Mostrando postagens com marcador História do Brasil. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador História do Brasil. Mostrar todas as postagens

29/05/2016

A Abolição, de Osório Duque Estrada

Para baixar o livro gratuitamente, clique na imagem e selecione-o em: 
↓
---
Disponível provisoriamente em "Google Drive", no link abaixo:
↓



---

História triste

De tudo quanto se escreveu sobre a personalidade de Luís Gama, nada é tão comovente nem tão significativo como a sua própria história, narrada nas seguintes linhas, escritas por Lúcio de Mendonça, um ano antes da morte daquele grande abolicionista:

“Nasceu Luís Gonzaga Pinto da Gama na cidade de São Salvador da Bahia, à rua do Bangla, em 21 de junho de 1830, pelas sete horas da manhã, e foi batizado oito anos depois, na igreja matriz do Sacramento, na cidade de Itaparica.

É filho natural de uma negra, africana livre da costa de Mina, da nação Nagô, de nome Luísa Mahen, pagã; recusou esta sempre batizar-se e de modo algum converter-se ao cristianismo.

Era mulher de estatura baixa, magra, bonita, de um preto retinto e sem lustro; tinha os dentes alvíssimos; era imperiosa, de gênio violento, insofrida e vingativa. Mais de uma vez, na Bahia, foi presa, por suspeita de se envolver em planos de insurreições de escravos, que não tiveram efeito.

Em 1837, depois da revolução do Dr. Sabino, naquela província, veio ao Rio de Janeiro e nunca mais voltou.

Procurou-a o filho em 1847, em 1856 e em 1861, na Corte, sem que a pudesse encontrar. Em 1862 soube por uns pretos minas, que a conheciam e dela deram sinais certos, que, apanhada com alguns desordeiros em uma casa de dar fortuna, fora posta em prisão, e que tanto ela como os companheiros desapareceram. Era opinião dos informantes que os amotinados houvessem sido deportados pelo governo, que nesse tempo tratava rigorosamente os africanos livres, tidos como provocadores. Nada mais até hoje pôde Luís alcançar a respeito de sua mãe.

Naquele mesmo ano de 1861, voltando a S. Paulo e estando em comissão do governo, na então vila de Caçapava, consagrou à mãe perdida os saudosos versos que se leem, como nota de um sentimentalismo dissonante, no risonho livro das Trovas Burlescas, que deu a lume, com o pseudônimo de Getulino.

Vê-se que é hereditário em Luís Gama o profundo sentimento de insurreição e liberdade.

Abençoado sejas, nobre ventre africano, que deste ao mundo um filho predestinado em que transfundiste, com o teu sangue selvagem, a energia indômita que havia de libertar centenas de cativos!

O pai de Luís – outra analogia deste com Spartacus – era nobre, fidalgo, de uma das principais famílias baianas, de origem portuguesa.

Foi rico, e, nesse tempo, extremoso para o filho: criou-o nos braços.

Foi revolucionário em 1837. Era apaixonado pela pesca e pela caça; gostava dos bons cavalos; comprazia-se em folguedos e orgias; esbanjou uma herança, havida de uma tia, em 1836.

Reduzido a pobreza extrema, em 10 de novembro de 1840, em companhia de Luís E. Quintela, seu amigo inseparável, que vivia dos proventos de uma casa de tavolagem na Bahia, vendeu o filho como escravo, a bordo do patacho Saraiva.

A respeito dessa venda há uma cena, que deixa ver, por um lado, o caráter corrupto de um pai, e por outro, a energia do filho vencido.

Às 5 horas da tarde, o pai de Luís Gama mandara Luísa Mahen vestir o filho, dizendo que ia dar um passeio. Chegando ao cais, chamou um bote e declarou que preferia um passeio marítimo, visto que aproveitaria a ocasião para falar ao comandante do patacho Saraiva, com quem tinha uma questão a ultimar.

Dirigiram-se para o patacho e, chegados ao tombadilho, o pai deixou a criança de parte e esteve por longo tempo a conversar com o comandante.

Terminada a conversa, foi se retirando sorrateiramente, para assim escapar às vistas do filho; mas este, sempre vivo e esperto, quando viu o pai afastar-se e entrar no bote, dando ordem para este partir, perguntou da escada:

– Então, meu pai, não me leva consigo?

Ao que ele respondeu:

– Não, porque me esqueci de alguma coisa em terra; voltarei breve, e então iremos juntos.

Foi então que o jovem Luís desceu mais alguns degraus da escada, aproximou-se do bote, que já se afastava, e exclamou:

– Meu pai! O senhor me vendeu!

O velho olhou-o por algum tempo; os olhos se lhe encheram de lágrimas, e deu ordem aos remadores que tocassem para terra.


Não sei se o desgraçado ainda vive, nem lhe conheço o nome, que Luís oculta, generoso, aos seus mais íntimos amigos; mas, ainda que jogador e fidalgo, a recordação da monstruosa infâmia deve ter-lhe esbofeteado, em todo o resto de seus dias, a velhice desonrada.”


[Trecho do livro]

26/05/2016

Advento da Ditadura Militar no Brasil: 1891, de Visconde de Ouro Preto

Para baixar o livro gratuitamente, clique na imagem e selecione-o em: 
↓
---
Disponível provisoriamente em "Google Drive", no link abaixo:
↓


---

Afonso Celso: uma personalidade parlamentar

O sr. visconde de Ouro Preto é um cavalheiro amabilíssimo e, como não ignoram os que conhecem a política do Brasil, foi um dos estadistas mais influentes do Imperio. Physicamente é um homem dos seus cincoenta annos, alto, ligeiramente trigueiro, suissas e bigodes brancos. O seu trato é ao mesmo tempo affavel e nobre as suas maneiras distinctas.

 (O TEMPO, jornal de Lisboa, 15 de dezembro de 1889)

Filho de João Antônio Afonso e de D. Maria Madalena de Figueiredo, Afonso Celso de Assis Figueiredo (Ouro Preto, 21 de fevereiro de 1836 – Petrópolis, 21 de fevereiro de 1912) concluiu os estudos primários e secundários na cidade natal e matriculou-se na Faculdade de Direito de São Paulo, onde colou grau de bacharel, em fins de 1858. Fixou-se algum tempo na capital da província como secretário da Polícia de Minas, onde permaneceu até 1864, quando se elegeu deputado à Assembleia-Geral tendo, porém, curto exercício na Câmara. Seu curto exercício deveu-se à convocação, em 1866, para o Ministério da Marinha, no Gabinete de 3 de Agosto, presidido por Zacarias de Góis e Vasconcelos. Nesse momento, vivia o país uma penosa guerra contra Solano Lopez – ditador paraguaio. Era a Guerra do Paraguai, ocorrida entre o Paraguai e a Tríplice Aliança (Brasil, Argentina e Uruguai), durante os anos de 1864 e 1870.

Segundo Augusto de Lima Júnior (1966, p. 9-10), no panfleto Afonso Celso de Assis Figueiredo – ministro da marinha na hora amarga, “Tais eram a retidão de sua conduta, o seu amor ao estudo e o brilho de sua inteligência, que Teófilo Otoni o chamava de ‘Afonso Excelso’”. Em 13 de junho de 1888, recebeu o título de Visconde de Ouro Preto.

Atuou por quase trinta anos no parlamento brasileiro como deputado e senador do Império, sendo três vezes ministro: da Marinha, durante a Guerra do Paraguai; da Fazenda, em 1879; e do último ministério do Segundo Reinado – o Gabinete 7 de Junho de 1889. Nesse atuou como presidente a pedido de D. Pedro II. Entretanto, esse gabinete durou apenas cinco meses, pois no mesmo dia em que a República foi proclamada no Brasil o gabinete foi dissolvido, o Visconde foi preso e, em seguida, exilado para a Europa, com destino a Hamburgo, na Alemanha. Todas essas ações foram expedidas por ordem do Marechal Deodoro da Fonseca.

