11/01/14

Peru versus Bolívia, de Euclides da Cunha

 Euclides da Cunha - Peru versus Bolivia - Iba Mendes
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Euclides da Cunha: de engenheiro e jornalista a grande escritor da nação

Nesse capítulo, será analisada a popularização e a glorificação da figura e da obra euclidianas não somente a partir da criação do Grêmio Euclides da Cunha do Rio de Janeiro, em 1911,  mas a partir da própria publicação de “Os Sertões”, em 1902, que recebeu críticas muito  favoráveis e transformou Euclides, de engenheiro e repórter praticamente desconhecido, em  grande expoente da literatura nacional. Essas críticas tiveram um papel muito importante na consolidação do nome de Euclides da Cunha.

Na verdade, a literatura sobre o sertão não era exatamente uma novidade no momento em que  foi publicado “Os Sertões”. Outros escritores, como Coelho Netto e Artur Azevedo também  tinham o sertão como o tema principal de suas histórias. Esses escritores faziam parte de uma  corrente que, segundo Regina Abreu, era valorizada por estar associada à autenticidade, pureza, sinceridade, ao contrário da literatura urbana, associada à contaminação, ao engano e  à ilusão. 

Desse modo, a busca pelo “cerne da nacionalidade”, nas palavras do próprio Euclides, estava presente em outros escritores, que viam a literatura urbana dessa época como   excessivamente contaminada por influências estrangeiras e pouco afeita a uma realidade  genuinamente nacional. Outro ponto importante a ser ressaltado diz respeito, especificamente, ao tema da guerra de Canudos: esse foi um conflito amplamente noticiado  pelos jornais da época, e, além de Euclides, outros repórteres foram enviados para fazer a cobertura da guerra. Dentre eles, alguns também publicaram livros sobre o acontecimento,  como o major Barreto Dantas, Manuel Benício e Olívio de Barros. 

Mas nenhum desses escritores fez tanto sucesso quanto Euclides da Cunha. Tamanho e tão  repentino sucesso de um livro a respeito de um tema até certo ponto ultrapassado, já que no momento em que “Os Sertões” foi publicado, 1902, a guerra já havia terminado há alguns anos, mereceu uma investigação mais apurada de historiadores como Regina Abreu. Afinal, o  livro de Euclides da Cunha é considerado, mesmo nos dias atuais, um livro de difícil leitura, em razão da quantidade de termos científicos que o autor utiliza ao longo de seu texto. Considerando-se que a maior parte do público leitor daquele período histórico não estava familiarizado com os termos, conceitos e teorias utilizados por Euclides da Cunha, como o  seu livro conseguiu atingir um índice de vendas tão alto, já nos primeiros meses após a sua  publicação? Por que, afinal, o livro de Euclides da Cunha fez tanto sucesso já na época de seu lançamento? 

Segundo Regina Abreu, uma das explicações possíveis, ainda que não seja a única, pode estar relacionada à aprovação do livro por parte de alguns dos grandes críticos literários da época: José Veríssimo, Araripe Junior e Silvio Romero. Os três literatos, que produziam  importantes críticas sobre novos e antigos escritores e seus livros em grandes jornais da  época, foram unânimes na aprovação do livro de Euclides. Mais do que isso: os três foram  unânimes na aprovação do caráter científico do livro, que talvez diferenciasse a obra  euclidiana da dos outros autores que haviam escrito sobre a guerra de Canudos. A crítica dos  literatos ao livro de Euclides deixa bem clara a importância dada por eles ao caráter científico   do livro. José Veríssimo, em 1902, escreveu o seguinte: 

O livro do Sr: Euclides da Cunha, ao mesmo tempo um homem de ciência,  um geógrafo, um geólogo, em etnólogo; de um homem de pensamento, um  filósofo, um sociólogo, um historiador, e de um homem de sentimento, um  poeta, um romancista, um artista, que sabe ver e descrever, que vibra e  sente tanto aos aspectos da natureza como ao contato do homem...

