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21/01/2014

No País dos Ianques, de Adolfo Caminha

 Adolfo Caminha - No Pais dos Ianques  - Iba Mendes
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Breve análise do livro “No País dos Ianques”, de Adolfo Caminha

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Escrito no Ceará, no ano de 1890, oportunidade em que foi publicado no Diário do Ceará, e editado em volume em 1894, no Rio de Janeiro, No país dos ianques, como já foi dito, é como que o diário da viagem que Adolfo Caminha fez no cruzador Almirante Barroso, em 1886, como guarda-marinha: partindo do Rio de Janeiro, apartou em Pernambuco, para dali seguir para Barbados, depois Jamaica e afinal Estados Unidos, mais precisamente Nova Orleans, onde o navio ma representar o Brasil na Exposição Internacional que ali teria lugar; depois, Cuba, novamente os Estados Unidos, desta vez Nova Iorque, e depois Baltimore, Filadélfia, e por fim Anápolis, West Point e Newport.

Logo na abertura do pequeno prefácio com que apresenta o livro, Adolfo Caminha transcreve palavras de Taine, em que o crítico francês deixa claro que cada um deve dizer aquilo que viu, e unicamente o que viu, pois para ele as observações, desde que sejam pessoais e feitas de boa-fé, são sempre úteis.

Ora, se Adolfo Caminha chegou a afirmar, certa vez, numa pagina hoje desconhecida de muitos - o prefácio às Estrofes, de F. Alves Lima -, que a própria poesia deve ser a expressão em verso da verdade filosófica ou científica [uma vez que], A verdade é tudo na Arte como na Ciência,o que nunca felizmente chegaria a comprometer a literariedade de sua ficção, mais razão teria ele para invocar essa verdade com relação a um livro de observação, como é a narrativa de uma viagem.

Pensara a princípio em escrever uma obra de interpretação a respeito dos Estados Unidos; em tempo verificou, porém, que a tarefa não caberia a quem esteve apenas de visita à grande nação, e assim foi que se decidiu a seguir à risca o conselho de Taine, mestre de sua geração, fixando com o maior apego à verdade tudo quanto viu no país dos ianques.

Todavia, o ficcionista não poderia estar ausente dessas notas pessoais. E no capítulo I encontramos trechos como este, digno de um romance:

Noite escura e chuvosa, cheia de nevoeiro e tristeza, fria, sem estrelas, cortada de clarões longínquos. Tão escura que se não distinguia um palmo diante do nariz, tão feia que os bicos de gás da cidade, soturna e quieta, bruxuleavam palidamente com a sua luz trêmula e vacilante...

No capítulo XI há momentos assim:

Crepúsculo ... Céu pardo com uns tons de azinhavre muito vagos, aqui, ali. bordando nuvens. . . Embaixo a longa extensão côncava do vale afundando-se como o leito de um grande mar, que tivesse desaparecido, verde-escuro, indistinto quase a essa hora do dia.

Não falta a nota humorística, no capítulo VI, neste trecho:

Nuvens de mosquitos atordoaram-nos toda a noite. "- Caramba! exclamava o barbeiro de bordo, um estimável espanhol que trazíamos do Rio de Janeiro. Caramba! Mosquitos por mosquitos me gustan más los dei Brasil!

No capítulo I destaca-se a história de Gustavo Adolfo, poeta paraense cuja ambição o levara ao presídio de Pernambuco; essa narrativa é, como bem observou Sabóia Ribeiro, "quase um pequeno conto incrustado no livro".

Tudo isso são prenúncios do que iria cristalizar-se mais tarde no seu estilo de ficcionista.

O antimonarquismo de Caminha, que iria povoar vários passos de Tentação, também está presente nestas páginas escritas em 1890: ora se revela no relato de uma cena em que o príncipe D. Augusto é confundido com outro rapaz; ora explode em frases como esta, em que o narrador afirma que o imperador nunca estendeu o seu magnânimo olhar até aos cárceres senão em certos dias de gala natalícia para indultar os escolhidos da política dominante; [ora ainda quando, ao ver estátuas em Barbados e em Jamaica, lembra] aquela colossal massa de bronze que se ergue no Largo do Rocio, no Rio de Janeiro, em forma de um monarca escanchado num belo cavalo [e lamenta não ser], aquele bronze aproveitado para outra cousa mais digna e útil [ora ainda quando fala do]; anacrónico império do Sr. D. Pedro II ...

O castigo da chibata, que iria ainda reaparecer no romance Bom­Crioulo ( 1895), e que já era há muito uma preocupação de Caminha, está presente em algumas páginas de No país dos ianques. Aí conta o escritor como, logo ao deixar a Escola de Marinha, publicara um conto abordando o problema, e quais suas conseqüências:

Escusado é dizer que o meu artigo provocou o despeito dos culpados indiretamente feridos no seu amor-próprio. Embora! Fiquei satisfeito, como se tivesse sacudido para longe um fardo pesadíssimo.