De acordo com Lima Júnior (1966), o Visconde de Ouro Preto pode ser considerado o representante da última geração da nobreza ouro-pretana. Outro dado interessante a seu respeito: o Visconde é o pai de Affonso Celso de Assis Figueiredo Júnior (Ouro Preto, 1860 – Rio de Janeiro, 1938) – o Conde de Ouro Preto. Entre dezembro de 1881 e 15 de novembro de 1889, o Conde de Ouro Preto exerceu a função de deputado ao parlamento como representante do então 20º Distrito Eleitoral de Minas Gerais. Portanto, governou quase oito anos e, como registro da vida política, deixou a obra Oito annos de Parlamento: reminiscências e notas, escrita em 1901. Apesar de ter tido, naquela conjuntura política, participação político-parlamentar menos densa que a do pai, foi eleito aos vinte e um anos de idade. Em suas palavras, quem lhe “[...] abriu as portas dessa carreira foi Visconde de Ouro Preto [...] devo-as a elle exclusivamente” (AFFONSO CELSO JÚNIOR, 1901, p. 16). Affonso Celso Júnior reconhecia a importância em ter sido apoiado pelo pai, pois se “[...] não fôra o amor paterno, sempre suspeito, – contrariar-se-há, – e tão cedo não conseguirieis a cadeira” (AFFONSO CELSO, 1901, p. 10)

Além do Parlamento, Affonso Celso Júnior atuou como professor, historiador, escritor; fundou o Jornal do Brasil, no qual colaborou por mais de trinta anos; foi membro fundador da Academia Brasileira de Letras e sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Note-se que sua atuação política, assim como a de seu pai, encerrou-se em 15 de novembro de 1889, dia da Proclamação da República. Affonso Celso Júnior foi considerado, pelos republicanos, um “[...] dos filhotes, característicos da corrupção monarchica.” (AFFONSO CELSO, 1901, p. 16) e, na época, foi considerado também pelo então Ministro da Fazenda Ruy Barboza abominável no Brasil tanto quanto o pai.

Vê-se, assim, que se trata de uma família ouro-pretana bastante representativa do cenário de fim de regime monárquico e primeira década do regime republicano.


---
Fonte:
NÁRLLEN DAYANE ADVÍNCULA MIGUEL: "DISCURSO E REPRESENTAÇÕES DA MEMÓRIA NO MANIFESTO O VISCONDE DE OURO PRETO AOS SEUS CONCIDADÃOS, DO VISCONDE DE OURO PRETO - 1891" (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos da Linguagem da Universidade Federal de Ouro Preto.Orientador: Dr. William Augusto Menezes). Mariana, 2014.
Nota:
A imagem inicial inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

03/08/2015

A República que a Revolução destruiu, de Sertório de Castro

Para baixar o livro, clique na imagem e selecione-o em: 
↓
http://www.projetolivrolivre.com/
---
Disponível também em "Minhateca", no link abaixo:
↓


