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23/12/2015

Quatro Pessoas, de Mário de Andrade

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UM SENTIMENTO NACIONAL

Esteticamente, Andrade (1995a, p. 16) define o Belo como um prazer desinteressado e imediato despertado pela empatia entre o sujeito e o objeto, intermediada fisiologicamente pelos sentidos que determinam os afetos provenientes da sensação de prazer ou desprazer produzida por meio da “atitude de contemplação pura”. Notadamente, a concepção de Belo e de Arte que reproduz em suas aulas deriva, como o academicismo e o modernismo institucionalizado no Brasil, da filosofia kantiana, que o autor aparentemente identifica com o platonismo ao observar que Platão caracteriza o Belo como um deslumbramento na medida em que o define como um “esplendor da Verdade” diante do qual toda necessidade desaparece. Assim, como uma ideia moral, ao lado do Bem e da Verdade, Andrade (1995a, p. 6) reconhece o Belo como um elemento de “normalização do homem” que o satisfaz espiritualmente em sua relação com o corpo humano.

Para o autor, as sensações provocadas por determinados fatores elementares, como o som, o volume, a linha e a cor, constituem sensações “puramente sensuais”, ao passo que as sensações “mais elevadas” constituem, por sua vez, organizações de determinados elementos segundo a forma e a sua universalidade, o que permite ao intelecto julgar o Belo, compreendido como um “sentido superior” desprovido de necessidade e interesse imediato (ANDRADE, 1995a, p. 15). Mas ao resumir as concepções dos estetas provenientes da filosofia e da fenomenologia, eventualmente compreendidas sob o influxo de suas leituras de Freud, observando que a finalidade da arte deriva da universalidade do mundo fenomenal, a qual, apoiada na empatia entre o sujeito e o objeto que precede a sensação do Belo, deve regular a arte compreendida como representação do mundo, Andrade (1995a, p. 18) exclui a arte musical, cujos fatores elementares se configuram como criações puramente humanas, conclui.
  
Ao afirmar que a filosofia do Belo consiste somente em um conhecimento abstrato que impossibilita gozar a arte em toda a sua plenitude e finalidade, Andrade (1995a, p. 78-79) reivindica o aspecto sensorial do sentimento do Belo, a fisiologia dos sentidos censurada pela filosofia. Ao se ater ao aspecto sensorial da recepção musical e propor ao sentido sensual um sentido intelectual, a nacionalização musical marioandradina valoriza a atitude receptiva interessada e, por conseguinte, o corpo: “Nada de teorias precisas e claramente organizadas: o artista deve ter uma ‘estesia’” (ANDRADE, 1989, p. 30), preceituaria vinte anos depois, por meio de seu personagem Janjão, o modernista cujo interesse pelos comportamentos humanos coletivos provocados pelo contato musical, em função da construção de “‘uma arte que interessasse as massas e as movesse’” (ANDRADE, 1989, p. 30), o induz a se debruçar sobre um campo da pesquisa musical estranho para as Belas Artes, sacralizada, segundo o autor, em um momento definido e associado aos prazeres puros e profundos.

Afinal, a contemplação desinteressada das Belas Artes exige, como prescreve Baumgarten (1993, p. 109), a ascese. A ascese, que constitui uma condição para a temperança na Antiguidade, representa um tema recorrente entre os estetas a partir do setecentos, sobretudo para Schopenhauer (2005, p. 486), para quem assumiria a forma da “negação da Vontade de vida”18 por meio do conhecimento que, como quietivo de todo querer ou simplesmente como “quietivo da Vontade”, produziria a resignação (SCHOPENHAUER, 2005, p. 502). Nesse sentido, o estado de contemplação desinteressada do belo significa um instante de ascese em que o sujeito se liberta da Vontade e de si mesmo. Assim, a noção kantiana de desinteresse condiz com um estado de suspensão dos interesses do corpo na contemplação da representação do belo (KANT, 2010, p. 55).