É interessante observar que, coerente com seus anseios de progresso e civilização, o escritor não se conformava com o papel subalterno desempenhado pela mulher em relação ao homem, àquele tempo; e, entusiasmado com o trabalho das caixeiras de Nova Orleans, assinala que isto era muitíssimo natural, mas não no Brasil, onde as senhoras estão eternamente proibidas de competir com o outro sexo na vida pública.

Por sinal, algumas observações de Caminha servem para nos mostrar o quanto nosso país evoluiu em menos de um século no concerto das nações.

É natural o arrebatamento com que o jovem militar viu a grandeza dos Estados Unidos, cujo povo, certo de seu progresso, não deixou de se admirar do cruzador Almirante Barroso: "Como? Pois no Brasil também se fabricam navios de guerra? Está muito adiantado o Brasil!" Mas é pena que, em seu deslumbramento, o escritor haja algumas vezes exagerado a pequenez do Brasil de então diante da grande nação do Norte; já nem falamos, é claro, do trecho em que lamenta ser pequeno o nosso País, apesar de "toda a grandeza de suas montanhas e de seus rios, diante do colosso americano do norte". Referimo-nos a trechos como este, do capítulo XV, em que, ao fazer o elogio da Escola de West Point, observa:

E não era sem uma ponta de tristeza que nós, brasileiros - raça degenerada e linfática -, víamos criar-se assim uma raça forte e alegre com todos os caracteres de virilidade e independência.

Neste ponto, Adolfo Caminha, que havia sido tão lúcido ao combater os anacronismos que o rodeavam, pagava seu tributo às idéias da época (e de muitos anos mais tarde, é preciso que se reconheça), ao acreditar no mito das raças superiores e inferiores...

Sabino Batista, companheiro de Caminha na Padaria Espiritual, escreveu um rápido e despretensioso artigo cujo objetivo era registrar o aparecimento de mais um livro do já conhecido escritor, dizendo:

No país dos ianques não é um livro de crítica ou de análise aos costumes e ao caráter desse grandioso povo tão nosso irmão e que nós tanto admiramos, mas sim uma carteira de turista que, sôfrego de novidades, de novas sensações, vai anotando tudo o que a retina apanha de passagem.

E, alguns passos adiante, assinala com razão:

Tanto no romance como nas notas de viagens Caminha mostra pujantemente qualidades inatas de artista e de fino observador. A par de uma boa forma, de um magnífico estudo, o autor da Normalista é fluente em adjetivação, fácil e compreensível na linguagem.

É evidente que o interesse desse livro de Adolfo Caminha é relativo, principalmente levando-se em conta que, sendo um livro de viagem, retrata uma realidade já ultrapassada, ou seja, uma visão pessoal e rápida dos Estados Unidos de 1886. É certo que um romance, Tentação, no caso, igualmente reproduz um mundo hoje desaparecido, ou seja, o Rio de Janeiro dos últimos tempos da Monarquia. Mas é preciso lembrar que, se o objetivo de um livro de viagens é servir de documento, o de um romance, mesmo realista, não pode ser só este. Em todo caso, não é interessante para o leitor atual uma visão de como eram os Estados Unidos há mais de noventa anos?

Ademais, ainda é importante a leitura de No país dos ianques pelo fato de, sendo um livro escrito em 1890, baseado em anotações de 1886, já apresentar algumas das características fundamentais de observação e de estilo que marcarão a obra futura de Adolfo Caminha.


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Fonte:
Sânzio de Azevedo: Introdução crítica dois livros raros de Adolfo Caminha. In: CAMINHA, Adolfo. Tentação; No país dos Ianques. Rio de Janeiro, José Olympio; Fortaleza, Academia Cearense de Letras, 1979.

20/01/2014

O Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha

Adolfo Caminha - O Bom-Crioulo
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A questão da homossexualidade em “O Bom-Criolo”

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A aberta discussão sobre homossexualidade em Bom-Crioulo levanta a questão que se Caminha era homossexual; neste caso o romance poderia ser interpretado como uma autobiografia e testemunha ou uma pioneira apologia sobre os direitos dos homossexuais. Devido ao longo tempo passado, é impossível ter certeza sobre a sexualidade do autor mas a evidência deixa da pela vida e obra de Caminha não indica que ele fosse homossexual. Inicialmente, começou uma promissora carreira como oficial naval mas aos 22 anos de idade se encountrou no centro de um escândalo em Fortaleza quando seu caso com a mulher de um oficial do Exército tornou-se público. Isabel deixou o seu marido para viver abertamente com Caminha que, pressionado pelas autoridades militares do mais alto nível, preferiu sacrificar a sua carreira, demitindo-se para levar uma vida de ostracismo social e miséria, a abrir mão de sua relação amorosa. As dificuldades que ele sofreu sugerem que foi um verdadeiro amor. Ele fez uma pública reafirmação da sua relação amorosa na página de rosto de suas Cartas Literárias, que leva uma proeminente dedicação a Isabel C*** (CAMINHA, 1895b).7