---

Bailes revolucionários
“Baile na ilha Fiscal — Perdeu-se uma corrente de ouro com os hábitos do Cruzeiro e Rosa, e duas medalhas de campanha. Pede-se à pessoa que o achou o favor de entregar no escritório desta folha”.
Gente honesta, a daquele tempo! Nem ao menos vigorava ainda a prática, que no correr dos anos deveria tornar-se usual, de fazer acompanhar — ainda assim inutilmente — anúncios desta natureza da promessa de uma gratificação.
Dever-se-ia presumir, é certo, que entre os convivas de um baile como aquele, não haveria quem fosse capaz de achar uma jóia qualquer e guardá-la cautelosamente para si, forçando depois a polícia, em suas diligências para encontrá-la e restituí-la a seu dono, a fazer uma visita meticulosa a todas as casas de penhores da cidade...
Mas também — que diabo! — a gente que uns quarenta anos depois frequentava os bailes do Copacabana Palace Hotel e de outros grandes centros sociais não era menos honesta, nem menos distinta, e no entanto...
Não sei se a jóia foi restituída. Não havia, nas gazetas daquela época, uma seção consagrada a noticiários de natureza tão íntima, e para saber que do pescoço de um nobre do império, condecorado com as insígnias do Cruzeiro e da Rosa, havia-se desprendido aquela corrente preciosa cuja restituição tanto o inquietava, tive que pousar um olhar pesquisador na coleção amarelecida do “Jornal do Commercio” do mês de novembro de 1889.
Era do dia 12.
Os jornais velhos, que guardamos nas nossas gavetas e prateleiras, ou que buscamos um dia para satisfazer uma curiosidade ou avivar uma reminiscência, nos arquivos e nas bibliotecas, são como páginas de nossa própria existência que já viramos e ficam por aí, sofrendo como nós as pungentes transformações fisionômicas produzidas pela ação inexorável do tempo, para nos gritarem sempre, ainda que seja apenas aos nossos ouvidos, o número exato de anos que contamos...
Naquele ano eu aspirava o incenso das novenas e das missas conventuais, e inebriava-me com o aroma do rosmaninho que meus pés trituravam nas naves das igrejas de minha amada cidadezinha mineira, pelas festas da Semana Santa. Aprendia latim e vivia, lá longe, ardendo na tentação pertinaz que sobre meu espírito e sobre meus sonhos juvenis exercia o Rio de Janeiro, onde reinava S. M. o Imperador D. Pedro II.
Eu ainda não sabia bem o que era ser republicano. Tinha, no entanto, a idéia de que havia de ser alguma coisa de muito grave e de muito sério. Só não chegava a pensar que pudesse ser um crime porque meu pai era republicano. E eu, que bem lhe conhecia o caráter e a austeridade, não o reputava sequer capaz de poder ser um delinquente. Tinha paixão pela idéia. E lá havia, também, uma meia dúzia de homens respeitados e estimados por toda a população, que partilhavam do mesmo credo político.
E foi sob a influência daquele ambiente que eu comecei a cortar da “Revista Ilustrada” de Ângelo Agostini — a crônica caricatural mais interessante dos vultos e das coisas da política que já tem existido no Brasil — as figuras de republicanos como Quintino Bocaiúva, Saldanha Marinho, Rangel Pestana, Francisco Glicério, para as ir pregando nas paredes da oficina onde ele tinha sua pequena indústria. E todos aqueles republicanos da cidade que o iam visitar sempre, para com ele trocarem idéias e impressões, e comentar os artigos de Quintino no “Paiz” — único jornal que assinava e lia — deleitavam-se com a minha galeria. Punham os óculos diante dela, examinavam-na com interesse, comentavam-na, sorriam.
Eu completava aquela homenagem à idéia republicana e aos sentimentos do grupo de homens austeros da cidade — um dos quais tomava rapé, abrindo com uma pancada na mão espalmada uma boceta de ouro, e tirando do bolso traseiro da sobrecasaca um lenço de alcobaça para se assoar com estrépito — decorando pacientemente a longa e exaustiva poesia heróica “O cura Santa Cruz”, em que Gonçalves Crespo descreve com o mais intenso colorido a figura sinistra do implacável guerrilheiro carlista que incendiava a Navarra com os horrores da guerra, levando-lhe do sul ao norte “o ódio, a perseguição, o incêndio, o estrago, a morte”, e que um dia varou tranquilamente o crânio de um jovem soldado somente porque este, recusando-se a ajoelhar-se diante do pendão realista, e a secundá-lo no brado “— Viva el Rei!” que erguia diante de suas tropas, declarou-lhe resolutamente: “... ao teu rei não me curvo! Eu sou republicano!”
A arte da declamação ainda não era, sequer, uma vaga ameaça da calamidade social que deveria ser num futuro felizmente ainda muito distante. Estava ainda muito afastada a simples hipótese da aparição da Sra. Bertha Singerman — a mais contagiosa de quantas mulheres eu deveria conhecer um dia — no horizonte das artes artificiais.
Do que eu nunca perdi a memória, porém, foi do pungente momento em que tive de parar no meio do recitativo, com uma senhora gorda tocando a “Dalila” ao piano, e o salão em que eu fazia a ousada tentativa declamadora cheio de meninas da cidade... Eu havia esquecido o resto!
Chegou um dia à minha S. João d’El-Rei o propagandista audaz cujo nome enchia naquele tempo o Brasil. Acabava de praticar uma verdadeira façanha a que os jornais consagravam comentários variados. Sabendo que S. A. o conde d’Eu — o marido da princesa Izabel a quem se atribuía a prática de atos de pouca humanidade como despejar sem nenhuma tolerância os inquilinos dos cortiços de sua propriedade que não estivessem em dia com os aluguéis — estava para empreender uma viagem ao norte, tomou passagem no mesmo navio, e foi por aí afora, em sua companhia, num desafio insólito, pregando, em conferências que fizeram época, o ideal de que se constituíra apóstolo.
Silva Jardim deveria guardar, em toda sua agitada e dramática existência, motivos para nunca mais esquecer-se de sua visita à minha bela cidade, onde canta uma canção nostálgica um riozinho manso e cristalino, que rola num leito de areias brancas por baixo de duas pontes venerandas, e onde se erguem aqueles monumentos de arquitetura colonial que são as igrejas buriladas no granito pelo gênio do Aleijadinho.
É que a minha cidade, que sendo tão pequena encerra dentro de seu seio recordações tão grandes, perdeu naquele dia o governo de si mesma. Esqueceu, lamentavelmente, a tradição de sua encantadora hospitalidade, e não pensou que ia, com seu ato quase selvagem, comprometer gravemente a nomeada, que em toda Minas havia conquistado, de ser um de seus centros sociais mais interessantes, primando pelas boas maneiras, pela cordura e pela boa educação, e sendo, como era, além do mais, profundamente religiosa.
Ou seria esta última razão que a levou a proceder tão mal com seu hóspede, uma vez que a religião, as autoridades eclesiásticas, os padres em geral, combatiam com tenacidade a idéia republicana, procurando fortalecer com todo o seu apoio o trono contra o qual ela investia?
O padre João Manuel havia escandalizado a classe respeitável a que pertencia, lançando numa sessão da antiga Assembléia Geral, naqueles dias, sua ruidosa exclamação: “Abaixo a monarquia e viva a República!”
Silva Jardim não conseguiu realizar sua conferência em S. João d’El Rei. O hotel onde se hospedara — gênero de comércio que não fazia, naquele tempo, na minha querida cidade, a fortuna de ninguém, porque não o permitiam os excessos de sua hospitalidade, abrindo todas as suas casas aos visitantes que de outros lugares a buscavam — foi cercado por uma multidão exaltada que vaiava com estrépito o tribuno, num estranho concerto de assobios e latas vazias. Todas as portas e janelas haviam sido fechadas. Os vidros eram reduzidos a estilhaços pela chuva de projéteis que caía sobre a fachada do sobrado. Os republicanos que se achavam lá dentro, cercando o propagandista, sentiam a iminência de um ataque de consequências mais sérias, e nada podiam fazer para evitá-lo.
A exaltação, que chegara ao seu paroxismo, já havia sugerido à turba a idéia demoníaca de lançar fogo ao hotel. E já uns panos embebidos em querosene estavam sendo postos, para esse fim, junto à porta da entrada, quando um sacerdote varou resolutamente a multidão, e num gesto cheio de enérgica decisão anulou os preparativos do atentado selvagem. Era o padre João de Castro, um apóstolo, um justo, um bom, que durante toda sua existência, tão serena e tão calma, deveria entregar-se ao mister elevado de ensinar a juventude num colégio que era também um asilo, transmitindo-lhe seu saber, a soma de seus conhecimentos, a graça de seu espírito e as belezas de sua inteligência, sem outro interesse senão o de fazer o bem...
Evitou que o hotel fosse incendiado e conseguiu, com uma mediação suasória e cheia de autoridade, que Silva Jardim pudesse sair, na madrugada do dia seguinte, para ir tomar o trem em que deveria prosseguir em sua peregrinação corajosa, em sua missão de semeador do ideal democrático...
Mas como teria corrido aquele baile onde um fidalgo da corte, que era também, por certo, um bravo soldado que conquistara na campanha do Paraguai, contra o inimigo estrangeiro, as medalhas que faziam companhia às insígnias honoríficas daquelas duas ordens, perdeu tão preciosa jóia?
Fora num sábado — 9 de novembro. Três dias antes do anúncio.
O “Jornal do Commercio”, procurando satisfazer com uma profusão de minúcias digna de nota o interesse com que a sociedade deveria estar esperando a crônica do grande acontecimento, narrava em sua edição de segunda-feira o que fora o baile. E como a vaidade e o exibicionismo ainda não dominavam tanto naquele tempo, detinha-se muito mais o noticiário na descrição da ilha do que no registro de nomes ou nas indicações dos trajes com que compareceram ao baile as damas da aristocracia carioca. Também não é fácil afirmar, numa fiel reprodução histórica, se já estava em moda a prática de pedir convites para as festas daquela época...
O baile era uma homenagem do governo imperial à República do Chile. Estava ancorado no porto o encouraçado chileno “Cockrane”, e a grande demonstração visava seu comandante e oficialidade.
Reproduzamos a descrição da ilha Fiscal naquela noite festiva. Era de êxtase a impressão que produzia a vista daquele grande foco de luz. Destacava-se na baía a ilha fantástica, iluminada por milhares de luzes e fogos cambiantes, refletindo em vidros de variadíssimas cores, batida constantemente pelos jatos da luz elétrica projetada dos encouraçados “Cockrane”, “Riachuelo” e “Aquidaban”. Da torre do edifício fiscal um poderoso holofote projetava sobre o mar e em terra uma luz da intensidade de 60.000 velas. “Impossível descrever o mágico encanto que ofereciam a ilha, os encouraçados, as lanchas e botes sem conta com fachos iluminativos que coalhavam o mar e cruzavam em todas as direções”. A barca “Ferry”, que conduzia os convidados, estava garbosamente enfeitada e iluminada “a giorno”, o cais Pharoux repleto de povo. Tocava aí a banda de música do Corpo Policial do Rio de Janeiro em grande uniforme. Às 8 1/2 partia a “Primeira”, fazendo depois cinco viagens, e chegando à ilha Fiscal, na última, às 11 1/2. Havia conduzido cerca de quatro mil pessoas, número aumentado pelas que tinham ido em outras embarcações.
SS. MM. Imperiais dirigiram-se para a ilha na barca que partiu às 9 1/2, e SS. AA. a Sra. Condessa e o Sr. Conde d’Eu na seguinte, que deixou o cais pouco depois das 10 horas.
A ilha estava deslumbrante. “Em volta, número avultado de bandeiras chilenas e brasileiras em mastros e hastes, e nas janelas, portas do edifício, terraços, pátio, e dependência, número extraordinário de lanternas venezianas de variadíssimas cores e feitios. Em frente ao cais de desembarque destacava-se um lindo bosque”. Nunca se havia visto festa igual! Dançava-se em seis salas. As duas maiores eram forradas de tapetes encarnados, e estavam ornadas com bandeiras chilenas e brasileiras. As quatro menores estavam mais simplesmente ornadas, mas também com muito gosto. “Nelas havia festões, coroas, âncoras de flores e ornatos”. Todas as portas e janelas tinham preciosíssimas cortinas. A sala reservada à Família Imperial, “e em cujas portas havia amplas cortinas, estava ricamente mobiliada, luxuosamente ornada e profusamente iluminada”. “Havia no interior do edifício bem servido “bufet”. Todo o serviço de iluminação “a giorno” e elétrica foi muito bem feito pela casa Leon Rodde. Era superior a 10.000 o número de lampiões venezianos e copos de cores”. “Era avultadíssimo o número de senhoras, ostentando umas riquíssimas e luxuosas toilettes”. (Indicação de ordem geral que deveria inspirar as particularidades das crônicas futuras). O imperador — não o relata o jornal, mas convidados do festim — passeou durante muito tempo no salão, de um lado para outro, apresentando-lhe nessa ocasião o visconde de Ouro Preto os novos deputados, recentemente reconhecidos. Figurava entre estes, contando 27 anos de idade, o representante do Espírito Santo, Sr. Moniz Freire, que iniciava sua carreira política. Suas Majestades e Altezas retiraram-se pouco depois de meia-noite, “tendo penhorado os nossos hóspedes pela afabilidade e delicadeza com que os trataram”. S. A. o príncipe D. Pedro, que tinha ido com Suas Majestades — jovem e belo, como o mostravam as fotografias — demorou-se ainda algum tempo. “O cardápio era variadíssimo (o decano já não usava a palavra “menu”, preferindo o neologismo de Castro Lopes) e havia em profusão as mais delicadas iguarias”.
Ao servir-se o champagne, o visconde de Ouro Preto, presidente do Conselho, recordou os serviços prestados ao Brasil pelo almirante Cockrane, dirigindo-se depois “em termos os mais afetuosos” ao ministro e oficiais da nação amiga, “levantando um viva à República do Chile”. O comandante Bannem respondeu à saudação, “mostrando-se grato e reconhecido pelas gentilezas dispensadas”. Eram 6 horas da manhã quando se retiraram os últimos convidados da memorável festa, “impossível de descrever com minúcias pela sua invejável grandiosidade”. Foi seu organizador o barão de Sampaio Viana “que depois a entregou ao Sr. Comendador Hasselmann”.
Não registra o grande órgão que naquela mesma noite, enquanto a corte, o governo e a sociedade dançavam na ilha Fiscal, estavam reunidos secretamente no Club Militar os chefes e organizadores de uma outra grande festa — essa de natureza cívica — que seis dias depois deveria realizar-se no campo de Sant’Ana.
O baile terminara na madrugada de 10 de novembro. A l.° de novembro ocorria a revolução que substituía o império pela república.
9 de agosto de 1930. Baile no palácio Itamarati. Festa deslumbrante. Nenhum anúncio de jóia perdida no dia seguinte... Inauguravam-se as novas dependências, e o palácio da rua Marechal Floriano Peixoto apresentava aspectos empolgantes. Cerca de cinco mil convivas para ali se transportaram em automóveis de todas as marcas. Alguns até em táxis e em máquinas já fora da moda... Haviam sido impressos apenas dois mil convites, mas a necessidade de atender aos pedidos teve de elevar esse número para mais do dobro. À cerimônia da inauguração haviam comparecido, à tarde, S. Ex. o Sr. Washington Luís, presidente da República, ministros, altas autoridades, membros do corpo diplomático, deputados e senadores. Entre os convivas do baile achava-se um ancião de nobre aspecto, trazendo cruzado sobre a alvura do peitilho da camisa, um fitão vermelho e branco. Insígnia honorífica que ninguém procurou saber o que era. Admirável democracia que acolhia numa de suas festas — das mais brilhantes e suntuosas de quantas se realizaram nos últimos tempos no Rio de Janeiro — entre suas autoridades, e como hóspede do ministro das Relações Exteriores, o Sr. Otávio Mangabeira, o último dos netos do imperador deposto a 15 de novembro — o príncipe D. Pedro de Orleans e Bragança, cercado de todas as deferências a que tinha direito pelo seu passado e por sua antiga hierarquia.
S. A. demorou-se, dessa vez, muito mais do que no baile da ilha Fiscal, tendo-lhe sido reservado um lugar na mesa especial destinada às altas autoridades, em que pouco depois de l hora era servida a lauta ceia oficial no salão da Biblioteca, recentemente inaugurado. Para os outros convidados havia um profuso e bem servido “bufet”. Os jornais oposicionistas consagravam uma referência especial, na crônica desse baile, à abundância do champagne que ali se havia consumido.
Festa deslumbrante, também difícil de descrever! Nos inúmeros e amplos salões, decorados com requinte de gosto e de arte, correram animadas as danças até de madrugada.
Madrugada de 10 de agosto. Cinquenta e três dias depois, a 3 de outubro, o Rio Grande do Sul, Minas Gerais e a Paraíba do Norte, com seus governos, suas polícias militares, seus tesouros, e dizem que também com suas populações, desencadeavam no país a revolução que deveria destruir a República constitucional, depondo o Sr. Washington Luís, o regime da lei e a ordem jurídica dominantes...
Registremos, na crônica desses fatos, a influência, ou a simples coincidência desses dois bailes no destino.
Aqui, não é somente a história que se repete. São também os bailes. Bailes revolucionários!

