05/06/16

Miragaia, de Almeida Garrett

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Que estranha forma de contar

Lembremos por ora, nos seus quadros mais significativos, o texto de Miragaia conforme a edição de 1853, procurando assinalar que cruzamentos das memórias anteriores se enxertam na organização das quatro cantigas do poema garretiano. Estando Dom Ramiro “bem ledo / com sua dama a folgar” é informado por um “perro bruxo judio” da formusura de Zara, “flor da beleza”, irmã do rei mouro Alboazar, pela qual se permite conquistar. Abandonando “a triste da rainha” Gaia, Ramiro vem “de cilada” além Douro e furta a bela moura, acolhendo-se com a mesma em Milhor, ao que Alboazar retalia determinando a captura da rainha cristã e levando-a para o seu castelo de Gaia. Conhecedor do rapto de sua esposa (ainda que o poema adiante informe que se haviam cumprido três anos sobre o rapto de Gaia), Dom Ramiro organiza a expedição de resgate, juntando seus homens em barcos “Douro acima a navegar [?], / a noite escura cerrada, / e eles mansinho a remar [!]”, e, aportando, toma as vestes de romeiro e acerca-se de uma fonte que mana na encosta do castelo mouro onde encontra uma”donzela” que vem a ser Peronela, criada, afinal, de Gaia. Ramiro coloca então na cântara de prata o anel que conforme as versões anteriores o revelará perante sua esposa, confiando a Peronela o transmitir a sua senhora da vontade de “um romeiro cristão / [que] lhe deseja falar / da parte de um que é já morto, / que morreu por seu pesar”. Ao beber da água, Gaia prova o anel de seu Ramiro e, neste passo, acautelando-se numa encenação de mistério que aliás já antes se confirma, quando o poema oculta o estratagema da buzina que Ramiro incumbe a seus homens, o contador opta por não revelar o reconhecimento de seu esposo pelo anel que este lhe faz chegar, adiando a tensão deste reencontro para o momento em que, sendo chamado à presença da rainha, Ramiro despe as vestes de romeiro e se revela:

“ - Minhas penas não são minhas,
Senão vossas, mal pesar!
Que uma rainha cristã
Feita moura vim achar...

- Romeiro, não tomeis cuita
Por quem não se quer cuitar:
Do que foi já me não lembro,
O que sou não me é dezar.

Deus terá dó da minha alma,
Que meu não foi o pecar;
E a esse traidor Ramiro
As contas lhe há-de tomar.

- Pois não espereis, senhora,
Por Deus, que pode tardar;
Dom Ramiro aqui o tendes,
Mandai-o já castigar.

Em pé está Dom Ramiro,
Já não há que disfarçar:
Aquelas barbas tão brancas
Caíram de um empuxar.”

Assaltada pelo desejo de vingança, e chegando o rei mouro ao castelo vindo da caça, Gaia indica a Ramiro um aposento anexo onde se esconder. Anunciando “grandes novas” a Alboazar, Gaia estende-lhe a chave do dito aposento, denunciando Ramiro. Confontado-se os reis mouro e cristão, Ramiro expõe a penitência que diz trazer encomendada por um santo confessor, ardil, ora, que lhe permitirá, executando-se a pena imposta, o acorrer de seus homens ao som da buzina, o assalto ao castelo mouro e o fender, de um só golpe, da cabeça de Alboazar. Estando tudo já “morto” ou “cativo”, “já o castelo está a queimar”, Ramiro e sua gente embarcam para além Douro, já que “daqui é moirama cerrada / até Coimbra e Tomar”, levando Ramiro a rainha à sua direita na galé real, “como quem a quer honrar”. Como esta não contivesse o choro, Ramiro sonda-lhe o motivo:


“Perguntas-me porque choro!...
Traidor rei, que hei-de eu chorar?
Que o não tenho nos meus braços,
Que a teu poder vim parar.
(...)
Se eu ali fui tão ditosa,
Se ali soube o que era amar,
Se ali me fica alma e vida...
Traidor rei, que hei-de eu mirar!”

