28/12/13

Alves & Cia, por Eça de Queirós

 Eca de Queiros - Alves e Cia - Iba Mendes
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Prudente é a prudência

Godofredo da Conceição Alves, negociante na cidade de Lisboa, rua dos Douradores, tinha como sócio o parceiro Machado. Certo dia, ao retornar do Ministério da Marinha, onde fora resolver questões relacionadas a negócios no Ultramar, Godofredo não encontrou o sócio, que tinha ido, segundo o guarda-livros, ao Lumiar. “Desde o começo do mês, era a quarta ou quinta vez que o Machado desaparecia assim do escritório, ora para ir ao Lumiar ver a mãe, ora à outra Banda visitar um amigo tísico, ora mesmo, sem razão, com esta palavra vaga: ‘um negociozito’! E Alves sorria. Começava a desconfiar daqueles ‘negociozitos’!” (Queirós, 1981:6)

Quase às três horas da tarde o guarda-livros veio lembrar que aquele era o dia da “reunião geral da Transtagana”, dia 9, data que lembrava também a Godofredo outro evento importante: o dia do aniversário de seu casamento. Godofredo “decidiu logo correr à Rua de S. Bento, lembrar à Lulu aquela grande data (...) Eram quase três horas (...), não havia nesse dia outros afazeres (...). E tomando o chapéu, no regozijo do meio feriado, alegrava-se à idéia de ir surpreender com um abraço a sua querida Lulu. Só uma coisa o contrariava: que o Machado estivesse no Lumiar e não pudesse jantar com eles” (Queirós, 1981:11 e 13).

No caminho de casa, ao passar diante de uma joalheria, resolveu comprar uma pulseira, “uma serpente de ouro, com dois olhos de rubis, mordendo o rabo”. Jóia, segundo o ourives, vendida “uma igual à Sra. Marquesa de Lima”. Godofredo não teve dúvida. Comprou. Ainda na direção de casa, encomendou “uma empada de peixe para as seis horas”, no restaurante do Mata, que ficava na rua Nova do Carmo. Subindo o Chiado, comprou charutos para o sogro, o seu Neto, e desceu à rua São Bento onde morava. A “meia dúzia de passos de sua casa (...), dentro da confeitaria, viu a sua criada, a Margarida, esperando no balcão. Compreendeu logo que a Lulu não se esquecera do dia (...): a Margarida viera comprar doces, sobremesas”. Ele, logo após encomendar a empada de peixe, comprou também um fiambre, um queijo da serra — o dia merecia (Queirós, 1981:14 e 16-7).

Ao chegar a casa, Godofredo observou que tudo estava quieto, “tudo parecia adormecido”. Teve então uma idéia: entrar pé ante pé e ir ao quarto surpreender a “Lulu que, ordinariamente, àquela hora, se vestia para o jantar”. Ao pôr em prática a tática, pé ante pé, usando “os seus sapatos de verão, de sola fina”, esperando não fazer ruído, ouviu um rumor através da cortina da sala de visitas, “um rumor ligeiro, indistinto, como um vago suspiro, um garganteio muito leve”. Godofredo “espreitou (...). E o que viu — Santo Deus! — deixou-o petrificado, sem respiração, com todo o sangue na cabeça e uma dor tão aguda no coração que quase o deitou por terra” (Queirós, 1981:18-9). O que viu Godofredo?

“[Viu] sobre o canapé de damasco amarelo, diante duma mesinha onde havia uma garrafa de vinho do Porto, Lulu, de robe-de-chambre branca, encos tava-se, abandonada, sobre o ombro dum homem que lhe passava o braço pela cintura, contemplando-lhe o perfil com o olhar afogado em languidez. O homem era o Machado” (Queirós, 1981:19).

As cenas seguintes o leitor pode imaginar. O sócio Machado “pela rua fora, a passadas de côvado (...) afastava-se com o guarda-sol na mão”. E o Godofredo querendo esgoelar a Lulu, não, agora simplesmente Ludovina, que se trancou no quarto. “— Abre ou arrombo!”, vociferava Godofredo, e do outro lado, respondia Ludovina “— Mas não me faças mal! (...) Oh, Godofredo, pela tua saúde, perdoa, eu não tinha feito mal nenhum, e era só a primeira vez! (...) — E que fosse a primeira, que tem que fosse a primeira? E então com quem, infame!” Foi então que o Machado entendeu os “negociozitos” do seu sócio. “— Arranje as suas coisas, p’ra ir p’ra casa de seu pai. (...) Pode levar tudo (...). Tudo o que é seu, leve-o. Mas rua!” A empada de peixe do restaurante do Mata acabava de chegar (Queirós, 1981:22-4 e 26-7).