[Capítulo do Livro]

27/06/2015

Capítulos de História Colonial, de Capistrano de Abreu

Para baixar o livro, clique na imagem e selecione-o em: 
↓
www.projetolivrolivre.com
---
Disponível também em "Minhateca", no link abaixo:
↓



---

Capistrano de Abreu e o Descobrimento do Brasil

A obra relativamente exígua de Capistrano de Abreu teve, com freqüência, dois livros valorizados, Capítulos de história colonial e Caminhos antigos e povoamento do Brasil. A razão para o fato parece-nos estar em que, além do valor intrínseco como sínteses dos anos formativos coloniais e frutos amadurecidos de sólida pesquisa e reflexão, deixam os demais trabalhos do autor para trás pela própria natureza destes: a tese sobre o descobrimento do Brasil é vista como obra de juventude, presa ao esquema spenceriano; os opúsculos sobre o descobrimento e o trabalho acerca das línguas indígenas são forçosamente mais restritos; e os artigos de jornal reunidos nos Ensaios e estudos, após a morte do autor, ressentem-se às vezes da fugacidade dos comentários e do pequeno desenvolvimento.

Se examinarmos as obras principais buscando o tema do descobrimento, constataremos que o assunto está ausente dos Caminhos, o que é perfeitamente lógico,1 e nos Capítulos de história colonial é tratado no terceiro capítulo, de um conjunto de onze, correspondendo a 15 páginas de um volume com 297, o que significa 5%.2 Se o tema for alargado para os antecedentes europeus e a disputa inicial pela terra, isto é, para o capítulo antecedente e o posterior, a conjuntura dos descobrimentos cresce para 31 páginas. O tema preferido de Capistrano, o sertão, foi tratado nesse livro em capítulos de 105 páginas, correspondente a pouco mais de um terço da obra.

Devemos concluir, por esses dados, que Capistrano de Abreu, após um breve entusiasmo de juventude, desinteressou-se do tema do descobrimento? Teria sobre ele, na maturidade, um juízo semelhante a aquelas conhecidas opiniões sobre as invasões holandesas e a conjuração mineira?

Para responder às duas perguntas, temos de repassar os textos nos quais o autor se refere ao descobrimento.

Em 1880, publicou um texto não referente de modo direto ao descobrimento, mas à sua conjuntura: O Brasil no século XVI: a armada de d. Nuno Manuel, quando defendeu o ponto de vista do comando desta personagem na expedição de 1501. Trabalho de juventude, mais tarde o autor reformularia conceitos nele emitidos, a partir do próprio comando da expedição. Esse trabalho e a tese foram as obras nas quais se baseou o relator Manuel Duarte Moreira de Azevedo para dar parecer favorável ao ingresso de Capistrano no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, em 14 de setembro de 1887.

Na tese apresentada em 1883 ao Imperial Colégio Pedro II, para a obtenção da cadeira de história do Brasil, o autor apresentou o trabalho Descobrimento do Brasil e seu desenvolvimento no século XVI. O assunto foi desenvolvido em pouco mais de oitenta páginas e compreendeu duas partes. Na primeira, foi tratado o descobrimento de 1500, sob o ângulo das pretensões francesas, espanholas e portuguesas. Na segunda, Capistrano continuou utilizando o conceito de descobrimento, estendendo-o para todo o século: “Descobrimento do Brasil no século XVI”. As duas partes possuem conclusões parciais.

Dezessete anos mais tarde, no contexto das comemorações do IV Centenário do Descobrimento, Capistrano publicaria mais dois trabalhos: “O descobrimento do Brasil pelos portugueses” foi publicado primeiro pelo Jornal do Comércio, na edição de 3 de maio de 1900, seguindo-se a edição em opúsculo, no mesmo ano, pela editora Laemmert. O outro texto, intitulado “O descobrimento do Brasil – povoamento do solo – evolução social”, foi concluído no Livro do centenário 1800-1900, publicado pela Associação do Quarto Centenário do Descobrimento do Brasil, entidade que fora fundada com o objetivo de centralizar as comemorações do evento.

Os dois trabalhos não se repetem. No primeiro, o autor descreveu e analisou a viagem de Cabral, as questões conexas (local da chegada, originalidade da carta de Caminha, a grafia da palavra Brasil) e as duas ‘correntes históricas’ das navegações, pelo litoral africano e no oeste.

O segundo texto de 1900 é mais abrangente, revelando a visão ampla do autor em relação aos antecedentes da expansão européia, quando remonta sua análise ao século XII. Levando em conta o estado da historiografia à época, a síntese de Capistrano era atualizada e muito superior ao que circulava no Brasil sobre o assunto, com exceção do então recém-lançado (também em 1900) compêndio de João Ribeiro, cuja filiação à Kulturgeschichte de Lamprecht explica a importância atribuída à sucessão de quadros conjunturais da baixa Idade Média.

No caso português, Capistrano trata da política do infante e de d. João II. Considera ainda os grupos indígenas existentes em 1500 e o papel que assumiria o Brasil nesse processo de expansão. Como na tese, organizou no texto as fontes para a história do descobrimento então disponíveis, trabalhando com as cartas de Caminha e do mestre João.

