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30/03/2014

A Tragédia da Rua das Flores, de Eça de Queirós

 A Tragédia da Rua das Flores, de Eça de Queirós
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Da tragédia ao trágico.

A interrogação, que direciona uma importante observação deste trabalho, é a de como se pode definir o trágico. Por saber que o questionamento e a investigação são as molas mestras da reflexão e do pensamento, acredita-se prudente deter-se nestas questões.

Para alguns teóricos, Jean Marie Domenach (1968), por exemplo, o retorno do trágico é um aspecto que está evidente nesse tempo; para outros, o trágico e a tragédia detêm profundidade e intensidade que vão à frente dos costumes, dos caprichos e das atualidades.

As reflexões, que serão tecidas acerca de como se pode definir o trágico, levarão em consideração a história e a época, assim como a tentativa de compreensão do homem e da existência. Não se referirá, nesse momento, nenhuma tragédia específica, nem mesmo nenhum escritor ou período. Ao tentar definição que designe a própria substância do trágico, o estudioso deparar-se-á com alguns obstáculos, principalmente em se tratando da significação do vocábulo tragédia e da extensa bibliografia existente sobre esse gênero literário.

No vocabulário usual, o termo “tragédia” denota ocorrências nocivas, funestas, terrificantes, que conduzem a sensações sombrias, tristes, desagradáveis, de sofrimento, propriamente ditas. O vocábulo “tragédia” também pode significar calamidade, grande desastre ou desgraça, igualmente um desastre que não se pode prever ou a enfermidade que leva ao termo da existência. Tem-se o conhecimento de que o termo “tragédia” surge no século V a.C., com as representações teatrais; porém, o entendimento comum e usual, permite-se inferir que a tragédia surge e adquire outro sentido com o decorrer dos séculos.

A origem etimológica da palavra “tragédia” é muito discutida. “Tragodía” é palavra formada por duas outras: “tragos”, que significa “bode”; “oidé”, que significa “canto”. Assim sendo, “tragédia” significa, etimologicamente, “canto do bode”. A interpretação desta origem é variada. Alguns estudiosos acreditam que tal denominação provém do fato de os sátiros vestirem-se com peles de bodes. Sendo eles cantores dos ditirambos a Dioniso, a denominação é assim justificada. Esta tese é defendida pelos Peloponesos, que vinculam a origem da tragédia a solo pátrio. Aríon é o primeiro a compor um ditirambo, a dar-lhe nome, e a representá-lo em Corinto (LESKY, 1996, p. 255). Corinto está localizado no Peloponeso.

Assim sendo, os habitantes desta região da Grécia querem a primazia da criação da tragédia. Outros dizem que se trata de “canto pelo bode como prêmio”. Ou seja, que, quando os cantos eram entoados, atribuía-se um bode para o vencedor. Horácio – em Ars Poetica – “é o testemunho mais conhecido desta teoria, segundo a qual o cantor campesino entoava outrora seu canto ‘trágico’ para obter um bode como prêmio” (Apud LESKY, 1996, p. 67-68).

Há ainda uma terceira versão para a compreensão da origem etimológica da palavra “tragédia”: “canto sacrificial do bode”. Há sempre, numa tragédia, um herói pertencente ao mundo dominante da aristocracia. Sua natureza é dominada pela hybris, desmedida, fuga dos limites impostos pela boa convivência em sociedade. Esta especificidade de caráter acaba por conduzir o herói à hamartia, erro trágico. O final do percurso é a morte, sendo, pois, como tal, um ente a ser sacrificado para o bem da pólis.

Juntamente com todas estas especificidades que envolvem o vocábulo tragédia, outras se juntam, principalmente em se tratando das variadas aplicações do vocábulo em ambientes e acepções divergentes. Ainda é preciso lembrar que, em determinadas situações, o vocábulo indica – também – angústia, aflição, amargura e padecimento.

Desde Aristóteles, são inúmeras as definições de tragédia, embora todas geram contestação ou controvérsia. Determinados escritores e teóricos indicam o sentido da palavra tragédia através das concepções de dignidade e ruína.

José Pedro da Silva Santos Serra (1998) lembra que, no prefácio de Bérénice, Racine mostra que a característica principal da tragédia se encontra na grandeza da ação e das sensibilidades que a sustentam, enfatizando que não é necessário que haja sangue e morte, é apenas necessário que a ação seja grande; que as personagens sejam heróicas; que as paixões sejam instigadas e que todos os efeitos ou as conseqüências da melancolia grandiosa que faz toda a satisfação da tragédia se efetivem.

Pelo que se observa, as deficiências das conceituações e explicações para a noção de tragédia são grandes. Focalizando apenas as idéias de grandeza e queda, chegar-se-ão a inúmeras. Afinal, o que significa grandeza e queda? Grandeza alude às personagens, ao
mito, à ação; queda refere-se à ocorrência acidental, a acontecimento funesto, à inevitabilidade. Ainda é importante lembrar que a queda ao mesmo tempo em que poderá ser fatal, terminante e decisiva, poderá proporcionar ao indivíduo a liberdade e a salvação. São inúmeras as questões acerca da conceituação de tragédia enquanto dignidade e queda, o que denota que são correntes, difusas, sem precisão.

Uma questão nos parece necessária: onde está estabelecida a gênese do trágico? Ele nasce com a forma estética da tragédia? Segundo Albin Lesky (1996), a origem do trágico se encontra já nas epopéias, na Ilíada e na Odisséia; propriamente dito – a poesia
homérica já está revestida de rudimentos de trágico. Sabendo que o trágico se encontra, mesmo que em caráter elementar, na epopéia homérica, pode-se percebê-lo, associando-o à forma estética da tragédia. Deve-se acrescentar que o vocábulo trágico não encerra interpretação homogênea; pelo contrário, encerra multiplicidade de significações, que varia de acordo com o ambiente cultural e com o propósito do escritor. Trágico é um conhecimento, é uma idéia que não é possível restringir, demarcar, circunscrever, classificar, pois é de riqueza abundante.

Assim, configura-se importante tecer algumas considerações acerca da banalização que o vocábulo trágico vem sofrendo ao longo dos séculos, bem como acerca do gradativo distanciamento do sentido clássico, para se transformar em adjetivo que evidencia ocorrências, episódios e situações funestas e sinistras determinadas como trágicas.

As palavras trágico e tragédia são vítimas de banalizações progressivas, melhor dizendo, de um esvaziamento do próprio conteúdo, visto que perdem o significado e, por isso, assumem os mais diversos sentidos. Assim, usa-se a palavra tragédia para qualquer evento dotado de intensidade negativa, como a morte, um terremoto, etc. Essa é uma das dificuldades que problematiza a compreensão do trágico e da tragédia. Uma outra dificuldade é a divergência existente entre as diversas teorias que pretendem interpretá-los. Porém, a principal dificuldade é própria da resistência que envolve o fenômeno trágico, já que é rebelde a qualquer tipo de definição: deparamos na tragédia com uma situação humana limite, que habita regiões impossíveis de serem codificadas. As interpretações permanecem aquém do trágico, e lutam com uma realidade que não pode ser reduzida a conceitos. (BORNHEIN, 1975, p.6)

Situações aborrecedoras, fatos desagradáveis, desenlaces infelizes, acontecimentos aflitivos ou solitários não são suficientes para caracterizar o trágico – é preciso muito mais. É necessário, por exemplo, uma ocorrência seguida de episódios, como tão bem registra Otávio Cabral: o trágico se dá “através de uma sucessão de acontecimentos, como que uma reação em cadeia” (2000, p.15).

