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06/09/2014

Traços azuis (Poesia), de Virgílio dos Reis Várzea

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31/08/2014

Rose-Castle, de Virgílio Várzea

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14/08/2014

Virgílio Várzea (Contos), de Nas ondas

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Santa Catarina: a ilha, de Virgílio Várzea

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Santa Catarina Antiga: os habitantes

O povo catarinense, conforme se viu, descende em sua quase a totalidade de ilhéus açorianos e madeirenses, principalmente dos primeiros, de quem herdou o caráter humilde e bom, as excelentes qualidades morais, a índole trabalhadora e paciente, de uma rara tenacidade, afazendo-se facilmente às dificuldades, às privações e agruras do meio, conformando-se com tudo, pacífica e resignadamente.

Acostumado desde séculos à luta com o solo onde se desenvolveu, a princípio sobressaltado e em terror pelas perspectivas dantescas que de repente se lhe deparavam, em um cenário que, como o de uma mágica colossal, mudava às vezes subitamente, soterrando em horas montanhas e povoações, ou elevando vales e planos, sob as ondas de chamas dos terremotos e explosões imensas, como se deu em Porto Martins e Praia da Vitória (Ilha Terceira) em maio de 1614, abril de 1761, junho de 1800, janeiro de 1801 e junho de 1841, o último há quase sessenta anos — o açoriano ganhou uma têmpera heroica de lutador, uma impassibilidade diante do perigo e uma afoiteza para encará-lo e arrostá-lo que poucos povos possuem.

Como a Terceira, as outras ilhas dos Açores, com as suas aldeias e cidades têm sido igualmente, em várias épocas, vitimadas pelo fogo interior que as gerou, e que seguidamente se manifesta ainda em pequenos tremores de terra e maremotos assustadores, como o de 1 de junho de 1867 na Serreta, precedido cinco meses de medonhos abalos e detonações, e que durou muitos dias, fervendo o mar em cachões de espuma e sacudindo ao ar colunas d'água gigantescas.

Ora, foi justamente, e em maior parte, com colonos desse arquipélago que Santa Catarina se povoou, especialmente com gente da Terceira, São Jorge, São Miguel e Pico, a última destas ilhas a mais ígnea de todas, pois tem em si o vulcão mais considerável do grupo, célebre pelas passadas erupções e pelo penacho perenal de lava, que é, à noite, para os mareantes que sulcam essas paragens, como um estranho e altíssimo farol a iluminar o oceano.

Daí o caráter tenaz e temerário, por vezes, do catarinense, sobretudo na sua grande aptidão para a vida do mar, que é ainda uma herança do povo açoriano e de toda a raça portuguesa, que foi e é essencialmente marinheira, embora Portugal conte hoje uma pequeníssima marinha.

Do açoriano recebeu também o barriga-verde a estrutura física musculosa e ossuda, admiravelmente resistente às intempéries e doenças, posto que um tanto modificada pelo clima tropical, que dá ao habitante dos campos e planícies litorais da Ilha e do continente (principalmente nos terrenos baixos e alagados, onde a intermitente é endêmica) um aspecto destingido e pálido, agravado frequentemente pelas moléstias hepáticas.

Naturalmente inteligente, como seus antepassados, de cujo seio têm saído para Portugal homens eminentes, quer na política, quer nas ciências e letras, como Hintze Ribeiro, Manoel de Arriaga, Antero de Quental (um dos maiores pensadores e poetas portugueses deste tempo) e Teófilo Braga — o catarinense é de uma certa vivacidade mental, pouco criadora talvez, mas original e brilhante por vezes. De uma doce tendência poética, devida ao seu temperamento impressionista e amoroso, comum de resto a todo o povo brasileiro, o roceiro, como o marítimo catarinense, tem uma alma cantadeira. Alegre e de certo modo feliz, embora em geral na indigência, o canto aflora-lhe espontâneo aos lábios, gerado não só do velho atavismo céltico que vagamente lhe gira nas veias, como dos encantos desta nossa natureza. Desde manhã até a noite, pode dizer-se, ele vive a cantar, quer seja inverno ou verão, a frente do carro carregado de lenha, capinando ou semeando nas planícies e morros, fazendo coivaras, abrindo picadas, derrubando madeira para construir a casa ou o engenho, escavando um tronco para uma canoa ou um cocho, mudando ou conduzindo o gado ao potreiro, domando o cavalo xucro, laçando o boi bravio, tecendo ou deitando as redes, junto ao portal da rua, ou sobre a borda da canoa, no meio do mar revolto, sob a fúria do pampeiro. E é assim que embala a sua vida, no rude trato das roças e no lidar arriscado das redes.

Nisto, como no falar constante que o anima, particularmente na vida das praias, o barriga-verde se parece com os algarvios, de quem igualmente tem o sangue, pois os açorianos provêm em parte deles, que colonizaram também as suas ilhas. E assenta perfeitamente nos habitantes das costas catarinenses o que a respeito do caráter do algarvio diz Oliveira Martins, à pag. 42, quarta edição, da História de Portugal: "No Algarve não há silêncio e impassibilidade: há o constante movimento, o falar, o cantar de uma população como a dos gregos das ilhas, ora embarcados nos seus navios de cabotagem, ora ocupados nos seus campos que são jardins”.

É justamente o que se dá em Santa Catarina, onde o povo da zona litoral, com raras exceções, é constitucionalmente marítimo.

A mulher catarinense, pequena e delgada nas cidades, franzina e anêmica, é, entretanto, no campo e nas praias da terra fume mais alta e espadaúda, avantajando-se totalmente ao homem no colorido das faces e no aspecto de plena saúde que revela, isto coroado por linhas estéticas adoráveis, por uma pele veludosa, delicada e límpida, se bem que em geral trigueira. Muito viva como o homem, é ainda mais alegre do que ele, e tem o falar "cantado", que lhe ficou na laringe como uma doce e saudosa sobrevivência de origem. Matuta e simples, de uma graça toda ingênua, atrai à primeira vista, pelos olhos luminosos e negros, pelo andar gracioso e faceiro.

