05/10/13

O Guarani, de José de Alencar (PDF)

 Jose de Alencar - O Guarani - Iba Mendes
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A trama de "O Guarani"

"O guarani foi escrito por José de Alencar em 1857 e teve por propósito inspirar o  sentimento nacional. Para tanto, exalta o passado de nossa nação, colocando o indígena  como o grande herói que realiza ações incríveis para salvar os colonos dos perigos da terra  descoberta. Esse romance elege o índio Peri e a moça americana, filha de portugueses, Ceci  como os personagens principais da trama, sugerindo que ambos representam a origem do  povo brasileiro. O presente estudo procura demonstrar que, para alcançar seu propósito,  José de Alencar empregou técnicas literárias da tradição clássica, procurando produzir em  seu leitor efeitos próprios do gênero épico.

Vejamos sucintamente a trama geral para posteriormente comentarmos as ações que  se desenrolaram em torno dessa história. A narrativa passa-se no início do século XVII, às  margens   do   rio   Paquequer,   no   interior   do   hoje   Estado   do   Rio   de   Janeiro.   Portugal   e,  portanto, o Brasil estavam sob o jugo espanhol. Narra-se o drama de D. Antônio de Mariz,  que fixara sua moradia distante dos centros urbanos para não prestar vassalagem ao rei da  Espanha.

D. Antônio viera ao Brasil colonizar as novas terras. Em sua casa abrigava a sua  família   e   aventureiros   que  estavam empenhados na exploração colonial. Ao  longo da  narrativa, inúmeros conflitos acontecem. D.Antônio era um fidalgo de sentimentos muito nobres e tinha o seu projeto de colonização constantemente ameaçado por situações  externas à sua vontade. Sua residência é alvo do ataque de indígenas, além de abrigar  forasteiros que nem sempre eram confiáveis.

Existem portanto conflitos que permeiam a narrativa. Dentre eles, há o conflito de  D. Antônio com Loredano, que era um ex-frade que tenta tomar o poder do fidalgo e raptar  a sua filha Ceci. Cecília (a Ceci) estava prometida em casamento ao nobre Álvaro de Sá,  que a amava de verdade, mas era cobiçada fisicamente pelo ex-padre e aventureiro italiano  Loredano (na verdade, Ângelo de Luca). No entanto, Ceci acaba se apaixonando pelo índio  Peri, que a servia porque D. Antônio, certa feita, havia salvado a mãe de Peri de um grupo  de aventureiros brancos.

Já  Isabel,  filha   bastarda   de   D.   Antônio   com   uma   índia,  integrada   a   casa   como  “sobrinha”, apaixona-se por Álvaro. Quando há uma revolta contra D. Antônio de Mariz  liderada por Loredano, Peri frustra a revolta e o italiano é condenado à fogueira. Álvaro é  ferido mortalmente ao sair na busca de provisões e Isabel suicida-se junto ao amante,  morrendo ambos asfixiados (uma reedição das mortes de Romeu e Julieta).

No princípio, Álvaro amava Cecília e tinha se comprometido em casar com a moça.  No entanto, Cecília nunca o amara de verdade e até o evitava por saber do amor de Isabel  pelo moço. Sendo assim, Álvaro acaba se encantando por Isabel e passa a amá-la como  nunca amara Cecília.

Ao final, há uma invasão dos índios aimorés, motivada pela morte de uma índia  daquela tribo, que fora vítima de um tiro acidental de D. Diogo, filho de D. Antônio de  Mariz, durante uma caçada. Peri e Ceci fogem antes da invasão com a permissão de D.  Antônio. Antes de partirem, entretanto, Peri é batizado por D. Antônio. Todos as outras  personagens, com exceção de D. Diogo (o filho de D. Antônio estava no Rio de Janeiro),  morrem nessa batalha. O livro termina com a fuga dos amantes e uma inundação do rio Paraíba, da qual Peri e Ceci se salvam flutuando com o auxílio de uma palmeira, tal qual a  lenda de Tamandaré que corresponderia ao Noé bíblico dos índios Guaranis, pois retrata um  dilúvio e a salvação de um único casal no alto de uma montanha.

