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26/05/2016

Contos Pátrios, de Olavo Bilac e Coelho Neto

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Dois símbolos nacionais
  
Neste tópico, analisaremos a visão de Coelho Netto sobre dois símbolos nacionais: o Hino e a Bandeira, elementos que revelam traços marcantes do seu nacionalismo. Luiz Prates Carrión (1975, p. 305) diz que “A humanidade sempre necessita de símbolos, para representar crenças, famílias, ideais, corporações, dignidades, funções, territórios, etc., pois são imagens que resumem ideias de Pátria, de Religião ou aspirações”; e que:

O estado de espírito do indivíduo fica diferentemente motivado com estímulos inteligentes, sabiamente dirigidos, quem sabe resultante de heranças, ou mesmo como se possa supor, polarizando num cérebro privilegiado o extrato de tradições de um povo, de uma corporação, etc. (CARRIÓN, 1975, p. 305).

E ainda: “[...] Depois de adotado um símbolo, como resultado de heranças culturais daquilo que vai representar, firma-se de tal forma, criando uma tradição” (CARRIÓN, 1975, p. 305). Os símbolos nacionais passam por esse processo de criação, representação e estímulos.

Isto dito, os dois símbolos nacionais, agindo conjuntamente, provocam em Coelho Netto (1928c, p. 189), conforme seu discurso proferido em 19 de novembro de 1927 (Dia da Bandeira), um estímulo que o direciona integralmente à Pátria: “Aqui, [a bandeira] é o symbolo que se vê; o hymno é o symbolo que se ouve. Um é como a chamma; outro é a claridade e o calor; um é o gesto que acena; outro é a voz que incita, os dois completam-se formando uma expressão unica – a Patria”.


O Hino Nacional

A relação de Coelho Netto com o Hino Nacional é forte, pois na sua atuação como Deputado Federal pelo Maranhão, logo no início do primeiro mandato (1909), foi o autor do projeto para a promoção de concurso público visando a oferecer à nação uma nova letra para a vibrante música de Francisco Manuel da Silva. Alvo de muitas controvérsias, o Hino Nacional tem uma história cheia de percalços, que, passadas décadas de sua composição e já em plena República, ainda estava em rodas de discussão importantes.

Francisco Manuel da Silva foi aluno de música do Padre José Maurício e também discípulo do austríaco Sigismund Neukomm, com quem aprendeu contraponto e composição. Muito novo, Francisco Manuel escreveu um Te deum a D. Pedro I, que lhe fez promessa de enviá-lo à Itália, para aperfeiçoar-se; porém, não a cumpriu. Para compensar a desfeita, o Imperador o nomeou para a Capela Real, onde conheceu de perto grandes músicos e onde sofreu ciúmes de Marcos Portugal, importante compositor da época. Em 1830, o Padre José Maurício morre, e Francisco, com 35 anos, prepara-se para escrever a obra que o imortalizaria como compositor: o hino que viria a ser símbolo nacional.96 Muitos concordam que seu esforço foi útil para a sobrevivência da música nacional no conturbado período regencial, de 1831 a 1840 (ALMEIDA, 1958, p. 69-70; MARIZ, 1983, p. 56).

A composição musical de Francisco Manuel, alguns dizem, teria sido inspirada na Independência e se tornado popular em 1831, como Hino ao 7 de Abril, com letra de Ovídio Saraiva de Carvalho e Silva, em comemoração à Abdicação de Pedro I ao trono português. Quando se deu a Coroação do menino Pedro II, em 1841, o hino teria recebido uma nova letra (MARQUES, s.d., p. 11), de um autor anônimo. Entretanto, Baptista Siqueira (1972), após dirimir várias dúvidas e confusões sobre o hino, a partir da descoberta de documentos importantes, informa que a alteração na letra do hino de Francisco Manuel da Silva nada tem a ver com o Hino à Coroação, composto pelo próprio Francisco Manuel em honra a Pedro II. Em outras palavras, o Hino ao 7 de Abril e o Hino à Coroação são dois hinos diferentes (SIQUEIRA, 1972, p. 18, 54).

Quando analisamos as duas letras, percebemos, tanto numa como noutra, nós que estamos acostumados com o “Ouviram do Ipiranga”, certa dificuldade de associação do texto com a música, a começar pela tentativa de sistematizar a distribuição métrica e entre estrofes e coro, radicalmente diferente da letra atual. O problema do mau ajuste das palavras à música, que já teriam sido cantadas pelo público em 14 de abril de 1831, recebeu de Luiz Heitor Corrêa de Azevedo a seguinte crítica: “a impropriedade da música para o metro e o tipo de estrofes usadas pelo poeta parece decidir a favor de uma adaptação” (apud MARIZ, 1983, p. 58). Já Baptista Siqueira (1972, p. 21), catedrático da Escola de Música da UFRJ, emitiu juízo mais severo:

Desde o primeiro momento se tem dito: O Hino Nacional é obra incontestàvelmente musical. As palavras que lhe foram aplicadas no século passado não tiveram o poder de acompanhar a pujança das cadências nem a beleza da atraente melodia. Além de tudo outros fatôres, não menos importantes, vieram concorrer para o insucesso da poesia heróica do tempo da abdicação: o ritmo troqueu, as terminações esdrúxulas, e a ampliação do canto seguido de ligação melódica que se reune a ancruse integrante naquele passo denominado, pelos leigos, de conjunção. Diante de tais circunstâncias que dependiam de elevados conhecimentos técnicos, os artistas recorriam, nos momentos da execução, ao processo do canto alternado entre o côro e o solista. Entretanto, a inadequação dos versos era tanta que o resultado interpretativo sempre deixou a desejar com as evidentes violações das regras fundamentais de conexão na melodia cantada. O problema permaneceu assim durante todo o século passado numa certa perplexidade incompatível com o patriotismo e o entusiasmo dos brasileiros. Não houve, destarte, unidade entre a música e o poema, ficando prejudicado o conteúdo na sua integração de música prosódica.

Se a música permanecia viva no gosto popular, diz ainda Siqueira, isto se devia à sua espontaneidade, vigor e entusiasmo. Quanto à tentativa de atribuir-lhe uma letra no século XIX, ele comenta: “Quem se dá ao trabalho de examinar em detalhes o aspecto épico, tanto da primeira quanto da segunda letra, logo se convence de que algo andava errado com respeito ao fator coerência” (SIQUEIRA, 1972, p. 21). Baptista Siqueira (1972, p. 57) faz outra observação pertinente: “Se o Hino Nacional tivesse, desde o início, letra compatível com a beleza e pujança da música instrumental, teria por certo comprovado sua filiação monárquica e, como tal, jamais poderia continuar vigorando após a Proclamação da República”. As infelizes tentativas de ajustar poemas à música, no século XIX, concorreram fortuitamente em favor do velho hino para sua manutenção na República.

Pode somar-se a isto a observação trazida a lume por Carrión (1975, p. 310-311), de que o Hino, antes de D. Pedro II, não tinha sentido de representação patriótica, senão de louvação monárquica, fato que, não obstante a segunda letra ter sido mais incisiva no personalismo do segundo imperador, mudou em relação a este:

Esse elevado sentido teve origem nos campos de batalha e nas solenidades em respeito ao Segundo Imperador, porém, é significativo declarar, segundo as pesquisas feitas, que o Hino tocado em atenção ao estimado Sr. Dom Pedro II teve a idéia de Pátria e não a de identificar com a muito respeitada pessoa de S. M. o Imperador (CARRIÓN, 1975, p. 311).

Quanto à situação do Hino no novo regime, dizem alguns autores que, com a instauração da República, pensou-se de fato em adotar um novo hino nacional, como Carrión (1975, p. 312-313): “Quando da Proclamação da República, foi mandado abrir concurso para apresentação de composição do Hino, tendo sido solicitada a cooperação de Carlos Gomes, que respondeu da Itália em telegrama lacônico: ‘Não posso’”. Eliane Ubillús (2007) afirma que o compositor teria declinado do convite porque “Ele já conhecia o hino de Francisco Manuel da Silva e naturalmente deve ter previsto que nenhum outro conseguiria ocupar o espaço conquistado pelo primeiro hino”. Já Alvonira Marques (s.d., p. 11) diz que “o advento da República impôs a sua substituição. Abriu-se concurso para a escolha de um novo [...]”.

Mário Meireles (1972, p. 41), por sua vez, ignora completamente isso, apenas se referindo ao concurso mandado fazer em 1909 para a escolha de uma nova letra. A razão pode estar na convicção de Baptista Siqueira (1972, p. 59): “Chamamos a atenção para o fato de não encontrarmos, em nenhum momento, qualquer notícia de concurso para o Hino Nacional mas a respeito do Hino à República, há pouco tempo proclamada”. Quando lemos as várias notícias de jornal elencadas por Siqueira (1972, p. 57-58), sobre iniciativas de composição do hino e sobre o referido concurso, elas sempre se referem ao Hino da República que se queria adotar, nunca com a ideia de substituir o velho hino de Francisco Manuel.

De fato, o Governo Provisório, no dia 22 de novembro de 1889, mandou abrir concurso público para o novo hino republicano. Quando se preparavam as festividades para o 2.º mês após a Proclamação, e não estando ainda prontos para a execução os hinos concorrentes, repentinamente noticiou o jornal Cidade do Rio, de José do Patrocínio, no dia 16 de janeiro de 1890:

O Sr. major Inocêncio Serzedelo (mais conhecido como Serzedelo Correia), dirigindo-se ao Sr. Ministro da Guerra, em nome do povo, exército e armada, em termos eloqüentes, lembrou que o Hino Nacional não é o Hino de um regime mas o Hino da Pátria: já é uma música sagrada que fala ao coração do Brasil; e pediu a sua conservação. / [...] / Em nome do Govêrno o Sr. Ministro respondeu que o Govêrno respeita a vontade da Nação, e as bandas romperam entusiàsticamente executando o velho Hino que despertou os mais frenéticos aplausos (apud SIQUEIRA, 1972, p. 59).

Por mais que a notícia tenha sido chamativa, Siqueira conclui por ela que o apelo popular pelo velho hino ocorreu antes da realização do concurso aberto para a oficialização do hino republicano. “Tanto isto é verdade que, após essa manifestação de acatamento às aspirações das fôrças armadas, continuou o concurso para o nôvo Hino, como se nada tivesse acontecido” (SIQUEIRA, 1972, p. 59). As notícias se sucederam, e os quatro concorrentes inscritos foram: Leopoldo Miguez, Alberto Nepomuceno, Jerônimo de Queiroz e Francisco Braga. No dia 20 de janeiro de 1890, feitas as apresentações no Teatro Lírico, o júri, composto por membros do Instituto Nacional de Música, eliminou o hino de Jerônimo de Queiroz e classificou os outros três na seguinte ordem: 1.º Leopoldo Miguez; 2.º Francisco Braga; e 3.º Alberto Nepomuceno. No mesmo dia, saía o Decreto n.º 171, que oficializava a música de Francisco Manuel como Hino Nacional e a de Leopoldo Miguez como Hino da República, com letra de Medeiros e Albuquerque (SIQUEIRA, 1972, p. 60).