Em contraposição, a estesia reivindicada por Andrade denomina a etapa da recepção sensorial que compreende o contato com uma obra de arte e os efeitos provocados pelo referido contato sobre o corpo. A estesia equivale, portanto, a sensações produzidas fisiologicamente, como a comoção que precederia o julgamento cognitivo (ANDRADE, 1989, p. 79-80), caracterizada por uma imediaticidade e uma tactilidade geral que psicologicamente deve visar, conforme preceitua Janjão, a uma caracterização racial. Mais, portanto, que simplesmente “um gozo sensual”, como reitera Siomara Ponga (ANDRADE, 1989, p. 134). Assim, a criação musical brasileira deve ser fisio e psicologicamente nacional, ou seja, fisiologicamente imediata e interessada, e psicologicamente caracterizada pela determinação da sensação sonora da qual decorre a dinamogenia, o movimento corporal resultante de um ato reflexo.

Ainda em meados dos anos 1920, ao se insurgir contra a afirmativa de que a arte musical representa “a mais atrasada das artes”, derivada de uma compreensão das artes como imitação da natureza que, apesar de seu “prazer todo sensual”, desvalorizaria “a mais vaga e a menos intelectual de todas as artes”, Andrade sustenta a sua superioridade justamente na estesia. Ao constatar, a respeito da obra de Bach, que “a menos importante das suas fugas demonstra a estesia de que ele se serviu”, Andrade (2009, p. 292-295) conclui que a arte musical, “libertada da palavra”, antecipa, com a “criação subconsciente” de Bach e Mozart, o ideal de arte pura, por sua capacidade de produzir comoções de que a natureza se revela incapaz. E revela como destino do modernismo brasileiro a edificação de “uma nova estesia, completa, serena, mais humanamente universal” (ANDRADE, 2009, p. 329). Se, vinte anos mais tarde, Andrade revisa o conceito de estesia com outro apelo, vale considerar em que medida a autonomia da arte pura sorbevive em seu nacionalismo musical.

Conforme o autor, visando a um sentido nacional, o aspecto sensorial do sentimento do Belo se associa psicologicamente ao conhecimento, de modo que a sensação se torna objeto de compreensão. A compreensão musical, contudo, requer afinidades eletivas que despertem associações com conhecimentos de tempo, de temperamento e de sensibilidade, conjetura Andrade (1995a, p. 42), que encontra o conceito de “afinidades eletivas”19 em Hanslick (2002, p. 75), para quem a natureza dotou de afinidade eletiva o material elementar da arte musical, cuja “moção emocional”, segundo Hanslick (2002, p. 18), depende de fatores como nacionalidade, temperamento, idade e conjuntura. Por fim, Andrade (1995a, p. 47) sugere que, em vez de intelectual, a compreensão musical seja subconsciente. Assim, define a compreensão musical como a assimilação absoluta e imediata que caracteriza a atividade subconsciente, independente, como a contemplação desinteressada do Belo, de necessidade e interesse imediato. A compreensão musical permanece, no entanto, associada de certo modo ao estado da fisiologia criado pela comoção e ao desejo, de que a arte constitui a sublimação. Como “realização de amor” movida pela “necessidade de comunicação”, a obra de arte deriva de um desejo de desejo, uma vez que o artista “quer ser correspondido no seu amor” (ANDRADE, 1995a, p. 56).


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Fonte:

Tiago Hermano Breunig: “Estesia em tese: a nacionalização musical de Mário de Andrade”. (Tese de doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina para a obtenção do Grau de Doutor em Literatura, área de concentração Literaturas, linha de pesquisa Poesia e Aesthesis, sob orientação da Profa. Dra. Susana Célia Leandro Scramim, orientação no exterior do Prof. Kenneth David Jackson, Ph.D., e coorientação do Prof. Dr. Sérgio Paulo Ribeiro de Freitas). Florianópolis 2015

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

31/07/2015

Pedro o Cru (Teatro), de Antônio Patrício

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O teatro simbolista de Antônio Patrício: um teatro do verbo

[...]

Diferentemente da dicotomia na linguagem que se constatou em O fim e em D. João e a máscara; em Pedro, o cru e Dinis e Isabel verifica-se o diálogo em prosa, cuja complexidade se depreende do conflito que se erige fundamentalmente através das palavras. E, inevitavelmente, do qual se expressa a poesia. Assim, a tragédia da saudade, tal como o próprio Antônio Patrício define Pedro, o cru, constrói-se dramaticamente através do verbo:

PÊRO COELHO (narrando a Pedro o momento do assassinato de Inês de Castro)

Foi quando nos olhamos sem falar, e como a pedra cai num poço em noite, a decisão suprema entrou em nós. (...). Era no Outono como agora. Vós lembrai-vos. Sabíamos que iríeis a montear, e partimos, noite cerrada, para perto. El-Rei vosso pai, meu senhor, fazia dó. (...) por duas ou três vezes quis voltar. (...). Era o dever, o seu dever de rei, que o levava arrastos pela noite... (...)

