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10/06/2014

Grãos de mostarda, de Humberto de Campos

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Humberto de campos: “Faces de um autor”

Em textos de Humberto de Campos posteriores a 1927, surge o tema de sua grave enfermidade. Na crônica “Aos meus amigos da Bahia”, ele noticia seus problemas de saúde e suas reações diante dessas adversidades.

Sou um homem doente, mas não estou leproso. Sou um homem pobre, mas não me encontro na miséria. Assediado por um conjunto de males que me bloquearam dentro da vida, imito a planta, que transforma em fruto o estrume que lhe põem aos pés. Vivi as horas mais terríveis que pode viver um homem, quando, em janeiro de 1928, recebi a sentença condenatória da ciência, com o diagnóstico da hipertrofia da hipófise, que se caracterizava de modo alarmante. Em meado de 1930 os efeitos dessa enfermidade se alastravam. O olho esquerdo ficou perdido, sem nenhuma lesão aparente. (Campos, 1960f, p. 270-271)

Humberto de Campos procurava demonstrar-se estóico; doente, dizia que sua disposição de espírito era a resignação. Em “A defesa de Noé”, ele escreve: “Sofro, e não me revolto. Sofro, e aceito os meus padecimentos não a título de moeda para a conquista do Paraíso, mas porque a revolta, o protesto, a indignação, de modo nenhum resolverão o problema da minha cura.” (Campos, 1960k, p. 105-106)

Seus médicos lhe recomendavam descanso ou, no mínimo, moderação no trabalho. O escritor, no entanto, dizia ser impossível deixar de trabalhar, ou mesmo diminuir sua larga atuação na imprensa. Na mencionada crônica “Aos meus amigos da Bahia”, ele escreve: “Trabalhava, e dormia, cercado de sacos de água quente, que me aliviavam os tormentos.” (Campos, 1960f, p. 271)

Seu público leitor era grande. No Diário secreto, em nota de 24 de fevereiro de 1933, fala de um encontro com um jornalista de São Paulo, que lhe trazia uma proposta de José Olympio para a reedição de Memórias. Diz Humberto que, segundo o colega, “em um ligeiro inquérito” feito em São Paulo, “verificou-se que os escritores nacionais mais lidos ali, no jornal e no livro, são os seguintes: em 1º lugar, Humberto de Campos; em 2º lugar, Medeiros e Albuquerque; em 3º, Paulo Setúbal.” (Campos, 1954b, p. 341). Atento, o jovem editor paulista José Olympio, que viria a ser o principal editor literário do Brasil, começou a editar e reeditar, a partir de 1933, livros de Humberto de Campos. Durante cerca de dez anos, o escritor maranhense foi o    best-seller que alavancou a iniciante Livraria José Olympio Editora.

Por conta de sua enorme popularidade, e porque alimentava de si uma imagem muitas vezes ambígua, Humberto era solicitado por católicos, que o incentivavam a se converter; por espíritas, que recomendavam auxílio mediúnico à sua saúde; por comunistas, que buscavam sua adesão; e por outros interessados no peso de um nome famoso para fortalecer determinada causa.

Em conversa com Edmundo Bittencourt, registrada em 31 de outubro de 1933, reproduz a fala do amigo, que se refere à influência dos seus escritos nas camadas populares: “Você tem penetrado fundo na alma e no coração do povo, que tem você como um chefe intelectual da revolução social com que ele sonha. A sua responsabilidade é cada vez maior.” (Campos, 1954b, p. 395)

A ambigüidade de seus posicionamentos, evidente ao leitor atento, é referida pelo escritor em nota de 19 de abril de 1917, no Diário secreto:

Eu consegui, com a minha formação literária na imprensa, uma individualidade literária que os meus amigos me vêm mostrando agora. Há, em mim, a volúpia da perfídia. Não é, propriamente, volúpia, pois que isso às vezes me desagrada a mim mesmo. A perfídia tornou-se em mim uma função, ou antes, um produto mecânico. Eu louvo, ou ataco, de tal forma, que o indivíduo alvejado não sabe se me há de mandar um agradecimento ou um tiro. O que eu escrevo tem matéria para todas as interpretações. Ainda agora, a propósito de um artigo sobre Olegário Mariano, este se manifesta lisonjeado, ao mesmo tempo em que seus amigos se manifestam indignados comigo. É característico o que me sucedeu hoje com uma crônica sobre a guerra européia: recebi parabéns de aliadófilos e de germanófilos: cada grupo descobriu nela uma evidente manifestação a seu favor! (Campos, 1954a, p. 41-42)

Sobre seu excesso de trabalho – Humberto de Campos fazia questão de expor uma obstinação pelo trabalho –, escreveu diversos apontamentos. No mesmo livro, em anotação de 4 de janeiro de 1928, ele diz: “Trabalho com ardor como outros bebem, dançam ou fumam: porque encontro nisso o maior dos prazeres. Se tudo que se conquista com o trabalho me faltasse ao fim da vida, eu me consideraria, ainda assim, convenientemente pago com a alegria silenciosa que o trabalho me deu.” (Campos, 1954a, p. 90). Ainda no Diário secreto, no registro de 21 de julho de 1931, Humberto relata que passara o dia anterior escrevendo “pequenas coisas anônimas e sem encanto”, para pagar o aluguel da casa onde morava. Recebera depois, por causa de seus problemas de saúde, ordem médica para não trabalhar muito. Ele representa essa situação com a seguinte metáfora:

Sorrio. Eu sou, positivamente, um homem que vai nadando no mar alto para se salvar, e a quem gritam, de súbito:
– Não nades, desgraçado, que tu sofres do coração!
Se eu nadar, morro de uma síncope; se não nadar, morro afogado.
Continuo a nadar. (Campos, 1954a, p. 163)

