Mostrando postagens com marcador Poesia. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Poesia. Mostrar todas as postagens

11/06/2016

Versos (Poesia),de Bulhão Pato


Para baixar o livro gratuitamente, clique na imagem e selecione-o em: 
↓
---
Disponível provisoriamente em "Google Drive", no link abaixo:
↓




---

Feliz de amor!

Não sabes que ao ver-te triste,
E pensativa a meu lado,
O rosto na mão firmado.
E os olhos postos no chão,
Calado, ansioso, anelante,
Quero ler no teu semblante
A causa da dor constante
Que te oprime o coração?

Pois não basta o meu amor
Para te dar a ventura?
Responde: quando a luz pura
Do sol vem beijar a flor,
Não lhe acende mais a cor?
Não lhe dá mais formosura?

Agora, quando se inflama
Em teu peito aquela chama,
À qual tudo se ilumina
De viva, encantada luz,
Dize: é quando, minha vida,
Pálida, triste, abatida,
A tua fronte se inclina,
E melancólica sombra,
De mal contida amargura
Nos teus olhos se traduz?!

Certeza de que és amada
Com quanto poder na terra
Em peito de homem se encerra,
Tem-la em tua alma gravada!
Então de fundo desgosto
Porque vem nuvem pesada
Carregar teu belo rosto?

Pois se ao vívido calor
Do sol a rosa fulgura
E redobra aroma e cor,
Não te há de dar a ventura
A chama do meu amor?!

Maio de 1859.

05/06/2016

Musa Velha, de Francisco Palha

Para baixar o livro gratuitamente, clique na imagem e selecione-o em: 
↓
---
Disponível provisoriamente em "Google Drive", no link abaixo:
↓



---

Francisco Palha

Francisco Palha (1824-1890) foi uma figura incontornável do panorama teatral português do terceiro quartel do século XIX, associado a diversas funções: dramaturgo, empresário, comissário régio. De facto, ele é nomeado comissário do Teatro de D. Maria II, junto com um novo director de cena e ensaiador, João Pinto Carneiro, em substituição de Silva Abranches (cf. RS 25.3.1862). Pela ocasião em que Francisco Palha publica o livro de poemas Musa velha (1883), Júlio César Machado escreve um folhetim sobre o autor. Descreve-o como tendo por habilidade principal fazer rir o espectador ou o leitor, usando nos seus escritos diferentes estilos que confundem os críticos. Em termos pessoais, considera-o honesto e aplicado no trabalho: “Endividado nuns contitos de réis com a malograda tentativa da empresa da Rua dos Condes, por ocasião de se construir o Teatro da Trindade, pagou-os até o último real sem descansar e pontualmente” (RS 29.9.1883).

[...]
Nos anos 1850/1860, Francisco Palha foi um dos mais populares dramaturgos no género cómico em Portugal. Machado testemunha-o num folhetim de 9 de Setembro de 1854, dedicado às obras daquele autor. A paródia Fábia, com largo número de récitas, foi a que lhe deu maior notoriedade. Aliás, Machado considera mesmo que a peça inaugura este género entre nós. Ela é uma “caricatura à tragédia, traçada naquele estilo chistoso em que o disparate é como a primeira condição”. Seguiu-se-lhe, no repertório do autor, O andador de almas, que Machado procura defender das acusações de imitação e mesmo de plagiato (de El sacristán de San Lorenzo) que lhe foram endereçadas. O certo é que o modelo espanhol era o preferido de Francisco Palha, e logo de seguida o mesmo autor constrói Atrás de uma mulher, imitando uma peça de Luis de Olona. Machado, embora notando várias vezes a excessiva dependência da nossa literatura dramática em relação à francesa, 112 considera injusta a prioridade do teatro espanhol sobre o francês. E justifica-se: “É desistir do espírito fino, natural e fluente! (…) é preciso ver que a Espanha dormiu durante um século, e que o seu teatro está hoje reduzido, para a obra penosa da sua educação social, a contentar-se de traduzir e arreglar as peças francesas, desde a alta tragédia até ao vaudeville insignificante” (RS 9.9.1854). Como o nosso estava, portanto.



---
Fonte:
Licínia Rodrigues Ferreira: "Júlio César Machado Cronista de Teatro: Os Folhetins d’A Revolução de Setembro e do Diário de Notícias". (Dissertação de Mestrado orientada pelo Professor Doutor José Camões. Universidade de Lisboa - Faculdade de Letras). Lisboa, 2011.

Miragaia, de Almeida Garrett

Para baixar o livro gratuitamente, clique na imagem e selecione-o em: 
↓
---
Disponível provisoriamente em "Google Drive", no link abaixo:
↓



