Mostrando postagens com marcador Visconde de Taunay. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Visconde de Taunay. Mostrar todas as postagens

28/05/2016

Inocência, Visconde de Taunay


Para baixar o livro gratuitamente, clique na imagem e selecione-o em: 
↓
---
Disponível provisoriamente em "Google Drive", no link abaixo:
↓



---

A obra Inocência e o nacionalismo: há afinidade entre eles?

O romance romântico fundamentou-se na descrição e na análise das relações humanas na sociedade. Alguns aspectos tomados da realidade, como lugares, personagens-padrão, tipos sociais, convenções, usos e costumes foram princípios norteadores para os escritores os transformarem segundo uma norma, “um ponto de vista, uma posição, uma doutrina (política, artística, moral) mediante a qual o autor opera sobre a realidade, selecionando e agrupando os seus vários aspectos segundo uma diretriz”. (CANDIDO, 1981, p. 111).

O nacionalismo consistiu na cor local enquanto o romance foi além. Preocupou-se com a descrição dos elementos da realidade, estabelecendo uma ligação entre os romances. Para Antônio Candido (1981), as produções mais características dos escritores românticos elaboraram a realidade graças ao ponto de vista, à posição intelectual e afetiva que norteou todo o nosso Romantismo, a saber, o nacionalismo literário.

O nacionalismo romântico propiciou a descrição de costumes, paisagens, fatos que possibilitassem a libertação dos modelos da literatura clássica e universal que imperava desde então, cedendo lugar para o individual, o particular, o característico.

Quanto à matéria, o romance brasileiro nasceu regionalista e de costumes pela descrição dos tipos humanos e formas de vida social nas cidades e campos. O apelo ao espaço foi preponderante, sobrepondo-se até as personagens, a forma de vida e os tipos: “o que se vai formando e permanecendo na imaginação do leitor é um Brasil colorido e multiforme, que a criação artística sobrepõe à realidade geográfica e social”. (CANDIDO, 1981, p. 114). Dessa forma, os romances se expandiram para as províncias do norte, do sul, do interior.

Os temas românticos que o nacionalismo exigia privilegiavam o exotismo para o deleite do homem da cidade e se ajustava ao romancista e o homem rústico do interior ou com alguma aproximação com a civilização. O regionalismo serviu para confirmar a autonomia literária, apesar de haver alguns problemas de estilização: “quando se fala na irrealidade ou convencionalismo dos romancistas românticos, é preciso notar que os bons, dentre eles, não foram irreais na descrição da realidade social, mas apenas nas situações narrativas”. (CANDIDO, 1981, p. 116).

Os românticos Bernardo Guimarães, Alencar, Taunay e Távora tinham em comum a região, o lugar de acontecimentos, atos, sentimentos e aspectos humanos que tomaram relevo em suas obras, situado em um quadro natural e social, em que as personagens existiam independentemente das peculiaridades regionais.

A obra Inocência constituía aproximação da autenticidade dos modelos românticos regionais, inserindo personagens, costumes, a natureza, a hospitalidade do sertanejo, observados durante as viagens do autor. As datas que iniciam e finalizam a narrativa, pela fidelidade a esses elementos, reforçam o caráter documental da ficção. Entretanto, a obra não se dá somente dessa forma, há a invenção e a deformação como componentes da elaboração narrativa que transfigura a realidade para a ficção. Comenta Antônio Candido (1981):

O entrecho e o quadro sertanejo serviram para delimitar e informar a sua experiência pessoal, que, ao projetar-se desta maneira na forma artística, pôde satisfazer anseios menos conscientes de expressão afetiva. Aí talvez esteja o segredo deste romance que supera de tão alto as produções e transposições da realidade, entre as quais ele o incluía com orgulho. (CANDIDO, 1981, p. 313).

Seguindo a linha de buscar a originalidade do representante brasileiro para alguns românticos, o indígena já não cumpria essa função. E também não será o negro consagrado numa religiosidade cristã que representará a personagem romântica. A opção é o homem branco, do interior, pois ele se encontrava pouco afetado pelas influências externas, ou seja, pela civilização, e especificamente pelos ideais de inspiração européia. Assim, o sentimento do nacionalismo, tão apregoado no indianismo ainda vigorava e também se constituiria um dos pilares para a formação da temática sertaneja, que, segundo José Maurício Gomes Almeida (1999, p. 38), “são as razões que poderíamos encontrar para o surgimento da temática sertanista, mas todas têm raiz no mesmo sentimento de orgulho nacionalista que inspirava o indianismo”.

O enredo de Inocência, diante desse nacionalismo, não significava muita coisa quanto à representatividade nacionalista, com exceção do primeiro capítulo, que se distingue do resto da obra e podemos considerá-lo à parte do romance, servindo de informação, crendo na possibilidade do desconhecimento do leitor sobre as paisagens e a rotina do viajante pelo sertão.

As descrições contidas seguem a fidelidade da observação de uma região do país, o que representa uma das características românticas. E também configuram o nacionalismo quanto à exposição da natureza. Esta parte diferencia-se do enredo sendo, que no romance, acreditamos não haver o predomínio dos elementos nacionalistas, e sim, a representação das rememorações e lembranças do autor. O nacionalismo também ficou marcado quanto ao pensamento e à atitude do autor. Taunay participou da Guerra do Paraguai, oportunidade marcante para sua carreira política e também literária e que contribuiu para o autor formular um olhar diferenciado do nacionalismo, que, até então, não tinha o mesmo vigor.

A guerra traria uma perspectiva de atrair as atenções para o interior, configurando uma nação que não só contemple os centros urbanos e políticos do país para ir “além ou aquém dos limites litorâneos tradicionais” (MARETTI, 2006, p. 70). Segundo Maria Lídia L. Maretti (2006), nas obras de Taunay, existem argumentos que contrariam a idéia de nação maquiada, ou seja, a unidade nacional tão apregoada fora construída a partir dos poucos conhecimentos que se tinha sobre o tema, pois ninguém da corte as conhecia ou mal conhecia. Essa questão norteará quase todas as produções do escritor e político Taunay do segundo reinado5. Assim, as suas produções fundaram-se nas viagens missionárias, passando a conhecer muito o interior do Brasil, experiência esta que freqüentemente era discutida por alguns escritores românticos.

As grandes cidades litorâneas se modernizavam em grande velocidade; as interioranas estavam em completo abandono, apontando a contradição dessa modernização pela metade. Por outro, para alguns escritores esse abandono contribuiria para a preservação do homem primitivo ou sertanejo, permanecendo inalterado o seu estado original. Contudo, esse estado primitivo gera conflito quando se comparam os costumes modernos e os sertanejos que já tinham algum contato com a civilização. Encontramos esses indícios no romance Inocência: o narrador interfere na narrativa para expor a sua posição quanto ao modo de pensar do sertanejo em relação às mulheres. Ele discorda da forma injuriosa que Pereira, pai de Inocência, refere-se a ela, em que o seu tom discursivo demonstra um pensamento moderno, contrapondo-se ao atraso da civilização no campo.

Relata José Maurício Gomes Almeida (1999) que, na década 1870, momento de transição estética e política, o romantismo dava os primeiros sinais de enfraquecimento, devido às novas tendências filosóficas e estéticas que se impunham no Brasil, disposições estas com o início da implantação de um pensamento moderno. Segundo essa tendência à modernidade, a valorização dos elementos nacionais, a obra Inocência, de Taunay, encaixou-se dentro da concepção da realidade sertaneja, integrando esse ser ao movimento moderno. Apesar da sua obra ainda conter essência romântica, há algumas nuances à observação da realidade tão defendida pelo escritor Franklin Távora. Conforme Antônio Candido (2006), desde o início a ficção brasileira teve inclinação pelo documentário, e durante o século XIX foi promovendo uma espécie de grande exploração da vida na cidade e no campo, em todas as áreas, em todas as classes revelando o país aos seus habitantes, como se a intenção fosse elaborar o seu retrato completo e significativo. Por isso ainda permanece viva a realidade que apresenta seja no romance do tempo do Romantismo. (CANDIDO, 2006, p. 208).

Podemos dividir a obra Inocência, de Taunay, em duas partes distintas entre as quais, aparentemente, não concebemos nenhum vínculo. A primeira parte constitui-se do capítulo inicial e retrata o sertanejo e o ambiente a partir de um descritivismo que atende à concepção nacionalista romântica em que homem e natureza estão em harmonia e traça aspectos que correspondem ao exotismo, ao telúrico, apresentando, dessa forma, o que há de primitivo e simbólico no país, conforme o comentário de Olga Maria Castrillon Mendes (2005):

A sensação que se tem é a de que, ladeada pelo homem sertanejo, a natureza compõe o quadro que é, ao mesmo tempo, moldura e conteúdo, pois ambos participam de um conjunto harmônico onde um não se sobrepõe ao outro, mas compõem a cena e traçam os pictogramas resultantes do exercício do olhar. Natureza e homem simbioticamente unidos parecem construir o sentido que se pretende simbolizar. (MENDES, 2005, p. 1).

Além disso, podemos depreender que esse capítulo serve de introdução a um mundo desconhecido ou pouco conhecido para a maioria dos habitantes da província e se presta a informar o público leitor desse universo, aproximá-lo e esclarecer-lhe o que existia realmente no interior do país, expectativa essa escrita por Taunay, quando se preparava para viajar com a expedição:

Ao chegar na cidade de Santos, Taunay cria expectativas quanto o que vai encontrar no interior do país, entusiasmado pelas cidades e pessoas que vai conhecer que segundo ele”percorrer grandes extensões e varar até sertões imperfeitamente conhecidos e mal explorados. (TAUNAY, 2005, p. 146).