Outra questão provocada por Siqueira (1972, p. 61-62) é sobre a famosa frase atribuída ao Marechal Deodoro da Fonseca, quando da execução dos quatro hinos concorrentes: “Prefiro o velho!”. Frase que teria determinado a mudança da intenção do concurso de Hino Nacional para Hino da República. Por ela, Deodoro teria sido o responsável direto pelo “rebaixamento” da música vitoriosa de Miguez a Hino da República. Alguns autores apresentam essa versão, como Alvonira Marques e Vasco Mariz. Quanto a isto, Siqueira (1972, p. 61) sentencia:

Parece tratar-se suposição infundada, uma vez que no dia 15 de janeiro daquele ano, portanto cinco dias antes, já o Marechal havia decidido, por sugestão do major Inocêncio Serzedelo Correia, que falara em nome do povo e das fôrças armadas, manter o Hino de Francisco Manuel da Silva como Hino Nacional do Brasil. Não iria anunciar aquilo que “preferia”, quando aquilo já estava “preferido”.

E põe termo à discussão (SIQUEIRA, 1972, p. 62):

Pelo exposto, verifica-se a sem razão da pecha levantada em tôrno da questão que situa o Marechal Deodoro numa posição equívoca. / Como poderia êle antecipar-se na escolha de um Hino que havia colocado em confronto para ser decidido por hábeis mestres do Instituto Nacional de Música? Em verdade, tudo não passou de mera especulação, pois o concurso era realizado para proclamar o vencedor da música destinada a ser o “Hino da Proclamação da República”, conforme se anunciava intensivamente na imprensa diária do Rio de Janeiro. / Foi necessário dar estas explicações para evitar que se continue propagando uma tal leviandade que, por outro lado, expõe a autoridade governamental ao mau vêzo do julgamento arbitrário, além de colocar mestres de renome e glória numa posição incompatível com a dignidade dos cargos que ocupavam. / Pelo menos no Teatro Lírico, o Hino de Francisco Manuel da Silva não foi confrontado, diante das autoridades, na sessão pública do dia 20 de janeiro de 1890, para merecer a frase atribuída ao Marechal Deodoro da Fonseca. Sabe-se, porém, que o entusiasmo que atingiu a alma dos brasileiros no momento da Proclamação da República não incidiu, absolutamente, sôbre o Hino Nacional, página gloriosa e, por isso mesmo, irreversível nos anais da história pátria [...].

O que não se discute é que, destronada a Monarquia, não houve quem destronasse o velho Hino. Estava no gosto popular. José Murilo de Carvalho (2007, p. 122-128) classifica a manutenção do Hino de Francisco Manuel como vitória da tradição, vitória do povo, depois de até mesmo a Marselhesa, hino francês, ter sido ouvida e reclamada por alguns no contexto do 15 de Novembro: “Mais do que a batalha da bandeira, a do hino nacional significou uma vitória da tradição, pode-se mesmo dizer uma vitória popular, talvez a única intervenção vitoriosa do povo na implantação do novo regime” (CARVALHO, 2007, p. 122).

Como as letras atribuídas ao Hino Nacional eram alusivas à monarquia, e, portanto, incompatíveis com o novo regime político brasileiro, o Hino permaneceu sem letra durante anos. E voltaria a ser tema de debate, quando o maestro cearense Alberto Nepomuceno, Diretor do Instituto Nacional de Música, advertiu o Governo sobre o desrespeito com que era tratado o Hino, executado a bel-prazer por bandas musicais Brasil afora. Irritado, ele escreve uma carta ao Ministro da Justiça e Negócios Interiores, Augusto Tavares de Lyra, datada de 20/11/1906, na qual informa que, presente à cerimônia de posse do Presidente Afonso Pena, ouviu o Hino sucessivamente executado por três bandas militares presentes no Palácio Presidencial, quando um fato desagradável chamou-lhe a atenção:

Impressionou-me desagradavelmente o facto de a banda que executou o Hymno em segundo lugar e que, fui informado, era uma das da Brigada Policial, fazel-o com uma variante melodica positivamente errada, pois que se achava em evidente desacordo com a harmonia do acompanhamento, com o qual absolutamente não se compadecia (NEPOMUCENO, 1922).

Sendo o Hino Nacional símbolo oficial da nação, deveria ser executado conforme a composição original, e qualquer erro ou deturpação haveriam de ser evitados, diz Nepomuceno, e em caso de alteração, sem autorização do poder competente, o que incidiria em falsificação de documento público, seus autores deveriam ser penalizados.

Como resultado da crítica de Nepomuceno, o governo de Afonso Pena determinou as providências necessárias, que não passaram da nomeação de uma comissão composta por mestres renomados: o próprio Nepomuceno, Francisco Braga e Frederico Nascimento. Concluíram que “não havia partitura e material de execução em condições nem possuía o Hino, aprovado pelo Governo Provisório, letra adequada à nova situação política do Brasil” (SIQUEIRA, 1972, p. 63). No mais, não houve nenhuma providência efetiva, apenas um relatório foi entregue ao Ministro da Justiça.

Siqueira (1972, p. 63) informa ainda: “Quando Alberto Nepomuceno fêz aquela advertência sôbre o desrespeito ao hino nacional, em 1906, o fato repercutiu na Câmara dos Deputados na palavra eloqüente de Coelho Neto, que lembrou a conveniência de se cuidar de uma letra para o Hino já agora oficial” (SIQUEIRA, 1972, p. 63). De fato, o caso chegou à Câmara, mas Siqueira equivoca-se quanto a Coelho Netto ter estado lá em 1906, pois somente em 1909 assumiu seu primeiro mandato como deputado federal.

O fato é que o relatório chegou à Câmara dos Deputados, merecendo um parecer desfavorável da parte do seu Presidente, o deputado gaúcho Germano Hasslocher. Justificava este o seu parecer negativo dizendo que não se podia conceber, por variadas razões, a realização de um concurso para a escolha de uma letra para o Hino Nacional, e que esta letra um dia surgiria espontaneamente na boca do povo, citando exemplos de hinos pelo mundo afora. Coelho Netto, com seu engajamento patriótico por fazer-se no Parlamento, opôs-se-lhe na palavra com que discursou na sessão de 29 de julho de 1909, cujo texto foi publicado no livro Falando... (COELHO NETTO, 1919b, p. 5-19). Eis os primeiros trechos:

O SR. COELHO NETTO (Movimento de attenção) – Sr. Presidente, no actual momento eu não me atreveria a occupar esta tribuna, freqüentada, com brilho, por oradores de vulto, se não fosse solicitado por dois sentimentos, qual delles mais poderoso – culto da Arte e o exaltado amor da minha Patria. / Foi a Arte que aqui me introduziu e, como artista, trago, e sempre trarei, a esta Casa a minha palavra pequena, por que na disciplina litteraria iniciei a minha carreira e, como leval-a a termo sempre fiel ás suas normas. / Lendo o parecer que diz com um pedido do director do Instituto Nacional de Musica, relativamente à letra do nosso Hymno Nacional, parecer redigido por um dos espiritos mais lucidos que tenho a fortuna de encontrar em meu paiz... (Apoiados)
O SR. GERMANO HASSLOCHER – Obrigado a V. Ex.
O SR. COELHO NETTO – entendi do meu dever contestar desta tribuna as idéas nelle emittidas. Entende S. Ex. refutando, com uma leve ponta de ironia, a proposta do director do Instituto Nacional de Musica, que se não deve substituir a letra, ou melhor a “monstruosidade” que compromette a manifestação mais alta da inspiração da musica em nossa Patria, que é o Hymno de Francisco Manuel. (Muito bem) / Os fundamentos apresentados por S. Ex. não parecem derivar de um homem de progenie germânica [...] (COELHO NETTO, 1919b, p. 5-6).

A partir daí, Coelho Netto passa a falar da característica longeva do apreço dos germânicos por hinos e poesia, citando cenas do folclore e da história, fábulas, batalhas, Goethe, os minnesinger, Hans Sachs, Theodoro Koerner e outros (COELHO NETTO, 1919b, p. 6-8); admira-se ele que Hasslocher, um descendente de alemães, de um povo que cultua tradições seculares como essas, não se sensibilizasse com o apelo patriótico de Alberto Nepomuceno, em favor de uma nova letra para o Hino Nacional.

Ele cita também um grande trecho de Philarête Chasles, que comenta a popularidade do canto e da poesia na Alemanha, além de um texto de Medeiros e Albuquerque, redator da Gazeta de Notícias, publicado no dia anterior, comentando que o governo francês abrira concurso público para a escolha de letra e música de canções, com o objetivo de distrair soldados sedentários, os quais se ocupariam em entoá-las. Diz Medeiros e Albuquerque que o grau de civilização da França permitia àquela nação a realização de concursos banais que, no Brasil, no mínimo, seriam ridicularizados (COELHO NETTO, 1919b, p. 8-9).

Coelho Netto (1919b, p. 10) prossegue, citando o parecer de Hasslocher:

Diz mais S. Ex. / “Não parece que a historia consigne cantos nacionaes, adoptados como hymnos, feitos por via de concurso, em que a inspiração vem da esperança de alcançar premio nessa especie de justa. / Os hymnos são explosões dos grandes sentimentos em horas solemnes da vida nacional; sahindo no sentimento publico, onde se fazem populares, criam raizes, antes dos decretos legislativos que os adoptem officialmente. / [...]”

A isto, ele replica: “Não está bem informado o meu illustre collega” (COELHO NETTO, 1919b, p. 10). Daí passa a citar vários exemplos, como do hino austríaco (substituído após a II Guerra), encomendado a Joseph Haydn, para comemorar o aniversário do imperador, com letra também encomendada a Ludwig Auerbach. Citou ainda o hino da Suécia, uma antiga canção, que recebeu versos do arqueólogo Dybeck, e apesar de o momento da composição poética não ter nenhuma importância histórica, os suecos cantavam esse hino com grande entusiasmo. Também lembrou o hino da Noruega, com letra de Björnson e música de R. Nordraack. E o hino imperial russo (substituído após a Revolução de 1917), encomendado pelo Czar Nicolau I, em 1833, ao general Lwoff, cuja popularidade teria ido além-Rússia (COELHO NETTO, 1919b, p. 10-11). Após esses exemplos vindos da Europa, Coelho Netto (1919b, p. 11) pergunta: “como affirmar, portanto, que o mesmo não se dará no Brasil, onde não existe justamente melodia mais popular que a do Hymno Nacional?”.