José Veríssimo, em sua análise sobre o livro de Euclides, fez questão de dar destaque à formação intelectual do autor. Veríssimo assinalou que o livro foi produzido por um homem  de ciência, que era geógrafo, geólogo, etnólogo, filósofo e historiador, entre outras  qualidades. Desse modo, para Veríssimo, por ser cientista além de escritor, é como se a  narrativa de Euclides tivesse mais legitimidade do que as outras produzidas sobre esse mesmo  assunto. Sendo assim, apesar de a guerra de Canudos já ter sido objeto de outros estudos e de uma extensa cobertura jornalística para os padrões da época, o livro de Euclides da Cunha não poderia ser ignorado, pois fornecia uma visão diferenciada, de um homem de ciência, sobre  aquele conflito ocorrido nos sertões brasileiros. Não é de se espantar que José Veríssimo  tenha dado importância ao caráter científico do livro de Euclides da Cunha. Assim como  Silvio Romero, e embora tenha discordado deste último em alguns pontos, Veríssimo  também era simpático às teorias e aos pensadores evolucionistas, que aparecem em profusão,  seja por citações nominais, seja pela aplicação de suas idéias, no livro de Euclides. Essa característica do pensamento de Veríssimo é destacada por Maria Auxiliadora Cavazotti, em  livro intitulado “O projeto republicano de educação nacional na versão de José Veríssimo”. No livro citado, a autora afirma que: 

O perfil intelectual de Veríssimo encontra ressonância no pensamento social  brasileiro à época republicana. As características de erudição, domínio  científico e qualidade literária presentes em Veríssimo são compartilhadas  por toda uma geração de intelectuais brasileiros- entre os quais denominada ‘geração de 70’- que viveram e produziram no ocaso do século  passado e início deste, ou seja, no período em que se gesta a república.

Mais adiante, a autora afirma: 

Mas é, principalmente, no pensamento de Spencer que Veríssimo vai buscar  luzes. Nisso segue uma tendência da época, de cunho liberal, ligada às lutas  republicanas. De fato, como lembra José Murilo de Carvalho, ‘a versão  final do século XIX na postura liberal era o darwinismo social, absorvido no Brasil por intermédio de Spencer.

Ainda sobre Veríssimo, completa a autora: 

Fica claro, assim, que é sob os auspícios da Biologia e da Sociologia,  integradas no evolucionismo social spenceriano, que Veríssimo vai buscar  os princípios com os quais busca fundamentar sua proposta de educação  nacional.

Sobre Os Sertões, escreveu Araripe Junior que o livro de Euclides “(...) resulta da soma da arte com a ciência, do épico com o trágico, da emoção com a razão (...)” . Essas palavras deixam claro que o caráter científico-literário do livro de Euclides da Cunha conferiu mais  credibilidade e até mais legitimidade à narrativa de Euclides da Cunha sobre o sertão e sobre a  guerra. 

Regina Abreu confirma a importância dada pela trindade crítica do realismo, na expressão  da autora, ao caráter científico da obra euclidiana em diversas afirmações, entre as quais: 

Apesar de desavenças pontuais, os três partilhavam idéias próximas e,  sobretudo, ocupavam o mesmo lugar de representantes de novo método de  crítica literária calcada em critérios científicos por oposição aos antigos  métodos acusados de pecar por excesso de subjetivismo.

Mais adiante, ao caracterizar a nova visão dos chamados críticos realistas, a autora afirma  que: 

A literatura devia estar a serviço da ‘realidade nacional’, e os escritores, regidos por novos critérios de consagração, pautados por crítica moderna e  científica. Romero expressava o ponto de vista de muitos dos excluídos da Rua do Ouvidor e das principais agências: arregimentar suas forças na  novidade da ciência e com ela mudar os rumos da literatura. Esse movimento, que se processou a partir dos anos 70 do século passado, foi crucial não apenas para que um engenheiro como Euclides da Cunha viesse  a produzir Os Sertões, bem como para que essa obra viesse a ser consagrada. A consagração de Os Sertões significaria o exercício da nova  crítica que buscava se afirmar no país. O criador e a criatura se  encontravam. Um alimentaria o outro. Tanto a crítica moderna e científica  seria fundamental para a consagração de Os Sertões quanto o aparecimento  de Os Sertões seria fundamental para o exercício e a afirmação da nova  crítica.

Ainda sobre esse assunto, Regina Abreu ressalta que: 

Como Araripe, Romero observava a importância dos estudos realizados sobre o meio físico, concordando com a visão determinista de que a terra moldava os homens à sua imagem e semelhança. 

