenta de qualquer responsabilidade ao sugerir, na voz da personagem D. Candinha, que os homens são levianos. Entendemos isso como uma estratégia, na fala da personagem feminina, como uma forma de questionar os valores vigentes.

A questão está, portanto, acabada para as personagens femininas que, em uma narrativa circular, retornam ao espaço doméstico, humilhadas e punidas por terem ousado transgredir o “status quo”: uma é punida pelo seu desejo e a filha, vitima de sua própria inocência, de sua primeira paixão; a primeira por ter desafiado as normas sociais vigentes; a segunda por não ter conseguido suportar a quebra das normas pré-estabelecidas.

Ao homem, no caso Luciano, as impressões são transitórias e nada como o tempo para sará-las. Isso acontece logo em seguida quando Ernestina acompanhava do terraço de sua casa o “paquete transatlântico, que demandava a barra, levando Luciano para a Europa”. (ALMEIDA, 1999, 209)

Finalizando, percebe-se que o narrador funciona no texto da obra, A Viúva Simões, como uma espécie de demiurgo. Ele sabe mais do que o leitor, sabe mais do que as personagens e menos do que D. Candinha: “– Isso... duvido! Conheço os homens, as impressões neles não duram como em nós ...” (ALMEIDA, 1999, p. 206).

É este narrador que opera uma distinção entre o enunciado e a enunciação, entre significante e significado no contexto da obra ficcional; é ele que repassa à obra a verossimilhança, os aspectos de análise e de compreensão da obra literária.

No caso de A viúva Simões, é, principalmente, pela voz do narrador que percebemos a sensualidade da viúva. É também através dessa voz narrativa que a autora consegue transgredir alguns preceitos pejorativos que acompanharam aescritura feminina fora do contexto do trivial, do doméstico. Júlia Lopes de Almeida consegue construir um narrador que conduz a trama da viúva de forma direta, sem subterfúgios, como seria esperado de um romance realista/naturalista.

As personagens são conduzidas, guiadas pelo narrador para representar a condição feminina no final do século XIX. Narrador criado pela pena de uma escritora que, através da voz narrativa, insere um diferencial de escrita na literatura brasileira oitocentista. No contexto da literatura de autoria feminina, não havia surgido, até então, uma narrativa com a trama inteiramente voltada para a composição da personagem feminina.   A Viúva Simões, romance escrito por uma mulher, com a composição de personagens femininas densas, é dirigido para um público não somente feminino, mas para um público que sabia o valor do bem escrever: Júlia Lopes colocava este romance da literatura realista/naturalista ao lado das obras do renomado Aluísio de Avezedo.


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Fonte:
Romair Alves de Oliveira: “A escritura de resistência em Júlia Lopes de Almeida, A Viúva Simões.” (Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras do Centro de Ciências Humanas, Letras e Artes da Universidade Federal da Paraíba, como requisito para a obtenção do título de Doutor em Letras (Área de Concentração: Literatura e Cultura). Orientadora: Profª Drª Nadilza Martins de Barros Moreira). João Pessoa, 2008.

A Falência, Júlia Lopes de Almeida

 A Falência, Júlia Lopes de Almeida
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A família em A falência – papéis sociais em jogo


O estudo sobre a família constitui-se como um tema complexo a ser analisado a partir de uma visão global. É preciso ter em mente as mudanças que caracterizaram as famílias ao longo dos séculos. Neste caso, deve ser considerado que a estrutura familiar se ajustava de acordo com a classe a qual pertencia, fato tal que diferenciava a absorção das regras sociais de modo a servirem às suas conveniências mais urgentes.

Assim, certas normas extremamente importantes em uma família burguesa, poderiam, por exemplo, não gozar de tanta consideração em uma família de camponeses.

O que realmente chama atenção é o fato de que a família constitui-se como um organismo vivo, constituindo-se como excelente fonte de pesquisa por representar um reflexo da vida em sociedade, seus costumes, suas mudanças.