Não há nenhuma menção de homossexualidade em qualquer outro lugar em sua obra apesar de haver muitas referências aos encantos das mulheres. Em resposta aos seus críticos, Caminha rejeitou qualquer identificação do autor com seu herói: dado o seu combativo caráter, parece improvável que ele tivesse tido esta atitude se visse o romance como um veículo para assumir-se. Por outro lado, se não era homossexual, Caminha era certamente fascinado pelas relações sexuais transgressivas. Seu primeiro grande romance, A Normalista, foi baseado num escândalo real em Fortaleza e trata da sedução duma moça pelo seu tutor, enquanto seu último romance, Tentação, é sobre o adultério e a traição duma amizade. Mesmo a sua primeira obra de prosa, a novela Judite, que foi publicada dois anos antes dele encontrar Isabel, relata a tentativa de rapto da jovem esposa de um fazendeiro mais velho por um Dom Juan. O seu conto, "A Última Lição", publicado postumamente, trata da sedução de um adolescente por uma mulher mais velha (CAMINHA, 1977). Posto que estes são os temas tradicionais da ficção romântica, eles parecem ter tido uma particular ressonância por Caminha, que certamente não era um apologista da moralidade convencional, seja em sua vida ou em sua obra.

Se a inspiração para tratar de homossexualidade não era pessoal então nós precisamos de procurar outras fontes. Havia poucos precedentes na literatura brasileira. Em 1885, um médico, Ferreira Leal, publicou a novela Um Homem Gasto, retratando um homossexual de classe média alta que casa-se mas só é capaz do ato matrimonial com a ajuda de drogas e suicida-se quando não pode mais suportar. O Ateneu de Raul Pompeia (1888) refere-se a uma apaixonada relação entre rapazes num internato enquanto Aluísio Azevedo incluiu tres estereótipos homossexuais clássicos, um jovem efeminado, um velho sujo e uma prostituta lésbica agressiva, em seu romance naturalista O Cortiço de 1890. Vários romances naturalistas brasileiros trataram de outras anomalias sexuais, incluindo mulheres histéricas, ninfomania, fetiches e aborto (SÜSSEKIND, 1984, p. 120-150).

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Fonte:
Robert Howes: “Raça e sexualidade transgressiva em Bom-Crioulo de Adolfo Caminha”. Revista da Pós-Graduação em Letras – UFPB João Pessoa, Vol 7., N. 2/1, 2005 – p. 171-190, disponível em: www.okara.ufpb.br

18/01/2014

Tentação, de Adolfo Caminha

 Adolfo Caminha - Tentação
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Romance “Tentação”, de d Adolfo Caminha

[...]