E a segunda parte representa o enredo propriamente, a história do amor impossível entre os amantes. Entendemos que as duas partes distintas se complementam não prejudicando andamento da história, sem prejuízos para o desenvolvimento da mesma.

A fidelidade à realidade observável em Inocência se apresenta nitidamente no primeiro capítulo, Sertão e o Sertanejo, em que descreve a natureza do sertão, sob o olhar do narrador viajante, e a relação do homem viajante com esse lugar, no intuito de familiarizar o leitor com o meio natural, descrevendo-o em detalhes que julga necessário para que o leitor faça parte dessa viagem e compartilhe com ele essa experiência do desconhecido.

José Maurício Gomes Almeida (1999) explica que esse capítulo do romance introduz uma visão turística na possibilidade de apresentar ao leitor um lugar supostamente desconhecido e poucas vezes fazendo parte do senso comum, uma fotografia verbal de um lugar longínquo, em que a natureza predomina diante do homem, freqüentada por viajantes, acostumado ao ambiente, de acesso difícil para o leitor comum.

A análise documental defendida pelos contemporâneos de Taunay resume-se, segundo alguns críticos literários, a este capítulo, dada a valorização e a descrição da natureza, informando e situando o leitor sobre esse sertão desconhecido, não encontrável em outras obras, o que faz de Taunay e Inocência singulares à época.

A guerra do Paraguai trouxe outra conseqüência para literatura nacional: iniciou a desconstrução do nacionalismo romântico no que se refere à natureza e ao índio brasileiro. Cria-se outro nacionalismo, uma coesão entre os indivíduos a partir da guerra e da crise que se instaurava, depreendendo e despertando um sentimento comum entre as populações das províncias. Há um vínculo crescente entre os indivíduos, uma luta em comum para constituir unidade entre eles em que a pátria estaria seriamente ameaçada pela instabilidade política, social e também filosófica.

Por volta de 1860, novas tendências filosóficas e estéticas promoveram e reforçaram a recusa ao idealismo romântico, origem de grandes debates de escritores, como Franklin Távora contra Alencar, que apregoavam novos conceitos que foram absorvidos e serviram de bandeira por Távora. A observação da realidade, a grande bandeira dessa tendência, desmorona a visão anterior do herói mítico-simbólico explorado por Alencar. Toda essa busca cria resistência aos escassos anseios do nacionalismo consolidado, empregando meios de substituição do elemento indígena. Contudo, não se poderia dizer a mesma coisa de Taunay, pois, à sua maneira, a nacionalidade seria a partir da política e pelo orgulho de se comprometer com a pátria. O autor era mais ativo, quando da sua participação na guerra, não explorada em Inocência.

O sertanejo trazia vantagens que o afirmavam como elemento principal atendendo os anseios dos escritores: é um mestiço tipicamente oriundo das terras brasileiras, resultando da união do branco e do índio. Assim, poderia ser valorizado por não ter nenhuma relação direta com o negro, que, sob a visão da sociedade, não serviria para ser o símbolo nacional.

Outra concepção que dignifica o sertanejo é pertencer a regiões remotas, quase não havendo nenhuma aproximação com as cidades litorâneas e, por isso, a sua cultura seria mais legítima, no sentido de preservar ainda “costumes, hábitos, tradição e a linguagem a natureza no seu estado original, típico do luar”. (ALMEIDA, 1999, p. 39).

Uma parte importante que compõe o sertanismo destaca-se pela caracterização do ambiente. O sertão insere o homem, a paisagem que constitui aspecto relevante coligado com a linguagem que colabora para unificá-los e serem constituintes de uma obra sertaneja:

é no âmago da terra que se conservam as grandes tradições morais, sociais e lingüísticos, e que se elaboram as inovações necessárias, nascidas menos do capricho da moda como nos autores cosmopolitas ou civilizados do que uma exigência da própria vida. (TELES, Gilberto Mendonça; LIMA, Alceu Amoroso, 1980, p. 515).

Assim, o sertanismo é uma das correntes mais preciosas pela representação de um povo rústico por inserir o meio e sua ligação com a vida universal.

Essa conservação da cultura sertaneja pouco foi modificada pela própria distância geográfica entre os lugares, bastante acidentada, propícia para o seu isolamento, e a própria comunicação era feita, quando possível, através de viajantes que levavam consigo as correspondências, promovendo, assim, uma comunicação rara, lenta com a civilização.

Em Inocência, essa aproximação já se torna evidente, pois Pereira sabia dos acontecimentos na corte, tinha acesso a informações pela proximidade com a vila, apesar de pequena, havia movimentação de pessoas e viajantes.

Nos romances sertanejos há o destaque da oposição entre campo e cidade, natureza e cultura, o que também se verifica em Inocência. Nesta obra, o campo representa um lugar intocável, mantêm-se inalterados os costumes, o patriarcalismo, a palavra jurada, a honra familiar, a submissão da filha ao pai. A cidade, que podemos representá-la pela presença de Cirino e Meyer, forasteiros que trazem a civilização e também a modernidade a lugares quase ermos, cria conflitos na medida em que há alteração na casa de Pereira quanto aos seus preceitos, que, inicialmente, encontravam-se inabaláveis.

Todavia, quando interferem, opinando sobre a posição da mulher naquele mundo arcaico, algo dever ser feito para que não se modifiquem os padrões já instituídos, tentando-se reparar aquilo que poderia ser mudado. Cirino, ao penetrar no quarto de Inocência sem a presença do pai, invade um lugar sagrado e intransponível para estranhos; os elogios incessantes de Meyer à moça marcam diretamente o posicionamento de ambos e convergem para o confronto da mentalidade do campo e da cidade.

Vimos, anteriormente, que Cirino é pessoa estudada e também saiu da região onde foi criado, percorrendo algumas localidades e estabelecendo-se no sertão, à procura do seu sustento com curas. O campo simboliza a possibilidade de riqueza e também o seu fim, pois é nesse lugar que encontra a morte, a degradação e a transformação. O sertão é um lugar estranho, forte, estático, implacável, majestoso, de adversidades marcantes e perigoso para quem o desconhece. Isso é sabido também por Taunay, que descreve: “em geral violências e assassinatos nas estradas se davam por dívidas de jogo e questões de mulheres. Aí sim, com facilidade e depressa ‘nasciam as cruzes à beira do caminho’, conforme o prolóquio popular”. (TAUNAY, 2005, p. 349).

O sertão torna-se seu lugar eterno, pois é palco da morte que o abrigará eternamente. Interessante notar que este espaço ermo será o lugar de sobrevivência, de alegria e morte da personagem.

A natureza, o sertão, o homem do interior e seus modos, são componentes que encontramos em Inocência, servindo de rememoração das impressões de Taunay, que viu e conviveu de perto com a realidade rústica, preocupado em não deixar de escrever nenhum detalhe que lhe serviu de modelo. Dessa forma, consideramos que não há a preocupação do autor em destacar elementos de caráter nacionalista ou fundar um nacionalismo literário, mas, sim, conforme Antônio Candido (1981) explicita, duas palavras poderiam sintetizar-lhe a obra: impressão e lembrança, pois o que há nela de melhor é fruto das impressões de mocidade, e da lembrança em que as conservou. Uso tais palavras intencionalmente, em vez por exemplo, de memória e emoção, para assinalar o cunho pouco profundo da criação literária de Taunay. A sua recordação não vai àqueles poços de introspecção, donde sai refeita em nível simbólico; nem equivalem as suas impressões ao discernimento agudo, que descobre novas regiões da sensibilidade. São dois traços modestos, que delimitam um gráfico plano e linear. (CANDIDO, 1981, p. 308-309).

Viajante e partícipe da guerra, para ele o sertão é aquilo que é bruto, forte invencível diante do homem, o qual deve subjugar e submeter à natureza. O sertão é o lugar quase inabitável em que hábitos e culturas antigos, em que a morte, a violência do sertanejo fazem parte dessa realidade rústica; em defesa da honra e da palavra dada, é empregada a violência como forma de limpar a honra familiar e masculina.

Parece-nos que, indiferentemente de alguns preceitos românticos ainda prevalecerem, Taunay em nenhum momento considera a sua obra uma representação do nacionalismo ufanista ou sertanejo. A obra representa recordações de acontecimentos presenciados no sertão do Mato Grosso que o marcaram bastante, apresentando ficcionalmente as pessoas, a natureza, os costumes desse povo do interior, conforme as suas palavras: “Aliás, nesse sertão, próximo já de vila de Sant’Ana do Paranaíba, colhi os tipos mais salientes daquele livro, escrito uns bons cinco anos depois de lá ter transitado”. (TAUNAY, 2005, p. 363).

As estratégias que o autor utiliza para reinventar a realidade, transportando sua visão de mundo ao leitor e fazendo dela uma ilusão, reportam-se à realidade. Beth Brait (1987) destaca na poética de Aristóteles o trabalho de seleção efetuado pelo poeta diante da realidade e os modos que encontra para entrelaçar possibilidade, verossimilhança e necessidade. Não cabe à narrativa poética reproduzir o que existe, mas compor suas possibilidades. Parece razoável estender essas concepções ao conceito de personagem: ente composto pelo autor a partir de uma seleção do que a realidade lhe oferece cuja natureza e unidade só podem ser conseguidas a partir dos recursos utilizados para criação.