No mesmo livro, quando trata de seu apego ao trabalho de escritor, em anotação de 20 de agosto de 1928, sugere contentar-se com o produto de seu ofício:

Eu me afeiçoei de tal maneira à vida de trabalho entre as quatro paredes deste gabinete, que me não posso conformar com o afastamento durante meses, semanas, ou, mesmo, alguns dias. [...]
O meu ideal seria ficar nesta colméia de manhã à noite, fabricando a cera e o mel de novos livros, e bebendo a sabedoria no caule dos livros alheios. Tudo que não seja trabalho produtivo parece-me, a mim, um roubo feito ao meu próprio tesouro, que é o tempo. Sei eu, lá, quantas moedas de ouro, que são os anos, ou de prata, que são os meses, ou de cobre, que são os dias, restarão, ainda, no cofre da minha vida? (Campos, 1954a, p. 266)

Retrata-se, na anotação de 8 de setembro de 1928, no Diário secreto, como um escritor provido de uma intensa fonte de criação, referida como que dissociável de seu corpo doente:

Tenho lido e escrito muito. As idéias multiplicam-se no meu espírito, como as formigas à boca de um formigueiro alvoroçado. Tenho planos de romances, de contos, de ensaios literários, de obras de pesquisa e comentário. Trabalho dez, doze horas por dia,  aos domingos e feriados, e, nos dias úteis, durante todo o tempo que os deveres políticos me dispensam. Às vezes, sinto-me fatigado, sucumbido, com vertigens e atordoamento. Mas o cérebro continua a trabalhar, ágil, fértil, disposto, como se não estivesse em contato com o resto do corpo.
É que a máquina que dá o impulso não está de acordo com o resto do aparelho, que obedece. O motor é forte mas o carro já está ficando velho... (Campos, 1954a, p. 276)

No segundo volume do mesmo diário, por sua observação de 13 de julho de 1930, em que enumera seus compromissos profissionais de escritor e de político, podemos ter uma idéia mais justa do referido excesso de trabalho do escritor.

Desde 15 de junho estou com os meus afazeres literários agravados. Tendo Medeiros e Albuquerque seguido para a Europa, “A Gazeta”, de São Paulo, pediu-me para escrever, durante a ausência daquele seu colaborador, um artigo por dia, que deve ser enviado todas as tardes. Desse artigo, devo eu tirar uma cópia para “A Tarde”, da Bahia, a qual segue por avião em duas remessas semanais. Tenho ainda, semanalmente, o meu rodapé de quase meia página no “Correio da Manhã” (crítica literária), uma crônica para O CRUZEIRO, um artiguete para o “Diário de Notícias”, de Porto Alegre, e, uma vez por outra, um conto oriental, assinado Ali Hadjala, para “O Jornal”. E tudo isso tem sido pontualmente executado, esteja eu com saúde, ou sem ela. E, ainda por cima, as incumbências políticas, os pedidos, os telegramas, os Ministérios... (Campos, 1954b, p. 34-35)

Em seu apontamento de 2 de setembro de 1928, ele interpreta sua exaltação ao trabalho como uma forma de egoísmo. Escritor, sonhava com o reconhecimento, pensado como um meio para prolongar sua vida de autor:

A minha paixão pelo trabalho mental, a minha fome de escrever, de produzir, tem, talvez, as suas raízes mais profundas no meu egoísmo. Que pretendo eu, em verdade, ao idear uma obra vasta, uma bibliografia numerosa? Pretendo, apenas, que meu nome me sobreviva, que se fale de mim quando eu já repousar no seio da terra.
Eu me mato, pois, para dilatar a vida. Quero enganar a Morte, deixando no mundo o meu rastro, para que os estudiosos de amanhã me procurem, depois que ela me tenha levado.
Quem sabe, no entanto, se eu me não estou enganando a mim mesmo? (Campos, 1954a, p. 273)

O desejo de reconhecimento, de glória póstuma, é recorrente em suas anotações. A de 9 de novembro de 1933 registra o seguinte prognóstico: “tenho certeza absoluta de que, ao fim de cinqüenta anos, não se imprimirá mais um só livro, no qual se encontre, mesmo vagamente, citado o meu nome...” (Campos, 1954b, p. 396). A frustração por acreditar que será logo esquecido se justifica por também estar convencido de que seria capaz de escrever uma obra literária de maior magnitude, se os seus problemas de saúde não o tivessem tolhido. É o que expressa, em Fragmentos de um diário, na anotação de 26 de julho de 1931: 

Ameaçado de cegueira, já com uma das vistas perdida e, assim, de tombar inútil precisamente quando sentia o espírito melhor provido para a realização de uma obra literária que me sobrevivesse, eu sou como um operário que passou anos inteiros a carregar o material para construção de um abrigo para os seus dias de velhice, e a quem cortam os braços no momento em que vai lançar o primeiro tijolo. A fatalidade tapa-me os olhos no instante, precisamente, em que ia beber com eles, comovidamente, o vinho de ouro do sol... (Campos, 1960s, p. 257)

Ainda emFragmentos de um diário, no registro de 21 de janeiro de 1932, volta a insistir no desejo de reconhecimento como literato e na insatisfação com o que escrevia:

Na tarde chuvosa e quieta, com as montanhas vestidas de névoa tênue, reflito sobre a inutilidade da minha vida, conseqüência da precariedade do meu esforço. Nada escrevo mais que traga o selo da durabilidade. Nem um artigo, sequer, que não esteja destinado a apodrecer no dia seguinte. Nem uma frase, ou uma imagem, que tenha recebido injeção de formol!
E eu, sem ilusões de glória, e com a angustiosa, a terrificante certeza de que não deixarei uma obra e, talvez, nem, ao menos, lembrança do meu nome, – pois que o nome é a sombra sobre a terra, de uma obra ou de um feito, e não pode deixar sombra, conseguintemente, no solo, a árvore que não nasceu... (Campos, 1960s, p. 263-264)

