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13/09/2014

Luiz de Camões (Ensaio), de Amadeu Amaral

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Camões: O homem da Renascença

Camões, tanto moral como literariamente, foi bem um homem do seu tempo. Algumas das características gerais e particulares do século XVI reúnem-se e fundem-se na personalidade do nosso poeta, desde as suas raízes, como que lhe imprimindo auguralmente um cunho épico.

"Desde as suas raízes", porque é na verdade difícil distinguir nela, de todo, o que é expressão do temperamento do que é reflexo das imponderáveis influências do ambiente. Esse próprio humor cambiante e vivaz, essa inquietação, essa vida aventurosa e acidentada, essa multiplicidade de aptidões, essa ânsia de desdobramento, parecendo coisas tão propriamente suas, se encontram em muitas outras figuras notáveis da época, um Buonarrotti, um Leonardo, um Erasmo, um Cervantes, um Tasso, e, sem sair de Portugal, um Antônio de Gouveia, um Fernão Mendes ou um Damião de Góes.

Como filho da Renascença, Camões teve a paixão da literatura, que então reviçava ao contacto das artes no culto fervente das belas formas, e ao mesmo tempo a paixão do humanismo, bem visível na abundância de conhecimentos que se reflete nas suas obras, denotando de morado e guloso comércio com os livros.

No tempo em que ele estudava em Coimbra, o uso do latim era obrigatório na universidade. Em Portugal, como nos outros países da Europa, toda a gente que soubesse alguma coisa devia saber, antes de tudo, latim. Os próprios principiantes, no verdor da primeira juventude, principiavam a desasnar-se com o mestre de língua latina. Camões, porém, não se limitou a estudar o latim pelo latim, como toda a gente: seu espírito visava a mais alto objetivo e tinha necessidades desconhecidas da maioria. Dessa cultura latina estreita e mecânica, que produziu tantos pedantes, ele aproveitou-se para enriquecer e polir sua linguagem e estilo, conservando-lhe Contudo um genuíno e perfeito sabor de naturalidade portuguesa. Demais, não se limitou à língua: estudou com desusado afã a literatura latina, a história e à mitologia clássicas.

O seu sábio tradutor e biógrafo alemão, o Dr. Stprck, mostra-se assombrado da soma de conhecimentos que, ele revela nessas matérias — "conhecimentos até de pormenores mínimos, que ele explica, como propriedade intrínseca sua, mesmo nas regiões onde não podia ter à mão livros de consulta" Essa paixão da antiguidade greco-romana foi até ao exagero: não há um heroi, um homem ilustre, dentre os muitos aos quais se refere, não há quase um acontecimento, um aspecto de natureza que não lhe acorde imediatamente, por espontânea associação, uma analogia tirada da antiguidade.

Da mitologia fez o larguíssimo em prego que se sabe, — emprego sem dúvida excessivo, e por vezes extravagante, que havia de despertar a censura de Voltaire, mas, como quer que seja, espantoso pela propriedade e certeza com que as evocações pagãs lhe afluíam sob a pena, e de resto explicável pelo gosto do tempo em toda a Europa.

Assim como conhecia as literaturas antigas, também mostrava ter-se enfronhado largamente nas modernas, especialmente a italiana e a espanhola, não só na poesia culta, como ainda na popular. Reunia, no mesmo culto entusiástico, aos grandes poetas clássicos os modernos Dante e Petrarca, e também os Sannazaro, os Ariosto, os Garcilaso e os Boscan; entusiasmo tão forte que o levou a imitá-los em numerosos passos de suas obras, — conformando-se nisso, aliás, às doutrinas literárias do tempo, que não só autorizavam, como recomendavam a imitação dos mestres consagrados.

Mas ainda não bastava tão vasta seara literária a saciar-lhe a insaciável curiosidade do espírito. "Saber muito, diz Storck, era o característico daquela época; a instrução enciclopédica, sonho dourado dos humanistas" Camões alimentou esse sonho dourado.

"Os seus conhecimentos filosóficos, escreve o mesmo autor, derivam quanto a pormenores, na aparência, da leitura de Diógenes de Laerte, Plutarco, Cícero, Valério Máximo, Aulo Gélio, Plínio Sênior, e das Antologias. As suas poesias dão testemunho claro de como conhecia ditos e feitos de uma longa série de escritores ilustres: Homero, Aeliano, Xenofonte, Virgílio, Lucano, Ovídio, Horacio, Plauto, Lívio, Eutrópio, Justino, Ptolomeu e outros" A história universal, a geografia e a astronomia eram-lhe familiares.