O fundamento do trágico reside na tensão entre a consciência grave do limite humano e a tentativa desesperada de ultrapassá-lo. Essa visão está presente tanto na tragédia clássica quanto na moderna. Em ambas, o herói passa de uma situação de equilíbrio aparente para uma situação caótica, instalando-se a tensão trágica na ruptura da medida e na punição que o homem procura em vão compreender. Em se tratando dos gregos, o combate se dá entre o homem e o destino – poderoso e sobrenatural – que pesa sobre ele. Há uma força que dirige, porém não impede o homem de agir com liberdade. O herói trágico pode agir ou não agir, aceitar ou não aceitar determinada situação, e é justamente o emprego consciente dessa liberdade que o conduz à catástrofe. O conteúdo da ação trágica baseia-se nas forças universais que dirigem a vontade humana e se justifica por si mesma.

A esse propósito, pode-se dizer que, como escreve Gumbrecht (2001), não há ação trágica sem a presença ameaçadora da morte. No caso das obras que este estudo pretende analisar, se está diante de duas tragédias, não no sentido literal do termo, conforme mencionar-se-á mais adiante, mas está-se diante de dois romances em que os elementos trágicos estão presentes, já mesmo pelo aspecto ameaçador da morte que se encontra nas obras A Tragédia da Rua das Flores e Os Maias.


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Fonte:
Luciana Ferreira Leal: “Elementos do trágico em Eça de Queirós: A Tragédia da Rua das Flores e os Maias”. (Tese apresentada à Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP – Universidade Estadual Paulista para a obtenção do título de Doutor em Letras. Área de Conhecimento: Literatura e vida social. Orientador: Dr. Odil José de Oliveira Filho). Assis, 2006. Disponível em: http://www.athena.biblioteca.unesp.br/

28/12/2013

Textos Jornalísticos de Eça de Queirós

 Eca de Queiros - Textos Jornalisticos - Iba Mendes
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A Catástrofe, conto de Eça de Queirós

 Eca de Queiros - A Catastrofe - Iba Mendes
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Crônicas de Londres, por Eça de Queirós

 Eca de Queiros - Cronicas de Londres - Iba Mendes
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Alves & Cia, por Eça de Queirós

 Eca de Queiros - Alves e Cia - Iba Mendes
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Prudente é a prudência

Godofredo da Conceição Alves, negociante na cidade de Lisboa, rua dos Douradores, tinha como sócio o parceiro Machado. Certo dia, ao retornar do Ministério da Marinha, onde fora resolver questões relacionadas a negócios no Ultramar, Godofredo não encontrou o sócio, que tinha ido, segundo o guarda-livros, ao Lumiar. “Desde o começo do mês, era a quarta ou quinta vez que o Machado desaparecia assim do escritório, ora para ir ao Lumiar ver a mãe, ora à outra Banda visitar um amigo tísico, ora mesmo, sem razão, com esta palavra vaga: ‘um negociozito’! E Alves sorria. Começava a desconfiar daqueles ‘negociozitos’!” (Queirós, 1981:6)

Quase às três horas da tarde o guarda-livros veio lembrar que aquele era o dia da “reunião geral da Transtagana”, dia 9, data que lembrava também a Godofredo outro evento importante: o dia do aniversário de seu casamento. Godofredo “decidiu logo correr à Rua de S. Bento, lembrar à Lulu aquela grande data (...) Eram quase três horas (...), não havia nesse dia outros afazeres (...). E tomando o chapéu, no regozijo do meio feriado, alegrava-se à idéia de ir surpreender com um abraço a sua querida Lulu. Só uma coisa o contrariava: que o Machado estivesse no Lumiar e não pudesse jantar com eles” (Queirós, 1981:11 e 13).

No caminho de casa, ao passar diante de uma joalheria, resolveu comprar uma pulseira, “uma serpente de ouro, com dois olhos de rubis, mordendo o rabo”. Jóia, segundo o ourives, vendida “uma igual à Sra. Marquesa de Lima”. Godofredo não teve dúvida. Comprou. Ainda na direção de casa, encomendou “uma empada de peixe para as seis horas”, no restaurante do Mata, que ficava na rua Nova do Carmo. Subindo o Chiado, comprou charutos para o sogro, o seu Neto, e desceu à rua São Bento onde morava. A “meia dúzia de passos de sua casa (...), dentro da confeitaria, viu a sua criada, a Margarida, esperando no balcão. Compreendeu logo que a Lulu não se esquecera do dia (...): a Margarida viera comprar doces, sobremesas”. Ele, logo após encomendar a empada de peixe, comprou também um fiambre, um queijo da serra — o dia merecia (Queirós, 1981:14 e 16-7).

Ao chegar a casa, Godofredo observou que tudo estava quieto, “tudo parecia adormecido”. Teve então uma idéia: entrar pé ante pé e ir ao quarto surpreender a “Lulu que, ordinariamente, àquela hora, se vestia para o jantar”. Ao pôr em prática a tática, pé ante pé, usando “os seus sapatos de verão, de sola fina”, esperando não fazer ruído, ouviu um rumor através da cortina da sala de visitas, “um rumor ligeiro, indistinto, como um vago suspiro, um garganteio muito leve”. Godofredo “espreitou (...). E o que viu — Santo Deus! — deixou-o petrificado, sem respiração, com todo o sangue na cabeça e uma dor tão aguda no coração que quase o deitou por terra” (Queirós, 1981:18-9). O que viu Godofredo?

“[Viu] sobre o canapé de damasco amarelo, diante duma mesinha onde havia uma garrafa de vinho do Porto, Lulu, de robe-de-chambre branca, encos tava-se, abandonada, sobre o ombro dum homem que lhe passava o braço pela cintura, contemplando-lhe o perfil com o olhar afogado em languidez. O homem era o Machado” (Queirós, 1981:19).

As cenas seguintes o leitor pode imaginar. O sócio Machado “pela rua fora, a passadas de côvado (...) afastava-se com o guarda-sol na mão”. E o Godofredo querendo esgoelar a Lulu, não, agora simplesmente Ludovina, que se trancou no quarto. “— Abre ou arrombo!”, vociferava Godofredo, e do outro lado, respondia Ludovina “— Mas não me faças mal! (...) Oh, Godofredo, pela tua saúde, perdoa, eu não tinha feito mal nenhum, e era só a primeira vez! (...) — E que fosse a primeira, que tem que fosse a primeira? E então com quem, infame!” Foi então que o Machado entendeu os “negociozitos” do seu sócio. “— Arranje as suas coisas, p’ra ir p’ra casa de seu pai. (...) Pode levar tudo (...). Tudo o que é seu, leve-o. Mas rua!” A empada de peixe do restaurante do Mata acabava de chegar (Queirós, 1981:22-4 e 26-7).

Depois de perambular pelo Chiado, rua do Ouro, Terreiro do Paço, Aterro quase até Alcântara, “a idéia da morte atravessava-o (...), pensou no suicídio”. “Mas o outro?”, o sócio, o Machado? “Era o Machado que devia desaparecer; era Machado que se devia matar! (...) a firma continuaria a ser Alves & Cia.” Com estas idéias a fervilhar sua cabeça concluiu que a única coisa digna era “propor ao Machado que um deles se suicidasse!” Voltou a casa.

Não, era “muito simples: tirariam a sorte, ele e o outro, qual dos dois se devia matar!” (Queirós, 1981:37, 39-41 e 45).

Mesmo sem apetite, Godofredo sentou-se à mesa para o jantar a fim de manter, perante as criadas, aparência de normalidade. Neste momento vieram anunciar que o sr. Neto, o sogro, viera buscar as coisas da Lulu. Uma discussão áspera deu-se entre os dois. De um lado, o comerciante de Alves & Cia, sentindo-se desonrado; de outro, um pai defendendo a honra da filha. “— O pior é o falatório!”, dizia o Neto compungido. “— E a você, com sua posição na praça, não lhe faz senão mal.” Godofredo concordou “enfim, o melhor seria evitar o palavrório”. Conversa vai, conversa vem, para evitar palavrórios, o Neto propôs uma saída: ir para a praia, longe de Lisboa, “era época dos banhos”. E ficamos assim combinados, disse o Neto ao chegar em casa, “para evitar falatórios, que vamos passar o verão à Ericeira” (Queirós, 1981:57-9).

