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04/03/2014

A Campanha Abolicionista, de José do Patrocínio

 A Campanha Abolicionista, de José do Patrocínio
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José do Patrocínio: um intelectual brasileiro do final do século XIX e início do XX
A imprensa, como lugar de fala de Patrocínio, foi também a porta-voz de idéias e valores de pessoas influentes na sociedade da Corte, da segunda metade do século XIX, principalmente por políticos que se faziam jornalistas. O jornalismo não era uma profissão que se aprendia na universidade e sim na prática cotidiana da redação, até porque não existia curso de jornalismo. Entretanto, não era qualquer um que assumia a edição / direção de um jornal, mas pessoas letradas e com reconhecimento suficiente para assumir tal cargo - os intelectuais.
Mas, como conceituar os intelectuais? Segundo o autor Jean-François Sirinelli a conceituação do termo intelectual passa por problemas que ele diagnostica de problema de “‘compreensão’ e ‘extensão’ do termo intelectual”.  A compreensão do que é intelectual interfere na sua extensão, que por sua vez pode englobar ou excluir, deste grupo, determinados elementos sociais/ profissões.
No entendimento de Jean-François Sirinelli podemos entender os intelectuais por meio de duas visões: a mais ampla, onde os intelectuais seriam os criadores e mediadores culturais; e a de proporção mais restrita, pela noção de engajamento social, com função reconhecida pela sociedade como peculiar, por ser fruto de um grupo que possui “notoriedade eventual ou [...] especialização [...]”.
Antonio Gramsci também se dedica a conceituar os intelectuais e a identificar a sua função social. Segundo Gramsci, em cada grupo social existem os intelectuais orgânicos, ou seja, intelectuais produzidos pela classe para formular e legitimar idéias e princípios, dando a classe “homogeneidade e consciência da própria função não apenas no campo econômico, mas também no social e no político.”  
Existe, ainda, outra categoria de intelectuais chamada de intelectual tradicional, assim intitulada por assumirem uma postura de neutralidade diante dos interesses defendidos por outros grupos sociais, se apresentando como uma categoria autônoma. No geral Gramsci considera todos os homens intelectuais, “mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de intelectuais", a diferença se estabelece na função que executa socialmente, a partir de uma especialização adquirida pela educação, ou seja, os intelectuais para Gramsci são aqueles que cumprem uma função organizada na sociedade.
Para Pierre Bordieu, os intelectuais são aqueles que detêm capital cultural, possuidores de uma competência técnica “[...] que lhes é reconhecida socialmente [...]" E este reconhecimento social imprime a necessidade dos intelectuais em marcar a sua diferenciação frente àqueles que não fazem parte de seu campo, impondo-se, assim, como singulares uma vez que seu universo estaria separado do mundo comum. O lugar próprio dos intelectuais é o campo intelectual, onde se estabelece suas categoria de seleção e consagração, onde formaliza o habitus do grupo e se institui as relações sociais de negociação e conflito, tendo em vista a acumulação de capitais específicos e o monopólio da autoridade científica e o domínio da técnica.
[...] o fato de pertencerem ao campo intelectual implica em interesses específicos, [...], cargos acadêmicos ou contratos editoriais, resenhas ou cargos universitários, e também sinais de reconhecimento e gratificações frequentemente imperceptíveis para quem não pertence ao universo em questão, mas através das quais ocorrem todos os tipos de pressões e censura sutis.
O campo é o formador de interesses, o que motiva o homem, dotado de um determinado habitus, a empreender a sua ação / estratégia dentro de uma determinada demanda social. O habitus, como esquemas fundamentais e categorias do pensamento socializadas, possibilita recuperar o indivíduo como agente da história, pois suas convicções e práticas são produtos possíveis de uma conjuntura e do campo do qual pertence. Assim, os indivíduos são situados histórica e socialmente. Por isso, considero enriquecedor trabalhar com os conceitos de campo intelectual e habitus de Pierre Bordieu.
O habitus nos permite compreender as estratégias de Patrocínio relacionadas à sociedade em que vivia, onde suas experiências em diversas instâncias (família, faculdade, imprensa, clubes) possibilitavam a reestruturação constante do habitus individual, da sua identidade. Assim, o indivíduo não é dotado de especificidades estranhas ao seu tempo quando tomado como objeto histórico.
É evidente que devemos fazer algumas ressalvas, quanto à utilização dos conceitos de campos e habitus formulados por Bordieu, uma vez que no período em destaque neste trabalho, fim do século XIX e início do XX, não existia uma autonomia para os intelectuais, o que implica na ausência de uma institucionalização do campo intelectual. No entanto, podemos já vislumbrar um encaminhamento neste sentido a partir de inúmeros fatores, como: a evidência na imprensa do conflito entre os diferentes projetos de nação (abolição, república, monarquia federativa, divisão ou monopolização da propriedade de terra); o compartilhamento, entre os intelectuais, da valorização da sua prática no jornal e no parlamento colocando-se como representantes do povo / da nação / dos escravos; e a consagração, dada pela sociedade e seus pares, aos intelectuais que alcançavam prestígio e autoridade. Dessa forma, podemos pensar a virada do século XIX para o XX como um encaminhamento para a institucionalização do campo intelectual com a profissionalização dos intelectuais.
A Academia Brasileira de Letras é um claro exemplo desse processo. Criada em 1897 com o intuito de ser um espaço para valorizar e estudar a língua e a literatura, um lugar da arte e não da política. E sentaram nas cadeiras da Academia Brasileira de Letras jornalistas, políticos e funcionários públicos que participavam ativamente da imprensa e do parlamento nas décadas finais do século XIX. José do Patrocínio já aparecia na primeira lista de intenção de membros, formulada por Lúcio de Mendonça durante a criação da instituição. Patrocínio acabou ocupando a cadeira de número 21 e escolheu como patrono o abolicionista Joaquim Serra.
Como podemos observar a discussão sobre a conceituação de intelectuais é complexa e ao mesmo tempo crucial para o entendimento e produção de uma história dos intelectuais. Os trabalhos, aqui apresentados, nos possibilitam algumas considerações, tais como: os intelectuais formam um grupo específico, com destaque e reconhecimento da sociedade e de seus pares; sua função está atrelada ao conhecimento adquirido.
Proponho pensar José do Patrocínio como intelectual do fim do século XIX e início do XX. Com formação universitária obtida no curso de Farmácia, pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, ingressou no jornalismo e aos poucos ganhou reconhecimento da sociedade como o jornalista abolicionista da Corte do Rio de Janeiro, graças às redes de amizades iniciadas na faculdade e a participação em sociedades e clubes, como o Clube Republicano de São Cristovão e posteriormente na Confederação Abolicionista, em 1883. Segundo Ana Carolina Feracin da Silva, José do Patrocínio acionou no início de sua carreira “os mecanismos de dependência para estabelecer-se socialmente", ou seja, a partir dos laços de amizades estabelecidos nos diversos espaços que freqüentava – faculdade, clubes, jornais – o jornalista abolicionista conseguiu se inserir “naquele mundo predominantemente branco e letrado".
Patrocínio conseguiu criar e aproveitar as oportunidades e, gradativamente, foi reconhecido como um renomado orador e jornalista. Reconhecimento dado pela sociedade e em especial pelos letrados, que dialogaram com Patrocínio na imprensa a favor ou contra ele. A sua ação como jornalista e abolicionista o incluiu no grupo dos intelectuais, ou seja, das pessoas reconhecidamente engajadas nas questões sociais e políticas do país, pessoas que formularam diversos projetos para o enquadramento da nação na civilização e no progresso tão sonhados nos anos finais do século XIX e início do XX.
A notoriedade, a especialização e o engajamento, de que fala Sirinelli, permitiram o ingresso de Patrocínio no grupo dos intelectuais, formado por advogados, médicos, políticos e funcionários públicos.
Por fim cabe ressaltar uma prática comum do habitus dos intelectuais brasileiros do fim do século XIX e início do XX, a retórica. Da prática jesuítica à reforma pombalina, a retórica esteve presente como disciplina nas escolas médias e superiores em Portugal. A arte de persuadir e convencer o público leitor / ouvinte esteve presente, no século XIX, nas discussões políticas do Parlamento e da imprensa. A virtude e competência eram qualidades de um perfeito orador, pois validavam tanto quem falava quanto os seus argumentos. Daí a presença, nos jornais e panfletos, de uma linguagem, por vezes, violenta, o excesso de verbalismo e figuras de linguagens. Para José Murilo de Carvalaho a retórica deve ser entendida como uma chave de compreensão dos textos do século XIX, levando em conta as seguintes características: relação estreita entre argumento e orador, a importância do auditório e o fato do campo da argumentação estar aberto a novos argumentos.
Nos anos finais do século XIX os conteúdos desta retórica passavam pela questão abolicionista e a forma ideal de governo – monarquia ou república – que gerou conflitos, tensões e também cordialidades entre os intelectuais. Patrocínio atuou na imprensa, nas conferências e comícios a serviço da causa abolicionista, onde foram constantes os conflitos entre os intelectuais que muitas vezes criavam seu próprio jornal para legitimar suas idéias políticas e sociais como expressões da Nação. A imprensa se instituiu como o lugar onde se estabeleciam as relações de poder e disputas, entre os intelectuais, pela construção e condução de um projeto nacional que direcionasse o Brasil para o progresso.
A escrita e a oratória de José do Patrocínio foram frequentemente pontuadas pelos seus contemporâneos como emotiva, quando desejava convencer seu público, e por vezes agressiva no ataque aos seus adversários, com intuito de desmoralizá-los.
Vejamos agora a imprensa, o lugar de atuação de Patrocínio ao longo de sua vida.