Segundo Maria Lúcia Rocha-Coutinho em Tecendo por trás dos panos “a família humana é uma construção social, uma superação da família biológica (macho-fêmea-crias)” (1994, p. 27). Partindo dessa visão podem ser analisadas as relações que se constituem dentro desta instituição; faz-se necessário um entendimento sobre a construção ideológica fomentada no meio familiar, reservando espaços diversificados aos membros que dela pertencem. Além disso, as próprias leis sociais, que vão sendo gradualmente incorporadas pela sociedade são, na maioria das vezes, frutos de idéias que se cristalizaram dentro da família.

Assim, a família vai se constituindo como um espaço aberto pelo sexo e pelo poder, e o melhor exemplo desta afirmação reside nas relações existentes dentro da chamada família patriarcal que por tanto tempo, dominou o cenário social brasileiro.

De acordo com Elizabeth Badinter, “o patriarcado não designa somente uma forma de família baseada no parentesco masculino e no poder paterno. O termo designa também toda uma estrutura social que nasce de um poder do pai” (BADINTER, 1986, p. 95).

Como já foi ressaltado no segundo capítulo, o patriarcado reservou à mulher um papel secundário na sociedade. A viabilidade de uma vida fora do círculo familiar só era conquistada através da presença e da concordância do pai ou do marido. Assim percebe-se que a relação entre o homem e a mulher no patriarcado é marcada pela assimetria de poder, promovendo as desigualdades entre os sexos.

É importante notar que a distinção existente entre os membros da família, colocando o homem como centro dessa instituição, reside essencialmente no problema da herança e na necessidade de ser assegurada a transmissão dos bens aos filhos legítimos. Para tal, era preciso manter a mulher enclausurada na esfera do lar, “transformada em esposa tutelada e subordinada” (ENGELS, 1987, p. 59), a fim de evitar qualquer dúvida quanto à paternidade da prole.

De acordo com Rosaldo e Lamphere “o fenômeno do capitalismo não reside em regular as ordens econômicas e políticas, mas comportamentos relativos a homens e mulheres, delimitando valores diferentes para o masculino e o feminino” (LAMPHERE; ROSALDO, 1979, p. 75).

Confirma-se então a ideologia do gênero como sendo um produto cultural, impedindo o direcionamento dos membros da família a outros papéis que não sejam os pré-determinados pela sociedade.

Esta estrutura familiar, durante muito tempo, fez parte do cenário social brasileiro. O estilo de colonização difundida no Brasil, baseada na exploração dos recursos naturais da terra, originou uma economia de base latifundiária e escravocrata, que em muito contribuiu para a consolidação da autoridade paterna e, por conseguinte, a dependência dos outros membros da família de tal figura.

A principal característica desse tipo de família residia no tipo de organização familiar, centrada fundamentalmente no núcleo domiciliar para “onde convergia a vida econômica, social e política” (SAMARA, 1998, p. 11). O símbolo da casa grande passou a ser associado à estrutura da família patriarcal, visto que o pai, a fim de conservar seus vínculos políticos, procurava manter sob sua tutela um número infinitos de agregados e parentes, que se colocariam como seus aliados definindo uma rede vasta de interesses.

Júlia Lopes de Almeida retrata muito bem as características dessa estrutura familiar em A família Medeiros. Nesta obra, encontra-se a figura do pai autoritário representado pelo comendador Medeiros, homem que não foge aos padrões tradicionais, procurando manter seus interesses políticos e econômicos junto a outros senhores de fazenda, entre os quais o Coronel Tavares, o fazendeiro Siqueira Franco, o Trigueirinhos, “homens capazes de intrigas, traições e assassinatos para manter suas posições e convicções” (SALOMONI, 2005, p. 178).

Na época em que tal romance foi escrito, a sociedade brasileira passava por uma série de transformações. Novas idéias vindas do exterior procuravam enaltecer valores relacionados à família, valorizando a vida conjugal e uma maior privacidade entre seus membros.

Na verdade, as próprias mudanças estruturais ocorridas a partir da chegada da Família Real no Brasil, contribuíram para a divulgação de informações que reafirmavam a necessidade de mudança em nossos costumes. Com a remodelação do Rio de Janeiro pelo Prefeito Pereira Passos, em meados do século XIX, a população vai sendo contagiada pela nova ordem urbana, que edificava pouco a pouco, um pensamento reformador, baseado sobretudo no desenvolvimento social do país.