---

Que estranha forma de contar

Lembremos por ora, nos seus quadros mais significativos, o texto de Miragaia conforme a edição de 1853, procurando assinalar que cruzamentos das memórias anteriores se enxertam na organização das quatro cantigas do poema garretiano. Estando Dom Ramiro “bem ledo / com sua dama a folgar” é informado por um “perro bruxo judio” da formusura de Zara, “flor da beleza”, irmã do rei mouro Alboazar, pela qual se permite conquistar. Abandonando “a triste da rainha” Gaia, Ramiro vem “de cilada” além Douro e furta a bela moura, acolhendo-se com a mesma em Milhor, ao que Alboazar retalia determinando a captura da rainha cristã e levando-a para o seu castelo de Gaia. Conhecedor do rapto de sua esposa (ainda que o poema adiante informe que se haviam cumprido três anos sobre o rapto de Gaia), Dom Ramiro organiza a expedição de resgate, juntando seus homens em barcos “Douro acima a navegar [?], / a noite escura cerrada, / e eles mansinho a remar [!]”, e, aportando, toma as vestes de romeiro e acerca-se de uma fonte que mana na encosta do castelo mouro onde encontra uma”donzela” que vem a ser Peronela, criada, afinal, de Gaia. Ramiro coloca então na cântara de prata o anel que conforme as versões anteriores o revelará perante sua esposa, confiando a Peronela o transmitir a sua senhora da vontade de “um romeiro cristão / [que] lhe deseja falar / da parte de um que é já morto, / que morreu por seu pesar”. Ao beber da água, Gaia prova o anel de seu Ramiro e, neste passo, acautelando-se numa encenação de mistério que aliás já antes se confirma, quando o poema oculta o estratagema da buzina que Ramiro incumbe a seus homens, o contador opta por não revelar o reconhecimento de seu esposo pelo anel que este lhe faz chegar, adiando a tensão deste reencontro para o momento em que, sendo chamado à presença da rainha, Ramiro despe as vestes de romeiro e se revela:

“ - Minhas penas não são minhas,
Senão vossas, mal pesar!
Que uma rainha cristã
Feita moura vim achar...

- Romeiro, não tomeis cuita
Por quem não se quer cuitar:
Do que foi já me não lembro,
O que sou não me é dezar.

Deus terá dó da minha alma,
Que meu não foi o pecar;
E a esse traidor Ramiro
As contas lhe há-de tomar.

- Pois não espereis, senhora,
Por Deus, que pode tardar;
Dom Ramiro aqui o tendes,
Mandai-o já castigar.

Em pé está Dom Ramiro,
Já não há que disfarçar:
Aquelas barbas tão brancas
Caíram de um empuxar.”

Assaltada pelo desejo de vingança, e chegando o rei mouro ao castelo vindo da caça, Gaia indica a Ramiro um aposento anexo onde se esconder. Anunciando “grandes novas” a Alboazar, Gaia estende-lhe a chave do dito aposento, denunciando Ramiro. Confontado-se os reis mouro e cristão, Ramiro expõe a penitência que diz trazer encomendada por um santo confessor, ardil, ora, que lhe permitirá, executando-se a pena imposta, o acorrer de seus homens ao som da buzina, o assalto ao castelo mouro e o fender, de um só golpe, da cabeça de Alboazar. Estando tudo já “morto” ou “cativo”, “já o castelo está a queimar”, Ramiro e sua gente embarcam para além Douro, já que “daqui é moirama cerrada / até Coimbra e Tomar”, levando Ramiro a rainha à sua direita na galé real, “como quem a quer honrar”. Como esta não contivesse o choro, Ramiro sonda-lhe o motivo:


“Perguntas-me porque choro!...
Traidor rei, que hei-de eu chorar?
Que o não tenho nos meus braços,
Que a teu poder vim parar.
(...)
Se eu ali fui tão ditosa,
Se ali soube o que era amar,
Se ali me fica alma e vida...
Traidor rei, que hei-de eu mirar!”

Ao que Ramiro, sentenciando as palavras da rainha Gaia, prontamente a degola:

“Foi-lhe a cabeça de um talho;
E com o pé, sem olhar,
Borda fora empuxa o corpo...
O Douro que os leve ao mar.”

Do “estranho caso” terá feito memória a toponímia local, Gaia e Miragaia, que “ainda hoje está dizendo / na tradição popular / que o nome tam – Miragaia / daquele fatal mirar”.

Como Pidal acertadamente dá conta, o poema de Garrett segue na sua generalidade o roteiro narrativo do texto do Livro de Linhagens do Conde D. Pedro, corrigindo-lhe algum défice de poetização, e adicionando-lhe, como vimos (na encenação de Ramiro vestido de romeiro, no ocultar da combinação da buzina...), uma certa desenvoltura dramática que, de alguma forma, excede o horizonte de mistério que o contar oral do relato já por si suporia, conferindo-lhe (como atrás se disse a propósito do poema de D. Bernarda Ferreira de Lacerda) uma literatura avessa à singeleza da tradição popular, e que com maior clareza se nota, por exemplo, no lançamento, ora ponderado e de toada reflexiva, ora cénico, de cada uma das quatro cantigas – a segunda, sobretudo marcada por este interesse por imagens como que teatrais, com o espanto do contador ao indagar “Oh!..que barcos são aqueles / Douro acima a navegar?”. Se o poema parece tomar norte narrativo no relato longo do nobiliário do célebre filho bastardo de D. Dinis, certo é que dele diverge em momentos pontuais, tanto no que ao comportamento final de Ramiro diz respeito, como na correcção da legitimação toponímica final (Gaia onde Âncora), como também na invenção de um nome para a irmã moura – anónima, como atrás se disse, no relato do livro do Conde – e que vem a ser o nome que já D. Bernarda Ferreira de Lacerda lhe atribuíra no seu poema de Hespaña Libertada: Zara. Se no que toca à prioridade da toponímia local sobre a indicação etimológica do relato longo a mesma parece certificar a fidelidade à tradição oral gaiense que Garrett hasteia na nota introdutória ao poema como juízo preferencial sobre outros procedimentos, já o horizonte de reconciliação sugerido pelo comportamento final de Ramiro, ao levar Gaia à sua direita “como quem a quer honrar”, presta-se inevitavelmente à invocação, não exactamente de uma modulação do relato popular, mas das ternas imagens finais da versão breve do Livro Velho, quando Ramiro, seguro do arrependimento de sua esposa, adormece tranquilamente no seu regaço. Ora, Garrett prevenira na nota que introduz o poema que “o conde. D. Pedro e os cronistas velhos também fabulam cada um a seu modo sobre a legenda”, ainda que no respeita ao nobiliário velho muitas dúvidas se levantem quanto ao conhecimento de Garrett em relação ao seu texto à época de composição da sua Miragaia. Pidal conjecura, nesse sentido, a possível descendência do relato oral gaiense em relação ao Livro Velho, de forma a justificar a benevolência de Ramiro que Garrett acompanhará no seu poema:

“Esse relato local, que Garrett ouviu em criança a velhos e barbeiros do Porto, devia inspirar-se mais do que no livro do conde D. Pedro de Barcelos, noutro relato mais curto da lenda ramirense, incluído num nobiliário um tanto anterior ao do conde, pois nesse relato breve D. Ramiro confia também no arrependimento da rainha.” (Pidal, 1954: 72)

O Romance da Gaia de 1601, texto que, apesar da estilização literária a que o sujeita João Vaz, não deixa de inspirar, pela sua muito rudimentar montagem narrativa, a ideia de um tratamento popular anterior, e onde a toponímia final surge já associada ao imaginário gaiense, não partilha, porém, e antes pelo contrário, da benevolência do Ramiro do Livro Velho que Garrett retomará. O que, uma vez a muito provável proximidade entre o texto de João Vaz e um relato oral entre as gentes de Gaia nos séculos XVI e XVII, parece indiciar que este relato gaiense (que o menino Garrett conhecerá) não descenderá daquele a que se associara a versão breve do Livro Velho, ou que esse mesmo relato corria em versões algo distintas, o que, bem vendo, a sensibilidade e o interesse de cada contador poderiam perfeitamente justificar. No que se refere ao poema de João Vaz, Garrett comenta na cartaprefácio a Adosinda (1828), dirigida a Duarte Lessa, “aquele romancezinho de Gaia e do Rei Ramiro, que V. descobriu em Londres com o precioso achado dos papéis e livros do nosso infeliz Oliveira”; posteriormente, na nota I da reedição de 1853 do primeiro volume do Romanceiro, Garrett retoma tal interesse:

É um curioso e raríssimo exemplar, documento notável da literatura portuguesa do século dezassete. Intitula-se Gaia, e é impresso no Porto em um folheto de 4ª, com 15 ou 20 páginas. Tenho hoje grande pena de não ter tirado cópia inteira dele antes de o restituir ao meu amigo o Sr. Lessa, em cujo espólio deve estar: mas não pude obter mais notícias dele; e outro exemplar não o vi nem sei quem o visse. Começa com duas oitavas que agora encontro, incompletas, entre os meus apontamentos. Todo o poema é na mesma rima.

I
Cantemos de Ramiro rei d’Espanha
E de el-rei Almançor de Berberia,
Quando por desventura tão estranha,
No mais de Espanha então mouros havia
Com ânimo cruel, com cruel sanha
Cada qual ao outro pretendia
Privar de sua fama, honra e estado,
Com todas suas forças e cuidado
 II
Desse Ramiro, digo, o esforçado,
Que deste nome três com ele hão sido
Daquele que com Gaia foi casado
Por que tantos trabalhos há sofrido…”

Um “romancezinho” impresso no Porto, tendo-o sido primeiramente em Lisboa, que testemunhará, com toda a certeza, a filiação num relato oral já então perfeitamente coincidente com o imaginário popular gaiense, e que, se dele não se ocupou Garrett para a composição do seu Romanceiro, não deixa de confimar a antiguidade local do relato e, da mesma forma, de especular uma leitura que poderia pôr em causa – neste lance final do texto – a fidelidade do autor de Folhas Caídas em relação ao mesmo relato: isto é, pensar em que medida o investimento de um certo interesse literário na sua composição lhe poderia afinal resolver e hipotecar fragilidades e divergências facilitadas pela transmissão oral, democracia, a da insegurança narrativa do relato popular, que o registo escrito veta, e que a informação do final conforme o relato breve do Livro Velho poderia, por outro lado, justificar. A intenção de seguir “muito pontualmente a narrativa oral do povo”, de “ser fiel ao estilo, modos e tom de contar e cantar dele” não implica, com efeito, que Garrett recopilador não reconheça no relato um potencial literário que lhe venha a merecer um tratamento não exactamente de recolha e mero registo de matérias da tradição oral mas, sobre essa primeira instância, um mais ou menos discreto intento reinventivo de princípio literário – ainda que termine a nota introdutória a Miragaia com a desarmante ingenuidade já antes comentada: “Assim olho para esta pobre Miragaia como para um brinco meu de criança que me aparecesse agora; e quero-lhe – que mal há nisso? – quero-lhe como a tal”.

