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15/06/2014

Teatro Completo de Qorpo Santo

 Teatro Completo de Qorpo Santo
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A ressurreição da obra

Em 1966, no Clube de Leitura de Porto Alegre, são encenadas as comédias “Mateus e Mateusa”, “Eu sou vida; eu não sou morte” e “As relações naturais”, sob a direção de Antônio Carlos de Sena. A partir de então, outras montagens se seguiram, e a imprensa de Porto Alegre e do centro do país passou a atentar para a obra do escritor sul-riograndense. Essa encenação foi a consagração do trabalho do professor Guilhermino Cesar, que há anos tentava estudar e publicar a obra de Qorpo-Santo. Nessa época, apenas três dos nove volumes da Ensiqlopèdia qorpo-santense eram conhecidos: os de número II, IV e VII. O volume IV, que contém os textos dramáticos do autor devidamente datados, demonstra que Qorpo-Santo os escrevera entre janeiro e julho de 1866. Dos outros volumes constam poemas, reflexões, notas autobiográficas, observações cotidianas, culinária, projetos filosóficos, além de textos que teriam sido publicados no jornal A justiça.

Em 1967, no Correio da manhã, Décio Pignatari proclama que as peças do escritor são exemplos de metateatro, elogiando “o comando da meta-linguagem (sic), de alusão e crítica à linguagem romântica e ao teatro de costumes da época”. O artigo desse importante poeta e crítico literário ainda ressalta o valor do comediógrafo que, segundo ele, “emerge do passado para tonificar  um  pouco  a  anêmica  corrente  sangüínea  da  nossa  literatura dramática  e poética”. Além disso, Pignatari tece comentários sobre as três peças que havia lido na época, “Mateus e Mateusa”, “Eu sou vida; eu não sou morte” e “As relações naturais”, bem como relaciona o que chamou, em Qorpo-Santo, de meta-teatro, com os trabalhos de Ionesco e de Artaud. É o começo de uma crescente valorização que o século XX conferiria à obra de Qorpo-Santo.

No ano seguinte, a montagem de Antônio Carlos de Sena é levada para o Rio de Janeiro e merece uma análise de Yan Michalski, no Jornal do Brasil, onde o autor considera provável que o sul-riograndense seja o precursor mundial do teatro do absurdo. Além disso, elogia a imaginação, o humor e a constante ameaça de tragédia presentes em seu teatro, o que, segundo ele, lembra Beckett e Pinter. O ano de 1968 seria o da grande descoberta da obra de Qorpo-Santo. Três novas montagens teatrais são realizadas de fevereiro a junho, no Rio de Janeiro, e há, inclusive, a proibição de um espetáculo do Teatro Jovem, dirigido por Luiz Carlos Maciel, sob a acusação de adulteração do sentido da peça “As relações naturais”. No segundo semestre, a discussão acerca da descoberta de Qorpo-Santo causa furor em Porto Alegre: vários artigos são publicados na imprensa tentando esclarecer a real participação dos envolvidos na valorização do escritor, além de se criarem partidos antagônicos a favor de Aníbal Damasceno Ferreira e de Guilhermino Cesar, embora nenhum dos dois reivindicasse o título de descobridor.

Desde então, os trabalhos de pesquisa sobre Qorpo-Santo começam a se multiplicar. Entre eles, destacam-se: a compilação das peças do autor, empreendida por Guilhermino Cesar; uma tese de mestrado tratando de aspectos estéticos da obra de Qorpo-Santo, feita por Flávio Aguiar; a pesquisa de Leda Maria Martins, que estabeleceu relações entre o teatro de Qorpo-Santo e as inovações cênicas ocorridas na dramaturgia do século XX; um livro de Eudinyr Fraga, em que Qorpo-Santo é visto como um precursor do surrealismo; um romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, tendo o comediógrafo como personagem principal; e a compilação de poemas do escritor realizada por Denise Espírito Santo.

O primeiro desses estudos, As relações naturais e outras comédias, foi publicado em 1969 pela Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Nesse livro, encontram-se  compiladas  nove  comédias  de  Qorpo-Santo,  com  anotações  e  prefácio  de Guilhermino Cesar. São elas: “As relações naturais”, “Mateus e Mateusa”, “Hoje sou um; e amanhã outro”, “Eu sou vida; eu não sou morte”, “Um credor da Fazenda Nacional”, “Um assovio”, “Certa entidade em busca de outra”, “Lanterna de fogo” e “Um parto”.

A obra apresenta trechos da Ensiqlopèdia onde Qorpo-Santo traça sua autobiografia, bem como traz os autos dos exames pelos quais o escritor passou devido aos distúrbios mentais e os despachos do juiz responsável. Também reproduz documentos históricos que oferecem dados sobre a morte do autor, os herdeiros e os bens, e traça a cronologia de sua obra dramática. O livro ainda relaciona o conteúdo dos volumes conhecidos da Ensiqlopèdia (que, na época, eram apenas três) e apresenta um estudo crítico sobre a obra de Qorpo-Santo.

No Estudo Crítico, Cesar afirma que, da Ensiqlopèdia, foram publicados, no mínimo, oito fascículos, dos quais apenas três seriam conhecidos (dois pertencentes ao Professor Dario de Bittencourt e um ao escritor Olyntho Sanmartin). O crítico explica a publicação da obra do escritor sul-riograndense como uma espécie de revide aos jornais da Província, que já não aceitavam seus textos:

Num desses momentos de paz que a Justiça, implacável, lhe concedeu, fundou a Tipografia Qorpo-Santo, à Rua General Câmara, esquina da Rua da Praia; e, como o fizera anteriormente em Alegrete, publicou seus escritos, tornando-se o editor de si mesmo. Desforrou-se, por essa forma, dos jornais gaúchos, que teimavam em recusar-lhe a colaboração. E assim se explica o aparecimento da Enciclopédia ou Seis Meses de uma Enfermidade, coletânea hoje absolutamente rara.

Ainda segundo Cesar, foi Olyntho Sanmartin quem começou a estudar a sério a poesia de Qorpo-Santo, em 1955. Mas assinala que, ao escrever a História da literatura do Rio Grande do Sul, publicada no ano seguinte, ele mesmo não encontrara nada de autoria do poeta e comediógrafo oitocentista nas bibliotecas e arquivos do país. E esclarece que fora Aníbal Damasceno  quem  lhe  indicara  o  professor  Dario  de  Bittencourt  como  detentor  de  um fascículo da Ensiqlopèdia.

Cesar também constata as diferenças que existem entre as peças do autor e o que era produzido pelo teatro da época:

Tais  comédias  não  são  nada  românticas,  quer  no  tema,  quer  na  linguagem  e  na atmosfera,  embora  seu  autor  houvesse  nascido  em  1829.  Apresentam  situações conflituosas peculiares à sociedade gaúcha do século XIX; e, do ponto de vista da expressão verbal, são verdadeiramente surpreendentes: desprezam por completo a linguagem ornamental – comum no melhor teatro da época.


Na linguagem, Qorpo-Santo é, então, analisado como um autor singular, cuja frase seca, sem adjetivos e inversões oracionais, com seu fluxo elocutivo despojado, não caíra no gosto do público mais afeito à declamação, à loquacidade, do que à ação, o que faz dele o mais atual dos autores de seu tempo.


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Fonte:
Douglas Ceccagno: “Ovelhas merinas: malditas feras: O imaginário social no teatro de Qorpo-Santo”. ( “Dissertação  apresentada  como  requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Letras e Cultura Regional, com concentração na área de Literatura e Cultura Regional, pela Universidade de Caxias do Sul. Orientador: Prof. Dr. João Claudio Arendt). Caxias do Sul – RS, 2006.

Notas:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade. Disponível em: www.laab.com.br

Um credor da Fazenda Nacional (Teatro), de Qorpo Santo

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O nascimento do autor

A encenação de algumas comédias de Qorpo-Santo, primeiramente em Porto Alegre, em 1966, e, dois anos mais tarde, no Rio de Janeiro, fez com que o autor passasse a ser reconhecido como um precursor das vanguardas do teatro do século XX, como o surrealismo e o teatro do absurdo. Porém, até a sua descoberta pelo público brasileiro, na década de 1960, Qorpo-Santo já possuía, no Rio Grande do Sul, uma fama peculiar, sendo freqüentemente lembrado pelas perturbações mentais de que fora acusado. Além disso, seus escritos, entre fins do século XIX e início do século XX, já haviam se tornado objeto de comparação ao que de pior se produzia na literatura brasileira, conforme o gosto da época.