Os   principais   conflitos   dentro   da   narrativa, portanto,   são:  1)  o   conflito   de   D.  Antônio com Loredano, em que este último tenta tomar a casa do fidalgo e raptar sua filha, incitando os outros aventureiros a se revoltarem contra D. Antônio; 2) o conflito de D.  Antônio contra os aimorés, em função do crime involuntário de D. Diogo contra a índia  aimoré; 3) o  conflito que se dá no campo amoroso, em que  três homens (Álvaro, o nobre cavalheiro, Peri, o índio herói da narrativa e Loredano, o aventureiro destemido) disputam  Cecília. Peri vence todos os obstáculos e fica com Ceci. É em torno deste último conflito,  como veremos, que toda a trama se constrói.

Analisaremos o romance O guarani à luz de alguns efeitos produzidos no leitor pelo  texto, que consideramos serem aqueles próprios do gênero épico, sem perder de vista que se  trata de uma obra romântica e, portanto, própria de um estilo que rompeu com a tradição  greco-romana. Mesmo com esse rompimento, verifica-se que nessa obra de José de Alencar  foram empregados elementos do gênero épico de uma forma atualizada, dentro do contexto literário do século XIX. Analisaremos O guarani tomando por base as idéias de Francisco  Freire de Carvalho (1779-1854), que discorreu sobre o gênero épico no século XIX em um  momento já posterior ao do predomínio da retórica clássica e, ao que tudo indica, foi uma  das referências literárias de José de Alencar, conforme salienta Eduardo Vieira Martins.

O guarani, conforme já dissemos anteriormente, conta a história dos habitantes que  chegaram ao Brasil para colonizar a nova terra. O eixo que estamos tomando como central  dentro da narrativa é o amor de Ceci e de Peri, sem desconsiderar como importante também  o eixo do conflito entre os portugueses e os índios aimorés. José de Alencar compôs o  romance com características que engrandeceram os feitos coloniais no Brasil e elegeu o índio guarani como o herói da história. Parece-nos que grande parte da concepção dessa  obra advém dos preceitos clássicos. Vejamos a descrição de Francisco Freire de Carvalho a  respeito da poesia épica:

Deixadas outras definições da Epopêa, que podem ler-se nos differentes críticos, a que  temos por mais adequada é a seguinte: Poema Épico é a narração poética de uma acção ou  empreza illustre. O effeito moral da Epopêa resulta da impressão produzida ou já por cada  uma de suas partes separadamente, ou já pela unidade do todo; effeito este derivado dos  grandes   exemplos,   que   o   poeta   apresenta   aos   olhos   de   seus   leitores,   e   dos   nobres  sentimentos que communica aos seus corações. O fim próximo, que elle se propõe em geral,  é dar maior extensão á idêa, que os mesmos leitores fazião já da perfeição da especie  humana, ou, por outras palavras, o despertar-lhes admiração: para isto nenhum meio ha  mais adequado, do que oferecer-lhes representações convenientes de factos heróicos e de  caracteres virtuosos, por ser a virtude eminente um objecto de admiração pra todos os  homens, e eis aqui temos a razão por que os poemas Épicos são, ou devem ser favoráveis á  causa da Virtude. (CARVALHO, 1860, p. 88-91)

De acordo com a definição de Francisco Freire de Carvalho, é conveniente ao texto  épico   apresentar uma grande   empresa e feitos  heróicos.   Em  O guarani,  encontra-se a apresentação de uma grande empresa, que é a colonização nas terras recém-descobertas,  juntamente com inúmeros feitos heróicos, conforme as atitudes do índio Peri dentro da  trama. Portanto, as linhas de força do romance de Alencar são consonantes com o que diz  Freire a respeito da épica.

Retomemos, primeiramente, as reflexões do romancista sobre o fazer  literário  anteriores à escrita do romance no intuito de averiguar se ali já se encontra algo que nos  auxilie na aproximação entre O guarani e a épica clássica.

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Fonte:
Fabrizia De Souza Carrijo: “A busca da adequação entre formas literárias e momento histórico: um estudo comparativo entre O guarani de José de Alencar e O escravo de  José Evaristo de Almeida”. (Dissertação de mestrado apresentada à Comissão de Pós-Graduação da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para a obtenção do título de Mestre em  Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa. Orientador: Prof. Dr. Hélder Garmes). Universidade de São Paulo, 2008.

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