No dia seguinte “ao do vago suspiro”, os dois sócios encontram-se em Alves & Cia. “— Depois do que se passou ontem, não podemos continuar a ser amigos”, disse Godofredo. “— Infelizmente, infelizmente”, retrucou Machado. “— A sua infâmia não tem nome! (...) — E pelas minhas costas, o senhor que faz? Desonra-me!”, continuou Godofredo. “— Sei tudo isso (...) e estou pronto a dar-lhe todas as reparações, todas, quaisquer que sejam”, replica Machado. E Godofredo, exaltando-se, diz: “— A reparação é só esta: um de nós tem de morrer (...) Um duelo é absurdo (...) Tiremos a sorte qual de nós se há-de matar!” (Queirós, 1981:77-9).

Machado achou ridícula a idéia de tirarem a sorte a respeito do suicídio e fez a seguinte proposta: “— Eu estou pronto a dar-lhe todas as reparações, e com todo o meu sangue (...) mas há-de ser dum modo sensato e regular, com quatro testemunhas, à espada ou à pistola, como desejar, a que distância entender, um duelo de morte; tudo o que quiser; estou às suas ordens. Hoje todo o dia, amanhã todo o dia, lá espero, em minha casa. Mas com idéias de doido não me entendo (...) E não temos mais que conversar!” (Queirós, 1981:81).

Godofredo foi à procura do amigo Carvalho, a quem contou, em detalhes, o ocorrido. Em seguida, foram à casa do “Teles Medeiros, homem de fortuna e sociedade, que tinha panóplias de floretes na sala e a experiência do ponto de honra”. Quando chegaram à casa do Teles, diz o Carvalho: “— Nós vimos aqui para um negócio muito grave”. Mas, naquele preciso momento, o Medeiros estava preocupado se já havia chegado uma carta para ele naquela manhã. O criado a trouxe e o Teles, aliviado, comentou: “— Caramba, ia sendo ontem apanhado. Por um segundo (...) E se o marido entra na cozinha, que é logo ao lado da porta, lá se ia tudo quanto Marta fiou! Irra, que não ganhei para o susto! (...) — Pois é por uma coisa dessas que nós cá vimos”, falou o Carvalho olhando para o Godofredo. E os dois contaram toda a história, iniciando com “— Foi ontem. Apanhei a Ludovina com o Machado” (Queirós, 1981:84 e 95-7). Um terceiro já estava sabendo, o falatório já estava a caminho.

Medeiros, o experiente, comenta: “(...) nunca com a mulher dum amigo íntimo, e de mais a mais, dum sócio (...) — Isto pede sangue”. Depois de confabularem, resolveram, o Carvalho e o Medeiros, procurar outras duas testemunhas: “o Nunes Vidal (...), rapaz de experiência em coisas de honra, e o Cunha, o Albertinho Cunha”, bom comparsa, parceiro do Nunes. O falatório ampliava-se. As quatro testemunhas reuniram-se na casa do Medeiros para discutirem o duelo. Após longa e alegre discussão, chamaram o Godofredo, que estava numa sala ao lado, e o Medeiros sentenciou: “— Tudo resolvido (...) Está tudo decidido (...) Não te bates. (...) Tudo tinha de ficar na mesma. Era o bom senso” (Queirós, 1981:99, 106 e 120). Não há necessidade de mortes: ou pela sorte, suicídio, idéia original de Godofredo; ou por duelo, como propôs Machado.

Depois de explicarem ao Godofredo o que tinham discutido, Medeiros sentencia “— não há motivo para que interrompam as relações comerciais”. Godofredo retruca: “— Então há-de amanhã entrar-me pelo escritório?” E Medeiros complementa, apontando a seguinte tática: o Machado escreve-te uma carta alegando problemas pessoais, pedindo que cuides do negócio, e viaja; os empregados tomam conhecimento; ele retorna “ao fim dum ou dois meses” e “— Tapas assim a boca do mundo — disse Carvalho. — Salvas-te do ridículo — acrescentou Medeiros. — Manténs a firma intacta e unida (...) — Livras tua mulher de má fama (...) — Conservas um sócio inteligente e trabalhador. — E talvez um amigo! [complementaram os demais]” (Queirós, 1981:124-5).

Passadas algumas semanas, retornava o Machado ao escritório da rua dos Douradores e à rotina funcional. Os Neto também já haviam regressado dos banhos, de Ericeira. Mais uma vez o velho Neto achou uma maneira de tirar dinheiro do ex-genro. “Disse que refletira muito e que estava disposto a ir fazer com a filha uma viajada até o Minho (...) para evitar palavrórios!” Godofredo ficou irritado com mais essa investida do sogro e respondeu: “— Mas não há de ser a minha custa!” (Queirós, 1981:141).

A casa estava um pandemônio, as criadas não davam a mínima. Como a Lulu fazia falta. Godofredo passou a sentir saudades e procurá-la pelas ruas: largo do Carmo, Rossio, Chiado... Um dia, sem querer querendo, encontra Ludovina, conversam. Ele diz dos problemas que tem em casa, da roupa mal lavada e passada, da comida sem gosto, desleixo total. Lulu, compungida com a situação e lembrando-se da vida que levava antes do dia do “vago suspiro”, do “garganteio muito leve”, retorna ao convívio do lar, àquele homem a quem tocava ao piano, após o jantar, Souvenir d’Andalouise. Foram passar uns dias em Sintra, uma segunda lua-de-mel. Voltaram a freqüentar o São Carlos quando, numa “dessas noites, cantava-se a Africana” e, ao saírem do teatro, “de repente apareceu o Machado”. Civilizados, cumprimentaram-se: “olá Machado, boas noites” (Queirós, 1981:149). No dia seguinte, em Alves & Cia., os sócios comentaram o que viram e ouviram no São Carlos, as férias em Sintra etc. 

“De novo a vida continuou, banal e corrida, como ela é.” Morreu a mãe do Machado; o Neto, de apoplexia, dentro de um autocarro. Machado casou com Catanhede, que faleceu ao fim de um ano. Voltou a casar com uma viúva. “Mas há quanto tempo isso vai!” Godofredo, ao lembrar-se do passado, do caso “que quase o deitou por terra”, que quase o levou à falência, extraiu “a sua filosofia” de vida e, como “ele diz muitas vezes ao Machado: — que coisa prudente é a prudência!” (Queirós, 1981:165 e 167-8).

“E agora ali estavam (...) lado a lado, honrados, serenos, felizes, envelhecendo de camaradagem no meio da riqueza e da paz. 

As vezes, pensando nisto, Alves não pode deixar de sorrir com satisfação. Bate então no ombro do amigo, lembra-lhe o passado, diz-lhe com um sorriso:

— E nós que estivemos para nos bater!

E o outro responde, sorrindo também: — Por causa de uma grande tolice, Alves amigo!” (Queirós, 1981:169).


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Fonte:
Fernando G. Tenório (Professor da EBAP/FGV, coordenador do Programa de Estudos em Gestão Social e membro 
do Comitê Técnico do Programa Gestão Pública e Cidadania da EAESP/FGV-Fundação Ford-BNDES).: “Aliança e parceria: uma estratégia em Alves & Cia”, disponível em: http://bibliotecadigital.fgv.br/site/

O Conde d'Abranhos, por Eça de Queirós

 Eca de Queiros - O Conde de Abranhos - Iba Mendes
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O Conde d'Abranhos, por Eça de Queirós

[...]