No mesmo livro, em nota de 24 de janeiro de 1932, comparando-se com Camilo Castelo Branco, o escritor reluta: se seu nome não for lembrado por causa da obra que deixou, que pelo menos o seja por um outro motivo:

Relendo, hoje, as “Pasquinadas”, de Fialho de Almeida, encontro esta frase sobre Camilo, que, cego, velho e abandonado, passava alguns dias em Lisboa: “Esse rebelde, sendo o maior escritor português do nosso século, ainda achou meio de ser, também, entre os homens de gênio, o maior desgraçado!”
Eu não sou homem de gênio nem o maior escritor do Brasil. Quem sabe, porém, se me não caberá a glória, pelo menos, de ser o mais desventurado? (Campos, 1960s, p. 264)

Uma outra tentativa para promover o seu legado foi a seguinte consideração, que se encontra no prefácio de Memórias: “Não cheguei muito alto, de modo a ombrear com os escritores notáveis do meu país, porque vim de muito baixo. Mas percorri maior distância do que eles, porque vim de mais longe.” (Campos, 1960q, p. 10)

Um procedimento utilizado por Humberto de Campos para alimentar determinadas avaliações de sua obra foi a reprodução, em especial no Diário secreto, de várias citações enaltecedoras a seu respeito. Um exemplo é sua anotação de 20 de julho de 1932, na qual expõe algumas opiniões de seus contemporâneos a respeito de sua literatura:

Dois jornais matutinos se referem, hoje, à minha pessoa: o “Diário Carioca”, em um longo artigo de Benjamim Lima, e o “Correio da Manhã”, onde Antônio Leão Veloso, tratando de autodidatas, me considera um dos documentos mais expressivos da cultura livre.

No seu artigo de mais de meia página, Benjamim Lima, tomado de comovido entusiasmo, tem esta passagem: “De Humberto de Campos não hesito em avançar que é um dos primeiros escritores do mundo contemporâneo”. Antônio Leão Veloso considera-me “um dos maiores valores do Brasil atual”. E é de ontem, ou de anteontem, um artigo de João Ribeiro, no “Jornal do Brasil”, em que o velho mestre me considera “um dos escritores mais perfeitos que possuímos”. Tenho notícia, também, de um longo estudo encomiástico de Félix Pacheco, no “Jornal do Comércio”, na semana passada. Não o li, porém, ainda. Encerrado em casa, de onde saio apenas para ir ao médico, ignoro inteiramente o que de mim se diz e escreve. As poucas informações que me chegam são, entretanto, como se vê, confortadoras e generosas. Não posso queixar-me dos homens do meu tempo, os quais me têm dado, em verdade, nos seus julgamentos, tudo que se pode conceder, em palavras amigas, a um pobre e desventurado homem de letras. (Campos, 1954b, p. 291-292)

Outras vezes, reproduz representações de si elaboradas por outrem. É o caso de uma de suas notas de 16 de abril de 1917, em que registra um encontro que teve, na redação de O Imparcial, com Afrânio Peixoto, que lhe diz: “– Olhe, eu tenho vindo aqui para conhecê-lo em pessoa. O senhor é um homem a quem eu admiro e a quem eu temo. Antes: o senhor é dois homens: um, o destruidor implacável, o jornalista que mata, aniquila, destrói o adversário; outro, o poeta, o escritor, o homem de erudição. Eu quero ser amigo de ambos.”(Campos, 1954a, p. 38)

Referi-me acima a uma tendência mais “oficial” que o escritor empregou em alguns de seus textos, para se representar aos seus contemporâneos. Os dois resultados mais eficientes, nesse sentido, foram os livros Memórias e Memórias inacabadas. Este segundo é uma continuação do primeiro; neles, o escritor narra sua infância e o início de sua adolescência, destacando que suas condições de vida e os pontos de partida de sua formação eram bastante desfavoráveis para que tivesse um bom futuro. O destino – que foi, aliás, um dos temas preferidos de Humberto de Campos – preenche lacunas explicativas que surgem em sua narrativa autobiográfica, ainda que ele atribua ao seu próprio esforço uma boa dose de sua ascensão social. No prefácio de Memórias, o escritor expõe sua trajetória como exemplar; fala de sua história de vida como “uma lição de coragem aos tímidos, de audácia aos pobres, de esperança aos desenganados, e, dessa maneira, um roteiro útil à mocidade que a manuseie.” (Campos, 1960q, p. 8).

O seguinte trecho, de Memórias, é um bom exemplo dessa faceta modelar construída pelo autor: “Senhoras de Parnaíba, então jovens, hoje matronas, tiveram, há trinta e três anos, a perna moça, e morena, comprimida por meias de dois fios, ou de um só, fabricadas por esta mão que devia, mais tarde, escrever livros alegres ou tristes, legislar
para o seu país, e segurar, enluvada, por benignidade do Destino, o punho de ouro de um espadim acadêmico!” (Campos, 1960q, p. 372)

Entretanto, muitas anotações do Diário secreto – que, numa linguagem em geral mais direta e despojada, difunde outras faces de si – subvertem esse tom elevado e honroso às instituições políticas e literárias daquela época. Esse contraste evidencia o caráter circunstancial e conveniente dos escritos sobre si de Humberto de Campos. No Diário secreto, a ABL e os acadêmicos, por exemplo, são tratados diversas vezes de forma jocosa e caricata. Embora prevaleça o discurso sobre si nos livros  Memórias e Diário secreto, Humberto de Campos os concebeu com vistas a diferentes demandas. O primeiro, que enfoca sua infância, oferece a seus contemporâneos uma imagem daquele que, contrariando as tendências de sua condição social, tornou-se um influente intelectual brasileiro. O segundo, menos romanceado e elaborado para divulgação póstuma, apresenta, além de anotações a respeito de sua vida privada, um ponto de vista sobre a vida literária e política dos anos 20 e 30.