Ao que Ramiro, sentenciando as palavras da rainha Gaia, prontamente a degola:

“Foi-lhe a cabeça de um talho;
E com o pé, sem olhar,
Borda fora empuxa o corpo...
O Douro que os leve ao mar.”

Do “estranho caso” terá feito memória a toponímia local, Gaia e Miragaia, que “ainda hoje está dizendo / na tradição popular / que o nome tam – Miragaia / daquele fatal mirar”.

Como Pidal acertadamente dá conta, o poema de Garrett segue na sua generalidade o roteiro narrativo do texto do Livro de Linhagens do Conde D. Pedro, corrigindo-lhe algum défice de poetização, e adicionando-lhe, como vimos (na encenação de Ramiro vestido de romeiro, no ocultar da combinação da buzina...), uma certa desenvoltura dramática que, de alguma forma, excede o horizonte de mistério que o contar oral do relato já por si suporia, conferindo-lhe (como atrás se disse a propósito do poema de D. Bernarda Ferreira de Lacerda) uma literatura avessa à singeleza da tradição popular, e que com maior clareza se nota, por exemplo, no lançamento, ora ponderado e de toada reflexiva, ora cénico, de cada uma das quatro cantigas – a segunda, sobretudo marcada por este interesse por imagens como que teatrais, com o espanto do contador ao indagar “Oh!..que barcos são aqueles / Douro acima a navegar?”. Se o poema parece tomar norte narrativo no relato longo do nobiliário do célebre filho bastardo de D. Dinis, certo é que dele diverge em momentos pontuais, tanto no que ao comportamento final de Ramiro diz respeito, como na correcção da legitimação toponímica final (Gaia onde Âncora), como também na invenção de um nome para a irmã moura – anónima, como atrás se disse, no relato do livro do Conde – e que vem a ser o nome que já D. Bernarda Ferreira de Lacerda lhe atribuíra no seu poema de Hespaña Libertada: Zara. Se no que toca à prioridade da toponímia local sobre a indicação etimológica do relato longo a mesma parece certificar a fidelidade à tradição oral gaiense que Garrett hasteia na nota introdutória ao poema como juízo preferencial sobre outros procedimentos, já o horizonte de reconciliação sugerido pelo comportamento final de Ramiro, ao levar Gaia à sua direita “como quem a quer honrar”, presta-se inevitavelmente à invocação, não exactamente de uma modulação do relato popular, mas das ternas imagens finais da versão breve do Livro Velho, quando Ramiro, seguro do arrependimento de sua esposa, adormece tranquilamente no seu regaço. Ora, Garrett prevenira na nota que introduz o poema que “o conde. D. Pedro e os cronistas velhos também fabulam cada um a seu modo sobre a legenda”, ainda que no respeita ao nobiliário velho muitas dúvidas se levantem quanto ao conhecimento de Garrett em relação ao seu texto à época de composição da sua Miragaia. Pidal conjecura, nesse sentido, a possível descendência do relato oral gaiense em relação ao Livro Velho, de forma a justificar a benevolência de Ramiro que Garrett acompanhará no seu poema:

“Esse relato local, que Garrett ouviu em criança a velhos e barbeiros do Porto, devia inspirar-se mais do que no livro do conde D. Pedro de Barcelos, noutro relato mais curto da lenda ramirense, incluído num nobiliário um tanto anterior ao do conde, pois nesse relato breve D. Ramiro confia também no arrependimento da rainha.” (Pidal, 1954: 72)