Por fim, chegamos. (...). A manhã tinha de vir: e veio!... Daí a pouco, os vossos cães latiram. Soou então uma trompa de monteiro, mas baixo, como quem chamasse a medo. Houve um rumor de porta sob o alpendre... Éreis vós, meu senhor, que íeis montear... (...). Vi então claramente o vosso vulto. (...). Depois Ela... Foi para vós: beijou-vos: não sei o que vos disse...e ouvi-vos rir... Oh! O vosso rir, o vosso rir na inocência da manhã! (...). Descestes. Ela seguiavos com os olhos, debruçada. (...). Ela tinha a mão por sobre os olhos, acenou-vos um adeus lento, (...). Chamei por vosso pai. Disse-lhe baixo: — É a hora, meu senhor. Ele hesitava, branco, cor-de-cera, encostado a um tronco de oliveira, que era mesmo da cor de suas cãs... (...). Demos a volta ao muro do pomar, e eu empurrei a porta — a porta que vós meu senhor, tínheis deixado entreaberta (...). Ela estava ainda sob o alpendre, e olhava do lado do Mondego. Voltou-se então: decerto ouvira os passos... e toda a face lhe embranqueceu de tal maneira, que para que eu não quedasse de piedade, foi meu senhor, lembrar-me de que amava a minha terra (...)

Vi que queria gritar, mas não pode. Ainda olhou num instinto de defesa, para o lado por onde vós sumistes... Quando subi a escada, vi-a abalar com gestos de agonia, para a alcova de vossos filhos. (...). Parecia que um vento de terror a enovelava, assim, movendo os braços como asas, com três vidas pequeninas a cercá-la, (...). E cravara em vosso pai os olhos! (...). Ele tapara os olhos com a mão para não ver os dela, nem os netos; e com uma voz tão branca como o rosto, ela disse ao Infante D. Dinis: — Olha o avô!... (...). Eu desnudei então a minha espada. Avancei para ela. Nem fugiu. Estava sem alma já. (...) Lembro-me que a vi cair ensangüentada, e que ouvi, gelado de estupor, vossa trompa em caça muito ao longe, num halali que em soou em dobre...

PEDRO, como um possesso, em gritos de delírio
O uchão!... Ide chamar-me o uchão!... Vinagre e azeite para este coelho! (O carrasco, vestido de escarlate, surge à porta. Pedro aponta-lho) (PATRÍCIO, 1982, p. 90-3)

Através desse trecho do diálogo entre Pêro Coelho e Pedro, por exemplo, percebe-se que a poesia não necessita do verso para se expressar. E, embora ainda constatemos a presença menos frequente de versos inseridos no diálogo da peça, eles já não revelam o mesmo labor formal que se verificou nas peças anteriormente analisadas. Há, pois, apenas dois pequenos momentos nos quais ocorre essa inserção de versos. No primeiro, Afonso trova a pedido de Pedro:

Sou teu, tu és minha.
Quem morre não parte;
Nem Deus nem a Morte
Puderam levar-te.

No segundo momento, a Primeira Freira cantarola, em versos, referindo-se à forma como outra Irmã costumava fazê-lo quando viva:

Sabedoria,
sabedoria,
sabedoria de rouxinol:
cantar à noite,
dormir de dia,
fugir ao sol. (Ibid., p. 101)

Verifica-se, todavia, que, nesses dois momentos, esses versos não apresentam desdobramento significativo para o desenvolvimento do drama. Na verdade, acham-se praticamente ―soltos‖, o que poderia revelar, por sua vez, uma inexpressão da forma exterior em detrimento de uma interior que se constrói tragicamente ao longo de toda a peça, tal como vimos no trecho do diálogo entre Pero Coelho e Pedro. Essa supremacia da forma interior sobre a exterior parece transparecer certo abandono do autor (Patrício) por uma exclusiva expressão poética através de versos, revelando nesta peça a preferência pela ―fôrma‖ da prosa no lugar do verso para expressar poesia, o que, sem dúvida, resultou em maior complexidade da linguagem: o diálogo dramático da peça constitui prosa ou poesia? Prosa poética? Drama lírico?