Quanto à última, é verdade que andou um pouco atrasado: atinha-se ainda ao sistema de Ptolomeu, largamente exposto no canto X, quando o seu contemporâneo Copérnico já havia desde 1543 desmantelado as concepções do astrônomo alexandrino. Contudo, não admira esse atraso, talvez propositado, numa época em que, afinando com Lutero, que indignadamente bradava contra a "invenção" do astrônomo polaco, o clero católico igualmente reagia, pela doutrina, pelo ensino e pela repressão inquisitorial, contra os "erros" da nova astronomia.

Nessa matéria, como em outras, o literato, o estudioso, o homem do saber livresco e das ideias aprendidas andava em luta com o pensador independente, com o espírito original e indagador Essa luta constante, em que ora triunfava o humanista, ora o investigador e pensador livre, em que as mais das vezes se compenetravam numa íntima e curiosa fusão, é toda a história do espírito de Camões, que assim resumia em si, admiravelmente, as duas grandes feições intelectuais do seu século, tão notável pela curiosidade do antigo como pela curiosidade do novo, pela paixão da literatura, da arte e do saber clássico e pelo
surto maravilhoso de inéditas visadas filosóficas, artísticas, literárias, críticas e cientificas.

A flora dos "Lusíadas", como tão claramente demonstrou o conde de Ficalho, contém, ao lado de uma multidão de reminiscências clássicas, grande cópia de indicações precisas acerca das plantas tropicais, atestando um raro escrúpulo tanto na caracterização como na localização de cada espécie. A mesma aliança de cultura antiga e de curiosidade experimental se manifesta de maneira flagrante na ode que fez o nosso poeta ao conde de Redondo, em Goa, impetrando o favor do vice-rei para o "Colóquio dos simples", do seu amigo Garcia de Orta, um dos primeiros naturalistas modernos, fundador de um jardim de plantas em Bombaim.

Passam pelas poucas estrofes dessa composição o "templo da Fama", o "grão filho de Tétis", os troianos, Febo, Heitor, Télefo, Aquiles. É invocando o exemplo deste heroi, amigo da medicina, que o poeta pede a proteção do conde para o novo livro, o qual, "impresso à luz saindo — Dará da Medicina um vivo lume, — E descobrir-nos-á segredos certos, — A todos os antigos encobertos" A obra de Orta foi um marco deposto no caminho novo da ciência positiva, fundada na observação direta da natureza. Mereceu a atenção dos sábios, sendo traduzida para diversas línguas. Vê-se que Camões não se interessara por pequena coisa.

Em outra ordem de assuntos, mas sempre mostrando a universalidade do seu espírito, vemos o poeta interessar-se também, mais tarde, pela publicação da obra de Gandavo, "História da Província de Santa Cruz".

Nas apreciações e comentários do poeta, através de todos os seus escritos, ainda melhor se desvenda essa fusão do respeito à autoridade antiga com o espírito de indagação e iniciativa. Tem a erudição em grande conta, mesmo em conta exagerada, como um Ronsard ou um Tasso, mas reconhece a necessidade! da experiência, e não se cansa de a indicar aos contemporâneos, ainda demasia do submissos ao prestigio do saber medieval, indiferente à natureza. Aponta-a mais de uma vez ao rei:

Tomai conselho só de exprimentados,
Que viram largos anos, largos meses;
Que, posto que em cientes muito cabe,
Mais em particular o experto sabe.

De Formião, filósofo elegante,
Vereis como Aníbal escarnecia,
Quando das artes bélicas diante
Dele com larga voz tratava e lia.
A disciplina militar prestante
Não se aprende, senhor, na fantasia.
Sonhando, imaginado, ou estudando,
Senão rendo, tratando e pelejando.
(Lus., X, 152-153.)

Lembrais-vos da vigorosa descrição da tromba marítima, feita no canto V dos "Lusíadas" Começando-a, nota o poeta existirem na natureza coisas que os ignorantes só conhecem por experiência e são entretanto verdadeiras, apesar de julgarem o contrário aqueles "Que só por puro engenho e por ciência — Vêem do mundo os segredos escondidos" Terminando a, exclama Camões ironicamente, como a espicaçar de leve a imensa pretensão dos que julgam só por "puro engenho e por ciência", isto é, agarrados à razão lógica e livresca: "Vejam agora os sábios na escritura — Que segredos são estes da natura": — consultem os seus cartapácios, e vejam se lá encontram a explicação destas coisas "incríveis", mas "verificadas".

Por essa feliz aliança das duas tendências é que o homem não foi aniquila do pelo erudito; que, imitando, soube ser original; que, reunindo laboriosamente mil respigas literárias e enciclopédicas, soube lançar tudo isso na fornalha do seu temperamento ardente, imaginoso e idealista, de envolta com mil impressões e mil estímulos de uma vida intensamente vivida.