Fica assim contestada a affirmação do relator “que a letra dos hymnos precede sempre a sua musica”, affirmação essa que poderiamos contestar com innumeros exemplos tirados do Commers Buch, dos choraes protestantes, etc., etc. A Carmagnole e o Ça ira, cuja popularidade ninguem porá em duvida, foram adaptadas a melodias já conhecidas (COELHO NETTO, 1919b, p. 11).

A erudição do prosador e parlamentar maranhense começa a pôr o deputado e jurista gaúcho em apuros, quando Coelho Netto arremata com maior ímpeto:

Entende S. Ex. que não devemos perder tempo com a preoccupação de uma letra para o nosso Hymno Nacional “porque ella virá opportunamente, quando um sentimento forte a fizer brotar da alma do povo”. / Até lá teremos que ficar com o que possuimos que, sobre ser detestavel como poesia, é uma incongruencia ridícula no regimen politico em que vivemos. / A letra de nosso Hymno Nacional não póde, de modo algum, ser entoado [sic] nos dias que correm porque nem de leve se refere á nação sendo, como é, um canto panegyrico no qual se preconizam apenas as virtudes de D. Pedro II:

Negar de Pedro as virtudes, / Seu talento escurecer, É negar como é sublime / Da bella aurora o nascer.

Como, segundo a formula verdadeira, só se destróe aquillo que se substitue, tratemos, por patriotismo e decência, de destruir essa apologia, cujos versos claudicam deploravelmente (COELHO NETTO, 1919b, p. 11-12).

Para desfechar seu discurso, ele cita ainda dois exemplos constrangedores sobre a falta de uma letra adequada para o Hino: o do diretor da Escola Normal de São Paulo, que, querendo fazer os alunos cantarem o Hino Nacional, estancou diante da letra, não encontrando outra solução que não ele próprio improvisar um poema, que Coelho Netto chamou de “nescio monstrengo métrico”, citado em seguida pelo orador maranhense (COELHO NETTO, 1919b, p. 12-13); o outro caso envolveu Euclides da Cunha, que, em 1904, como chefe brasileiro na comissão mista de Brasil e Peru para retificação das divisas entre os dois países, presenciou a força do hino peruano cantado a plenos pulmões pelos peruanos, ainda pelos mais humildes “índios”. Na noite de 27 de julho, véspera do Dia da Independência do Peru, os militares em volta da bandeira começam a entoar vivamente o seu hino, enquanto Euclides, admirado, ouve o canto patriótico dos peruanos. Diz Coelho Netto (1919b, p. 17-18):

Era verdadeiramente religioso o acto e Euclydes, com o coração a bater, regressou ao seu campo e, recolhendo-se, a ouvir o cântico cada vez mais enthusiastico, dentro da noite sumptuosa, receiou, disse-me elle, que a commissão não findasse antes de 7 de setembro, porque teria de dar aos peruanos, com um triste silencio, a prova humilhante de que somos um povo sem tradição, que nem um hymno possuimos que seja, longe da Patria, a oração de amor com que a ella nos reportemos.

“E senti a nossa inferioridade” concluiu o escriptor.

Coelho Netto (1919b, p. 18) conclui: “É para que outro brasileiro não repita essa phrase dolorosa e possamos entrar no côro das nações com a voz altiva do nosso civismo, que eu venho propor esta emenda substitutiva á conclusão do parecer do meu illestre collega”. Ele venceu o debate com Hasslocher, e sua emenda, aplaudida no plenário e aprovada (Emenda substitutiva ao parecer n.º 13, de 1909), autorizava o governo a abrir concurso público e premiar a melhor letra para a música de Francisco Manuel da Silva.

Estava pronto o projeto para a nova letra do Hino Nacional, cuja poesia seria orientada pelas instruções técnicas de Alberto Nepomuceno, para harmonizar-se perfeita-mente à melodia de Francisco Manuel. Assim, realizado o concurso, em 1909, saiu vencedor o poema de Joaquim Osório Duque Estrada, o famoso “Ouviram do Ipiranga às margens plácidas...”. Mas o problema foi resolvido só em parte, porque ainda teriam de esperar mais treze anos para que a letra de Osório fosse oficializada, embora o Legislativo tenha enviado várias mensagens ao Governo, nesse sentido. Pois foi exatamente na véspera do primeiro centenário da Independência, que o Decreto n.º 15.671/1922 declarou oficial a letra do Hino Nacional, composta por Duque Estrada, ou seja, no 33.º ano da República. O direito autoral da letra foi adquirido pelo Estado brasileiro, através do Decreto n.º 4.559/1922, pagando cinco mil contos de réis a Osório, enquanto o canto do hino foi tornado obrigatório em todas as escolas e entidades afins, através da Lei n.º 259/1936.

Coelho Netto tinha muito apreço pelo Hino Nacional, por considerá-lo sagrado. No Breviário cívico, ele observa:

Se uma só palavra do nosso idioma, ouvida a alguem em terra, toca-nos fundo o coração no que elle tem de mais sensível, como nos não ha de commover o hymno que é, a bem dizer, a benção da mesma Patria? / [...]

O hymno chama-nos ao dever reunindo-nos em volta da bandeira como a campainha do acolyto no templo filia-nos á Cruz. / É canto pastoral que nos congrega e é brado que nos excita. / [...] / É o canto triumphal dos vivos e é a nenia funeral dos mortos. / [...] (COLEHO NETTO, 1921, p. 25-26).



Sua veneração patriótica pelo Hino era pura convicção nacionalista, acompanhando-o pelo resto da vida. Culto não inferior prestou também a outro símbolo nacional, a Bandeira, que mereceu dele bastantes referências.

A Bandeira Nacional

Sem precisar vasculhar a evolução histórica dos vários tipos de bandeira que o país teve ao longo de sua história, nem ainda a questão legal quanto a sua oficialidade e mudanças, é suficiente mencionar que o símbolo que ela representa é marcante para o patriótico autor de que estamos tratando. Um pedaço de pano, insignificante em natureza, mas que representa simbolicamente a pátria, como ele costumava definir.

Nessa relação de representação, aqui entendida como o relacionamento de uma imagem presente (bandeira) com um objeto ausente (a nação, a pátria) (CHARTIER, 2002, p. 20-21), Coelho Netto vê a bandeira como símbolo sagrado e poderoso, capaz de representar tantos elementos quantos forem necessários para identificação pátria. Como nesta descrição da bandeira, na palestra aos alunos da Escola Naval, em 1912:

Assim a bandeira: pedacinho de seda onde se contem a Patria – nelle a terra, nelle o céu, nelle o mar, nelle o espirito, a honra, o passado, o presente e o futuro, o amor, que é a vida; a poesia, que é o ideal; a historia, que é o relicario do tempo e das acções dos homens; e a religião, que é o horizonte da alma. / Folha do evangelho no mastro do navio, á frente dos exercitos, em todos os angulos da Patria, ubiqua como a luz e como a divindade (COELHO NETTO, 1918, p. 260).

A ideia de que a bandeira contém a Pátria é uma representação típica do nacionalismo patriótico do início do século XX; mas trazê-la ao lume da religião, chamando-a de “folha do evangelho” e “ubiqua como a divindade”, é tornar mais poderoso o apelo e inescusável o dever cívico diante do simples “pedacinho de seda”, isto é, do país que ele representa. Para Coelho Netto (1926, p. 58), em discurso pronunciado em 19 de fevereiro de 1922, publicado em Orações, é como se a própria bandeira pudesse falar, austera e inconfundivelmente, chamando os filhos patriotas ao sacrifício honroso pela pátria, à semelhança da cruz para os antigos mártires cristãos:

[...] O vosso grito na paz deve ser o que ahi está na bandeira: Ordem e Progresso. / Mas se essa mesma bandeira acenar-vos ao coração pedindo-vos o sacrificio do que nelle tendes de mais precioso: a vida, certo não lh’o recusareis, porque a bandeira é para o Patriotismo o que é a Cruz para a Religião. / E assim como os christãos não hesitavam um momento em sacrificar-se pelo sagrado emblema e corriam a abraçar-se com elle entre feras e algozes, assim vos precipitareis, briosos, ao primeiro reclamo da bandeira e, tomando-a no punho, vencereis com ella.

Noutra ocasião, em palestra aos marinheiros, na sede do Riachuelo F. Club (Ilha das Cobras), no dia 11 de junho de 1917, ele diz: “Lembrai-vos do Brasil e honrai-o com brio, defendei-o com bravura, porque o que fizerdes será visto por elle, presente no navio, como Deus no altar, em um symbolo, que é a bandeira” (COELHO NETTO, 1926, p. 13). A bandeira, semióforo poderoso na propaganda nacionalista do início do século XX, é aqui tida como os olhos do Brasil, que recebe atributos divinos de ubiquidade ou onipresença.

Por falar nisso, citamos de novo um trecho do Breviário cívico (COELHO NETTO, 1921, p. 21-22), em que a bandeira aparece ligada a sentimento análogo ao religioso:

Não ha religião sem Deus nem Patria sem bandeira. / Prestar culto á bandeira é venerar o espaço e o tempo nos limites geographicos de uma nação e nelles a raça e tudo o que ella representa. / Venera-se na bandeira o espaço pelo amor á terra maternal. / [...] / Que é uma bandeira? é um panno e é uma nação, como a cruz é um madeiro e é toda uma Fé. / [...] / Assim como nos descobrimos diante do sacrário, que encerra a hostia, que é o symbolo de Deus, descubramo-nos diante da bandeira, que é o symbolo da Patria.

Agora, em discurso do dia 19 de julho de 1920, para os reservistas do Tiro de Guerra 525, ela encarna dois caracteres típicos da representação clássica da nação, que estão postos, inclusive, na letra do hino nacional: o da mãe gentil e pacífica que agasalha e protege seus filhos, e o de nação justa e guerreira que ergue da justiça a clava forte:

Na bandeira, á qual prestastes juramento de lealdade, tendes um symbolo admiravel. / Vêde-a como se mostra em seda, tão leve que um brando sopro a enruga e agita. Aberta é pallio que agasalha e é benção de amor. Entretanto a haste em que se prende é lança – vêde-lhe o ferro alumiar na ponta. / É bem a imagem de Minerva meiga e forte, docil e altiva, pacifica, porém armada. Assim tambem deveis ser (COELHO NETTO, 1926, p. 43).