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Fonte:
Rita de Cássia Azevedo Ferreira de Vasconcelos: “República sim, escravidão não: O Republicanismo de José do Patrocínio e sua vivência na República”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal Fluminense. Mestrado em História Contemporânea I na Universidade Federal Fluminense. Orientador: Prof. Dr. Humberto Fernandes Machado). Niterói, 2011

02/03/2014

Livro das Donas e Donzelas, de Júlia Lopes de Almeida

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Livro das Noivas (1896)

Estado incerto, dúbio, o da noiva, ao ver aproximar-se a hora do seu casamento. Tudo em que não pensou durante meses, muitas vezes anos, ocorre-lhe no último dia ao pensamento. Sente-se feliz; sente-se desditosa!

Em fins do século XIX e começo do XX Júlia se preocupou com a instrução das moças, noivas, mães e donzelas da sociedade carioca. Para isso, a mesma encarregou-se da tarefa de escrever o compêndio Livro das Noivas (1896). A necessidade de se escrever um livro deste porte se deu no quadro de mudanças em que se encontrava a capital fluminense, pois havia um processo de transição na sociedade, em que essa passaria de senhorial, com base essencialmente agrária, para uma burguesia, progressivamente urbana e industrial.

Neste sentido, as mulheres se dedicariam e se adaptariam às novas relações sociais da cidade, bem como aos desafios da educação e formação profissional, em contrapartida à vida anterior a esta mudança, em que se dedicavam ao trabalho privado da casa. Sob a égide da República que alvorecia e preocupada com a reviravolta que ocorria no universo feminino a partir de então, Júlia Lopes de Almeida escreveu este primeiro livro voltado para as moças inexperientes que tinham a intenção de se casar.

No que se refere à materialidade, elemento de adornamento para alguns, mas que têm muita importância na pesquisa histórica, como bem mostrou Tania Regina de Luca, é importante estar atento aos “aspectos que envolvem a materialidade dos impressos e seus suportes, que nada têm de natural”. É preciso perceber as “condições técnicas de produção vigentes e a averiguação, dentre tudo que se dispunha, do que foi escolhido e por quê”. Ao manusear o primeiro manual de ciências domésticas de Júlia Lopes de Almeida notou-se a clara função social desses impressos, visto que não eram endereçados a qualquer público, e sim, destinados às moças leitoras das famílias da elite fluminense. Conforme pode-se constar em vários exemplares, O Livro das noivas foi confeccionado com todo o aparato técnico que até então dispunham as tipografias da época.

Trazia a capa dura em vermelho, adornado com uma flor branca e verde e escrito em dourado. Continha tanto os nomes – do livro e da autora – como a imagem da flor em alto-relevo. Segundo Joaquim Marçal Ferreira de Andrade, foi devido ao desenvolvimento do processo chamado autotipia pelo alemão George Meisenbach, patenteada em 1882, que ocorreu uma verdadeira revolução na imprensa ilustrada da época.

Nele, a imagem original de tons contínuos era reproduzida através de uma malha (ou retícula) de vidro, sendo então fragmentada em pequenos pontos, distribuídos de maneira regular e cujo tamanho variava em função da tonalidade específica de cada área da imagem. Através desse processo, gravava-se uma chapa denominada clichê, onde os pontos em alto-relevo, correspondiam as áreas escuras da imagem.

No que diz respeito à ilustração, teve a colaboração dos desenhos de E. Casanova, Roque Gameiro e Julião Machado. Este último,foi considerado por muitos o “pai da caricatura no Brasil” devido à colaboração em periódicos como o Jornal do Brasil e Gazeta de Notícias, o que o tornou um dos mais influentes ilustradores na virada do século.