Este panorama vai abrindo espaço para novas formas de socialização que acarretaram a solidificação da família nuclear burguesa.

De acordo com Érica Schlude Ribeiro, “a nova mentalidade reorganizou as vivências familiares, a forma de pensar e sentir o amor, valorizando o lar e a maternidade” (1999, p. 17). A família torna-se o espaço de valorização da intimidade e a casa vai ganhando características de lar, sendo o espaço familiar o local onde o homem encontra sossego e aconchego. A mulher, glorificada no papel de mãe, assume o controle do seu lar, procurando garantir a ordem e o conforto necessários à preservação da paz familiar. Na verdade, pode ser observado que a posição da mulher junto à família em nada muda seu status na sociedade – ela continua enclausurada no lar, dependente da figura do marido. Assim, pode-se dizer que "as mulheres continuavam sob o regime de dominação e submissão, na situação de serem protegidas e mantidas. Não gerenciavam suas vidas, os maridos cuidavam de seus bens" (PORCHAT, 1992, p. 110).

De qualquer forma, vale ressaltar que mesmo começando a realizar o sonho do casamento por amor, a mulher continua presa aos mesmos costumes de quando solteira, passando ao controle do marido, “o pai social” (CAVALCANTI, 1987, p. 144).

"Acostumada à sujeição e à obediência, a mulher, pupila eterna do homem, não muda de condição ao passar do poder do pai para o do marido... Vive enclausurada em meio das mucamas, sentada no seu estrado, a coser, a fazer renda e a rezar as orações: os bons costumes em que resume a sua educação" (MACHADO, 1930, p. 155).
  
Nessa época, o dote vigorou como um dos principais instrumentos de garantia de casamento para a mulher, servindo como uma espécie de auxilio nas despesas do matrimônio. Desta forma, homens se casavam com a moça que tivesse dote, e ela com o homem que provasse que poderia sustentá-la.

Aliás, é confiando na possibilidade de ser sustentada eternamente pelo marido, que muitas moças se resignaram em aceitar os acordos pré-nupciais que as levariam rumo a um casamento sem amor. A possibilidade de permanecer solteira aterrorizava as moças, pois de qualquer forma, amando ou não o marido, ao se casarem elas conseguiam um status diferente daquelas que permaneciam solteiras. Assim, a “identidade da mulher passa a ser definida a partir de sua condição civil. Não é a mulher que é valorizada e reconhecida como pessoa, mas é o papel de esposa que lhe dá uma imagem social ...” (CAVALCANTI,1987, p. 110).

É nessa fase de transição entre casamento-negócio, casamento-amor, que Júlia Lopes de Almeida constrói o cenário do romance em estudo A falência. Ela mostra uma incrível percepção do meio em que vive, ao apresentar em sua narrativa personagens tão envolvidas com os modelos pré-determinados pela sociedade.

Logo nas primeiras páginas tem-se o contato com o mundo público, espaço marcado pelo trabalho e restrito ao mundo masculino. Corria então o ano de 1891, e o comércio do café crescia em grandes proporções, tornando-se um dos negócios mais cobiçados por aqueles que desejavam constituir riqueza.

Percebe-se que o mundo público descrito pela autora é essencialmente construído pela presença masculina. É nesse espaço que se encontra Francisco Teodoro, português bem sucedido que enriqueceu às custas do seu trabalho. É através da figura de tal personagem que Júlia Lopes irá apresentar o pensamento corrente entre os homens da época, limitado por um discurso tradicional que designava valores distintos para homens e mulheres, ajudando a reforçar a ideologia do gênero.

Assim, contrapondo-se a esse mundo público, encontra-se o espaço do lar, o mundo privado, marcado pela suntuosidade do palacete da família Teodoro. Chega-se então ao ponto chave do romance: a presença da família, um dos temas de maior referência na obra de Júlia Lopes.

É através da observação dos moldes familiares, que Júlia sutilmente se propõe a revisar certos valores que impediam o desenvolvimento da estrutura familiar. Em   A falência, encontramos alguns questionamentos sobre os papéis tradicionais que definiam as relações dentro da família, tais quais o casamento por conveniência, o ócio feminino dentro do lar, a ausência paterna.