Certamente que uma tentativa de classificação do diálogo em Pedro, o cru, tendo em vista critérios estritamente formais, revelar-se-ia ineficaz. Isso porque, apesar da ausência do verso, verifica-se, principalmente nas falas de Pedro, a expressão de emoções das mais profundas, revelando grande tensão e angústia ─ momentos de puro devaneio:

PEDRO (em Alcobaça, falando com o cadáver, madrugada que antecede à coroação e ao beija-mão de Inês de Castro)

É a nOssa hOra, InÊS... EStamOS sozinhOS. EstáS bem aSSIM!? Tu ouve-me dormINdo. Eu fico aqui à tUa cabeceira. Não bUlas, meu amor, dorme assim queda ─ como a Tua esTáTua ali, sobre o Teu Túmulo... Esta é a casa De Deus. Deus está connosco. OuveS OS SinOS repicar!? Toca AnoivAdo. AS nOSSAS bodAS AgOrA ─ São eternAS. Sinto nA minha Alma A tua Alma ─ como a Água de uma fonte noutra fonte, como a luz na luz, e Deus em Deus... SinTo-Te TanTo, quE TE pErco em mim. Aqui me tENS, InÊS: sou o teu Pedro. O que ele tem, o que ele TEm para TE conTar!... Eu bEm sEi quE TU sabEs... sabEs TUdo. Os teus OUVidos, na Morte, OUVEm mElhor. OUViram o dEsEspeErO dO tEu PEdrO ─ uma noitE dE pEdra sobrE Esta AlmA ─ OUViram AS suAS lágrimAS cAlAdAS: OUViram toda, toda a sua dor. (...) Oh! Os meus dias... os meus longos dias ─ longos dIas de hIena trIste, a Sonhar Sangue... O teu Pedro quer mostrar-tos para que os beije: ─ e serão puros na Saudade, como tu. MIl vezes, MInha Inês, MIl vezes sofrI na mInha caRne a tua moRte. Via-o sempre ─ o espaço era para ele ─ o teu corpo de amor, tão grande e belo. Deixei de ver o sol: via-o a ele. Vivia com teu cOrpO na memória ─ cOmO um lObO nO fOjO cOm a presa. (...).
VIvI um ano assIm, do teu martÍrIo. O teu sangue, aMor, era o Meu vinho. A tua Morte, Inês, foi o Meu pão. Fugia ao sol: a luz envenenava-me. Queria estar só, bem só, Murado em Mim: ─ cavava no silêncio um fojo escuro para me podeR cevaR na minha doR. O Meu crânio era uMa câMara de TorTura:─ viviam lÁ um carrASco e oS aSSaSSinoS.(...). (Ibid., p. 166-7)

Percebe-se através das marcações, apesar da ausência do verso, um exaustivo trabalho sonoro resultante das aliterações, assonâncias e repetições que ocorrem ao longo de todo o trecho.

Ou seja, mais uma vez, a forma conjugada ao conteúdo expresso vem expressar poesia.



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Fonte:
Simone Nacaguma:
“O teatro simbolista de Antônio Patrício: um teatro do verbo”. Universidade Estadual Paulista – UNESP. Disponível em: www.publionline.iar.unicamp.br

28/06/2015

Auto da Índia (Teatro), de Gil Vicente

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Sátira e representação

Trazendo à discussão a temática do descompasso social, Gil Vicente deixa transparecer em sua obra as mudanças pelas quais passa o mundo da virada do século, período que assinala a instauração progressiva de uma nova mentalidade na Europa citadina e que se encontra no cruzamento entre um pensamento ainda medieval e um outro já embebido dos novos ares da expansão marítimo-comercial e da Era Moderna. É essa temática da mudança que pretendemos trazer à baila neste estudo, ao apontar o diabo nas peças de Mestre Gil como uma forma de extravasamento da sátira social.