No discurso pronunciado na Prefeitura Municipal, em 19 de novembro de 1915 (Festa da Bandeira), por ocasião da entrega da medalha cívica, mandada cunhar pelo Presidente da República, Wenceslau Braz, ao aluno salesiano Antônio Carlos das Chagas, que salvou a bandeira nacional do naufrágio da barca Sétima, publicado tanto em Versas quanto em Livro de Prata (COELHO NETTO, 1918, p. 301-313; 1928c, p. 71-82), há bastantes elementos de identificação da bandeira com o sagrado, o sagrado da pátria.

Doze anos mais tarde (1927), na mesma festa da Bandeira, na mesma Prefeitura, a bandeira, para ele, continua objeto digno de adoração: “Mas, senhores, não basta acclamá-la, como aqui fazemos, é necessario cercá-la de veneração e respeito” (COELHO NETTO, 1928c, p. 187). Uma simples cerimônia de hasteamento é como estar numa congregação de adoração: “[...] aqui nos achamos congregados em acto de religião, como em igreja [...]” (COELHO NETTO, 1928c, p. 189). Por isso, seu culto requer um bom caráter e a reverência de um adorador: “O culto da bandeira deve ser feito com honestidade e veneradamente” (COELHO NETTO, 1928c, p. 188). Os componentes da bandeira carregariam em si vários aspectos que o escritor considera importantes:

Esse mastro é um symbolo. Na sua rectidão, é o caracter; na sua resistencia, é a força; na sua altura, é o brio e a driça que suspende a bandeira não é senão a solidariedade, o esforço de todos, por isto vistes andarem unidas as duas mãos do que realisou, ha pouco, triunphalmente, o surto do glorioso panno. Curvai o mastro e a bandeira roçará em terra, derrubai-o e vê-la-eis humilhada e maculada (COELHO NETTO, 1928c, p. 188-189).

Ainda evocando similitudes com a religião, para ele, a bandeira é como uma alma ou espírito, substância imaterial que vivifica a matéria (corpo). Isto fica patente na cerimônia de morte de um navio, o velho cruzador “República”, “espetaculo ao mesmo tempo bello e commovente”. Ele narra o episódio, numa alocução datada de 19 de fevereiro de 1922 (COELHO NETTO, 1926, p. 57):

Ancorada, a velha nau de guerra parecia em festa. Era a sua ultima viagem. Iam dar-lhe baixa. / Pobre cruzador! Não mais singraduras longas, caricias de bonanças, bategas de temporaes, portos de terras longinquas, calores tórridos, invernias gélidas! / Lá estava o comndenado. No mastro, como a chamma de um círio, a bandeira afflava ao vento. Ainda tinha vida o velho barco. / Realisou-se a cerimonia lugubre, foi lavrada a acta, ou certidão de obito. Ia o “Republica” passar de nau de guerra a mesquinho pontão: cadaver! / Ainda, entanto, o não era. Por que? Porque vivia: lá estava a bandeira desfraldada no tope do mastro (COELHO NETTO, 1926, p. 59).

A única razão do navio “moribundo” ainda continuar “vivo” era a bandeira que o animava, como alma ou espírito que habitasse seu corpo. Um marinheiro, porém, se adianta lentamente, comovido, e faz descer o estandarte nacional, que, tremulante, chega-lhe às mãos. Coelho Netto (1926, p. 59), num vislumbre poético, sente-lhe a morte na agonia do navio que vai perdendo a alma: “Arfa o cruzador nas ondas, como um corpo estrebucha”. Está consumado: “Fôra-se-lhe a alma. Quedou morto”. A mera aposentadoria do navio ganha ares de funeral, tudo por causa da bandeira que acabava de ser retirada de seu mastro.

Sua conclusão moral é esta: “Patricios, assim como a bandeira arriada do tope do mastro, deixou morto o navio, assim succederia á Patria se não houvesse homens que a defendessem e mantivesse no alto [...]” (COELHO NETTO, 1926, p. 60). A bandeira, portanto, é um dos símbolos mais representativos no estudo da temática nacionalista em Coelho Netto, a ponto de se confundir com a própria pátria a qual ela tão-somente representa.


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Fonte:

CLAUNÍSIO AMORIM CARVALHO: "O INSIGNE PAVILHÃO: NAÇÃO E NACIONALISMO NA OBRA DO ESCRITOR COELHO NETTO". (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social (Mestrado Acadêmico) da Universidade Federal do Maranhão, como requisito para a obtenção do grau de Mestre em História Social. Orientadora:  Prof.ª  Dr.ª  Maria  Izabel Barboza de Morais Oliveira). São Luís, 2012.

Nota:
A imagem inicial inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

16/11/2014

A Defesa Nacional (Discursos), de Olavo Bilac

 A Defesa Nacional (Discursos), de Olavo Bilac gratis pdf
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João do Rio entrevista Olavo Bilac


O texto, a seguir, faz parte de uma série de entrevistas realizadas pelo escritor João do Rio, que as publicou em "Momentos Literários". Selecionamos aquela com o grande poeta do Parnasianismo brasileiro Olavo Bilac. Sem dúvida, raridades da nossa história literária!

BILAC
A casa do poeta é de uma elegância delicada e sóbria. Ao entrar no jardim, que é como um país de aromas, cheio de rosas e jasmins, ouvindo ao longe o vago anseio do oceano, eu levava n'alma um certo temor. Eram oito horas da manhã, apenas oito horas. A rua parecia acordar naquele instante, os transeuntes passavam com o ar de quem ainda tem sono, e o próprio sol, muito frio e formoso, parecia bocejar no lento adelgaçar das névoas.

— Só muito cedo encontrar-me-ás em casa, dissera ele, e eu mesmo sabia que o cantor do Caçador de Esmeraldas acorda às cinco da madrugada, escreve até as dez, sai e não recolhe senão depois da meia-noite, porque o entristece ficar num gabinete sem outra alma, à luz dos bicos de gás.

Quando, porém, ia tocar o timbre de um velho bronze, o meu receio desapareceu.

Estavam as portas da sala abertas e eu via Bilac curvado sobre a mesa a escrever.

— Pode-se importunar?
— Ó ave madrugadora! Tu por aqui?
Ergueu-se com a sua aristocrática distinção. Estava todo vestido de linho branco, a camisa alva com punhos e colarinhos duros.
— Aposto que vens ver os meus cartões postais?

Eu olhava a sala onde há tanto tempo mora a Musa perfeita. As paredes desaparecem cheias de telas assinadas por grandes nomes, caquemonos de Japão, colchas de seda cor d'ouro velho. As janelas deixam ver o céu, a rua e as árvores entre cortinas cor de leite e sanefas de veludo cor de mosto. Do teto pende uma antiga tapeçaria francesa, a um canto um paravento de laca parece guardar mistérios no bric-à-brac do mobiliário — cadeiras de várias épocas, poltronas, estantes de rodízios, guéridons, divãs, dois vastos divãs turcos, largos como alcovas... Ao centro a mesa em que escreve o poeta, muito limpa e quase muito pequena, de canela preta, encimada por um ventilador. Os meus olhos repousam nos bibelots, nas jarras de porcelana cheias de flores frescas; a alma sente uma alegre impressão de confortável. O poeta faz-me sentar.

— Oito horas já? Há não sei quantas escrevo eu.
— Versos?
— Oh! Não, meu amigo, nem versos, nem crônicas — livros para crianças, apenas isso que é tudo. Se fosse possível, eu me centuplicaria para difundir a instrução, para convencer os governos da necessidade de criar escolas, para demonstrar aos que sabem ler que o mal do Brasil é antes de tudo o mal de ser analfabeto.
Talvez sejam idéias de quem começa a envelhecer, mas eu consagro todo o meu entusiasmo o entusiasmo — que é a vida — a este sonho irrealizável.
— Basta o entusiasmo pelo irrealizável para que um homem seja perfeito, já disse Barrès.
Bilac sorriu.
— Mas então não queres ler decididamente os pensamentos dos quarenta membros da Academia Francesa?
— Eu venho para coisas muito mais graves.
— Tenho que há na vida coisas que se dizem mas não se escrevem, coisas que só se escrevem e outras que nem se escrevem nem se dizem mas apenas se pensam. Seria feliz se me viesses perguntar aquela, que sem me entristecer aos outros, pudesse ser pensada, falada e escrita. É entretanto difícil...

Eu ouvia-o embevecido. A originalidade desse homem reside na sua sensibilidade extrema e sorridente, na sua impecabilidade, nessa doçura como que rítmica que harmoniza os seus períodos e o acompanha na vida. Bilac chegou à perfeição — é sagrado. Não há quem não o admire, não há quem não o louve. As fadas, que são quase uma verdade, fizeram da sua existência uma sinfonia deliciosa, e como o seu talento não tem desfalecimentos e a sua atividade é sempre fecunda, a admiração se perpetua. É o poeta da cidade como Catulo o era de Roma e como Apuleio o era de Cartago. Todos o conhecem e todos o respeitam. Os editores vendem anualmente quatro mil exemplares de seu livro de versos, realizando o que até então era o impossível. Onde vá, o louvor acompanha-o. A cidade ama-o. Nenhum poeta contemporâneo teve o destino luminoso de empolgar exclusivamente a admiração. Ele é o pontífice dos artistas e dos que o não são. Há homens que guardam em cofres tudo quanto tem escrito de esparso na sua múltipla colaboração jornalística e não há um dia em que pelo menos não receba dos confins da província ou dos bairros aristocráticos meia dúzia de cartas chamando-o de admirável. E nunca a sua túnica branca teve uma ruga desgraciosa, nunca nos seus períodos a elegância deixou de brilhar. Quando escreve, os jornais aumentam a tiragem com as suas crônicas, e o seu estilo impecável aureola de simpatia todos os assuntos; quando fala, as suas palavras admiráveis, talhadas como em mármore e diamante, lembram os jardins de Academos e as prosas sábias do cais de Alexandria, no tempo dos Ptolomeus. E todos sentem a fascinação do encanto — as turbas confusas e os homens inteligentes.

É o portador do espírito da Hélade. No portal da sua morada bem se podia gravar o misterioso enigma da Antologia: "Nasci no bosque sagrado e sou feito de ferro. Tornei-me o secreto depositário das musas e quando falo, intérprete e confidente único, ressoa o bronze eternamente."