Cabe destacar no livro o tom de intimidade com que a escritora conduziu a narrativa, recurso utilizado para seduzir o seu público leitor. Como bem lembrado por Lajolo e Zilberman, este auxílio teve êxito para a formação de uma sociedade leitora, que só por volta da segunda metade do século XIX, momento em que o Rio de Janeiro passou a exibir traços necessários para a formação e o fortalecimento de um público leitor. Tal auxílio estava materializado nos mecanismos mínimos para a produção e a circulação da literatura, como tipografias, livrarias e bibliotecas. Observa-se que a escolarização era precária, mas manifestava-se o movimento visando à melhoria do sistema, e o capitalismo ensaiava seus primeiros passos graças à expansão da cafeicultura e dos interesses econômicos britânicos.

Em capítulo intitulado “A construção do Leitor”, Lajolo & Zilberman dão exemplos de como foi a estratégia de sedução do público leitor ainda em formação e a consolidação do espaço para que suas obras nascessem, crescessem e se multiplicassem.

Ao publicar Memórias de um sargento de milícias (1852-1853), Manuel de Antonio de Almeida tomou cuidado diante da formação de tal público, sendo representativo seu empenho em tratar o leitor como frágil e despreparado. O escritor parecia conduzir o leitor pela mão, como se o caminho a percorrer – leia-se leitura autônoma da obra – fosse difícil.

Outra conduta bastante frequente do literato, nesse primeiro momento da formação do leitor no Brasil, foi simular reações do leitor e legitimá-las, dando-lhe razão, sugerindo indiretamente sua competência e, às vezes, até mesmo sua superioridade. Indicativas dessa cortesia de salão são expressões que aludem ao fato de o leitor já ter adivinhado o que estaria acontecendo ou ser suficientemente perspicaz para compreender o que se passa e tirar conclusões próprias.

Tais estratégias, se não garantem ao narrador a fidelidade do leitor a um texto que se prolonga, estreitam a cumplicidade entre ambos: o leitor é uma figura para quem se conta, em segredo, os acontecimentos da trama.

A técnica, também aplicada aos romances-folhetins, se adensou na época, tanto que foi mantida no desenrolar do gênero romance e reapareceu anos mais tarde na obra de Machado de Assis. No conto “Questão de vaidade”, datado de 1864, parece não haver limite para o esforço do narrador em estabelecer um clima de intimidade com o leitor. Com este objetivo, Machado traçou um cenário em que o autor e o leitor compartilharam um ambiente comum, íntimo e propício ao desfiar de histórias, ficcionais ou verídicas, como se verá no segmento a seguir, necessariamente longo para exemplificar a contento o que se afirma:

Suponha o leitor que somos conhecidos velhos. Estamos ambos entre as quatro paredes de uma sala; o leitor assentado em uma cadeira com as pernas sobre a mesa, à moda americana, eu a fio comprido em uma rede do Pará que se balouça voluptosamente, à moda brasileira, ambos enchendo o ar de leves e caprichosas fumaças, à moda de toda a gente.

Imagine mais que é noite. A janela aberta deixa entrar as brisas aromáticas do jardim, por entre cujos arbustos se descobre a lua surgindo em um límpido horizonte.

Sobre a mesa ferve em aparelho próprio um pouca de água para fazer uma tintura de chá. Não sei se o leitor adora como eu a deliciosa folha da Índia. Se não, pode mandar vir café e fazer com a mesma água a bebida de sua predileção.

Ora, como é noite, e como não hajam cuidados para nós, temos ambos percorrido toda a planície do passado, apanhando a folha do arbusto que secou ou a ruína do edifício que abateu.

Do passado vamos ao presente, e as nossas mais íntimas confidências se trocam com aquela abundância de coração própria dos moços, dos namorados e dos poetas.

Finalmente, nem o futuro nos escapa. Com o mágico pincel da imaginação traçamos e colorimos os quadros mais grandiosos, aos quais damos as cores de nossas esperanças e de nossa confiança.

Suponha o leitor que temos feito tudo isto e nos apercebemos de que, ao terminar a nossa viagem pelo tempo, é já meia-noite. Seriam horas de dormir se tivéssemos sono, mas cada qual de nós, avivando o espírito pela conversação, mais e mais deseja estar acordado.

Então o leitor que é perspicaz e apto para sofrer uma narrativa de princípio a fim, descobre que eu também me entrego aos contos e novelas, e pede que lhe forje alguma coisa do gênero.

E eu para ir mais ao encontro dos desejos do leitor imaginoso, não lhe forjo nada, alinhavo alguns episódios de uma história que sei, história verdadeira, cheia de interesse e vida. E para melhor convencer o meu leitor vou tirar de uma gaveta algumas cartas em papel amarelado, e antes de começar a narrativa, leio-as, para orientá-lo no que vou lhe contar.

O leitor arranja as suas pernas, muda de charuto, e tira da algibeira um lenço para o caso de ser preciso derramar algumas lágrimas. E, feito isso, ouve as minhas cartas e as minhas narrativas.

Suponha o leitor tudo isto e tome as páginas que vai ler como uma conversa à noite, sem pretensão nem desejo de publicidade.

Anos mais tarde, com a mesma proposta dos escritores Manuel Antonio de Almeida e Machado de Assis, é a vez de Júlia Lopes conduzir uma narrativa íntima com suas leitoras. A relação é de estreita intimidade tanto que por todo o livro vê-se a escritora chamar seu público leitor de “amigas”. Para respaldar esta aproximação, ela apresentou-se no livro como uma “velha conhecida” para suas leitoras. Aquela que vivenciara várias experiências comuns a todas as outras mulheres, entre elas, mães, moças, senhoras e noivas com quem Júlia procurou dialogar e ter uma íntima relação. Este tom fica claro nas palavras “as minhas leitoras que me desculpem, lembrando-se que isto não é literatura, mas uma palestra apenas”.

O livro é dividido em três partes. A primeira consiste nas seguintes crônicas: “O dia do casamento”, “Saber ser pobre”, “A roupa branca”, “A poesia da vida”, “Os doentes”, “Os livros”, “Belas artes”, “Concessões para a felicidade”, “Os bailes”, “As jóias”, “Os pobres”, “Falta de tempo”, “Carta a uma noiva”. Nesta primeira parte, o conselho foi dirigido às damas e donzelas nubentes, que aspiravam ensinamentos referentes ao grande dia de suas vidas, o casamento. Essas crônicas também pretendiam instruir em relação à convivência social, ao saber portar-se em situação de pobreza, com observações referentes ao altruísmo e, o principal eixo que praticamente em todas as suas obras pode-se encontrar, o incentivo à leitura. Percebe-se na narrativa uma preocupação em preparar as noivas para os conflitos que envolvem o casamento, o comportamento adequado e os primeiros anos de convivência em uma situação de estreita intimidade com o futuro marido.