O barriga-verde, pelo seu temperamento e feição psicológica, é muito sociável e dado a festas e divertimentos, sendo um desses tipos de povos que raramente experimentam bisonharia ou tristeza. A tal respeito é eloquente o que diz Saint-Hilaire, falando dos matutos de Itapocorói e outros pontos, na viagem que fez pela costa de São Francisco ao Desterro. "À medida que nós avançávamos, diz o ilustre viajante francês, os habitantes de todos os sítios corriam à porta para nos verem passar. As mulheres não só não fugiam, como respondiam com polidez, e sorrindo, às nossas saudações..." (Voyage dans l'intérieur du Brésil, pág. 305, vol. II.)

Paulo de Brito, que habitou alguns anos, e por duas vezes, Santa Catarina, exprime-se do seguinte modo sobre o caráter do povo, às págs. 73-74 da sua Memória Política: "...São muito inclinados (os habitantes) a todos os atos da nossa religião, tanto públicos como particulares, às festividades de igreja, e às procissões, e principalmente às festas populares, e à do Espírito Santo, o que tudo vi fazer em Santa Catarina não só com decência, mas até com grandeza. Igualmente se fazem ali com suntuosidade mui superior à riqueza e à civilização do país os batizados, os casamentos... São inclinados à música, à cantoria e às danças. As mulheres, de maneiras dóceis e meigas, são inclinadas aos divertimentos; sabem cantar, tocar algum instrumento de corda e dançar, e não se observa nelas aquela bisonhice que se encontra nas mulheres de outras capitanias do Brasil".

E mais adiante acrescenta em uma nota: "Quando em setembro de 1797 estive pela primeira vez na Ilha de Santa Catarina, assisti a uma função que fez o governador que então era daquela Ilha, João Alberto de Miranda Ribeiro, em obséquio ao vice-almirante Antônio Januário do Vale, general da esquadra que naquele ano veio para o Brasil, e então se achava ancorado no porto da sobredita Ilha. Em um baile que também deu o dito governador pelo mesmo motivo, vi uma brilhante companhia de senhoras, de homens, das famílias mais distintas do país, e uma numerosa orquestra, em que havia e se tocaram todos os instrumentos de sopro e de cordas, com harmonia e bom gosto. Cantaram várias senhoras e dançaram minuetes, contradanças e valsas, tudo segundo os usos da Europa. Fiquei admirado de encontrar tudo isto em uma terra tão pequena do Brasil..."

Na população catarinense (a não ser nas colônias, com o alemão ou o italiano) não há quase cruzamento, sendo raro encontrar, entre ela, o tipo indígena do norte do Brasil ou o traço fisiológico do negro, que ali não prevaleceu senão insignificantemente, em pequeno número de mestiços, porque o tráfico do africano nessas plagas apareceu tardiamente, logo reprimido pelas nossas leis, e mais pelos ingleses, que de acordo com o nosso governo, perseguiam os navios negreiros até às nossas costas, aprisionando tripulações e carregamentos no próprio porto do Desterro, como várias vezes se deu. De sorte que, pode afirmar-se, o povo catarinense é essencialmente ariano, com particularidade nos centros alemães ou italianos, como Joinville, Blumenau, Brusque, Nova Trento, Orleans e Nova Veneza, cidades e vilas que foram outrora colônias, e cujas populações hão de ser, no futuro, o fator de um novo tipo brasileiro interessante, superior e perfeito...


Mas a característica principal do povo catarinense e a que o assinala mais profundamente porque é constitucional, conforme dissemos acima, e gerada por forças atávicas e étnicas altamente favorecidas pelo meio, é a sua extraordinária aptidão para a vida do mar, aptidão a cujo estudo consagraremos, na parte segunda desta obra, todo um capítulo que se denominará Gênio Marítimo Catarinense.

Mares e campos (Contos), de Virgílio Várzea

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A ênfase da paisagem litorânea em Virgílio Várzea

A representação idílica do povo das praias tem
sua função no quadro da sociedade visado por
aqueles que o constituíram em espetáculo.

(Alain Corbin)

A paisagem litorânea da Ilha de Santa Catarina foi destaque na literatura do final do século dezenove e começo do vinte. A visualidade do litoral ganhou novos contornos na literatura regionalista, que agiu na reconstrução da imagem da população praieira e legitimou a ociosidade através do lazer ao ar livre e da fruição da visão da paisagem.

A efetivação dos motivos regionais se afirma por meio de paisagens próprias. As imagens elaboradas pelo escritor Virgílio Várzea são fundamentais no processo de fabricação das paisagens autorizadas da Ilha de Santa Catarina. Por meio da paisagem literária regionalista surgem características identitárias tanto do território, quanto de sua gente. O mar, o vento sul, as lavouras de mandioca, e os costumes de uma gente simples e trabalhadora são imagens recorrentes nos panoramas literários criados por Várzea. As descrições do escritor resultaram, por sua vez, não pelo contato direto, mas de sua imaginação e memória, pois ele escreve sobre ambientes e sensações formadas a partir de suas lembranças da terra natal.