Devido à ausência de outras fontes sobre a biografia do autor, os dados que se podem obter estão presentes na obra Ensiqlopèdia ou seis mezes de huma enfermidade, compilação dos escritos realizada pelo autor, em 1877, e que são reproduzidos por pesquisadores como Guilhermino Cesar e Flávio Aguiar. Entretanto, a inclusão que o autor faz de si mesmo, como personagem, em suas peças, e os elogios que nelas tece ao próprio gênio, como em “Hoje sou um; e amanhã outro”, leva a desconfiar da veracidade das informações. Em Os homens precários, Aguiar afirma que, “graças à escassez de outras fontes, a vida de Qorpo-Santo mesclou-se de modo inextricável com sua obra literária. Portanto, é possível que as informações biográficas obtidas da Ensiqlopèdia sejam, em parte, fictícias, criadas pelo autor em favor de uma biografia que julgou ideal. Mesmo assim, deve-se atentar para esses dados, que revelam aspectos interessantes da personalidade de Qorpo-Santo.

Os principais fatos da vida do escritor são enumerados por Guilhermino Cesar, em seu livro intitulado Qorpo-Santo. Segundo ele, José Joaquim de Campos Leão nasceu no dia 19 de abril de 1829, na Vila do Triunfo, Rio Grande do Sul. Um ano depois da morte do pai, ocorrida em 1839, passa a morar em Porto Alegre, onde trabalha no comércio. Em 1851, habilita-se a exercer o magistério público, e efetivamente o exerce até 1855, mesmo ano em que se casa com Inácia Maria de Campos Leão, com quem viria a ter quatro filhos. No ano de 1857, muda-se para a cidade de Alegrete, onde se elege vereador em 1860. Entre 1867 e 1868, passa por vários exames de sanidade mental devido à suspeita de monomania, transtorno que se manifestaria como uma compulsão por escrever. Em 1877, edita suas obras em uma tipografia fundada por ele mesmo (com exceção do primeiro volume da Ensiqlopèdia, publicado na Imprensa Literária de Porto Alegre, no mesmo ano), porém sem obter grande repercussão. Em 1º de maio de 1883, morre de complicações pulmonares.

Como se vê, Qorpo-Santo antes de tornar-se escritor, foi uma figura reconhecida em sua época, exercendo importantes funções públicas, como professor de primeiras letras, vereador e comerciante. Além disso, Leda Maria Martins menciona que foi também jornalista e delegado de polícia e Flávio Aguiar lembra que, na Vila de Santo Antônio da Patrulha, “possivelmente fundou, com personalidades de prestígio, uma Loja Maçônica e um ‘Grupo Dramático’” e que, em Porto Alegre e em Alegrete, “adquiriu certo destaque como professor, chegando a dirigir estabelecimentos de ensino”.

Contudo, esse respeito público era condicionado pela sua sanidade mental. A monomania, perturbação mental de que Qorpo-Santo foi acusado, e de que era sintoma a compulsão por escrever, trouxe-lhe o desdém e o escárnio da sociedade sul-riograndense. É possível que ela tenha ocorrido devido a uma noite em que o então professor foi espancado na cabeça por dois assaltantes. Começou a manifestar-se por volta de 1861 e, depois de vários exames em Porto Alegre e no Rio de Janeiro, a doença levou-o a uma interdição judicial em 1868, o que lhe impediu o convívio com a família e a gerência dos próprios bens. No entanto, o autor nunca admitiu que sofresse de tal transtorno e lutou contra a interdição até o fim de seus dias, inclusive atribuindo ao juiz Antônio Correia de Oliveira – que o acusava – o mesmo transtorno de que era acusado. Flávio Aguiar assinala que, em alguns textos, Qorpo-Santo sugere que sua mulher houvesse planejado sua interdição, junto com o referido juiz, devido a existir entre os dois um caso de adultério, embora alguns dos artigos do autor sugiram que ele realmente sofria de uma cisão de personalidade característica da esquizofrenia.

A doença e o processo por que passou parecem ter contribuído para a produção de sua literatura. Embora, antes de passar por tais vicissitudes, Qorpo-Santo já exercesse alguma atividade literária, a partir delas sua escrita se intensificou, de modo que escrevia em diversos gêneros e sobre todos os assuntos. Basta verificar as datas das suas dezessete comédias, escritas todas no mesmo ano de 1866, para se ter idéia do ritmo frenético em que suas obras eram concebidas. Além disso, o mau tratamento que seus textos vinham recebendo nos jornais em que eram publicados levou o escritor a fundar, em 1868, em Porto Alegre, o periódico A justiça, no qual expunha suas idéias e defendia-se das acusações sofridas. Já em 1871, embora impedido de gerir seus bens, reeditava A justiça em Alegrete e, em 1877, de volta a Porto Alegre, editava sua Ensiqlopèdia em nove volumes, o primeiro pela Imprensa Literária de Porto Alegre, e os outros pela Tipografia Qorpo-Santo, por ele fundada.

Nessa obra, da qual a pesquisadora Denise Espírito Santo afirma serem somente seis os volumes conhecidos8, são reunidos os mais diversos gêneros textuais. Conforme assinala Aguiar, naturalmente com a imprecisão devida ao desconhecimento da totalidade de seus nove volumes, Qorpo-Santoprocurou reunir, como pôde e como lhe ajudou a mente perturbada, tudo o que escrevera até então: comédias, poemas, artigos, reflexões políticas, observações sobre economia, recados, bilhetes, anúncios pedindo empregadas domésticas, páginas sobre suas dúvidas e hesitações sexuais, fantasias íntimas, conselhos homeopáticos, receitas culinárias, pensamentos e interpretações religiosos, observações incompreensíveis, uma autobiografia rápida escrita em 1876, pelo menos um romance, talvez dramas e/ou tragédias (diz a lenda que Qorpo-Santo escreveu uma tragédia em 74 atos...)

Não há uma ordem na apresentação dos assuntos: a Ensiqlopèdia é caótica na sua composição. Isso revela uma idéia de dessacralização da literatura, a partir da qual são postos, lado a lado, gêneros prestigiados, como a poesia e a dramaturgia, e simples anúncios pedindo empregadas. Para Martins, “já na montagem de seus textos Qorpo-Santo revela uma visão renovadora e moderna do que seja o objeto de arte. Sua Ensiqlopèdia compõe-se de um aglomerado dos mais diferentes assuntos e gêneros, dispostos no mesmo nível literário, numa bricolage fantástica.”10 Além disso, não há uma unidade narrativa no decorrer da obra: ela não possui uma sucessão organizada na forma de princípio, meio e fim. Segundo Aguiar, “a realidade que Qorpo-Santo retratou se apresenta ao leitor filtrada através de uma infinidade de instantâneos autônomos que, superpondo-se mais do que se encadeando, formam uma imagem ampla do mundo e da época do escritor”, o que quer dizer que Qorpo-Santo inaugura uma forma de ver a sociedade sob uma perspectiva, ao mesmo tempo, ampla e fragmentada, de maneira que, sobre seu texto, pode-se pesquisar um grande leque de assuntos acerca do grupo social ali representado: desde a linguagem e a literatura de fins do século XIX, até a ordem social estabelecida, a política, a religião, ou mesmo a gastronomia.

No quarto volume da obra, estão presentes as dezessete comédias escritas pelo autor, sendo dezesseis completas e uma incompleta (“Uma pitada de rapé”, da qual só se conhece a primeira página). Nelas, observam-se temas como sexo, prostituição, concubinato, relações familiares e sociais, guerras, burocracia, reformas sociais, homossexualismo e reencarnação de almas. Além disso, as peças são escritas em linguagem despojada de lirismos, afrontando o bom gosto romântico, e não foram revisadas pelo autor, que, por sua vez, autorizou em nota às comédias que qualquer pessoa que quisesse levá-las à cena poderia fazer as alterações que julgasse necessárias. Porém, a dramaturgia de Qorpo-Santo só conheceria o palco cem anos depois de sua escritura. Até então, o escritor permaneceria sem o reconhecimento público e seria lembrado mais por seus desvios de personalidade, que pelo valor de sua obra literária.