Em 1905, voltaria ao tema dos descobrimentos com dois artigos publicados na Revista Kosmos. Neles trata das controversas expedições de 1501 e 1503, descrevendo os acontecimentos com base nos documentos existentes e elaborando inferências fundadas no conhecimento dos portugueses sobre o tema. Nesses artigos, chamou a atenção para a exploração do litoral brasileiro daí por diante em duas vertentes, a da costa leste-oeste (Rio Grande do Norte ou Pará) e sudoeste (litoral do Rio Grande do Norte ao rio da Prata).

O último texto, de 1908, intitula-se “Vaz de Caminha e sua carta” e foi publicado na Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, saindo uma segunda edição no Livro de ouro do centenário da independência, em 1922.

O autor elabora seu estudo com o levantamento das edições da carta, os dados biográficos de Caminha, a descrição da estrutura da narrativa e a avaliação dos juízos nela contidos. Discute no texto, ainda, as dúvidas sobre a autenticidade do documento e sobre o acaso, referindo-se à carta de mestre João e ao controvertido trecho de Duarte Pacheco Pereira, no Esmeraldo de situ orbis, de 1906, de sua vinda ao Brasil em 1498, tema que já considerara na tese do Colégio Pedro II.


---
Fonte:
Arno Wehling (Professor titular da Uni-Rio e da UGF. Presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro). Acervo, Rio de Janeiro, v. 12, nº 1-2, p. 27-36, jan/dez 1999 - pág.29. Disponível em: www.revistaacervo.an.gov.br

21/06/2015

Goiás, de Visconde de Taunay

Para baixar o livro, clique na imagem e selecione-o em: 
↓
---
Disponível também em "Minhateca", no link abaixo:


---

Contexto crítico de Taunay

Contexto crítico de Taunay Emerge agora questionar: nos variados níveis de abordagem do complexo romântico, qual o valor e a função da obra de Alfredo Taunay?

Na falta de um contorno mais específico, querer definir/enquadrar a obra e o escritor em estilos específicos de época, não é a intenção deste estudo. Mas aqui, essa totalidade é gênese e explicação, pois equilibrar os dois aspectos produz o efeito de sentidos no leitor. No primeiro caso, abre perspectivas de diferentes leituras que, de alguma forma, combatem a limitação da experiência literária; no outro, desperta o desejo de penetrar particularidades das obras que libertam a sensibilidade e a visão de mundo.

Vimos que determinados componentes de origem, como vinculações de pensamentos remotos e contemporâneos ao escritor e as mudanças da sociedade, podem ser postos em situação de análise, tematizados e lidos ao lado das abordagens estéticas. Convém esclarecer, em vista disso, que é inevitável o apelo à cultura, para que se possa explicar relações de sentido, entre outros elementos significativos que fizeram parte do complexo histórico, como a viagem e a questão da natureza transformada em paisagem.

Posicionamos, no item anterior, sobre a diversidade de expressão e de interpretação do fenômeno romântico no mundo europeu, totalmente adaptado, no Brasil, a uma “fonte que verdadeiramente lhe pertencia” (DENIS, 1978, p. 36)20. A literatura assumia, assim, uma fisionomia própria, necessária ao momento da independência, feita sob o signo do Romantismo.

Aos traços maiores do contexto, agregaram-se as formas de expressão, que produziram diferentes sentidos, revelaram o homem sedento de liberdade, ansioso por reconquistas de valores e de territórios, para alargar o próprio espírito e dominar o futuro. Daí a figuração mítica da nação e do herói, elementos necessários à afirmação cultural.

Até aqui entendemos que o acordo entre a busca do sentido do nacional e a construção de emblemas configurativos dessa idéias de nação, está feito com a historiografia literária. No entanto, o cenário político transformou-se e, nos anos 50/60, do século XIX, com a extinção do tráfico dos negros, o Brasil entrou num período de crises no regime de governo e nas instituições que o sustentavam.

Alfredo Taunay, em plena Guerra da Tríplice Aliança, iniciou seu labor literário, impulsionado pela viagem, ou melhor dizendo, elaborou a matéria-prima maturada pelo exercício da observação. Já não vigoravam somente as atitudes do eu romântico incapaz de resolver os problemas das diferenças sociais, os suspiros poéticos, as saudades, os códigos clássicos, exacerbação religiosa, a criação idealizada do herói e da natureza, mas o “contato de uma cultura citadina e letrada com a matéria bruta do Brasil rural, provinciano e arcaico” (BOSI, 1988, p. 155).

Esse era o “verdadeiro” Brasil ou a necessidade de (trans)fusão do sentido nacional? O sentido que Taunay tentou imprimir pode ser visto, pelo alcance de sua obra, na explicação da existência de dois “brasis”: o da “face culta da metrópole carioca e das capitais de algumas Províncias; e outro, da face oculta, diferenciada”, mas não menos necessária ao projeto de integração nacional (ibidem).

Taunay construiu-se personagem da história política e literária brasileira por “germes de origem”. Um deles é o de paisagista, “inoculados desde o berço e reforçados [...] pelos espetáculos inolvidáveis dos múltiplos panoramas do Rio de Janeiro, [...] sob a indicação do dedo mestre do pai”; o outro é o de escritor, pela “ação poderosíssima de longas e custosíssimas viagens pelo grande oeste pátrio, por São Paulo, Minas, Goiás e Mato Grosso feitas [...] aos vinte e dois anos [...]” (ROMERO, 2002, p. 407). Duas pontas das lanças utilizadas pelo civilizador, no caso Taunay, colocam-se frente ao povo a ser civilizado no interior do Brasil. Na busca do outro, foi despertado para o talento e o gosto de escrever, aspectos que a crítica compreendeu de variadas formas, muitas vezes, em detrimento de algumas qualidades dignas de nota.

Um panorama histórico-literário pode dar conta do que se pretende explicar aqui.

Da participação ativa nas viagens e na vida pública brasileira do Segundo Reinado, Alfredo Taunay integrou uma lista de nomes que soma ao de Joaquim Nabuco 60 e André Rebouças, todos vinculados, de alguma forma, ao Imperador Pedro II. Conhecer o pensamento dessa época é conviver com uma parcela da forma como se pensava o Brasil, mesmo que Taunay (meio francês, meio brasileiro) possa significar uma espécie de contradição que, segundo Sílvio Romero (ibidem), parece intrínseca e fundamental para compreender a causa de suas lutas pela imigração e contra a escravidão.

Situando a prosa romântica, Nelson Werneck Sodré (1960, p. 298-9) diz que o “verdadeiro Brasil”, original, puro, seria o do interior, o do sertão, “imune às influência externas, conservando em estado natural os traços nacionais”. Não por acaso, o índio foi focalizado como emblema nacional e, posteriormente, não representando mais a totalidade de caráter dessa expressão, foi substituído, mesmo que não totalmente, pelo sertanejo, trabalhador da terra e em harmonia com o cenário natural, e também romântico, embora carregado de outros aspectos singulares.

No estudo sobre “três romancistas de costumes rurais”, Lúcia Miguel- Pereira (1952) defendeu a tese – para Afrânio Coutinho (1955) “duvidosa” – da supremacia dos costumes sertanejos sobre as personagens da obra Inocência. Para ela, o romance aponta “sérios defeitos de técnica, complexidade e mistério”, apesar de o escritor conseguir criar um “mundo próprio das personagens” (op. cit., p. 107 e 110).

Para Antonio Candido (1997), Alfredo Taunay é tido como “mediano” e ao mesmo tempo como um “caso raro na literatura do tempo, para a qual trouxe uma rica experiência de guerra e de sertão, depurada por sensibilidade e cultura nutridas de música e artes plásticas” (op. cit., vol. 2, p. 266 e 275). As opiniões, a respeito do conjunto da sua obra, não encontram muita guarida entre os críticos, incluindo os contemporâneos. Pressupõe-se que ocorre certo desconhecimento sobre a contribuição da obra de Alfredo Taunay para a anexação do conceito de interior brasileiro, com as descrições de cidades, campos, natureza e homem. Um exercício do olhar que tornou visível o espaço desconhecido, mas também marcou uma forma de apropriação, estabelecendo uma história que se fez pelo imaginário. Neste caso, o discurso da descoberta foi acentuado, posteriormente, pela elaboração das lembranças da guerra, da política imperial, da persona do Imperador e dos acontecimentos nacionais do Segundo Império.

O que Antonio Candido analisa como peculiaridade cultural, Sílvio Romero21 reconheceu, nas raízes do pensamento de Alfredo Taunay, como “sentimento de paisagem” que se sobreeleva mais que a imaginação, o vigor e a poesia, quando comparado a românticos como Alencar, julgamento que foi seguido por quase toda uma geração de críticos.

