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27/09/2015

Contos Portugueses, Iba Mendes (Organização)

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Disponível também em "Minhateca", no link abaixo:



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Os Serenins de Queluz

Por: Júlio Dantas

A Rainha enlouquecera.

Na noite de 10 de Fevereiro de 1892, em Queluz, na sala D. Quixote, os dezessete médicos do Paço, à frente dos quais se encontrava o magríssimo Dr. Antônio José Pereira, cirurgião-mor do Reino, assinavam, espiados pelos óculos verdes do Bispo confessor, os quatro quesitos acerca da incapacidade de D. Maria I para o exercício do poder real. O médico Inglês Wilis voltara para Londres, desiludido. Inácio Tamagnini falava ainda vagamente em trepanação, sem se saber bem porquê nem para quê. Todas as esperanças estavam perdidas.

Um ministério de bonzos, reunido na Sala do Conselho de Estado, discutia gravemente, pesado de cabeleiras e de grã-cruzes. Perto, vindos do oratório, os gritos da Rainha doida atroavam o Paço, lamentosos, lancinantes, misturados com as malagueñas das açafatas espanholas da Princesa:

- Ai Jesus! Ai Jesus!

Só os ministros e os médicos teriam, naquele momento, uma vaga consciência do drama que se estava passando. O resto da corte, despreocupada, ria, conversava, dançava, ouvia o cravista Policarpo e o tiple Cafareli, o tenor Raf e o baixo Pucci, à luz de trezentas velas de cera, debaixo do teto verde onde, num painel imortal, David Perez e Lucas Jovini davam lição de música às senhoras Infantas. Enquanto na Sala D. Quixote se depunha uma rainha louca, - na Sala das Talhas havia serenim. Não eram já os serenins doutro tempo, os serenins célebres da rainha Mariana Vitória, com a rabeca do alemão Goenmann e a flauta do espanhol Rodilo, a voz do italiano Caporalini e a batuta admirável de David Perez, - onde o próprio Núncio, cardeal Conti, e o cónego Gonsalvini tocavam trios de Bach com a condessa de Pombeiro, e se desenterrava das arcas a baixela Germain para servir caldo de galinha fumegante em tigelas de Índia velha; mas um serenim da decadência, sonolento, arrastado, sorna, com os castrati a rebolarem-se, o velho duque de Lafões a um canto, cheio de carmim e de sinais, a falar de Gluck, de Metastásio e de Viena de Áustria, o conde da Ponte a abrir a boca, e o mestre da capela real, João Cordeiro da Silva, saltitante, nervoso, roendo as unhas, fugindo das correntes de ar e espirrando como um bode quando a condessa da Ribeira lhe voltava as folhas dos papéis de solfa. Para todos eles, D. Maria I morrera havia muito tempo, - na noite trágica de Salvaterra. Era uma sombra aos uivos no Paço um fantasma de realeza que já não acordava a piedade de ninguém. Que importava que a depusessem? Que poderia interessar à corte a deposição dum espectro? Enquanto o cravo da oitava larga chocalhava sob os dedos do Policarpo, e o tiple Ferracuti cantava com a condessa de Vila Flor ou com a linda condessa de Soure, penteada à crioula à moda do cabeleireiro francês Leonard, o dueto de Cimarosa “Ah, cari palpiti”, - os papagaios do Paço, arremedando os gritos da Rainha doida, berravam dilacerantemente pelos corredores:

- Ai Jesus! Ai Jesus!