Já na segunda parte figuram os seguintes textos: “A mesa”, “A cozinha”, “Os animais”, “As aves”, “Os criados”, “Notas de uma ménagère”, “Floricultura”, “Horticultura”, “Da sala à cozinha”. Nesses, os ensinamentos destinam-se às mulheres que já se encontravam casadas. As instruções recaíam no aperfeiçoamento da mulher em relação aos seus afazeres de ménagere: como se portar em determinadas situações domésticas, de que maneira organizar e disponibilizar os vários recintos da casa, qual deve ser a relação entre uma ménagere e um criado, além de sugestões para as mulheres aperfeiçoarem-se em floricultura e horticultura.

Por fim, no último capítulo podem ser vistas as crônicas: “Uma carta”, “Ser mãe”, “Entre dois berços”, “As crianças”, “Educação”, “Carinhosa hospitalidade” e “Carta de uma sogra”. Essa última parte concluiu a seqüência de pensamentos da autora, segundo a qual a mulher já se preparou para o matrimônio; tem conhecimento de como administrar um lar - tanto do ponto de vista físico, como arrumar e dispor os móveis pela casa - bem como tratar dos seus criados. Porém, ainda há uma última preocupação, com a incumbência de instruir as damas para serem mães. Como uma mãe deve se portar? Como educar seus filhos? E como às vezes uma sogra pode representar o papel de mãe de uma nora?

Apesar das três fases apresentadas por Júlia Lopes - noiva, esposa e mãe - a partir daqui, dividirá a análise em temáticas, dedicando-se primeiramente à higienização da família.


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Fonte:
Deivid Aparecido Costruba: “Conselho às minhas amigas”: Os manuais de ciências domésticas de Júlia Lopes de Almeida (1896 e 1906). (Dissertação apresentada à Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP – Universidade Estadual Paulista para a obtenção do título de Mestre em História (Área de conhecimento: História e Sociedade) Orientador: Prof. Dr. Milton Carlos Costa). Assis, 2011.

11/01/2014

Vários Artigos de Euclides da Cunha

 Euclides da Cunha - Varios Artigos - Iba Mendes
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Euclides da Cunha, viajante naturalista

Ao se deparar com o rio Amazonas pela primeira vez, ficou desapontado com a visão, que não correspondia àquela imagem pré-figurada, alimentada pela leitura de tantos relatos de viajantes. Euclides confessou seu desapontamento em uma carta, escrita dias depois, ao amigo Oliveira Lima:

Quanta coisa a dizer! – o desapontamento que me causou o Amazonas, menos que o Amazonas que eu trazia na imaginação; a estranha tristeza que nos causa esta terra amplíssima, maravilhosa e chata, sem um relevo onde o olhar descanse; e, principalmente, o tumulto, a desordem indescritível, a grande vida à gandaia dos que a habitam... estou numa verdadeira sobrecarga de impressões todas novas, todas vivíssimas e empolgantes. Preciso de uma situação de equilíbrio para o espírito.

“Euclides navega pelos rios Amazonas e Purus com mapas na mão e relatos na cabeça”, afirmou Roberto Ventura. O autor de Os Sertões esperava encontrar a paisagem grandiosa, objeto de contemplação e inspiração dos viajantes que por lá passaram. Em suma, esperava encontrar uma paisagem que havia imaginado e que lhe causasse uma “impressão empolgante”, construída pelas leituras. Contudo, a impressão que teve foi a de um cenário “de todo em todo inferior a um sem-número de outros lugares de nosso país”, “monótono” e que cansava as vistas do observador, com sua uniformidade de relevo e a extensão das águas.

Por isso o desapontamento.

Para uma melhor compreensão desse desapontamento, vale citar dois trechos extraídos das narrativas do casal Agassiz e de Spix & Martius em suas passagens pela região. Sobre o Vale do Amazonas, os Agassiz escreveram:

Tudo o que se ouve contar, tudo o que se lê a respeito da grandeza do Amazonas e seus tributários é incapaz de dar uma idéia da imensidão do seu conjunto. É preciso navegar meses inteiros nessa bacia gigantesca para compreender até que grau extraordinário a água aí subjuga a terra. Esse labirinto aqüoso é bem mais um oceano d'água doce, cortado e dividido pela terra, do que uma rede fluvial. Propriamente falando, o vale não é um vale, é um leito periodicamente descoberto; e deixa de parecer estranho, quando se examinam as coisas sob esse ponto de vista, que a floresta seja menos repleta de vida do que os rios.

E os naturalistas Spix e Martius relataram suas impressões da chegada:

Quando o sol do dia 25 de julho nasceu no claro horizonte, iluminou em torno de nós um labirinto de ilhas grandes e pequenas, e, no fundo do painel, a margem do continente e da fronteira Ilha de Marajó. Ostentava-se cerrada, alta, verde, pujante, a mata em volta, solene e tranqüila, como se acabasse justamente de surgir das águas criadoras. Peixes em cardumes evoluíam rápido na correnteza, e aves de variada plumagem, pousadas nos galhos floridos, pareciam os únicos habitantes daquela grandiosa solidão até que colunas de fumaça azul, elevando-se do seio da mata vivente, significavam-nos a existência dos senhores da terra, como aqui, onde em exuberante plenitude, o mundo das plantas brota de todos os lados, fertilizado pelos raios do sol eqüatorial, acima das águas fecundantes. Este cenário da força criadora do planeta renovava-se continuamente aos nossos olhos, na sua grandiosidade uniforme, quanto mais nos aproximávamos da cidade.

As duas narrativas revelam as impressões que os viajantes tiveram do rio Amazonas. Os relatos dos naturalistas bávaros referem-se, inclusive, ao mesmo ponto de observação: a desembocadura do rio. Diferentemente de Euclides, esses viajantes encontraram a “grandiosidade” da paisagem, a “exuberante plenitude” e a “imensidão de seu conjunto”. Em seu discurso de recepção na Academia Brasileira de Letras, proferido após o retorno ao Rio de Janeiro, Euclides revelou aos acadêmicos o seu desapontamento. Afirmou que esperava sentir o que sentira Hartt e Bates, o que não havia ocorrido. Então, pôs-se a escrever páginas e mais páginas em sua caderneta, elogiando aquele cenário. Por fim, rasgou o que tinha escrito, por considerá-las “páginas inúteis”, sentimentos “inexpressivos” e “vazios”. Ao escrever forçava uma impressão que não tivera.