Os elementos inseridos na narrativa a partir da realidade revelam uma perspectiva nova, o desconhecido que não interfere na continuidade do enredo, dando-lhe uma feição singular que o distingue das demais obras, pois “a introdução na obra literária de um material extraliterário, isto é, de temas que tem uma significação real fora do desenho artístico, é facilmente compreendida sob o ângulo da motivação realista de construção da obra”. (TOMACHEVSKI, 1978, p. 189).

O procedimento de integrar ao romance elementos exteriores à obra deve justificar-se pela sua contribuição, dando-lhe um caráter particular, evitando que a interferência prejudique os demais constituintes da obra. Segundo Benedito Nunes (2000, p. 74), a “ficção combina o imaginário como distanciamento do real imediato, com o poético que altera, modifica, reorganiza, sob nova perspectiva as representações da realidade. O nível ficcional do texto, fundado na elaboração poética da linguagem corresponde a uma variação possível do mundo real. Em vez de demitir o mundo, a ficção o reconfigura”.

Interessante uma passagem sobre a mímesis, em que é retomada a teoria de Freud sobre a identificação desconsiderando a relação do eu com o objeto copiado pela vontade ou possibilidade de transferir para a mesma situação em que se encontra o copiado. A semelhança do copiado e do modelo se dá pela interpretação e não pela coincidência visível. Mesmo porque essa coincidência não tem importância pois “não é seu caráter de cópia o traço substantivo, mas sim o processo de transformação que se opera”. (LIMA, 1984, p. 64).

Quando Taunay (2005), em suas Memórias, faz questão de retomar alguns trechos que serviram como fonte para sua obra prima, percebemos a sua preocupação em não deixar no esquecimento acontecimentos que o marcaram durante a sua viagem e informar aqueles que não puderam estar lá Taunay foi soldado militar do exército brasileiro, o que lhe deu oportunidade de observar os lugares, pessoas, costumes, e a guerra, que lhe serviu de inspiração para escrever. A sua participação constante, direta ou indiretamente, nas campanhas militares contribuíram para iniciá-lo nas escritas, obtendo muitos assuntos para escrever.

Comenta Maria Lídia L. Maretti (2006) que os seus escritos apresentam técnicas aprimoradas de descrição, tanto reproduzido a partir do seu dia-a-dia como de suas lembranças.

Ele discordava de Alencar quanto à idealização do sertanejo, que não cabia mais naquele momento, conforme ele mesmo escreve:

Fatal por muitos motivos foi às lettras brasileiras o prematuro desapparecimento de José de Alencar, apezar de alguns defeitos que tinha como escriptor, sua teimosia, o aferrado apego às formulas convencionaes, o subjectivismo contínuo de todas as suas observações e a falta sensível de exacta contemplação da natureza especial, em cujos seio se achava.

Basta dizer que transportou os pampas, vastíssimas planícies cisandinas, para a princia do Rio Grande do Sul, quando lá todo o terreno é profundamente dobrado — coxilhas, que se succedem umas às outras, cortadas, nos encontros, de arroyos e sangas. Basta lembrar todo os seus índios a fallarem a linguagem gongorica e poética que Chateaubriand, na sua por vezes intolerável idealisação, pôz na boca dos Natchez, fazendo Chactas, Utugamiz eméritos, disfarçados em selvagens do Meschacebé. (TAUNAY, [1933?], p. 54-55, grifos do autor).

Pelas viagens que contribuíram para escrever Inocência, não há inicialmente preocupação sobre o sertanismo, como Alencar, Franklin Távora e Bernardo Guimarães. Tenta-se encaixá-lo pelas manifestações romântica ou naturalista que a obra possa conter, discussão em que não adentraremos. Taunay figura mais a preocupação em descrever particularizando a natureza, o sertanejo, através da observação da realidade que tenta retratar no romance.

Inocência se destaca pelas peculiaridades. As epígrafes utilizadas na introdução dos capítulos do romance representam a presença do autor com cuja narrativa estabelece um diálogo e cria um novo efeito estético: indica as possíveis leituras do autor, sempre se remetendo à literatura clássica européia e incorporando a construção das personagens e das situações retratadas.

Além disso, as palavras grifadas, as notas de rodapé, as expressões próprias do linguajar da região situam o leitor ao momento presente da narrativa e o leva a esse mundo pouco conhecido, para estreitar as distâncias dos dois mundos diferentes, além de informar o público citadino sobre o lugar, as pessoas, os costumes desconhecido do mesmo e manter o leitor cativo a essa leitura.

A presença de notas do próprio autor referentes a alguns termos usados nas falas das personagens supõe que a linguagem do homem do sertão possa ser desconhecida ao leitor urbano e expressa a preocupação do autor em tornar acessível o entendimento dos diálogos para estes leitores.

A ironia do narrador na obra representa a crítica às personagens e situações que as envolvem. Ele intervém em alguns trechos, tornando-se uma figura quase ausente, diferenciando-se de outros romances, como os de Alencar, conforme comentário de José Maurício Gomes Almeida (1999), cujos narradores intervêm na narrativa freqüentemente para dar explicações sobre “ação das personagens, características psicológicas das mesmas, para sustentar a verossimilhança, fazer comentários” (ALMEIDA, 1999, p. 118), técnicas utilizadas nos romances europeus e importadas pelos escritores românticos.

Um estudo de Frederick Garcia (1970, apud MARETTI, 2006) sobre as diversas traduções de Inocência provoca comentários de alguns críticos sobre a mesma obra, um dos livros portugueses mais traduzidos depois dos Lusíadas. Segundo Frederick Garcia (1970, apud MARETTI, 2006), todo esse trabalho de tradução tinha o intuito de divulgar o Brasil. Isso nos lembra um dos preceitos românticos de apresentar elementos oriundos do país e, dessa forma, descobrir a originalidade, o primitivo da nação, demonstrando a preocupação ainda em apresentar os elementos espaciais, além do homem sertanejo, realmente digno do país, facilitando a conquista da consagração e sucesso internacional do romance Inocência.

A partir daí surge uma concepção contrária ao nacionalismo romântico tão apregoado durante o período de tranqüilidade, às vezes perturbada por disputas partidárias de pequenas proporções pela guerra da Prata. Essa paz aparente foi estremecida pela guerra do Paraguai por volta de 1865 a 1870, e a temática nacionalista retorna revolvendo a responsabilidade dos povos em constituir uma nação coletivamente, pois estes se encontravam em províncias isoladas e distantes entre si, ignorando-se uns aos outros, comportamento mudado pelo sentimento comum que despertara o patriotismo causado pela guerra.

Esse novo acontecimento propiciou um intercâmbio entre as províncias, a união dos povos para lutar contra o inimigo comum que ameaçava a soberania nacional: o Paraguai. A população se armava com espadas e discursos inflamantes. Segundo José Veríssimo (1981, p. 220), o “amor, a morte, o desgosto da vida, os queixumes melancólicos remanescentes do romantismo cederam lugar a novos motivos de inspiração”.

Surgem novos acontecimentos que contribuíram para a discussão da posição adotada pelos críticos até então em relação ao nacionalismo romântico. A partir desse momento não caberia mais seguir com esses pressupostos românticos. Defendia-se um novo patamar para o nacionalismo, não o rejeitando, mas era legítimo e necessário. José Veríssimo (1954) faz a seguinte avaliação:

Iniciava-se, porém, a reação ao romantismo, sob o seu aspecto de nacionalismo exclusivista. Após largos anos de paz, de tranqüilidade interna, de remansosa vida pacata sob um regime liberal e bonachão, apenas abalada por mesquinhas brigas partidárias que não lograram perturbá-la, rebentou a guerra do Paraguai, que durante os últimos cinco anos do decênio de 60 devia alvoroçar o país. Pela primeira vez depois da Independência [...] sentiu o povo brasileiro praticamente a responsabilidade que aos seus membros impõem estas coletividades chamadas nações. Ele, que então vivia segregado nas suas províncias, ignorando-se mutuamente, encontra-se agora fora das estreitas preocupações bairristas do campanário, num campo propício para estreitar a confraternidade de um povo, o campo de batalha. De província a província trocam-se idéias e sentimentos; prolongam-se após a guerra as relações de acampamento. Houve enfim uma vasta comunicação interprovincial do Norte para o Sul, um intercâmbio nacional de emoções, cujos efeitos se fariam sentir na mentalidade nacional. (VERÍSSIMO, 1954, apud MARETTI, 2006, p. 262-264).

Assim, acreditamos que delegar à obra Inocência a missão de exteriorizar as peculiaridades que expressassem o espírito nacional, não competiria para tal tarefa. Na obra, o amor romântico é narrado no interior do país, especificamente no Brasil Central, relacionando a descrição minuciosa da natureza, hábitos, costumes e do cenário, elementos que proporcionam um lugar distinto dos demais romances sertanistas. O autor transformou toda a sua experiência de viajante e a deslocou para a narrativa, trazendo aspectos desconhecidos em outras obras: a descrição do ambiente, a fala do sertanejo, o seu modo de pensar e agir, que não constitui símbolo de orgulho ufanista tão valorizado pelos românticos.

A tendência sertanista manifestou através das descrições do homem do interior, estudar seus usos, costumes, vida social, ambiente natural, de onde imprimia uma vida singular, existencial. Taunay viu esta realidade de perto: o sertanejo e sertão bruto. Essa aproximação a outra realidade pouco conhecida de Inocência revelou um Brasil com sua natureza e tipos humanos ainda não explorados. Além disso, o romance segue a tendência romântica de protótipos românticos consagrados, jovens dominados pela paixão pais despóticos no exercício do pátrio poder, noivo violento, modelos sugestivos que Taunay tomou para o seu romance.