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Fonte:
Douglas Ceccagno: “Ovelhas merinas: malditas feras: O imaginário social no teatro de Qorpo-Santo”. ( “Dissertação  apresentada  como  requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Letras e Cultura Regional, com concentração na área de Literatura e Cultura Regional, pela Universidade de Caxias do Sul. Orientador: Prof. Dr. João Claudio Arendt). Caxias do Sul – RS, 2006.

Notas:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade. Disponível em: www.laab.com.br

Um Assovio (Teatro), de Qorpo Santo

Um Assovio
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[Qorpo-Santo] “Ora sou um, ora sou outro”.

Ainda não é tudo, senhor. Esse homem era durante esse tempo de jejum, estudo e oração-alimentado pelos Reis do Universo, com exceção dos de palha! A sua cabeça era como um centro, donde saiam pensamentos, que voavam às dos Reis de que se alimentava, e destes recebia outros. Era como o coração do mundo, espalhando sangue por todas as suas veias, e assim alimentando-o e fortificando-o, e refluindo quando necessário o seu centro! Assim como acontece a respeito do coração humano, e do corpo em que se acha. Assim é que tem podido levar a todo mundo habitado sem auxílio de tipo-tudo quando há querido. (Qorpo-Santo- Hoje sou um; e amanhã outro)

O dramaturgo José Joaquim de Campos Leão, conhecido por Qorpo-Santo, escritor ficcionalizado por Assis Brasil, foi contemporâneo de Artur Azevedo, Aloísio Azevedo, Machado de Assis, entre outros. A diferença é que, enquanto Qorpo-Santo se dividia entre a tarefa de escrever e de defender-se das acusações por loucura, seus colegas podiam se dedicar mais integralmente ao mais recente modelo literário que substituía os antigos padrões românticos. Ou seja, Qorpo-Santo, àquela época era um ilustre desconhecido por viver na periferia do império. Um professor radicado na província que esteve no Rio de Janeiro, centro cultural do país, apenas para tratamento de saúde. O dramaturgo seria descoberto cem anos depois e suas peças tinham pouco de românticas ou realistas.

Ao modo do que propõe o argentino Jorge Luís Borges (1987) no conto-ensaio “Kafka y sus precursores”, sugerindo que é a leitura de um determinado autor que determina as suas semelhanças ou diferenças com outros, a crítica do XX, como por exemplo, Guilhermino César e Maria Valquíria Marques, entre outros, tem afirmado que Qorpo-Santo premeditou a ilusão dos palcos modernos. Ou seja, alguns de seus textos foram comparados aos de Jarry e Ionesco, por apresentarem características pertinentes ao Teatro do Absurdo, significando com isso que o provinciano dramaturgo, além de apostatar-se do romantismo ainda em voga, demonstrou ser capaz de realizar uma outra leitura do mundo. Qorpo-Santo escreveu, entre outras coisas, peças de teatro e todos os textos foram impressos em sua própria tipografia. Suas farsas identificam a hipocrisia das tradições provincianas e trazem consigo esta faceta misteriosa do autor inserido em um contexto realista, qual se vê travestido de ator para representar as ilimitadas fronteiras do absurdo.

Segundo Maria Valquíria Marques (1993), Qorpo-Santo está dentro de suas antipeças, que ele confunde com romances. Explica ainda que, dentro da concepção de texto de Qorpo-Santo, a não obediência a determinado gênero não se dá por recusa a um determinado sistema de representação ou imitação do mundo: “É a eterna representação do seu ‘romance familiar’ que está por trás de seus escritos, em que ele encena a possível articulação de seu fantasma com seu desejo” (MARQUES, 1993, p. 32).

Qorpo-Santo sofreu um processo de interdição por ter sido considerado louco, vítima de uma doença incurável, chamada monomania. Sobre este assunto, Guilhermino César (1980) enfatiza que a doença mental manifestou-se muito cedo em Qorpo-Santo e que lhe cortou a carreira de professor, afastou-o da família, isolou-o da própria sociedade. Aponta também que os primeiros rebates do mal se acentuaram, de modo a justificar a intervenção da Justiça, por volta de 1864, e assim, “transcorrido pouco mais de um ano, o juiz de órfãos e ausentes de Porto Alegre resolveu mandar Qorpo-Santo para o Rio de janeiro, a fim de que ali fosse examinado por médicos especialistas” (CÉSAR, 1980).

Essa loucura, no entanto, no século XX passa a ser lida de modo diferente, conforme se pode constatar pela observação de Alfredo Bosi (1994): A “loucura” e o nonsense de Qorpo-Santo devem, pois, ser historicizados à luz do contexto familiar do século XIX e, mais largamente, à luz dos conflitos entre o capricho individual e a conduta instituída; conflito de que a farsa é expressão e válvula de escape" (BOSI, 1994, p. 274).

No entanto, provavelmente, Achylles Porto Alegre (1920) tenha sido o primeiro a mencionar Qorpo-Santo e, de maneira indireta, relacioná-lo ao campo literário:

Morava nos últimos tempos, na esquina da rua dos Andradas com a Ladeira onde está agora o Metrópole Restaurante. Foi uma espécie de D. Quixote. Atacara primeiro os moinhos de vento do jornalismo contando ahi encontrar um estupendo “El-Dourado”. Dom Quixote porém não desanimou: voltou-se para a poesia. Aqui já não atacou moinhos, mas cataventos: foi como se quisesse meter no bolso uma rajada de vento ou tecer com raios de sol uma corrente para o relógio. Fracassou também. Só Napoleões vencem o impossível. De ahi em diante, Qorpo-Santo foi de desillusão em desillusão, de queda em queda e desapareceu envolto numa capa de ridículo, porque foi um D. Quixote sem Dulcinéa (PORTO ALEGRE, 1920, recortes).

Alguns anos antes, o jornalista já evocava o escritor em suas crônicas:

[...] Levantam-se ahi dois velhos prédios com frente para a praça da Alfândega e dois fronteiros à ladeira. Eram mesquinhos sobrados, com duas sacadas verdes, tendo ao meio em lettras grandes, os dois nomes. Corpo-Santo. Que significava isso? Era o nome de um velho professor: José Joaquim Leão- Corpo Santo, actualmente de memória tão ridicularisada pelos intelectuaes. Todavia antes do desiquilibrio mental do que foi victima, Corpo-Santo foi homem de certo valor e representação. Exerceu o magistério público de 1851 a 1854 e leccionou em colegios particulares. Desempenhou cargos públicos, como o de Vereador em Alegrete. Nessa localidade fundou uma escola primária e secundária, transferindo para ahi a typographia de seu jornal "A Justiça", que em 1871 suspendeu a publicação iniciada na capital em 1868. No anno de 1876, já visilmente transtornado do cerebro, imprimiu, em typographia de sua propriedade, um livro de mais de 200 páginas, composição em duas colunnas, formato grande. Intitulava-se Encyclopédia. No pavimento térreo deste edifício esteve estabelecida a livraria do Gaspar Guimarães-uma das mais importantes e selectas do seu tempo. Muitos anos depois, sob o mesmo tecto do sobrado onde Corpo-Santo, com espírito crepuscular, escreveu suas célebres insânias, funcionou a sede da Sociedade de Lettras Ensaio Literario, constituída de rapazes do commercio e estudantes-alguns dos quaes tem hoje nome de relevo na litteratura gaúcha. Muito depois estabeleceu-se neste prédio a loja de fazendas "Eden Familiar". Mas que foi destruída por um incêndio. Assim o velho e feio prédio que pertenceu a Corpo-Santo, e que ficava no sítio onde está presentemente o palacete Chaves, está gloriosamente ligado à brilhante história da litteratura gaúcha (PORTO ALEGRE, 1920, p. 31- 33).

O autor teatral foi esquecido dentro do panorama literário por quase um século e sobre ele, Guilhermino César (1971) aponta alguns elementos importantes:

Não conhecemos, em língua portuguesa ninguém que se lhe compare. Embora muitas vezes não chegue a ser congruente, a ação que imagina, em termos de aliciante inventiva, deixa entrever uma concepção que será atual em qualquer época. Escrevia de um jato, numa vertigem insopitável. Foi menos um escritor "bem pensante" do que um criador extraordinário, desmedido e pessoal. Numa pausa lúcida, consentida pela doença mental de que sofria, Qorpo-Santo nos deixou algo que representa uma das contribuições mais originais que o Brasil pode oferecer ao teatro do Ocidente (CÉSAR, 1971, p. 268).