Virgílio Várzea nasceu na praia de Canasvieiras, no norte da Ilha de Santa Catarina em 6 de janeiro de 1863. Ele é considerado por Iaponan Soares um dos principais escritores regionalista de Santa Catarina, tendo se destacado na construção da imagem do litoral da Ilha. Segundo Soares, Várzea é o “introdutor das paisagens marinhas na literatura brasileira”. Para Selestino Sachet, Virgílio Várzea foi o “mais autêntico retratista dos costumes da gente e da paisagem marinha de sua terra, é considerado o introdutor do gênero marinhista na Literatura Brasileira e o criador do Conto Catarinense”. Iaponam Soares se refere a Várzea da seguinte forma:

Assim como se diz que o conto brasileiro inicia com Machado de Assis, pode-se afirmar com tranquilidade que em Santa Catarina ele tem em Virgílio Várzea seu primeiro representante. Antes dele a pré-história. Logo que os jornais surgiram em Florianópolis, o público se distraia lendo traduções em folhetins franceses ou adaptados de histórias exóticas. Mas em seguida aparecem as primeiras tentativas literárias de alguns precursores. Pesquisando os jornais da época chega-se à conclusão de haver o conto em Santa Catarina, como de resto em todo o país, nascido na imprensa. Ele aparece em S. C. em fins do século XIX, quando o Realismo e o Naturalismo já descreviam uma curva descendente e despontava os primeiros sinais do Simbolismo, em cujas águas surgiram Cruz e Souza e Virgílio Várzea, para citar dois importantes nomes das letras catarinenses.

Desde a infância Virgílio teve um contato íntimo com o mar. Viajou pela América, África e Ásia, Montevidéu, Buenos Aires, Patagônia e Antilhas. De volta a Desterro participou do grupo de escritores e intelectuais protegidos por Francisco Luiz da Gama Rosa, presidente da província. Fizeram parte do referido grupo: Cruz e Sousa, Horácio de Carvalho, Santos Lostada e Araújo Figueredo. Várzea também assumiu cargos políticos e governamentais, foi deputado no Congresso Estadual, Promotor Público e Secretário da Capitania dos Portos. Como escritor colaborou em jornais de Desterro/Florianópolis:

“Colombo”, a “Tribuna Popular” (de caráter abolicionista) e “A Regeneração”, mas também trabalhou em periódicos do Rio de Janeiro: “Gazeta de Notícias”, “Jornal do Comércio”, “O Paiz” e “A Imprensa”, em São Paulo escreveu para o jornal “Correio Mercantil”. Virgílio Várzea seria, nas palavras de Pierre Bourdieu, um intelectual “autorizado” (o “porta-voz”) a compor uma imagem legítima de sua terra. Aquele que “consegue agir com as palavras em relação a outros agentes e, por meio de seu trabalho, agir sobre as próprias coisas, na medida em que sua fala concentra o capital simbólico acumulado pelo grupo que lhe conferiu o mandato e do qual ele é, por assim dizer, o procurador”. Várzea transitava entre os campos da literatura e da política e tinha o reconhecimento social que dava a seu discurso o poder da autoridade.

Os livros de Virgílio Várzea, em especial “Mares e Campos” (1895), “Santa Catarina: a ilha” (1900) e “História rústicas” (1904), são obras importantes que agem na construção da paisagem da ilha. Conhecido como “marinhista da literatura catarinense”, e um dos poucos que se dedicaram ao tema do mar no Brasil, Várzea é referência para quem pensa os espaços originais da ilha, bem como a cultura de sua gente. Para Nelson Werneck Sodré, Virgílio Várzea é um raro autor regionalista que transpôs “o mar para a ficção”.

Na concepção de Luciana Cristina Souza a narrativa paisagística de Várzea faz parte de um “processo de imbricar, no domínio estético, literatura e pintura”. O que implica em considerar o paisagismo em sentido amplo: “como procedimento literário através do qual se recria pela ficção, marinha, quadros e retratos”. Luciana Souza concorda, assim, com o que afirmou Iaponan Soares sobre os retratos descritivos de Várzea:
  
A natureza idílica da Ilha conformava neles (Santos Lostada, Oscar Rosas e Virgílio Várzea) uma visão romântica da realidade, mas juntavam a isso uma marcação verista dos costumes do seu tempo. Esse tipo de informação    presente   nas  histórias   constitui,    hoje,    documento insubstituível, como um quadro de Rugendas ou de Debret.

A eficácia e o “encanto” do discurso de Várzea está justamente no “truque” de construir imagens por meio de palavras. Imagens do espaço e imagens do “povo”. A literatura desse autor cria “efeitos óticos” que torna mais eficaz o discurso da identidade. A construção de paisagem na literatura regionalista cria lugares e estereótipos da população tradicional, agindo como inventora da identidade local. Transformar a narrativa literária em imagem era, aliás, uma característica dos escritores regionalistas sob influência do naturalismo. “Ler, na estética naturalista, é, em suma ver” , diz Flora Süsseking.

Definindo-se como apropriação fiel, como imagem, como mimetismo, a ficção naturalista não dá lugar à interpretação múltipla, não se abre ao deciframento do leitor. Uma ficção que se diz repetição, instrumento ótico de precisão indiscutível, dá ao leitor apenas a possibilidade de ver atravésdela. De ver os recortes da realidade e as significações que lhe são dadas neste misto de ficção e instrumento ótico que é o naturalismo. O texto se afirma como realidade e sua leitura como assimilação “correta” desse real.

Uma obra naturalista, como qualquer microscópio ou câmera, se afirmaria como mediadora de uma verdade extratextual. Dela se nega a natureza ficcional enquanto se enfatiza sua derivação de um original que ela se esforçaria por reconstituir como um simulacro fiel.

Outrossim, os textos de Várzea inventam uma paisagem tradicional através da representação da natureza sob uma visão idílica. A paisagem na composição regionalista de Várzea está longe de ser um pormenor meramente ilustrativo. Ao contrário, ela é definidora do próprio caráter do lugar e da população. A representação da paisagem tem ali a força da tradição concebida pelo discurso oficial. O meio natural age na fabricação da identidade dos homens e mulheres ligados a lida marítima e campesina. É nítida a influência das ideias de Spencer e Darwin na maneira pela qual Várzea retrata os tipos humanos. As personagens femininas, por exemplo, foram representadas de forma “rude e zoomorfizante”. A natureza é, neste sentido, “o elemento básico, que domina tudo. O homem, mesmo quando luta para dominá-la, deve contentar-se com vitórias parciais, como sugere André, o afoito herói de Virgílio Várzea”.