As salas do Trono, dos Archeiros e das Serenatas enchiam-se duma multidão de frades e de sécias, de poetas e de fidalgos, de peraltas e de músicos, de oficiais alemães e de cônegos vermelhos da Patriarcal, furando, acotovelando-se, intrigando, namorando com os chapéus e com os leques, rindo com os castrados italianos, correndo atrás do bobo do paço D. João da Falperra, de bastão e grã-cruz, ou da mulata Rosa, anã e boba, que grunhia e pinchava sobre os tapetes, vestida de encarnado, como uma bola. Enquanto o serenim principiava, e se servia o caldo, e chegava o príncipe regente D. João, entre o cardeal da Cunha e o marquês de Marialva, de olhos esbugalhados e de beiço caído, com rapé e frangos assados metidos nas algibeiras da casaca, ninguém se arredava das salas; todos, inclusivamente o malcriadíssimo Kantzow, encarregado de negócios da Suécia, sorriam, abriam roda para o beija-mão, ajoelhavam diante da Princesa que assomava de turbante e úberes de vaca espanhola, e quando, na Sala das Serenatas, o contralto Gezielo rompia a primeira arieta, fazia-se em todo o auditório um silêncio da Cartuxa. Mas em breve, pouco a pouco, as salas iam-se despovoando. Os peraltas fugiam. Os próprios ministros estrangeiros, o lindo e apaixonado Barão Schladen, ministro da Prússia, o embaixador de França, conde de Châlons, o núncio Belisomi, eram os primeiros a sair à formiga. Esperava-os nos jardins do palácio, pelos bancos de pedra do jogo-da-bola, debaixo das abóbodas de arvoredo de João Baptista Robilon, uma música mais sugestiva do que a de Paesielo e de Zingareli, e um espectáculo mais atraente que o dos barbados tiples italianos. As açafatas da Rainha doida, agarradas a bandolins marchetados, em trilos sensuais, cantavam entre as murteiras verdes, ao luar, o lundum chorado e as modinhas brasileiras. Era uma perdição, era um delírio. Em volta delas, em êxtase, assentados no chão, todos os peraltas, todos os frades, todo o corpo diplomático escutava em silêncio os requebros de voz das manas Lacerdas, os lunduns voluptuosos que o mulato José Manuel ensinara à “Augustinha”, as denguices soluçadas com que o mulato Caldas, da “assentada de Ménalo” do conde de Pombeiro, se fizera querido de Miss Welding. Eram as açafatas que o moço Beckford descrevera nas suas cartas para Londres, a revoar vestidas de branco pelos jardins da Ajuda, olhos ardentes, cabelos negros, beiços grossos de mulatas, cheias de piolhos e de jóias, de sensualidade e de perversidade, mais corruptas ainda desde que a princesa Carlota chegara a Lisboa, gritando, com as suas malagueñas, os seus chailes “à turca” e as suas viciosas criadas espanholas. Diante delas, diante desse encanto supremo das açafatas portuguesas, o hipócrita frei Luís do Monte Carmelo, de alcunha frei “Tris-Tris”, já rebolava insensivelmente as ancas; o cavalheiro Saurin, ministro da Holanda, tão avarento que sangrava todos os quinze dias um porco vivo para fazer chouriços,acenava com peças de oiro por debaixo das abas da casaca; os narizes enormes do príncipe Reuss e do major alemão Bermann, arfavam voluptuosamente; o melômano príncipe Rufo, ministro de Nápoles, tomava notas num papel de solfa; esquecido da gota, o gracioso marquês da Fronteira saracoteava-se, de cabeça perdida; Kanzow, apoplético, rugia; o próprio Patriarca escutava por detrás dum canteiro de buxo; chilreavam beijos; riam os sátiros de pedra debruçados sobre os grandes bancos dos jardins; e enquanto, o soluço diabólico das modinhas brasileiras acordava as sombras palpitantes de Queluz, - a Rainha doida gritava, berrava fechada no oratório, cheia de visões e de pavores do inferno:


- Ai Jesus! Ai Jesus!

28/12/2014

Ao de leve, de Brito Camacho

Livro provisoriamente disponível no site Minhateca (link baixo):


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O estudante que ontem, no Rocio, foi atingido por uma bala na cabeça, já faleceu.
(Dos jornais).

Como não havia de adorá-lo, se era seu filho único!

Para mais, ele era o retrato vivo do pai, com todas as qualidades e todos os defeitos — se um filho pode ter defeitos para a mãe que o estremece!

Ficara com ele nos braços, viúva pela maior das fatalidades, quando ainda não tinham secado de todo as flores de laranjeira que lhe tinham posto no cabelo no dia do seu casamento, e nas suas faces havia ainda um pouco do rubor intenso com que as haviam tingido os beijos loucos que ele lhe dera, já seu marido, ao voltarem da Igreja.

Anos e anos chorara a sua viuvez, e mesmo quando o filho lhe estendia os bracitos gordos, muito risonho, as suas lágrimas não estancavam. Mas o seu pranto já não era só de dor; a desgraça ainda lhe escaldava a garganta com soluços que lhe vinham do coração, mas já lhe nimbava a alma a promessa de uma felicidade remota. No filho via o marido — era como se dentro de um túmulo assistisse ao esplendor de uma aurora.

Se não havia de adorá-lo, a pobre mãe!

Quando ele lhe saiu de casa para continuar os estudos, pareceu-lhe que ficava viúva pela segunda vez. As suas cartas mitigariam a sua saudade, e ela havia de lê-las com tamanha devoção, evocá-lo com tanto amor, que a leitura seria afinal uma conversa entre ambos, ele a enxugar-lhe os olhos com beijos, e ela a lavar-lhe as faces com lágrimas.