Como bom filho da Renascença, Camões cultivou a moral da ação e da glória, que então se erguia contra a moral da abstenção e do cilício, baseada nas promessas do céu. Mas aqui, como sob outros aspectos, é interessante notar como ele temperou instintivamente mais essa inclinação com outras diretrizes. Todo o seu poema é um férvido hino à ação heróica, estimulada pelo legítimo desejo de glória. Mas, em vez de querer a plena expansão da individualidade, solta de todas as peias, impunha-lhe o dever moral como uma couraça de ferro. O seu ideal do heroi é romano pela fidelidade absoluta ao dever patriótico, cavalheiresco pelo desprezo do dinheiro, dos gozos e das honrarias, pela audácia e gentileza:

Por meio destes hórridos perigos,
Destes trabalhos graves e temores,
Alcançam os que são de fama amigos
As honras imortais e graus maiores:
Não encostados sempre nos antigos
Troncos nobres de seus antecessores;
Não nos leitos dourados, entre os finos
Animais de Moscovia zebellinos;

Não co'os manjares novos e esquisitos,
Não co'os passeios moles e ociosos,
Não co'os vários deleites e infinitos,
Que afeminam os peitos generosos;
Não co'os nunca vencidos apetitos,
Que a fortuna tem sempre tão mimosos,
Que não sofre a nenhum, que o passo mude
Para alguma obra heróica de virtude;

Mas com buscar co'o seu forçoso braço
As honras, que ele chame próprias suas,
Vigiando, e vestindo o forjado aço,
Sofrendo tempestades e ondas cruas,
Vencendo os torpes frios no regaço
Do Sul, e regiões de abrigo nuas,
Engolindo o corrupto mantimento
Temperado c'um árduo sofrimento;

E com forçar o rosto, que se enfia,
A parecer seguro, ledo, inteiro,
Para o pelouro ardente, que assovia,
E leva a perna ou braço ao companheiro.
Dest’arte o peito um calo honroso cria,
Desprezador das honras e dinheiro,
Das honras e dinheiro, que a ventura
Forjou, e não virtude justa e dura.

Dest’arte se esclarece o entendimento,
Que experiências fazem repousado;
E fica vendo, como de alto assento,
O baixo trato humano embaraçado:
Este, onde tiver força o regimento
Direito, e não de afetos ocupado,
Subirá (como deve) a ilustre mando,
Contra vontade sua, e não rogando.
(Lus., VI, 95-99.)

Também no que se refere à religião, o nosso poeta não esteve isento das influências encontradas que então percorriam o ambiente europeu. Teófilo Braga descobre nele traços das ideias de Erasmo, precursor da Reforma, que se espalharam por todos os países e chegaram a fazer numerosos prosélitos na península ibérica, mesmo entre teólogos e padres. A verdade é que o que se encontra em Camões não são ideias determina das e assentes sobre questões de crença, mas, como em muitos espíritos ilustres do seu tempo, uma certa inquietação, oriunda, por um lado, do enfraquecimento da antiga fé, por outro, das perplexidades da razão ainda vacilante nas suas investidas.

Há tal ou qual analogia entre alguns de seus pensamentos e a atitude, por exemplo, de Rabelais e de Montaigne, para os quais a fé vinha a ser como um recurso de comodidade, bom para se cortar cerce pelas preocupações metafísicas. Mas, como o autor dos "Essais" também desconfiava da razão; e é curioso aproximar esta frase do pensador francês: "O que c'est un doux e mol chevet et sain que l'ignorance et l'incuriosité à reposer une teste bien faite!" dos seguintes versos entressachados à nos "Desconcertos do mundo":

Quem tão baixa tivesse a fantasia,
Que nunca em mores cousas a metesse,
Que em só levar seu gado à fonte fria
E mungir-lhe do leite que bebesse!...
Em Deus creria simples e quieto,
Sem mais especular algum secreto.

A mesma situação de espírito se de senha num dos sonetos:

Efeitos mil revolve o pensamento
E não sabe a que causa se reporte:
Mas sabe que o que é mais que vida e morte
Não se alcança de humano entendimento.

E o soneto termina com a salvadora saída, o recurso extremo: "Mas o melhor de tudo é crer em Cristo."

Nos "Lusíadas", Camões comporta-se em matéria de religião como um perfeito crente. O mundo antigo fascina-o; tem constantemente o pensamento cheio dos seus herois, dos seus filósofos, dos seus poetas. Admira-lhe a liberdade, a beleza, a sabedoria, a plenitude. Os seus mitos encantam-no. A razão e a imaginação do poeta vivem numa atmosfera pagã. Ele ama a vida, a ação, os feitos luminosos, os gestos ardentes, o florescimento da individualidade à grande luz da natureza. Mas, enfim, com porta-se como um perfeito crente. O seu partido está tomado: é preciso crer. A religião forte e o Estado forte são necessários à sua compreensão da vida social e das conveniências morais. Como um romano antigo, ama a disciplina e a ordem, dentro das quais o indivíduo se nobilita e se afina, as instituições vicejam, as artes prosperam e a pátria se robustece e perdura.