E, entretanto, há por vezes no seu sorriso uma irônica amargura, na sua voz, que se vela, a secreta tristeza de quem está resignado a não dizer grandes verdades necessárias, e na sua alma, destinada à aclamação, uma delicadeza, uma modéstia infinita. Dois escritores ele os lê diariamente, ou pela manhã antes de começar a trabalhar, ou à noite antes de dormir — Renan e Cervantes. A vida fê-lo vestir os ímpetos e a imensa paixão lírica no burel de uma suave ironia. Quem o lê pensa em Luciano de Samósata, no ridículo do herói manchego, no travo das fantasias desfeitas. Mas, de raro em raro, surgem, como a reivindicação das idéias generosas, as tristes e delicadas imprecações da sua prosa, e em conversa muita vez quando todos riem, um doloroso suspiro de cansaço e tédio passa no seu lábio, de todos despercebido. E é ainda essa alma esquisita que cora e se confunde, quando pela milésima vez numa tarde alguém se lembra de dizer que o acha incomparável.

Talvez, por isso, o poeta sensual dos amores imensos, o vate embevecido nas vozes das estrelas, aquele que durante vinte anos dera intenções e idéias à natureza e comentara com um piparote céptico as ações dos homens, curvou-se um dia para a vermina com o fulgor do seu espírito luminoso e resolveu protegê-la. Bilac hoje é um apóstolo-socialista pregando a instrução.

Todos os problemas da vida ele os pode encarar como Capus os trata nas suas peças. A instrução das crianças e o bem dos miseráveis preocupam-no seriamente. Eu o ia interromper na composição de um livro para perguntar a sua opinião sobre o estado da literatura brasileira e o papel do jornalismo para com essa mesma literatura. Ele falou-me com uma certa amargura, ligando as minhas perguntas ao seu ideal.

— Que queres tu, meu amigo? Nós nunca tivemos propriamente uma literatura. Temos imitações, cópias, reflexos. Onde o escritor que não recorde outro escritor estrangeiro, onde a escola que seja nossa? Eu amo entre os poetas brasileiros Gonçalves Dias e Alberto de Oliveira, a quem copiei muito em criança, mas não poderei garantir que eles não sejam produtos de outro meio. Há de resto explicações para o fato. Somos uma raça em formação, na qual lutam pela supremacia diversos elementos étnicos. Não pode haver uma literatura original, sem que a raça esteja formada, e já é prodigiosa a nossa inteligência, que consegue ser esse reflexo superior e se faz representativa do espírito latino na América. Ah! A nossa inteligência! É possível atacar, espezinhar, pulverizar de ridículo tudo o que constitui o Brasil, a sua civilização e o esforço dos seus filhos. Esses ataques são em geral feitos por brasileiros. Duas coisas porém ficam acima dos maus conceitos: a beleza da terra e o espírito que a habita, o encanto da natureza e a clara inteligência assimiladora dos homens. Os comerciantes, os artistas em tournée, os humildes e os notáveis levam daqui a impressão imorredoura de que não há país mais aberto a todas as idéias generosas, mais espiritualmente irônico. Poderíamos acrescentar:

nem mais indolente. Mas não basta haver talentos e belos livros para que haja uma literatura. Esta opinião talvez não seja uma grande novidade, mas é verdadeira. Nós nos regulamos pela França. A França não tem agora lutas de escola, nós também não; a França tem alguns moços extravagantes, nós também; há uma tendência mais forte, a tendência humanitária, nós começamos a fazer livros socialistas. Esta última corrente arrasta, no mundo, todos quantos se apercebem da angústia dos pobres e do sofrimento dos humildes. Um artista sente mais as dores terrenas que cem homens vulgares, os poetas são como o eco sonoro do verso de Hugo, entre o céu e a terra, para transmitir aos deuses os queixumes dos mortais...

A Arte não é, como ainda querem alguns sonhadores ingênuos, uma aspiração e um trabalho à parte, sem ligação com as outras preocupações da existência. Todas as preocupações humanas se enfeixam e misturam de modo inseparável. As torres de ouro e marfim, em que os artistas se fechavam, ruíram desmoronadas. A Arte de hoje é aberta e sujeita a todas as influências do meio e do tempo: para ser a mais bela representação da vida, ela tem de ouvir e guardar todos os gritos, todas as queixas, todas as lamentações do rebanho humano. Somente um louco, — ou um egoísta monstruoso —, poderá viver e trabalhar consigo mesmo, trancado a sete chaves dentro do seu sonho, indiferente a quanto se passa, cá fora, no campo vasto em que as paixões lutam e morrem, em que anseiam as ambições e choram os desesperos, em que se decidem os destinos dos povos e das raças...

Uma revista, que se fundasse, no Brasil, para exclusivamente cuidar de cousas de Arte, seria absurda. A Arte é a cúpula que coroa o edifício da civilização: e só pode ter arte o povo que já é "povo", que já saiu triunfante de todas as provações em que se apura e define o caráter das nacionalidades.

O que urge é compreender isso, e é aproveitar a lição dos fatos. Nós não temos unicamente, diante de nós, o problema do saneamento e do povoamento. Com o saneamento apenas, livrar-nos-emos das epidemias que os mosquitos, os ratos, os micróbios transmitem de corpo a corpo, mas deixaremos, intacta e tremenda, pairando sobre nós, a ameaça das epidemias morais, que depauperam o organismo social, e o conduzem à indisciplina, à inconsciência e à escravidão. Tratando apenas do povoamento, feito ao acaso das levas de imigração, sem fundar uma escola em cada novo núcleo de povoadores, conseguiremos somente aumentar e dilatar o império da ignorância e da irresponsabilidade.

O problema que tem de ser resolvido, juntamente com esses dois, é o da instrução. E o que dói, o que desespera, é que toda a gente culta do Brasil tem a consciência disto, e que, há mais de um século, esta verdade, anunciada, proclamada, escrita, em todas as tribunas, em todos os livros, em todos os jornais, ainda não achou governo que a servisse em terreno prático.

Houve um silêncio. O poeta falava como um filósofo e no seu lábio a verdade vibrava. Timidamente comecei uma frase, que não chegava a ser pergunta:

— Os Estados procuram criar literaturas à parte. Ainda há pouco, logo após a publicação das minhas primeiras entrevistas sobre o momento literário, todos os Estados agitaram-se, S. Paulo, Rio Grande, Pernambuco...
— É dividir o que não se pode dividir. Não há talentos do Norte nem do Sul. Há talentos brasileiros. Não posso compreender, para não citar senão um exemplo, em que os versos de Francisca Júlia possam ser paulistas. Quanto à separação da nossa futura literatura, ela se fará lentamente, como se vão formando a nossa raça e o nosso gosto, conforme as correntes mais ou menos fortes dos povos colonizadores. Talvez em 2500 existam literaturas diversas no vasto território que hoje forma o Brasil.
— E o jornalismo?

Olavo Brás Martins dos Guimarães Bilac, tão poeta que o seu nome é um alexandrino, limpou os vidros do binóculo e disse praticamente:

— O jornalismo é para todo o escritor brasileiro um grande bem. É mesmo o único meio do escritor se fazer ler. O meio de ação nos falharia absolutamente se não fosse o jornal — porque o livro ainda não é coisa que se compre no Brasil como uma necessidade. O jornal é um problema complexo. Nós adquirimos a possibilidade de poder falar a um certo número de pessoas que nos desconheceriam se não fosse a folha diária; os proprietários de jornal vêem limitada, pela falta de instrução, a tiragem das suas empresas. Todos os jornais do Rio não vendem, reunidos, cento e cinqüenta mil exemplares, tiragem insignificante para qualquer diário de segunda ordem na Europa. São oito os nossos! Isso demonstra que o público não lê — visto o prestígio representativo gozado pelo jornalista. E por que não lê? Porque não sabe! Tenho estatísticas aterrorizadoras, fenomenais. Era natural que decrescesse a lista dos analfabetos à medida que a população aumentasse em número e civilização. Pois dá-se o contrário. Há hoje mais um milhão de analfabetos que em 1890! E digam depois que não é preciso criar escolas e difundir a instrução. Um povo não é povo enquanto não sabe ler. Admiras-te dessa minha transformação? O poeta, que ama as cigarras e os flamboiants, o sonhador, que em tudo vê a poesia, batendo-se por um grave problema social!... Ah! meu amigo! Para mim esta é a última etapa do aperfeiçoamento, e o jornalismo é um bem.

Parou, foi até a janela, olhou o céu, que escurecera prenunciando chuva. Toda a sua figura transpirava simpatia harmoniosa. E, de entre as cortinas cor de leite, uma outra voz grave vibrou, cheia de melancolia: "Oh! sim, é um bem. Mas se um moço escritor viesse, nesse dia triste, pedir um conselho à minha tristeza e ao meu desconsolado outono, eu lhe diria apenas: Ama a tua arte sobre todas as coisas e tem a coragem, que eu não tive, de morrer de fome para não prostituir o teu talento!"

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Fonte:

João do Rio: "O Momento Literário" (Palestras com Olavo Bilac, Coelho Neto, Júlia Lopes de Almeida, Filinto de Almeida, Padre Severiano de Resende, Félix Pacheco, João Luso, Guimarães Passos, Lima Campos; cartas de João Ribeiro, Clóvis Beviláqua, Sílvio Romero, Raimundo Correia, Medeiros e Albuquerque, Garcia Redondo, Frota Pessoa, Mário Pederneiras, Luís Edmundo, Curvelo de Mendonça, Nestor Vítor, Silva Ramos, Artur Orlando, Sousa Bandeira, Inglês de Sousa, Afonso Celso, Elísio de Carvalho, etc. etc. 

15/11/2014

Crônicas e Novelas, de Olavo Bilac

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Olavo Bilac: um cronista carioca da gemma

“Olavo Bilac é carioca da gemma”. Com essa afirmação, Guimarães Passos iniciou o retrato do cronista, na edição de março de 1893, sua “Biographia Express” — coluna que assinava na revista literária O Álbum, dirigida por Artur Azevedo (cf. DIMAS: 2006, p. 34).

A nosso ver, entretanto, a longa citação que se segue, parte de uma entrevista realizada com Olavo Bilac pelo cronista-repórter João do Rio, em 1904, constitui, a mais bela e harmoniosa descrição do poeta-cronista — ou cronista-poeta — e, portanto, julgamos importante transcrevê-la neste trabalho:

A originalidade desse homem reside na sua sensibilidade extrema e sorridente, na sua impecabilidade, nessa doçura como que rítmica que harmoniza os seus períodos e o acompanha na vida. Bilac chegou à perfeição — é sagrado. Não há quem não o admire, não há quem não o louve. As fadas, que são quase uma verdade, fizeram da sua existência uma sinfonia deliciosa, e como o seu talento não tem desfalecimentos e a sua atividade é sempre fecunda, a admiração se perpetua. É o poeta da cidade como Catulo o era de Roma e como Apuleio o era de Cartago. Todos o conhecem e todos o respeitam. Os editores vendem anualmente quatro mil exemplares de seu livro de versos, realizando o que até então era o impossível.