Os “estranhos” homens praianos e as sublimes paisagens litorâneas ganham valor na lógica da produção simbólica que alimenta a visualidade turística da Ilha. O touriste procura ao mesmo tempo o estereótipo da paisagem e a excentricidade da cultura popular, e é isto o que Virgílio Várzea oferece quando traz à baila a natureza do litoral.

Poucos lugares no globo possuirão praias tão bonitas e de um desenho mais interessante e caprichoso como as da costa catarinense, tanto na Ilha como no continente. Brancas, de uma alvura reluzente ao sol, ou de um vago amarelo brilhante, abertas em curvas ou crescentes de um contorno suave, limitadas entre pontas numerosas ou pequenos promontórios de rocha, onde o mar brame em torvelinhos de espuma, em sítios desabrigados, ou preguiça mansamente em espelhações cor de anil nas enseadas em calma – essas praias deixam no espírito dos que as vêem uma dessas impressões de natureza que raramente se extinguem. Os que conhecem a praia de Icaraí e outras da nossa bela Guanabara, a de Copacabana e a da Gávea, já batidas do Atlântico, recantos queridos e visitados frequentemente por touristes de toda espécie, nacionais ou estrangeiros, poderão idear mais ou menos as de Santa Catarina, muitas das quais aumentadas de encanto, talvez, pela solidão primitiva em que jazem e pelas linhas ondulosas dos cômodos desconhecidos.

Parece que o Rio de Janeiro, enquanto cidade moderna e turística, servia de parâmetro a ser igualado ou, quem sabe, superado. A citação acima foi destacada do livro Santa Catarina: a Ilha, obra em que Virgílio Várzea elabora uma verdadeira cartografia da Ilha de Santa Catarina, dando a ver os aspectos geográficos, econômicos, sociais e paisagísticos da capital. Este livro, segundo Celestino Sachet: “retrata o ambiente sociocultural da sua terra, os usos e costumes de sua gente, além de reunir dados históricos e geográficos, descrevendo as admiráveis paisagens que circulam a ilha”. A publicação de Santa Catarina: a Ilha foi financiada pelo Governo do Estado, haja vista seu importante papel na confirmação da identidade catarinense de população hegemonicamente “europeia”, como afirma Várzea: “o povo catarinense é essencialmente ariano”. A homogeneidade da paisagem física e social em Várzea se conforma ao discurso oficial do Estado que investe na construção de uma identidade regional. O mito da ilha é re-editado na literatura e serve como fundamento aos discursos identitários da capital do Estado.

Mares e Campos (1903) compõe junto como Histórias Rústicas (1904) os escritos de Várzea sobre o “ardor pelas cousas do mar”. Em ambos são registrados a maior parte de suas impressões das paisagens litorâneas, associadas, por sua vez, a imagem que o autor tinha dos habitantes da praia/campo.

A identificação da Ilha através da paisagem da praia é resultado de um processo histórico de construção simbólica do lugar, que envolve uma complexa relação entre paisagem, enquanto produção visual do espaço, e contexto sociocultural em que foi inventada. A forma como a sociedade contemporânea lida com a paisagem da praia faz

parte de uma maneira particular de percepção do litoral, que envolve relações culturais do uso do corpo. Alain Corbin, por exemplo, ao estudar as representações da praia no Ocidente mostra o quanto o uso do litoral está relacionado com o uso do corpo. Corbin aponta em sua narrativa que o banho de mar foi legitimado, primeiro, como terapia corporal e paulatinamente se transformou em prática de lazer. “O banho de mar inscreve-se na evolução lógica das práticas. A moda do banho frio desenvolve-se, com efeito a partir de 1732. (...) Por esta época, descobre-se efetivamente as virtudes terapêuticas da água do mar”. O banho terapêutico incitou por sua vez outros usos da praia, desde a contemplação solitária da paisagem até as práticas de lazer em família. A moda da vilegiatura marítima desde o século XVIII nas cidades de Nice, Bath ou Brighton foi palco, segundo Corbin, das práticas de saúde e prazer na beira-mar. Esta moda, entretanto, só se efetivou na Ilha de Santa Catarina na década de 1930, período de reformulação dos discursos e das práticas sociais no espaço urbano. O uso da praia esteve associado ao processo de modernização que a cidade de Florianópolis atravessou na década de 1920. Urbanização, profilaxia e automatização do transporte (com o automóvel), formaram o cenário em que o uso da praia se vulgarizou, assim como o apreço à paisagem litorânea.

A praia-campo enquanto lugar de tratamento medicinal é a paisagem em destaque no conto Miss Sarah, de Virgílio Várzea. Depois que sir John Callander (personagem que representa um inglês que morava na Ilha) descobre que sua filha, Miss Sarah, está doente, ele decide seguir as orientações médicas e “ir para o campo, andar ao sol, respirar o bom ar”.  Então, John leva Sarah à praia de Canasvieiras, para que ela pudesse respirar o “ar oxigenado e puro dos campos”. Percebemos que a praia teve aqui o mesmo sentido atribuído ao campo, enquanto lugar de retiro que se contrapõe ao ambiente citadino. A viagem de Miss Sarah para Canasvieiras está associada, assim, ao imaginário do campo enquanto lugar de meditação e repouso. O barco que levava sir Callander e de sua filha demorou algumas horas para chegar à praia, e no caminho para o norte da Ilha Várzea interrompe sua narrativa para apresentar o quadro pitoresco do litoral:

Deliciara-se com o espetáculo maravilhoso do sol, nascendo a leste, do seio do oceano, entre véus de bruma argêntea, como um balão de nácar; o aspecto risonho e variado das paisagens litorâneas, densas e verdes, fugindo a um bordo; o correr das velas, cortando as ondas espumantes, a construção recolhida e humilde das alvas povoações mais antigas do mar. E recordava-se saudosamente de certas aldeias da Escócia, à beira d’agua, por onde andava em criança. (...)
O sol já ia alto, inundando tudo de ouro, quando o bote chegou à praia. Miss Sarah, agora mais alegre, sorria, sorvendo a longos haustos o ar oxigenado e puro dos campos.