Ao longo do romance, podem ser percebidas algumas nuances que levam a visualizar as imagens de uma típica família burguesa no final do século XIX: Francisco Teodoro, marido e pai da família, coloca-se como o ser soberano de sua casa.

Fartura e conforto eram os principais lemas de sua existência, baseada em uma ambição desmedida que será a causa de sua ruína financeira ao final do romance. Além disso, ao fundamentar sua vida na importância de sua fortuna, Teodoro torna-se um ser ausente, e sem perceber, acaba sendo o causador de problemas familiares, entre os quais a vaidade e adultério de sua esposa e a falta de caráter do filho.

Porém, importava ao homem da época a sua posição na sociedade e, Francisco Teodoro não fugia à regra. Sua reputação havia sido cristalizada principalmente pela riqueza produzida pelo seu trabalho. Esta obsessão em ser reconhecido socialmente será um dos motivos pelo qual ele se sentirá incentivado em contrair casamento. Junta-se a esse motivo, a preocupação em resguardar sua expressiva fortuna através de gerações que carregassem o seu nome: “Para o que lhe serviria o que juntara se o não compartilhasse com uma esposa dedicada e meia dúzia de filhos que lhe herdassem virtudes e haveres?” (ALMEIDA, 2003, p. 44).

Tal comportamento remonta a tese de Engels em A origem da família, da propriedade privada e do estado. Segundo o autor, “o poder que essa propriedade confere aos homens que a possuem, define o fato de que os homens querem transferir essa propriedade a seus filhos varões” (ENGELS, 1987, p. 53). Assim, levando em consideração as palavras de Engels, na qual o termo “propriedade privada” significava “propriedade de um indivíduo ou de uma família, onde os direitos de dirigi-la cabe a um dos proprietários” (1987, p. 51), nota-se que a ordem pela qual a família por muito tempo se viu constituída, baseou-se em uma estrutura capitalista que preocupava-se sobretudo com os bens e com a herança.

A aflição de Francisco Teodoro em relação à manutenção de seus bens pode ser explicada pela amargura de uma infância pobre, sem instrução e cheia de limitações: “A pátria esquecida não lhe acenava com o mínimo encanto: a mãe morrera, a sua única irmã tinha-se recolhido a um convento. Fechara-se uma porta sobre a sua meninice” (ALMEIDA, 2003, p. 43). O matrimônio, em A falência, em nenhum momento é associado à referência do amor, tanto que a idéia do casamento de Francisco Teodoro é sugerida por um médico para a “regularização de hábitos”. Vemos aqui mais uma função da família, além de assegurar a perpetuação da espécie e de garantir a herança: regularizar hábitos.

Além disso, existe o problema da solidão, que começa a ser sentida pela personagem ao perceber que em sua confortável casa na rua da Candelária “lhe faltava alguma coisa” (ALMEIDA, 2003, p. 44). Essa concepção é dirigida à falta da presença feminina, que também é abordada em outro romance de Júlia Lopes,     A intrusa, através das palavras da personagem Argemiro “uma casa sem mulher é um túmulo com janelas: toda vida está lá fora”. (ALMEIDA, 1994, p. 3)

O Positivismo, corrente filosófica largamente difundida na época da publicação do romance, condena de forma veemente o celibato. Segundo Marina Colasanti em seu livro A nova mulher, o solteiro para José de Alencar é uma espécie de aleijão social (1980, p. 177).

Assim é feito o casamento de Francisco Teodoro com Camila, por meio de Mattos, amigo de Teodoro, que propôs todos os arranjos necessários à união do futuro casal. Tais acertos colocavam em questão as vantagens financeiras que garantiriam definitivamente a realização do matrimônio.

Apesar de existirem outras meninas na família, Camila foi a escolhida por ser "a filha mais velha e a mais instruída" (ALMEIDA, 2003, p. 46). Nota-se que a autora deixa subentendido que a necessidade em casar Camila relacionava-se a sua condição civil, já que sendo a filha mais velha, não poderia permanecer solteira por muito tempo.