Com José Veríssimo22, a obra de Alfredo Taunay aparece como “fórmula” literária e “cópia” em que falta “coesão e intensidade que lhe dessem mais solidez e distinção”, o que, para Afrânio Coutinho (1955, p. 906), faz com que o escritor se perca “na descrição da natureza, nas anotações dos costumes e, talvez, na excessiva preocupação de fidelidade [...] do que resulta certa falta de unidade, certo desequilíbrio no tônus do romance”. Nesse aspecto, Olívio Montenegro (1953) coloca-se ao lado de Coutinho ao considerá-lo mais um homem de ciência do que puro escritor. Montenegro ressalta, ainda, o descritivismo, a “maníaca cor local” ou “os dois olhos de Narciso” do romance Inocência (p. 72-78).

Outros críticos não descem às minúcias dos anteriores e contentam-se em trazer a obra de Taunay, mesmo com as repetições que se sucedem, como representativa do “pitoresco da paisagem e da língua” (SODRÉ, 1960, p.301). Ronaldo de Carvalho (1937, p. 262) defende o artista como conhecedor da “justa medida das cousas”. Para ele, com Inocência, “começou o romance de amor a perder aquelle sainete puramente sentimental que lhe imprimira Macedo [...], desenhando as paixões com menos violência e as figuras com mais naturalidade do que era commum”. João Ribeiro (1952, p. 205) destaca alguns “traços novos” que compõem a fisionomia de Taunay, como as suas ligações com a Arte, o epos contido em A retirada da Laguna e a “suavidade de estilo” de Inocência.

A partir desses posicionamentos iniciais, a historiografia literária começa a visualizar outros aspectos da obra do escritor, reunindo ingredientes do contexto (aqui entendido como o conjunto das idéias e o diálogo entre textos). José Aderaldo Castello (s/d), lançando mão das Memórias do Visconde de Taunay (1946), demonstra como o escritor obteve elementos essenciais para a elaboração de Inocência e como esta obra está imbricada em outras, como Viagem de regresso e Céus e terras do Brasil (p. 47- 53). Numa pequena nota, em Presença da Literatura Brasileira (1976), Castello diz, em conjunto com Antonio Candido, que Taunay é, “sobretudo, visual, primando nas descrições; mesmo a sua narrativa, freqüentemente muito boa, se traduz em termos plásticos” (p. 79).

Vai-se, desta forma, afunilando uma visão menos formal de um regionalismo artificial, para se compreender os elementos constituidores do nacionalismo literário brasileiro que consistiu, basicamente, em “escrever sobre coisas locais” rumo a uma “intenção programática, a resolução patriótica de fazê-lo” (CANDIDO, 1997, p. 99). Não mais a obra isolada nas situações narrativas, mas as circunstâncias de sua realização. Não mais a “falha da visão” do condicionamento social, mas o cuidado com o “vínculo entre a obra e o ambiente, depois de termos chegado à conclusão de que a análise estética precede considerações de outra ordem”. Sem a dissociação das visões, há que “fundir texto e contexto numa interpretação dialeticamente íntegra, em que tanto o velho ponto de vista que explicava pelos fatores externos, quanto o outro, norteado pela convicção de que a estrutura é virtualmente independente, se combinam com momentos necessários do processo interpretativo” (CANDIDO, 2000, p. 3 e seguintes). Assim, compreender as condições sociais torna-se necessário para des-cobrir significados para construir outros olhares, desconstruindo e compondo singularidades.

Nessa vertente, a sociologia da literatura e o comparativismo tentam aproximações entre as obras, elaborando o objeto artístico, pela interpretação estética que assimilou a dimensão social como fator de arte (op. cit., p. 7).

Alceu Amoroso Lima (1948), em estudos sobre a contribuição à história do modernismo literário, coloca Alfredo Taunay e Euclides da Cunha no “balanço nacional”. Ambos militares, em épocas e operações de objetivos diversos, legaram “grandiosas sínteses de nossa nacionalidade”, apesar da impossibilidade de compará- los. De qualquer forma, se aquele nos deu “uma página imortal de dor e de heroísmo”, da nacionalidade, este “as mais poderosas, as mais profundas, as mais grandiosas sínteses de nossa nacionalidade em esboço”. Um a “tragédia da consciência”; outro, a “tragédia da terra” (p. 292).

Nesse aspecto, na perspectiva dos universos distintos do regional em Alencar e Taunay, José Maurício Gomes de Almeida (1981) privilegia um estudo minucioso sobre o sentido das epígrafes de Inocência, até então, em total desatenção crítica. Um artifício do narrador para “dialogar com a sua narrativa e, por via indireta, com o leitor”. Apesar das diferenças e da distância de trinta anos que os separam, a analogia das situações “trágicas” de páginas da história do Brasil está na facilidade de composição descritiva do regionalismo. Dessa forma, o regional deixa o “localismo redutor”, para o alcance de uma “estética global” (op. cit., p. 93-7). Ou seja, os sentidos percorrem o texto de dentro para fora e nas beiradas, no desejo de poder dizer em todos os quadrantes, inclusive nos universais.

Outros aspectos do potencial de universalidade contidos na narrativa de Alfredo Taunay chamam atenção. Massaud Moisés (1985) e Temístocles Linhares (1987) relevam a construção dos tipos nos romances do escritor. O primeiro fala no “equilíbrio dialético” da narrativa de Inocência e “da cosmovisão de Taunay (MOISÉS, op. cit., p. 281); o outro atesta a “contribuição nova” aos novos rumos do sertanismo brasileiro “não propriamente em favor de maior aproximação com a realidade, mas antes de mais rica e profunda imaginação na esfera criativa” (LINHARES, op. cit., p. 155). Wilson Martins (1977), meio que revertendo um antiga polêmica entre Taunay e Alencar23, sugere certa influência de Inocência sobre O Sertanejo, que “repete, no título, na paisagem, nos caracteres e na ação, a temática inaugurada por Taunay, com Inocência, e que, como já foi observado, permaneceria para sempre no foco central do nosso regionalismo” (p. 508).

Nesse vasto panorama crítico-historiográfico, Antonio Candido (1997) não se deixa levar pelas antigas cisões de estilos literários. Avaliando o horizonte da segunda metade do século XIX, inscreve a obra de Taunay no “nacionalismo literário”. Um escritor que, como poucos, efetuou “levantamento tão cabal do país [...], na ficção e no documentário, só fez descrever as suas cidades e campo, a natureza e o homem, preocupado em registrar, depor, interpretar” (p. 266). Assim, o regionalismo será visto como “programa e critério estético” que a “sensibilidade e o bom senso” de Taunay exprimiram (p. 267-282), o que diferencia o escritor de outros regionalistas. A combinação do estético e do pragmatismo da formação fundamenta o conjunto da obra e dimensiona as características da sua personalidade.



---
Fonte:
Olga Maria Castrillon-Mendes:
“Taunay viajante e a construção da imagética de Mato Grosso”. (Tese apresentada ao Curso de Letras do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas - Instituto de Estudos da Linguagem - como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Letras. Orientador Prof. Dr. Carlos Eduardo Ornellas Berriel). Campinas, 2007.

20/06/2015

A Campanha Abolicionista, de José do Patrocínio


Para baixar o livro, clique na imagem e selecione-o em: 
↓
---
Disponível também em "Minhateca", no link abaixo:
↓


---


José do Patrocínio, o proclamador civil de república

O que nos levou ao isabelismo foi o sentimento abolicionista nacional.

Acreditamos que a monarchia tinha rompido de uma vez com o escravismo, que nunca mais recorreria, para collaboradores de sua politica, aos remanescentes d`esse espólio da ignomia.

Tínhamos declarado que não haveria entre nós e estes impenitentes, criminosos do maior attentado contra a nossa patria, conciliação possível.

Para demostral-o, infligimo-nos a tortura moral do afasttamento de nosso partido, quando elle avolumou-se com a onda de 14 de maio [...]

Cidade do Rio. Outras Noticias, 13 de junho 1889.

Para muitos contemporâneos de José do Patrocínio as mudanças no seu apoio político - na visão deles ora monarquista, ora republicano - indicava a instabilidade emocional e de princípios do jornalista. Bem sabemos da coerência de suas decisões neste momento de crise constitucional. Patrocínio mesmo apoiando o Terceiro Reinado não deixou de ser republicano, apenas acreditava que o governo direcionado pela Princesa Isabel seria um governo democrático e o caminho verdadeiro para a república. Inúmeras vezes o jornalista veio a público, por meio do seu jornal, defender a sua postura frente à Isabel e ao republicanismo.