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Fonte:
Alexandre Caroli Rocha
: “O caso Humberto de Campos: Autoria literária e mediunidade”. (Tese apresentada ao Instituto de Estudos da Linguagem, da Universidade Estadual de Campinas, como requisito parcial para a obtenção do título de doutor em Teoria e História Literária. Área de concentração: Literatura e Outras Produções Culturais. Orientador: Professor Dr. Haquira Osakabe). Campinas, 2008. 

Notas:

A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

09/06/2014

A serpente de bronze, de Humberto de Campos

 A serpente de bronze, de Humberto de Campos
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Humberto de campos: Sobre sua literatura

Humberto de Campos fez parte de uma geração de escritores brasileiros que, nas primeiras décadas do século passado, empregaram-se em jornais de grande circulação e desenvolveram sua literatura sob as injunções da imprensa. Obrigado a muito escrever para cumprir suas obrigações de literato assalariado, seus textos diários eram suas mercadorias. Ele lamentava não ter podido produzir uma obra literária mais elaborada e de maior alcance artístico, a qual não estivesse fadada ao esquecimento. A respeito dessa literatura para a subsistência, eis um trecho da crônica “Uma voz na sombra”: “Como poderei escrever um romance forte, um trabalho de meditação ou de observação, se tenho de vender, a retalho, as idéias miúdas que me vêm, e se não há compradores na praça para as outras de maior porte? Que aspiração pode alimentar, ainda, um escritor, cujas ilusões caíram todas, e morreram, como pássaros, na gaiola da realidade, e que tem de ralhar diariamente com o cérebro por ordem imperiosa do estômago?” (Campos, 1960d, p. 24-25)

Para dimensionar sua produção, Humberto de Campos registra, em anotação de 19 de março de 1928 do Diário secreto, que, num período de dez anos, escrevera mais do que o prolífico Guy de Maupassant. E comenta: “É verdade que o produto de um cérebro quase genial é diferente da obra de um escritor como eu. Mas o trabalho cerebral é o mesmo. Tanto cansa o tear que tece o fio de seda como o que trabalha com o fio de algodão.” (Campos, 1954a, p. 159)

Apesar de seus laços com a imprensa, preferia se apresentar mais como literato do que como jornalista. Na crônica “A defesa de Noé”, após mencionar algumas críticas que um grupo de escritores da nova geração lhe dirigia, segundo as quais sua literatura caíra no misticismo religioso e era contra-revolucionária, o escritor se justifica:

[...] acusar-me de misticismo religioso é dar testemunho de que nada sabe nem da minha literatura nem da minha vida. Se há um espírito livre de superstições na atualidade literária do Brasil, esse é o meu. Apenas, por educação e por princípio, não tiro Deus ao coração de ninguém. Porque tenho o meu vazio, não me considero modelo de prudência e sabedoria. Sem um templo em que me prosterne, não me sinto no direito de incendiar os altares dos que têm fé. E se não sou filósofo, aprendi, pelo menos, com os que têm esse nome, a arte de suportar a vida e as dores que ela me trouxe, e de me não supor, entre os homens ignorantes, o portador do facho de Minerva.
Não sou, evidentemente, um espírito moderno, destinado a presidir à renovação do mundo. Sou antigo e contra-revolucionário, porque não me ocupo senão da alma humana, cujas aspirações instintivas não variaram através dos séculos. (Campos, 1960k, p. 104-105)

Em anotação de 30 de julho de 1928, no Diário secreto, Humberto fala do plano de obra que pretendia ter realizado, que visava à poesia e à crítica, e das razões práticas que o levaram a explorar outras formas de texto:

O meu grande sonho era realizar uma obra poética uniforme e vasta, de que eram base, já, os dois volumes da “Poeira...” Ao lado dessa obra poética, viria uma obra crítica, uma série de ensaios, como os de Sainte-Beuve, Brunetière e Doumic. As obrigações de família, agravadas pelo espólio humano do meu sogro – três senhoras idosas que vieram para a minha casa desde que me casei, – fizeram-me dedicar inteiramente à imprensa, onde instituí as crônicas miúdas e humorísticas, os contos ligeiros e cotidianos, que deram popularidade ao meu nome [...] Esses livros [de contos humorísticos e os dois primeiros de crônicas] deram-me dinheiro e nomeada. Essa nomeada fez-me deputado. Tivesse eu ficado a rimar os meus versos e a escrever os meus ensaios, como era do meu programa inicial, e teria chegado onde hoje me encontro?
Deus sabe, pois, mais do que nós, o que faz a nosso respeito. E eu só tenho, por mim, que abençoar o dia em que ele, tomando-me pela orelha, e utilizando as três sogras que me deu, me fez humoristicamente mudar de caminho... (Campos, 1954a, p. 254-255)

Convém notar que o Diário secreto é o espaço no qual o escritor se permite destoar, muitas vezes, de seu próprio discurso em outros livros, numa atitude que realça as limitações do meio jornalístico e literário em que se encontrava. O escritor imprimiu uma tendência mais “oficial” nas crônicas e nas memórias, ao passo que, no Diário secreto, ele procura livrar-se de amarras relacionadas às conveniências de seu meio. No entanto, isso não impede que, também nesta obra, o autor alimente determinadas imagens de si, com vistas a oferecer, ele mesmo, suas possíveis representações para a posteridade.