A mãe de Camila, com “ares de rainha destronada” (ALMEIDA, 2003: 47), cumpre seu papel, sabendo encaminhar Camila rumo a um casamento lucrativo, de modo que a filha tenha garantido seu futuro através da proteção masculina. Em alguns momentos da conversa entre D. Emília e Francisco Teodoro, pode ser percebida a nítida intenção da senhora em oferecer a filha tal qual uma mercadoria a ser apreciada: “E a mãe começou a falar com um ar de sinceridade muito demonstrativa. A cada instante o nome de Camila saia-lhe da boca como um elogio” (ALMEIDA, 2003, p. 46).

Esta idéia da mãe como uma negociadora do futuro da filha é encontrada de forma corrente na obra de Júlia Lopes de Almeida. Em A intrusa, temos a figura da personagem Pedrosa, empenhando todos os seus esforços em arranjar um casamento lucrativo para a filha. O mesmo fato ocorre em Memórias de Marta, como já citado anteriormente, porém, com uma maior preocupação quanto à reputação da filha. No romance A viúva Simões, a protagonista da narrativa, Ernestina, influenciada pelos apelos de Luciano, seu namorado, empenha-se em arranjar um casamento de valor para a filha Sara.

Percebe-se em Camila uma certa condescendência em relação à forma pela qual seu matrimônio fora arranjado. Ela mesma colocara-se diante do pretendente personificando o perfil de mulher da época: quieta e prendada.

Camila será, então, mais uma personagem na literatura brasileira do século XIX a contrair o chamado “casamento de conveniência”, tal qual Virgília, personagem de Machado de Assis em Memórias póstumas de Brás Cubas, que realiza um casamento de “maiores vantagens e menos amor” (MACHADO apud BERNARDES, 1998, p. 61). Porém, há de se notar a diferença de necessidade entre as personagens de Machado e Júlia Lopes, visto que Camila precisava casar para obter segurança para o futuro e, Virgília casa para continuar mantendo sua situação abastada.

 Apesar de haver certa empatia entre o casal, percebe-se que a união entre Camila e Francisco Teodoro encontra-se longe de designar uma relação baseada no amor. Nota-se, também, que embora haja a escolha por parte de um dos cônjuges (neste caso, o homem), o conhecimento pré-nupcial (sob constante vigilância dos pais e parentes) foi insuficiente para que fossem criados laços de amizade e intimidade.

Na verdade, mais do que o arranjo financeiro propriamente dito, a possibilidade do casamento resguarda expectativas diferentes para homens e mulheres. Os homens “desejam para esposa a mulher elegante, uma  lady, como um cartão de visitas que desempenhe profissionalmente o papel de esposa” (MURARO, 1996, p. 94).Observa-se tal fato na própria narração do romance; mesmo com o passar dos anos, Camila era apontada por todo o Rio de Janeiro como uma mulher formosa, fato tal que enchia Francisco Teodoro de orgulho e vaidade. Além disso, homens como Francisco Teodoro esperam ainda que a mulher dê a luz a um filho varão, dando continuidade ao nome da família.

Já as mulheres, segundo Simone de Beauvoir “procuram um homem que lhes pareça superior a todos os outros, pela posição, mérito, inteligência; querem-no mais velho que ela, tendo já conquistado um local de destaque na sociedade” (BEAUVOIR, 1980, p. 87). A tia de Camila, Itelvina, inveja a sorte da sobrinha ao admitir que “Mila deveria adorar o marido de joelhos! Nesse tempo já não é fácil uma moça pobre e sem proteção encontrar um marido assim!” (ALMEIDA, 2003, p. 63).

Formalizada a união, nota-se o afastamento dos cônjuges, com os anos de convivência. Ambos reproduzem socialmente uma relação de aparências, fingindo viver o casamento perfeito. Aos olhos da sociedade, este ideal familiar constituía-se mais pela presença da fortuna que pelo entendimento entre marido e esposa.

Teodoro, no início do casamento, vive relações extra-conjugais, assim como Camila, que após certo tempo de casada, acaba envolvendo-se com o médico da família, o doutor Gervásio.