Também em seu romance Tentação, publicado postumamente, não faltaram críticas à Monarquia, mas também ao movimento republicano. A personagem Evaristo de Holanda, um republicano ardoroso, ou como ele mesmo se definia, um democrata, não deixou, ao longo da narrativa, de bater-se contra os monar­quistas, entre eles o visconde de Santa Quitéria. Não são poucas as passagens do romance em que o descontentamento da personagem foi representado. A vida na casa dos Furtado, o casal de amigos que acolhera Evaristo e a sua esposa, passou a ser um martírio, pois Dona Branca, a esposa de Furtado, era uma monarquista ferrenha e comadre da princesa Isabel. Um exemplo dessa tensão instalada no interior da narrativa de Tentação pode ser percebido no diálogo que reproduzimos a seguir:
A propósito dos filhos, a mulher [Dona Branca] anunciou o batizado da Julinha no primeiro domingo de janeiro. Ia fazer uma festa sem cerimônia, entre pessoas da intimidade.
Evaristo recebeu a notícia com um – oh!... de surpresa. – Muito bem! muito bem! Era preciso batizar a menina... Ele, se tivesse filhos, batizava-os ao nascer.
E com ironia:
– Temos, então, a princesa?
– Como, Sr. Evaristo?
– Digo: a princesa há de comparecer à festa...
– Qual o quê! Pensa o senhor que a princesa anda se exibindo assim?
– Pensei...
– Vai ser a madrinha de minha filha, por procuração; isso bem...
– E Evaristo, sempre irônico:
– O imperador é o padrinho...
– Não senhor, não senhor... O padrinho é o Lousada, o velho Lousada. O imperador já é o padrinho do Raul.
– Onde estamos nós metidos, Adelaide! – exclamou o bacharel, arregalando os olhos. – Tudo aqui é principesco, minha senhora!
D. Branca compreendeu o debique, mas atalhou risonha:
Tudo aqui não é principesco, não senhor! Não queira fazer pouco...
Eu, fazer pouco? Oh, não se lembre de tal coisa! Principesco é uma maneira de dizer.
Ah! o senhor é republicano?
Republicano não: democrata.
Pois está muito bem arranjado com a sua democracia!
Furtado, que estava lendo o Comércio do Rio, saltou:
– Quem é democrata – o Evaristo?
– Eu, sim...
– Democrata enquanto não conheceres bem o Rio de Janeiro..
– Por quê?
– Ora, por quê! Porque o Rio de Janeiro em globo é monarquista e quem diz monarquista diz aristocrata.
– Não é razão. Se o Rio de Janeiro em globo (quero dizer o município neutro...) é monarquista, eu posso bem sair um republicano às direitas.
Furtado abriu numa gargalhada estridente.
– Aonde vens pregar essas teorias, meu caro? Na Corte do Império, e o que é mais, em Botafogo! Ilusões de academia, rapaz, ilusões de estudante de retórica!
– Não senhor, que o partido republicano está ganhando terreno aqui mesmo, na
– Corte, às barbas d’El-Rei! Fala-se na ida do velho à Europa; o velho está doido, já não pode governar, e o resultado é que...
– É estás a dizer tolices... A monarquia está guardada por sentinelas da força do barão de Cotegipe, do visconde de Ouro Preto, do João Alfredo e de outros... Cada um desses homens é um obstáculo contra qualquer tentativa de assalto às instituições.
Chegou a vez do bacharel rir, mas rir com gosto, dando pulinhos na cadeira.
– O Cotegipe! (e ria). O Ouro Preto! (tornava a rir). O João Alfredo! No momen­to psicológico voam todos, como aves de arribação, para Petrópolis! Desaparecem como por encanto, somem-se na noite do medo...
– É o que pensas. A opinião deles, o povo não permitirá que eles sejam desacatados.
– O povo! – exclamou Evaristo com voz de trovão. – A que chamas tu povo?
– À população do Rio de Janeiro, à população do Brasil – a treze milhões de almas que adoram o imperador!
– O povo brasileiro não se envolve nisso não, meu Furtado; se fôssemos esperar pelo povo, estávamos bem arranjados...
– E então?
– E então, é que a força armada...
– Basta de política, basta de política, Sr. Evaristo. Ó Luís, por favor, continua a ler teu jornal – interveio Branca, – É favor! (Caminha, 1979, p.22-3)
Vemos por essa cena que a discussão a respeito da política, notadamente do confronto entre monarquistas e republicanos, ou democratas como Evaristo se dizia ser, saiu do âmbito da vida privada – o batismo de Julinha, a filha caçula do casal Furtado – para atingir uma discussão a respeito da atuação do gabinete de então e do próprio imperador. No romance em causa, essas discussões serão crescentes. O embate entre os antagonistas políticos fazem parte da trama narrativa, construindo a intriga necessária para o andamento do romance.
As opiniões de Evaristo e dos Furtado se alternam. Uma hora o vemos defendendo a República, outra vemos Furtado defendendo a Monarquia. Evaristo chega mesmo a definir o espaço em que se passava a trama a partir de uma ou de outra forma de governo. Para ele o Rio de Janeiro ideal seria o Rio de Janeiro republicano: “O Rio de Janeiro sem o imperador e sem os preconceitos da monarquia, o Rio de Janeiro tal qual sonham os bons republicanos, há de ser uma coisa única! Palavra de honra como eu não desejava abandonar esta terra, enquanto não visse um homem do povo governando o Brasil!” (ibidem, p.100). E Evaristo vai além:
Que mas o quê! Para longe deste inferno! para longe desta porqueira! Vive-se melhor, mais barato e mais honradamente na obscuridade da província, criando galinhas ou plantando jerimuns. Estou farto de aturar a pedantocracia de Botafogo e do Sr. Luís Furtado. Um bacharel em direito vive em qualquer parte do mundo: vou advogar, vou esperar a República no sertão! (ibidem, p.104)
No romance em causa, há um capítulo todo dedicado a uma das viagens do imperador D. Pedro II à Europa. Nesse capítulo, o narrador, e também Evaristo, tecem considerações a respeito dos membros do movimento repu­blicano como lemos abaixo:
E Evaristo, indignado, pôs-se a andar de um lado para o outro da sala, com o panfleto abolicionista na mão. Ultimamente encasquetara-se-lhe, como uma idéia fixa, o programa republicano: abolir a escravidão e declarar a república brasileira, o governo do povo pelo povo... Um dos membros do partido já o convidara para sócio e ele se comprometera a tomar parte ativa nas reuniões do clube. Daí a sua indignação contra o Valdevino que também apregoava entusiasmo pelas idéias liberais de Saldanha Marinho e Quintino Bocaiúva. Não lhe saía da cabeça o poeta da Ode à Monarquia! Como é que se explicava essa pouca-vergonha de um escritor público?
Sentou-se, afinal, e continuou a interrompida leitura do panfleto. (ibidem, p.90)
Vemos nessa citação que Evaristo é também especialmente crítico com os “republicanos”, ou seja, com aqueles que transitam indecisamente entre um lado e outro do poder. A personagem parece mesmo não se sentir adequada dentro do contexto em que se situa. Mais parece uma personagem romântica, ao defender suas utopias, vivendo em uma cidade naturalista, onde as utopias são tragadas pelas circunstâncias. Circunstâncias essas que Adolfo Caminha representou, como vimos, em seus romances.
Não se trata aqui de colar a obra à vida, mas de mostrar as relações-possíveis entre um e outro fazer, ou melhor, entre uma e outra prática, seja ela discur­siva ou política ou porque não falarmos em uma manifestação simbiótica de discurso-político ou política discursiva. Como sabemos, no caso dos escritores naturalistas ou dos escritores que em momentos de sua carreira tenham se uti­lizado dos pressupostos naturalistas, o jogo entre representação e realidade se dá em dimensões bem próximas. Nesse jogo, muitas vezes, o vivido os serviu de fonte para a literatura.

