28/12/13

O Conde d'Abranhos, por Eça de Queirós

 Eca de Queiros - O Conde de Abranhos - Iba Mendes
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O Conde d'Abranhos, por Eça de Queirós

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Quero comentar aqui agora apenas alguns aspectos da  ironia retórica de O conde de Abranhos, novela cujo manuscrito data de 1879, não tendo nunca sido publicado em vida do autor (foi dado à luz pelo filho José Maria, 25 anos  após a morte do pai). Mostrando-se perfeitamente integrado no espírito crítico da  geração de 70, em O conde de Abranhos, Eça critica a vida pública e privada do  Portugal da época, através da voz (ou da pena) do secretário Zagalo, que constrói o  elogioso retrato de Alípio Abranhos.

A novela coloca em cena uma política corrupta e interesseira, uma vida familiar  e uma religião degradadas e preocupadas apenas com as aparências, uma educação  deficiente e mal orientada e uma sociedade que premia e incentiva a hipocrisia. Através  da palavra ingênua de um narrador ingênuo, demonstra ainda uma deplorável  incapacidade de leitura crítica do mundo e das informações recebidas. O narrador da  novela é Z. Zagalo, um secretário que deseja perpetuar a memória do venerável homem  público que dá nome ao livro, fazendo, em sua encomiástica biografia, o elogio de sua  vida de jornalista, homem de família, político da oposição e posteriormente ministro de  Estado, depois de oportuna mudança de partido político. Generoso e magnânimo,  condescendente para com alguma falha do “homem excepcional” que busca retratar,   Zagalo aceita, assume e elogia a perspectiva do patrão e da ideologia conservadora que  o levou ao poder. Pretende que sua homenagem leve às gerações contemporâneas “a  elevação de espírito e a rectidão de alma” de seu biografado (Queiroz, [19--], p. 287- 405), para quem procura construir um monumento comparável ao mausoléu com que a  condessa viúva homenageia o marido prematuramente falecido. Rivalizando talvez com  essa esposa do Conde – pois além de elogiar constantemente a primeira esposa do  homenageado, parece pretender dizer que conhece melhor o seu retratado que a mulher  que com quem ele conviveu durante oito anos de casamento -, Zagalo exemplifica  entretanto toda a ingenuidade e incapacidade de leitura que Eça pretende apontar no  povo português. Critica assim a miséria de um país em que a lealdade é apenas aparente  e interessada, camuflando hipocrisias, invejas, despeitos e vinganças de personagens  que lutam escusamente pelo poder.
O conde de Abranhos constitui-se, assim, como um bom exemplo de arte  construída com a ironia retórica, pois o seu autor coloca em cena um narrador de cuja  palavra discorda, utilizando esse leitor intradiegético despreparado para alertar  ironicamente os leitores de sua obra, a fim de que façam aí um exercício crítico e  aprendam com essa caricatura a ser menos crédulos, menos bajuladores e interesseiros  e, enfim, mais atentos e menos ridículos. O exagero com que carrega nas tintas dos  elogios do secretário indica a ironia desse autor impiedoso, que usa a exaltação moral  para desmoralizar e o comentário positivo para criticar.

O autor faz seu narrador Zagalo elogiar, por exemplo, personalidades a quem o  conde devia favores, acentuando ao mesmo tempo o ridículo ou outros aspectos  negativos de suas figuras. Uma delas é a do Dr. Vaz Correia, aquele que tinha por  Alípio “uma consideração a que se misturava tocantemente uma simpatia paternal” (p.  331), e que foi o seu orientador no casamento com uma herdeira rica, o que abriu ao  futuro conde as portas da alta sociedade lisboeta da época. Zagalo chama o Dr. Vaz  Correia de “rábula”, avisando logo que essa palavra não devia ser tomada em seu  sentido grotesco, o que equivale a uma piscadela irônica do autor que estabelece  comunicação conosco, acentuando que o adjetivo “grotesco” é realmente para ser  levado a sério. Esse entendimento se confirma pela descrição do Dr. Vaz Correia: trata-se de um “resplandecente espelho de lealdade” (p. 331), de que o “que menos se  conhecia era a sua grande bondade” (p. 331):