Sobremaneira interssante é a nomeação da irmã moura, Zara, que, salvo Garrett, só o poema de D. Bernarda Ferreira de Lacerda resgata do anonimato. Ora, não se conhecendo referência de Garrett ao poema de Hespaña Libertada, a possibilidade de uma maior permeabilidade do poema seiscentista em relação ao relato oral da época parece adquirir certa fundamentação e, neste caso, haveria que admitir que o nome Zahara, que o relato contemporâneo de Garrett já receberá actualizado, Zara, seria resultado de uma invenção popular de que D. Bernarda teria notícia à data de composição do seu poema. Por outro lado, e tendo em conta o horizonte sobretudo literário deste texto, o seu compromisso com uma lição textual bastante anterior (a do Livro de Linhagens do Conde D. Pedro), como que isolando-o da regeneração que o relato adquirira oralmente, poder-se-ia de igual forma resolver o interesse de D. Bernarda em oferecer à irmã moura outra presença que não aquela que o relato do nobiliário lhe concedia através, não do recurso a uma invenção de origem popular, mas da consulta de documentação genealógica das famílias árabes do tempo dos reinados ramirenses, o que lhe indicaria a existência, ao tempo de um Lovesendo Ramires, de uma Zaira Bint Zahadon, com a qual casará, matrimónio de que descenderá a família Maia. O mais certo que é que o relato escutado por Garrett em criança compreendesse já a nomeação da irmã moura, muito embora o Romance da Gaia de João Vaz, ao mantê-la no anonimato, pareça indicar que a mesma só surgirá já no século XVII e muito possivelmente a partir da própria informação do poema de D. Bernarda Ferreira de Lacerda, cenário que confirmaria, nestes dois livros do meio, uma importância decisiva naquela que vem a ser a gestão de memórias do recopilador oitocentista, Almeida Garrett, pela sua posição como que medial, mediadora entre a memória nobiliária e a invenção popular, tensão que o autor do Romanceiro não deixará de indiciar no seu poema, “brinco de criança”.

Eis pois uma Miragaia garretiana que se negoceia no relato popular da região de Gaia, que Garrett recupera de sua meninice, e que ao tempo do poema ainda se conserva na boca de “velhas e barbeiros do lugar”, que toma equilíbrio narrativo no relato longo do Livro de Linhagens do Conde D. Pedro de Barcelos, como que de forma a superar algum desajuste ou mutilação que a intriga do relato oral com efeito poderia permitir, e que, renunciando a esta mesma lição textual, prefere um desenlace em conformidade com a versão curta do Livro Velho, que Alexandre Herculano divulgará em 1856 nos “Scriptores” dos Portugaliae Monumenta Historica, e ao qual Garrett agradece no prefácio ao Romanceiro de 1843 o partilhar dos seus “preciosos achados, no seu incessante lavrar das minas arqueológicas”.

Estaria o Livro Velho entre estes preciosos achados compartidos com Garrett antes da sua edição em 1856? Que informação a do nome Zara? Apropriação pelo relato popular do século XVII da novidade do texto de D. Bernarda Ferreira de Lacerda?, invenção autónoma (e estranhamente aceitável22) deste relato oral?, ou investigação de Garrett no intuito de suprir uma lacuna deste último de forma a melhorar e embelezar o seu ambiente lírico? Estranha forma de contar, a de Garrett, investindo um seu romantismo na legitimação identitária e restauradora da literatura tradicional, tomando-a como memória prioritária na organização do Romanceiro, e que nesta sua tão querida Miragaia, uma das “primeiras coisas deste género em que [trabalhou]”, “a mais antiga reminiscência de poesia popular que [lhe] ficou da infância”, parece como que inventar essa mesma prioridade romanesca na condução do poema, dandolhe literatura e armando-lhe uma singeleza dificilmente populares – a um poema, como vimos, privado do seu lugar na primeira colecção do Romanceiro.

---
Fonte:

Hugo M. Milhanas Machado: "Que estranha forma de contar" (apontamentos na Miragaia de Garrett, nos livros de linhagens e nos livros do meio). Publicado em “Estudios Portugueses 6 – Revista de Filología Portuguesa”. Universidad de Salamanca, 2006. Disponível em: http://cvc.instituto-camoes.pt/

04/06/2016

Plectros e outros poemas, de Ibrantina Cardona

Para baixar o livro gratuitamente, clique na imagem e selecione-o em: 
↓
---
Disponível provisoriamente em "Google Drive", no link abaixo:
↓


---

Ave Maria

Tarde de Agosto. Ao longe, o horizonte esmorece
na agonia do sol; e sobre a terra ungida
de tristeza se estende o crepúsculo. Desce
silente a noite; cessa o bulício da rida.

Num mórbido langor, toda terra abatida
parece meditar; aos poucos, se entristece
a humanidade. Paira em tudo a indefinida
mudez, e, em misticismo envolta, sebe a prece.

Das nuvens através, lua religiosa
espia... Há pelo espaço angústias de noivado...
Há saudades da amante ausente e lacrimosa...

E o "Angelus" austero ecoa, compassado
como um dobre de morto; ecoa... e, suspirosa,

minh’alma se ajoelha ante o altar do passado...

29/05/2016

Emoções secretas (Poesia), de Sarah de Tobias


Para baixar o livro gratuitamente, clique na imagem e selecione-o em: 
↓
---
Disponível provisoriamente em "Google Drive", no link abaixo:
↓



---



Freira

À meia luz da semiobscuridade,
Onde domo o furor dos meus impulsos,
Sinto horror e repilo a virgindade
E o triste manto que me algema os pulsos.

Envergonha-me a falsa castidade,
Amo, os ímpetos lúbricos, convulsos,
A alvorada da minha mocidade,
Os desejos insanos e propulsos...

Amo, os rutilos sonhos de ventura,
A violenta emoção do meu delírio
E o pecado que afaga e que tortura...

Mas odeio e maldigo este convento,
Onde vivo carpindo o meu martírio
E abafando o meu próprio sentimento.

28/05/2016

Plumas e espinhos (Poemas), de Leonor Posada

Para baixar o livro gratuitamente, clique na imagem e selecione-o em: 
↓
---
Disponível provisoriamente em "Google Drive", no link abaixo:
↓



---

Esfinge

Mergulho o meu olhar em teu olhar. Indago
o que tua alma diz nessas vagas tranquilas:
e busco compreender, procurando senti-las,
todo o mal que receio e todo o bem que afago...

Quantas vezes, a rir, nos raios que acutilas,
de duvida me encheste o coração presago!
Mas também, quanta vez, no mar em que naufrago,
me veio a salvação dessas doces pupilas.