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Fonte:
Carlos Eduardo de Oliveira Bezerra: "Adolfo Caminha: um polígrafo na literatura brasileira do Século XIX (1885-1897). livro é publicado pelo Programa de Publicações Digitais da Pró-Reitoria de Pós-Graduação da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP). São Paulo, 2009.


12/01/2014

A Normalista, de Adolfo Caminha

 Adolfo Caminha - A Normalista - Iba Mendes
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João da Mata: a coexistência dos contrários

“Os protetores são os piores tiranos.”
Lima Barreto


Adolfo Caminha, em seu ensaio intitulado “Em defesa própria”, diz que João da Mata é “um amanuense que se intitula pensador livre” (CAMINHA, 1999. p. 67). Esse comentário deixa claro que, na opinião do romancista, o personagem não é um pensador livre, mas alguém que de forma ardilosa diz ser o que, de fato, não é, ratifica-se isso no romance através de um conjunto de atitudes da personagem. Essa questão será apontada no próprio romance como será visto mais adiante.

O primeiro parágrafo do romance inicia-se pela apresentação de seu nome completo: João Maciel da Mata Gadelha, mas, em todo o romance, o personagem será citado e interpelado apenas por seus apelidos: João da Mata e Janjão, o primeiro conhecido por todos e o segundo, mais afetuoso, apenas por D. Terezinha, que passava por sua legítima esposa. Entretanto esses não são os únicos epítetos dados a ele, posto que antes, quando ainda era mestre-escola no sertão da província, era conhecido como “professor Gadelha, o terror dos estudantes de gramática” (CAMINHA, 1994. p. 15). Todos os cognomes dados a João da Mata sugerem que o personagem se deixava conhecer apenas por disfarces. Sua verdadeira identidade, mascarada por atitudes milimetricamente pensadas, era quase sempre preservada, posto que João da Mata percorrerá o romance praticando mentiras, seduções, trapaças e bajulações.

A alcunha “da Mata” não é explicada pelo narrador, entretanto remete-nos ao lado selvagem da personagem o que, evidentemente, se opõe ao espaço citadino, símbolo de modernização, civilização e progresso, entretanto, diferentemente de outros espaços ligados à natureza, como Campo Alegre e Cocó, é totalmente desprovido de conotações positivas. João da Mata, assim como Maria do Carmo, reside na casinhola do trilho, encardida pelas fuligens da locomotiva, próxima à Estação da linha férrea e, como citado antes, não era casado, mas amigado. Saiu do sertão, onde era professor, por achar que estava “perdendo-se, inutilizando-se e fossilizando-se, por assim dizer, entre um vigário seboso e pernóstico e um delegado de polícia ignorante” (CAMINHA, 1994. p. 17).

De professor, João da Mata foi nomeado “comissário de socorros” na seca de 77 e depois da seca entregou-se, “por uma espécie de ambição egoísta” (CAMINHA, 1994. p. 18), de corpo e alma à política, “visando sempre tirar resultados positivos de suas artimanhas, embora com prejuízo de alguém” (CAMINHA, 1994. p. 18). Tudo o que João da Mata queria era dinheiro. Para ele, a política era uma “especulação torpe como outra qualquer, como a de comprar e vender couros de bode na praia, a mesmíssima coisa; pois não é? Pra tudo é preciso jeito, muito jeitinho [...]” (CAMINHA, 1994. p. 18). Até que, devido a seus conchavos políticos, foi nomeado amanuense, o que para ele era um miserável emprego, o qual se oferecia a qualquer vagabundo. Desgostoso da política, João da Mata volta-se para Maria do Carmo, sua grande obsessão.

Maria do Carmo foi entregue a ele ainda criança e ele acreditava ter direitos sobre ela: “podia mesmo beijá-la – sem malícia, já se deixa ver – nas faces, na testa, nos braços e até, por que não? na boca” (CAMINHA, 1994. p. 19). Essa crença de João da Mata, revelada logo nas primeiras páginas pelo narrador, será uma das características do personagem que mais será retomada no romance, característica esta que demonstra todo o senso bárbaro de propriedade ligado à sua posição de protetor. Para ele, alimentar e educar uma criança seriam motivos suficientes para garantir-lhe a posse, como se a menina fosse um investimento feito por ele e do qual, mais cedo ou mais tarde, poderia tirar proveito.