A visão da paisagem é por si elemento de cura. Por outro lado, a descrição do litoral transforma a imagem da Ilha em paisagem de memória. A recordação de infância de Sarah dá sentido próprio à costa catarinense. O litoral da Ilha é formado, assim, por uma camada de lembrança que o torna familiar, quando lhe atribui um sentido íntimo. O espaço é então apreendido na tradução sensível que Sarah faz dele: as casas litorâneas da Ilha se transformam em “aldeias da Escócia”. O valor da Ilha não está nela mesma, mas em sua semelhança com a Escócia. Essa visão romântica e aparentemente inocente faz com que, em um instante de introspecção, desapareçam as particularidades do litoral e as idiossincrasias dos litorâneos. O “vazio” civilizacional é simplesmente preenchido pelas projeções das lembranças européias.

Através da personagem Miss Sarah, Virgílio Várzea, desenvolve uma tradução das paisagens a partir de suas próprias lembranças sensíveis. As paisagens são, nesse sentido, traduções literárias do espaço carregadas de memórias. Composta de sons, cores e odores. Por outro lado, a paisagem também é constituída por informações armazenadas na “memória coletiva”, entendida como um sistema de valores e ideias acumuladas e compartilhadas socialmente, nesse caso, por uma dada classe social. Especialmente as memórias produzidas a partir do estrangeiro. São elas que interagem na configuração das paisagens do litoral.

Outros lugares de memória também aparecem na visão de Várzea do litoral. As pedras da costa da Praia de Fora se assemelham a “menhirs” em referência a cultura ancestral do neolítico. Já a costa “abandonada e deserta” entre a “lagoinha até a Ponta Grossa” reporta o céu de “um azul ideal e transparente de uma velha faiança hollandesa”, em nítida referência a uma cultura refinada (superior) de matriz europeia. Parece que Várzea reconstrói as paisagens da Ilha na perspectiva do olhar turístico consagrado pelo Grand Tour.

A visualidade da paisagem literária de Várzea é um delineamento introspectivo da praia. É o imaginário de um lugar que se quer civilizado, não a partir de projetos de modificação arquitetônica ou urbanística sobre o espaço, e sim por um trabalho de reeducação do olhar. Ver a paisagens litorânea sobre a ótica burguesa é o caminho para a apreciação estética do lugar. Através da percepção visual, o litoral passou a ser incorporado ao sistema de apreciação típico da Belle Époque. A paisagem reflete um “estado de alma” civilizado.


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Fonte:
Thiago Juliano Sayão: “(Re)tratos insulares: A Ilha de Santa Catarina vista através das representações das paisagens (1890-1940)”. (Tese apresentada à banca avaliadora como parte das exigências do curso de Doutorado em História do Programa de Pós-Graduação em História do Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Orientadora: Profa. Dra. Regina Weber). Porto Alegre, 2011.

Notas
A imagem inserida no texto não se inclui na referida obra. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da obra em sua totalidade.

Julieta dos Santos, de Cruz e Sousa, Virgílio Várzea e Santos Lostada

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Aí vão como uns peregrinos alados, estes pálidos e mesquinhos versos, que ao certo destoarão no quase universal concerto poético, em homenagem a simpática “bambina” do sul, a essa prodigiosa criança.

Mas não era possível calar as sensações íntimas e sublimes, profundas e verdadeiras que se apoderarão de nossas almas, não era possível emudecer, ficarmos de gelo, impassíveis como Napoleão ao ver tombar examines as falanges de bravos nessa exemplar Waterloo, quando a irradiação do GÊNIO, quando as fulgurações de seus olhinhos, meigamente buliçosos, adoravelmente límpidos, misteriosamente expressivos e encantadores, nos eletrizam, nos arrebatam, nos fulminam a pouco e pouco.

É preciso combater-se de frente, com a viva certeza de triunfar, o indiferentismo, essa como que letargia moral, que nos apoucanha e torna velhos.

Somos catarinenses, somos brasileiros, filhos desse belo país, rico de grandiosas aspirações, fértil em produzir talento de “elite”, vultos de tina têmpera, rijos como aço, bem como João Caetano — pelo teatro, Álvares de Azevedo — pelas letras, esse “enfant terrible”, uma frase do pensador homérico, do arquiteto incomparável da palavra — o sábio Victor Hugo, ou segundo Ferreira de Menezes: o moço poeta capaz de escrever a epopeia dos Girondinos brasileiros.

Somos catarinenses, somos brasileiros, filhos dessa parte da América, banhada pelas águas do Prata e do Amazonas, filhos desse Tiaraiu soberbo, fadado para representar o universo na eloquente e solene propaganda do progresso e civilização.

E esse progresso nos chama, mas um progresso bom, prometedor, um progresso que tende a refundir os povos no crisol de novas ideias, a modelar as crenças pela igualdade das nações!...

Nada de retrogradar.

Se não podemos marchar na vanguarda das outras nossas províncias, ao menos marchemos no flanco.

Provemos ao estrangeiro que caminhamos para a perceptibilidade.

Pensemos um tanto maduramente.

Burilemos o crânio, que lá por dentro haverá alguma coisa de belo, de grande, de edificante, no pensar de André Chenier.

Façamos agitar as fibras do corpo e as fibras do espírito.

Somos os obreiros do porvir.

Somos as aves das luz!...

Ensaiemos o voo, preparemos a cabeça para as lutas da razão.