Assim, acreditamos que o seu romance representa mais do que simbolizar uma heroína romântica ou manifestar ideais nacionalistas, era traduzir um sertão visto por ele, impregnado de recordações dos lugares visitados, dos habitantes do interior, impressões que o marcaram dessa realidade pitoresca e distante no interior do sertão central.

---
Fonte:
LUCIENE CARMO NONATO OLIVEIRA: "Tradição, nacionalismo, angústia: um estudo sobre a obra Inocência, de Visconde de Taunay". (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em Letras — Curso de Mestrado em Teoria Literária do Instituto de Letras e Lingüística da Universidade Federal de Uberlândia para a obtenção do título de Mestre em Letras. Linha de pesquisa: Perspectivas Teóricas e Historiográficas no Estudo de Literatura. Orientador: Prof. Dr. Ivan Marcos Ribeiro). Uberlândia, 2009.


Nota:
A imagem inicial inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

27/05/2016

Dom Pedro II, de Visconde de Taunay


Para baixar o livro gratuitamente, clique na imagem e selecione-o em: 
↓
---
Disponível provisoriamente em "Google Drive", no link abaixo:
↓
---

Prefácio

Pela pessoa de Pedro II professava o Visconde de Taunay a mais profunda admiração, sentimento que lhe vinha da infância e constantemente acendrado desde os primeiros contatos com o monarca.

Era-lhe esta feição bastante de procedência atávica pois seu Pai, um dos preceptores do Imperador, passara durante quarenta anos a ser o constante e fiel amigo do Soberano, seu antigo aluno, e de várias disciplinas. E igualmente dedicara as veras de um apreço extraordinário às faculdades intelectuais e ao caráter do augusto discípulo que, aliás, numerosas vezes, e publicamente, lhe retribuiu esta expressão de elevadíssirna estima, nos termos do mais alevantado apreço e reconhecimento de méritos.

Em Pedro II via o Visconde de Taunay não só o homem de rara cultura, sumida por larga inteligência e prodigiosa memória. O que nele de mais notável enxergava vinha a ser a estatura moral.

No Bragança magnânimo percebia uns dos mais acabados tipos representativos da grandeza humana. Tinha-o como a encarnação, a mais eminente do patriotismo, da honestidade, da retidão e do amor a tudo quanto considerava nobre e belo.

Jamais de sua parte houve cortesania na exteriorização destes sentimentos e sim apenas a expansão do entusiasmo e da sinceridade.

Se a Pedro II, reinante, frequentes vezes se dirigira, em laudatória frase, de Dom Pedro de Alcântara, destronado pobre, semissolitário e exilado, muito mais arroubadamente falou numa época em que o dinasta deposto contava restrito número de amigos.

Poucos destes houve tão constantes e pertinazes quanto o cortesão da desgraça, autor deste volume.

As notícias da superioridade imensa com que Pedro II suportava "o rigor da iníqua sorte", e a perda "do trono e da majestade, quando a dois passos só se sentia da Morte", comoviam ao último ponto e deslumbravam o seu já tão arroubado admirador. E este sentimento provocava a sua contínua proclamação de um espanto causado pelo espetáculo de tamanha grandeza de alma muito acima de qualquer expectativa.

A morte do grande Bragança causou-lhe a maior e a mais violenta dor. Ouvi-o soluçar longo e longo tempo à tarde de 5 de dezembro. E viveu imerso, dias e dias a fio, na mais negra melancolia.

Pouco antes de sua morte disse-me no tom da mais profunda convicção: "Não sei se te caberá a grande felicidade que alcancei: a convivência próxima, e prolongada, com os homens de imensa elevação como o Imperador e Rio Branco, tipos verdadeiramente grandiosos."

Neste novo volume da póstuma de meu Pai reuni os seus discursos de saudação a D. Pedro II, esparsos na Revista do Instituto Histórico Brasileiro, algumas páginas por ele publicadas sobre o soberano, pouco antes de 15 de novembro, páginas aliás de errada psicologia em que se afirma da robustez do trono brasileiro, condições já então inexistentes. E adicionei-lhes os excertos inéditos do Diário íntimo, relativos à convivência do Senador por Santa Catarina com o monarca, em 1889 e a uma série de fatos referentes ao soberano destronado até à sua morte, a 5 de dezembro de 1891. Como apenso estampei a Fé de ofício de Imperador do Brasil, documento nobilíssimo da lavra do imperante deposto e hoje quase inteiramente esquecido, e as Cartas do exílio, endereçadas pelo magnânimo príncipe ao seu fiel partidário.

Pelo tom de diversos tópicos destas páginas íntimas verá o leitor que quem as redigiu não era um cortesão do poder. Discutia com o seu monarca e dele às vezes discordava e divergia, largamente, com toda a franqueza e convicção. Não era, aliás, dos que confiavam na persistência da instituição monárquica no Brasil, após a morte do segundo Imperador, como diversos tópicos de seu Diário íntimo documentam.

A largueza da visão bem lhe permitia divisar quanto o prazo do império brasileiro estava intimamente ligado ao da vida do filho de Pedro I.

Em outro volume espero completar este depoimento das relações do autor de Inocência com Dom Pedro II, por meio da publicação de novos trechos inéditos seus e de outros do punho do Imperador, colecionados e divulgados pelo amigo dos dias de fastígio e sobretudo dos da adversidade e solidão. 


S. Paulo, 10 de março de 1933. 
AFFONSO DE E. TAUNAY

21/06/2015

Goiás, de Visconde de Taunay

Para baixar o livro, clique na imagem e selecione-o em: 
↓
---
Disponível também em "Minhateca", no link abaixo:


---

Contexto crítico de Taunay

Contexto crítico de Taunay Emerge agora questionar: nos variados níveis de abordagem do complexo romântico, qual o valor e a função da obra de Alfredo Taunay?

Na falta de um contorno mais específico, querer definir/enquadrar a obra e o escritor em estilos específicos de época, não é a intenção deste estudo. Mas aqui, essa totalidade é gênese e explicação, pois equilibrar os dois aspectos produz o efeito de sentidos no leitor. No primeiro caso, abre perspectivas de diferentes leituras que, de alguma forma, combatem a limitação da experiência literária; no outro, desperta o desejo de penetrar particularidades das obras que libertam a sensibilidade e a visão de mundo.

Vimos que determinados componentes de origem, como vinculações de pensamentos remotos e contemporâneos ao escritor e as mudanças da sociedade, podem ser postos em situação de análise, tematizados e lidos ao lado das abordagens estéticas. Convém esclarecer, em vista disso, que é inevitável o apelo à cultura, para que se possa explicar relações de sentido, entre outros elementos significativos que fizeram parte do complexo histórico, como a viagem e a questão da natureza transformada em paisagem.

Posicionamos, no item anterior, sobre a diversidade de expressão e de interpretação do fenômeno romântico no mundo europeu, totalmente adaptado, no Brasil, a uma “fonte que verdadeiramente lhe pertencia” (DENIS, 1978, p. 36)20. A literatura assumia, assim, uma fisionomia própria, necessária ao momento da independência, feita sob o signo do Romantismo.

Aos traços maiores do contexto, agregaram-se as formas de expressão, que produziram diferentes sentidos, revelaram o homem sedento de liberdade, ansioso por reconquistas de valores e de territórios, para alargar o próprio espírito e dominar o futuro. Daí a figuração mítica da nação e do herói, elementos necessários à afirmação cultural.

Até aqui entendemos que o acordo entre a busca do sentido do nacional e a construção de emblemas configurativos dessa idéias de nação, está feito com a historiografia literária. No entanto, o cenário político transformou-se e, nos anos 50/60, do século XIX, com a extinção do tráfico dos negros, o Brasil entrou num período de crises no regime de governo e nas instituições que o sustentavam.

Alfredo Taunay, em plena Guerra da Tríplice Aliança, iniciou seu labor literário, impulsionado pela viagem, ou melhor dizendo, elaborou a matéria-prima maturada pelo exercício da observação. Já não vigoravam somente as atitudes do eu romântico incapaz de resolver os problemas das diferenças sociais, os suspiros poéticos, as saudades, os códigos clássicos, exacerbação religiosa, a criação idealizada do herói e da natureza, mas o “contato de uma cultura citadina e letrada com a matéria bruta do Brasil rural, provinciano e arcaico” (BOSI, 1988, p. 155).

Esse era o “verdadeiro” Brasil ou a necessidade de (trans)fusão do sentido nacional? O sentido que Taunay tentou imprimir pode ser visto, pelo alcance de sua obra, na explicação da existência de dois “brasis”: o da “face culta da metrópole carioca e das capitais de algumas Províncias; e outro, da face oculta, diferenciada”, mas não menos necessária ao projeto de integração nacional (ibidem).

Taunay construiu-se personagem da história política e literária brasileira por “germes de origem”. Um deles é o de paisagista, “inoculados desde o berço e reforçados [...] pelos espetáculos inolvidáveis dos múltiplos panoramas do Rio de Janeiro, [...] sob a indicação do dedo mestre do pai”; o outro é o de escritor, pela “ação poderosíssima de longas e custosíssimas viagens pelo grande oeste pátrio, por São Paulo, Minas, Goiás e Mato Grosso feitas [...] aos vinte e dois anos [...]” (ROMERO, 2002, p. 407). Duas pontas das lanças utilizadas pelo civilizador, no caso Taunay, colocam-se frente ao povo a ser civilizado no interior do Brasil. Na busca do outro, foi despertado para o talento e o gosto de escrever, aspectos que a crítica compreendeu de variadas formas, muitas vezes, em detrimento de algumas qualidades dignas de nota.