Onde vá, o louvor acompanha-o. A cidade ama-o. Nenhum poeta contemporâneo teve o destino luminoso de empolgar exclusivamente a admiração. Ele é o pontífice dos artistas e dos que o não são. Há homens que guardam em cofres tudo quanto tem escrito de esparso na sua múltipla colaboração jornalística e não há um dia em que pelo menos não receba dos confins da província ou dos bairros aristocráticos meia dúzia de cartas chamando-o de admirável. E nunca a sua túnica branca teve uma ruga desgraciosa, nunca nos seus períodos a elegância deixou de brilhar. Quando escreve, os jornais aumentam a tiragem com as suas crônicas, e o seu estilo impecável aureola de simpatia todos os assuntos; quando fala, as suas palavras admiráveis, talhadas como em mármore e diamante, lembram os jardins de Academos e as prosas sábias do cais de Alexandria, no tempo dos Ptolomeus. E todos sentem a fascinação do encanto — as turbas confusas e os homens inteligentes.

É o portador do espírito da Hélade. No portal da sua morada bem se podia gravar o misterioso enigma da Antologia: "Nasci no bosque sagrado e sou feito de ferro. Tornei-me o secreto depositário das musas e quando falo, intérprete e confidente único, ressoa o bronze eternamente."

E, entretanto, há por vezes no seu sorriso uma irônica amargura, na sua voz, que se vela, a secreta tristeza de quem está resignado a não dizer grandes verdades necessárias, e na sua alma, destinada à aclamação, uma delicadeza, uma modéstia infinita. Dois escritores ele os lê diariamente, ou pela manhã antes de começar a trabalhar, ou à noite antes de dormir — Renan e Cervantes. A vida fê-lo vestir os ímpetos e a imensa paixão lírica no burel de uma suave ironia. Quem o lê pensa em Luciano de Samósata, no ridículo do herói manchego, no travo das fantasias desfeitas. Mas, de raro em raro, surgem, como a reivindicação das idéias generosas, as tristes e delicadas imprecações da sua prosa, e em conversa muita vez quando todos riem, um doloroso suspiro de cansaço e tédio passa no seu lábio, de todos despercebido. E é ainda essa alma esquisita que cora e se confunde, quando pela milésima vez numa tarde alguém se lembra de dizer que o acha incomparável.

Talvez, por isso, o poeta sensual dos amores imensos, o vate embevecido nas vozes das estrelas, aquele que durante vinte anos dera intenções e idéias à natureza e comentara com um piparote céptico as ações dos homens, curvou-se um dia para a vermina com o fulgor do seu espírito luminoso e resolveu protegê-la. Bilac hoje é um apóstolo-socialista pregando a instrução.
Todos os problemas da vida ele os pode encarar como Capus os trata nas suas peças. A instrução das crianças e o bem dos miseráveis preocupam-no seriamente. (RIO: 1907, p. 5)

O ano de 1865 já estava findando quando o “Príncipe dos Poetas Brasileiros” veio ao mundo. Seu nome completo é um perfeito alexandrino e, segundo o biógrafo Raymundo Magalhães Júnior, “interpretado por alguns como predestinação para as letras poéticas” (MAGALHÃES JR.: 1974, p. 7). De fato, Olavo Brás Martins de Guimarães Bilac foi reconhecido e admirado por todos como o maior poeta brasileiro de sua época, recebendo em vida todas as merecidas glórias. Além disso, engana-se, inclusive, quem pensa que os modernistas não o admiravam. Apesar da irreverência com que tratavam o poeta, nas palavras de Menotti Del Picchia, “discuti-lo era amá-lo” (PICCHIA: 2007, p. 15). Ruy Castro, em seu romance Bilac vê estrelas, na pequena biografia sobre o escritor-personagem, escreveu:

A escola poética que o teve como maior expoente no Brasil, o parnasianismo, foi o grande alvo da crítica dos modernistas de 1922, embora eles reconhecessem o valor de Bilac. Mário de Andrade, na época, classificou-o de “o malabarista mais genial do verso em português”. E, na década de 1910, Oswald de Andrade vinha frequentemente ao Rio render-lhe homenagem. (CASTRO: 2004, p. 148)

Olavo Bilac nasceu na cidade do Rio de Janeiro, a Corte, no dia 16 de dezembro. No ano anterior, 1864, havia iniciado a Guerra do Paraguai, conflito no qual Brasil, Argentina e Uruguai formaram a Tríplice Aliança para juntos lutarem contra aquele país do interior da América do Sul e cujo governante — Solano López — buscava uma saída para o mar, disputando com os outros três um domínio sobre a navegação nos rios Paraná e Paraguai. Naquela época, a família do Dr. Brás Martins dos Guimarães Bilac vivia em um modesto sobrado localizado na antiga Rua da Vala — recém rebatizada Rua Uruguaiana — esquina com Rua do Ouvidor.

Olavo passou parte da infância sem a presença do pai, que também não presenciou seu nascimento. Meses antes, o Dr. Brás partira para o campo de batalha como médico. Retornou apenas em 1870, com o fim da guerra, quando Olavo contava quatro anos de idade.

Desejoso de que seu filho seguisse a sua carreira, o médico preocupou-se em dar a Olavo a melhor educação possível. Aos 14 anos de idade, ele era um prodígio na tenra adolescência. Naquela época, a idade mínima para ingressar em cursos superiores era 18 anos. Segundo Magalhães Jr., porém, era comum que rapazes precoces, a título excepcional, fossem matriculados em cursos superiores, “mediante autorização do Poder Legislativo, referendada pelo imperador” (MAGALHÃES JR.: 1974, p. 18). Foi assim que, correspondendo aos anseios do pai e a contragosto seu, ele ingressou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

Em 1883, Bilac publicou seu primeiro verso em um periódico: a Gazeta Acadêmica, uma folha organizada pelos estudantes da Faculdade de Medicina e que tinha Bilac como um de seus redatores. Sua participação, porém, não se resumiu aos versos e à sala de redação, visto que ele também escreveu artigos para o jornal.

Apesar de não ter dificuldades nos estudos, tendo sido, inclusive, nomeado preparador de fisiologia, Bilac não se sentia em nada atraído pela medicina. Nas palavras do biógrafo Fernando Jorge, “o micróbio da literatura” já o havia atacado e ele tinha “mais prazer em conversar sobre Théophile Guatier, Baudelaire, Leconte de Lisle, Alfred de Musset, Théodore de Banville, François Coppé, do que tecer considerações a respeito da fisiologia do trato digestivo” (JORGE: 2007, p. 44).

Quando o Dr. Brás e sua família se mudaram para o subúrbio do Engenho Novo, Bilac viu-se distante da efervescência do centro da cidade e, consequentemente, do velho casarão da Rua da Misericórdia, onde se situava a Faculdade de Medicina. Para evitar as longas viagens e também porque a cada dia se tornava mais atraído pelo requinte e pela elegância da Rua do Ouvidor e pela vida boêmia, “ele preferia ficar no centro, dormindo nas ‘repúblicas’ dos colegas ou passando as noites na ‘Maison Moderne’, célebre café-concerto da época” (JORGE: 2007, p. 52).

Ainda nos tempos da Faculdade de Medicina, Bilac fez algumas amizades que, de alguma forma ou de outra, acabaram exercendo certa “influência” em sua vida literária. Entre esses amigos estavam Artur de Oliveira, Alberto de Oliveira e Paula Nei.

Como se sabe, para os escritores da época — poetas ou não —, o jornal era o principal veículo de divulgação de suas obras. Ter um poema publicado em uma página ou um romance no folhetim era um passo para fama. Obviamente alguns periódicos tinham mais prestígio do que outros. Segundo Nélson Werneck Sodré, a Gazeta de Notícias, fundada em 1875 por Manuel Carneiro, Ferreira de Araújo e Elísio Mendes, em apenas sete anos já havia se tornado “o melhor jornal da época” (SODRÉ: 1998, p. 245). Era diferente dos demais em vários aspectos: “moderno, de espírito adiantado”, com caricaturas diárias, entrevistas e reportagens fotográficas e fornecendo ampla informação (cf. JORGE: 2007, p. 51); seus exemplares eram vendidos avulsos, enquanto os de outros só o eram por assinatura; seu preço era acessível às massas, um exemplar custava 40 réis (cf. SODRÉ: 1999 p. 224). Nas palavras de Bilac, a folha era também, no início da década de 1880, “o único jornal que acolhia e prezava a literatura” (BILAC: 1997, p. 716). Cabe ainda destacar que, entre seus colaboradores mais famosos, estavam Machado de Assis e Eça de Queiroz, além de Alberto de Oliveira, amigo de Bilac.

Olavo não era diferente dos jovens literatos de sua juventude. Também ele alimentava o sonho de fazer parte da Gazeta. Por esse motivo, invejava seus colaboradores regulares, segundo nos revela em Ironia e Piedade, coletânea de crônicas selecionadas por ele e publicadas em 1916:

Escrevendo este nome [Ferreira de Araújo], revivo muitos anos da minha mocidade. Este nome e estas velhas laudas vêm lembrar-me o tempo em que, desconhecido e feliz, com o cérebro e o coração cheio de esperanças e de versos, eu parava muitas vezes, naquela feia esquina da travessa do Ouvidor, e quedava a namorar, com olhos gulosos, as duas portas estreitas da velha Gazeta, que, para minha ambição literária, eram as duas portas de ouro da fama e da glória. (...) escrever na Gazeta; ser colaborador da Gazeta; ser da casa, estar ao lado da gente ilustre que lhe dava brilho, — que sonho! (BILAC: 1997, p. 715).

Para Fernando Jorge, Olavo “alimentava mais o desejo de tornar-se colaborador da Gazeta do que vir a ser um médico conceituado, dono de larga clientela” (JORGE: 2007, p. 51). Não era o dinheiro que o fazia sonhar com a folha — a quem tratava como uma “linda rapariga” — e sim a ideia de ver seu nome consagrado em suas páginas.

É digno de destaque o fato de que, pelas mãos do amigo Alberto de Oliveira, Bilac teve a alegria de ver seu soneto “A sesta de Nero” publicado na primeira página da Gazeta de Notícias, na edição de 31 de agosto de 1884. Em suas próprias palavras:

Nunca esquecerei, em cem anos que viva, a manhã do ano de 1884, em que vi um dos meus primeiros sonetos na primeira página da Gazeta. Doce e clara manhã! — talvez fosse, realmente, uma agreste manhã, feia e chuvosa, mas a minha alegria, o meu orgulho de rimador novato, a minha vaidade de poeta impresso eram capazes de acender um sol de verão na mais nevoenta alvorada de inverno... (BILAC: 1997, p. 716).