Em algumas crônicas posteriores a 1928, Humberto de Campos procura difundir certo distanciamento em relação aos escritos do Conselheiro XX: “No tempo em que eu escrevia páginas mais ou menos alegres, isto é, quando a vida ainda não havia posto a sua dose de centáurea menor no meu copo [...]” (Campos, 1960j, p. 183). Outras vezes, embora com desconforto, tenta qualificar essa literatura, não como licenciosa, mas como galante: 

Os dez volumes alegres que escrevi, e que formam um acervo de 1.120 pequenos contos originais ou traduzidos, não são, sem dúvida, dos mais edificantes e modelares, sob o ponto de vista moral ou, antes, da moralidade. [...] Eu tenho uma bibliografia galante, confesso; mas não tenho uma obra propositalmente imoral. Os meus miúdos contos maliciosos foram escritos para fazer sorrir a uma sociedade que conhece o pecado; mas não ensinam, eles mesmos, o pecado [...] Nas 3.690 páginas que formam esses dez volumes erradamente classificados de fesceninos, não se encontra, em suma, um só termo brutal ou vocábulo que não possa ser proferido em voz alta. O que poderia haver de inconveniente e censurável está em subentendidos, no duplo sentido das expressões, no equívoco das situações cômicas, nos atributos literários, enfim, que caracterizam a literatura galante e a distinguem da literatura licenciosa. (Campos, 1960v, p. 309-310)

Encontram-se no Diário secreto informações a respeito da história dos livros de Humberto de Campos – como surgiram, a recepção que obtiveram etc. – e de seu trabalho em jornais. Quanto ao próprio Diário secreto, o autor historia sua composição, no registro de 1º de janeiro de 1928:

É a terceira vez que inicio um diário íntimo, o registro fiel e cotidiano da minha vida e, em parte, da vida alheia. A primeira tentativa nesse sentido foi em janeiro de 1915. A segunda, em 1917. Ao encontrar, hoje, os restos de um e de outro, destroços das anotações que então fazia, lamento não os ter continuado. A culpa não foi, entretanto, minha. Tive, de então para cá, de lutar penosamente pela subsistência, mantendo-me, e a uma família numerosa, exclusivamente com o trabalho da minha pena. Os meus dias, as minhas horas, os meus minutos, passaram a ser convertidos em pão. Quem tem fome não planta árvores de luxo, que só produzem ao fim de cinco anos; planta leguminosas comuns, que frutificam em cinco semanas. Foi o que eu fiz. (Campos, 1954a, p. 84)

A origem de seu livro de contos orientais é mencionada em anotação de 28 de junho de 1934. Humberto fala da amizade que tinha com Malba Tahan – pseudônimo de Júlio César de Melo e Sousa –, conhecido autor de narrativas com temáticas orientais. E conta que, a pedido de Assis Chateaubriand, começou, ele também, a escrever contos orientais, que apareceram na imprensa. Depois, José Olympio quis editar um livro com esses contos, e foi então que surgiu À sombra das tamareiras. Com a publicação do livro, Malba Tahan teria rompido a amizade com Humberto, que comenta: “Por que não me preveniu ele de que havia tirado patente como produtor de contos orientais?” (Campos, 1954b, p. 453)

Em 1º de janeiro de 1933, anotou: “Publiquei um livro, O monstro e outros contos, que a imprensa e os críticos, em julgamento constante, consideraram a melhor das minhas obras até agora publicadas [...]” (Campos, 1954b, p. 320). Porém, entre os seus livros, o mais referido no Diário secreto é provavelmente Memórias, sobre o qual o autor reproduz muitas das opiniões elogiosas que circularam nos meses seguintes ao lançamento do volume (1933).

Os livros Notas de um diarista, que têm duas séries, remetem à coluna homônima à qual Humberto de Campos se refere em anotação de 19 de outubro de 1930:

Inicio, sob o título geral “Notas de um diarista”, a minha colaboração diária em “O Jornal”, de Assis Chauteaubriand. Trato da Revolução, confessando que a combati, e que serei contra todo movimento armado que se apresente para solução de problemas políticos. Telefonemas, parabéns de amigos, que me saúdam pelo desassombro com que confesso a minha solidariedade com os vencidos diante dos revolucionários vitoriosos. (Campos, 1954b, p. 108)

Por causa das críticas ao novo governo, expressas nas “Notas de um diarista”, houve uma ordem de prisão contra o escritor, que não foi executada, conforme consta da anotação de 19 de março de 1931. Após essa ameaça, Assis Chauteaubriand teria pedido para Humberto de Campos não mais tratar de política em suas crônicas. De fato, a oposição do escritor a Getúlio Vargas não teve maiores conseqüências: o político gaúcho admirava a literatura de Humberto, conhecia sua popularidade e fora informado de que ele, enfermo, estava em dificuldades financeiras. No mesmo ano, o governo o nomeou inspetor federal de ensino; e, no final de 1933, o escritor foi nomeado diretor da Casa de Rui Barbosa. Quando o livro Memórias foi lançado, Humberto enviou um exemplar ao presidente com a seguinte dedicatória:

Ao eminente sr. dr. Getúlio Vargas, esta homenagem de profunda e comovida gratidão, pela generosidade carinhosa com que acompanhou, na adversidade e na doença, um pobre escritor que foi seu adversário político, e que, ao oferecer-lhe esta humilde lembrança das suas letras, pode repetir, consolado, os dois famosos versos de Luis de Góngora:
“Por tu espada y por tu trato
Me has cautivado dos veces”. (Apud Leão, 1941, p. 350) 