Depois de perambular pelo Chiado, rua do Ouro, Terreiro do Paço, Aterro quase até Alcântara, “a idéia da morte atravessava-o (...), pensou no suicídio”. “Mas o outro?”, o sócio, o Machado? “Era o Machado que devia desaparecer; era Machado que se devia matar! (...) a firma continuaria a ser Alves & Cia.” Com estas idéias a fervilhar sua cabeça concluiu que a única coisa digna era “propor ao Machado que um deles se suicidasse!” Voltou a casa.

Não, era “muito simples: tirariam a sorte, ele e o outro, qual dos dois se devia matar!” (Queirós, 1981:37, 39-41 e 45).

Mesmo sem apetite, Godofredo sentou-se à mesa para o jantar a fim de manter, perante as criadas, aparência de normalidade. Neste momento vieram anunciar que o sr. Neto, o sogro, viera buscar as coisas da Lulu. Uma discussão áspera deu-se entre os dois. De um lado, o comerciante de Alves & Cia, sentindo-se desonrado; de outro, um pai defendendo a honra da filha. “— O pior é o falatório!”, dizia o Neto compungido. “— E a você, com sua posição na praça, não lhe faz senão mal.” Godofredo concordou “enfim, o melhor seria evitar o palavrório”. Conversa vai, conversa vem, para evitar palavrórios, o Neto propôs uma saída: ir para a praia, longe de Lisboa, “era época dos banhos”. E ficamos assim combinados, disse o Neto ao chegar em casa, “para evitar falatórios, que vamos passar o verão à Ericeira” (Queirós, 1981:57-9).

No dia seguinte “ao do vago suspiro”, os dois sócios encontram-se em Alves & Cia. “— Depois do que se passou ontem, não podemos continuar a ser amigos”, disse Godofredo. “— Infelizmente, infelizmente”, retrucou Machado. “— A sua infâmia não tem nome! (...) — E pelas minhas costas, o senhor que faz? Desonra-me!”, continuou Godofredo. “— Sei tudo isso (...) e estou pronto a dar-lhe todas as reparações, todas, quaisquer que sejam”, replica Machado. E Godofredo, exaltando-se, diz: “— A reparação é só esta: um de nós tem de morrer (...) Um duelo é absurdo (...) Tiremos a sorte qual de nós se há-de matar!” (Queirós, 1981:77-9).

Machado achou ridícula a idéia de tirarem a sorte a respeito do suicídio e fez a seguinte proposta: “— Eu estou pronto a dar-lhe todas as reparações, e com todo o meu sangue (...) mas há-de ser dum modo sensato e regular, com quatro testemunhas, à espada ou à pistola, como desejar, a que distância entender, um duelo de morte; tudo o que quiser; estou às suas ordens. Hoje todo o dia, amanhã todo o dia, lá espero, em minha casa. Mas com idéias de doido não me entendo (...) E não temos mais que conversar!” (Queirós, 1981:81).

Godofredo foi à procura do amigo Carvalho, a quem contou, em detalhes, o ocorrido. Em seguida, foram à casa do “Teles Medeiros, homem de fortuna e sociedade, que tinha panóplias de floretes na sala e a experiência do ponto de honra”. Quando chegaram à casa do Teles, diz o Carvalho: “— Nós vimos aqui para um negócio muito grave”. Mas, naquele preciso momento, o Medeiros estava preocupado se já havia chegado uma carta para ele naquela manhã. O criado a trouxe e o Teles, aliviado, comentou: “— Caramba, ia sendo ontem apanhado. Por um segundo (...) E se o marido entra na cozinha, que é logo ao lado da porta, lá se ia tudo quanto Marta fiou! Irra, que não ganhei para o susto! (...) — Pois é por uma coisa dessas que nós cá vimos”, falou o Carvalho olhando para o Godofredo. E os dois contaram toda a história, iniciando com “— Foi ontem. Apanhei a Ludovina com o Machado” (Queirós, 1981:84 e 95-7). Um terceiro já estava sabendo, o falatório já estava a caminho.