Quero comentar aqui agora apenas alguns aspectos da  ironia retórica de O conde de Abranhos, novela cujo manuscrito data de 1879, não tendo nunca sido publicado em vida do autor (foi dado à luz pelo filho José Maria, 25 anos  após a morte do pai). Mostrando-se perfeitamente integrado no espírito crítico da  geração de 70, em O conde de Abranhos, Eça critica a vida pública e privada do  Portugal da época, através da voz (ou da pena) do secretário Zagalo, que constrói o  elogioso retrato de Alípio Abranhos.

A novela coloca em cena uma política corrupta e interesseira, uma vida familiar  e uma religião degradadas e preocupadas apenas com as aparências, uma educação  deficiente e mal orientada e uma sociedade que premia e incentiva a hipocrisia. Através  da palavra ingênua de um narrador ingênuo, demonstra ainda uma deplorável  incapacidade de leitura crítica do mundo e das informações recebidas. O narrador da  novela é Z. Zagalo, um secretário que deseja perpetuar a memória do venerável homem  público que dá nome ao livro, fazendo, em sua encomiástica biografia, o elogio de sua  vida de jornalista, homem de família, político da oposição e posteriormente ministro de  Estado, depois de oportuna mudança de partido político. Generoso e magnânimo,  condescendente para com alguma falha do “homem excepcional” que busca retratar,   Zagalo aceita, assume e elogia a perspectiva do patrão e da ideologia conservadora que  o levou ao poder. Pretende que sua homenagem leve às gerações contemporâneas “a  elevação de espírito e a rectidão de alma” de seu biografado (Queiroz, [19--], p. 287- 405), para quem procura construir um monumento comparável ao mausoléu com que a  condessa viúva homenageia o marido prematuramente falecido. Rivalizando talvez com  essa esposa do Conde – pois além de elogiar constantemente a primeira esposa do  homenageado, parece pretender dizer que conhece melhor o seu retratado que a mulher  que com quem ele conviveu durante oito anos de casamento -, Zagalo exemplifica  entretanto toda a ingenuidade e incapacidade de leitura que Eça pretende apontar no  povo português. Critica assim a miséria de um país em que a lealdade é apenas aparente  e interessada, camuflando hipocrisias, invejas, despeitos e vinganças de personagens  que lutam escusamente pelo poder.
O conde de Abranhos constitui-se, assim, como um bom exemplo de arte  construída com a ironia retórica, pois o seu autor coloca em cena um narrador de cuja  palavra discorda, utilizando esse leitor intradiegético despreparado para alertar  ironicamente os leitores de sua obra, a fim de que façam aí um exercício crítico e  aprendam com essa caricatura a ser menos crédulos, menos bajuladores e interesseiros  e, enfim, mais atentos e menos ridículos. O exagero com que carrega nas tintas dos  elogios do secretário indica a ironia desse autor impiedoso, que usa a exaltação moral  para desmoralizar e o comentário positivo para criticar.

O autor faz seu narrador Zagalo elogiar, por exemplo, personalidades a quem o  conde devia favores, acentuando ao mesmo tempo o ridículo ou outros aspectos  negativos de suas figuras. Uma delas é a do Dr. Vaz Correia, aquele que tinha por  Alípio “uma consideração a que se misturava tocantemente uma simpatia paternal” (p.  331), e que foi o seu orientador no casamento com uma herdeira rica, o que abriu ao  futuro conde as portas da alta sociedade lisboeta da época. Zagalo chama o Dr. Vaz  Correia de “rábula”, avisando logo que essa palavra não devia ser tomada em seu  sentido grotesco, o que equivale a uma piscadela irônica do autor que estabelece  comunicação conosco, acentuando que o adjetivo “grotesco” é realmente para ser  levado a sério. Esse entendimento se confirma pela descrição do Dr. Vaz Correia: trata-se de um “resplandecente espelho de lealdade” (p. 331), de que o “que menos se  conhecia era a sua grande bondade” (p. 331):

Os seus olhinhos vivos que espreitavam por cima dos óculos, a sua  carita redonda e enrugada, as duas repas de cabelo grisalho,  espetadas como orelhas de diabo de cada lado da calva, a alta  gravata de seda preta às pintas, o colete de xadrezinho, e o hábito de  falar com as mãos atrás das costas, tornando saliente a sua  barriguinha próspera, são feições dele bem conhecidas de Lisboa. (p.  331)
Chamam a atenção os diminutivos “olhinhos”, “carita”, “xadrezinho”, “barriguinha”,  que contrastam ironicamente com a solene figura apresentada do bom gigante, que é  comparado a um S. Cristóvão protetor e sempre venerado.

Uma figura ridícula realmente criticada por Zagalo é a do sogro de Alípio  Abranhos, o desembargador Matos, cuja honestidade e ciência jurídica eram discutíveis  e que lembra personagens de Camilo Castelo Branco, pois é visto como um animal, que  “rumina regaladamente” (p. 333): “Fazia, ao comer a sopa, um gluglu nojento e  repelente, e atirava para o soalho os escarros que merecia na face” (p. 335). Explica-se,  porém, a perspectiva negativa de Zagalo diante do Dr. Matos, pois este uma vez o  tratara como um lacaio, pedindo-lhe que visse se já chegara a sua sege. Compreende-se  a crítica, principalmente, quando Zagalo confessa: “Pode parecer irrespeitosa esta  apreciação da família Amado, mas, para minha justificação, direi que o Exmo. Conde a  abominava” (p. 335) . O “partido” do secretário diegético é assim bem definido e  definidor, pois o seu julgamento estará sempre previamente estabelecido porque calcado na perspectiva do conde, seu venerado e benfeitor patrão.

Zagalo exibe constantemente as comprovações e as fontes de todos os seus  relatos e perspectivas, definindo-se, assim, como um interessante caso de vítima da  ironia, pela ingenuidade da leitura que faz e da narração que elabora: se não entende os  jogos de enganos de que se torna vítima, não percebe também que a sua intenção irônica  de exaltar-se ao exaltar o conde não pode funcionar da forma positiva que ele pretende.  Ao expor a sua necessidade do olhar do leitor – ao escrever uma biografia que deverá  consagrar o biografado e ao mesmo tempo o que a escreve - , desvela inconscientemente  os artifícios retóricos e escusos do biografado que pretende exaltar. O exaltador torna-se  assim ainda mais criticável que o “exaltado”, pois a sua visão ingênua apresenta como  positivos procedimentos que os leitores perceberão como negativos e censuráveis.
A ironia que Eça critica em O conde de Abranhos refere-se principalmente,  portanto, a uma recepção / retransmissão ingênua, aquela que procura transmitir a outros discursos recebidos, sem perceber neles incongruências que sinalizam irônica  manipulação de sentido e manobras que visam ao poder. Indiretamente, através da voz  desse narrador que afirma repetidas vezes não crer ofensivas as lembranças negativas  que apresenta, o autor irônico ratifica comentários desairosos sobre a origem familiar  humilde de Abranhos, conta como ele se envergonhava dos pais e os abandonou, mostra a deficiência de sua formação cultural, contrapõe seu físico bem desenvolvido à sua  pobreza intelectual, exibe a sua propalada veia poética que se resumira a versos  sentimentais da juventude, revela que suas relações sociais e afetivas tinham sempre  como base o interesse pessoal, denuncia que o seu socialismo era mal fundamentado e  mal desenvolvido, acentuando que somente por ter sido adotado durante muito tempo  pela rica tia Amália pôde ter ele a ascensão social de que desfrutava.

[...]

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Fonte:
Lélia Parreira Duarte  (UFMG ): "A valorização do leitor na arte de Eça de Queirós  (ou respondendo a Machado de Assis e a Fernando Pessoa), disponível em: http://www.leliaparreira.com.br

27/12/2013

A Capital, de Eça de Queirós

 Eca de Queiros - A Capital - Iba Mendes
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A (i)legibilidade de Lisboa n'a Capital de Eça de Queirós

[...]