Por isso, condena com energia a rebelião protestante, que rejeita o "jugo soberano" e divide a cristandade, quando turcos e mouros estão vexando a Europa; profliga com a mesma veemência as dissensões e os impulsos egoísticos dos príncipes católicos; incita os europeus a unirem-se, para debelar a arrogância otomana, e apresenta-lhes, cheio de patriótica ufania, o exemplo maravilhoso da audácia portuguesa:

Aquelas invenções feras e novas
De instrumentos mortais de artilharia,
Já devem de fazer as duras provas
Nos muros de Bizâncio e de Turquia.
Fazei que torne lá às silvestres covas
Dos Cáspios montes e da cítia fria
A Turca geração, que multiplica
Na policia da vossa Europa rica.

Gregos, Traces, Armênios e Georgianos
Bradando-vos estão que o povo bruto
Lhe obriga os caros filhos aos profanos
Preceptos do Alcorão: duro tributo!
Em castigar os feitos inumanos
Vos gloriai de peito forte e astuto,
E não queirais louvores arrogantes
De serdes contra os vossos mui possantes.

Mas em tanto que cegos e sedentos
Andais de vosso sangue, ó gente insana,
Não faltarão cristãos atrevimentos
Nesta pequena casa Lusitana;
De África tem marítimos assentos;
He na Ásia mais que todas soberana:
Na quarta parte nova os campos ara,
E se mais mundo houvera, lá chegara.

(Lus., VII, 12-14.) 

21/04/2014

O dialeto caipira, de Amadeu Amaral

O dialeto caipira - Amadeu Amaral - Iba Mendes
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Amadeu Amaral e a dialetologia no Brasil

As reconstituições históricas dos estudos dialetais no Brasil costumam se iniciar
com uma referência a Domingos Borges de Barros, Visconde de Pedra Branca, que, em 1826, contribuiu para o livro Introduction à l'atlas ethnographique du globe, do geógrafo vêneto Adrien Balbi, com um breve capítulo em que aponta diferenças entre o português do Brasil e o português continental (Pinto 1978, Castilho 1992, Ferreira & Cardoso 1994, Cardoso 2002, Cardoso & Mota 2003). Em referência ao aspecto fonológico, o Visconde de Pedra Branca menciona o falar mais doce, mais ameno como característico do Brasil.

Considerando o aspecto lexical, apresenta, a título de exemplificação, um grupo de 8 palavras que adquiriram novos sentidos no Brasil, diferenciando-se do uso dos termos em Portugal, e um outro grupo de itens lexicais, que reúne 50 nomes atestados na colônia e desconhecidos na metrópole. (O texto de Pedra Branca está reproduzido em Pinto 1978: 5-7).

A partir desse marco, que coloca a questão das peculiaridades do português falado no Brasil, identifica-se na história da dialetologia no Brasil, conforme periodização proposta por Ferreira e Cardoso (1994), uma fase inicial que se caracteriza pela predominância de estudos voltados basicamente para o léxico. Dicionários, vocabulários, léxicos regionais, produzidos nesse período, procuram registrar peculiaridades do léxico do português do Brasil, em âmbito geral ou regional. Ferreira e Cardoso (1994: 38- 39) fazem referência a vários trabalhos dessa natureza, entre os quais incluem: Dicionário da língua brasileira, 1832, de Luís Maria Silva Pinto, Popularium sulriograndense e o dialeto nacional, 1872, de Apolinário Porto Alegre, Dicionário brasileiro da língua portuguesa, 1888, de Macedo Soares, O tupi na geografia nacional, 1901, de Theodoro Sampaio. Com uma abordagem mais ampla, que não se restringe ao estudo do léxico, registra-se nesse período o trabalho de José Jorge Paranhos da Silva, O idioma hodierno de Portugal comparado com o do Brasil, de 1879.