A protagonista, apesar de levar uma vida humilde enquanto solteira, afeiçoa-se rapidamente ao conforto produzido pelo trabalho de Francisco Teodoro. Suas origens vão sendo gradativamente esquecidas, assim como suas visitas à casa das tias no morro do Castelo, local onde havia residido antes de casar-se com Teodoro.

A vaidade da protagonista é ainda enaltecida pela autora através de toaletes nobres, que favorecem sua graça e elegância. Por outro lado, Teodoro começa a contrastar com a figura da mulher, ao se deixar levar pelo vício do trabalho e pela ambição em constituir maiores fortunas, encarnando, segundo as palavras de Elódia Xavier, o “burguês do famoso poema de Mário de Andrade (“Ódio ao burguês”): ‘o burguês níquel, o burguês-burguês’, o que algarisma os amanhãs” (XAVIER, 1998, p. 18).

A riqueza passa a ter um duplo objetivo: além de fornecer conforto à família, também serve como uma espécie de exibição junto à sociedade. A casa da rua da Candelária, dos primeiros tempos de casados, é substituída por um suntuoso palacete em Botafogo. A casa está sempre aberta a grandes jantares, festas e recepções, onde Camila tem a oportunidade de exibir sua fina toalete e Francisco Teodoro, a fortuna, pela qual enchia sua mesa com variadas iguarias que encantavam as visitas

“Queria tudo à larga. Era uma casa a sua em que as roupas, as comidas e as bebidas atafulhavam os armários e a despensa até a brutalidade. Dizia-se que no palacete Teodoro os cozinheiros enriqueciam e que a vigilância trabalhosa de Nina não conseguia atenuar a impetuosidade do desperdício” (ALMEIDA, 2003, p. 209).

Assim, todas as terças-feiras, a conselho do Dr. Gervásio, era o dia destinado às reuniões de convidados no palacete dos Teodoro, mostrando que “o dinheiro à custa do trabalho gosta de impor-se à admiração alheia” (ALMEIDA, 2003, p. 53).

Tal procedimento era comum entre as famílias mais abastadas do século XIX, “as casas mais ricas abriam-se para uma espécie de apreciação pública por parte de um círculo restrito de familiares, parentes e amigos” (D’INCAO In: PRIORE, 2000, p. 228).

Esta também era a oportunidade da mulher em mostrar-se como boa anfitriã, e ainda por cima, demonstrar seus dotes femininos em relação à organização e o capricho com seu lar.

Segundo Maria Lucia Rocha-Coutinho, a mulher “teria um papel decisivo na elevação social do marido” (ROCHA-COUTINHO, 1994: 102).

Camila representa o modelo de mulher vaidosa. Sua conduta é alvo de recriminações de sua própria tia Joana, que a condena não só por viver uma relação adúltera, mas também pela sua falta de religiosidade: “Camila vai a missa só para se mostrar. Basta ver como ela se enfeita” (ALMEIDA, 2003, p. 66).

Francisco Teodoro prefere manter a distância necessária da família de Camila, a fim de manter não só a soberania sobre seu lar, mas também evitar maiores pedidos de favor que poderiam vir das tias, que ainda moravam no Rio. Ele já se contentava em ter que mandar grandes somas de dinheiro para Sergipe, visando o sustento da família de Mila: “Um sorvedouro, aquela família, sempre exalando lamúrias em todas as cartas, na sede insaciável de dinheiro” (ALMEIDA, 2003, p. 48).

Ainda em relação aos problemas familiares, por algum tempo Teodoro fora obrigado a conviver com o irmão de Mila, Joca, em sua opinião, um vadio, “causador de tantíssimas querelas!” (ALMEIDA, 2003, p. 49), entre ele e Camila, e perturbador da ordem familiar.

A figura intratável de Joca marca não somente o desrespeito das regras familiares, como também a irresponsabilidade paterna. Ao arranjar uma filha com uma mulher de vida duvidosa, prefere abandoná-la aos cuidados dos tios, não se preocupando com o destino que essa poderia vir a ter.