Um panorama histórico-literário pode dar conta do que se pretende explicar aqui.

Da participação ativa nas viagens e na vida pública brasileira do Segundo Reinado, Alfredo Taunay integrou uma lista de nomes que soma ao de Joaquim Nabuco 60 e André Rebouças, todos vinculados, de alguma forma, ao Imperador Pedro II. Conhecer o pensamento dessa época é conviver com uma parcela da forma como se pensava o Brasil, mesmo que Taunay (meio francês, meio brasileiro) possa significar uma espécie de contradição que, segundo Sílvio Romero (ibidem), parece intrínseca e fundamental para compreender a causa de suas lutas pela imigração e contra a escravidão.

Situando a prosa romântica, Nelson Werneck Sodré (1960, p. 298-9) diz que o “verdadeiro Brasil”, original, puro, seria o do interior, o do sertão, “imune às influência externas, conservando em estado natural os traços nacionais”. Não por acaso, o índio foi focalizado como emblema nacional e, posteriormente, não representando mais a totalidade de caráter dessa expressão, foi substituído, mesmo que não totalmente, pelo sertanejo, trabalhador da terra e em harmonia com o cenário natural, e também romântico, embora carregado de outros aspectos singulares.

No estudo sobre “três romancistas de costumes rurais”, Lúcia Miguel- Pereira (1952) defendeu a tese – para Afrânio Coutinho (1955) “duvidosa” – da supremacia dos costumes sertanejos sobre as personagens da obra Inocência. Para ela, o romance aponta “sérios defeitos de técnica, complexidade e mistério”, apesar de o escritor conseguir criar um “mundo próprio das personagens” (op. cit., p. 107 e 110).

Para Antonio Candido (1997), Alfredo Taunay é tido como “mediano” e ao mesmo tempo como um “caso raro na literatura do tempo, para a qual trouxe uma rica experiência de guerra e de sertão, depurada por sensibilidade e cultura nutridas de música e artes plásticas” (op. cit., vol. 2, p. 266 e 275). As opiniões, a respeito do conjunto da sua obra, não encontram muita guarida entre os críticos, incluindo os contemporâneos. Pressupõe-se que ocorre certo desconhecimento sobre a contribuição da obra de Alfredo Taunay para a anexação do conceito de interior brasileiro, com as descrições de cidades, campos, natureza e homem. Um exercício do olhar que tornou visível o espaço desconhecido, mas também marcou uma forma de apropriação, estabelecendo uma história que se fez pelo imaginário. Neste caso, o discurso da descoberta foi acentuado, posteriormente, pela elaboração das lembranças da guerra, da política imperial, da persona do Imperador e dos acontecimentos nacionais do Segundo Império.

O que Antonio Candido analisa como peculiaridade cultural, Sílvio Romero21 reconheceu, nas raízes do pensamento de Alfredo Taunay, como “sentimento de paisagem” que se sobreeleva mais que a imaginação, o vigor e a poesia, quando comparado a românticos como Alencar, julgamento que foi seguido por quase toda uma geração de críticos.

Com José Veríssimo22, a obra de Alfredo Taunay aparece como “fórmula” literária e “cópia” em que falta “coesão e intensidade que lhe dessem mais solidez e distinção”, o que, para Afrânio Coutinho (1955, p. 906), faz com que o escritor se perca “na descrição da natureza, nas anotações dos costumes e, talvez, na excessiva preocupação de fidelidade [...] do que resulta certa falta de unidade, certo desequilíbrio no tônus do romance”. Nesse aspecto, Olívio Montenegro (1953) coloca-se ao lado de Coutinho ao considerá-lo mais um homem de ciência do que puro escritor. Montenegro ressalta, ainda, o descritivismo, a “maníaca cor local” ou “os dois olhos de Narciso” do romance Inocência (p. 72-78).

Outros críticos não descem às minúcias dos anteriores e contentam-se em trazer a obra de Taunay, mesmo com as repetições que se sucedem, como representativa do “pitoresco da paisagem e da língua” (SODRÉ, 1960, p.301). Ronaldo de Carvalho (1937, p. 262) defende o artista como conhecedor da “justa medida das cousas”. Para ele, com Inocência, “começou o romance de amor a perder aquelle sainete puramente sentimental que lhe imprimira Macedo [...], desenhando as paixões com menos violência e as figuras com mais naturalidade do que era commum”. João Ribeiro (1952, p. 205) destaca alguns “traços novos” que compõem a fisionomia de Taunay, como as suas ligações com a Arte, o epos contido em A retirada da Laguna e a “suavidade de estilo” de Inocência.

A partir desses posicionamentos iniciais, a historiografia literária começa a visualizar outros aspectos da obra do escritor, reunindo ingredientes do contexto (aqui entendido como o conjunto das idéias e o diálogo entre textos). José Aderaldo Castello (s/d), lançando mão das Memórias do Visconde de Taunay (1946), demonstra como o escritor obteve elementos essenciais para a elaboração de Inocência e como esta obra está imbricada em outras, como Viagem de regresso e Céus e terras do Brasil (p. 47- 53). Numa pequena nota, em Presença da Literatura Brasileira (1976), Castello diz, em conjunto com Antonio Candido, que Taunay é, “sobretudo, visual, primando nas descrições; mesmo a sua narrativa, freqüentemente muito boa, se traduz em termos plásticos” (p. 79).

Vai-se, desta forma, afunilando uma visão menos formal de um regionalismo artificial, para se compreender os elementos constituidores do nacionalismo literário brasileiro que consistiu, basicamente, em “escrever sobre coisas locais” rumo a uma “intenção programática, a resolução patriótica de fazê-lo” (CANDIDO, 1997, p. 99). Não mais a obra isolada nas situações narrativas, mas as circunstâncias de sua realização. Não mais a “falha da visão” do condicionamento social, mas o cuidado com o “vínculo entre a obra e o ambiente, depois de termos chegado à conclusão de que a análise estética precede considerações de outra ordem”. Sem a dissociação das visões, há que “fundir texto e contexto numa interpretação dialeticamente íntegra, em que tanto o velho ponto de vista que explicava pelos fatores externos, quanto o outro, norteado pela convicção de que a estrutura é virtualmente independente, se combinam com momentos necessários do processo interpretativo” (CANDIDO, 2000, p. 3 e seguintes). Assim, compreender as condições sociais torna-se necessário para des-cobrir significados para construir outros olhares, desconstruindo e compondo singularidades.

Nessa vertente, a sociologia da literatura e o comparativismo tentam aproximações entre as obras, elaborando o objeto artístico, pela interpretação estética que assimilou a dimensão social como fator de arte (op. cit., p. 7).

Alceu Amoroso Lima (1948), em estudos sobre a contribuição à história do modernismo literário, coloca Alfredo Taunay e Euclides da Cunha no “balanço nacional”. Ambos militares, em épocas e operações de objetivos diversos, legaram “grandiosas sínteses de nossa nacionalidade”, apesar da impossibilidade de compará- los. De qualquer forma, se aquele nos deu “uma página imortal de dor e de heroísmo”, da nacionalidade, este “as mais poderosas, as mais profundas, as mais grandiosas sínteses de nossa nacionalidade em esboço”. Um a “tragédia da consciência”; outro, a “tragédia da terra” (p. 292).

Nesse aspecto, na perspectiva dos universos distintos do regional em Alencar e Taunay, José Maurício Gomes de Almeida (1981) privilegia um estudo minucioso sobre o sentido das epígrafes de Inocência, até então, em total desatenção crítica. Um artifício do narrador para “dialogar com a sua narrativa e, por via indireta, com o leitor”. Apesar das diferenças e da distância de trinta anos que os separam, a analogia das situações “trágicas” de páginas da história do Brasil está na facilidade de composição descritiva do regionalismo. Dessa forma, o regional deixa o “localismo redutor”, para o alcance de uma “estética global” (op. cit., p. 93-7). Ou seja, os sentidos percorrem o texto de dentro para fora e nas beiradas, no desejo de poder dizer em todos os quadrantes, inclusive nos universais.

Outros aspectos do potencial de universalidade contidos na narrativa de Alfredo Taunay chamam atenção. Massaud Moisés (1985) e Temístocles Linhares (1987) relevam a construção dos tipos nos romances do escritor. O primeiro fala no “equilíbrio dialético” da narrativa de Inocência e “da cosmovisão de Taunay (MOISÉS, op. cit., p. 281); o outro atesta a “contribuição nova” aos novos rumos do sertanismo brasileiro “não propriamente em favor de maior aproximação com a realidade, mas antes de mais rica e profunda imaginação na esfera criativa” (LINHARES, op. cit., p. 155). Wilson Martins (1977), meio que revertendo um antiga polêmica entre Taunay e Alencar23, sugere certa influência de Inocência sobre O Sertanejo, que “repete, no título, na paisagem, nos caracteres e na ação, a temática inaugurada por Taunay, com Inocência, e que, como já foi observado, permaneceria para sempre no foco central do nosso regionalismo” (p. 508).

Nesse vasto panorama crítico-historiográfico, Antonio Candido (1997) não se deixa levar pelas antigas cisões de estilos literários. Avaliando o horizonte da segunda metade do século XIX, inscreve a obra de Taunay no “nacionalismo literário”. Um escritor que, como poucos, efetuou “levantamento tão cabal do país [...], na ficção e no documentário, só fez descrever as suas cidades e campo, a natureza e o homem, preocupado em registrar, depor, interpretar” (p. 266). Assim, o regionalismo será visto como “programa e critério estético” que a “sensibilidade e o bom senso” de Taunay exprimiram (p. 267-282), o que diferencia o escritor de outros regionalistas. A combinação do estético e do pragmatismo da formação fundamenta o conjunto da obra e dimensiona as características da sua personalidade.