O Romance da Gaia de 1601, texto que, apesar da estilização literária a que o sujeita João Vaz, não deixa de inspirar, pela sua muito rudimentar montagem narrativa, a ideia de um tratamento popular anterior, e onde a toponímia final surge já associada ao imaginário gaiense, não partilha, porém, e antes pelo contrário, da benevolência do Ramiro do Livro Velho que Garrett retomará. O que, uma vez a muito provável proximidade entre o texto de João Vaz e um relato oral entre as gentes de Gaia nos séculos XVI e XVII, parece indiciar que este relato gaiense (que o menino Garrett conhecerá) não descenderá daquele a que se associara a versão breve do Livro Velho, ou que esse mesmo relato corria em versões algo distintas, o que, bem vendo, a sensibilidade e o interesse de cada contador poderiam perfeitamente justificar. No que se refere ao poema de João Vaz, Garrett comenta na cartaprefácio a Adosinda (1828), dirigida a Duarte Lessa, “aquele romancezinho de Gaia e do Rei Ramiro, que V. descobriu em Londres com o precioso achado dos papéis e livros do nosso infeliz Oliveira”; posteriormente, na nota I da reedição de 1853 do primeiro volume do Romanceiro, Garrett retoma tal interesse:

É um curioso e raríssimo exemplar, documento notável da literatura portuguesa do século dezassete. Intitula-se Gaia, e é impresso no Porto em um folheto de 4ª, com 15 ou 20 páginas. Tenho hoje grande pena de não ter tirado cópia inteira dele antes de o restituir ao meu amigo o Sr. Lessa, em cujo espólio deve estar: mas não pude obter mais notícias dele; e outro exemplar não o vi nem sei quem o visse. Começa com duas oitavas que agora encontro, incompletas, entre os meus apontamentos. Todo o poema é na mesma rima.

I
Cantemos de Ramiro rei d’Espanha
E de el-rei Almançor de Berberia,
Quando por desventura tão estranha,
No mais de Espanha então mouros havia
Com ânimo cruel, com cruel sanha
Cada qual ao outro pretendia
Privar de sua fama, honra e estado,
Com todas suas forças e cuidado
 II
Desse Ramiro, digo, o esforçado,
Que deste nome três com ele hão sido
Daquele que com Gaia foi casado
Por que tantos trabalhos há sofrido…”

Um “romancezinho” impresso no Porto, tendo-o sido primeiramente em Lisboa, que testemunhará, com toda a certeza, a filiação num relato oral já então perfeitamente coincidente com o imaginário popular gaiense, e que, se dele não se ocupou Garrett para a composição do seu Romanceiro, não deixa de confimar a antiguidade local do relato e, da mesma forma, de especular uma leitura que poderia pôr em causa – neste lance final do texto – a fidelidade do autor de Folhas Caídas em relação ao mesmo relato: isto é, pensar em que medida o investimento de um certo interesse literário na sua composição lhe poderia afinal resolver e hipotecar fragilidades e divergências facilitadas pela transmissão oral, democracia, a da insegurança narrativa do relato popular, que o registo escrito veta, e que a informação do final conforme o relato breve do Livro Velho poderia, por outro lado, justificar. A intenção de seguir “muito pontualmente a narrativa oral do povo”, de “ser fiel ao estilo, modos e tom de contar e cantar dele” não implica, com efeito, que Garrett recopilador não reconheça no relato um potencial literário que lhe venha a merecer um tratamento não exactamente de recolha e mero registo de matérias da tradição oral mas, sobre essa primeira instância, um mais ou menos discreto intento reinventivo de princípio literário – ainda que termine a nota introdutória a Miragaia com a desarmante ingenuidade já antes comentada: “Assim olho para esta pobre Miragaia como para um brinco meu de criança que me aparecesse agora; e quero-lhe – que mal há nisso? – quero-lhe como a tal”.