Enquanto esta trabalha, trabalharão precisamente todos os órgãos do nosso corpo.

Julieta dos Santos é brasileira como nós, precisa como os filhos do pelicano, um seio para alimentar-se, um teto amigo e hospitaleiro para abrigar a sua mimosa compleição, a sua delicada feitura.

Mais que ninguém, é merecedora dos mais altos encômios, da mais calorosa aceitação.

A palmeira do deserto não chega a ser gigante, a distender suas franças por sobre a plácida superfície do lago diáfano que serpeja em ondulações, de quando em vez, sem os alfajores protetores e cristalinos da manhã, sem as lágrimas misteriosas da noite!

As garaúnas saltitantes não desatam suas melopeias agrestes, seus maviosíssimos ditirambos na copada ramagem do ingazeiro, a jaçanãs não esvoaça mais desembaraçada e alegre através das lianas e trapoeirabas, sem pressentirem o brando rosicler da alvorada, os arabescos sublimes do horizonte!

Fenômenos tais são raríssimos.

Não é facilmente que um mesmo século gera um Mauricio Dengremont, um Mozart, uma Gemma Cuniberti, uma menina Coulon!...

É o fato de dizer-se que a natureza reúne a força intelectual de dois anos ou mais seres que se desenvolverão em tempo dado, naturalmente, sem precocidade, para a colocar em um só ser.

Para as organizações frias, que têm por índole a ganância material da coisa, estas nossas humildes, porém justas asserções, se dissiparão como a nuvem ou... quem sabe, se não serão comentadas AD LIBITUM, “com uma verdade e precisão à toda a prova, com uma imparcialidade e sensatez” inabaláveis?!...

Quem sabe?!...

Parece já sentirmos a aguçada ponta do estilete da crítica e do sarcasmo nos trespassar a fronte.

Mas não a curvaremos.

Foi nossa ideia apenas, conduzir uma pedrinha, um grão de areia, um diminutivo auxiliar enfim, aos alicerces do Panteão de glória dessa distinta atrizinha.

Se por acaso cumprimos mal o nosso desideratum, ela que nos desculpe.

Enquanto ao mais, se os pobres versos que seguem não penetrarem em muitos desses espíritos levianos e mal intencionados que aí há, cremos que penetrarão no da nossa dileta festejada e isso já nos é bastante.

Estamos acostumados a não curvar a cerviz a ouropéis, a grandezas, a tronos, mas sabemos tirar o chapéu sempre que deparamos com um escopro, com um malho ou um pincel, emblemas da arte!...

Assim o fazemos – diante de Julieta dos Santos.

Nunca serão demasiadas honras que se tributarem aos gênios essencialmente reconhecidos.

Quem quiser que nos julgue.
  

3 de janeiro de 1883.

13/08/2014

Histórias rústicas (Contos), de Virgílio dos Reis Várzea

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Virgílios 

 Observei que não existe coisa no mundo que não
seja ornada de sonhos, tomada por signo, 
explicada por algum milagre, e isso tanto mais 
quanto a preocupação pelas origens, pelas 
primeiras circunstâncias é mais ingenuamente 
forte. E é por isso, sem dúvida, que uma sentença 
foi pronunciada por um filósofo cujo nome não sei 
mais: NO PRINCÍPIO ERA A FÁBULA.
Paul Valéry, in: A alma e a dança

Este capítulo apresenta uma cartografia, a partir da qual o nome do escritor Virgílio Várzea foi visibilizado pela historiografia literária. Encarando o exame de sua fortuna crítica pelos registros que permitem dizer-ver sua obra, a principal base documental é constituída por fontes que, tanto em termos espaciais mais amplos, consideram as análises conforme uma perspectiva nacional, como as que, em termos mais restritos, abrangem um circuito reconhecido pelos limites estaduais. Em perspectiva temporal, em sua maioria, estes mesmos registros fundamentam-se na ordenação sucessiva e irrepetível de acontecimentos, através de séries que, evitando as instabilidades e desvios, buscam a homogeneidade dos padrões literários pelos encaixes e generalizações de conjunto. 

A despeito de certas diferenças e discordâncias que guardam entre si, persiste no conjunto desses saberes taxionômicos uma preocupação com os cânones literários, problemática que reatualiza a questão da sobrevivência póstuma afirmada pela fama e alimentada pelo iniciado-especialista. Absolutizando grandezas em termos de cânone-epígone, tais saberes procuram pelas galerias da memória escrita, os nomes e obras eleitas, definindo-se na instância da síntese e do âmbito pedagógico. Tratando de avaliar a procedência e especificar a natureza de uma boa e necessária obra de arte, esforçam-se para resgatar o sentido autêntico da obra, inscrevendo suas atribuições e especificidades nas molduras da literatura moderna e nos limites da nação. Tal perspectiva acaba por redefinir os limites do pensável, delineando um campo conceitual composto por regras e classificações capazes de tornar possível certas distâncias e aproximações entre as obras consideradas.

Avistado como ponto no universo desta cartografia, um e muitos, o nome Virgílio Várzea remete a uma tessitura bem mais ampla, cujo lastro está dado pela definição de fronteiras territoriais, pela legitimidade de uma língua comum e pelos pressupostos de uma mesma identidade cultural, ainda que sublinhada por certas variedades. Nestes estudos ganham relevo os vínculos entre literatura e nacionalidade, revestidos de condição de inventário, tratando-se de refletir sobre a constituição de uma herança e dispositivo, ao mesmo tempo afirmador-criador e confirmador-ratificador de séries por onde comparecem nomes e atribuições. Destacado por uma ordem classificatória e servindo a propósito por vezes distintos, tal mecanismo, por um lado, espacializa as obras e autores de pouco ou reduzido interesse, cuja menção se deve ao caráter isolado, pitoresco ou distanciado em relação aos nomes considerados ilustres ou de grandeza expoente; e por outro, ressalta os filhos talentosos e diletos, quer em proposição com ênfase mais cientificista ou mais laudatória, onde os irreconhecimentos e insignificâncias parecem compensados, ora na perspectiva do local para o nacional, ora do nacional para o europeu.