O texto A Capital a visibilidade de Lisboa vai ganhar corpo na encenação do desejo de Artur. A partir de seus sonhos, fantasias e fantasmagorias, personagem e cidade se revelam, numa estranha mistura de imagens contraditórias.

Num primeiro momento, Lisboa é o que o jovem provinciano de educação romântica consegue imaginar:

Lisboa! - Concebia a vida que a enchia, violenta e grandiosa, como um mundo da Comédia Humana de Balzac: era de resto, pelos romances franceses, que reconstruía a sociedade de Lisboa: e não tinha uma idéia menos desproporcionada da sua edificação - imaginando-a de ruas enormes, sonora de trens e flamejante de gás, assentando a sua pompa movimentada sobre a larga baía azul, onde esquadras manobram e salvam as torres de outros séculos! Mas era a existência noturna de Lisboa que o fascinava: imaginava sentir nos cafés entre o ouro dos espelhos balançar-se a sussurração das conversas literárias; via à porta dos teatros apinhar-se uma multidão sôfrega de arte nas praças em redor todas alumiadas, grupos discutirem com sutileza a estética dos poetas e a política dos oradores. Depois parecia-lhe avistar janelas embaciadas de restaurantes, onde artistas e cortesãs celebravam orgias poéticas como galas; e mais longe, os balcões dos salões aristocráticos, de onde saía uma claridade discreta tamizada pelas sedas das bambinelas: aí, imaginava a vida de um mundo superior, em que as faces são pálidas da emoção contínua dos sentimentos romanescos; aí diplomatas, cujos sorrisos têm a frieza da razão de Estado [...]; aí, sentadas em móveis de veludo e cetim, ideais figuras de beleza patrícia respiram ramos de violetas, com olhares onde brilha sob um fluido o ardor dos adultérios: e aí, vivia Clara... E em redor no mistério da vasta cidade, imaginava a existência das personalidades atormentadas do romance ou do teatro. [...] Mas nesta fantasmagoria, entusiasmavam sobretudo o mundo dos jornalistas: era um ruído incessante de máquinas de impressão, salas de redações resplandecentes de penas que correm sobre o papel derrubando ministérios ou edificando glórias e ditos de folhetinistas que têm a profundidade de uma filosofia, na precisão de um aforismo!... E via-se lá, revendo provas, lendo o seu nome em cada jornal, fazendo civilização!

Não faltam fantasmagorias a esta descrição idealizada de Lisboa. No seu desmedido desejo pela Capital, o romântico sonhador - habitante da periferia - não pode adivinhar que existem diferenças entre Paris e Lisboa. Para ele Lisboa deve ser como Paris, i. é, uma referência maior, um ponto de convergência que acolhe todo o seu ideal de cidade.

É importante notar que nessa perspectiva ingênua com que Artur imagina Lisboa estão presentes diferentes alegorias da cidade moderna de que Paris é o modelo: o bulício das grandes avenidas flamejantes de gás; a pompa e o brilho dos cafés; os teatros; a multidão; o ardor e a elegância das mulheres requintadas, sensíveis; a poderosa vida dos políticos e o ruidoso mundo dos jornalistas - enfim, a civilização.

Com essas alegorias - que Eça lhe põe diante dos olhos pela via dos romances franceses -, Artur constrói a sua fantasmagórica cartografia de uma Lisboa desconhecida. Com ela vai viver e esperar que a Boa Fortuna venha ao encontro das suas necessidades. Mas, na distância da província, Lisboa além de objeto do desejo, passa a ser, pouco a pouco, uma necessidade:

Por que não iria para Paris, ser operário, amar uma Mimi republicana do Faubourg St.-Antoine e conspirar contra o Império? Pensou em ir para Lisboa, fazer-se escudeiro numa casa fidalga, onde a sua figura e as suas réplicas profundas lhe dariam bem depressa o amor da senhora condessa ou da mulher do banqueiro... (p. 871).

Lisboa era agora a sua necessidade, o seu ideal, a sua mania (p. 880).

Tudo o que o cercava e o retinha, a casa e a farmácia, lhe parecia então mais odioso: tudo na vila lhe dava uma sensação de obscuridade que o abafava - as ruas que se lhe afiguravam estreitas como as idéias, as fachadas que eram inexpressivas como os rostos: quase detestava aqueles que nunca leriam seus versos, sobretudo aqueles que decerto o desprezavam (p. 881).

A província é um espaço propício para essas desmesuras do desejo por Lisboa. Mas qual Lisboa? A fantasmagórica cidade moderna fornecida pelos romances franceses? Esta ainda é a grande imagem com que Artur povoa a capital. Mas esta imagem vai agora ampliar-se, pois a esterilidade intelectual de Artur leva-o também a imaginar Lisboa como o único lugar propício à criação.

Acusava então desesperado a monotonia da vila triste que o esterilizava. Ah, se estivesse em Coimbra, em Lisboa sobretudo! Lá entre os jornalistas, a Ópera, os poetas, o seu cérebro que agora lhe parecia uma pedra que apesar de muito batida guarda obstinadamente a sua faísca, flamejaria então numa inspiração contínua! Mas não desistia, sustentado por uma ambição histérica de ver o seu nome em folhetins, de ser admirado pelas senhoras sensíveis - e as tias não compreendiam o que ele fazia, passeando até altas horas pelo quarto, consumindo regularmente uma vela de sebo, enquanto Albuquerquezinho, que era doido, esse, no quarto ao lado, ressonava sensatamente! (p. 874).

Essa imagem de Lisboa como paraíso de criação literária é reforçada pelas palavras (muito "Geração de 70") do republicano Damião, antigo colega de Artur no "Cenáculo" de Coimbra.

Tomei devida nota dos seus desesperos românticos. Acho-os patuscos - ainda que inteiramente adequados à tradição lamartiniana. Console-se fazendo um volumezinho de versos (já que as circunvoluções do seu cérebro o levam fatalmente ao verso) - não sobre as estrelas e os lírios (deve deixar essas parcelas de substância aos astrônomos e aos jardineiros) mas sobre o Homem, que é a verdadeira matéria poética moderna. E sobretudo venha para cá. A capital é, no fim de tudo, o único ponto vivo desta fétida lesma morta que se espapa à beira do velho Atlântico, sob o nome desacreditado de Portugal (p. 885).

A Lisboa de Damião ajuda a compor a rede de imagens com que Artur imagina Lisboa. A capital desejada passa a possuir mais esse fascínio: o único espaço propício capaz de inspirá-lo e desenvolver-lhe as faculdades tão necessárias para se conseguir a glória literária, os amores aristocráticos, e... a fortuna. Artur passa a odiar a província.

Na sua espera desesperada pela Capital, não se dá conta de que uma outra Lisboa lhe é apresentada. Uma outra leitura da cidade. São as Lisboas do Joãozinho Mendes, o Chouriço, e a de Rabecaz:

- Pois eu vou-me até à capital!... Desenferrujar!... Se quiser alguma coisa...
- Que se divirta!
- Fica por minha conta! Há de se encher este ventrezinho! E então que vamos ter um rico inverno em Lisboa! Sassi em S. Carlos, cancanistas francesas no Casino... Naturalmente, fornada nova de espanholas... Não lhe digo mais nada... (p. 844).

- O amigo nunca esteve em Lisboa?
- Não - disse Artur.
O Rabecaz deu uma palmada na coxa:
- Então, meu caro senhor, não sabe o que é gado! Não faz idéia do que é um pé catita!
O Rabecaz deu uma punhada na mesa. - Então não sabia o que era a pândega!
Falou imediatamente de si: tinha vivido em Lisboa, ele, com cavalos, com cadeira em S. Carlos, com carruagem!
No tempo em que Madame Ortza era uma beleza, e o Marrare era um céu! Que batidas para as Portas de Algés, que orgias com a Contadini!
- Comi tudo, mas regalei-me! - disse, dando um puxão aos bigodes. Fora um príncipe (p. 878).