Os seus olhinhos vivos que espreitavam por cima dos óculos, a sua  carita redonda e enrugada, as duas repas de cabelo grisalho,  espetadas como orelhas de diabo de cada lado da calva, a alta  gravata de seda preta às pintas, o colete de xadrezinho, e o hábito de  falar com as mãos atrás das costas, tornando saliente a sua  barriguinha próspera, são feições dele bem conhecidas de Lisboa. (p.  331)
Chamam a atenção os diminutivos “olhinhos”, “carita”, “xadrezinho”, “barriguinha”,  que contrastam ironicamente com a solene figura apresentada do bom gigante, que é  comparado a um S. Cristóvão protetor e sempre venerado.

Uma figura ridícula realmente criticada por Zagalo é a do sogro de Alípio  Abranhos, o desembargador Matos, cuja honestidade e ciência jurídica eram discutíveis  e que lembra personagens de Camilo Castelo Branco, pois é visto como um animal, que  “rumina regaladamente” (p. 333): “Fazia, ao comer a sopa, um gluglu nojento e  repelente, e atirava para o soalho os escarros que merecia na face” (p. 335). Explica-se,  porém, a perspectiva negativa de Zagalo diante do Dr. Matos, pois este uma vez o  tratara como um lacaio, pedindo-lhe que visse se já chegara a sua sege. Compreende-se  a crítica, principalmente, quando Zagalo confessa: “Pode parecer irrespeitosa esta  apreciação da família Amado, mas, para minha justificação, direi que o Exmo. Conde a  abominava” (p. 335) . O “partido” do secretário diegético é assim bem definido e  definidor, pois o seu julgamento estará sempre previamente estabelecido porque calcado na perspectiva do conde, seu venerado e benfeitor patrão.

Zagalo exibe constantemente as comprovações e as fontes de todos os seus  relatos e perspectivas, definindo-se, assim, como um interessante caso de vítima da  ironia, pela ingenuidade da leitura que faz e da narração que elabora: se não entende os  jogos de enganos de que se torna vítima, não percebe também que a sua intenção irônica  de exaltar-se ao exaltar o conde não pode funcionar da forma positiva que ele pretende.  Ao expor a sua necessidade do olhar do leitor – ao escrever uma biografia que deverá  consagrar o biografado e ao mesmo tempo o que a escreve - , desvela inconscientemente  os artifícios retóricos e escusos do biografado que pretende exaltar. O exaltador torna-se  assim ainda mais criticável que o “exaltado”, pois a sua visão ingênua apresenta como  positivos procedimentos que os leitores perceberão como negativos e censuráveis.
A ironia que Eça critica em O conde de Abranhos refere-se principalmente,  portanto, a uma recepção / retransmissão ingênua, aquela que procura transmitir a outros discursos recebidos, sem perceber neles incongruências que sinalizam irônica  manipulação de sentido e manobras que visam ao poder. Indiretamente, através da voz  desse narrador que afirma repetidas vezes não crer ofensivas as lembranças negativas  que apresenta, o autor irônico ratifica comentários desairosos sobre a origem familiar  humilde de Abranhos, conta como ele se envergonhava dos pais e os abandonou, mostra a deficiência de sua formação cultural, contrapõe seu físico bem desenvolvido à sua  pobreza intelectual, exibe a sua propalada veia poética que se resumira a versos  sentimentais da juventude, revela que suas relações sociais e afetivas tinham sempre  como base o interesse pessoal, denuncia que o seu socialismo era mal fundamentado e  mal desenvolvido, acentuando que somente por ter sido adotado durante muito tempo  pela rica tia Amália pôde ter ele a ascensão social de que desfrutava.

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Fonte:
Lélia Parreira Duarte  (UFMG ): "A valorização do leitor na arte de Eça de Queirós  (ou respondendo a Machado de Assis e a Fernando Pessoa), disponível em: http://www.leliaparreira.com.br

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