O comportamento de Maria do Carmo, quando estudava no colégio Imaculada Conceição, “a falar sempre no padre–reitor e na superiora e na Irmã Filomena e outras pieguices” (CAMINHA, 1994. p. 23), contrariava João da Mata: 

Uma coisa assim fazia até vergonha a ele que detestava tudo quanto cheirasse a sacristia. Porque João da Mata dizia-se pensador livre; não acreditava em santos, e maldizia os padres. Jesus, na sua opinião, era uma espécie de mito, uma como legenda mística sem utilidade prática. Isso de colégios internos à guisa de conventos não se acomodava com o seu temperamento. Também fora professor, olé! e sabia muito bem o que isso era – “um coito de patifarias”. Queria a educação como nos colégios da Europa, segundo vira em certo pedagogista, onde as meninas desenvolvem-se física e moralmente como a rapaziada de calças, com uma rapidez admirável, tornando-se por fim excelentes mães de família, perfeitas donas de casa, sem a intervenção inquisitorial da Irmã de Caridade. Não compreendia (tacanhez de espírito embora) como pudesse instruir-se na prática indispensável da vida social uma criatura educada a toques de sineta, no silêncio e na sensaboria de uma casa conventual entre paredes sombrias, com quadros alegóricos das almas do purgatório e das penas do inferno; com o mais lamentável desprezo de todas as prescrições higiênicas, sem ar nem luz, rezando noite e dia – ora pro nobis, ra pro nobis [...] (CAMINHA, 1994. p. 23) 

 Como foi dito no capítulo anterior, João da Mata, apesar de desejar que a educação em Fortaleza seguisse os moldes europeus, não visualiza a emancipação intelectual, social e política das mulheres. Por essas e por outras, podemos dizer que o posicionamento do narrador quanto à personagem João da Mata é duvidoso, posto que o primeiro – o narrador - desdiz os ditos do segundo – João da Mata - e acaba por enfatizar a questão dos pensamentos conservadores e atrasados dessa personagem.

Para o narrador, não existe em João da Mata um pensador livre, mas um homem que, através de discursos e atitudes, simplesmente age em benefício próprio. Fato que ilustra esse posicionamento contraditório de João da Mata, que oscila entre ideias avançadas e atrasadas, é a opinião dele sobre seu próprio casamento, posto que em uma de suas discussões com D. Terezinha, mulher amigada com ele, mas que, como dito acima, se passava por sua legítima esposa, diz: “Fique você sabendo que uma mulher amigada é como se fosse uma fêmea qualquer, ouviu? Se duvidar ponho-lhe no olho da rua!” (CAMINHA, 1994. p. 69). Outra questão é a que se refere à citação acima, sobre a educação livre, a qual, na visão deturpada de João da Mata, só serviria para instruir às mulheres “na prática indispensável da vida social” (CAMINHA, 1994. p. 23), de modo que seu pensamento livre estava desprovido dos verdadeiros propósitos de uma educação emancipadora. Ainda com relação à educação formal oferecida em Fortaleza, João da Mata declara que 

[...] no Ceará não havia colégios sérios. A instrução pública estava reduzida a meia dúzias de conventilhos: uma calamidade pior que a seca. O menino ou menina saía da escola sabendo menos que dantes e mais instruído em hábitos vergonhosos. As melhores famílias sacudiam as filhas na Imaculada Conceição como único recurso para não vê-las completamente ignorantes e pervertidas. (CAMINHA, 1994. p. 24)

Essa crítica de João da Mata é corroborada pela opinião de D. Terezinha, para ela “uma menina inteligente como Maria devia educar-se no Rio de Janeiro ou num colégio particular, mas um colégio onde ela pudesse aprender o „traquejo social‟ ” (CAMINHA, 1994. p. 24) e, paulatinamente, o narrador vai descortinando o cenário acanhado da sociedade fortalezense.

João da Mata tenta transformar a casa onde reside e a sua própria vida seguindo os moldes europeus. Na sala de sua residência, um espaço estreito, sem teto e ainda com chão de tijolo, dormia um velho piano de aspecto pobre, uma vez que ter um piano em casa, como já analisado antes, era sinal de refinamento burguês, entretanto, a própria aparência da casa “uma casinhola de porta e janela” estava muito mais próxima da realidade provinciana ainda predominante.