A natureza passou a ser – principalmente por aqueles que estavam distantes dela – idealizada e até mitificada pelos homens, por volta do final do setecentos. Os relatos de viagens, nos diz Márcia Naxara, provocavam nos leitores a sensação de uma proximidade com essa natureza distante. As viagens pitorescas e as narrativas que as sucedem são pois “construídas culturalmente” e o que se procura está, pelo menos em parte, presente na mente e na imaginação daqueles que as produzem. É possível, dessa forma, compreender a decepção do escritor e sua insistente procura pela paisagem imaginada.

Falemos um pouco sobre esses viajantes que tanto contribuíram para a interpretação de Euclides sobre a Amazônia. A partir do século XVIII, a busca do homem em obter um maior conhecimento da natureza e da sociedade, trouxe um novo alento às viagens ultramarinas, realizadas por interesses artísticos e científicos, visando uma ampla apreensão do mundo e pautadas pelo desenvolvimento da ciência e pelo surgimento de novas sensibilidades diante do mundo natural.

Essas viagens foram difundidas e incentivadas pelas academias e sociedades científicas com o intuito de melhor conhecer as potencialidades das colônias (minérios, flora, fauna, hidrografia), para melhor aproveitá-las, de acordo com os interesses econômicos e expansionistas da época. Munidos de instrumentos e aparelhos, os naturalistas cruzaram os oceanos para observar, coletar, registrar, inventariar, sistematizar e classificar, em suma, tornar conhecidas as espécies e os recursos disponíveis na natureza. Sobre tais “viagens filosóficas”, Alexandre Rodrigues Ferreira comentou:

Do que tenho visto, e informado separadamente, apresento agora este extracto pela razão, que vou dizer; porque, comprehendendo a historia philosophica e política de todo qualquer estabelecimento um grande numero de observações dependentes de muitos conhecimentos, ou sejam simples ou combinados, é quazi impossível, ainda aos que têm a memoria bastantemente cultivada, têl-os todos presentes, para uzar d'elles, quando a occasião o pedir.

Segundo Karen Macknow Lisboa havia também nessas viagens, uma preocupação em “apagar os resquícios de uma geografia e cartografia outrora fantásticas”. Entretanto, essa procura em esclarecer os mitos e as lendas propagadas na era dos descobrimentos (século XVI), apesar de própria do pensamento ilustrado e do racionalismo científico da época, contrastava com a “curiosidade” e “imaginação”, que cercavam os viajantes e as descrições do Novo Mundo.

Motivadas por “razões científicas”, estenderam-se pelo oitocentos, principalmente com a vinda da família real, em 1808, e a autorização para a entrada de viajantes estrangeiros no país. Márcia Naxara ressalta que, na segunda metade do século XIX, as viagens e observações científicas tomaram novas proporções, com o debate acerca do evolucionismo, no qual a natureza e o homem americanos ocuparam um importante papel. Foi ainda no XIX, aponta a autora, que ocorreu a “valorização da subjetividade” na observação da natureza. Uma valorização que acompanhava o espírito romântico da época e se deu simultaneamente ao interesse pelo conhecimento científico. Às pretensas objetividade e neutralidade dos viajantes naturalistas, somavam-se a contemplação e exaltação da natureza, no qual sensações e emoções, provocadas pelo contato com esse cenário, tomavam o corpo e a mente desses homens, levando-os a expressarem suas impressões e sentimentos, através da palavra e da representação pictórica.

Como resultado dessas expedições – e forma de divulgação das observações científicas e das impressões sobre a natureza –, encontramos os relatos, narrativas, descrições e diários de viagem. Karen Lisboa acentua que o “deslocamento físico do autor pelo espaço geográfico, por tempo determinado” e a posterior “transformação do observado e do vivido em narrativa” é a condição indispensável para caracterizar um texto como “literatura de viagens”. Num primeiro momento, ao apresentar descrições e imagens do Brasil, essa literatura dialogava com o público leitor europeu e, como realçou Flora Süssekind, essa produção intelectual, ao longo do século XIX, foi importante para afirmar a unidade e coesão nacional (num momento de construção de identidades) e mostrar ao brasileiro, como deveria ser visto o Brasil.

Outro aspecto que marcou a produção dessa literatura foi a descrição da fauna, da flora, da vida social, das relações de trabalho e da economia, realizada pelos viajantes, independentemente das razões de sua viagem. A experiência da viagem deveria ser sempre relatada e, no caso dos naturalistas, juntamente com o registro e a coleta do material. “Vale o vivido, se escrito”, afirmou Süssekind. Era também através do escrito, que aqueles que não podiam se deslocar experimentavam a sensação dos viajantes.

Seduzidos pelo que consideravam “exótico” e “desconhecido” e atraídos pelas “maravilhas” e “mistérios” presentes nas narrativas dos tempos das conquistas, esses viajantes, antes mesmo de embarcarem, já tinham uma imagem “pré-concebida” da paisagem brasileira, o que permite compreender a dificuldade em fundar uma imagem original e “singular” da paisagem e do Brasil, como um todo. O ponto de vista a ser adotado era sempre “pré-dado” ou “previamente determinado” pelos escritos anteriores, que moldavam a visão e a imaginação. A declaração de Alfred Russel-Wallace ilustra o peso desse imaginário: “Entrementes, nossos cérebros estavam ocupados visualizando as maravilhosas cenas que deveríamos contemplar em seus escuros recessos, e ansiávamos pelo tempo em que teríamos a necessária liberdade de explorá-las”.

Ao falar do desapontamento de Euclides da Cunha, Flora Süssekind afirma que tal sensação não deve ser atribuída apenas à imagem ideal formada por suas leituras dos relatos de viajantes, mas também a “intensidade da expectativa” e a “imagem prévia”, foram decisivas. Um olhar armado pelas leituras, mas desarmado pelo surgimento da paisagem: “É a partir desse confronto entre olhar previamente direcionado, paisagem real e olhar agora desarmado – mas consciente da figuração utópica que o habita - que Euclides constrói o seu relato sobre a Amazônia”.

Euclides da Cunha era um conhecedor desses relatos e não deixou apenas se levar pelas imagens pré-figuradas que traziam, mas também observou-os de modo crítico. O escritor ressaltou, em primeiro lugar, a dificuldade de conhecer a totalidade da Amazônia, fator que resultou em uma série de estudos específicos de botânica, zoologia, geologia, entre outras áreas; em segundo lugar, criticou a presença dos viajantes em um único ponto (geralmente o rio Amazonas), não explorando outras localidades da região. A partir dessas duas características levantadas, Euclides afirmou que os viajantes “reduziram-se a geniais escrevedores de monografias”.