Nem tudo o que escrevia era assinado. No Diário, porém, o escritor assume a autoria de alguns textos anônimos. Em nota de 14 de maio de 1931, revela: “Com o título A Mentira Comunista, foi distribuído hoje, gratuitamente, um folheto de 40 páginas, anônimo, que escrevi a pedido de Assis Chateaubriand.” (Campos, 1954b, p. 150)

Às vezes, um tema era registrado no Diário e tratado também em colunas jornalísticas. O primeiro estava destinado a ser publicado vinte anos após a morte do escritor; o segundo, no dia ou na semana seguinte. Em 19 de abril de 1929, Humberto de Campos anota em seu diário:

Recebo um novo livro de Coelho Neto: Bazar. É um punhado de crônicas de jornal, em que se seguem os lugares-comuns, se sucedem as expressões banais, os termos da gíria, as frases feitas, compondo página sem relevo, sem interesse, sem beleza. Ao ler as primeiras, apossou-se de mim uma grande tristeza, uma grande piedade, um grande dó. Lembrei-me de uma frase do Abade Brémond, e exclamei, comigo mesmo: – Meu pobre e grande Coelho Neto! A ti, que dessedendaste de beleza tantas gerações, como custa, hoje, espremer o resto do último limão para preparar uma limonada!... (Campos, 1954a, p. 330)

Sobre esse mesmo livro de Coelho Neto, há um artigo de Humberto de Campos publicado no primeiro volume de sua Crítica, intitulado “O sr. Coelho Neto e o seu estilo”. Com digressões, situa o lugar de destaque que seu conterrâneo ocupava na literatura brasileira. No final dos anos 20, era um dos escritores mais combatidos pelos modernistas. “Sou o último heleno”, gritou Coelho Neto aos adversários. Em seu estudo, no qual subjaz a idéia de que um livro menor não comprometeria a obra de seu amigo, Humberto de Campos é muito mais delicado para aludir objeções a Bazar:

O novo livro do príncipe dos nossos prosadores, sem ser, assim, um documento reafirmador do seu estilo suntuoso ou, como querem outros, suntuário, difere dos demais pela vivacidade das idéias, e pela coragem com que desce a discutir assuntos vulgares e transitórios. Bazar é, mesmo, um livro quase político. Tem mais valor pela substância, pelas opiniões que enuncia, pelas idéias pessoais que difunde, do que pela vestimenta que lhe dá. É um retrato do sr. Coelho Neto, mas apanhando apenas meio corpo. O estilista uniforme, esse está na sua obra de ficção – nos seus romances, nos seus contos, nas suas fantasias fortes, nos cenários e acontecimentos, em suma, que se desenrolam fora da vida comum. (Campos, 1960u, p. 298-299)


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Fonte:
Alexandre Caroli Rocha
: “O caso Humberto de Campos: Autoria literária e mediunidade”. (Tese apresentada ao Instituto de Estudos da Linguagem, da Universidade Estadual de Campinas, como requisito parcial para a obtenção do título de doutor em Teoria e História Literária. Área de concentração: Literatura e Outras Produções Culturais. Orientador: Professor Dr. Haquira Osakabe). Campinas, 2008. 

Notas:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

09/02/2014

O Monstro e outros contos, de Humberto de Campos

 Humberto de Campos: O Monstro e outros contos
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Sobre sua literatura

Humberto de Campos fez parte de uma geração de escritores brasileiros que, nas primeiras décadas do século passado, empregaram-se em jornais de grande circulação e desenvolveram sua literatura sob as injunções da imprensa. Obrigado a muito escrever para cumprir suas obrigações de literato assalariado, seus textos diários eram suas mercadorias. Ele lamentava não ter podido produzir uma obra literária mais elaborada e de maior alcance artístico, a qual não estivesse fadada ao esquecimento. A respeito dessa literatura para a subsistência, eis um trecho da crônica “Uma voz na sombra”: “Como poderei escrever um romance forte, um trabalho de meditação ou de observação, se tenho de vender, a retalho, as idéias miúdas que me vêm, e se não há compradores na praça para as outras de maior porte? Que aspiração pode alimentar, ainda, um escritor, cujas ilusões caíram todas, e morreram, como pássaros, na gaiola da realidade, e que tem de ralhar diariamente com o cérebro por ordem imperiosa do estômago?” (Campos, 1960d, p. 24-25)

Para dimensionar sua produção, Humberto de Campos registra, em anotação de 19 de março de 1928 do Diário secreto, que, num período de dez anos, escrevera mais do que o prolífico Guy de Maupassant. E comenta: “É verdade que o produto de um cérebro quase genial é diferente da obra de um escritor como eu. Mas o trabalho cerebral é o mesmo.

Tanto cansa o tear que tece o fio de seda como o que trabalha com o fio de algodão.” (Campos, 1954a, p. 159) Apesar de seus laços com a imprensa, preferia se apresentar mais como literato do que como jornalista. Na crônica “A defesa de Noé”, após mencionar algumas críticas que um grupo de escritores da nova geração lhe dirigia, segundo as quais sua literatura caíra no misticismo religioso e era contra-revolucionária, o escritor se justifica:

[...] acusar-me de misticismo religioso é dar testemunho de que nada sabe nem da minha literatura nem da minha vida. Se há um espírito livre de superstições na atualidade literária do Brasil, esse é o meu. Apenas, por educação e por princípio, não tiro Deus ao coração de ninguém. Porque tenho o meu vazio, não me considero modelo de prudência e sabedoria. Sem um templo em que me prosterne, não me sinto no direito de incendiar os altares dos que têm fé. E se não sou filósofo, aprendi, pelo menos, com os que têm esse nome, a arte de suportar a vida e as dores que ela me trouxe, e de me não supor, entre os homens ignorantes, o portador do facho de Minerva.