Guilhermino César apresenta 17 peças como de autoria de Qorpo-Santo. O dramaturgo escreveu também poemas, além dos nove volumes da Ensiclopédia ou seis mezes de uma enfermidade. Sobre o teatro de Qorpo-Santo, Guilhermino César que foi o idealizador da montagem das peças do dramaturgo, diz o seguinte:

Peças como “Um Credor da Fazenda Nacional”, “Mateus e Mateusa”, “As Relações Naturais”, para citar apenas três, justificam a fama em nossos dias alcançada pelo insano mestre-escola de Porto Alegre, Santo Antonio da Patrulha e Alegrete. Para que mais? Se Qorpo-Santo houvesse escrito tudo quando nos deixou no mesmo estilo, com a mesma eficácia dramática, seria simplesmente um gênio (CÉSAR, 1980).

O aspecto relacionado à revolução cênica do dramaturgo gaúcho está realçado na História do Teatro Brasileiro de Edwaldo Cafezeiro e Carmen Gadelha (1996), quando afirma que, na peça “Relações Naturais”, “além do problema do tempo, observa-se o desdobramento do personagem: o morto e o vivo simultaneamente apresentados” (CAFEZEIRO; GADELHA 1996, p. 208).

A partir de Guilhermino César (1980) costuma-se repetir as semelhanças entre o teatro do gaúcho e aquele que surgiria na Europa em meados do século XX. Conforme Leda Martins (1991):

A escritura de Qorpo-Santo posterioriza o próprio autor e nos antecipa em mais de 100 anos, forjando no espectador atual e no imaginário da modernidade um perturbador efeito de presente. Qorpo-Santo rompe os véus da mimese realista e nos introduz uma cena ilusória que não mascara sua natureza de jogo, fantasia, representação (MARTINS, 1991, p. 3l).

Apesar de que, de acordo com Lothar Hessel e Georges Readers, os méritos de Qorpo-Santo não se restringem apenas à pioneira utilização do absurdo, mas pelo fato de que este foi um dos muitos recursos utilizados pelo dramaturgo e que "suas comédias melhor se definiriam como sendo comédias satíricas, acusando-se assim menor teor de comicidade pura e a presença de intuitos de sátira, com despeito, mágoa e denúncia" (HESSEL; READERS, 1986, p.142). Portanto, os elementos satíricos destas peças podem ajudar a entender a construção da carnavalização no romance Cães da província.

Cabe ressalvar, no entanto, o envolvimento final de Qorpo-Santo como parte de um movimento em ascensão, apesar da distância espacial e temporal: espacial pelo fato de que o autor vivia na provinciana Porto Alegre e, portanto, sem contato com outros escritores da época, isto é, à margem da movimentada vida teatral do Rio de Janeiro.

Temporal porque as suas peças de caráter realista/naturalista, em sua estrutura básica, foram descobertas e encenadas, quase cem anos depois. Isto é, Qorpo-Santo não existiu como escritor no século XIX, pelo contrário, sua existência artística manifestou-se no final da primeira metade do século XX, quando sua obra surpreendeu o público, com uma proposta que faz lembrar os grandes nomes do Teatro do Absurdo e “ficou ele assim entre dois mundos: dramaturgo de um século, fenômeno teatral de outro” (AGUIAR, 1998, p. 9).

Qorpo-Santo não faz parte do livro A Literatura no Rio Grande do Sul, como justifica a autora: “Enfim, um último limite: se lida aqui exclusivamente com prosa de ficção e poesia. O teatro, a crônica e a literatura infantil, que mereceriam igualmente uma abordagem, foram preteridos” (ZILBERMAN, 1982, p. 09). É importante demonstrar, entretanto, conforme “o quadro cronológico da literatura gaúcha”, do referido livro, a contemporaneidade de Qorpo-Santo e outros escritores, considerando que o mesmo escreveu suas peças no período de janeiro a junho do ano de 1866. Assim, de acordo com os estudos de Zilberman (1982), o ano de 1866 não oferece nada de extraordinário em termos de produção literária no país, mas é significativo analisar os anos anteriores. Por exemplo, em 1864 que marca o início da Guerra da Paraguai, Machado de Assis publica Crisálidas e José de Alencar Diva; em 1865, José de Alencar lança Iracema e As minas de prata; enquanto Fagundes Varela publica Cantos e Fantasias. Ou seja, trata-se de obras caracteristicamente românticas. E as comédias de Qorpo-Santo não tinham nada de românticas quer no tema, quer na linguagem, como explica Guilhermino César (1980), pois as mesmas “apresentam situações conflituosas peculiares à sociedade gaúcha do século XIX; e, do ponto de vista verbal são surpreendentes: desprezam por completo a linguagem ornamental comum ao melhor teatro da época” (CÉSAR, 1980).

Entretanto, Qorpo-Santo revela seus próprios conflitos na Ensiclopédia. Destaca-se a seguir um trecho de sua relação com a escrita e também com o processo desencadeado com a finalidade de interditá-lo judicialmente.

Em 1861- por moléstias de pessoas da família aqui existentes regressei, provendo-se-me mezes depois na cadeira publica da freguezia de N.S. Madre de Deus, a qual exerci até julho de 1862; época em que actos violentos de que fui vítima, alguns dos quais ignorei pelo espaço de 2 anos (com que cortaram-me todos os recursos à subsistência) - levaram-me a Villa do Triunfo no 1º de janeiro de 1863. Foi exatamente quando começaram tais actos violentos que comecei também a tomar notas para nesta data escrever a Enciclopédia. (Q.S. I-Introdução). [..] Qual a razão porque não posso escrever com a orthografia que aprendi em desesseis ou desessete autores e que ensinei por espaço de doze anos e mais de oitocentos alumnos? "É simples: os crimes horrorozos de que fui vítima em 1862 nesta cidade, e suas funestas conseqüências! fez-se preciso para debelá-los para inutilizá-los, suprimí-los relacionados com as letras que suprimo, e continuarei a suprimir até que desapareçam totalmente. Quando eu readiquirir a força espiritual que já possuí; e com ella, a coragem que então tinha- viverei feliz...sinto pelas substâncias com que me sustento, e pelo fumo de que uso, destruindo-me os meus órgãos vitais (QORPO-SANTO, 1877, p. 54-55).

É interessante lembrar que, enquanto esteve internado no Hospício Pedro II para tratamento no Rio de Janeiro, Qorpo-Santo escrevia cartas a pedido de outros pacientes aos seus familiares:

Hospício-abril-28-Rio de janeiro: Realmente não sei sobre o que se deva escrever mais. Já o fiz sobre o que eu achei conveniente para melhorar a existência de alguns habitantes desta casa; já escrevi alguns pensamentos que a outros respeitos ocorreram-me; já o fiz em longas páginas as arbitrariedades os insultos que trouxeram-me à corte; já mandei para o Jornal do Commercio a fim de ser impresso um pequeno folheto com a minha defesa (Qorpo-Santo, 1877, p. 69-70).

Porém, é necessário que se faça uma advertência com relação à figura histórica e ao personagem do romance. Por Qorpo-Santo pertencer ao mundo artístico-literário, estas categorias podem parecer ambíguas e darem a impressão de que se trata de um mesmo objeto. Suas atitudes enquanto personagem supõe-se sejam imitações de seu comportamento enquanto cidadão de Porto Alegre. Isso porque sobre ele pairam muitas histórias a partir das quais torna-se duvidosa a delimitação entre a ficção e a realidade.

Ferrier-Caverivière (1997) alerta que nem a história nem o real são em si mesmo míticos. Mas podem tornar-se tais, se forem penetrados, entre outros, por um mistério insondável, se deixarem de ser legíveis, de evoluir com lógica:

Quando um acontecimento histórico ou a atitude de um grande personagem aparece em ruptura com a trama da época ou com a normalidade dos comportamentos humanos, quando uma zona de sombra e de incompreensão os invade de repente e os faz escapar ao domínio da ciência e da pura inteligência, a imaginação de um grupo de homens ou de um povo, em desafio às leis do cotidiano, encontra naturalmente o meio de impor suas cores e suas metamorfoses, suas deformações e suas amplificações (FERRIER-CAVERIVIÈRE, 1997 p. 385).