Entre os apontamentos feitos por Arthur Cézar Ferreira Reis, encontramos duas observações, a nosso ver, pertinentes à análise das relações entre Euclides da Cunha e os viajantes que passaram pela Amazônia. Reis questiona se o pouco tempo em que Euclides ficou na região (um ano) e o reduzido campo geográfico de observação (o rio Purus) foram suficientes para alcançar as conclusões apresentadas em seus estudos. Como vimos, ao falar desses viajantes, Euclides pontuou que “nenhum deixou a calha principal do grande vale”, mas é possível verificar que ele também construiu a sua interpretação de modo semelhante, sem explorar outras áreas.

O escritor fez alusão também às descrições e análises dos viajantes em suas narrativas e relatos, no qual as hipóteses científicas se misturam com os mitos e com as fantasias, isto é, com todo um imaginário criado em torno da região, de forma que: “[...] às induções avantajam-se demasiado os lances da fantasia. As verdades desfecham em hipérboles”. Porém, mesmo consciente desse amálgama entre ciência e imaginação, podemos notar que ele não conseguiu (ou não quis) abandonar essas descrições, em detrimento da visão de um “Amazonas real”.

Ansioso em partir logo para as cabeceiras do Purus, colocou-se em uma posição semelhante à dos viajantes, atiçado pela curiosidade:

[...] Não te direi os dias que aqui passo, a aguardar o meu deserto, o meu deserto bravio e salvador onde pretendo entrar com os arremessos britânicos de Livingstone e a desesperança italiana de um Lara, em busca de um capítulo novo no romance mal-arranjado desta minha vida.

Em outras correspondências, remetidas ainda em Manaus, refere-se à sua viagem como uma “partida rumo ao desconhecido”, onde iria “se perder nas tristes solidões”. Esperava uma viagem repleta de adversidades: “Mas nem quero imaginar os empeços, as dificuldades, os perigos e até as torturas que nos esperam...” Tomado por esse imaginário, provavelmente alimentado pelo que leu e ouviu dizer, Euclides da Cunha, ao que parece, demonstrava compartilhar dessas idéias fantasiosas e ansiava, realmente, encontrar, uma Amazônia que possuísse mistérios a desvendar, outra característica que aproxima a sua interpretação à tradição dos viajantes do XVIII e XIX.

O encanto com o cenário natural amazônico só veio a acontecer depois da leitura de uma monografia, fornecida por Jacques Huber, que o escritor leu durante toda uma madrugada e que lhe despertou a “comoção” até então não sentida. Euclides da Cunha passou a ver com outros olhos a “superfície lisa” e “barrenta”; o rio e a vegetação passaram a ter um novo aspecto.


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Fonte:
Fabrício Leonardo Ribeiro: “Febre na Selva: A Amazônia na interpretação de Euclides da Cunha”. (Dissertação de Mestrado, apresentada ao Programa de Pós-graduação em História da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Faculdade de História, Direito e Serviço Social, para obtenção do Título de Mestre em História. Orientadora: Prof (a). Dr (a). Márcia Regina Capelari Naxara.). Franca, 2007.

Fragmentos e pequenos textos de Euclides da Cunha

 Euclides da Cunha - Fragmentos e pequenos textos - Iba Mendes
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A intertextualidade dos textos euclidianos

Acredito ser necessário fazer uma breve incursão aos chamados estudos literários para falar sobre intertextualidade, pois é esse campo que tradicionalmente (em um momento inclusive anterior à emergência dos estudos culturais) tem se ocupado com os modos de tecer uma leitura armada (interessada e consciente dos seus propósitos) dos textos tidos como “literários”. Meu interesse é, exatamente, deter-me, um pouco, nas discussões que se processam nesse campo no que diz respeito ao seu cruzamento com outros campos discursivos (da história, da antropologia, da sociologia, da comunicação, da educação). Isso se torna importante, pois o conceito de intertextualidade remete, também, à noção de interdiscursividade; ou seja, não apenas ao cruzamento de vários textos em um único, mas de vários discursos que, mesmo sendo provenientes de diferentes instâncias de produção cultural, permeiam e constituem diferentes textos (sejam esses literários, televisivos, sociológicos, antropológicos, fotográficos, biológicos, entre outros). Porém, não me ocupo, aqui, com a captura de todas as discussões apresentadas pelos estudos literários, no que diz respeito à sua própria reflexão interna, enquanto campo discursivo permeado por outros discursos e, ao mesmo tempo, caracterizado por certas singularidades. Não faço esse mergulho de forma sistemática por dois motivos centrais, que passo agora a apresentar, embora tenha transitado pelos estudos literários que focam suas análises na obra de Euclides da Cunha, sobretudo naqueles que versam sobre seus escritos sobre a Amazônia.

Primeiramente, gostaria de marcar, de explicitar e de dizer enfaticamente que não faço um estudo literário. Talvez, até nem fosse preciso dizer isso de forma tão incisiva, em razão dos meus interesses de pesquisa não serem sobre a estética literária. Minha formação acadêmica (um pesquisador em educação com formação em ciências biológicas) e minha atuação profissional (um docente universitário formador de educadores) me remetem a questões e problemas de pesquisa não centradas na literariedade dos textos a serem analisados, mas a questões de pesquisa de outra ordem. Desenvolvo, sim, uma análise cultural centrada em um problema específico (os processos envolvidos na nacionalização da floresta amazônica) e estou interessado em ver, nos textos que pesquiso, questões que possa relacionar à educação ambiental (mas especificamente às análises construcionistas da natureza). Dessa forma, meus interesses de pesquisa e meus olhares para os artefatos culturais que selecionei, especialmente os textos de Euclides da Cunha, têm as marcas dessa minha trajetória.

Em segundo lugar, como será visto adiante, a literariedade dos textos euclidianos analisados na pesquisa que desenvolvo é de difícil definição, pois esses são vários e de gêneros muito diferentes (são cartas, relatórios, notas, ensaios, diários, atas, ofícios). Destaco, então, que os aspectos relativos à estética literária são, inclusive, de importância menor no meu estudo e que não foi, também, o estatuto ou valor literário dos textos que me ocupou no desenvolvimento da pesquisa. Esclareço, ainda, que as escolhas dos textos para análise decorrem, especialmente, do quanto esses materiais pareceram poder colaborar para o adensamento argumentativo e analítico do meu problema de pesquisa, que, destaco novamente, é a nacionalização da floresta amazônica no início do século XX nos textos euclidianos, sobretudo nos relativos à sua viagem à floresta. Para discuti-lo, interessou-me examinar a produção escrita advinda da viagem de Euclides da Cunha à Amazônia em 1905 e, inclusive, o “Diário” de viagem tecido pela tripulação que acompanhou o escritor. Além disso, considerei pertinente ao meu estudo, deter-me, também, em outros documentos como, por exemplo, as “instruções” oficiais formuladas para orientar a viagem de Euclides da Cunha pela Amazônia (escrita pelo Ministério das Relações Exteriores do Brasil), os textos decorrentes de outras viagens realizadas pelo interior do Brasil e da América Latina (como as conferências proferidas pelo Marechal Rondon relatando suas viagens pelo interior do Brasil para a implantação do telégrafo e os ensaios de viagem que o naturalista alemão Alexander von Humboldt escriturou sobre o chamado Novo Mundo, no início do século XIX), e, ainda, nos relatórios oficiais elaborados pelo Ministério das Relações Exteriores sobre a Amazônia no início da Primeira República brasileira.