A publicação de O dialeto caipira, de Amadeu Amaral, em 1920, constitui, ainda
segundo as Autoras mencionadas (Ferreira e Cardoso 1994, Cardoso 2002), o marco inicial de uma nova fase da pesquisa dialetológica brasileira. Apesar de se constatar ainda o interesse pelo enfoque lexicográfico, manifestado em numerosos trabalhos, nessa fase se inauguram os estudos que se voltam para a observação da língua em uma determinada área, procurando caracterizá-la não só em termos léxico-semânticos, mas também do ponto de vista fonético-fonológico e morfossintático. É essa inovação que Amadeu Amaral representa, constituindo-se em incentivo e modelo para o estudo dos falares regionais. Seu estudo de caráter monográfico revela uma preocupação com a observação dos dados in loco, e com o exame dos diferentes aspectos da realidade observada. Na mesma linha de Amadeu Amaral, destacam-se também, no início dessa fase, Antenor Nascentes, com O linguajar carioca em 1922, publicado em 1923, e Mário Marroquim, com A língua do Nordeste, de 1934, em que descreve o português de Pernambuco e Alagoas.

Significativamente, Nascentes dedica O linguajar carioca a Amadeu Amaral, afirmando que o paulista ''mostrou [em seu trabalho] a verdadeira diretriz dos estudos dialetológicos no Brasil" (Nascentes 1923 I 1953: 3). Da mesma forma, Marroquim, acentuando a necessidade do estudo de nossas tendências dialetais, ressalta que, com O dialeto caipira, Amadeu Amaral "abriu resolutamente o caminho, dando um exemplo que deve ser imitado" (Marroquim 1934 I 1945: 7).

Em um balanço que faz da dialetologia brasileira, Rossi (1967) também menciona Amadeu Amaral, situando-o no estágio inicial da área, ao lado de outros que também fizeram estudos parciais, como Marroquim (1934), José Aparecida Teixeira (1938, 1944), Aires da Mata Machado Filho (1933). Por sua vez, Brandão (1991), re1embrando a história dos estudos dialetológicos no Brasil, acentua a importância de O dialeto caipira, reconhecendo seu autor como "o primeiro dialetólogo brasileiro". Segundo a Autora, a partir dessa primeira tentativa de descrever um falar regional brasileiro, ganha corpo o interesse pelo estudo da variante brasileira do português em sua modalidade falada. Mais que isso, para Brandão (1991 :43), Amadeu Amaral lança "a semente da geografia linguística" ao reconhecer a necessidade de pesquisa séria e imparcial voltada para as 'modalidades locais e regionais', condição para se saber 'com segurança quais os caracteres gerais do dialeto brasileiro, ou dos dialetos brasileiros, quantos e quais os subdialetos, o grau de vitalidade, as ramificações, o domínio geográfico de cada um' (Amaral 1920 I 1982: 44).

Pinto (1981) também aponta o caráter inovador de Amadeu Amaral no quadro da reflexão sobre a língua portuguesa no Brasil. Para a Autora, ele é um dos "grandes pioneiros" da renovação dos nossos estudos lingüísticos observada no período de 1920 a 1945, renovação que assinala uma "opção pelo enfoque dialetológico, em detrimento do filológico, até então predominante" (Pinto 1981: XVIII).

Resumindo as avaliações expostas, dois aspectos inovadores devem ser destacados no estudo de Amadeu Amaral, que justificam a importância que lhe é atribuída: por um lado, o enfoque da variedade regional em questão em seus diferentes aspectos- fonético, lexical, morfológico e sintático -, indo além do levantamento lexical, a que se limitavam basicamente os estudos dialetológicos até então, e, por outro lado, o cuidado metodológico revelado pelo Autor, conferindo confiabilidade à descrição. Ao apresentar, com modéstia, seu trabalho, Amadeu Amaral aponta esses dois aspectos, ao afirmar que sua contribuição é apenas um começo, e que se dará por satisfeito se tiver "conseguido fixar duas ou três idéias e duas ou três observações aproveitáveis, neste assunto, por enquanto, quase virgem de vistas de conjunto, sob critérios objetivos" (Amaral 1920 I 1982: 43). (Destacamos.)


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Fonte:

Vandersí Sant'Ana Castro: A Resistência de Traços do Dialeto Caipira: Estudo com Base em Atlas Lingüísticos Regionais Brasileiros. (Tese apresentada ao Curso de Lingüística do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas como requisito parcial para obtenção do título de doutor em Lingüística. Orientador: Prof. Dr. Ataliba Teixeira de Castilho). UNICAMP, 2006. Disponível em: www.bibliotecadigital.unicamp.br

30/03/2014

A Pulseira de Ferro, de Amadeu Amaral,,

 A Pulseira de Ferro, de Amadeu Amaral,,
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Um medíocre mediador

Por que um jornalista, poeta e crítico literário publicou um livro em 1911 para desancar um outro jornalista, poeta e crítico literário? Quais os motivos de tal empresa? Batalhas por posições na carreira intelectual e por valores estéticos e razões políticas? Provavelmente tudo ao mesmo tempo. O valor do livro de Aristeu Seixas tem lastro nestas questões, ou melhor, mais nas questões que levanta sobre os motivos pelos quais publicou tal obra do que pelos argumentos sobre poesia que traz em seu bojo. Procurarei trabalhar com os dois fios interligados.