A publicação de “A sesta de Nero” na Gazeta de Notícias trouxe a possibilidade de colaboração em outros periódicos, mas isso só aconteceu no ano seguinte, pois Olavo, no segundo semestre de 1884, teve que se dedicar aos exames da Faculdade de Medicina. De acordo com a extensa pesquisa realizada sobre esse autor por Antonio Dimas, no ano de 1885, Olavo colaborou em quatro periódicos: Diário de Notícias, Gazeta de Sapucaia, A Estação e A Semana. Contudo, o pesquisador informa em seu relevante trabalho — Bilac, o jornalista — que a colaboração de Bilac nos três primeiros não foi por ele confirmada em sua pesquisa, e sim informada por seus biógrafos (cf. DIMAS: 2006, v. 2, p. 573).

Segundo Magalhães Júnior, o primeiro soneto de Bilac publicado em A Estação foi “Vox Dei”, em 30 de setembro de 1885 (MAGALHÃES JR.: 1974, p. 41). Porém, foi com o soneto “Fiat Lux” que o autor conquistou o periódico A Semana. Sua colaboração nessa folha, que teve a poesia como gênero preferencial, se estendeu até 1894, tendo sido interrompida entre os anos de 1889 e 1893 (cf. DIMAS: 2006, v. 2, p. 573).

O ano de 1886 pode ser considerado por muitos admiradores da poesia bilaquiana como o da sua verdadeira consagração como poeta. Isto porque, em 31 de julho, foi publicado em A Semana aquele que talvez seja o seu soneto mais famoso: “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo”. Com isso, finalmente a porta da fama estava aberta, todavia, outra lhe foi fechada.

Em 1886, Olavo decidiu abandonar os estudos de medicina com a intenção de ingressar na Faculdade de Direito, em São Paulo. Obviamente, o Dr. Brás não aprovou a decisão do filho e muito menos concordava com seu comportamento boêmio naquela época. Segundo Fernando Jorge, para o médico, poeta “era sinônimo de indivíduo madraço” (JORGE: 2007, p. 55) — em outras palavras, alguém que não trabalha, nem estuda. O biógrafo relata, “baseado na narrativa que Henrique Orciuoli fez em seu livro sobre Bilac”, o episódio em que Olavo foi expulso de casa pelo pai, após chegar alcoolizado à sua casa, já de madrugada, e acompanhado de Paula Nei. Sem saber para onde ir, o jovem buscou auxílio com o próprio Paula Nei, que o acolheu em seu quarto de pensão (cf. JORGE: 2007, p. 55-56).

Além do fato de não ter vocação alguma para medicina, outro motivo que o levou a trocar esse curso pelas leis foi seu amor pela irmã do amigo Alberto de Oliveira, Amélia. Olavo sabia que só poderia conquistar a aprovação da família de um compromisso com a moça se tivesse ao menos um anel e um canudo de bacharel. Desejava, também, mostrar ao seu pai que não precisava ser médico para ser alguém na vida.

Bilac mudou-se para São Paulo em abril de 1887, onde freqüentou como ouvinte as aulas da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Destaque-se que, para os homens de letras da época, a carreira de advogado era a única opção (cf. COSTA: 2005, p. 49). Para sustentar-se, escrevia no Diário Mercantil e na Vida Semanária; além disso, continuou a colaborar em A Semana (cf. BUENO: 1996, p. 70). Mas ele não nascera para nenhuma das profissões imperiais — medicina, engenharia e direito — e não tardou em abandonar o estudo das leis e voltar para o Rio de Janeiro, em 1888.

Coelho Neto, em seu romance “autobiográfico” A Conquista, publicado em 1899, narra seu primeiro encontro com Olavo Bilac. Nele o escritor adota o pseudônimo Anselmo. O diálogo entre os dois, e o amigo em comum Freitas, é reproduzido ipsis verbis pelo biógrafo Fernando Jorge, que esclarece:

Octávio Bivar é o pseudônimo transparente que ele (Coelho Neto) usou para encobrir a figura do poeta (Bilac). Quanto ao caráter autêntico deste livro (A Conquista), podemos apresentar o depoimento de Humberto de Campos, (...), pois (...) era amigo íntimo de Coelho Neto: “(...) é um capítulo da vida do autor; porque nele figuram os homens de letras mais ilustres de seu tempo, os quais atravessam, sob nomes mal disfarçados, (...)” (Crítica, 2ª Série.) Consulte-se, a este respeito, o livro que Paulo Coelho Neto publicou em 1942 sobre seu pai. (JORGE: 2005, p. 70-71)

Dessa obra, dois diálogos são dignos de reprodução. No primeiro deles, Olavo, após ter recitado um de seus poemas, fornece sua opinião sobre prosa e poesia. No segundo, após ter dito a Coelho Neto que não trabalhava em jornais, ele aconselha o novo amigo, que acabara de entrar para a Gazeta da Tarde, a não fazer notícias e manter-se artista.

Restituamos brevemente o contexto: Freitas, Anselmo e Bivar estão no Gambrinus, uma desconhecida taberna. Após o poeta declamar “O Julgamento de Frinéia”, segue-se o seguinte diálogo:

— Soberbo! — exclamou o Freitas reclamando mais cerveja. Anselmo ficou algum tempo a olhar o poeta, sem dizer palavra, arroubado.
— Agora, o senhor: recite-nos alguma coisa.
— Isto não faz versos, disse, com desprezo, o Freitas. É só prosa chilra.
— Faz muito bem. A prosa; se não tem a nobreza do verso, é mais ampla; o pensamento move-se livremente no período sem os apertos da métrica, sem a preocupação monótona da rima. A prosa! A excelsa prosa! Não imagina como eu amo a prosa, acho-a até mais difícil do que o verso. A prosa marmórea de um Flaubert, de um Saint-Victor... oh!
— Preferes, então, a prosa ao verso?
— Prefiro.
— E por que não fazes, de preferência, prosa?
— Hei de fazê-la.
— Ora, qual!
— Hás de ver.
— Tu és poeta e hás de ser sempre poeta, quer queiras, quer não.
— De acordo, mas poesia não quer dizer rima, poeta não é o que faz estrofes. Há por aí muito animal que faz versos impecáveis e que tem tanto de poeta como eu tenho de cantor de árias. A estrofe é um excipiente, é um meio de expressão, é a plástica. O sentimento é tudo. (COELHO NETO: 1899, p. 107)

Freitas se despede de Anselmo e Bivar. Os novos amigos decidem dar uma volta pela cidade. Quebrando o silêncio, Anselmo pergunta a Bivar em que jornal ele trabalha e obtém a seguinte resposta:

— Eu? Não trabalho em jornais. Considero a imprensa uma indústria intelectual. Entra a gente para o jornalismo com um bando de idéias originais e retalha-as para o varejo do dia a dia. Quando vejo um poeta o um prosador a fazer notícias, tenho piedade. (...) Eu, se me metesse a fazer notícias, enlouquecia. Sinto-me incapaz, a local aterra- me. Tentei, uma vez, redigir a mais simples das notícias: um caso banal de polícia. Pois, meu amigo, saiu-me um substancioso artigo político. Quem pode compor um período perfeito numa sala de redação, interrompendo-se, de instante a instante, para acudir à reclamação de um sujeito que pede providências contra a falta d'água? É hediondo!
— Pois eu vou trabalhar na Gazeta.
— Vai escrever crônicas...
— Não sei ainda.
— Não faça notícias; a notícia embota. Ataque as instituições, desmantele a sociedade, conflagre o país, excite os poderes públicos, revolte o comércio, assanhe as indústrias, enfureça as classes operárias, subleve os escravos, mas não escreva uma linha, uma palavra sobre notas policiais, nem faça reclamos. Mantenha-se artista: nem escriba nem camelote. (COELHO NETO: 1899, p. 108)

Bivar acrescenta que um homem de talento não deve se render aos caprichos do dono do jornal, que apenas quer explorá-lo, sem lhe dar o devido crédito, pois isso seria um suicídio. Para o poeta:

O livro fica, o jornal passa e raramente deixa vestígio. O artigo do dia mata o artigo da véspera, a opinião de hoje prevalece, a de ontem morre, mas com o artista consciencioso, não. Demais, meu amigo, egoísmo antes de tudo: o jornal é o redator político, o mais... que vale? Fica-se sempre à sombra, por mais que se faça. Não vale a pena. O trabalho de um ano no jornal não vale uma página requintada de um livro de Arte. (COELHO NETO: 1899, p. 109)

Anselmo, então, quer saber o que fazer. A isso, Bivar responde:

— Escreva livros.
— Para quê, se não há quem os edite?
— Escreva contos, fantasias, crônicas.
— Não pagam. Fazem ainda grande favor quando os publicam.
— Pois, meu amigo, que me venham pedir versos ou prosa de graça. Quer saber? Os culpados da depreciação literária são os próprios literatos: Alencar vendia os seus romances ao Garnier por quatrocentos mil réis. Quantas edições tem O Guarani? Está ainda na primeira e éconhecido em todo o Brasil. O editor fez com o romance o milagre de Tiberíade: multiplicou-o. Se houvesse fiscalização a coisa seria outra. (COELHO NETO: 1899, p. 109)

Aparentemente, Coelho Neto seguiu o conselho do novo amigo, pois escreveu mais de cinquenta livros. Por outro lado, Bilac rendeu-se ao jornal, profissionalizando-se como jornalista. Por toda a vida, ele acreditou na importância dos livros, principalmente para a formação de um povo. Contudo, era com o dinheiro do jornal e não do livro (mesmo tendo publicado verdadeiros best-sellers para a época) que pagava as suas contas no fim do mês e isso lhe permitia viver com certo luxo, a ponto, inclusive, de poder viajar mais de uma vez para a Europa (cf. COSTA: 2005, p. 48).

É digno de nota que, em seu caso, a profissionalização não significou a submissão à vontade do dono do jornal ou da revista. Em um de seus ensaios sobre Bilac, o professor Antonio Dimas tece algumas considerações sobre Sarcey (1827 – 1899), figura que dominou na França a crítica de teatro na segunda metade do século XIX. Segundo o estudioso, Bilac sentia-se atraído pela firmeza profissional do crítico francês. As palavras que Dimas escreve sobre o pensamento de Sarcey bem podem ser utilizadas para mostrar a opinião de Bilac com relação ao profissional de letras — escrevesse ele prosa ou verso, em jornais, livros ou revistas:

Se lhe era garantido acesso a um veículo onde expunha, toda semana, seu ponto de vista profissional, nada mais justo que o remunerassem pelas mesmas opiniões que lhe haviam assegurado a respeitabilidade intelectual. Afinal, tinham sido elas as responsáveis pelo convite e era por causa delas que o público, com certeza, haveria de procurar pelo jornal que as estampasse. (DIMAS: 2006, p. 136)

No mesmo ensaio, Dimas nos fala sobre as reivindicações feitas por Bilac para que as atividades intelectuais tivessem um amparo legal, citando como exemplo uma crônica de janeiro de 1897, publicada em A Bruxa, na qual o cronista “denuncia a voracidade dos editores estabelecidos no Brasil” (cf. DIMAS: 2006, p. 136). Crítica semelhante já foi mencionada anteriormente, quando reproduzimos o diálogo entre Bilac e Coelho Neto.