---
Fonte:
Olga Maria Castrillon-Mendes:
“Taunay viajante e a construção da imagética de Mato Grosso”. (Tese apresentada ao Curso de Letras do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas - Instituto de Estudos da Linguagem - como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Letras. Orientador Prof. Dr. Carlos Eduardo Ornellas Berriel). Campinas, 2007.

23/11/2014

No Declínio, de Visconde de Taunay

 No Declínio, de Visconde de Taunay
Para baixar este livro gratuitamente em formato PDF, acessar o site  do “Projeto Livro Livre”: http://www.projetolivrolivre.com/
(
Download)
↓
Os livros estão em ordem alfabética: AUTOR/TÍTULO (coluna à esquerda) e TÍTULO/AUTOR (coluna à direita).



---


A obra do Visconde de Taunay nos (tortuosos) caminhos da ficção

As descrições da paisagem brasileira, feitas por Alfredo Taunay, em especial, da paisagem mato-grossense, que propomos a analisar nesta tese, ganharam dimensão a partir da sua primeira obra Scenas de Viagem (1868), cujos manuscritos foram “lidos e corrigidos a lápis pelo Imperador” (TAUNAY, 1948, pp. 154, 301 e 302). Nela, há uma tentativa não só de registrar as impressões do olhar-viajante, mas de sintetizar muito do que escreveu em seguida.

Com essa obra, nota-se forte vinculação com as anotações do Relatório Geral, redigido durante a participação na guerra, em 1865. O relato encontra-se dividido em dois itinerários, do Rio de Janeiro ao Coxim, e do rio Taquari à Vila de Miranda, constituindo-se em um diário minucioso da “saída da corte” (p. 81), em 1º de abril de 1865, a 16 de outubro de 1867, quando “muitos dos nossos companheiros retiram-se de fadiga a buscarem em outros climas o único meio para lutar com tão medonha enfermidade, isto é, um ar mais puro, uma atmosphera menos corrupta e cheia de miasmas paludosos” (Alfredo TAUNAY, 1867, p. 276-7).

Publicado em 1867, é reimpresso com retificação, notas e cuidadosa revisão pelo próprio autor, na Revista Trimensal do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Tomo 37, parte segunda, que utilizo neste trabalho. A presença das notas, nesta Revista, dá ao  Relatório uma abrangência significativa pelos ingredientes informativos, críticos e, principalmente, pelo que considero desvios oficiais, onde é possível perceber os detalhes particulares do autor que servem, não só para ampliar a compreensão dos dados, mas para marcar, pausadamente, as impressões e sensações que aqueles fatos deixaram na memória. Essa memória é “indicadora do movimento de determinado grupo que, ao definir o que é comum a um grupo e o que o diferencia dos outros, fundamenta e reforça os sentimentos de pertencimento e as fronteiras sócio-culturais” (POLLAK, 1989, p. 3).

O fato de determinados elementos da obra de Taunay pertencerem a uma região específica, não quer isso dizer que ela [a obra] se regionaliza, mas acentua a noção de que a memória nacional (pretendida por Taunay) constitui a forma mais completa de uma memória coletiva, como explica Halwachs (1990), isto é, a lembrança dos outros são reconstruídas para integrar a memória coletiva da nação. Por outro lado, nas lembranças existem os silêncios/esquecimentos, cujas fronteiras estão em constante deslocamento, pois são organizadas pela linguagem, portanto, passível de intervenções.

Desta forma, pode-se dizer que as notas marginais do Relatório ampliam, num outro momento (o da revisão), os dados coletados em primeira mão, constituindo paratextos de outras anotações ou da própria memória. Pressupõe-se que foram reutilizados em variados momentos da sua obra, como dados reais ou como elemento ficcional: “Foi o que fez o substituto no commando [...], que ordenou a partida d’aquelle local fatal a 24 de junho (77).[...]”. A nota numerada (77) diz o seguinte: 

A força deu um verdadeiro arranco. A transposição dos pantanes foi uma coisa horrorosa. Caminharam os soldados dias inteiros com agua pela cintura e, começando o sol a seccar os charcos, mais difficil tornou-se ainda romper pelos extenso lameiros. Nos pantanaes de Madre e Cangalha em que o lodo não dava pé, muitos lá ficaram atolados para sempre. O estivado coberto de feixes de macega serviu para os que passaram primeiro: a retaguarda, mulheres e bagagens tiveram que metter n’uma lama visguenta que serviu de abysmo á muita gente. O desespero salvou a outros (p. 264). 

Tal sentimento de certo heroísmo dos soldados brasileiros fará parte da composição da obra    A Retirada da Laguna, tanto nos momentos da caminhada em direção ao cenário da guerra, como no retorno forçado. O estilo narrativo da nota interrompe a descrição, expandindo-a. O leitor, acostumado ao tom oficial do relato, é absorvido pelo espetáculo dramático, ficando entregue à “pausa” colocada pelo texto (HAMON, 1976, p. 60). Neste caso, o diário visto como relação do acontecimento, como memória, relato e crônica – seriação datada dos fatos cotidianos – remete a pequenas histórias, implicando, portanto, uma subjetividade, em que o sujeito “constitui o seu traço distintivo”, porque a enunciação é que interessa em primeiro plano, inscrevendo o processo de produção e a forma como o sujeito se insere naquilo que diz (op. cit., p. 13).

Assim, à necessidade de contar, aliada ao prazer da história (para Barthes, 1998, “o sabor da palavra”), junta-se ao “prazer do discurso”, que gera o prazer do conhecimento (HAMON, ibidem, p. 15). De certa forma, é como Taunay buscava compor sua narrativa, mesmo no calor da caminhada. Vê-se, no roteiro percorrido pela Comissão, as diversas imagens que se configuram, ora em harmoniosa sintonia do homem com a natureza, ora em inquietantes descrições da “influencia lethal dos pântanos” (Alfredo TAUNAY, 1874, p.277). As imagens são sempre fiéis ao observado e ao vivido: o registro, os estudos e as virtudes que imperam no soldado brasileiro, deixando bem patentes o seu “caracter eminentemente soffredor e resignado e a subordinação e disciplina que lhe são naturaes” (idem, ibidem).

Ambas as “fidelidades”, ao objeto observado e à postura dos homens recrutados para a guerra, serão componentes dessa imagem de que tratamos, visto que estarão baseadas nas anotações: “Em Uberaba comecei a redigir o Relatório Geral da Comissão de Engenheiros, reunindo as notas que os colegas me entregavam e afinal deixaram de ministrar-me, o que se tornou mais cômodo para mim e para eles. Aos meus cuidados ficou tudo entregue” (Alfredo TAUNAY, 1948, p. 132). Nesse panorama, a escrita é produzida sob o efeito direto da guerra em Mato Grosso, isto é, de 1865 a 1868, surgem quase que concomitantemente, três obras: (a)Relatório Geral da Commissão de Engenheiros junto às forças em expedição para a Província de Matto-Grosso; (b) Scenas de Viagem e (c) a primeira parte, em francês, de A Retirada da Laguna.

Essas obras terão em comum, além do cenário da guerra, sentimentos semelhantes, porque foram frutos de uma experiência-limite do jovem escritor tomado pelo clima de tensão e pelas marcas indeléveis deixadas pela vivência e pelo exercício estético. Quando Taunay registra o cenário da guerra, comporta-se como relator do diário que dá origem ao Relatório, e como recriador desses fatos (ficcionista), nas outras duas obras.

Tantos choques, porém, tantos e tão duros trabalhos deviam ter consequencias que mais vieram fazer resplandecer o espirito de resignação e dedicação já tão experimentado da columna expedicionária. Moléstia terrível e desconhecida até então n’esses lugares grassa mortífera entre os officaes e soldados. A paralysia dos membros inferiores rouba-nos vidas preciosas, e em menos de quarenta dias oito officaes succumbem. Muitos soldados morrem (Relatório Geral, 1867, p. 267).

As mil difficuldades que embaração a marcha das forças, a peste, a fome que acoommeterão os nossos infelizes soldados, o fallecimento de officiaes e afinal do commandante o bravo general Galvão, erão as causas d’essa demora desesperadora que, retendo a expedição em mortíferos paúes, ia, mezes depois, produzir a medonha enfermidade, - a paralysia reflexa -, adquirida n’aquelle período fatal (Scenas de Viagem, 1868, p. 107)

Seguiu-se a este dia cruel uma noite tal como temíamos. No dia 20, pela manhã, o tempo, a princípio chuvoso, clareou, e o sol logo se tornou ardente; os animais avançavam pouco, os homens se arrastavam, com a morte sob os olhos e dentro do coração (A Retirada da Laguna [1868] 1997, p. 190).

Nos três fragmentos, é marcante a imagem da destruição e da morte, símbolos de uma situação política pela qual passava a própria nação. A guerra sinaliza a ruína, pois é como a doença que vai minando as entranhas, paralisa os membros e anuncia a morte. O tom mais oficial, do primeiro fragmento, mostra o “narrador descritivo” (ALPERS, 1999), que olha os fatos de dentro, portanto, expectador e participante. Nos outros dois, o tom é mais pessoal, não deixando dúvidas sobre o desfile de infortúnios pelos quais a Comissão de Engenheiros teria que passar. As impressões particulares são mais fortes, porque o narrador está tomado pelos acontecimentos que marcam homens perdidos em meio a uma guerra de parcos e infrutíferos planejamentos, como atesta Sérgio Medeiros (2004) em suas análises sobre as memórias deixadas por Taunay.