Outro posicionamento bastante avançado para a época e defendido por João da Mata dizia respeito à castidade dos padres. Só se relacionava amigavelmente com um padre, o Cônego Feitosa, e isso porque: 

[...] era um sacerdote asseado, inimigo da batina, com afilhadas em casa... E por que não? Os padres são fisicamente (e sublinhava a palavra), anatomicamente, fisiologicamente homens como os outros homens. Portanto assiste-lhes o mesmíssimo direito de procriação, direito natural e até consagrado pela Escritura. O contrário é contrafazer a natureza humana que, afinal, não obedece a preceitos de castidade. Daí, concluía João, daí o desregramento das classes religiosas condenadas a eterno celibato. O próprio Cristo dissera uma parábola cheia de senso e de experiência: “Crescei e multiplicai-vos”
“Por amor de Deus” não lhe falassem em padres. A educação moderna, a educação livre, sem intervenção da batina – eis o que ele queria e apregoava alto e bom som. (CAMINHA, 1994. p. 24)

A crítica feita por João da Mata à Igreja, tal como ocorrido em muitos outros romances naturalistas, condiz com os ideais da escola à qual Adolfo Caminha estava filiado, que supervalorizava o progresso e, em cuja realidade, não havia espaço para as restrições impostas pela religiosidade, contudo, essa crítica, na boca de João da Mata, sofre um certo deslocamento negativo, pois funcionam para montar o seu próprio perfil, uma vez que ser contra os preceitos religiosos era algo bastante apropriado para ele. Se religioso fosse, todos os seus atos o condenariam, mas, sendo avesso à religião, estava isento de qualquer punição divina e poderia, por exemplo, declarar que

[...] queria uma rapariga nova e fresca, cheirando a leite, sem pecados torpes, a quem ele pudesse ensinar certos segredos do “amor conjugal”. Nunca experimentara o contato aveludado de um corpo de mulher educada, virgem das impurezas do século. E quem melhor que Maria do Carmo, uma normalista exemplar e recatada, poderia satisfazer os caprichos de seu temperamento impetuoso? Era sua afilhada, mas, adeus! não havia entre ele e a menina o menor grau de consagüinidade, portanto, não podia haver crime nas suas intenções... Se Maria houvesse de cair nas garras de algum bacharelete safado, fosse ele, João da Mata, o primeiro a abrir caminho [...] (CAMINHA, 1994. p. 48)

Outro fragmento importante acerca de João da Mata é sua ida à praia, a fim de ver o embarque do Conselheiro Castro e Silva, que serve apenas para mostrar o quanto João da Mata se esforçava para acompanhar, ainda que sem entusiasmo e desastradamente, os eventos da cidade: “almoçou às carreiras, como quem vai tomar o trem, e abalou, enfiando-se no inseparável e já velho chapéu-chile.” (CAMINHA, 1994. p. 46) Além de João da Mata, muitas outras pessoas foram ao embarque do Conselheiro, “Curiosos de todas as classes, trabalhadores aduaneiros de jaqueta azul, guardas de alfândega e oficiais de descarga com ar autoritário, de fardeta e boné, marinheiros da Capitania, confundiam-se numa promiscuidade interessante.” (CAMINHA, 1994. p. 46).

Esse evento, na segunda metade do século XIX, era novidade, tanto que a Polícia, “formada à porta do quartel, gaguejou o Hino Nacional e o conselheiro, cheio de si, cortejando à direita e à esquerda, muito ancho, seguiu a tomar o escaler d‟Alfândega.” (CAMINHA, 1994. p. 47).

É lícito lembrar que o Conselheiro Castro, mesmo com o calor causticante que fazia, seguia a moda europeia e estava “metido numa sobrecasaca muito comprida”, fato que retoma a questão da inadequação e destaca o desacerto entre a forma de vestir, importada, e as condições locais, no caso o calor. Esse evento mostra o quanto há de ironia na narração caminhiana e também ratifica o comentário de Sebastião Rogério Ponte, quando este diz que a Belle Époque, em Fortaleza, não traduzia, de fato, a realidade da província, mas apenas o desejo da burguesia de seguir o estilo europeu.

Como outras cidades que se desejavam civilizadas, Fortaleza também tinha Paris como referência de modernidade. Assim, a capital foi arrebatada por uma febre de afrancesamento. Ser moderno era acompanhar as modas vindas de Paris, usar expressões em francês, abrir lojas com nomes franceses ou fazer como os fotógrafos cearenses Moura e Eurico Bandeira, que se tornaram Moura-Quineau e Eurico Bandière. (GILMAR, 2009. p. 76)

João da Mata, além do farsante que era, costumava espalhar mexericos acerca da vida das pessoas de seu entorno. Passo a passo verificamos isso no fragmento em que tenta persuadir o Loureiro, noivo de Lídia, sobre o comportamento de sua sogra: “... que não se iludisse, que a Campelo recebia fora de horas o Batista da feira; que ele, João da Mata, vira muitas vezes, com os próprios olhos, o negociante entrar cosido à parede alta noite, como um gato” (CAMINHA, 1994. p. 94) ao que é interpelado pelo noivo: 

Histórias. O amanuense fazia mal andar propalando suspeitas que podiam prejudicar, muito, os créditos da pobre senhora. Absolutamente não acreditava em tais boatos. Conhecia bem o gênio e a vida de D. Amanda para desprezar semelhantes falsidades. Em suma, era da Escola de São Tomé: ver para crer. (CAMINHA, 1994. p. 94). 