É, aliás, por apresentar em suas cenas teatrais esse desconcerto social em que estava mergulhada a nação portuguesa, que muitos críticos declararam que o teatro vicentino possui um substrato sociológico, pautado na exposição dos bastidores da sociedade de Lisboa. Idealizam um dramaturgo que tinha diante de si a “função de [...] desvelar os vícios da sociedade, de denunciar um mundo preso de irracionalidade e de loucura, enfim, de satirizar um mundo às avessas” (PINTO, 2003, p. 295 e 296). Ao desempenhar essa “função”, Gil Vicente imprimiria à sua obra o signo da originalidade.

É certo que o dramaturgo escreveu em um “período de crise” (SARAIVA, 1955, p. 231) e que sua escrita, como não poderia deixar de ser – afinal Gil Vicente é também parte dessa sociedade que ele mesmo desnuda –, traz marcas desse tempo. Não nos parece que resida aí a originalidade vicentina, nem seu valor literário, pois outros grandes escritores da virada do 5 século XV para o XVI também se utilizaram da sátira ao cotidiano para a produção de seus textos.

Encontramos nas idéias de Bernardes (2003) sustentação para nossas ponderações. Para o crítico, antes de uma matriz sociológica, que buscava no cotidiano a matéria para suas cenas, o teatro de Gil Vicente está ligado a um realismo6 como estética, a uma estratégia cênica comumente utilizada no teatro satírico e popular, que foi cultivada na Europa entre esses séculos (BERNARDES, 2003, p. 47).

Dessa forma, Mestre Gil não estava inaugurando uma nova forma de fazer teatro (que tentava uma representação da temática da mudança alicerçada no substrato sociológico), nem estava livre de influências, desagregado das práticas teatrais vigentes na Hispânia e no continente europeu. Pelo contrário, sua obra estava alinhada às técnicas de além-Pireneus, conforme argumenta Bernardes:

Quem percorrer as recolhas do teatro medieval que se têm publicado nos últimos anos (nomeadamente em língua francesa), não encontrará temas de mais ampla representação do que o tema da mudança, muito associado à tópica do status mundi, sistematicamente ilustrado numa perspectiva de sátira risível e caricatural (2003, p. 41).

Bernardes (2003, p. 41) deixa entrever que também na França a temática da mudança estava em voga quando Gil Vicente, na Península Ibérica, escrevia suas peças. Além de mostrar que essa transição não era exclusiva da sociedade portuguesa, mas extensível a uma Europa pós-medieval, o crítico abre espaço para a reflexão sobre essa técnica da sátira pelo riso, da crítica pela caricatura.

Utilizando-se do elemento cômico, autores coetâneos de Gil Vicente evocam elementos do quadro social e colocam-nos em posição de reflexão e observação: cavaleiros decadentes que vêem moinhos imaginários a girar e a crescer, a loucura que se revela eixo-motor de qualquer existência. Temos aí exemplos que retratam o sentimento de descompasso e que atestam que Mestre Gil não era um caso único no cenário europeu, nem mesmo no cenário ibérico. Os exemplos acima esboçados trazem-nos à memória o D. Quixote de La Mancha, de Cervantes, que tem o matiz da transição em seu bojo, e o Elogio da Loucura, de Erasmo de Rotterdam, cujo pensamento está muito próximo do dramaturgo português, “especialmente por satirizar os pregadores escolásticos [...] em sermões burlescos” (PINTO, 2003, p. 297).

Contudo, mesmo que a obra de Gil Vicente perdesse o status de inauguradora das “leituras sociológicas” (BERNARDES, 2003, p. 47), o valor do teatro vicentino estaria salvaguardado, pois reside não somente num hipotético pioneirismo, mas, sobretudo, na construção estética do texto, na difusão de sua obra e na polifonia de sua arte. Não é ao acaso que seu teatro tem sido perenizado por meio de novas leituras e encenações.

E é ainda na percepção dessa transição sócio-cultural, que passa pelo imaginário popular e pelo estabelecimento dos valores morais de uma época, que nos propusemos a esquadrinhar a obra vicentina. Em meio à leitura de peças de Mestre Gil, deparamo-nos com uma peculiaridade assaz intrigante: a caracterização da figura demoníaca. A fim de tornar este texto o mais didático possível, optamos por focar o tema da capacidade argumentativa do Diabo no primeiro auto e sua verve cômica no segundo, embora nem sempre essa segmentação seja rígida.