Cruel enigma és tu! Esfinge indecifrável!
Ora frio no olhar, ora brando, amorável,
quando é que chegarei teus estos desvendar?

— Muito breve, talvez, ou talvez negativa;
ah! quem pôde saber dessa força, que é a viva
inconstância do céu e inconstância do mar?...

26/05/2016

Visões e Sombras, de Carmem Freire (Baronesa de Mamanguape)


Para baixar o livro gratuitamente, clique na imagem e selecione-o em: 
↓
---
Disponível provisoriamente em "Google Drive", no link abaixo:
↓



---


NO DESERTO

Esperar?... para quê? Com o sol expira
A esperança que tínhamos no dia,
E é tão longa, tão lôbrega, tão fria
A noite em que a alma incrédula suspira!

O desengano toda a fé retira
Dos corações, enchendo-os de agonia...
Bendito aquele que inda se alumia
Da crença a doce e perfumada pira.

Passam-se os dias, para o céu levanto
Os olhos cheias da maior tristeza
E as minhas preces úmidas de pranto

Mas a voz do infeliz tem tais raízes
Que, dentro da garganta fica presa,

E Deus escuta apenas os felizes.

30/01/2016

Fragmentos de uma aurora (Poesia), de Christian Dancini


Para baixar o livro gratuitamente, clique na imagem e selecione-o em: 
↓
---
Disponível provisoriamente em "GoogleDrive", no link abaixo:
↓



---

XX
A poesia não está nas palavras
mas no silêncio entre elas...

Deixe-se levar pelo gosto das cores
pelo silêncio nas melodias
pelo sangue das sílabas
feche os olhos, ouça o vento
feche os olhos, enlouqueça
ofusque o brilho exato da existência
cavalgue nas estrelas
rompa o vazio do universo
esqueça seu nome, enlouqueça
veja o brilho de cada pessoa
cada garoto, cada garota que passa
mate o tempo, crucifique seu corpo
nós somos o tempo, nós somos a carne
e nós passaremos e dançaremos
pela Eternidade que nos espera
somos fragmentos de uma aurora
fragmentos da existência
de uma vida eterna e inacabada.


[Trecho do livro]

26/12/2015

Livro do coração e das nuvens sobre o oásis (Poemas), de Manuel Neto dos Santos

Para baixar o livro, clique na imagem e selecione-o em: 
↓
http://www.projetolivrolivre.com/
---
Disponível também em "GoogleDrive", no link abaixo:
↓


----


Para Sandra Dias

Inclinado sobre o caderno, o poeta contempla o breve repouso das frases perante a luz monótona dos dias indistintos, como são indistintos e dispersos os ferimentos da alma, ainda por cicatrizar; como um calafrio perante a lâmina reluzente, fora da bainha. Este é o lugar por onde o último alento vislumbra uma tímida esperança, para que possa volver o terno olhar sobre a terra da translúcida neblina.
Neste instante, inclinado sobre o caderno, o poeta rodeia-se de sons como se fossem frutos maduros para que a voz se vá escapulindo entre as grades das cordas vocais e do meio da cinza do silêncio se inscreva e emerja a sonoridade do poema.
Faça-se, pois, silêncio em minha alma com esse desapego de um cristal embaciado pelo último suspiro e aconteçam tréguas dentro em mim, como fragmentos de horizontes sanguíneos sobre a tela de uma folha em branco.
Inclinado sobre o caderno, o poeta estanca as imprecisões dos espaços por entre os escombros da alegria e dos assombrados delírios a lembrar derrocadas e estilhaços perturbando a quietude dos lagos…
E o poeta ergue-se, como coluna, e na busca interior, pela solidão das palavras, depara-se consigo mesmo, como angústia embaciada, sobre o espelho.



Salvè, templos imemoráveis da longa frescura, quando o pensamento deslizava sobre a face da ribeira, verdenho como jade e tal breve quanto o olhar.
Eis-me regressado, por dentro, nos sísmicos segredos, para que a terra se rasgue num vulcão menstruado estremecendo as águas do silêncio.
Salvè, templos imemoráveis da longa frescura pois que ainda me visto de azul pálido e de branco par que apele mourisca se ostente mais terrosa, posto que há vendavais dentro de mim que me quebram os mastros e a madeira, por dentro, cheira aos boquejos do Verão e ao perfume, inexistente, da rosa.


[Livro do coração e das nuvens sobre o oásis]

25/12/2015

Breves notícias do silêncio (Poemas), de Manuel Neto dos Santos

Para baixar o livro, clique na imagem e selecione-o em: 
↓
http://www.projetolivrolivre.com/
---
Disponível também em "GoogleDrive", no link abaixo:
↓



---

ANUNCIAÇÃO

O lugar da Mãe é sempre no trono da alma e da memória. Mesmo quando o corpo se ausenta de nós, o azul esverdeado dos seus olhos rumoreja no lago mais plácido que possamos imaginar.

O lugar da Mãe é sempre na muralha centenária que nos vislumbra o futuro, na alfombra dos vales e das encostas até onde se diluem na placidez da aguarela de um céu, no letárgico momento do adormecer da tarde.


O lugar da Mãe… é, sempre, nos meus versos, na esperança- quem sabe- de um dia poder com ela, do trono da muralha, a eternidade contemplar.