Como acredito que Aristeu é um motivo fundador (ou um dos motivos) para o elogio da mediocridade de Amadeu inicio tentando obter do leitor a aprovação desta hipótese. Segundo Aristeu o poeta Amadeu Amaral estava atrás do seu tempo, atrasado em relação à contemporânea poética do Parnaso:

Debalde os poetas secundários de hoje procuram disfarçar a mediocridade dos seus surtos com o murmúrio das queixas e a histeria dos soluços, porque já ninguém os toma ao sério. À multidão de leitoras cloróticas que outrora se deliciavam com os versejadores enfezados, sucedeu a falange austera e forte dos que vêm na poesia moderna não o produto do raquitismo de uma geração que periclitava nos despenhadeiros do sentimentalismo, mas a revelação de uma arte tanto mais pura e nobre e suavizadora quanto representa o grau de adiantamento intelectual de uma raça.

Talvez Amadeu tenha se sentido menos agredido pela alusão à sua poesia como romântica e à sua condição de poeta como secundária e de tonalidade medíocre do que à alusão de que os seus leitores não existem, pois estes não se definem mais como mulheres cloróticas em busca de sentimentalismos, mas como seres pujantes e representantes duma nova etapa na evolução da raça (humana ou brasileira, deixo a dúvida). Foi provavelmente deste tipo de provocação e de todo o cenário letrado no qual vivia que Amadeu inspirou-se para demonstrar que a mediocridade é parte constituinte, fundamental e um dos motores da evolução da literatura.  Significativo então que o autor tenha esperado para publicá-lo na    Revista do Brasil, periódico que procurava inaugurar justamente uma nova etapa nos debates sobre os rumos do país no concerto geral do desenvolvimento das nações. Significativo ainda que a resposta venha do interior de publicação alicerçada no grupo empresarial do OESP, órgão forte na época e também cobiçado e invejado pelos escritores (aguarde o próximo tópico que exemplifico melhor).

Agora também é possível entender por que Amadeu defende a mediocridade dos círculos de elogios mútuos entre escritores ao afirmar que apenas os fracos e sem talento algum (nem o mínimo medíocre) se deixam levar por tais momentos. Noutro trecho do livreto Aristeu Seixas se insurge exatamente contra o círculo habitado por Amadeu: Não será com o nosso aplauso que se criam em S. Paulo panelinhas de elogios mútuos. Para opor-lhes resistência aqui estaremos em linha de combate, sem receio de ficarmos isolado [sic]. Há de haver quem pense, como nós, que o renome não se conquista elogiando, mas trabalhando.

Aristeu Seixas critica os elogios ganhos por Amadeu quando da publicação de Névoa, o seu segundo livro de poesias que veio a lume em fins do ano de 1910. O livro recebeu críticas favoráveis de figuras como Wenceslau de Queirós (jurista, crítico e poeta), Manuel Carlos (amigo íntimo de Vicente de Carvalho, jurista e crítico), Vicente de Carvalho e Valdomiro Silveira (o conhecido escritor regionalista). Segundo Aristeu a roda de elogios entre Vicente, Valdomiro e Amadeu publicava textos nos quais o primeiro declinava Valdomiro como “príncipe da prosa brasileira” que, por sua vez, intitulava Amadeu como “o maior poeta sul-americano”. Outro motivo possível à revolta de Aristeu seja o de ele não ter sido convidado ao banquete oferecido em homenagem ao autor de Névoa no Parque Antártica, evento do qual Vicente de Carvalho foi o orador. Ou ainda talvez por ter publicado em 1909 um livro de versos - Epitalâmio - e provavelmente não ter conquistado a mesma recepção ou elogios - hipótese que não consegui rastrear.

Os pressupostos de Aristeu Seixas revelam um atilado e extremo crítico parnasiano e racionalista, ao ponto mesmo de cobrar coerência científica em metáforas alusivas à natureza. Ele diz que o seu modo de conceber a Arte provém de Zola, no sentido de uma seleção da Natureza e da Criação, donde o poeta é aquele capaz de exprimir tal Natureza através da descrição de suas características com o filtro do seu temperamento.

Pressupostos novos na arte que derrubam o Romantismo e, por conseguinte, a Névoa ao redor do livro de Amadeu. Aristeu Seixas chega a afirmar que o autor do livro (...) não teve a intenção de fazer arte quando compôs a Névoa. Um poeta que só escreve o que lhe dita o coração (...) arrisca-se à temerária empresa de dar ao público coisas muito sentidas, mas sem essa beleza (...). O autor não foi procurar na Natureza o que ela de mais belo ostenta, para cantar em versos. Não. Cumpriu cegamente as ordens do coração, nem se quer tendo querido seletar-lhe os ímpetos.