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Fonte:

Otávio Rios (UFRJ): “E no meio do caminho, havia o diabo”. Disponível em: www.uefs.br

20/06/2015

Auto da Feira (Teatro), de Gil Vicente

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Teatro, subversão e transformação: O jogo alusivo em Gil Vicente

Uma pergunta nos pode ajudar de saída: o que, ainda hoje, nos causa interesse na produção vicentina? Não estaríamos errando ao afirmar que a obra de Gil Vicente busca proporcionar ao espectador/leitor uma pintura dos sentimentos, bons ou ruins, e dos estados interiores e exteriores dos homens (inclusive os do próprio autor) a partir das matrizes culturais que caracterizam o povo ibérico, na virada do século e das mentalidades. Esta atitude resulta primeiro num trabalho etnográfico – está claro o maravilhoso desfile de particularidades dialetais, vestuário característico, crendices, costumes,... – e depois num trabalho psicológico, já que o autor, unicamente pela linguagem, consegue dar vida a tipos que expressam sentimentos particulares. Tudo isso com uma flagrante naturalidade capaz de evocar uma atmosfera lírica na mais despretensiosa experiência de leitura. Lemos Gil Vicente na certeza de que lemos um Poeta tão completo que consegue criar uma relação de continuidade e contiguidade entre a poesia e o teatro, em lugar de simplesmente sobrepô-los.

É por isso, aliás, que os sequazes da chamada Escola Vicentina45 não tiveram o mesmo êxito que o Mestre justamente por não cultivarem o veio lírico em seus versos, preocupados exclusivamente com a ação dramática. Essa ausência de lirismo talvez tenha levado o gênero a um considerável declínio depois da morte de Gil Vicente, já que parece notória a modificação do discurso que se fazia sobre a arte dramática no século XVII. D. Francisco Manuel de Melo, com sua Farsa do Fidalgo Aprendiz, talvez tenha sido o melhor testemunho da manutenção do teatro em língua portuguesa, embora bastante afastado do domínio técnico observado na produção vicentina. Sequer nas composições de Anrique da Mota46, que ganhou relevo no Cancioneiro Geral, podemos enxergar o notável caráter lírico observado em Gil Vicente.

Contudo, o lirismo vicentino, ainda que seja uma vertente que venha atraindo atenção especializada nas últimas décadas, se mantém como um assunto modestamente tratado pela crítica. Stephen Reckert já havia posto o problema nos seguintes termos:

Que Gil Vicente é o maior poeta dramático português de todos os tempos, e que no dele (1465/ 70? - 1536/ 40) era também o maior que até lá surgira na Europa pós-clássica, é ponto assente. Menos geralmente reconhecido é o fato de se tratar também de um poeta lírico sem igual na própria língua entre el-rei D. Dinis e Camões, ou na castelhana antes de Garcilaso de la Veja.

A maioria dos estudos sobre o lirismo vicentino fundamenta-se numa perspectiva de base folclórica, como se verá, quer no sentido de orientar a produção de Gil Vicente como um espaço dramático-operativo de possível recuperação do repertório popular, quer considerando o caráter refundidor e, portanto, autoral, de nosso dramaturgo. Em outras palavras, levando em conta uma prática de alusão a textos/contextos presentes nos cancioneiros ibéricos e sua utilização no plano do teatro. Sem dúvida este lirismo está presente de modo vigoroso em nosso autor, mas não é no mero jogo alusivo que reside o interesse desta investigação. Afinal, ao reportar-se às estruturas poéticas medievais, imitando-as, Gil Vicente se aproxima de uma realização lírico-dramática já conhecida na Península Ibérica, especialmente verificada na produção pastoril de Juan del Encina, ao passo que – observado por seu caráter transformador desses modelos aludidos – nosso dramaturgo inaugura uma nova função operativa da palavra poética no campo da manifestação cênica. Não é, portanto, apenas o Pai do teatro português, mas o patrono ibérico que verdadeiramente transformou, num ato inaugural, a proposição lírica em teatro, utilizando, para isso, o jogo alusivo. Opera-se uma dupla subversão: a primeira está ligada à própria essência do lirismo, sua imitação e transformação, seu afastamento dos ditames teóricos, e a outra, de nível mais profundo e original, associa, por contiguidade, Gênero Lírico e Dramático.