Já então ele era quase um homem, alto e desempenado, uma penugem leve prenunciando um bigode negro, que seria talvez farto e provocador como o do pai. Muito estudioso, e, ao mesmo tempo, muito inteligente, contava as distinções pelos exames, nunca se rebaixando a esmolar uma proteção, mantendo sempre perante os mestres uma atitude que, nem por ser respeitosa, deixava de ser altiva. Ainda nisso ele era como o pai, orgulhoso sem presunção, delicado sem maneirismos, altivo sem arrogâncias.

Como não havia de adorá-lo!

Surpreendia-se a fazer projetos de vida em comum, quando ele acabasse os estudos, e fosse, para aqui ou para além, exercer a sua profissão. Já a deixariam livre os negócios da sua casa, que a retinham agora separada dele, a contar o tempo pelo seu amor, e a achar os meses infinitamente mais compridos do que dizem os calendários.

Talvez ele um dia casasse; mas nem assim o deixaria, humilde na casa alheia, fazendo-se útil, sendo prestimosa, realizando quantos milagres fossem precisos para se tornar indispensável. Pois se ele era a única razão da sua vida, como poderia alguém roubar-lho sem ao mesmo tempo a matar?

Recebia as suas cartas em dias certos, e nunca ele deixara de lhe escrever com a mais rigorosa pontualidade. às vezes eram apenas quatro linhas, meia dúzia de palavras que ela umedecia com os olhos, para as enxugar com os lábios.

Como não havia de adorá-lo, a pobre mãe, se ele era o seu filho único, para mais o retrato vivo do pai, com todas as suas qualidades e defeitos — defeitos que para ela eram qualidades!

Ora sucedeu que naquele dia, estando como de costume à espera do carteiro, viu que ele passava pela sua porta, sem entrar. Era lá possível não ter carta? Provavelmente confundira-a no maço, e só daria por ela finda a distribuição. Viria então entregar-lha.

Passou uma hora, passaram duas horas, passou uma eternidade, e o carteiro não voltou.

Estaria doente? Ter-lhe-ia acontecido alguma desgraça?

Distraidamente, quase sem intenção, pega num jornal. O coração deu-lhe um salto dentro do peito, como se a um leão dentro de uma jaula lhe enterrassem nas carnes uma choupa em brasa.

Houvera tiros, houvera espadeiradas, como em uma batalha. Do campo tinham retirado muitos feridos, tendo lá ficado alguns mortos.

Foi lendo, lendo tudo, devorando as colunas do jornal, à procura de um nome, na ânsia de um condenado à pena última, que um indulto pode salvar.

Esse nome lá estava. Ferido com uma bala na cabeça, fora levado ao hospital, onde os médicos verificaram o óbito.

Não chorou, não soluçou, não gemeu, aniquilada por completo.

Quando voltou à consciência da realidade, ainda tinha nas mãos o jornal.

Serena e trágica, como se debruçada sobre uma sepultura visse lá dentro o próprio coração; trágica e dolorida como se lhe pesasse n'alma todo o sofrimento humano; morta para o amor, abrasada em ódio:

 — Mataram o meu pobre filho! Maldito seja para sempre, na sua descendência, o miserável assassino!

Como não havia de adorá-lo, a pobre mãe, se ele era o seu filho único!

Se fores um dia ao mar,
Que a fortuna te não deixe;
Bota a rede e vai-te embora,
— Quanto mais burro mais peixe.

 Fora criado de médico, e como a Natureza o dotara com bastante inteligência e um notável espírito de observação, aprendeu mil coisas com o doutor, a ponto de se julgar apto a fazer o que ele fazia. Depois chocava-o aquela subalternidade de moço de consultório, as pessoas que entravam nem reparando nele, e algumas que nele reparavam tratando-o sem cortesia. Farto daquele viver, reconhecendo-se talhado para mais altos destinos, um dia pediu contas ao patrão, e abalou sem dizer para onde.

Meses passados, enchia a cidade a fama de um doutor novo, que fazia verdadeiros milagres, havendo quem afiançasse que dera vista... a uns poucos de aleijados, e cegara uma meia dúzia de coxos. Por acaso o doutor topou o milagrante colega na rua, e reconheceu nele o seu velho criado, muito correto, muito bem posto, tal qual um intrujão com diploma. Ao outro dia, era um domingo, foi procurá-lo ao consultório, curioso de saber como aquilo era feito. No largo, junto ao adro da Igreja, havia uma extraordinária multidão.

 — Quantas pessoas calcula o dr. que estejam além?

 — Uns milhares.

 — E quantas dessas lhe parece que serão inteligentes?

 — Algumas dúzias.

 — Pois essas formam a sua clientela; o resto pertence-me.


Vinha isto a propósito... a propósito... Ah! sim; a propósito da tiragem do jornal, que o administrador acha pequena.