Medeiros, o experiente, comenta: “(...) nunca com a mulher dum amigo íntimo, e de mais a mais, dum sócio (...) — Isto pede sangue”. Depois de confabularem, resolveram, o Carvalho e o Medeiros, procurar outras duas testemunhas: “o Nunes Vidal (...), rapaz de experiência em coisas de honra, e o Cunha, o Albertinho Cunha”, bom comparsa, parceiro do Nunes. O falatório ampliava-se. As quatro testemunhas reuniram-se na casa do Medeiros para discutirem o duelo. Após longa e alegre discussão, chamaram o Godofredo, que estava numa sala ao lado, e o Medeiros sentenciou: “— Tudo resolvido (...) Está tudo decidido (...) Não te bates. (...) Tudo tinha de ficar na mesma. Era o bom senso” (Queirós, 1981:99, 106 e 120). Não há necessidade de mortes: ou pela sorte, suicídio, idéia original de Godofredo; ou por duelo, como propôs Machado.

Depois de explicarem ao Godofredo o que tinham discutido, Medeiros sentencia “— não há motivo para que interrompam as relações comerciais”. Godofredo retruca: “— Então há-de amanhã entrar-me pelo escritório?” E Medeiros complementa, apontando a seguinte tática: o Machado escreve-te uma carta alegando problemas pessoais, pedindo que cuides do negócio, e viaja; os empregados tomam conhecimento; ele retorna “ao fim dum ou dois meses” e “— Tapas assim a boca do mundo — disse Carvalho. — Salvas-te do ridículo — acrescentou Medeiros. — Manténs a firma intacta e unida (...) — Livras tua mulher de má fama (...) — Conservas um sócio inteligente e trabalhador. — E talvez um amigo! [complementaram os demais]” (Queirós, 1981:124-5).

Passadas algumas semanas, retornava o Machado ao escritório da rua dos Douradores e à rotina funcional. Os Neto também já haviam regressado dos banhos, de Ericeira. Mais uma vez o velho Neto achou uma maneira de tirar dinheiro do ex-genro. “Disse que refletira muito e que estava disposto a ir fazer com a filha uma viajada até o Minho (...) para evitar palavrórios!” Godofredo ficou irritado com mais essa investida do sogro e respondeu: “— Mas não há de ser a minha custa!” (Queirós, 1981:141).

A casa estava um pandemônio, as criadas não davam a mínima. Como a Lulu fazia falta. Godofredo passou a sentir saudades e procurá-la pelas ruas: largo do Carmo, Rossio, Chiado... Um dia, sem querer querendo, encontra Ludovina, conversam. Ele diz dos problemas que tem em casa, da roupa mal lavada e passada, da comida sem gosto, desleixo total. Lulu, compungida com a situação e lembrando-se da vida que levava antes do dia do “vago suspiro”, do “garganteio muito leve”, retorna ao convívio do lar, àquele homem a quem tocava ao piano, após o jantar, Souvenir d’Andalouise. Foram passar uns dias em Sintra, uma segunda lua-de-mel. Voltaram a freqüentar o São Carlos quando, numa “dessas noites, cantava-se a Africana” e, ao saírem do teatro, “de repente apareceu o Machado”. Civilizados, cumprimentaram-se: “olá Machado, boas noites” (Queirós, 1981:149). No dia seguinte, em Alves & Cia., os sócios comentaram o que viram e ouviram no São Carlos, as férias em Sintra etc. 

“De novo a vida continuou, banal e corrida, como ela é.” Morreu a mãe do Machado; o Neto, de apoplexia, dentro de um autocarro. Machado casou com Catanhede, que faleceu ao fim de um ano. Voltou a casar com uma viúva. “Mas há quanto tempo isso vai!” Godofredo, ao lembrar-se do passado, do caso “que quase o deitou por terra”, que quase o levou à falência, extraiu “a sua filosofia” de vida e, como “ele diz muitas vezes ao Machado: — que coisa prudente é a prudência!” (Queirós, 1981:165 e 167-8).

“E agora ali estavam (...) lado a lado, honrados, serenos, felizes, envelhecendo de camaradagem no meio da riqueza e da paz. 

As vezes, pensando nisto, Alves não pode deixar de sorrir com satisfação. Bate então no ombro do amigo, lembra-lhe o passado, diz-lhe com um sorriso:

— E nós que estivemos para nos bater!

E o outro responde, sorrindo também: — Por causa de uma grande tolice, Alves amigo!” (Queirós, 1981:169).


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Fonte:
Fernando G. Tenório (Professor da EBAP/FGV, coordenador do Programa de Estudos em Gestão Social e membro 
do Comitê Técnico do Programa Gestão Pública e Cidadania da EAESP/FGV-Fundação Ford-BNDES).: “Aliança e parceria: uma estratégia em Alves & Cia”, disponível em: http://bibliotecadigital.fgv.br/site/

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