Há ainda uma possibilidade de ler os textos de Gil Vicente em busca do lirismo que marca nitidamente alguns autos, sobretudo as comédias e tragicomédias (tendo em vista que este trabalho investiga a lírica amorosa) e que está desvinculado das imediatas categorias de base modal verificadas na tradição, indicando, pois, um processo alusivo mais complexo aos nossos olhos atuais, já afastados do tempo e da referencialidade de que se vestiam os versos do autor.

Para pensarmos, portanto, algumas questões ligadas à lírica vicentina, comecemos pelo verso “Pois Amor o quis assi”, onde o sentimento amoroso, poderoso em sua maiúscula forma, toma a frente do sujeito e organiza (ou desorganiza) as venturas do homem. Poderia ser, claramente, uma linha camoniana, pois a atitude de servidão aos ditames do Amor nos faz lembrar a redondilha onde, em forma de carta, Camões se dirige à dama:

E quereis ver a que fim
em mim tanto bem se pôs?
Porque quis Amor assim.

Trata-se, contudo, de um verso dos agravos de Colopêndio na Tragicomédia Romagem dos Agravados. Tudo indica, aliás, que Camões era um grande conhecedor das obras vicentinas, desenvolvendo ao gosto cortesanesco (ora pela métrica velha, ora pela medida nova) as suas lições, como mostramos em outro momento, especificamente sobre seu teatro50. Também na Lírica Camoniana podemos encontrar um eco do lírico Gil Vicente, e o exemplo é do mesmo auto.

Quando falo, estou calado;
quando estou, entonces ando;
quando ando, estou quedado;
quando durmo, estou acordado;
quando acórdo, estou sonhando;
quando chamo, então respondo;
quando choro, entonces rio;
quando me queimo, hei frio;
quando me mostro, m‟escondo;
quando espero, desconfio.

Não seria este poema de Gil Vicente o texto que, fértil em seus paradoxos, ajudou a lapidar o engenho camoniano? Afinal, anos mais tarde, Camões mostraria sua mais alta expressão em textos como “Amor é fogo que arde sem se ver” (de semelhante aproveitamento dos paradoxos ao utilizar um verso partido em duas idéias contraditórias), ou em “Tanto de meu estado me acho incerto” onde, aliás, encontramos um jogo alusivo bastante notório (o último verso acima citado parece estar na origem do camoniano “Agora espero, agora desconfio”, embora tenhamos em mente as lições de Petrarca, Boscán, Sanazarro e Groto). O que observamos, contudo, é que tanto Gil Vicente quanto Camões encontraram em Boscán as linhas bem talhadas para a realização da imitatio, como já apontara Visconde de Juromenha, ao comentar o estudo de Faria e Souza, indicando o verso “Caygo y levanto; espero e desconfio”, do poeta espanhol, como aquele que teria provocado a imitação camoniana.

O que não dizer da cativa que torna o homem cativo, tópica recorrente e amplamente utilizada pelos poetas palacianos, também empregada no texto vicentino? Diz o Escudeiro na Farsa do Juiz da Beira:

eu andava namorado
de hũa moça pretezinha,
muito galante mourinha
um ferretinho delgado.
ó, quanta graça que tinha!
Então amores de moura,
ja sabeis o fogo vivo,
ella cativa eu cativo:
ora que má morte moura
se há hi mal tão esquivo.

Como podemos perceber, a obra vicentina realizou densos mergulhos na temática amorosa e, neste sentido, contribuiu vivamente para a compreensão das várias concepções de amor em voga. Está lá o sentimento cortês, de matriz idealizante, ainda que enviesado pelo caráter satírico, como na fala insincera dos Escudeiros (e a citação acima não é o único exemplo) ou nos pronunciamentos dos velhos, completamente destituídos da ordem da Razão, como veremos no capítulo seguinte.