Importa ainda mencionar que, em 1904, o jornalista e escritor João do Rio decidiu satisfazer a curiosidade do público sobre o que pensavam os literatos da época, por muitos considerados ídolos. A enquete, feita com vários escritores, foi publicada em 1904, na Gazeta de Notícias e, posteriormente, fez parte da coletânea O momento literário, publicada em 1907. Entre as várias perguntas feitas pelo entrevistador, a que mais interessa aos propósitos de nossa investigação é: “O jornalismo, especialmente no Brasil, é um fator bom ou mau para a arte literária?”.

Abrindo a série, está a entrevista com Olavo Bilac. Se, quando jovem, o poeta afirmara ao amigo Coelho Neto que “um homem de talento que se mete em jornais suicida-se” (COELHO NETO: 1889, p. 109), anos depois, em 1904, ele declarava:

O jornalismo é para todo o escritor brasileiro um grande bem. É mesmo o único meio do escritor se fazer ler. O meio de ação nos falharia absolutamente se não fosse o jornal — porque o livro ainda não é coisa que se compre no Brasil como uma necessidade. O jornal é um problema complexo. Nós adquirimos a possibilidade de poder falar a um certo número de pessoas que nos desconheceriam se não fosse a folha diária; (...) Todos os jornais do Rio não vendem, reunidos, cento e cinqüenta mil exemplares, tiragem insignificante para qualquer diário de segunda ordem na Europa. São oito os nossos! Isso demonstra que o público não lê — visto o prestígio representativo gozado pelo jornalista. E por que não lê? Porque não sabe! (...) Há hoje mais um milhão de analfabetos que em 1890! E digam depois que não é preciso criar escolas e difundir a instrução. Um povo não é povo enquanto não sabe ler. Admiras-te dessa minha transformação? O poeta, que ama as cigarras e os flamboiants, o sonhador, que em tudo vê a poesia, batendo-se por um grave problema social!... Ah! meu amigo! Para mim esta é a última etapa do aperfeiçoamento, e o jornalismo é um bem. (...) Oh! sim, é um bem. Mas se um moço escritor viesse, nesse dia triste, pedir um conselho à minha tristeza e ao meu desconsolado outono, eu lhe diria apenas: Ama a tua arte sobre todas as coisas e tem a coragem, que eu não tive, de morrer de fome para não prostituir o teu talento! (RIO: 1907, p.6-7)

Nesta entrevista, Bilac demonstrou toda sua preocupação com a educação no Brasil. Não é de se admirar que o poeta e cronista se tornasse um grande entusiasta das reformas modernizadoras de Pereira Passos, prefeito do Distrito Federal, a cidade do Rio de Janeiro, entre 1902 e 1906, durante o governo de Rodrigues Alves.

Não é demais observar que os ideais republicanos de ordem e progresso sempre estiveram presentes no pensamento de Olavo Bilac. A esse respeito, lembremo-nos de que ele escreveu a letra do Hino à Bandeira Nacional (1906), cujos versos enunciam:

I.
Salve lindo pendão da esperança!
Salve símbolo augusto da paz!
Tua nobre presença à lembrança
A grandeza da Pátria nos traz.
Refrão:
Recebe o afeto que se encerra
em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!

II.
Em teu seio formoso retratas
Este céu de puríssimo azul,
A verdura sem par destas matas,
E o esplendor do Cruzeiro do Sul.
(Refrão)

III.
Contemplando o teu vulto sagrado,
Compreendemos o nosso dever,
E o Brasil por seus filhos amado,
poderoso e feliz há de ser!
(Refrão)

IV.
Sobre a imensa Nação Brasileira,
Nos momentos de festa ou de dor,
Paira sempre, sagrada bandeira
Pavilhão da justiça e do amor!
(Refrão)

Os versos de Olavo Bilac são uma mostra de seu patriotismo, além, é claro, da sua maestria poética. A titulo de curiosidade, acrescentamos que o hino foi composto, em parceria musical com Antonio Francisco Braga, a pedido de Pereira Passos, então prefeito do Distrito Federal.

Anos antes, porém, ainda nos primeiros anos da jovem República, ele não se furtou a criticar as atitudes autoritárias de Floriano Peixoto, que havia assumido a presidência da República após a renúncia de Deodoro da Fonseca. Sua atuação política como jornalista na época levou-o à prisão, em 1892, por quatro meses, na Fortaleza da Laje, no Rio de Janeiro, e, no ano seguinte, ao “exílio” em Minas Gerais, onde permaneceu até 1894.

Bilac colaborou, ao longo de sua carreira jornalística, em vários periódicos — jornais e revistas — do Rio de Janeiro e de São Paulo. O pesquisador Antonio Dimas leu e sumariou cerca de mil e seiscentas crônicas da autoria do poeta (cf. DIMAS: 2006, v.2, p. 461). Em 1908, Bilac encerrou sua carreira jornalística, passando a dedicar-se — até sua morte, em 1918 — a campanhas cívicas e conferências.

Dos jornais para os quais colaborou, a Gazeta de Notícias foi a folha que mais contribuições recebeu. Foi também nesse periódico de grande prestígio que Bilac substituiu, em 1897, aquele que até então — e podemos dizer até hoje — era o maior romancista brasileiro e cronista de grande prestígio na época: Machado de Assis. Em crônica de 1903, sobre o periódico, Bilac deixou registradas as seguintes linhas sobre o Bruxo do Cosme Velho:

(...) Machado de Assis, um nababo egoísta, que, um belo dia, ali por volta de 1897, meteu dentro de um saco as luzes e os perfumes, as estrelas e as rosas que costumava espalhar por essa seção, e levantou acampamento, obrigando o leitor, habituado ao licor precioso do seu estilo, a contentar-se com a água chilra do meu. (BILAC: 1996, p. 59)

Nas palavras de Antonio Dimas, “ao contrário de seu antecessor na Gazeta de Notícias, Bilac não titubeava em opinar sobre os mais diversos assuntos que interessassem diretamente à organização da sociedade civil” (DIMAS: 1996, p. 15). De fato, em sua coluna, Bilac escreveu sobre os mais variados temas e, quando, em sua opinião, necessário fosse, atacou a sociedade em que vivia. O cronista deixou de lado a “pompa e circunstância” do parnasianismo, e produziu crônicas de grande leveza, fácil compreensão e, muitas vezes, com alto cunho didático.

Bilac também colaborou em outro periódico de significativa importância: a revista ilustrada Kosmos: Revista Artística Científica e Literária. O primeiro número saiu em janeiro de 1904, no ano seguinte ao início das reformas empreendidas pelo prefeito Pereira Passos para modernizar e embelezar o Distrito Federal, e um dos principais órgãos de divulgação do novo tipo de sociedade que se desejava. Era uma publicação mensal muito bem cuidada, com elegante acabamento, nos moldes modernos dos semanários internacionais. Além de manifestações artísticas e literárias, a revista continha crônicas e reportagens sobre eventos sociais da elite endinheirada da cidade do Rio de Janeiro. Era para essa elite que Bilac escrevia, bem ao gosto do senso comum, procurando mostrar a seu público-leitor um Rio de Janeiro que se modernizava para se transformar em vitrine do Brasil moderno — mesmo que não fosse possível igualar-se a Paris, que, na sua opinião, era inigualável.

Reiteremos: Bilac era apaixonado por Paris. A esse respeito, dizia-se que ele havia se contaminado pelo vírus da cidade-luz. Segundo Elias Thomé Saliba, em suas cartas e escritos privados, o poeta e cronista referia-se ao Brasil com mau humor. Acreditamos, porém, que ele nunca deixou de amar sua pátria. Em 1904, por exemplo, encontrando-se em Paris, escreveu uma carta a Coelho Neto, dizendo ter saudade “da porcaria, do mijo, da estupidez, do mexerico, da safadeza da pátria” (SALIBA: 2008, p. 341). Apesar disso, sonhava com um Rio de Janeiro limpo e civilizado como a Paris que tanto admirava.

Em crônica publicada em O Estado de São Paulo, em 20 de novembro de 1897, Bilac descreveu um sonho: havia aceitado ser prefeito do Distrito Federal e sua principal missão era limpar a cidade. Apesar de todo o empenho, a cidade crescia e ele, com auxílio de seus varredores, não conseguia se livrar do lixo e da poeira deixados pela administração passada. Convencido de que tal empreitada era humanamente impossível de ser realizada, pediu exoneração do cargo. Nesse momento, o cronista acordou (BILAC: 2006, v. 2, p. 233).

Segundo mencionamos na introdução deste trabalho, foi justamente a leitura dessa “crônica-sonho” que nos despertou o interesse em pesquisar e divulgar as idéias de um grande cronista, que, infelizmente, é muito mais lembrado nos dias de hoje, nas escolas e universidades, como o parnasiano Príncipe dos Poetas Brasileiros. Muito do que Bilac escreveu sobre sua “Sebastianópolis” ainda é, para tristeza nossa, uma grande verdade. E, apesar de afirmar que a crônica é passageira, mais de cem anos depois, o Rio de Janeiro, assim como o Brasil, ainda enfrenta os males por ele apontados. Suas crônicas, repletas de uma visão eufórica sobre reformas da cidade e modernização, podem muito bem serem vistas como uma “cartilha”. Elas foram o meio do qual o cronista se utilizou para tentar instruir o seu público-leitor e fazê-lo acreditar no modelo republicano de ordem e progresso. Nelas, Bilac incluía noções de civilidade, higienização e sanitarismo, que deveriam acompanhar o movimento de urbanização pelo qual o Rio de Janeiro passava de modo a transformar-se em uma cidade digna do título de capital federal e vitrine do Brasil moderno.

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Fonte:
Mônica Proença da Silva: “O sonho de Bilac ou como transformar Sebastianópolis em vitrine do Brasil moderno”. (Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre ao Programa de Pós-Graduação em Letras, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Área de concentração: Literatura Brasileira. Orientadora: Profª Drª Ana Lúcia Machado de Oliveira). Rio de Janeiro, 2010.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade. Disponível digitalmente no site: Domínio Público