E arremata o seu juízo defendendo que “É mister não separar o sentimento, que tem a sua fonte no coração, do discernimento, que se origina puramente do cérebro.” Então segundo Aristeu o livro de Amadeu foi escrito sem o uso da faculdade do raciocínio. Exprime tão somente alguns estados da alma exclusivamente tristes. Revela que Amadeu Amaral é um fraco que desistiu das lutas da vida e se fechou numa tristeza que reflete, assim, sua única virtude, a bondade – de não fazer mal a ninguém. Aristeu vai da página 19 a 33 demonstrando passagens de Urzes e Névoa pontuadas por palavras que expressam a melancolia romântica. Difícil entender então o porquê de Aristeu ter atacado um poeta tão fraco e triste. Até mesmo por ser pessoa que nem conhece pessoalmente, mas apenas pela sua reputação de “raros dotes intelectuais” e pelos “seus versos e (...) uma finas crônicas estampadas em jornais.” Como fatura do livro de Aristeu Seixas ainda restam duas perguntas. A primeira interroga qual sentido que Um Poeta teria como exemplo de trabalho crítico. Pois logo à sua entrada encontra-se Amadeu como poeta romântico para, logo após, analisar a sua forma poética atendo-se fielmente às convenções do Parnaso. Atalho ou caminho equivocado que, em hipótese, Amadeu Amaral deixou registrado no  elogio quando afirmou a ênfase do crítico numa única verdade estética fundada no par Beleza e Perfeição auferidas por algum gênio que almeja a glória com a sua obra.  Mas talvez esta primeira pergunta seja a resposta da segunda interrogação: não teria Aristeu Seixas objetivado o livro como modo de tornar Amadeu Amaral (exemplo de jornalista e poeta em ascensão ligado ao círculo do OESP) um medíocre mediador para o seu verdadeiro antagonista: Vicente de Carvalho? Vou descrever parte desta história apenas para fechar minha argumentação, isto é, para seguir tentando provar uma das gêneses do elogio da mediocridade.

A APL como idéia teve nascimento na cabeça de um médico: J.J. de Carvalho. Da idéia à divulgação foram surgindo alguns elementos do seu projeto dos quais desagradavam àqueles que porventura teriam condições de pleitearem vaga na imortalidade paulista. A questão central era a composição da APL não somente com literatos, mas com paulistas ilustres em diferentes áreas como medicina, direito, política e engenharia. Derivavam ainda questões relativas ao número de cadeiras e à permissão ou não de membros já laureados com a imortalidade da ABL. O fogo começou a aumentar quando um amigo de Amadeu, Roberto Moreira (jornalista, jurista e político), rebelou-se contra esta iniciativa e principiou polêmica que se estendeu entre 1907 e 1909 ou mesmo 1911 e foi tomando como título “academia paulista de medicina” e “academia de poucas letras”.

De um lado estava J.J. de Carvalho escrevendo no Correio Paulistano e, do outro, como representante maior Vicente de Carvalho publicando no OESP. Da peleja entre os dois Carvalhos foi-se fundando efetivamente a APL entre 1907 e 1909 com composição mista entre literatos e figuras eminentes do universo paulista.  No interior deste cenário Amadeu Amaral, no momento jornalista do Comércio de São Paulo, recém retornado à capital do estado após passagem de poucos frutos por São Carlos entre 1905 e 1907 (aonde participou de um jornal local, fundou uma vila para leprosos e tentou empreender um colégio) buscou contemplar os dois lados da contenda mediando as polêmicas e incentivando a criação da APL. Sua atuação, bem como sua vida de jornalista e poeta (à época com uma única obra publicada) permitiu o seu ingresso na instituição na cadeira cujo patrono escolhido foi Teófilo Dias.  Mas da inauguração em 1909 estava de fora Vicente de Carvalho, seja devido à polêmica, seja devido à questão do ingresso ou não de imortais da ABL na APL. Vicente não gostou de ser deixado de fora da composição da APL e chegou mesmo a ir à solenidade de sua inauguração no Conservatório munido de um livro ou folheto que distribuía como presente aos convidados que penetravam no recinto e cujo conteúdo compõe parte das lacunas desta história.