Como protagonista de Cães da Província, é interessante observar que Qorpo-Santo tem uma personalidade forte e marcante e, ao consolar seu amigo Eusébio quando este se queixava do comportamento de Lucrécia, fica furioso ao perceber a preocupação do amigo com a honra:

- Então a honra está na algibeira! Por isso é que os miseráveis, os deserdados da sorte, esses não têm as preocupações dos ricos, pois o que tinham a perder já perderam. Honrados ou desonrados, a vida para eles é a mesma coisa. Mas os burgueses não, eles têm muito o que preservar, seu vinho, seu azeite, suas roupas finas, tudo o que a honra lhes traz de mão beijada. Ah, pobre e mesquinha humanidade! O espetáculo que me ofereces é uma grande comédia (ASSIS BRASIL, 1996, p. 26).

Desse modo, nota-se que Assis Brasil, ao delinear seu protagonista não desconsiderou totalmente os dados históricos que sobreviveram sobre o dramaturgo gaúcho.

E, de fato, Guilhermino César (1980) nos apresenta um Qorpo-Santo muito ativo, pois foi também vereador, comerciante, delegado de polícia, professor, proprietário de colégio, tirando destas experiências conteúdo para os artigos publicados nas páginas de A Justiça. Mas, por considerar-se humilhado, quis romper cadeias, quebrar tabus, refundir a sociedade e instaurar a mais perfeita justiça. E é este momento de originalidade e inquietude do nome histórico que será trabalhado para transformar-se em personagem de romance.

Alguns eventos vinculados a sua vida podem ser encontrados no romance, como por exemplo, no que se refere ao seu retorno para a cidade de Triunfo:

Correu naquele dia, mal-e-mal botando seus tarecos numa grande mala e mandando à merda a cidade que tão pouco acolhedora se estava revelando, as pessoas acusando-o de lunático e desmiolado, quando na verdade é apenas o homem mais inteligente de toda a Terra, de todo o imenso Universo, destinado a grandes feitos literários e dramatúrgicos. [...] A ida para Triunfo veio bem a calhar. Comprara uma casinha por lá, lugar de nascimento, e a passividade do povoado acalmava-o. Lá podia fazer o que bem entendesse. Se quisesse, até podia recitar seus versos vestindo toga romana, debaixo da figueira da praça (ASSIS BRASIL, 1996, p. 20-27).

E aos seus assuntos profissionais e literários:

Depois Qorpo-Santo tinha mais em que pensar, suas aulas de primeiras letras tornavam-se cada vez mais pobres, os alunos debandavam, os pais, pouco a pouco, tiravam os filhos; sua fama de louco corria como pena ao vento. Por sorte era professor público, tinha seu ganho assegurado depois da falência de sua própria casa de comércio. Não deixava de dar razão aos pais, andava displicente, mais envolvido com suas elucubrações do que com a vida prática. Sabia que dentro de si palpitava o gênio, mas não conhecia a direção em que sua genialidade iria de exercitar. Talvez escrevesse uma enciclopédia, ou um feixe de dramas, ou uma grande epopéia, talvez um novo sistema ortográfico em que, por exemplo, a letra c com som de k seria sempre grafada com q, como seu nome: Qorpo-Santo. Para que o u depois do q, se não servia para nada (ASSIS BRASIL, 1996, p. 27).

Considerando a figura histórica e sua produção, Guilhermino César diz que Qorpo-Santo escrevia com muita rapidez e que só no mês de maio de 1866 compôs oito comédias. Além disso, descreve Qorpo-Santo como implacável no combate à desordem ortográfica vigente em sua época e que após escrever muitas peças “voltou a encarar o assunto em 1868, já agora com o objetivo de traçar regras práticas que levassem à simplificação gradual da ortografia portuguesa” (CÉSAR, 1980).

Neste trecho de Cães da província, pode-se constatar como Assis Brasil constrói a personalidade do dramaturgo:

O destino às vezes arma ciladas, ele jogado aqui nesta mesquinha cidade com esse povinho medíocre, gentinha de ocupações fúteis. É certo que, a esta hora, nenhum desses aí de baixo está escrevendo uma nova Odisséia,um Werther,tudo gente de cérebro ressecado pelas contas, faturas de fumo e vinho. E ele solitário, com tantas ânsias, sentindo-se no limiar de uma grande obra, destinada a aplastar o vulgo (ASSIS BRASIL, 1996, p. 45).

Foi a fase vinculada ao desencadeamento da doença mental, segundo Guilhermino César (1980), na qual Qorpo-Santo encontrou vazão no trabalho intelectual, passando a escrever sem trégua, nessa cidade de Porto Alegre que era “quase uma aldeia naqueles dias, escandalizada e divertida, cobriu de riso o pobre homem” (CÉSAR, 1980).

A descrição física de Qorpo-Santo, e também de sua personalidade extravagante e inquieta, é apresentada pelo narrador do romance através da perspectiva de seu amigo Eusébio Cavalcante:

Eusébio não encontra palavras para começar, e eram tantas. Qorpo-Santo o perturba, agora aquele olhar de doido, os olhos verdes furando a cara, indo até o cérebro em chamas, os cabelos desalinhados caindo nos lados do rosto fino, as barbas arrepiadas, a bigodeira selvagem de quem não se importa com as modas, toda uma presença que amedronta, ainda mais à amarelada e tenebrosa luz de vela. Terá coragem de contar tudo para aquele homem? Esquiva-se, balbucia algumas palavras, a coragem esmorecendo. Antes não o tivesse chamado, antes amargar tudo sozinho. Mas a verdade é inexorável, é um desgraçado, enfrentando a mais escabrosa história de sua vida, que até então foi um construir silencioso e eficiente de fortuna e reputação. E, de repente encontra-se jogado ao temperamento cambiante de um homem que todos chamam de variado, em meio a uma noite que parece nunca mais acabar, perpétua e fantasmagórica. Contudo, por desencontrado que seja, todas essas circunstâncias de loucura e trevas começam por tranqüilizá-lo. Qorpo-Santo, afinal, é seu amigo, leal e fraterno, há anos. Deve confiar nele (ASSIS BRASIL, 1996, 50).

José Joaquim de Leão era alto, magro, moreno, de uma palidez de morte, conforme descreve Achilles Porto Alegre (1920), destacando ainda que usava a cabelleira comprida como os velhos artistas da renascença, trajava calças brancas, sobrecasaca preta, toda abotoada como uma farda. E que tinha uma “bengala grossa para afungentar os cães e chapéo alto de seda lustrativa. Andava sempre na rua apressado como se fosse tirar o pae da forca” (PORTO ALEGRE, 1920).

Ainda, retomando Ferrir-Caverivière (1997), é importante considerar o que esta autora diz sobre a relação histórica das personagens. Ou seja, a magia do verbo recriado reinventa as personagens e suas ações com as cores da imaginação, a tal ponto que a concordância histórica deixa de ser significante. Assim, a história tende a frear o imaginário e, mesmo quando a cronologia dá ao “mito seu impulso e dita suas metamorfoses, ele é reconhecível por seu afastamento em relação aos acontecimentos” (FERRIER-CAVERIVIÈRE, 1997, p. 388).

Tratando do desempenho da personagem, Mikhail Bakthin (2003) explica que a personagem é autora de sua própria vida esteticamente e que “parece representar um papel, é auto-suficiente e acabada de forma segura” (BAKHTIN, 2003, p.18). Por isso, com a apresentação comparativa destes elementos tivemos a intenção de justificar ou apontar o processo de construção da personagem no romance. Isto é, como os dados exteriores, as informações documentais contribuem para a sua consolidação. No entanto, a personagem do novo romance histórico, é constituída não somente por fatores que a vinculem à sua vivência histórica, tornando-a verossímil, mas também e, sobretudo, pelas transformações criativas executadas pelas mãos do escritor.