Na análise de Hamon (1976, p. 57), o cenário passa para o primeiro plano pois há interrupção na narrativa. Aos olhos do leitor, as circunstâncias se pormenorizam (choques, resignação, moléstias, paralisia, morte...), numa gradação que vai do movimento à inércia, da vida à morte, como é o próprio movimento da guerra, presente nos trechos citados acima.

Esses mesmos sintomas estarão presentes nas obras que se seguirão a essas três. Embora tenham sido escritas na segunda metade da década de 60, só circularão nas primeiras décadas do século XX: Visões do Sertão, Marcha das Forças (Expedição de Matto Grosso) e   Em  Mato Grosso Invadido (1866-1867 – Do Rio de Janeiro ao Coxim), reeditadas por Afonso d’Escragnolle Taunay, filho do escritor, em 1923, 1928 e 1929, respectivamente.

Sem outra preocupação, pelo que se pôde observar, senão a de comercializar a obra – pode-se até dizer que o historiador subestima a obra do pai – essas edições seriam o resultado de compilação de inéditos, de publicações na imprensa, de reedições, a partir do  Relatório do Ministério da Guerra e da Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, de forma bastante desordenada. Tal fato trouxe certa dificuldade para a composição exata da cronologia do conjunto da produção do Visconde de Taunay. Embora o objeto desta tese seja o da exposição crítica da sua obra ambientada em Mato Grosso, não foi possível desvencilhar-se do conjunto dela.

Pressente-se que, entre as obras, há uma certa tendência de esboço de um projeto literário voltado, não só para a necessidade de cumprir a tarefa a que se viu destinado, mas de construir uma imagem do interior brasileiro que, infelizmente, não foi observado pelo filho durante a publicação dos inéditos.

 Estamos, pois, dividindo a obra de Taunay, escrita e publicada em vida, em três fases: a primeira vai até 1870, quando retorna da sua segunda participação na guerra contra o Paraguai e conclui o Diário do Exército, do qual foram impressos apenas quinhentos exemplares, pela Tipografia Nacional. Tem a Guerra do Paraguai como propósito maior da escrita, exercendo fortes influências na sua formação de escritor e, conseqüentemente, no conjunto de sua produção intelectual.

A segunda, de 1871 a 1889, é a mais profícua, tanto pela participação direta na vida pública, quanto pelo acompanhamento feito, pelo próprio autor, das várias edições dos seus textos. Nesse período, é lançado o romance de estréia    A Mocidade de Trajano, sob o pseudônimo de Sílvio Dinarte, pela Tipografia Nacional do Rio de Janeiro, e a primeira versão integral de   A Retirada da Laguna,  pela mesma gráfica, cujas anotações ainda passariam por um processo de reelaboração. Esta fase constará das produções decorrentes das anotações de viagens e da sua participação na vida pública, tendo publicado, de 1872 a 1874, os romances Inocência (1872), sua obra mais conhecida, mais editada e mais traduzida em outros idiomas, e Lágrimas do Coração (1873) – primeiro romance urbano, editado por F. Thompson, no Rio de Janeiro.

A terceira fase vai da proclamação da República até 1899, ano do seu falecimento, quando sai publicada a obra No declínio. Nesse período estará escrevendo Questões de imigração (1889); Trechos de minha vida(1890), posteriormente designada apenas como Memórias; A cidade de Mato Grosso (1891); Império e República (1891); o romance  O Encilhamento (1894); a  Biografia do Visconde de Beaurepaire Rohan (1894);  Dias de Guerra e de sertão (1894);  Como me tornei kneippista (1896); A minha escolha senatorial, Reminiscências e Homens e cousas do Império (1897); reedição de  Ouro sobre Azul (1897);  Estrangeiros ilustres no Brasil (1897). Desta última, salienta-se o importante trabalho biográfico sobre uma das figuras mais ilustres da vida pública de Mato Grosso, Augusto Leverger, o Barão de Melgaço, um almirante francês que muitos estudos desenvolveu durante suas viagens pelo Brasil, especificamente sobre a região do Estado. Cita-se, ainda,  Apontamentos biográficos sobre o capitão de artilharia João Batista Marques da Cruz (1897) e a segunda edição de Dias de guerra e de sertão (1898).

Nessa proliferação de escritos, Taunay parece posicionar-se como um escritor em exercício. Recria suas impressões e lembranças, relê seu contexto e revisita a memória. Neles, privilegia a constituição de uma imagem de Brasil. Imagem, muitas vezes, repetitiva, mas que recompõe quadros de um tempo, de um lugar e de um ideário de época, com pouca renovação do tema. Um trabalho de depuramento da memória e da reelaboração constante dos dados coletados. Tais elaborações estarão presentes nas obras Ierecê a guaná, Histórias Brazileiras, de 1784, e, ainda, as anotações de Narrativas Militares (1878). Aparece, também, a primeira tradução de A Retirada da Laguna (1874), por Salvador de Mendonça, pela Tipografia Americana, do Rio de Janeiro. Em francês, redige “com destino a uma revista européia” (WIMMER, 1992, p. 49), O Visconde do Rio Branco: esboço biográfico, publicada, no Rio de Janeiro, pela Leuzinger. Em 1875, publica o romance   Ouro sobre Azul, que surgiu com o título Razão e Coração, (como em Jane Austen (1775-1817)), sob o pseudônimo de Heitor Malheiros, em folhetim, na  Gazeta de Noticias, reeditado em volume, em 1894, pela Livraria Magalhães. Faz também a tradução da obra Viagem Fluvial do Tietê ao Amazonas, de Hercules Florence, cujos manuscritos tinham estado em poder da família Taunay, doados pelo próprio Florence. É uma obra relevante para os estudos da Expedição Langsdorff (1825 – 1829), pelas Províncias de São Paulo, Mato Grosso e Grão-Pará, após alguns malogrados acontecimentos.

Em 1876, Taunay é nomeado Presidente da Província de Santa Catarina, ficando até 1877, ano em que viaja para a Europa. Nessa viagem será incumbido, por D. Pedro II, de procurar amigos seus em diversas cidades européias. De Paris, escreverá ao Imperador: “Devo, num destes próximos dias, ir visitar Victor Hugo” (TAUNAY [1878] 1933, p. 188). A relação com o mundo literário e com a viagem é uma constante na vida do escritor.

 Em 1879, é publicada em Paris A Retirada da Laguna, com prefácio e revisão do escritor francês Xavier Raymond. Desde 1868, esta obra sofrerá várias edições: a de 1871 (versão integral, lida e impressa por ordem do Visconde do Rio Branco, à época, Ministro da Guerra); em 1874, a primeira tradução do francês, por Salvador de Mendonça; a de 1879, em Paris. A cargo do filho Afonso Taunay, há a edição de 1901, traduzida pelo Barão Ramiz Galvão, pela Editora Melhoramentos. Por último, a versão de Sérgio Medeiros, de 1997, pela Companhia das Letras. Em Mato Gosso do Sul, existem estudos e adaptações das obras, tais como: Alma do Brasil (primeiro filme feito no Estado, em 1932, com realização de A. Wulfes e L. Luxador – um enredo original, atraente, desenvolvido no lendário palco da retirada de Laguna); Retirada da Laguna revivida, de 1979; Tempo de Taunay, de 1986; Mato Grosso do Sul na obra de Taunay, de Octávio Gonçalves Gomes (1991); 600 léguas a pé, de Acyr Vaz Guimarães (1998), dados que nos foram fornecidos por Paulo Correa de Oliveira, um dos adaptadores da obra de Taunay para o teatro.

 O ano de 1880 vai encontrá-lo escrevendo dramaturgia e colaborando nos Jornais Gazeta de Notícias e Jornal do Comércio, do Rio de Janeiro. Em seguida é eleito deputado por Santa Catarina. Nesse ano, perde o pai Felix Emílio Taunay. Em 1882, publica os relatos de viagem em Ceos e Terras do Brazil, obra reeditada em 1929, pela Editora Melhoramentos, de São Paulo. Em 1883 publica Estudos Críticos de Literatura e Filologia, livro reimpresso em 1931, pela mesma Editora. Em seguida (1884), publicou Esboço Biográfico do Visconde do Rio Branco, pela Leuzinger, também do Rio.

Em 1885, pede demissão do serviço do Exército, iniciando sua carreira política e distanciando-se da literatura. Com a volta do Partido Conservador ao poder, é nomeado Presidente da Província do Paraná. No ano seguinte, é reeleito deputado por Santa Catarina e meses depois é escolhido Senador pela mesma, numa lista tríplice. Nesse entremeio das atividades públicas publica o drama em quatro atos Amélia Smith e dedica-se aos escritos políticos (Casamento Civil; A Nacionalização;  Naturalização Tácita).

Com o advento da Abolição da Escravatura e, no ano seguinte, da Proclamação da República, Taunay perde as regalias de homem público e intensifica as lides literárias, mantendo-se, contudo, fiel ao deposto Imperador. Em setembro de 1889, fora agraciado com o título de Visconde de Taunay pelas mãos de D. Pedro II. A crise financeira do país deixa-o menos abastado, já combalido pelo diabetes, que se manifestava desde 1894, quando faz o tratamento do Monsenhor Sebastião Kneipp, de quem se tornará adepto, registrando, em obra específica (1895), os processos e aplicação do novo método terapêutico de exposição do corpo à água e à superfície frias.