Não sou, evidentemente, um espírito moderno, destinado a presidir à renovação do mundo. Sou antigo e contra-revolucionário, porque não me ocupo senão da alma humana, cujas aspirações instintivas não variaram através dos séculos. (Campos, 1960k, p. 104-105) Em anotação de 30 de julho de 1928, no Diário secreto, Humberto fala do plano de obra que pretendia ter realizado, que visava à poesia e à crítica, e das razões práticas que o levaram a explorar outras formas de texto:

O meu grande sonho era realizar uma obra poética uniforme e vasta, de que eram base, já, os dois volumes da “Poeira...” Ao lado dessa obra poética, viria uma obra crítica, uma série de ensaios, como os de Sainte-Beuve, Brunetière e Doumic. As obrigações de família, agravadas pelo espólio humano do meu sogro – três senhoras idosas que vieram para a minha casa desde que me casei, – fizeram-me dedicar inteiramente à imprensa, onde instituí as crônicas miúdas e humorísticas, os contos ligeiros e cotidianos, que deram popularidade ao meu nome [...] Esses livros [de contos humorísticos e os dois primeiros de crônicas] deram-me dinheiro e nomeada. Essa nomeada fez-me deputado. Tivesse eu ficado a rimar os meus versos e a escrever os meus ensaios, como era do meu programa inicial, e teria chegado onde hoje me encontro?

Deus sabe, pois, mais do que nós, o que faz a nosso respeito. E eu só tenho, por mim, que abençoar o dia em que ele, tomando-me pela orelha, e utilizando as três sogras que me deu, me fez humoristicamente mudar de caminho... (Campos, 1954a, p. 254-255)

Convém notar que o Diário secreto é o espaço no qual o escritor se permite destoar, muitas vezes, de seu próprio discurso em outros livros, numa atitude que realça as limitações do meio jornalístico e literário em que se encontrava. O escritor imprimiu uma tendência mais “oficial” nas crônicas e nas memórias, ao passo que, no Diário secreto, ele procura livrar-se de amarras relacionadas às conveniências de seu meio. No entanto, isso não impede que, também nesta obra, o autor alimente determinadas imagens de si, com vistas a oferecer, ele mesmo, suas possíveis representações para a posteridade. Em algumas crônicas posteriores a 1928, Humberto de Campos procura difundir certo distanciamento em relação aos escritos do Conselheiro XX: “No tempo em que eu escrevia páginas mais ou menos alegres, isto é, quando a vida ainda não havia posto a sua dose de centáurea menor no meu copo [...]” (Campos, 1960j, p. 183). Outras vezes, embora com desconforto, tenta qualificar essa literatura, não como licenciosa, mas como galante:

Os dez volumes alegres que escrevi, e que formam um acervo de 1.120 pequenos contos originais ou traduzidos, não são, sem dúvida, dos mais edificantes e modelares, sob o ponto de vista moral ou, antes, da moralidade. [...] Eu tenho uma bibliografia galante, confesso; mas não tenho uma obra propositalmente imoral. Os meus miúdos contos maliciosos foram escritos para fazer sorrir a uma sociedade que conhece o pecado; mas não ensinam, eles mesmos, o pecado [...] Nas 3.690 páginas que formam esses dez volumes erradamente classificados de fesceninos, não se encontra, em suma, um só termo brutal ou vocábulo que não possa ser proferido em voz alta. O que poderia haver de inconveniente e censurável está em subentendidos, no duplo sentido das expressões, no equívoco das situações cômicas, nos atributos literários, enfim, que caracterizam a literatura galante e a distinguem da literatura licenciosa. (Campos, 1960v, p. 309-310)

Encontram-se no Diário secreto informações a respeito da história dos livros de Humberto de Campos – como surgiram, a recepção que obtiveram etc. – e de seu trabalho em jornais. Quanto ao próprio Diário secreto, o autor historia sua composição, no registro de 1º de janeiro de 1928:

É a terceira vez que inicio um diário íntimo, o registro fiel e cotidiano da minha vida e, em parte, da vida alheia. A primeira tentativa nesse sentido foi em janeiro de 1915. A segunda, em 1917. Ao encontrar, hoje, os restos de um e de outro, destroços das anotações que então fazia, lamento não os ter continuado. A culpa não foi, entretanto, minha. Tive, de então para cá, de lutar penosamente pela subsistência, mantendo-me, e a uma família numerosa, exclusivamente com o trabalho da minha pena. Os meus dias, as minhas horas, os meus minutos, passaram a ser convertidos em pão. Quem tem fome não planta árvores de luxo, que só produzem ao fim de cinco anos; planta leguminosas comuns, que frutificam em cinco semanas. Foi o que eu fiz. (Campos, 1954a, p. 84)

A origem de seu livro de contos orientais é mencionada em anotação de 28 de junho de 1934. Humberto fala da amizade que tinha com Malba Tahan – pseudônimo de Júlio César de Melo e Sousa –, conhecido autor de narrativas com temáticas orientais. E conta
que, a pedido de Assis Chateaubriand, começou, ele também, a escrever contos orientais, que apareceram na imprensa. Depois, José Olympio quis editar um livro com esses contos, e foi então que surgiu À sombra das tamareiras. Com a publicação do livro, Malba Tahan teria rompido a amizade com Humberto, que comenta: “Por que não me preveniu ele de que havia tirado patente como produtor de contos orientais?” (Campos, 1954b, p. 453)

Em 1º de janeiro de 1933, anotou: “Publiquei um livro, O monstro e outros contos, que a imprensa e os críticos, em julgamento constante, consideraram a melhor das minhas obras até agora publicadas [...]” (Campos, 1954b, p. 320). Porém, entre os seus livros, o mais referido no Diário secreto é provavelmente Memórias, sobre o qual o autor reproduz muitas das opiniões elogiosas que circularam nos meses seguintes ao lançamento do volume (1933).