Nina, filha de Joca, não é considerada da família, principalmente por ser fruto de um amor venal. Ela não passa de uma serva, cumpridora dos seus deveres domésticos, estando sempre disposta a cuidar, proteger e vigiar, principalmente as crianças.

Por ser considerada como uma bastarda aos olhos da sociedade, Nina permanece solteira. Aos vinte e cinco anos, apaixonada pelo primo Mário, e invisível dentro do lar, ela não vê saída para sua vida, a não ser continuar presa aos laços daquela família, que bem ou mal, a havia acolhido ao ser abandonada pelo pai.

O amor platônico pelo primo é apenas mais um dos motivos de sua amargura. Resignada, ela aceita o seu destino, sabendo que nunca teria condições financeiras ou morais de realizar o sonho do casamento por amor com alguém tão importante como Mário.

Teodoro chega a cogitar a possibilidade de casar Nina com Capitão Rino, visto que ambos eram humildes e possuíam um passado problemático. Se a sobrinha era uma mera bastarda, Rino era órfão e, em condições muito desfavoráveis, pois sua mãe havia sido assassinada por motivo de adultério.

O problema em ter uma filha solteira é também motivo de desgosto para o velho Motta. Ao ver a filha chegar aos trinta anos, ele chega a bajular um dos empregados da casa, Joaquim, com a intenção de casá-lo com sua filha, Emília.

Por outro lado, Júlia mostra-nos uma outra visão em relação a mulher celibatária, através da personagem Catarina, irmã do Capitão Rino. Considerada por Francisco Teodoro como portadora de idéias muito progressistas para uma mulher da época, ela decide se preservar solteira, muito em parte pela observação do fracasso que havia sido o casamento de seus pais.

A jovem mostra-se a favor da emancipação da mulher, fato que desagrada Francisco  Teodoro com seu pensamento extremamente positivista. Ao ser questionado por Catarina sobre a falta de instrução comum nas mulheres da época, Teodoro é enfático ao admitir que as mulheres  não conhecem o mundo. Começa assim, a proferir seu pensamento sexista, defendendo uma  posição subordinada para as mulheres:

“Minha senhora, eu sou da opinião que a mulher nasceu para ser mãe de família. Crie os seus filhos, seja fiel ao seu marido, dirija bem a sua casa, e terá cumprido a sua missão. Este foi sempre o meu juízo, e não me dei mal com ele, não quis casar com mulher sabichona” (ALMEIDA, 2003, p. 132).

O interessante nessa cena é que nem Mila ou Ruth contestam a visão de Francisco Teodoro. Em parte, podemos considerar o comportamento de ambas como parte do medo feminino em contrapor-se às opiniões do chefe da família. Por outro lado, percebemos a falta de instrução feminina, impedindo a mulher de questionar os conceitos masculinos e, conseqüentemente, de refletir sobre a sua posição na sociedade. Este comportamento padrão reflete o pensamento de Francisco Teodoro, segundo o qual “é nas medíocres que se encontram as esposas” (ALMEIDA, 2003, p.132).

É também por causa dessa concepção machista, que Catarina prefere manter o seu celibato. Apesar de viver com a madrasta, com quem mantém um sentimento não muito amistoso, ela continua a levar sua vida, prezando sua liberdade. Apesar de suas idéias avançadas, a irmã de Rino não foge muito ao padrão da mulher da época. Acaba, pois, cumprindo papéis femininos ao se afeiçoar a certas prendas domésticas como a jardinagem e a costura, pois “o que mais havia de fazer?” (ALMEIDA, 2003, p. 201).

 Por fim, existe um aspecto extremamente positivo no relacionamento de Catarina e Rino: ambos possuem a mesma ideologia e partilham das mesmas tristezas outrora sentidas na infância, com o assassinato da mãe pelo pai. Sentimos uma relação de profunda igualdade entre eles, apontando para uma mudança da visão padronizada que separava os sexos.


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Fonte:
Viviane Arena Figueiredo: Júlia Lopes de Almeida: O Adultério Feminino em A Falência. (Dissertação (Mestrado em Letras Vernáculas, sob orientação de: Profª. Drª. Elódia Xavier) — Faculdade de Letras, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2006.