A propósito da percepção ou compreensão implícita acerca de uma inserção literária que ocorre pelas fímbrias acanhadas da colonia-província em relação à metrópole-Europa, não deixa de ser tentador lembrar o paradoxo indicado por certo comentarista, depois de enumerar a obra visível de Pierre Menard. É que em sua obra subterrânea e inconclusa, ficara guardado o assombroso propósito de escrever Quixote, não pela cópia, mas pela coincidência com as palavras de Cervantes. Porém, reconhecendo que não há exercício intelectual que não resulte ao fim inútil, depois de muita fadiga e vigília, o empreendimento teve suas milhares de páginas manuscritas e rascunhos destruídos. Os sucessores que quisessem ler aquela espécie de palimpsesto, a fim de poder exumar sua própria barbárie, teriam que ressuscitá-lo constantemente, entesourando antigos e alheios pensamentos. Só assim, recorrendo ao anacronismo deliberado e às atribuições errôneas, Odisséia poderia ser lida como se fosse posterior a Eneida, na condição de destino irreal e leitura infinita, técnica inventada por Menard, talvez sem querer, mas graças a sua ambição.27 Desse modo, em posição deslocada e inatual, o crítico-intelectual é obrigado a relembrar a tradição, buscando infinitamente a identidade extraviada de sua cultura, ainda que correndo o risco de naufragar em pressas e simplificações. 

Neste leque que se abre, ignorando a área sombria, uma zona de luz inside sobre o que se considera recuperar, resgatar, iluminar, visibilizar. Em grande parte, prevalece através dos conjuntos constituídos e no que poderíamos chamar de taxionomias literárias, a impossibilidade de compreender-explicar os efeitos de acontecimento que se constroem na dimensão intrínsica do texto e se constituem como recurso e recorrência capazes de produzir e alimentar não apenas a própria lógica e funcionamento textual, como também sua reprodução. Esforço semelhante ao de compilar um dicionário, sem deslocar ou ultrapassar as molduras do instituído, predomina a aceitação das classificações herdadas, sendo seus portadores reconhecidos como porta-vozes capazes de autenticar e transmitir grandezas, os gêneros e os conceitos, além de assegurar a originalidade das tradições e estéticas. Do mesmo modo, colocando o problema da herança e da transmissão do patrimônio literário sem questionar o solo onde medraram as regras classificatórias, nem estranhar os critérios através dos quais as mesmas definiram lugares, permanece a ausência de problematização sobre os princípios que sustentam as seqüências e agrupamentos, bem como a seleção de autores, obras e nexos, capazes de familiarizá-los. 

Operando por dualidades como forma conteúdo, dimensão-proporção, centro-periferia, universal-particular, cópia-original, cultural-natural, interior-exterior e assim por diante, os procedimentos classificatórios não cessam de enviar ao caráter arbitrário, em cujas bases se assentam as dimensões e proporções que caracterizam tanto escolas e movimentos, como escritores e obras, remetendo às instâncias do implícito e do aleatório. Através de tais inclusões-exclusões taxionômicas, podem ser lidas não apenas as contradições como também as fronteiras porosas e conflitantes de uma história sobre as compreensões e percepções acerca do dizer literário e das diferentes maneiras de inseri-lo ou combiná-lo, apagá-lo ou realçá-lo. No terreno destas heterogeneidades, o que aparece pode ser lido como um regime de verdades, cujo empreendimento para pensar lugares, dizer hierarquias e ver agrupamentos e trajetórias se constitui num problema que reclama maior atenção. 

Indicando certos rasgos como riscos ou fendas que atravessam cada ordenação taxionomica destinada a derrotar o silencio e as diferenças através de agrupamentos padronizados por estéticas e estilos ou conjunto de vidas e obras artísticas, destacam-se algumas incisões. São elas: origem como artifício, classificação como heteróclito, gênero como dispositivo e texto como disseminação. Para melhor perceber o horizonte desta reflexão, o nome de Virgílio Várzea será reconhecido em nuances distintas, mas em boa parte complementares: como sombra de Cruz e Sousa e talento pouco desenvolvido; como presença-ausência numa temporalidade e meio em que atravessa despercebido; como um paisagista-marinheirista de pálidas colorações e como expoente injustamente esquecido que deve ser reinserido. Assim, identificado por críticos de diferentes procedências teóricas e políticas, nos registros dos comentadores-conhecedores de sua obra prevalece um movimento pendular que vai do pálido ao brilhante colorista, do paisagista náutico com pendores universalistas ao paisagista regional que jamais esqueceu suas gentes, do escritor pouco talentoso ao muito original, do autor que não merece maior atenção ao que não foi suficientemente estudado. 


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Fonte:

Rosângela Miranda Cherem: “Aparições da textualidade: dizer e ver um Virgílio”. (Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina, para obtenção do Grau de Doutora em Literatura, sob a orientação do Prof. Dr. Raul Antelo. Universidade Federal de Santa Catarina). Florianópolis, 2006.

Notas
A imagem inserida no texto não se inclui na referida obra. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da obra em sua totalidade.