Os livros Notas de um diarista, que têm duas séries, remetem à coluna homônima à qual Humberto de Campos se refere em anotação de 19 de outubro de 1930:

Inicio, sob o título geral “Notas de um diarista”, a minha colaboração diária em “O Jornal”, de Assis Chauteaubriand. Trato da Revolução, confessando que a combati, e que serei contra todo movimento armado que se apresente para solução de problemas políticos. Telefonemas, parabéns de amigos, que me saúdam pelo desassombro com que confesso a minha solidariedade com os vencidos diante dos revolucionários vitoriosos. (Campos, 1954b, p. 108)

Por causa das críticas ao novo governo, expressas nas “Notas de um diarista”, houve uma ordem de prisão contra o escritor, que não foi executada, conforme consta da anotação de 19 de março de 1931. Após essa ameaça, Assis Chauteaubriand teria pedido para Humberto de Campos não mais tratar de política em suas crônicas. De fato, a oposição do escritor a Getúlio Vargas não teve maiores conseqüências: o político gaúcho admirava a literatura de Humberto, conhecia sua popularidade e fora informado de que ele, enfermo, estava em dificuldades financeiras. No mesmo ano, o governo o nomeou inspetor federal de ensino; e, no final de 1933, o escritor foi nomeado diretor da Casa de Rui Barbosa.

Quando o livro Memórias foi lançado, Humberto enviou um exemplar ao presidente com a seguinte dedicatória:

Ao eminente sr. dr. Getúlio Vargas, esta homenagem de profunda e comovida gratidão, pela generosidade carinhosa com que acompanhou, na adversidade e na doença, um pobre escritor que foi seu adversário político, e que, ao oferecer-lhe esta humilde lembrança das suas letras, pode repetir, consolado, os dois famosos versos de Luis de Góngora:

“Por tu espada y por tu trato
Me has cautivado dos veces”. (Apud Leão, 1941, p. 350)

Nem tudo o que escrevia era assinado. No Diário, porém, o escritor assume a autoria de alguns textos anônimos. Em nota de 14 de maio de 1931, revela: “Com o título A Mentira Comunista, foi distribuído hoje, gratuitamente, um folheto de 40 páginas, anônimo, que escrevi a pedido de Assis Chateaubriand.” (Campos, 1954b, p. 150)

Às vezes, um tema era registrado no Diário e tratado também em colunas jornalísticas. O primeiro estava destinado a ser publicado vinte anos após a morte do escritor; o segundo, no dia ou na semana seguinte. Em 19 de abril de 1929, Humberto de Campos anota em seu diário:

Recebo um novo livro de Coelho Neto: Bazar. É um punhado de crônicas de jornal, em que se seguem os lugares-comuns, se sucedem as expressões banais, os termos da gíria, as frases feitas, compondo página sem relevo, sem interesse, sem beleza. Ao ler as primeiras, apossou-se de mim uma grande tristeza, uma grande piedade, um grande dó. Lembrei-me de uma frase do Abade Brémond, e exclamei, comigo mesmo:

– Meu pobre e grande Coelho Neto! A ti, que dessedendaste de beleza tantas gerações, como custa, hoje, espremer o resto do último limão para preparar uma limonada!... (Campos, 1954a, p. 330)

Sobre esse mesmo livro de Coelho Neto, há um artigo de Humberto de Campos publicado no primeiro volume de sua Crítica, intitulado “O sr. Coelho Neto e o seu estilo”. Com digressões, situa o lugar de destaque que seu conterrâneo ocupava na literatura brasileira. No final dos anos 20, era um dos escritores mais combatidos pelos modernistas. “Sou o último heleno”, gritou Coelho Neto aos adversários. Em seu estudo, no qual subjaz a idéia de que um livro menor não comprometeria a obra de seu amigo, Humberto de Campos é muito mais delicado para aludir objeções a Bazar:

O novo livro do príncipe dos nossos prosadores, sem ser, assim, um documento reafirmador do seu estilo suntuoso ou, como querem outros, suntuário, difere dos demais pela vivacidade das idéias, e pela coragem com que desce a discutir assuntos vulgares e transitórios. Bazar é, mesmo, um livro quase político. Tem mais valor pela substância, pelas opiniões que enuncia, pelas idéias pessoais que difunde, do que pela vestimenta que lhe dá. É um retrato do sr. Coelho Neto, mas apanhando apenas meio corpo. O estilista uniforme, esse está na sua obra de ficção – nos seus romances, nos seus contos, nas suas fantasias fortes, nos cenários e acontecimentos, em suma, que se desenrolam fora da vida comum. (Campos, 1960u, p. 298-299)


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Fonte:
Alexandre Caroli Rocha: “O caso Humberto de Campos: Autoria literária e mediunidade”. (Tese apresentada ao Instituto de Estudos da Linguagem, da Universidade Estadual de Campinas, como requisito parcial para a obtenção do título de doutor em Teoria e História Literária. Área de concentração: Literatura e Outras Produções Culturais. Orientador: Professor Dr. Haquira Osakabe Co-orientadora: Professora Dra. Maria Betânia Amoroso). UNICAMP - Instituto de Estudos da Linguagem. Campinas, 2008.