Estas duas passagens, que recortam Lisboa a partir de uma nova perspectiva, se aproximam pelo significado de suas imagens mundanas e atualizam uma outra dimensão erótica da cidade. À Capital, refinada e romanticamente idealizada dos romances franceses, acrescenta-se agora uma Lisboa habitada por espanholas e cancanistas propícias a pândegas e a orgias variadas.

Artur amplia o seu mapa fantasmagórico da Capital e, com ele, parte para Lisboa.
Levado por Eça, de Oliveira de Azeméis a Lisboa, Artur tenta pertencer à Capital, esse mundo misterioso e fascinante, povoado de imagens contraditórias, cuja representação fabulosa do desconhecido pode ser sintetizada na expressão "a ilegibilidade da cidade".

Arguto leitor de cidades, o Autor de A Capital não desconhece este intrínseco atributo das cidades - a ilegibilidade. Sabe que Lisboa, como todas as cidades, é de difícil leitura, porque sabe também que toda a cidade, antes de tudo, é marcada pela multiplicidade. A cidade possui variados ritmos e o sujeito ao percorrê-la passa a confrontar-se com "a invasora angústia de que tudo pode acontecer". Espaço do "infinitamente perdido", a cidade resulta, assim, nessa "fantástica acumulação de todos os possíveis".
Os primeiros momentos de Artur em Lisboa revelam essa angústia:

Artur encolheu os ombros, furioso. De resto, observando os homens na rua, já pensara que o seu fato de Oliveira era mal talhado e provinciano: por isso só saiu à noite, depois de aceso o gás.

Com que deleite pisou enfim as lajes ainda úmidas dos passeios, respirou a friagem de inverno, o ar de Lisboa, que, depois do pesadume das ruazitas de Oliveira, lhe parecia ter a vitalidade oxigenada onde se dilatam as faculdades! Embasbacava para as vitrinas alumiadas das lojas; estacava, pasmando para os rostinhos pálidos das mulheres que passavam; voltava-se com admiração para seguir as carruagens de criados perfilados; e da claridade do gás, da vastidão das ruas, a multidão sussurrante, vinha-lhe como que uma sensação de atividades espalhadas, de paixões, de grandezas vagas que o perturbava: era como se a atmosfera estivesse saturada das emanações de uma vida rica, sábia, idealizadora e ardente! Mas sentia-se acanhado: apesar de apetecer prodigiosamente uma gravata azul que viu num mostrador, não ousou entrar na loja; o trotar das parelhas entontecia-o; o andar desenvolto dos homens, falando alto, dava-lhe um medo pueril de agressões; tinha vergonha do seu velho paletó, mais curto que as abas da sobrecasaca que trazia; sentiu-se mesmo agradecido a um sujeito que lhe pediu lume, cortesmente, como se recebesse dele um ato de benevolência. O homem, depois de acender o charuto, disse para outro que esperava, assobiando:


- Para o Martinho, hem?
E Artur foi-os seguindo timidamente, ansioso por ver o Martinho! Pareceu-lhe esplêndido, com a acumulação dos chapéus altos entre os espelhos dourados, sob uma névoa de fumo de tabaco, no bruaá contínuo das conversas. Não se atreveu a entrar. À porta um grupo palrava, e Artur contemplava-o de longe, com devoção, pensando que deviam ser poetas e estadistas... Subiu-lhe então de repente ao cérebro um vapor excitante de emanações intelectuais: teve pressa de entrar naquela existência - relacionar-se, regalar-se das discussões sobre Arte e Ideal, ser também de Lisboa! (p. 912).

Artur quer pertencer a Lisboa, entender a cidade e possuí-la:

Foi então descendo ao acaso o Moinho de Vento, e ao passar por S. Pedro de Alcântara, penetrou sob as árvores e foi encostar-se às grades. A cidade cavava-se em baixo, no vale escuro, picado dos pontos de luz das janelas iluminadas, e, na escuridão, os telhados, os edifícios, faziam um empastamento de sombras mais densas. Aquelas luzes, debaixo daqueles tetos, que fermentação de vida! Quantos amores, quantos mistérios, crimes talvez! Ali, jornalistas compunham artigos, oradores preparavam discursos, estadistas conferenciavam, mulheres aristocráticas, nas suas salas, falavam de amores, e, nos pianos ricos, gemiam as cavatinas apaixonadas. Que grande, Lisboa! (p. 913).

Mas como entender esse labirinto?

Uma cidade ajuda a ler a outra, o que é preciso é possuir um código que nos ajude a recortar e recolher imagens para engendrar a sua legibilidade. Um mapa pode ser um primeiro caminho, mas o mapa é mais uma representação simbólica da cidade, é um recorte de superfície, não coincide com ela. É apenas uma de suas linguagens. Eça não desconhece essa restrição porque sabe que para ler uma cidade é necessário trabalhar com a sua sintaxe, transitar em sua rede de sentidos.

Mas a Lisboa que vamos encontrar em A Capital não é uma cidade articulada apenas pela leitura do autor. O itinerário é mais complexo, já que construído por leituras em cruzamento. Existe a Lisboa lida e escrita por Eça e existe, em contraponto, a leitura que Artur faz da cidade. Elas não são coincidentes porque cada olhar demanda um certo tipo de legibilidade.

A Lisboa de Eça, de certo modo, está sintetizada na nota de apresentação: "Pinturas um pouco cruéis da vida literária em Lisboa". A passagem abaixo pode servir de amostragem:

Tinha-se servido o café e uma vozearia erguia-se no fumo alvadio dos charutos. Com os cotovelos na mesa, em atitudes pesadas de fartura, sujeitos falavam com intimidade; ao fundo da sala, numa altercação áspera, um indivíduo de lunetas gritava, perguntando se o tomavam por tolo; um homem de pele corada, enfartado, arrotava tranqüilamente; o Padilhão queimava conhaque no café, e o Melchior, excitado, discutia com o visconde, com palavras muito cruas, as pernas da Vizenti, a primeira dançarina de S. Carlos (p. 930).


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Fonte:
Izabel Margato (PUC-Rio): “A (i)legibilidade de Lisboa n'a Capital de Eça de Queirós”, publicado em: http://www.letras.puc-rio.br

25/12/2013

Artigos Diversos, por Eça de Queirós

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S. Frei Gil, de Eça de Queirós

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Santo Onofre, de Eça de Queirós

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Cartas Familiares e Bilhetes de Paris, de Eça de Queirós

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Ecos de Paris, de Eça de Queirós

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Ecos de Paris por Eça de Queiroz

Estes textos, de 1892 a 1894, compõem a obra Ecos de Paris, publicada em 1905. A referida obra contém a maioria dos textos de imprensa enviados por Eça de Queirós, de Paris ao Brasil (1880 a 1897) para a Gazeta de Notícias, do Rio de Janeiro, os quais foram copilados e publicados por Luiz de Magalhães. Embora o interesse por essa publicação tenha surgido a partir do acesso à obra acima citada, utilizou-se, para compor o corpus deste trabalho, os textos publicados na obra Edição Crítica da Gazeta de Notícias, de Elza Miné e Neuma Cavalcante (2002).

O critério de escolha do corpus teve como base os textos de imprensa cujo conteúdo remete a fatos históricos e sociopolíticos que repercutiram na França, nos anos de 1892 a 1894. Estes textos revelam, como já dito, o Eça jornalista, tão crítico e polêmico quanto o Eça ficcionista e, principalmente, as astúcias de enunciação e estratégias discursivas que exemplificam o objetivo deste trabalho: demonstrar a imbricação entre os gêneros jornalístico e literário.