[Breves Notícias do Silêncio]

Fíbula (Poesia), de Manuel Neto dos Santos

Para baixar o livro, clique na imagem e selecione-o em: 
↓
http://www.projetolivrolivre.com/
---
Disponível também em "GoogleDrive", no link abaixo:
↓



---


Vou, pela epiderme das carícias, ao longo dos teus desfiladeiros para romper as fronteiras do teu medo e entrar, por ti, como enxurrada que viesse dizer a inclinação das montanhas em degelo. Não há nada mais profundo do que a pele, mesmo que os dias desabitados transcrevam, de repente, os olhos para o abismo amoroso e as luzes, escancaradas de penumbra, de mansinho, como de mansinho chegavam os teus passos para os mornos serpenteados dos dedos que me descreviam meu próprio corpo.

Não há nada mais profundo do que a pele, pois que a visão excessiva de ti me pede para que escreva e eu… escrevo, porque ao escrever digo “ergo sum”; logo existo, na sofreguidão compulsiva da hegemonia das formas, esse caminho que me leva ao universo. Escrevo a pele, num apelo da linguagem através da paisagem de luz solar e jovem. Escrevo, para que o corpo metafísico das palavras, lisas como seixos e rugosas como valados de infância, deem aos meus versos, sobre a folha ressequida, a pele da eternidade, tal como, do pátrio céu… as nuvens chovem.

[Fíbula]

24/12/2015

Círculo de fogo (Poema), de Manuel Neto dos Santos

Para baixar o livro, clique na imagem e selecione-o em: 
↓
http://www.projetolivrolivre.com/
---
Disponível também em "GoogleDrive", no link abaixo:
↓



---


Disperso, deserdei um remoinho austero
e o que antes foi caminho...
caminho já não quero
Partida na quebrada
deste quebranto imenso
se penso não sou nada
se não... não sei se penso
Sou de tal modo não
que, por não ser, me busco
e apedrejo o clarão
que chega ao lusco-fusco.
Quem fica não sou eu
quem parte ainda menos
sou os breves, serenos,
momentos de aflição
Por isso, anda a má-língua
a chamar-me “poeta”...
só que uma Boa Língua
de mim é predileta
Disperso, deserdei, da vida, tanta coisa...
Hoje, se sei... não sei
que alma não me poisa.

(Círculo de fogo)

Aurora boreal ao sul (Poesia), de Manuel Neto dos Santos

Para baixar o livro, clique na imagem e selecione-o em: 
↓
http://www.projetolivrolivre.com/
---
Disponível também em "GoogleDrive", no link abaixo:
↓



---


7
Suspendessem todos os pássaros o vôo prometido...
Regressassem à nascente todos os rios...
Suspirassem todos os vendavais...
E dir-te-ia que não te amo.
Ris-te?
Por ti, todas as metáforas
Nunca serão demais.

(Aurora Boreal do sul)

23/12/2015

"Há uma gota de sangue em cada poema", de Mário de Andrade

Para baixar o livro, clique na imagem e selecione-o em: 
↓
http://www.projetolivrolivre.com/
---
Disponível também em "GoogleDrive", no link abaixo:
↓


---

HÁ UMA GOTA DE SANGUE EM CADA POEMA

Sabe-se que os ritos mágico-religiosos são precedidos de práticas, também rituais, que preparam o homem para a entrada no domínio do sagrado. Como se o iniciasse em um rito, Há uma gota de sangue em cada poema impõe ao leitor uma série de textos preliminares, que o aprontam para a leitura da obra propriamente dita. Antes de chegar aos poemas do livro, deve o leitor “passar” – trata-se, mesmo, de uma série de passagens – por um título singularmente explicativo, por uma biografia do autor em  verso, por uma explicação, em prosa, das razões que levaram o poeta a escrever e a publicar o livro e, finalmente, por um prefácio em forma de soneto. A sucessão de introduções, excessiva mesmo para um livro de estréia, ou para uma “obra imatura”, em que se compreende a intenção do autor de apresentar a si e a seu trabalho, exige que o leitor se demore no limiar da obra, como se penetrasse um templo, o que confere um caráter particularmente solene à entrada de Há uma gota de sangue em cada poema. Na medida em que obriga o leitor a realizar uma seqüência de paradas iniciáticas, a deter-se em sucessivas estações preparatórias, o conjunto de preâmbulos torna cerimonial a  leitura, ao mesmo tempo em que realça a estrutura ritual da composição do livro. Como se verá, Há uma gota de sangue tem, na liturgia católica, especialmente na missa, um de seus modelos compositivos fundamentais.

[...]

Voltando a Há uma gota de sangue em cada poema, sugerimos que, do rito que a obra dramatiza, o título do livro, a “Explicação”, a “Biografia” e o “Prefácio” constituem uma fase preliminar de preparação, funcionando como ritos de entrada, ou ritos de limiar. Além da quantidade superior à usual, o próprio teor desses preâmbulos assemelha-se ao das práticas rituais que antecedem as cerimônias mágico-religiosas: neles, o autor sucessivamente faz uma profissão de fé, profere uma encantação mágica propiciatória e transmite ao leitor, como se o iniciasse nos mistérios do livro que está prestes a ler, conhecimentos essenciais sobre a natureza, as origens e as finalidades da obra. A solenidade de que esses textos se revestem – o título, por exemplo, é um verso dodecassílabo e o prefácio, um soneto em decassílabos predominantemente heróicos –, completa a feição litúrgica do pequeno conjunto.