O ano de 1890 é importante na sua cronologia, porque dá início à redação de Memórias, apontamentos auto-biográficos da maior importância para a compreensão do conjunto de sua obra.

Em seguida (1891), sai publicada A cidade de Matto-Grosso (antiga Villa Bela: o Rio Guaporé e sua mais ilustre victima, na Revista Trimensal do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Tomo 54, parte I, pela Companhia Typographica do Brazil, no Rio de Janeiro. Esta memória, reunida a outros escritos deixados pelo autor, foi reeditada pelo seu filho, o historiador Afonso d’Escragnolle Taunay, em 1923, com o título A cidade do ouro e das ruínas, pela Editora Melhoramentos, de São Paulo. Essa obra é centralizada na figura de Adrien Aimé Taunay, tio do Visconde de Taunay, que teve morte trágica no rio Guaporé, em Vila Bela, Mato Grosso. Adrien participou, como desenhista, da Expedição Langsdorff87, elaborando estudos iconográficos sobre os índios, o sertanejo e alguns traços da paisagem de Mato Grosso.

Sobre a obra, dirá Matos (2001), quando de sua publicação pelo Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso: “Dos inúmeros livros do autor de Inocência versando sobre Mato Grosso, este é o único que se refere particularmente à parte setentrional e central do grande Estado, pois todos os outros, motivados que foram pela Guerra do Paraguai, referem-se ao atualmente denominado Mato Grosso do Sul” (p. 7).

Diz ainda o apresentador que, para a edição em livro, em 1923, Afonso de Taunay acrescenta numerosos capítulos encontrados no acervo do pai, embora muita coisa ainda ficasse originalmente correspondente ao que, no presente volume, é dado como primeira parte. Informa Afonso de Taunay que o autor interrompeu a redação “à espera de apontamentos que de Mato Grosso lhe enviavam amigos e informadores eruditos”. Mas, não chegou a escrever a segunda parte. Ao falecer, informa ainda o filho, “pouca coisa se encontrou em seu arquivo referente a esta monografia”. E nessa “pouca coisa” ainda bem desordenada, dela se aproveitou os cinco capítulos que, na edição de 1923, figuram como “segunda parte” e mais “uns fragmentos” para o total dos sete que passaram a integrar o livro” (p. 8).

Isso, de certa forma, já havia sido esclarecido por Affonso Taunay, no prefácio da edição de 1923, cuja anotação “ainda bem desordenada” talvez se desse à falta de tempo do escritor para concluir suas anotações ou faziam parte de anotações que já haviam sido utilizadas:
  
Cessado o trabalho sobre Matto Grosso não o retomou mais. Ao fallecer, pouca cousa se encontrou no seu archivo referente a esta monographia; infelizmente muitíssimo menos do que já preparara. Completos se depararam os capítulos numerados XVIII, XIX, XX e XXI. Do XXII apenas havia a primeira lauda. Dos anteriores a XVIII nada se achou, assim como quanto aos de numero XXIII a XXIX. O XXX estava completo, do XXXI existiam as primeiras paginas. Assim, pelo menos, estavam redigidos trinta e um capítulos da segunda parte do estudo matto grossense. Delle foi possível descobrir os cinco aqui transcriptos, e mais uns fragmentos (Affonso TAUNAY, 1923).

Parece que os manuscritos se perderam ou foram escritos à medida que as informações iam chegando. Os manuscritos de Taunay não foram encontrados na Biblioteca Nacional e nem no Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, no Rio de Janeiro. A informação que tivemos foi que havia um “Acervo Taunay”, mas que nada dele foi encontrado. É possível que essa denominação do acervo se deve às publicações feitas pela Biblioteca do Exército, que nomeou de “Coleção Taunay, Série Letras Militares”, as Edições comemorativas da Editora, a exemplo, dentre outros, dos dois volumes de  Viagem ao redor do Brasil, de João Severiano da Fonseca, de 1986. Daí, talvez, a “desorganização” de que fala Matos. Apesar de se constituir em fonte de estudo sobre Mato Grosso, esta obra de Taunay é a única, dentre as que aqui foram relacionadas, em que ele não viveu a experiência da viagem, como se nota nas citações acima, onde o mesmo historiador ressalta, ainda, que

 a ordenação da matéria nem sempre é muito correta e, curiosamente, nenhum dos títulos, nem o original, nem o que consta da reedição de 1923, corresponde exatamente ao que o livro contém. É estranho, por exemplo, que ao lembrar o final de Vila Bela, que nos seus últimos anos não apresentava nada do que havia no tempo em que era capital, passe, logo no capítulo seguinte, a tratar das tristes ocorrências de 1834, que ele chega a denominar ‘São Bartolomeu dos mato-grossenses’, lamentável episódio que se tornou conhecido por ‘Rusga’. E nada menos que seis capítulos são dedicados a essa ocorrência, a cujo estudo, segundo sua própria confissão, foi arrastado ‘com repugnância’ e por assim dizer mau grado seu, ‘impulsionado pelo desejo de conhecer e esmerilhar a verdade, por mais dolorosa que fosse, e de assentar para outrem base de mais profunda investigação’. Aliás a triste ocorrência tem despertado modernamente o interesse de alguns pesquisadores da história de Cuiabá e que nem sempre concordam com o que foi exposto pelo Visconde de Taunay. E quando o consideramos deslocado do livro, simplesmente lembramos que ele nada tem com a cidade do ouro e das ruínas [...] (MATOS, 2001, p. 9).

Essa aparente confusão leva Rubens de Mendonça (2000) a dizer que o militar, com o qual o Visconde de Taunay se correspondia, já apresentava problemas mentais, quando prestou alguns depoimentos ao escritor. Apesar destas considerações e do exercício de cruzamento das informações que Taunay costumava fazer, tanto Mendonça, como Odilon de Matos não desmerecem a obra, muito pelo contrário, colocam-na como referencial de grande interesse para as pesquisas   sobre   Mato Grosso. Ressalta-se, neste ponto, o exercício de memória feito por Taunay, o que torna a obra, de certa forma, singular pela multiplicidade das investigações, numa tentativa de organizar a documentação, a ponto de transformá-la em referencial obrigatório para os estudiosos da região. O ano de 1892 será o da redação da “Introdução” das  Memórias (Petrópolis 26/06/1892). Taunay antecipa a data prefixada e confia os manuscritos (primeiros tomos da obra em andamento) à Arca de Sigilo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Estas recomendações serão publicadas no Jornal Gazeta de Notícias de 14/01/1898, registrando seu desejo de como deveria ser impressa a obra Memórias. No ano seguinte, continua a sua redação, levando a narrativa até meados de 1869, ano em que participa da Campanha da Cordilheira, no Paraguai, juntamente com o Conde d’Eu. Em 1894 aconteceram graves crises de saúde, vencidas temporariamente pelo tratamento do Monsenhor Sebastião Kneipp. Nessa fase, foram publicadas as obras O Encilhamento (1894); a biografia de Visconde de Beaurepaire Rohan, na Revista do IHGB (1895); A Minha escolha Senatorial,  Reminiscências e Homens e coisas do Império (1898) e em 1899,    O Declínio, sua última obra publicada originalmente em folhetim (1898), na Gazeta da Tarde e em volume, por Ribeiro Macedo e Cia., em 1899.

 Isso significa que, a partir de 1870, Taunay passa a entremear seus escritos sobre a guerra com a obra de ficção, numa clara demonstração da sua participação na vida social e literária brasileira. Dois anos após o seu falecimento, aparece a tradução para o português de A Retirada da Laguna pelo Barão de Ramiz Galvão (1901), tida por Sérgio Medeiros, na introdução que faz para a edição da Companhia da Letras (1997), como a melhor versão da obra de Taunay.

Encerra-se, assim, a vida do escritor, mas a sua obra continuou a ser publicada, por iniciativa do filho Affonso Taunay, conhecido historiador. A partir de 1920, surgem as várias reedições e a publicação de inéditos do escritor, em poder da família, na seguinte ordem: Dias de guerra e de sertão (coletânea das publicações em jornais, pelas Editoras Monteiro Lobato e Melhoramentos, em 1920, 1923 e 1927, respectivamente); Trechos da minha vida e Filologia Crítica (Melhoramentos, 1921); A cidade do ouro e das ruínas (Melhoramentos, 1923); reedição em dois volumes do Diário do Exército de 1870, com os subtítulos A Campanha da Cordilheira e De Campo Grande a Aquidaban (Melhoramentos, 1926); Cartas de Campanha, correspondências da viagem como relator do Conde d’Eu (1929 e 1942); Edição francesa de A Retirada da Laguna, com prefácio de Jean Soublin, pela Phébus, Paris (1995).

Ultimamente, a obra do Visconde de Taunay tem merecido especial atenção do antropólogo Sérgio Medeiros, que preparou as reedições de A Retirada da Laguna (Companhia das Letras, 1997), do conto Ierecê a guaná (2000) e das Memórias (2004), as duas últimas pela Editora Iluminuras. Empenho louvável que promete a organização do seu acervo, o que facilitará, sobremaneira, o manuseio e a compreensão mais acurada de toda a obra de Taunay.


---
Fonte:
Olga Maria Castrillon-Mendes: Taunay viajante e a construção da   imagética de Mato Grosso”. (Tese apresentada ao Curso de Letras do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas como requisito parcial para obtenção do título de Doutor em Letras. Orientador Prof. Dr. Carlos Eduardo Ornellas Berriel. Unicamp - Instituto de Estudos da Linguagem). Campinas, 2007.