26/12/15

Livro do coração e das nuvens sobre o oásis (Poemas), de Manuel Neto dos Santos

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Para Sandra Dias

Inclinado sobre o caderno, o poeta contempla o breve repouso das frases perante a luz monótona dos dias indistintos, como são indistintos e dispersos os ferimentos da alma, ainda por cicatrizar; como um calafrio perante a lâmina reluzente, fora da bainha. Este é o lugar por onde o último alento vislumbra uma tímida esperança, para que possa volver o terno olhar sobre a terra da translúcida neblina.
Neste instante, inclinado sobre o caderno, o poeta rodeia-se de sons como se fossem frutos maduros para que a voz se vá escapulindo entre as grades das cordas vocais e do meio da cinza do silêncio se inscreva e emerja a sonoridade do poema.
Faça-se, pois, silêncio em minha alma com esse desapego de um cristal embaciado pelo último suspiro e aconteçam tréguas dentro em mim, como fragmentos de horizontes sanguíneos sobre a tela de uma folha em branco.
Inclinado sobre o caderno, o poeta estanca as imprecisões dos espaços por entre os escombros da alegria e dos assombrados delírios a lembrar derrocadas e estilhaços perturbando a quietude dos lagos…
E o poeta ergue-se, como coluna, e na busca interior, pela solidão das palavras, depara-se consigo mesmo, como angústia embaciada, sobre o espelho.



Salvè, templos imemoráveis da longa frescura, quando o pensamento deslizava sobre a face da ribeira, verdenho como jade e tal breve quanto o olhar.
Eis-me regressado, por dentro, nos sísmicos segredos, para que a terra se rasgue num vulcão menstruado estremecendo as águas do silêncio.
Salvè, templos imemoráveis da longa frescura pois que ainda me visto de azul pálido e de branco par que apele mourisca se ostente mais terrosa, posto que há vendavais dentro de mim que me quebram os mastros e a madeira, por dentro, cheira aos boquejos do Verão e ao perfume, inexistente, da rosa.


[Livro do coração e das nuvens sobre o oásis]

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