Além dessa, muitas outras “fofocas” são ditas por João da Mata e, ainda que verdadeiras, todas tinham por objetivo deflagrar pequenas intrigas, até que ele mesmo e sua família transformam-se em alvos de mexericos; ao ouvir a voz de João da Mata berrando como um danado, a vizinhança chegava às janelas ávida de escândalo. Meninos em fralda de camisa, chupando o dedo, paravam defronte da porta do amanuense, muito espantados, olhando cheios de curiosidade pelas frinchas da rótula. Com esse comportamento, tanto de João da Mata, quanto de sua vizinhança, fica ressaltada a situação acanhada do lugar. Em visita a casa de Lídia e Loureiro, João da Mata declara:

Fazes muito bem, filho, não há nada como se viver no seu cantinho, com sua mulher e os seus filhos, comendo com o suor de seu rosto. Eu, se pudesse, fazia o mesmo – desertaria da capital, do centro da civilização, para viver comodamente, bem longe de toda essa porcaria que se chama sociedade. (CAMINHA, 1994. p. 151)

A trajetória de João da Mata alcança seu clímax quando este consegue seduzir Maria do Carmo, fazendo juramentos e promessas, rogando pela alma da mãe da normalista e por Deus, suplicando que ela não resistisse àquele momento. Depois do defloramento, dá-se a reviravolta na vida do amanuense. Ele tenta, novamente através do poder da palavra, que desta vez não funciona, animar a normalista e fazê-la voltar a ser o que era:

Nunca João fora tão bom para a afilhada como agora: Trazia-lhe mimos da rua, bons-bocados, confeitos, rendas, com uma solicitude paternal, animando-a, prometendo-lhe muitas felicidades, contando-lhe tudo quando ouvia dizer na rua, dando-lhe notícias dos conhecidos.
- Teve febre hoje? continuou ele tornando a sentar-se.
- Não sei...
- Deixe ver o pulso... Não, nem um bocadinho... Bom, não se amofine, hein, não se amofine. Amanhã, se Deus quiser, pode levantar-se. E baixo:
- Tolice... Morrendo sem que nem para quê! Se continuar, é pior... podem até saber... Isto a gente faz cara alegre e vai para adiante, como as outras, minha tola... Olha a tua amiga, a Lídia... Casou e casou bem... E assim a maior parte... Deixa de tolices. (CAMINHA, 1994. p. 147)

Depois, ao saber da gravidez de Maria do Carmo, decide escondê-la, adotando o método mais utilizado em cidades pequenas: “Que se há de fazer, filha? Agora é ter paciência. Foi uma fatalidade, foi uma fatalidade... Há de se arranjar a coisa do melhor modo possível. Vais aí para qualquer sítio, fora da cidade, e ninguém saberá de coisa alguma.” (CAMINHA, 1994. p. 170).

A partir disso, seguindo a estrutura da maioria dos romances naturalistas, como os de Zola e Eça de Queiroz, João da Mata enfrenta sua decadência, progride no vício de beber aguardente, não consegue impor a D. Terezinha a sua autoridade e tem de suportar-lhe as impertinências, ouvindo tudo calado, como um prego murcho, impotente. Sua decadência se completa com a fuga de D. Terezinha de seu leito matrimonial para não servir-lhe sexualmente e com a morte, durante o parto, do filho que teria com Maria do Carmo: “Por um lado era uma felicidade o pequeno ter morrido, porque isso de filho natural sempre dava que falar às más-línguas e até podia-se descobrir a verdade.” (CAMINHA, 1994. p. 202). Entretanto, ao ver o rosto lívido da criança e os soluços da afilhada, deixa cair “duas lágrimas, as primeiras de sua vida, que rolaram vagarosas nas suas faces magras, como duas linfas cristalinas na aspereza tosca duma rocha”. (CAMINHA, 1994. p. 203)

No final do romance, João da Mata, o mesmo que se intitulava pensador livre, revolta-se com a proclamação da República brasileira: Isto é um país sem dignidade, uma nação de selvagens! Expulsar do trono um monarca da força de Pedro II, mandá-lo para o estrangeiro doente e quase louco, é o cúmulo da ignorância e da selvageria! (CAMINHA, 1994. p. 205)

Em síntese, podemos dizer que João da Mata, tanto em seu discurso, quanto na sua prática, é uma personagem negativa, contraditória e incoerente ideologicamente, movida por ideias e instintos regressivos, que a narrativa apresenta sem procurar justificar.


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Fonte:
Benigna Soares Lessa Neta: “A menina e a província: a espera do progresso no romance a Normalista, de Adolfo Caminha”. (Dissertação submetida ao curso de Pós- Graduação em Letras da Universidade Federal do Ceará, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Letras, com concentração na área de Literatura Brasileira. Orientadora: Profª. Drª. Irenísia Torres de Oliveira.) Fortaleza, 2011