Entretanto, devo ressaltar, desde já, que foram privilegiados neste estudo os textos decorrentes da viagem de Euclides da Cunha à Amazônia (ainda neste capítulo falarei mais detidamente sobre o material empírico da pesquisa).

Retomando as considerações a respeito dos estudos literários, gostaria de salientar que, conforme argumenta Walter Moser (1998), uma diferença entre os estudos culturais e os estudos literários diz respeito ao corpus textual da pesquisa, ou seja, os primeiros se apóiam em séries “heteróclitas não provenientes de coleções de textos institucionalmente constituídos e socialmente legitimados” (p.71). Em outras palavras, não é o aspecto canônico dos textos selecionados à pesquisa que importa para um trabalho de tese situado no campo dos estudos culturais, pois o privilégio dado a uma suposta “alta” cultura (como a literatura tem sido reconhecida) sobre uma também suposta “baixa” cultura (como as telenovelas, por exemplo, têm sido marcadas) é colocado sob uma forte suspeita nestes estudos (NELSON; TREICHLER e GROSSBERG, 1995). Neste sentido, minha pesquisa conecta e destaca como importantes os relatórios, as cartas, as notas, as atas, os diários – ou seja, documentos algumas vezes considerados como apresentando pouca importância literária quando comparados, sobretudo, ao livro escrito por Euclides da Cunha sobre a saga de Canudos. Porém, devo reconhecer que o fato de todos estes textos terem sido produzidos por Euclides da Cunha confere, por si só, legitimidade e importância aos mesmos, pois se trata de um autor canonizado na literatura brasileira e até, ouso dizer, latino-americana ou, quem sabe, mundial.

Mas não foi o cânone, insisto novamente, que me interessou, ou que me orientou na seleção dos textos de análise, como se fosse importante, para mim, apenas, as grandes obras, os ensaios de renomado prestígio literário. Meu mergulho nos estudos culturais já havia me permitido relativizar tal aspecto.

A escolha dos textos decorrentes da viagem de Euclides da Cunha à Amazônia, para minha pesquisa, diz respeito, sim, embora possa parecer paradoxal, à força constitutiva dos mesmos, ou seja, ao poder que a eles se pode destinar na instituição de um modo de ver, ler e narrar a Amazônia no início do século XX. É, exatamente, a consagração literária de Euclides da Cunha que confere tal força a suas diferentes produções (mesmo as tidas como de menor fôlego literário). Dessa forma, destaco que a construção discursiva da Amazônia se dá a partir de relações assimétricas de poder, pois a floresta foi inscrita discursivamente no mundo a partir de determinados textos, que lhe imprimem significações sempre parciais e provisórias, sendo alguns tidos como mais legítimos e importantes (como merecedores de serem lidos, como influentes em uma determinada época), mesmo que se possa afirmar estarem alguns deles embebidos de hibridação (como parece ter sido o caso dos textos euclidianos).

Continuando a apresentar algumas questões relativas ao campo dos estudos literários, quero salientar que há uma vertente que insiste na “intransitividade do texto” (MOSER, 1998, p.68). Nessa direção de pesquisa, o texto é tratado como um objeto absoluto e auto-referente. Ligia Chiappini (2000) também destaca que houve nos estudos literários um “largo período formalista, em que as relações dos textos com seus contextos foram postas entre parênteses, por uma atenção restrita à forma, entendida como estática e autônoma” (p.19). A autora chama a atenção para o crescente interesse dos estudos literários pelo “entrelaçamento das obras literárias com outros discursos” (p.19). Nessa direção, salienta-se a intertextualidade e a interdiscursividade dos mesmos. Como diz Moser (1998), outras tendências nesse campo têm acentuado a “transitividade do texto”, seu estatuto como documento histórico e suas relações com as estruturas sociais.

Chiappini (2000) destaca algumas questões relativas, por exemplo, ao cruzamento da literatura com a história. A autora diferencia as duas formas de análise, argumentando, portanto, que não se deva perder a singularidade de tais estudos, marcando, inclusive, que o ponto central de um estudo de literatura é o valor estético das obras literárias. A pesquisadora tece críticas às leituras instrumentais, conteudistas, utilitaristas e ideológicas que, segundo ela, empobreceriam o texto literário. Nesta direção crítica, a autora pergunta: “numa época em que reina o utilitarismo, não seria útil defender um espaço para o aparentemente inútil? E, portanto, defender a gratuidade da arte e o seu poder de resistência à domesticação ideológica...” (p.23)? Chiappini (2000) argumenta que os estudos literários, buscando exatamente ultrapassar ao mesmo tempo a gratuidade e a autonomia absoluta, concebem a “literatura enquanto constituída pela história e produtora de história”. Assim, o encontro entre a literatura e a história seria imanente à própria produção do artefato literário, pois este não se constitui sem historicidade. Como nos lembra a pesquisadora, ao invés de querer localizar na história as obras literárias ou encontrar nelas fagulhas de “fatos” históricos, torna-se mais importante:

(...) buscar o modo de compreender a produção dessa mesma historicidade, sem esquecer a historicidade da leitura ela própria e tentando articular o passado e o presente, para evitar seja o anacronismo da projeção de um sobre o outro seja na ilusão de apanhar inteiramente o passado, visitá-lo, revivê-lo, senão enquanto metáfora (CHIAPPINI, 2000, p.26).

Posso dizer que concordo em parte com as argumentações da autora, pois em minha pesquisa não tive a intenção de demarcar, claramente, os limites e as fronteiras entre os campos da história e da literatura. Pelo contrário, estive interessado em colocá-los em articulação. Mesclá-los não apenas entre eles (ou entre suas subáreas tais como a literatura de viagem e a história ambiental), mas com outros campos como os da educação ambiental, da geografia, da sociologia. Promovi, assim, as articulações disciplinares que pensei serem produtivas para as questões que me propus discutir na tese. Além disso, borrar as fronteiras, atravessar diferentes campos de saberes, relativizar as presumidas “purezas” disciplinares (essas são, inclusive, estratégias analíticas assumidas pelos estudos culturais), foi algo que deliberadamente busquei desempenhar neste trabalho. Ademais, longe de pretender conter o surgimento de supostos anacronismos e contradições (como se tivesse que resolvê-los ou, até mesmo, escondê-los) busquei, ao contrário, assumir em todos os momentos da tese o caráter instável e híbrido da escrita euclidiana sobre a Amazônia. Nesta direção, os aparentes anacronismos, as presumidas contradições e os latentes paradoxos que lia nos escritos amazônicos do autor mostravam-me a produtividade da noção de hibridação para a pesquisa.