Tal disputa entre os dois Carvalhos perdurou até 1911 quando finalmente Vicente ingressa na imortalidade paulista após a morte do Dr. Rafael Correia da Silva. A disputa foi acirrada, pois J.J.de Carvalho escolheu para o pleito um adversário à altura de Vicente: Aristeu Seixas. Deixo e resto da história ao documento:

Essa guerra civil do espírito só terminou dois anos depois com o congraçamento dos beligerantes, conquanto a animosidade do Dr. J.J. de Carvalho atingisse o apogeu na campanha eleitoral para o preenchimento da vaga de Rafael Correia em 1911. Informa-nos Ulissses Paranhos que o velho Carvalho deu pulos desta altura, quando soube da pretensão do poeta Vicente, e apressou-se em escolher um concorrente de prestígio e que se dispusesse a disputar a mesma láurea: o poeta Aristeu Seixas, que, havia muito, sustentava polêmica pelos jornais com Vicente de Carvalho, por motivo da recente publicação do livro Névoa, de Amadeu Amaral. Que o pleito foi renhido, comprova-o o fato de Vicente de Carvalho haver ganho a eleição apenas por um voto.

Retifiquemos. Foi esse o resultado anunciado após a primeira contagem de votos, e que ainda hoje se repete. Mas, logo a seguir, numa revisão que se impunha, foram anulados três votos dados a Aristeu Seixas, por serem em duplicado. Vicente de Carvalho ganhou a partida por quatro votos.

Essa vitória de um dos Carvalhos marcou também o fim da rivalidade entre ambos. Vencendo-se a si mesmo, o Dr. Carvalho sobrepôs-se a suas birras e conduziu o pleito, na fase final da apuração, com a melhor isenção de ânimo, para congratular-se com o poeta santista (...) pela sua merecida vitória.

Mais adiante veremos como Vicente de Carvalho não foi menos elegante com o poeta Aristeu Seixas, seu antagonista lá fora e concorrente de temer na presente conjuntura, quando da entrada deste, algum tempo depois, para a Academia Paulista: por intermédio de Spencer Vampré, ofereceu-se para saúda-lo na sua posse, a melhor maneira, segundo dizia, de “acabarem com aquilo”.

Apesar do documento afirmar que a polêmica Aristeu-Vicente sobre Amadeu fora anterior à batalha na APL é possível entender que Aristeu fazia parte do grupo de J.J. de Carvalho e tinha então motivação e gosto apurado para enfrentá-lo (pois apesar de anotar que Aristeu já vinha polemizando com Vicente o documento também alude ao livro de Amadeu como “recente”). É ainda possível conjecturar que Aristeu já estava nos planos de J.J. de Carvalho como candidato à APL como arma quando Vicente se dispusesse nalgum momento a pleitear uma vaga. Daí para a provocação e medida de forças tendo Amadeu Amaral e sua Névoa como mediadores era um passo que as datas propiciam: Amadeu publica ao final de 1910. No mesmo ano há a comemoração do livro e a publicação dos elogios mútuos. No final de 1910 e início de 1911 Aristeu Seixas redige seu opúsculo de crítica a Amadeu e Vicente de Carvalho. Logo depois, com a morte do Dr. Rafael Correia (talvez anunciada por tempo razoável à elaboração destas manobras se este ficou em leito de morte) o cenário estava preparado para a concretização eleitoral da disputa entre os dois círculos: J.J. de Carvalho, Aristeu Seixas, Correio Paulistano vs. Vicente de Carvalho, Amadeu Amaral e OESP. Neste viés o livro soa menos como crítica a Amadeu Amaral do que como um dos capítulos finais, grunhidos e talvez ressentidos das medíocres disputas para a efetivação da APL entre os anos de 1907 e 1909. E por falar em elogio da mediocridade, não é à toa que Amadeu o encerra solicitando ao missivista que respeite e deixe de lado os medíocres para ir direto aos grandes. Seria uma alusão à percepção de que ele sabia que foi sondado criticamente tão somente para servir de medíocre mediador entre a contenda do criticastro que o desancava e do poetastro que o apoiava? O caminho que V. deve tomar é outro. Deixe os medíocres em paz, e vá direto aos grandes. Com eles é que o meu amigo deve medir forças. Trate de ser alto e forte com eles, e renuncie a esse trabalho infrutífero e triste de remexer miçangas e alfinetes, acocorado numa esteira.


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Fonte:
Ricardo Vidal Golovaty: “O elogio da mediocridade: percursos de Amadeu Amaral”: (Tese de doutoramento apresentada às professoras doutoras Jacy Alves de Seixas (orientadora, UFU), Joana Muylaert de Araújo (UFU), Josianne Francia Cerasoli (UFU), Maria Stella Martins Bresciani (UNICAMP/SP) e Virgínia Célia Camilotti (UNIMEP/SP) como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em História Social, pelo Programa de Pós-Graduação em História, do Instituto de História, da Universidade Federal de Uberlândia). Uberlândia, 2010. Disponível em: http://repositorio.ufu.br/