Este lirismo amoroso, que tem inspirado parte dos estudos vicentinos nos últimos anos, recebeu, contudo, variada abordagem crítica; algumas vezes os estudiosos passearam com competência por um primeiro nível de leitura no que concerne ao aspecto lírico de Gil Vicente, noutras, em menor quantidade, realizaram um mergulho mais profundo. Se são muitos os matizes da crítica, muitos mais são os do texto vicentino. Agostinho de Campos reflete com lucidez sobre o lirismo do autor, deixando claro a algumas correntes teóricas que os autos de Gil Vicente estão amalgamados a uma atitude poética para além das teorizações:

Chame-se a esse poder literário excepcional o que se queira: lirismo dramático, poesia dramática. Eu direi apenas: essa transfusão íntima e profunda, realista e efusiva, complicada e espontânea, artística e sincera, do sujeito ao objecto, esse dom de ficarmos nós próprios através dos outros, ou de sermos os outros através de nós mesmos – só pode explicar-se por um doseamento raro, e para nós portugueses quási inconcebível, do poder de observação com faculdades de emoção lidimamente líricas.

Consideramos enormemente a sensibilidade com que Agostinho de Campos define a questão, fruto de uma refinada leitura do nosso autor. É consensual, neste sentido, que o olhar sensível não exclui a possibilidade de teorização sobre o texto. Por isso, buscaremos a “transfusão íntima e profunda, realista e efusiva, complicada e espontânea” que caracteriza a lírica amorosa de Gil Vicente, realizando algumas opções teóricas que merecem ser explicadas logo no início deste trabalho.

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Fonte:

Luiz Fernando de Moraes Barros: “E amor não tem saída: A velhice enamorada à luz de Gil Vicente”. (Tese de Doutorado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro como parte dos quesitos necessários para a obtenção do título de Doutor em Letras Vernáculas (Literatura Portuguesa). Orientador: Profa. Dra. Cleonice Berardinelli Co-orientador: Profa. Dra. Gilda Santos). Rio de Janeiro, 2009.

14/06/2015

Coração de mulher (Teatro), de Horácio Nunes

Coracao de mulher - Horacio Nunes - Iba Mendes

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Ditos e feitos (Teatro), de Horácio Nunes

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Dolores (Teatro), de Horácio Nunes

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Grandes manobras, de Horácio Nunes

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Helena (Teatro), de Horácio Nunes

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Os pretendentes, de Horácio Nunes

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Rosas e goivos (Teatro), de Horácio Nunes

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Um cacho de mortes (Teatro), de Horácio Nunes

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O bem e o mal (Teatro), de Horácio Nunes

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06/06/2015

A prima (Teatro), de Horácio Nunes

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BERNARDO.

A todos dois. Digam-me cá uma coisa: porque é que vocês, de certo tempo a esta parte, andam sempre metidos pelos cantos, cochichando e cheios de mistérios?

05/06/2015

Os Lobisomens, de Manuel Araújo Porto-Alegre

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Manoel Araújo Porto-alegre: Reflexões sobre o historiador

Os textos de Manoel de Araújo Porto-Alegre (1806-1879) são as primeiras reflexões sobre história da arte, e sobre história da arte brasileira.  Imerso nas preocupações da construção de narrativas nacionais da escrita da história oitocentista e sócio do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), transformou a arte em potência histórica utilizando-se da sua formação na Academia Imperial de Belas Artes e da experiência vivida no Instituto Histórico de Paris.

Porto-alegre compreendeu a arte como expressão de seu tempo, conferindo-lhe historicidade, mas também como a materialização de um Espírito nacional- materialização física, técnica e moral - sujeita as limitações do estágio que a sociedade produtora se encontrava.

 Desta forma, a necessidade de estabelecer um passado para a arte nacional e da compreensão da arte historicizada, pode ir além do horror que a estética neoclássica de sua formação tinha pelo Barroco. Relativizou as teorias raciais da época e resgatou do esquecimento nos arquivos paroquiais os artistas coloniais brasileiros.



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Fonte:
Paula Ferrari: Manoel Araújo Porto-alegre: Reflexões sobre o historiador. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História como requisito para obtenção do título de Mestre do Programa de Pós-Graduação de História Social da Cultura da Universidade Federal de Juiz de Fora). Juiz de Fora, 2009.

21/02/2015

Efeitos do Hipnotismo (Teatro - Comédia), de A. Armando

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Comédia original em um ato, representada pela primeira vez no Teatro Recreativo da Lapa, em 27 de Abril de 1890, e depois em outros teatros sempre com gerais aplausos.