12/08/2014

Contos de Amor, de Virgílio dos Reis Várzea

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13/07/2014

A Noiva do Paladino, de Virgílio Várzea

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17/06/2014

George Marcial, de Virgílio Várzea

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Virgílio Várzea: Percurso

Na segunda metade do século XIX, um filho de portugueses, cujo pai comandava uma embarcação transportando mercadorias e imigrantes pelo litoral de uma pequena província dos confins brasileiros, recebeu o mesmo nome de um dos mais estimados escritores do império romano e um dos mais célebres poetas de todos os tempos. Nascido a bordo de um barco, crescido numa pequena ilha subtropical, Virgílio Várzea traz no primeiro nome uma tradição literária muito remota, associada à construção não só da poesia pastoril, mas de uma obra que se tornou marco fundante da civilização latina. Porém, formando um oxímoro, o segundo nome o coloca junto aos vales e planícies. Assim, entre o célebre e o ignoto, delineia-se um Virgílio das terras planas, herdeiro de marcos territoriais e culturais trazidos pelas lides marítimas e pelas fantasias literárias, que bordejou espaços da vida pública desde fins do Império e primórdios republicanos, exercendo ao longo da vida atividades de funcionário público e deputado, jornalista e escritor.

Um século mais tarde seu nome seria especialmente lembrado por ser o mesmo de uma rodovia que conduz à parte norte da ilha-capital, onde anteriormente ficava a antiga freguesia em que nasceu. Mas é bem possível que dentre todos os usuários e turistas que transitam pelas vias chãs que levam ao balneário, poucos saibam que publicava narrativas curtas que em boa parte cabiam na dimensão das edições de bolso, com editoração modesta e muito semelhante a de almanaques, enquanto aspirava um assento na recém-criada Academia Brasileira de Letras. Eis então uma outra característica do protagonista: um escritor nem notável, ilustre ou glorioso, tampouco maldito ou malvisto, clandestino ou infame, cuja produção literária não pode ser alçada ao firmamento, mas também não pode ser jogada à sarjeta. Se seus escritos não pertencem aos cânones da mais alta, erudita ou refinada literatura, nem por isso se constituem em escrituras de caráter meramente popular, marginal ou ordinário. Característica que remete ao contingente de artistas e intelectuais medianos, habitantes de um território localizado entre extremos, mas não menos desejosos de reconhecimento pelas marcas escolhidas para alcançar a posteridade.

Em seus registros biográficos não consta nenhuma grande tragédia ou feito político, econômico, étnico, religioso, familiar ou mesmo pessoal que lhe pudesse assegurar certa notoriedade. Igualmente não constam dados que evidenciem um destino absolutamente errático, desventuroso ou pantanoso e nem uma existência que possa ser destacada como sinistra ou desastrosa. Nem mesmo trata-se de um escritor colhido pela morte prematura, fenômeno que freqüentemente assegura aos aspirantes da vida artística-intelectual certo suspense em torno dos talentos que não se manifestaram a tempo. Na juventude foi amigo e parceiro das primeiras aventuras jornalísticas e literárias de Cruz e Sousa, mais adiante, na idade adulta foi colega de trabalho de Olavo Bilac, porém não se tornou porta-voz devotado à poética simbolista do primeiro parceiro ou parnasiana do segundo poeta. Também foi contemporâneo de Machado de Assis, Euclides da Cunha e Lima Barreto. Mas evitou tematizar, tanto quanto possível, a ambiência do Rio de Janeiro, bem como a do interior territorial com vistas a documentar os sofrimentos e dramas dos esquecidos fora do circuito urbano. Não afeito à maneira machadiana de tratar as elites do circuito cosmopolita, tampouco demonstrou preferência pelos seus segmentos remediados ou miseráveis.

Todavia, se Virgílio Várzea era portador de ambições literárias que não se realizaram, não se pode simplesmente atribuir este fato a sua inscrição isolada ou periférica, uma vez que se trata também de um desafio que coube a muitos escritores de seu tempo. Assim, numa conferência que assinalava os cinqüenta anos da morte de Baudelaire, Paul Valery observou que o autor de As flores do mal foi contemporâneo do romantismo, justo na fase de seu apogeu, sendo que seu desafio era tornar-se um grand poète, mais n’être ni Lamartine, ni Hugo, ni Musset. Nasceria daí um sortilégio de tensões e combinações da poética baudelairiana e que, tanto no que tange a sua temática como a sua abordagem, pagou tributo à embriaguez musical e recorreu à turbulência pictoral das cores e formas, tornando-se o mais misterioso de todos os poetas da literatura ocidental, fenômeno que permite entrever o incessante jogo de articulações entre beleza e morte, efêmero e infinito, modernidade e fantasmagoria.

Ocorre que, longe da busca pela autonomia da obra, tal como o fizeram Mallarmé pelo lado da literatura em findos oitocentistas ou os pós-impressionistas na nascente do século XX, Virgílio Várzea preferiu as assimilações compósitas e as figurações híbridas em tempos art-nouveau. Foi assim que entre 1884 e 1910 guardou particularidades estéticas de um período posteriormente chamado belle époque, cujas publicações foram catalogadas como um opúsculo e duas coletâneas de poemas , cinco coletâneas de contos, um romance , quatro novelas e dois estudos considerados de caráter descritivo, distribuídos entre editoras de sua cidade natal e do Rio de Janeiro, além de seis publicações em casas de edição portuguesas e quatro francesas. Todas estas publicações datam de um tempo lacunar, em que as certezas abolicionistas e as militâncias republicanas foram minguando, enquanto os engajamentos modernistas não eram suficientemente visíveis e nem se definiam ou validavam novas convicções e causas reivindicadas por grupos específicos em nome de vanguardas estéticas. Enquanto assistia às esperanças políticas e estéticas, advindas dos tempos imperiais, resultarem em desapontamentos e abandonos, oscilando entre o cinismo arrivista e a ironia desencantada, certamente não escaparam a este Virgílio as ambições mais pessoais que desnudavam escolhas, confrontando interesses e relativizando grandezas de modo insuspeitável antes do início republicano.

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Fonte:

Rosângela Miranda Cherem: “Aparições da textualidade: dizer e ver um Virgílio”. (Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina, para obtenção do Grau de Doutora em Literatura, sob a orientação do Prof. Dr. Raul Antelo). Florianópolis, 2006.

Notas:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade. Disponível em: repositorio.ufsc.br