Sobremaneira interssante é a nomeação da irmã moura, Zara, que, salvo Garrett, só o poema de D. Bernarda Ferreira de Lacerda resgata do anonimato. Ora, não se conhecendo referência de Garrett ao poema de Hespaña Libertada, a possibilidade de uma maior permeabilidade do poema seiscentista em relação ao relato oral da época parece adquirir certa fundamentação e, neste caso, haveria que admitir que o nome Zahara, que o relato contemporâneo de Garrett já receberá actualizado, Zara, seria resultado de uma invenção popular de que D. Bernarda teria notícia à data de composição do seu poema. Por outro lado, e tendo em conta o horizonte sobretudo literário deste texto, o seu compromisso com uma lição textual bastante anterior (a do Livro de Linhagens do Conde D. Pedro), como que isolando-o da regeneração que o relato adquirira oralmente, poder-se-ia de igual forma resolver o interesse de D. Bernarda em oferecer à irmã moura outra presença que não aquela que o relato do nobiliário lhe concedia através, não do recurso a uma invenção de origem popular, mas da consulta de documentação genealógica das famílias árabes do tempo dos reinados ramirenses, o que lhe indicaria a existência, ao tempo de um Lovesendo Ramires, de uma Zaira Bint Zahadon, com a qual casará, matrimónio de que descenderá a família Maia. O mais certo que é que o relato escutado por Garrett em criança compreendesse já a nomeação da irmã moura, muito embora o Romance da Gaia de João Vaz, ao mantê-la no anonimato, pareça indicar que a mesma só surgirá já no século XVII e muito possivelmente a partir da própria informação do poema de D. Bernarda Ferreira de Lacerda, cenário que confirmaria, nestes dois livros do meio, uma importância decisiva naquela que vem a ser a gestão de memórias do recopilador oitocentista, Almeida Garrett, pela sua posição como que medial, mediadora entre a memória nobiliária e a invenção popular, tensão que o autor do Romanceiro não deixará de indiciar no seu poema, “brinco de criança”.

Eis pois uma Miragaia garretiana que se negoceia no relato popular da região de Gaia, que Garrett recupera de sua meninice, e que ao tempo do poema ainda se conserva na boca de “velhas e barbeiros do lugar”, que toma equilíbrio narrativo no relato longo do Livro de Linhagens do Conde D. Pedro de Barcelos, como que de forma a superar algum desajuste ou mutilação que a intriga do relato oral com efeito poderia permitir, e que, renunciando a esta mesma lição textual, prefere um desenlace em conformidade com a versão curta do Livro Velho, que Alexandre Herculano divulgará em 1856 nos “Scriptores” dos Portugaliae Monumenta Historica, e ao qual Garrett agradece no prefácio ao Romanceiro de 1843 o partilhar dos seus “preciosos achados, no seu incessante lavrar das minas arqueológicas”.

Estaria o Livro Velho entre estes preciosos achados compartidos com Garrett antes da sua edição em 1856? Que informação a do nome Zara? Apropriação pelo relato popular do século XVII da novidade do texto de D. Bernarda Ferreira de Lacerda?, invenção autónoma (e estranhamente aceitável22) deste relato oral?, ou investigação de Garrett no intuito de suprir uma lacuna deste último de forma a melhorar e embelezar o seu ambiente lírico? Estranha forma de contar, a de Garrett, investindo um seu romantismo na legitimação identitária e restauradora da literatura tradicional, tomando-a como memória prioritária na organização do Romanceiro, e que nesta sua tão querida Miragaia, uma das “primeiras coisas deste género em que [trabalhou]”, “a mais antiga reminiscência de poesia popular que [lhe] ficou da infância”, parece como que inventar essa mesma prioridade romanesca na condução do poema, dandolhe literatura e armando-lhe uma singeleza dificilmente populares – a um poema, como vimos, privado do seu lugar na primeira colecção do Romanceiro.

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Fonte:

Hugo M. Milhanas Machado: "Que estranha forma de contar" (apontamentos na Miragaia de Garrett, nos livros de linhagens e nos livros do meio). Publicado em “Estudios Portugueses 6 – Revista de Filología Portuguesa”. Universidad de Salamanca, 2006. Disponível em: http://cvc.instituto-camoes.pt/

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