Aquilo que se vislumbrava, inicialmente (nas leituras que fazia dos textos euclidianos no início da tese), como paradoxal, foi-se, paulatinamente, configurando, a meu ver, como efeito da articulação promovida entre diferentes discursos. Em outras palavras, passei a argumentar e a defender a idéia de que a floresta emergida das páginas tecidas por Euclides da Cunha fora instituída em processos de hibridação (veremos melhor, e detidamente, esse aspecto no próximo capítulo).

Voltando às questões relativas às relações entre os estudos literários e os estudos históricos, posso pensar que os textos de Euclides da Cunha sobre a Amazônia não são, simplesmente, produzidos por efeito de um determinado contexto histórico da sua época, mas que eles igualmente instituem, produzem, certa historicidade. Como veremos no quarto capítulo da tese, esta historicidade construída através do texto euclidiano conecta-se fortemente, por exemplo, com toda a literatura científica de viagem do século XIX, relativamente às formas de ver, ler e narrar a floresta e os seres humanos que lá vivem; ou seja, Euclides da Cunha rompe deliberadamente com essa literatura ao inscrever a Amazônia nas linhas que foi tecendo, escriturando, em seu caderno de viagem. Articulando seus textos sobre a floresta com a literatura científica de viagem que, como veremos no próximo capítulo precisa ser apagada, desconstruída, passada a limpo, Euclides os dota de uma historicidade descontínua. Assim, esses textos talvez possam ser vistos como inaugurais, no que tange à produção de um “nova” discursividade sobre a Amazônia. Enfim, penso que é a ruptura e não a continuidade que marca a historicidade dos textos sobre a Amazônia escritos por Euclides da Cunha.

Até aqui, procurei argumentar que os textos euclidianos sobre a Amazônia são vários e diferentes; que tais artefatos apresentam não simplesmente uma relação contextual com a história, mas que produzem, eles mesmos, uma forma de ver a história, uma certa descontinuidade histórica que não se pode descolar facilmente do texto, estando, portanto, ligada de forma imanente a ele. Busquei argumentar, também, que buscar um valor estético definidor da qualidade literária dos textos não é uma intenção dessa pesquisa, mas, que, paradoxalmente, talvez, é exatamente a legitimidade conferida a Euclides da Cunha que me interessa, pois seus textos acabam adquirindo uma maior força constitutiva de significações sobre a Amazônia do que aqueles escritos por sujeitos não tidos como “literatos” à época.

Além disso, ouso dizer que os escritos sobre a Amazônia de Euclides da Cunha permitem construir uma cadeia nova de analogias a respeito da floresta. Tais considerações também me levam novamente a marcar que além de vários, diferentes e importantes produtores de uma historicidade descontínua, os textos euclidianos sobre a Amazônia são atravessados por muitos outros textos, ou seja, como já indiquei anteriormente, eles possuem um caráter intertextual.

Marise Amaral (2003) chama a atenção para a “fascinante intertextualidade” que a viagem enquanto texto nos apresenta (p.142). A autora argumenta que lhe interessou discutir em seu estudo “os relatos dos viajantes como complexas produções culturais”, ou seja, como artefatos culturais “que se cruzam, que se interpenetram, múltiplos textos, várias narrativas, muitas histórias” (p.141). Sem dúvida, parece ser o texto de viagem que traduz de forma mais latente e explícita seu aspecto intertextual. Porém, quem sabe, possa-se dizer que qualquer texto contempla já em suas linhas muitos outros. E o caráter intertextual dos artefatos literários que lemos diz respeito não apenas àquilo que está escrito, ao seu conteúdo, mas, também, e de forma complexa, às leituras que são tecidas sobre os mesmos, leituras armadas (tecidas sob o crivo consciente de uma ou mais teorias) ou desarmadas (desinteressadas ou ingênuas). Em outras palavras, nas leituras que se fazem dos textos também se interpenetram múltiplos outros. Como nos diz Enzensberger (1995):

Se dez pessoas lêem um texto literário, o resultado será dez leituras diferentes. Todos sabem disso. Inúmeros fatores, completamente incontroláveis, influenciam a leitura: a história social e psicológica do leitor, suas expectativas e interesses, seu estado de espírito no momento, a situação na qual está lendo - fatores que não apenas são absolutamente válidos e que por isso deveriam ser levados a sério, mas que simplesmente representam as condições que permitem que algo como a leitura ocorra. Conseqüentemente, o resultado não é determinado pelo texto e não é determinável. Nesse sentido, o leitor sempre tem razão e ninguém pode lhe tomar a liberdade de usar o texto do modo que lhe for mais convincente (...). A leitura é um ato de anarquia. A interpretação, principalmente a única correta, existe para frustrar esse ato (p.16-17).

Nesta direção de entendimento sobre a leitura, posso dizer que a intertextualidade atravessa os textos em mão dupla, ou seja, na sua própria produção (sempre uma bricolagem singular e, talvez, nova, de muitos outros textos) e, ainda, nas leituras que lhe são feitas. Jonathan Culler (1999) também salienta que teóricos recentes têm argumentado que as obras literárias se tornam possíveis pelas anteriores, as quais elas “retomam, repetem, contestam, transformam” (p.40). Este autor lembra, ainda, algo que considero muito importante: a intertextualidade pode também ser observada em outros lugares e não, apenas, na literatura. Nessa direção, lembrar que os textos literários analisados nessa pesquisa apresentam uma intertextualidade é fundamental para não lê-los como inaugurando ou encerrando em si mesmos as significações, por exemplo, sobre a floresta amazônica.


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Fonte:
Leandro Belinaso Guimarães: “Um olhar nacional sobre a Amazônia: apreendendo a floresta em textos de Euclides da Cunha”. (Tese apresentada como requisito parcial para a obtenção do grau de Doutor, pelo Programa de Pós-Graduação em Educação, da Faculdade de Educação, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Orientadora: Profa . Dra. Maria Lúcia Castagna Wortmann). Porto Alegre, 2006

25/12/2013

Artigos Diversos, por Eça de Queirós

 Eca de Queiros - Artigos Diversos - Iba Mendes
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