Atribuo sentido positivo às permanentes acusações de monarquista sofridas por Patrocínio, na República. Quem não incomoda, quem vive no esquecimento não é relevante caluniar ou defender, não é significativo circular seu nome na imprensa e da mesma forma não cria nenhum clima de comoção ou indignação entre as pessoas. Considero esse tratamento a Patrocínio como um indício da sua forte presença na política da capital do país. Ele circulava entre políticos e jornalistas que de certa forma contribuíam para dar significância às suas opiniões, seja para aprová-las ou não. Os seus adversários ao atacar a sua imagem política, caracterizando-a de interesseira e instável, desejavam enfraquecer o seu discurso e a sua presença no cenário político de então.

Em 1896, por exemplo, essa questão veio, mais uma vez, à tona. O jornal Liberdade reproduziu artigo de Pardal Mallet, escrito em 8 de maio de 1889, para o A Rua, acusando Patrocínio de monarquista, devido à seguinte frase atribuída ao mesmo: “Enquanto houver honra e sangue abolicionista, ninguem tocará no trhono de Izabel, a

Redemptora.” Em sua defesa, Patrocínio afirmou que a campanha abolicionista nunca teve interesse em discutir forma de governo, o seu programa era o fim do trabalho escravo.

A verdade é que eu amei doudamente a causa da minha raça, que lhe sacrifiquei tudo e que ainda não me arrependi de tel-o feito.

Com a mesma paixão amei a República. Desde 1872 comecei a trabalhar dedicadamente a ella.

[...]

Os meus artigos, os meus discursos não são mais do que a conseqüência lógica do momento político, em que elles foram escriptos e proferidos.

Entre os respublicanos, que adulavam os escravistas, para fazer proselytos e Isabel, a Redemptora, ameaçada pela lei de 13 de Maio, eu não podia escolher o posto de combate. Fiquei lealmente ao meu lado e disse e digo e repetirei sempre: prefiro um trhono que liberte, a uma República que escravisa.

Com a queda do gabinete João Alfredo e a instalação do Ministério sob o controle do visconde de Ouro Preto a então defesa ao Terceiro Reinado caiu por terra para o jornalista.

O anúncio que o governo não ia bem apareceu no dia 11 de junho durante a apresentação do novo ministério, “o deputado João Manuel, magestoso como propheta Nathan diante do sollo de Davi, [...], depois de exprobar com eloqüência tribunicia, [...], concluiu pelo grito inesperado – abaixo a monarchia, viva a republica.” O novo gabinete com Ouro Preto não tinha como competir com a popularidade de João Alfredo. Desagradava a Patrocínio até mesmo a composição do ministério, segundo ele formado por escravistas e interesseiros. Para o jornalista, agora as decisões do Império, sob a chefia de D. Pedro II, indicavam a “aliança com a oligarquia da terra em detrimento do povo brasileiro. Um Império que ao longo dos anos em nada beneficiou o país.”

Desta forma a sua critica ao governo monárquico, com Ouro Preto, em nada se contradiz com a anterior defesa ao Terceiro Reinado, uma vez que os reinantes – Imperador D. Pedro II e a Princesa Isabel - e seus encaminhamentos políticos eram para Patrocínio completamente diferentes.

No aniversário da Princesa Isabel, em 29 de julho de 1889, o jornal de Patrocínio ao passo que exaltava a aniversariante redentora, também reafirmava o seu republicanismo. Para ele um republicano sincero, respeitoso da lei e da justiça podia, sim “beijar publicamente, com o coração de joelhos, a mão da extraordinária compatriota que assim procedeu.” E mesmo fazendo campanha pela república não se sentia desobrigado “para com a santa mãe dos captivos”, proclamada “maior do que todos nós os abolicionistas”. O jornalista afirmava ainda que se a república brasileira fosse instalada pelo povo teria a Princesa uma especial homenagem, por ser o “maior cidadão nascido no Brasil, o mais corajoso, o mais desinteressado, o mais humano”.

Meses depois, no dia 15 de novembro de 1889, o Cidade do Rio estampava a manchete “VIVA O EXÉRCITO LIBERTADOR”. Estava instituído provisoriamente um novo regime político – a República.

O interessante é que o jornal noticiou o evento imediatamente depois de acontecido, pois circulava na parte da tarde. Suas informações começaram na noite anterior e foram até ao meio dia. De acordo com o jornal, na noite anterior encontravam-se no quartel general do exército diversos oficiais, o batalhão de infantaria e o regimento da cavalaria em forma. Às 6 horas da manhã do dia 15 de novembro estavam fechados os quartéis do 7º e do 10º, além do Corpo de Bombeiros. De Niterói desembarcou uma parte do corpo de polícia da província. Às 7 horas estava na rua do Ouvidor uma força de fuzileiros navais. Já às 8 horas o trânsito para o Campo de Santana era praticamente impossível dado o número de soldados nas ruas, “batalhões de linha, fuzileiros navaes, bombeiros, corpo de policia de Nitheroy, policia da corte, piquete da cavallaria.” No quartel haviam duas forças que não queriam seguir para o lugar destinado, o 7º e o 24º, e foram apoiados pelo “general Deodoro, o 1º da infantaria, o 1º de cavallaria, o 2º de artilharia, e o 23º que deve chegar hoje de Ouro Preto. Consta mais que o ministério está retido pelo exército. Confirma-se o boato de que o ministério pediu demissão.”

Os alunos da Escola Militar e um corneta do 22º foram para o Campo de Santana dando “vivas à Nação Brazileira e ao exercito.” Por volta das 10:30 o ministério se rendeu, o general Deodoro entrou no quartel “em triumpho, abraçado, entre acclamações enthusiasticas. O exercito dá vivas à Republica. É o grito que se ouve em todo o campo de Sant´Anna. [...] É geral o enthusiasmo.” Às 11 horas vários cidadãos fazem ao povo a proposta de proclamação da república. José do Patrocínio propõe a abertura do Paço Municipal para “que o povo se possa alli recolher, se isso for preciso.” A frente do Cidade do Rio as pessoas passavam dando vivas à república.

Entusiasmo, aclamações e vivas à Nação e à república são protagonizados a todo o momento. Por fim, ao meio dia ocorre um desfile da força na rua do Ouvidor acompanhada pelo povo. “Falaram: José do Patrocínio, na Cidade do Rio, e Silva Jardim, da Gazeta de Noticias.” Os dois oponentes, Patrocínio e Jardim, comemoravam a queda do ministério e a tomada de frente política pelo exército.

Essa foi a primeira descrição do Cidade do Rio sobre os acontecimentos que conflagraram na República. Observamos que Patrocínio aparece nesta descrição propondo a abertura da Câmara Municipal e discursando mais tarde na sacada do seu jornal.

A alcunha de ‘proclamador civil da república’ atribuída ao jornalista Patrocínio começou a ganhar fôlego quando o mesmo descreveu a sua participação durante a instalação da república, no Cidade do Rio em 14 de dezembro de 1889. Isso porque era crucial para ele defender-se da acusação de falso republicano a qual vinha recebendo. Patrocínio rememora que no dia 12 de novembro recebeu um telegrama de Benjamin Constant avisando para preparar-se, pois estava próxima a revolução. Já no dia 14 teve uma conversa com o Almirante Wanderkolk que confirmou o fato. Estes dois fatos instituíam a idéia de familiaridade de Patrocínio com os futuros eventos, além de ser digno de confiança de pessoas tão importantes politicamente na República. Desta forma não era um suspeito, um vendido da monarquia. “Esta prova de confiança bastou para varrer de meu espírito todos os ressentimentos justos, que eu tinha do primitivo partido republicano.”

A “revolução” não era surpresa para o jornalista, e sim o dia emque aconteceu. A precipitação foi resultado de um boato promovido pelo tenente-coronel Sólon e pelo capitão Mena Barreto da prisão do Deodoro da Fonseca e por isso não participou da “gloriosa vigília, de que resultou a Victoria da Republica”. José do Patrocínio ao descer de Petrópolis no dia seguinte percebeu o que estava acontecendo. Imediatamente esteve com Olavo Bilac delegando responsabilidades para o funcionamento da redação do Cidade do Rio. Patrocínio queria estar no meio dos acontecimentos.