O comentário de Carlos Reis, na apresentação da Edição Crítica da Gazeta de Notícias (2002, p. 4) corrobora o critério de recorte do corpus da pesquisa, que será objeto de estudo no Capítulo 4 desta tese.

[...] Seja como for, os textos de imprensa queirosianos – os que agora se publicam e o mais que escreveu – constituem um “corpus” inegavelmente importante para entendermos aspectos fundamentais da obra de Eça, mesmo nas relações com a obra ficcional propriamente dita.

Para realizar a análise do corpus e atingir os objetivos deste trabalho, foram resgatados conceitos teóricos de assuntos que subsidiaram e deram validade às afirmações aqui elencadas.

O apoio teórico que sustenta esta tese fundamentou-se, sobretudo, nos princípios da teoria bakhtiniana. Segundo Bakhtin, (1986, p. 16) “[...] toda enunciação emerge de um contexto social, no qual o indivíduo está inserido e justifica, assim, sua visão de mundo. É o horizonte social do indivíduo que plasma sua produção textual”.

Nessa perspectiva de reflexão, pode-se afirmar que o trabalho de Eça de Queirós tem como intenção unir o que há no texto com a malha da contextualidade. Analisar esta simbiose entre fatos históricos, ideologia e formas de expressão e contexto é um dos aspectos deste trabalho.


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Fonte:
Édima de Souza Mattos: “Literatura e Jornalismo em Eça de Queirós / Ecos de Paris / Gazeta de Notícias -1892/1894”. (Tese apresentada à Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP – Universidade Estadual Paulista para a obtenção do título de Doutor em Letras (Área de Conhecimento: Literatura e Vida Social). Orientadora: Dra. Rosane Gazolla Alves Feitosa). Assis, 2011

24/12/2013

Cartas de Inglaterra, de Eça de Queirós

 Eca de Queiros - Cartas de Inglaterra - Iba Mendes
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Cartas de Inglaterra

A 24 de Julho de 1880 a Gazeta de Notícias anuncia aos leitores a colaboração de Eça através de correspondência, que viria a ser coligida neste volume denominado As Cartas de Inglaterra. A colaboração com este jornal mantém-se durante dezesseis anos, sendo a primeira carta publicada na mesma data em que foi anunciada a colaboração.

Estas possuem uma feição mais ensaísta e menos noticiosa, ancorando-se num fato único ou aspecto da realidade. Podem focar diversos aspectos da vida inglesa ou terem um cunho mais nitidamente político, como as que fazem uma crítica severa ao imperialismo.

As fontes que Eça utiliza nesta colaboração com este jornal do Rio de Janeiro são, principalmente, os jornais: Times, Standard, jornais com um pendor mais conservador, e o Spectator, um pouco mais "liberal". A utilização destes jornais é feita em duas direções:

um percurso que parte do fato ou da notícia apreendida na fonte inglesa, depois seguindo um processo de consideração crítica. Utilização mais usual no artigo político, contendo as unidades informativa, reativa e deliberativa em que Eça exerce uma atividade de decifração das informações e opiniões. Há o que se pode denominar de "jogo meta-narrativo" em a relação entre o narrador e a fonte de informação é estreita. As informações são detectadas e referenciadas à realidade. Depois, opõe-nas, compara-as, aproxima-as, expressando a sua tendência e o seu texto através da sua interpretação, seleção e avaliação.

Utilização como mero ponto de partida, espraiando-se depois em relatos em que se podem fazer depois presentes algumas feições típicas da narrativa de ficção. Aqui denota-se a presença da sua atividade enquanto escritor, pela delineação de certos tipos humanos e pela criação imaginativa da cena.

Continua a verificar-se uma abordagem crítica em relação ao posicionamento dos jornais que lhe servem de fonte para a elaboração da correspondência.

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Fonte:
http://www.citi.pt/

Prosas Bárbaras, de Eça de Queirós

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O Eça de Prosas Bárbaras

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De acordo com Saraiva, para o Eça das Prosas bárbaras a Consciência traria apenas indisposição. É por isso que somente com a morte, com o corpo humano voltando a terra, que toda a paz, o sossego e o descanso são presenteados ao ser humano: “Para Eça a alma e a Natureza, isto é, o Consciente e o Inconsciente constituem uma dualidade e opõem-se como o Mal e o Bem”.

“Os mortos”, um dos textos encontrados nas Prosas bárbaras, pode ser tido como exemplo desse pensamento. A ideia da morte como pacificadora e condutora à comunhão plena com a Natureza é amplamente veiculada. O texto inicia com uma contextualização temporal: “Ontem foi o dia dos mortos” e logo afirma o principal mote que percorrerá toda a narrativa do início ao fim: “Os mortos são felizes”.

É relatado o sofrimento vão daqueles que ainda vivem e que julgam que com a morte tudo acaba, pois, justamente com a vida que o homem é infeliz, constantemente sofrendo agruras: “a sua carne sofreu, empalideceu com os medos, emagreceu com as febres, engelhou-se com os frios”. Quando há o falecimento, a vida renasce com a Natureza “mas agora (sua carne) anda, repousada e sã, pelas frescas vegetações, pelos frutos coloridos, na luz selvagem e vital do sol, nos átomos da noite constelada e suave”. Portanto:

(...) os mortos são felizes, porque andam longe da forma humana, onde há o mal, pela grande natureza Santa, onde há o bem, na pureza, na serenidade, na fecundidade, na força. Bem aventurados os que vão para debaixo do chão, porque vão para uma transfiguração sagrada. De fato Eça soube exprimir de forma exemplar, nesta literatura inicial, os princípios “humanitários” lembrados constantemente por Saraiva. Em todos os textos “fantásticos” das Prosas bárbaras temos um Homem que se demonstra derivado da Natureza, dependente de uma força inexplicável e misteriosa. O Homem por si próprio parece estar afastado dessa força, e a causa para este afastamento é a própria vida, a alma.

Para Saraiva é neste ponto que o pensamento do jovem Eça destoa completamente do que diriam Victor Hugo, Michelet ou Antero de Quental, alguns daqueles que teriam sido referência para o escritor neste sentido, pois, para esses, o bem é a plenitude da Consciência, para a qual tende toda natureza e toda história num esforço incessante. Já para Eça não haveria oposição entre a Natureza e o Homem, o que fazia o autor propor, como alternativa ao panteísmo evolucionista de suas referências, um vago naturalismo. Saraiva explicita que isso não constituía uma contraposição, simplesmente Eça não teria conhecido a fundo as proposições dos idealizadores da referida teoria em que Antero de Quental tanto se apoiou.
[...]



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Fonte:
Antonio Augusto Nery: “Eça de Queirós por António José Saraiva: Ideias E Ideais”, publicado em www.revistas.usp.br

São Cristovão, de Eça de Queirós

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"S. Cristóvão" de Eça de Queirós

A história de Cristóvão principia quando um lenhador, servo de um Senhor de Castelo, vê-se inesperadamente diante de um mensageiro celeste, que lhe anuncia o nascimento de um filho que seria santo. Cristóvão, contra todas as expectativas paternas, nasce anormal. O filho do lenhador era um monstro!

«Escuro, coberto de uma pele rugosa e áspera; com uma face vaga, informe, onde as feições faziam como vagas protuberâncias nodosas; as mãos enormes enclavinhadas sobre c ventre felpudo; torto das pernas, que findavam cm dois pés agudos, como os de um fauno, todo ele parecia uma raiz sombria, / . . . / . Era como o rudimento de um ser vegetal!»