O dramaturgo foi descoberto efetivamente, após pesquisa realizada por Annibal Damasceno Ferreira na Biblioteca de Dario Bittencourt em 1963 e, já no ano de 1966, aconteceu a montagem e a apresentação de três de suas comédias pelo Teatro Clube da Cultura de Porto Alegre sob a direção de José Carlos de Sena. Posteriormente, vários artigos foram publicados em jornais locais e de outros Estados, dando conta de que  Qorpo-Santo tinha sua importância no cenário cultural do país, apesar do reconhecimento tardio5.

 E é o protagonista Qorpo-Santo que efetivamente dará início à construção de sua grande obra literária “O Homem que Enganou a Província”, inspirada nos crimes da Rua do Arvoredo e no assassinato de Lucrecia, os quais causaram comoção e revolta nos moradores de Porto Alegre. Estas incursões do romance Cães da província pelo terreno policial serão tratadas na próxima parte deste trabalho.


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Fonte:
Maria Helena d Moura Arias
: “O homem que enganou a província ou as peripécias de Qrpo-Snto: uma leitura de Cães da província, de Luiz Antonio de Assis Brasil.” (Tese apresentada à Faculdade de Ciências e Letras de Assis-UNESP-Universidade Estadual Paulista para a obtenção do título de Doutor em Letras. Área de conhecimento: Literatura e Vida Social.  Orientador: Prof. Dr. Antonio Roberto  Esteves). Assis, 2009.
Notas:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade. Disponível em: www.laab.com.br

Certa identidade em busca de outra (Teatro), de Qorpo Santo

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Qorpo Santo precursor de Qorpo Santo

Quem levaria em consideração um homem cujos hábitos eram tão esdrúxulos e cujas idéias eram tão inovadoras para o período em que surgiram? Se, por um lado, a sociedade oitocentista não se encontrava pronta para entender e aceitar Qorpo Santo, por outro, não se esforçou em fazê-lo e, ligando a pessoa – “louca” – ao artista, esta mesma sociedade optou pela exclusão de um indivíduo em nome de um todo social; assim sendo “o reformista que nele existia, encontrava sempre pela frente a acomodada e sólida barreira dos que não querem mudar. Caricato, (...) apanhando de preferência traços ridículos, mas no mesmo tempo calcados em seu próprio desajustamento comovedor pelas incompreensões, Qorpo Santo extravasa, em cada ato [teatral], toda sua incontida angústia”. Marginalizado socialmente em função de seus atos bem como pelo que escreveu, a conseqüência imediata foi o anonimato de onde ressurgiu anos depois, por ocasião da Semana de Arte Moderna de 1922.

Durante a Semana, o nome de Qorpo Santo foi relembrado pela intelectualidade que, cobrindo o mesmo de uma conotação negativa, tentaram atingir os modernistas através da analogia entre o fazer literário daquele e as idéias vanguardistas destes. Embora implícita e negativa, esta foi a primeira menção dada ao teatro de Qorpo Santo como precursor do teatro moderno, título que sustenta até os dia de hoje pelo fato de suas comédias terem atuado como um não, certamente crítico, à literatura surgida com o desempenho do Romantismo e à ética social de que o autor de Lanterna de fogo foi contemporâneo. Diante do corpus estético-literário preexistente, quer de padrões, quer de pressões de obras que incorporam esses padrões, Qorpo Santo – ou suas peças teatrais – opera como uma ruptura com a ordem vigente, impondo um novo modo de arranjar o universo teatral. Devido a sua inovação e renovação, as quais não se prenderam aos limites oferecidos pelo Romantismo, é que sua obra de arte constitui-se em um salto no tempo e no espaço, daí o porquê de não considerá-la representativa apenas do momento histórico em que foi produzida, cujos parâmetros opõem-se frontalmente para tornarem-se familiar às propostas estéticas do século XX. Porém, nem mesmo os poetas de 22, tão inclinados a descobrirem o novo em nível de arte nacional, tiveram sensibilidade o suficiente para fundamentar suas idéias pioneiras no trabalho artístico realizado outrora por Qorpo Santo, em Porto Alegre.

Menosprezado pelos românticos, ignorado pelos parnasianos e esquecido pelos modernistas, os registros de Qorpo Santo não possuem nenhum depoimento ou crítica que lhes fossem contemporâneos à elaboração ou posterior divulgação e, como resultado disso, seus textos foram consumidos de forma implacável pela injúria do tempo, não alcançando, assim, um lugar de destaque na historiografia literária brasileira. O anonimato ao qual Qorpo Santo foi “condenado” só conheceu o seu término após o ressurgimento de sua obra – ou o que se conhece dela – que aconteceu graças a Aníbal Damasceno Ferreira, responsável pela descoberta de Qorpo Santo, Guilhermino César e Antônio Carlos de Sena, que foi o primeiro diretor cuja coragem enfrentou as dificuldades de interpretação dos textos de Qorpo Santo, colocando sobre o palco do Clube de Cultura de Porto Alegre três peças (As relações naturais,          Mateus e Mateusa e Eu          sou vida; eu não sou morte) do “desajuizado” autor, no ano de 1966.

As mesmas peças encenadas na capital dos gaúchos foram levadas pelo grupo de Sena até o Rio de Janeiro, em 1968, onde foram exibidas com enorme sucesso. Esse fato repercutiu até a imprensa, proporcionando muitos debates acerca das peças e fazendo com que alguns críticos da época divulgassem Qorpo Santo como sendo o precursor mundial do Teatro do Absurdo. Fez-se necessário, portanto, além das mudanças que operaram em nível estético no segundo decênio do século XX, o percurso de exatamente um século para que o talento artístico de Qorpo Santo recebesse o devido reconhecimento.

Somente depois de assimilado as novas correntes filosóficas, entre elas a teoria psicanalítica de Freud e a econômica de Marx, de ter convivido com os modelos artísticos de vanguarda – tais como o expressionismo, futurismo, surrealismo etc – e, finalmente, ter vivenciado a mudança estrutural que se concebeu em nível cênico, no decorrer dos anos cinqüenta do século passado, a qual promoveu a ruptura com a mímese realista e deu asas ao absurdo, é que o homem moderno conseguiu perceber que os escritos do autor de Um parto realmente possuem valor artístico e não são, simplesmente, frutos de um cérebro perturbado. Contudo, inúmeras são as pessoas que ainda suspeitam do talento de Qorpo Santo, porquanto ligam sua pessoa à arte que produziu, concluindo, assim, que seus escritos são resultados de uma irreversível insanidade.

Realmente, é possível promover uma aproximação entre a matéria dramatizada e o conhecimento que se tem acerca da biografia de Qorpo Santo. Embora o autor não tenha se transferido metonimicamente para suas criações, percebem-se alguns pormenores biográficos em suas comédias que conservam, ao nível do texto, suas aspirações e frustrações, o que ocorre em especial nas peças        A impossibilidade de santificação ou A santificação transformada, Hoje sou um; e amanhã outro, Um credor da Fazenda Nacional e O marinheiro    escritor, onde há referências diretas à sua pessoa. Todavia, o fato desses textos conservarem reminiscências ideológicas de seu autor não implica que devemos atribuir as mudanças, que se deram sob forma temática e artística, a uma suposta ausência de lucidez da mente que as criou.

Partindo do pressuposto que a obra de arte não deve ser reduzida à referencialidade trabalhada e considerando, também, o legado cultural das vanguardas, que preparou o leitor moderno para absorver uma literatura não canonizada, fica transparente que o conjunto de novas características que compõem o fazer cênico de Qorpo Santo foi realizado de forma consciente e criativa. Se, por um lado, Qorpo Santo não pensou o seu teatro como um engenhoso dramaturgo, por outro, não deixou de fazer criativas alterações que levaram o seu trabalho ao comparativo com o realizado por Eugene Ionesco. No entanto, como ambos os artistas fizeram parte de contextos históricos diferentes, as mudanças teatrais de Ionesco foram amparadas pela concepção estética moderna e recebidas como inovadoras, já as de Qorpo Santo foram de encontro às concepções estéticas românticas e recebidas como sinônimo de loucura.