Ao chegar ao Campo de Santana soube que Deodoro já se encontrava no interior do quartel general. Voltou, então para o Cidade do Rio e mandou espalhar boletins convidando o povo a dar vivas ao Exército, a Armada e a república. Com o desfile dos soldados na rua do Ouvidor foi Patrocínio à janela parabenizá-los chamando-os de revolucionários. O Cidade do Rio foi invadido pelo povo entusiasmado a festejar, correligionários “viram abraçar-nos e confraternisar comnosco, reatando assim as nossas relações interrompidas.” Patrocínio descreve um dia de festa, de participação popular, como se todos, civis e militares, estivessem à espera da vitória republicana. O fato de correligionários procurarem justamente a sua folha seria uma indicação do reconhecimento do seu republicanismo.

A festa, no entanto, foi interrompida pelo boato de que a república não fora proclamada de fato. Instala-se um momento de incerteza. Surgem então algumas idéias:

- Façamos um grande movimento popular, aconselhou o Dr. Annibal Falcão.

- Assaltemos a camara dos deputados e o senado e façamos com que o Povo dignifique por actos eloqüentes, que se reinvestiu da soberania, ponderou Emilio Rouéde.

- Acho mais regular, observei eu, convidar o Povo a acompanhar-nos à Camara Municipal e ahi proclamar solemnemente , pacificamente, mas decisivamente a Republica.
A minha opinião vingou.

A escolha da Câmara Municipal por Patrocínio não foi aleatória por ser ele, neste momento, vereador da casa. Às 15:30 horas saíram do Cidade do Rio e foram para a Câmara levando a bandeira do Clube Lopes Trovão para simbolizar a república. “...

invadimos a Camara Municipal, onde proclamei a Republica e fiz hastear a bandeira, que symbolisava o faustoso acontecimento.” Patrocínio escreveu e foi votada a seguinte representação divulgada pelo jornal Novidades:

EXMS. SRS representantes do exercito e da armada nacionaes – Temos a honra de comunicar-vos que, depois da gloriosa e nobre resolução que ipso facto depoz a monarchia brazileira, o povo, por órgãos espontâneos e pelo seu representante legal nesta cidade, reuniu-se no edifício da camara municipal, e, na fórma da lei ainda vigente, declarou consummado o acto da deposição da monarchia e, acto seguido, o vereador mais moço, ainda na fórma da lei, proclamou como fórma de governo do Brazil a republica.

Attendendo ao que os abaixo assignados esperam que as patrióticas classes militares sanccionem a iniciativa popular, fazendo immediatamente decretar a nova fórma republicana do governo nacional.

Patrocínio com esta representação proclamava a república na Câmara dos Vereadores. Depois ao som da Marselhesa foram à casa de Deodoro, “a quem dirigi a palavra, externando o voto do Povo”375 com a moção. A radicalização de Patrocínio e seus amigos, a exemplo de Aníbal Falcão376 e Emílio Rouéde377, não foi compartilhada por Deodoro e Benjamin Constant. Este agradeceu ao povo a manifestação de apoio recebido, mas por ora “devia declarar que, [...], só havia definitivamente assentada a organisação de um governo provisório, incumbido de consultar a Nação, reunida em Constituinte, sobre a fórma de governo.” O Governo Provisório se encarregou até então a defender a liberdade, a propriedade e a soberania da Nação.

Patrocínio insistiu para que o governo proclamasse efetivamente a república, estando o povo “alli para ouvir o Governo provisório repetir com elle um viva à Republica Federal Brazileira.” Instigando os que ali estavam levantou por três vezes o viva, e foi entusiasticamente correspondido. Segundo o próprio jornalista, ele e João Clapp foram ao sobrado da casa de Deodoro entregar pessoalmente a moção.

No dia seguinte os vereadores foram à Câmara Municipal discutir as ações do vereador Patrocínio e ratificaram a sua decisão de apoio ao Governo Provisório.

Os acontecimentos testemunhados hontem por esta cidade produsirão a fundação da Republica Brasileira. O governo democrático está instituído como fasem publico todas as folhas diárias de hoje. Avultado numero de cidadãos, tendo a testa o nosso collega vereador José do Patrocínio, occupou hontem os salões deste paço proclamando a “Republica Brasileira”.

O Imperador e a familia Imperial, tractados com maior respeito consta que retirão-se hoje do paiz.O governo Provisório acha-se a testa dos negócios públicos.

Vendo a Illma. Camara no cumprimento destes factos resolve reconhecer a nova ordem de cousas e declarar em nome da paz publica, que o povo deste município adhere ao Governo Provisório. Paço da Illma Camara, 16 de novembro de 1889.

Como o governo “não havia procurado investir-se civilmente da governação nacional”, Patrocínio apresentou mais uma sugestão, convidar o Governo Provisório para fazer o juramento de “bem a servir a nação.” Feito o convite, por meio de uma carta escrita por Patrocínio a Benjamin Constant, este foi aceito e a visita à Câmara realizada, sendo feito o seguinte Termo de Juramento:

Termo de juramento que prestam os membros do Governo Provisório abaixo assinados perante a Illma. Câmara Municipal da Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro.

Aos dezesseis dias do mês de novembro de mil oitocentos de oitenta e nove, compareceu no Paço Municipal o Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil, composto dos cidadãos Aristides da Silveira Lobo, Rui Barbosa, Tenente-Coronel Benjamin Constant Botelho de Magalhães, chefe-de-Divisão Eduardo Wandenkolk e Quintino Bocaiúva, que declarou vir perante a Ilustríssima Câmara, reunida em sessão extraordinária, fazer a promessa solene de sob a sua honra manter a paz e a liberdade públicas, os direitos dos cidadãos, respeitar e fazer respeitar as obrigações da Nação, quer no interior, quer no exterior. Em firmeza do que assinam os ditos cidadãos espontaneamente, com os vereadores da nossa Ilustríssima Câmara, este compromisso para com o Povo Brasileiro, representado neste momento pela Municipalidade da Cidade do Rio de Janeiro.

Para Patrocínio, essa sua atuação o inseriu no panteão dos proclamadores da República, vinculando os seus atos, em 15 de novembro, como essenciais para a institucionalização do novo regime e, mais ainda, restituindo ao evento um caráter civil, de reconhecimento e apoio popular ao convocar o “povo” à Câmara Municipal onde proclamou a república. “Pela linguagem da imprensa européa se vê que a Republica incorreria na antipatia como conseqüência da revolta das classes ricas contra a abolição.” Patrocínio enalteceu sua presença, considerando-a fundamental ao imprimir conotação popular e democrática a proclamação e não um revanchismo dos proprietários contra o Império.

José do Patrocínio evidenciou todo o seu lado radical e apaixonado na defesa de uma causa, neste caso a causa republicana. Anos depois lembrou este momento: “quando se proclamou a Republica eu era republicano, não moderado e evolucionista, como durante o gabinete immortal de João Alfredo, mas preparado para o combate”. Foi para a rua convocar o “povo” a participar da instalação do novo regime, a sua república era popular. Na Câmara Municipal escreveu uma moção referendada pelo povo, declarando a monarquia deposta e proclamada a república. O documento era enfático ao decretar a nova forma de governo. Desejava, apenas, a sanção dos militares, ou melhor, a declaração oficial de Deodoro da Fonseca acerca do novo regime político.

No entanto a única certeza que ouviu do militar Benjamin Constant era o estabelecimento do governo provisório de caráter republicano, quanto à forma de governo esta seria decidida na Assembléia Constituinte, instituição representativa da nação.

Assim, considero José do Patrocínio como o proclamador civil da república. A moção entregue a Deodoro e a presença do Governo Provisório na Câmara Municipal para prestar juramento de respeito aos direitos dos cidadãos legitimam o poder que a Câmara assumiu. E esse poder somente se concretizou devido à iniciativa tomada pelo vereador Patrocínio. Deodoro da Fonseca junto as Forças Armadas derrubaram o ministério e o Império. José do Patrocínio junto a amigos republicanos radicalizaram o movimento clamando pela participação popular e a proclamação definitiva da república.

---
Fonte:
Rita de Cássia Azevedo Ferreira de Vasconcelos: “República sim, Escravidão não: O Republicanismo de José do Patrocínio e sua vivência na República”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal Fluminense. Mestrado em História Contemporânea  na  Universidade Federal Fluminense. Orientador: Prof. Dr. Humberto Fernandes Machado). Niterói, 2011.