Durante três dias e três noites não dá sinal de sobrevivência. Eis, porém, que a criança se move e principia seu extraordinário crescer, caminhando sua monstruosidade para formas de um corpo grosseiro, sim, mas humano. Maravilhados, os pais assistem ao invulgar desenvolver de força e de formas de Cristóvão. E no entanto, já crescido, o menino não falava. Então, todas as esperanças paternas diante da primeira robustez do filho esboroam-se e a alegria muda-se em dor, porque, além de disforme, o filho era imbecil... Até que uma noite, em que a mãe, ralada pelo desgosto da mudez da criança, estava para morrer, Cristóvão, subitamente falou:

«Ó mãezinha, mãezinha, não durmas!»

Soltas as primeiras palavras de sofrimento e amor, começa Cristóvão a espontaneamente auxiliar o pai nas mais rudes tarefas, órfão de mãe, Cristóvão breve fica órfão de pai, e livre dos sentimentos que o prendiam aos homens, regressa à Natureza. Durante todo um ano vive, solitário, na serra: « E pouco a pouco, naquela solidão, longe de toda a vida humana, ele quase perdeu a sua humanidade, e foi como um pedaço da montanha que o cercava.»

Um dia, ao avistar um grupo de homens Cristóvão sente o desejo de estar novamente com os outros homens, e tomado de uma ânsia imensa de ajudar a todos, desce a serra. Breve, passa a trabalhar num convento e sobre ele recaía todo o serviço da comunidade. Toma conhecimento, através de iluminuras que um jovem lhe explica, da vida e dos ensinamentos de Jesus, vertendo sentidas lágrimas diante da morte do Salvador. Lamentando-se de ter conhecido a Jesus tão tarde, chorava "por todos os que, morto Ele, perdiam o amigo melhor dos homens." Chorando sempre, Cristóvão põe-se a caminhar até chegar à aldeia. Ali torna-se o servo de todos. As portas do convento nunca mais as transpôs,

«porque lá habitam a paz, a abundância, o celeiro está cheio de trigo, a adega cheia de vinho, uma grande alegria e orgulho reinam nos corações, — e para lá não iriam decerto os passos de Jesus, nem os seus a seguir o seu Senhor.»

Mas fora do convento havia necessitados, infelizes, que precisavam da força de seus braços. E Cristóvão se torna omnipresente para que ninguém fique sem sua ajuda. O guaridão do convento, porém, não perdoava a Cristóvão o ter abandonado os serviços da Ordem, e os frades, sempre que pregavam, não deixavam de insinuar que os gigantes tinham pacto com o diabo. Tendo um temporal arrasado a aldeia, todo o mal foi atribuído à presença de Cristóvão, e a multidão liderada pelos frades clamou contra êle insultos. Tomado de aflição e espanto, viu o bom gigante virem contra êle aqueles mesmos a quem servira com mais carinho!

Cristóvão, vendo que ninguém mais o queria, deixa para sempre os lugares onde nascera, e caminhando longos dias, chega a uma cidade onde grassava a peste. Sua popularidade suscita os ciúmes do Senhor da cidade, que o manda prender com correntes de ferro. Livrando-se das mesmas, dirige o gigante os passos para caminhos diversos até chegar ao sopé de uma montanha, habitada por eremitas. Não tarda a ver que também ali Deus não estava porque havia orgulho e da imobilidade contempladora dos eremitas "não saía nenhum bem, nada que aquecesse o coração." E Cristóvão, triste, sentia saudade de "outros homens mais humanos, e do riso das crianças." E numa tarde abandona para sempre a montanha, errando por terras desertas e por lugares assolados pela guerra. Numa aldeia, junto de um calvário, vê gente reunida em volta de um frade que, clamando pela justiça de Deus, acusava os barões de correrem as terras e tudo destruírem para adestrar os soldados. Depara depois uma multidão de cavadores a trabalhar duramente a terra. Compugido, Cristóvão procura aliviar o trabalho dos cavadores e o sofrimento das crianças, repartindo com elas o pão que lhe cabia. Assiste depois à missa negra oficiada na floresta, mas também ali não pára porque

«Aquela gente clamorosa não era amiga do Senhor. Perdidas estavam as suas almas.»

E Cristóvão pôs-se novamente a caminho até chegar a um castelo feudal onde se torna o brinquedo, logo esquecido, ao sabor dos caprichos do pequeno Senhor, e passa a visitar as moradias dos servos, onde ouve os velhos contarem histórias de violências e crueldades. Recolhendo ao castelo, "todas aquelas torres, aquelas muralhas lhe pareciam de um aspecto cruel e hostil ao pobre." E acaba por unir-se aos Jacques, seguindo-os de castelo a castelo, sendo para eles como um pai a mendigar com os filhos pelos caminhos. Dia e noite ele mantinha a ordem na turba:

«Não permitia que despojassem as árvores dos frutos, que se tomasse o gado nas pastagens. Só era aceite o que a caridade dava. Se encontrava mendigos, histriões famintos, gritava com um grande gesto: «Vinde também.»

Assim vagueavam, quando uma tarde, junto a uma lagoa, os Jacques se defrontam com um grupo de cavaleiros, armas em riste. A batalha é árdua. Os cadáveres dos infelizes cobrem a planície. Finda

«a grande marcha, que levava aos castelos e abadias a visão estranha das grandes misérias da terra,»

Cristóvão passa outra vez a percorrer longas terras. Ora, um dia, ao sair de uma cidade encontra um  histrião, de cuja miséria se compadece e por proposta própria, a troco do pão e da metade do ganho, passa a mostrar-se numa feira, numa barraca, à curiosidade indiscreta da turba.

Finda a feira, de novo Cristóvão correu o mundo. Mas os anos tinham passado e ele era "mais velho que os mais velhos carvalhos." Contudo, ainda tinha forças para servir. Do S. Cristóvão salta-nos de imediato à vista a estreita relação entre a Natureza e a personagem central. Mais do que estreita relação: comunhão, irmanação. Cristóvão é a integração do homem à Natureza. Quando ele está para nascer, os pais acordam de manhã

«a um grande canto de pássaros, tão alegre e ruidoso como se todas as cotovias e melros da floresta estivessem celebrando uma festa sobre o colmo da sua cabana: e em torno ao catre flutuava estranhamente um fresco cheiro de verduras e flores novas»,

e tudo vibra, os sinos repicam festivamente, o céu ostenta desusada alegria e os pinheiros, movendo as altas ramas, parecem cantar na hora do nascimento de Cristóvão. O próprio lenhador toma, pela  primeira vez, consciência da beleza de tudo quanto cerca os caminhos dele tão familiares, beleza que antes nunca percebera. Mas começa a mover-se prefere Cristóvão a terra ao próprio leito. Era-lhe o elemento natural:

« . . . r o l a v a para fora do mantéu, procurando a terra quente e mole, onde se estendia, se dilatava com delícia, como num ele mento preferido, sorrindo quieto, num sorriso mudo, que deixava já transparecer o brilho de um dente.»

Ainda infante, acorda para o amor da Natureza, aproximando-se esta dele carinhosamente a fim de participar de sua existência. O correr do tempo não faz senão aumentar- lhe o afeto pela mesma, e campos e florestas tornam-se cada vez mais íntimos, neles passando os dias entre os retiros mais densos, "vegetando na doçura infinita de sentir os seus longos cabelos emaranhados nas folhas." A vida de Cristóvão é um enternecido e sempre mais vivo convívio com a Natureza. O coração cada dia se lhe enche de maior ternura para com os animais, as árvores, o firmamento, o universo todo. Vê-lo-emos nos últimos dias de sua existência compadecer-se de um ramo seco, desviar-se do caminho para não pisar a relva, e fazer com o seu corpo sombra às rochas para que o sol não as fira...

Essa viva irmanação com a Natureza constitui, ao lado da grande ternura de Cristóvão para com as crianças e a presença do Menino Jesus, um dos traços mais nítidos da filiação eciana com o Franciscanismo.


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Fonte:
Luiz Piva, publicado em: http://www.abralic.org.br (Associação Brasileira de Literatura Comparada)