Com certeza, o teatrólogo gaúcho não teve a intenção de criar o Teatro do Absurdo em pleno século XIX, até porque, àquela época, Qorpo Santo não foi tomado pelo sentimento íntimo de incomunicabilidade e de opressão vivido por Alfred Jarry, Samuel Beckett e Eugene Ionesco ao longo dos anos cinqüenta do século XX, motivo pelo qual aqueles dramaturgos foram impulsionados a conceber uma reforma radical no bojo das artes cênicas, e sim por uma incontrolável grafomania, gerada pelo impulso de autoconfissão que o obrigava a escrever. Logo, se Qorpo Santo não elaborou os seus escritos em função de uma concepção metafísica da solidão – como Ionesco, por exemplo – o fez em razão de fortes impulsos subjetivos, gerados pelas turbulências de sua vida, que moveram sua mente a criar um           novo modelo teatral que, por razões óbvias, não seria influenciado em vanguarda alguma e sim pela fusão do Teatro Realista com a Farsa.

Dito isso, a analogia entre o trabalho do dramaturgo sulino e o de Ionesco, por exemplo, torna-se pertinente se considerarmos que ambos, impelidos por motivos diferenciados, lançaram ao universo teatral um caráter híbrido, mas que não pode ser considerado de igual teor artístico. A Qorpo Santo, sem dúvida, é o mérito de ter inventado conscientemente e sem nenhum tipo de modelo precedente, um teatro singular que termina por apontar para várias maneiras de se dissolver o enredo narrativo de lógica perfeita. Sem optar por nenhuma delas, “Qorpo Santo ficou no limiar de uma série de caminhos trilhados, mais tarde, por diferentes escolas e movimentos que, partindo dos mais diversos pontos de vista, dedicaram-se a contestar a validade, como representação do mundo, daquele mesmo enredo narrativo e lógico, fixado na tradição da peça bem feita”. Estas palavras já justificariam o aspecto inovador do trabalho de Qorpo Santo que, se não inventou o Teatro do Absurdo, construiu – mesclando a tragédia com a comédia, somadas ao grotesco e ao texto fragmentado, por exemplo – um modo do teatro questionar-se por sua natureza própria, modo este que se aproxima do metateatro desenvolvido, em nível de texto e representação, pelos dramaturgos do Absurdo, daí a analogia.     

Portanto, conclui-se que José Joaquim de Campos Leão é de fato um precursor, não do Teatro do Absurdo mas de um       teatro híbrido  que, pela primeira vez, chamou a atenção para a própria representação teatral em si. Elaborou um trabalho de forma lúcida, consciente e criativa, em cuja base Qorpo Santo demonstra toda a sua inconformidade com relação aos problemas oriundos de uma sociedade patriarcal e escravocrata, transpondo aos textos toda a opressão de cunho social e moral do século XIX, “a família, as crendices, as casas de jogo, as festas, o bordel, os heroísmos patuscos e a devassidão mascarada de santidade – encontramos de tudo um pouco nestas comédias”.

Renegado pela opinião pública e, consequentemente, pelo crivo da crítica, o teatro de Qorpo Santo tornou-se um amplo painel onde, atualmente, é possível projetar vocações surrealistas, impulsos tipicamente brechtianos, sensações do chamado Absurdo e, certamente, inúmeras outras características que não são capazes de defini-lo com precisão, pois diversas são as opiniões acerca do teatro de Qorpo Santo no sentido de denominá-lo ou classificá-lo dentro deste ou daquele estilo. Mais importante, no entanto, do que uma classificação precisa à arte cênica de Qorpo Santo, é a consciência de que o trabalho do dramaturgo gaúcho deve ser analisado e estudado como o pioneiro entre muitas escolas e estilos que surgiram tempos depois, fato que transforma Qorpo Santo, antes de tudo, em precursor de Qorpo Santo, e o conjunto de suas peças um objeto constante de análises, para que o autor de    Duas páginas em branco alcance um verdadeiro lugar de destaque dentro do universo dramático contemporâneo.


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Fonte:
André da Silva Menna: “Um qorpo santo na província: da História à Ficção”. (Dissertação apresentada ao Curso de Pós-Graduação em Letras – Literatura Brasileira e Teoria Literária – da Universidade Federal de Santa Catarina para a obtenção do título de Mestre em Literatura Brasileira. Orientadora: Profª. Dr.ª Tânia Regina Oliveira Ramos). Florianópolis, 2003.
Notas:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

Mateus e Mateusa (Teatro), de Qorpo Santo

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Um Mito Que Queria Ser Louco

Liberdade – devemos dar,
Àquele que com juízo,
Sabe liberdade gozar!
Jamais ao que vende
A liberdade que teve,
Ou a grilhões se – prende!
Qorpo-Santo

Retornemos aos anos de afetação psíquica vivido por Qorpo-Santo. Durante esse período, além das acusações de loucura ou impossibilidade de uma salvação, ele sofre inúmeras perseguições e violências, que fizeram com que ele ficasse sem recursos para se prover. Sua interdição tinha sido concedida. Isolado socialmente, começa a escrever e reunir os primeiros textos para a construção de “Ensiqlopédia”.

Certamente a internação, que durara bem mais que o tempo de escritura dos seus textos, teria sido uma motivação para que Qorpo-Santo não parasse de escrever. Um fato que causa estranhamento é ele ter parado aos dezesseis dias de junho de 1866 se só seria libertado em 1868, dois anos depois dos textos de teatro serem escritos, sem falar na forma que eles foram deixados: uns com ausências, outros pela metade e ainda ficaram alguns praticamente só esboçados, sem que ao menos um ato tivesse sido acabado.

Seus transtornos ou possíveis desvios psíquicos não acabaram de uma hora para outra. O que nos surpreende é o motivo por que ele deixaria de escrever teatro depois de tantas peças escritas em tão pouco tempo... Teria sua mente demarcado os limites entre o que deveria e o que não deveria escrever? Parece que tentamos sempre encontrar uma lógica, meio ilógica. Será que dedicou pouco tempo ao teatro ou essa foi apenas uma estratégia de que lançou mão para manter em sua história o perfil de quem escreve como um louco? Todo esse cenário mantém nossa esperança de encontrar um segundo volume dedicado ao teatro, já com os volumes conhecidos não acreditamos no esgotamento de sua criação teatral. Nas suas 17 peças, vemos sim, a possibilidade de encontrar alguns textos dedicados à tragédia, mais especificamente.

Voltemos a sua interdição. Fischer (2001, p. 291) acrescenta que havia uma desconfiança da associação da esposa do teatrólogo, D. Inácia, com um juiz, para usufruir dos bens de seu marido, que naquela altura não eram poucos.

Depois da troca de muitas injúrias e de incontáveis questionamentos quanto à sua sanidade, em 1864, ele é levado ao Rio de Janeiro para fazer exames. Isso foi uma desculpa para interná-lo pela primeira vez aos 35 anos, na Casa de Saúde Doutor Eiras. Sua internação foi motivo de muita discussão entre os médicos e Qorpo-Santo, que, nesse período conturbado, aproveitou para escrever cada vez mais compulsivamente. Foi mantido neste manicômio até 1868, quando os psiquiatras avaliaram que a internação estava, na realidade, contribuindo para piorar o estado do paciente. Esse tempo foi suficiente para escrever o material dos nove volumes de “Ensiqlopédia”, mas, sem dúvida, o seu desejo era se comportar como um louco ou, no sentido oposto, perfeitamente lúcido segundo a sua conveniência. Em sua obra destacou que durante aquela internação, o ainda José Joaquim Campos Leão, viveu o que denominou de “momento de iluminação mística”, essa experiência santificadora do seu ser fez com que, por um estalo de consciência, se convencesse da necessidade de não mais manter relações com mulheres.

Um mundo novo se apresenta para o agora Qorpo-Santo. Sua obsessão em não se relacionar com o sexo oposto, uma vez que teria um corpo para zelar e diante dele nada mais poderia fazer se não deixá-lo livre das tentações da carne, foi o elemento motivador para a atribuição de sua alcunha.