Também não é surpresa que Romero concordasse com a linha interpretativa de Euclides da  Cunha sobre o acontecido em Canudos, já que, como vimos, os dois partilhavam das mesmas  convicções nas teorias evolucionistas da época. A aprovação de Silvio Romero ao trabalho de Euclides da Cunha é também uma evidência que contraria a hipótese de que Euclides da  Cunha foi um positivista convicto, uma vez que, repudiando o positivismo como Silvio  Romero repudiava, é pouco provável que ele aprovasse o trabalho produzido por um escritor que pertencesse a essa escola. A crítica favorável de Romero ao livro de Euclides demonstra a identidade de pensamento entre os dois, pelo menos no que se refere ao ocorrido em Canudos. 

Portanto, considero que um dos motivos do livro de Euclides ter sido valorizado por estes críticos é seu caráter científico, acadêmico, e não apenas literário. Deve-se ressaltar, no  entanto, que, conforme aponta Venâncio Filho, o uso em excesso de termos científicos e de uma linguagem muito prolixa também foi alvo de críticas por parte de José Veríssimo, ainda  que essas críticas tenham sido feitas em âmbito privado, apenas para o próprio escritor. Venâncio também afirma que a isso, Euclides respondeu:


Num ponto apenas vacilo-o que se refere ao emprego de termos técnicos. Aí,  a meu ver, a crítica não foi justa. Sagrados pela ciência e sendo de algum  modo, permita-me a expressão, os aristocratas da linguagem, nada justifica  o desprezo que lhes votam os homens de letras-sobretudo se considerarmos  que o consórcio da ciência e da arte, sob qualquer de seus aspectos, é hoje a  tendência mais elevada do pensamento humano. (...) Eu estou convencido  que a verdadeira impressão artística exige, fundamentalmente, a noção  científica do caso que a desperta- e que, nesse caso, a cometida intervenção  de  uma tecnografia própria se impõe obrigatoriamente e é justo, desde que se não exagere a ponto de dar um aspecto de compêndio ao livro que se escreve, mesmo porque em tal caso a feição sintética desapareceria e com ela a obra de arte.

É, portanto, a partir da publicação de “Os Sertões” que começou a ser consolidada a imagem  de Euclides como grande escritor de literatura enriquecida pelo conhecimento científico, que  chegaria ainda com bastante força aos nossos dias. Depois do grande sucesso de críticas e de  vendas de “Os Sertões”   - em menos de um ano o livro já estava na terceira edição, o  escritor passou a ocupar importantes cargos nos meios acadêmicos da época, como os de  membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro e da Academia Brasileira de Letras. 

Para esta última, o escritor recebeu votos de acadêmicos como o Barão do Rio Branco e Machado de Assis, então presidente da instituição. O discurso de posse do escritor na ABL é  também um indício de que essa memória do escritor recebeu contribuições dele mesmo, que fazia questão de não se definir como apenas um literato. Na ocasião, diria Euclides: 

Escritor por acidente- eu habituei-me a andar terra a terra, abreviando o  espírito à contemplação dos fatos de ordem física adstritos às leis mais  simples e gerais; (...) vai-se-me tornando mais e mais difícil esse abranger  os caracteres preexcelentes das cousas, buscando-lhes as relações mais  altas e formadoras das impressões artísticas, ou das sínteses estéticas.

E mais adiante:
  
(...) me desviei, sobremodo, dessa literatura de ficções, onde desde cedo se exercita e revigora o nosso subjetivismo.

O autor, nesse mesmo discurso, também fez questão de frisar que, como homem de ciência, sentia dificuldades de ingressar numa casa de homens de letras. A referência a uma postura  científica, tanto por parte do próprio autor como por alguns de seus críticos foi, portanto, recorrente desde a publicação de seu primeiro livro. No entanto, ao longo do tempo, essa postura, chamada na época apenas de científica, foi se convertendo, na crítica do autor, em  postura positivista. 

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Fonte:
Natalia Peixoto Bravo de Souza: “A militância em torno da glorificação de Euclides da Cunha: um projeto  político-ideológico”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós Graduação em História Social do Departamento de História da  Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para a obtenção do título de Mestre em História. Orientador: Profa. Dra. Maria Amélia Mascarenhas Dantes). São Paulo, 2010.

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