Desde sua abertura, portanto, Há uma gota de sangue em cada poema demanda que o ato de ler se transfigure em participação ritualística. As implicações dessa exigência, como se pode imaginar, não são pequenas. Colhido no processo de absorção ritual imposto pela obra, o leitor é induzido, como qualquer indivíduo que ingressa na  jurisdição do sagrado, a perder suas características específicas e a dissolver-se na “obscura indivisão do princípio religioso venerado sob o nome de mana”. A distância entre o leitor e a obra deve converter-se em uma forma ambígua de identificação – característica da experiência humana do sagrado –, que estranhamente encerra a alteridade e a identidade ao mesmo tempo. Por sua vez, a reflexão, própria da leitura, transmuda-se na mimese, própria dos ritos. Nestes, como se sabe, o indivíduo deve identificar-se com o que é absolutamente outro, ou seja, com os próprios deuses cujos atos o rito reatualiza – o rito, antes de tudo, é uma imitatio dei. Dessa forma, em Há uma gota de sangue em cada poema, o “contrato de leitura” sofre uma alteração que José Antonio Pasta Júnior tem demonstrado ser freqüente na literatura brasileira: “o ‘contrato de leitura’ – que preserva a distinção das partes em jogo mesmo no mais aceso dos processos identificatórios – duplica-se no caráter fusional do pacto – que por definição supõe um comprometimento dos limites subjetivos”. No limite, portanto, como uma verdadeira iniciação, o conjunto de prelúdios de Há uma gota de sangue estabelece, como condição de leitura da obra, a própria morte do leitor.

Sendo assim, considerando-se que a seqüência de introduções ao livro tem a função de instruir e de preparar o leitor para a leitura da obra – em outras palavras, tendo em vista que toda iniciação é um processo peculiar de formação –, pode-se afirmar, ainda com base nos estudos de Pasta Júnior sobre o romance brasileiro, que Há uma gota de sangue em cada poema “forma o leitor pela sua supressão”. Por um lado, em sua quantidade excessiva e em seu teor formativo, o grupo de preâmbulos do livro solicita e constitui, exageradamente inclusive, a instância do leitor. Por outro, contudo, justamente o número excessivo e a feição iniciática desses textos, uma vez que conferem um caráter ritual à entrada da obra, levam a constituição do leitor a dar-se, paradoxalmente, por meio de sua dissolução. Conforme explica Pasta Júnior, a natureza dessa estranha operação, “que ao mesmo tempo supõe o lugar do outro e o anula”, é contraditória e ruinosa: “num só e mesmo gesto de palavra, a obra produz ou institui seu leitor e, ao mesmo tempo, o suprime ou devora”. Chamado a tomar parte no rito que o livro põe em prática, o leitor de Há uma gota de sangue em cada poema deve, portanto, sujeitar-se a um regime funesto, segundo o qual ele “vem a ser no e pelo movimento mesmo em que deixa de ser”.

Nos pactos de limiar, aquele que deseja entrar, ou seja, atravessar a porta de entrada de uma casa ou de um templo, deve sacrificar, no limiar dessas edificações, um animal ou um homem aos donos da casa, aos deuses do templo – o sacrifício é o ato por excelência desses ritos de entrada. No “pacto” que Há uma gota de sangue em cada poema impõe logo em sua “porta de entrada”, ou seja, em seus preâmbulos, essa lógica de base dos pactos de limiar, como tudo em Mário de Andrade, é levada ao limite de  suas possibilidades de significação. Para penetrar a obra, deve no limiar desta o leitor consentir, religiosamente, em sacrificar-se a si mesmo. Nesse ato extremo, o leitor concelebra o ritual que a própria obra intensamente encena: sem risco de exagero, conforme se verá, pode-se dizer que Há uma gota de sangue em cada poema constitui-se como um grande rito sacrificial oficiado pelo escritor, em que o eu-lírico se oferece como vítima expiatória.


A imolação do eu-lírico, núcleo da obra, aparece sob a forma de um sinal gráfico, quase um ícone, logo na capa da primeira edição do livro. Com efeito, concebida por Mário de Andrade, a diagramação original de Há uma gota de sangue, que não foi preservada nas edições posteriores do livro, é uma dimensão significativa da obra, onde certas tendências profundas desta última encontram a sua consumação – em especial, como se verá, a propensão de Há uma gota à supressão de mediações que constituem a literatura, como as mediações entre o eu-lírico e a linguagem, entre a linguagem e os objetos que ela representa, entre a obra e o leitor etc. Na capa, associados à linguagem, os elementos gráficos revelam o sentido íntimo da obra, ou o ato fundador da composição do livro: o sacrifício do eu-lírico. No canto superior direito da página, encontra-se o nome do autor, em verdade um pseudônimo, impresso em negro, como de hábito: MÁRIO SOBRAL. Do sobrenome, escorre uma gota de sangue, em vermelho naturalmente:
Além de corresponder à timidez do escritor, confessada no poema que abre o livro, e a uma prática comum dos poetas de todos os tempos, a utilização do pseudônimo em Há uma gota de sangue participa, por si mesma, da estrutura sacrificial que organiza a obra. Segundo a lógica do sacrifício, a vítima substitui o sacrificante, ou seja, a comunidade ou o indivíduo que esperam ser resgatados por meio da imolação. Ora, o eu-lírico de Há uma gota, que se oferece em sacrifício para salvar a humanidade, substituindo-a na expiação da violência praticada na guerra mundial, é também um substituto do próprio escritor, o que se evidencia quando este se apresenta sob a forma do pseudônimo. No sacrifício, a substituição somente acontece quando a vítima é ao mesmo tempo idêntica ao sacrificante e distinta dele: “Para que a vítima possa polarizar e purgar as paixões, é necessário que seja semelhante a todos os da comunidade e ao mesmo tempo dessemelhante, simultaneamente próxima e longínqüa, a mesma e a outra, o duplo e a Diferença”. A vítima pertence, portanto, ao interior e ao exterior da sociedade, ela está dentro e fora desta; está, em suma, na margem. Como se verá, essa é a condição do eu-lírico de Há uma gota em relação aos homens que ele pretende redimir, isto é, à civilização ocidental devastada pela Primeira Guerra: ele pertence e não pertence ao Ocidente, participa e não participa dos combates – ele se encontra, em síntese, na periferia do sistema capitalista. Note-se, entretanto, por ora, que o eu-lírico, em seu nome, Mário Sobral, encontra-se em situação parecida em relação ao autor do livro: ele é o mesmo – Mário – e o outro do escritor; ele é e não é Mário de Andrade, constituindo-se, assim, como uma espécie de mediação ambígua ou precária – ou  melhor, constituindo-se e não se constituindo como instância mediadora. Noutro termos, se por um lado o pseudônimo representa uma mediação a mais entre o autor e o eu-lírico, por outro ele sugere, em Há uma gota de sangue, a supressão da mediação que o eu-lírico costuma ser em poesia. Não raro, a lírica de Mário procura instaurar uma passagem contínua – isto é, não mediada – do escritor para o eu-lírico, deste para o  poema e do poema para o leitor.