Embora a iluminação mística seja a maneira encontrada pelo autor para justificar essa obsessão pela santificação, César (1980) nos alerta para o choque moral sofrido por ele aos três anos de idade, ao presenciar ou entender ter presenciado uma tentativa de estupro, que não se sabe ao certo em que circunstâncias ocorreram, mas, como já comentamos anteriormente, esse fato poderia configurar-se em uma história de sua infância criadora, sem nenhum teor de verdade, como também pode representar um outro lado da moeda. Certamente, para uma criança de três anos, deparar-se com a relação sexual entre um casal, pode significar a imagem da agressão do homem para com uma mulher (sua mãe), isto porque ontologicamente essa é uma referência dada na psicanálise, marcante para justificar a instalação de vários procedimentos comportamentais angariados da infância. Não se descarta a possibilidade de que, em suas lembranças, a imagem do “lobo mal” esteja relacionada às imagens arquivadas fazendo com que o ato sexual represente uma agressão à mulher, o que, na visão de uma criança, machucaria a mulher, fazendo-a gemer, representando, portanto, o sofrimento e não o prazer.

No momento que sua vida é norteada pelo celibato, canaliza a sexualidade reprimida para a sua escritura, registrando-a em seus textos teatrais. Neles encontramos uma obsessão constante que marcaria o desejo sexual reprimido, exteriorizado, principalmente, por mulheres bem mais jovens. Foi este momento de recolhimento ou iluminação que fez com que ele passasse não só a assinar Qorpo-Santo, mas também, a incorporá-lo ao seu nome civil. Sobre seu novo nome o próprio contemporiza que

Se a palavra Qorpo-Santo foi-me infiltrada em tempo que vivi completamente separado do mundo das mulheres, posteriormente, pelo uso da mesma palavra hei sido impelido para esse mundo. (Apud César, 1980)

Neste depoimento, ele refere-se à interdição judicial que sofreu, comentando que seu nome foi uma forte contribuição para a manutenção das internações, que continuaram em 1868, no Rio de Janeiro, onde realizaria exames de sanidade mental e seria internado no hospício Pedro II. Apesar de mais um período de internação, o maior especialista em clínica médica psiquiátrica da Corte, Dr. Torres Homem, afirmou que Qorpo-Santo gozava de boa saúde mental e, mais ainda, observou que ele seria dotado “de um acréscimo de atividade mental, que não pode exprimir um estado anormal de intelecto” (Apud César, 1980, SN). A opinião deste médico foi decisiva para a aferição de alta, fazendo com que ele voltasse para Porto Alegre. Cria, então, à época, o jornal A Justiça, principal veículo de críticas e denúncia contra os que o maltratavam. O próprio título atribuído ao periódico evidencia o estado de espírito singular em que se encontrava o autor.

Os números desse periódico tornaram-se um dos veículos para a divulgação de suas idéias, contestadas e condenadas por aquela sociedade. É claro que, entre os seus leitores, existiam aqueles que eram adeptos ardorosos de suas idéias. Não podemos deixar de falar sobre essas idéias e a importância que elas tiveram para manter o efeito alucinógeno para aqueles que lêem.

Na certeza ambígua de partidário e perseguidores de suas idéias e de sua obra, encontramos trilhas, pistas que justificariam nossa convicção de que ele teria almejado ser visto como louco, ou melhor, precisava se fazer de louco. Ainda mais, Qorpo-Santo escreve antes mesmo de sua perturbação psíquica e talvez a acidez de seus textos seja um mote válido para o questionamento de sua sanidade mental.

Abrimos um precedente para questionar essa insanidade propalada aos quatro ventos. Sua estratégia de se manter distante do mundo, mesmo de forma forçada, foi realizada como uma preparação, um ritual, um hibernar propício para angariar munição contra essa sociedade que o condenou, tentando calar seu canto:

C-S. – Há pouco me lembrei e repeti os versinhos incompletos que produzi certo tempo e que existem não sei por onde. Querem-me fazer frade; eu, frade, não quero ser. Aborrecido de ler. E também de escrever. Em que hei de me entender. De que modo hei de viver?! (Qorpo-Santo, 2001, p. 54)

O desejo explícito de não se fzer frade faz com que entendamos a necessidade de sair do isolamento. Vemos claramente a comparação a um frade, já que ambos – frade e escritor – vivem, para melhor exercer suas atividades, retirados do convívio mundano e não podem falar ou escrever o que querem, pois são observados pelo diversos olhos da igreja e da justiça.

O texto do teatro de Qorpo-Santo nos leva muitas vezes às raias da loucura, principalmente se considerarmos o cenário teatral em que ele se desenvolve. Ao contrário do que existe no século XIX, nosso dramaturgo parece sentir prazer em trazer a loucura das pessoas para as cenas do cotidiano. Trata-se de uma espécie de teatro espontâneo, recurso que será amplamente utilizado na psicoterapia no final século XX, como apresenta-nos Moysés Aguiar (1988, p. 47):

O recurso mais importante que se pode utilizar, segundo a concepção moreniana do teatro espontâneo (grifo nosso), é, porém a inversão de papéis. O protagonista deixa de desempenhar o seu próprio personagem, na cena, e passa a representar o que com ele está encenando. O ator que fazia o contrapapel vai fazer o principal. Nessa oportunidade ambos têm a possibilidade não apenas de ser de fora (como no espelho), mas de se ver e sentir a partir da posição do outro, interatuando como se fosse o outro.

A técnica descrita por Aguiar, se observada atentamente, relembra várias passagens do teatro de Qorpo-Santo, em que há uma espécie de troca de papéis, mais ou menos similar ao já descrito. Comprovamos isso nas trocas de papéis vividos por Ernesto e Eulália, ele numa primeira situação encontra-se como o senhor da casa onde mora, porém, com a chegada da serviçal da esposa, ele se mostra não mais o dono, mas o que segue as ordens da esposa. Inicialmente é o chefe de família: manda na casa, mas quem fala mais alto é a mulher, mesmo quando se questiona:

‘Que é o será melhor: ser servido ou servir?’. Respondo: seja melhor; seja pior prefiro servir a ser servido. Note-se: falo do que é próprio da classe dos criados, etc., visto que todos servem. (Qorpo-Santo, 2001, p. 28)

Apesar de Ernesto considerar melhor ser servido, admite, porém, que todos trocam de papéis. É o que acontece na peça, na cena seguinte, em que o casal, através de portas separadas, se encontra. Em vez da mulher se explicar para o marido, Ernesto é quem o faz. Já chega com um “como vai, minha querida Eulália? Já sei que estás muito zangada comigo. Andei passeando hoje; fui ao Riacho, à rua... de...”. Sua precaução não o levou a nada, pois ela o recebeu com o seu habitual “Já sei, já sei onde o senhor foi; não precisa mais nada!”14 (Qorpo-Santo, 2001, p. 30). No início da peça Ernesto era o senhor da casa, mas depois, quem passa a mandar é a mulher.

Fica claro que, tanto no teatro como medida terapêutica, apresentado por Aguiar (1990, p. 17), quanto no texto de Qorpo-Santo, encontra-se uma espécie de traço comum:

O enredo aponta para conflitos existenciais, propondo para eles uma compreensão, através da denuncia dos responsáveis pelos malefícios, da exaltação dos heróis e dos virtuosos; defende alguma tese de sentido da vida e culmina com um reencontro reparador.

Parece pouco profícua essa discussão, mas ela surgiu diante da demanda de aproximar o texto de Qorpo-Santo a uma realidade psicoterapêutica, posto que sua dramaturgia, muitas vezes, parece um grande divã de um consultório de Psicanálise, que “defende o sentido da vida e culmina com um reencontro reparador”, bem nos moldes de uma sessão de psicoterapia, em que o paciente (leitor/espectador) anseia por essa reparação interior.

Quanto às idéias propagadas, observamos notas muito interessantes que versavam sobre a postura do profissional de imprensa. Indubitavelmente uma forma a mais de se dirigir aos que o criticavam. Temos, ainda, observações sobre o divórcio, criando alternativas nada ortodoxas, mas, de certa feita, adotadas pelo direito civil. Por fim, há de se considerar suas reflexões, em meados do século XIX, algumas vezes válidas, sobre a complicada ortografia vernácula.


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Fonte:
Carlos Augusto Nascimento Sarmento-Pantoja: “Ohares caleidoscópicos do teatro de Qorpo-Santo”. (Dissertação entregue ao Curso de Mestrado em Letras  -  Estudos  Literários,  da  Universidade Federal  do  Pará  –  UFPA,  como  pré-requisito parcial,  para  a  obtenção  do  Título  de  Mestre. Trabalho orientado pelo Professor Doutor Joel Cardoso). Belém – PA, 2006.

Notas:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.