Segundo a boa teoria, contigüidades dessa ordem são características do esquema sacrificial, em que uma série de identificações sucessivas se estabelece entre o sacrificante, o sacrificador (o oficiante), a vítima e a divindade; ao mesmo tempo,  contudo, o sacrifício confirma a diferença existente entre os atores que o encenam – caso contrário, o sacerdote e o sacrificante pereceriam com a vítima. Todo sacrifício, portanto, ratifica a diferença entre o sagrado e o profano; não obstante, todo sacrifício suprime a diferença entre o sagrado e o profano. Em outras palavras, o sacrifício diferencia e identifica, ele institui, simultaneamente, a diferença e a identidade entre o mesmo e o outro: “o sacrifício é o operador da diferenciação universal, ao mesmo tempo em que, no mesmo movimento, ele suprime toda diferenciação”. No rito que se dramatiza em Há uma gota de sangue, vimos, o oficiante e a vítima, isto é, o escritor e o eu-lírico, são justamente idênticos e distintos, duplicidade que se manifesta no pseudônimo escolhido pelo autor.

Não por acaso, a gota de sangue ilustrada na capa do livro escorre do sobrenome SOBRAL, ou seja, do nome que diferencia o eu-lírico do escritor. O eu-lírico é a vítima sacrificial em Há uma gota de sangue em cada poema; autor e leitor, como se verá, compartilham seu destino funesto, mas em função dos desdobramentos e das contaminações simbólicas do sistema do sacrifício – a vítima expiatória, a rigor, é apenas o eu-lírico. Sua imolação é realizada no limiar da obra – na capa do livro –, como de regra nos rituais mágico-religiosos primitivos. Uma vez que o sacrifício é a operação suprema que permite realizar a passagem do profano no sagrado e vice-versa, pode-se afirmar que o limiar e o sacrifício têm, por assim dizer, afinidades profundas: o limiar é o lugar privilegiado da execução sacrificial; esta, por sua vez, consiste no ato principal dos ritos de limiar. Não é à toa que o Cristo, a vítima expiatória por excelência, teria afirmado, segundo João, “Eu sou a porta”. O limiar, noutros termos, é o mais antigo altar; nele, o eu-lírico de Há uma gota de sangue é sacrificado em nome da humanidade, convulsionada pela Primeira Grande Guerra.

A imolação, contudo, não costuma bastar nos rituais de entrada no espaço sagrado. Para completar o rito, deve-se verter o sangue da vítima sobre o limiar ou mesmo marcar o limiar com o sangue da vítima. A marca de sangue é o signo da união, consumada no sacrifício, entre o profano e o sagrado, entre quem entra e quem reside no interior. Atravessar o limiar marcado com sangue significa ratificar um pacto com o divino: ao virar a página de capa de Há uma gota, na qual se encontra impressa a marca do sangue do eu-lírico imolado, o leitor confirma um pacto mortal com a obra que ele “adentra”. Vimos com José Antonio Pasta Jr. que a figura do pacto distingue-se do modelo do contrato, uma vez que, por definição, ela compromete a distância entre as partes que o celebram, ou seja, uma vez que ela tem um caráter fusional. Nessa linha, o pacto que Há uma gota de sangue estende ao leitor é aquele em que a comunhão dos pactários é absoluta, o pacto de sangue. Este, escreve Trumbull, autor de um longo estudo sobre o assunto, “forma a mais íntima, sagrada e indissolúvel aliança que se pode conceber. O pacto de sangue envolve a entrega absoluta do ser separado e uma fusão irrevogável da natureza individual com o outro incluído no pacto”. “O sangue é um extrato muito especial”, diz Mefistófeles, ao comunicar a Fausto que ao sábio basta assinar o contrato entre ambos com uma gota de sangue, para que o acordo seja firmado. Nesse contexto, o sangue não é reconhecido apenas como uma substância essencial à vida ou que representa a vida, mas como a vida mesma; o sangue carrega a vida, de modo que sua efusão em um pacto significa a entrega da própria vida ao outro. Com efeito, o pacto de sangue, em sua forma extrema, “não pode consumar-se sem a morte de quem pactua”. Vida em troca de vida, eis a divisa do pacto de sangue, na qual o leitor terá reconhecido o princípio do sacrifício, sacrifício que é, entre outras coisas, a forma mais complexa do pacto de sangue.

[...]


---
Fonte:
Pedro Coelho Fragelli: "A Paixão segundo Mário de Andrade". (Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Literatura do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Doutor em Letras. Orientador: Prof. José Antônio Pasta Júnior). São Paulo, 2010.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.