03/08/15

A República que a Revolução destruiu, de Sertório de Castro

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Bailes revolucionários
“Baile na ilha Fiscal — Perdeu-se uma corrente de ouro com os hábitos do Cruzeiro e Rosa, e duas medalhas de campanha. Pede-se à pessoa que o achou o favor de entregar no escritório desta folha”.
Gente honesta, a daquele tempo! Nem ao menos vigorava ainda a prática, que no correr dos anos deveria tornar-se usual, de fazer acompanhar — ainda assim inutilmente — anúncios desta natureza da promessa de uma gratificação.
Dever-se-ia presumir, é certo, que entre os convivas de um baile como aquele, não haveria quem fosse capaz de achar uma jóia qualquer e guardá-la cautelosamente para si, forçando depois a polícia, em suas diligências para encontrá-la e restituí-la a seu dono, a fazer uma visita meticulosa a todas as casas de penhores da cidade...
Mas também — que diabo! — a gente que uns quarenta anos depois frequentava os bailes do Copacabana Palace Hotel e de outros grandes centros sociais não era menos honesta, nem menos distinta, e no entanto...
Não sei se a jóia foi restituída. Não havia, nas gazetas daquela época, uma seção consagrada a noticiários de natureza tão íntima, e para saber que do pescoço de um nobre do império, condecorado com as insígnias do Cruzeiro e da Rosa, havia-se desprendido aquela corrente preciosa cuja restituição tanto o inquietava, tive que pousar um olhar pesquisador na coleção amarelecida do “Jornal do Commercio” do mês de novembro de 1889.
Era do dia 12.
Os jornais velhos, que guardamos nas nossas gavetas e prateleiras, ou que buscamos um dia para satisfazer uma curiosidade ou avivar uma reminiscência, nos arquivos e nas bibliotecas, são como páginas de nossa própria existência que já viramos e ficam por aí, sofrendo como nós as pungentes transformações fisionômicas produzidas pela ação inexorável do tempo, para nos gritarem sempre, ainda que seja apenas aos nossos ouvidos, o número exato de anos que contamos...
Naquele ano eu aspirava o incenso das novenas e das missas conventuais, e inebriava-me com o aroma do rosmaninho que meus pés trituravam nas naves das igrejas de minha amada cidadezinha mineira, pelas festas da Semana Santa. Aprendia latim e vivia, lá longe, ardendo na tentação pertinaz que sobre meu espírito e sobre meus sonhos juvenis exercia o Rio de Janeiro, onde reinava S. M. o Imperador D. Pedro II.
Eu ainda não sabia bem o que era ser republicano. Tinha, no entanto, a idéia de que havia de ser alguma coisa de muito grave e de muito sério. Só não chegava a pensar que pudesse ser um crime porque meu pai era republicano. E eu, que bem lhe conhecia o caráter e a austeridade, não o reputava sequer capaz de poder ser um delinquente. Tinha paixão pela idéia. E lá havia, também, uma meia dúzia de homens respeitados e estimados por toda a população, que partilhavam do mesmo credo político.
E foi sob a influência daquele ambiente que eu comecei a cortar da “Revista Ilustrada” de Ângelo Agostini — a crônica caricatural mais interessante dos vultos e das coisas da política que já tem existido no Brasil — as figuras de republicanos como Quintino Bocaiúva, Saldanha Marinho, Rangel Pestana, Francisco Glicério, para as ir pregando nas paredes da oficina onde ele tinha sua pequena indústria. E todos aqueles republicanos da cidade que o iam visitar sempre, para com ele trocarem idéias e impressões, e comentar os artigos de Quintino no “Paiz” — único jornal que assinava e lia — deleitavam-se com a minha galeria. Punham os óculos diante dela, examinavam-na com interesse, comentavam-na, sorriam.
Eu completava aquela homenagem à idéia republicana e aos sentimentos do grupo de homens austeros da cidade — um dos quais tomava rapé, abrindo com uma pancada na mão espalmada uma boceta de ouro, e tirando do bolso traseiro da sobrecasaca um lenço de alcobaça para se assoar com estrépito — decorando pacientemente a longa e exaustiva poesia heróica “O cura Santa Cruz”, em que Gonçalves Crespo descreve com o mais intenso colorido a figura sinistra do implacável guerrilheiro carlista que incendiava a Navarra com os horrores da guerra, levando-lhe do sul ao norte “o ódio, a perseguição, o incêndio, o estrago, a morte”, e que um dia varou tranquilamente o crânio de um jovem soldado somente porque este, recusando-se a ajoelhar-se diante do pendão realista, e a secundá-lo no brado “— Viva el Rei!” que erguia diante de suas tropas, declarou-lhe resolutamente: “... ao teu rei não me curvo! Eu sou republicano!”
A arte da declamação ainda não era, sequer, uma vaga ameaça da calamidade social que deveria ser num futuro felizmente ainda muito distante. Estava ainda muito afastada a simples hipótese da aparição da Sra. Bertha Singerman — a mais contagiosa de quantas mulheres eu deveria conhecer um dia — no horizonte das artes artificiais.
Do que eu nunca perdi a memória, porém, foi do pungente momento em que tive de parar no meio do recitativo, com uma senhora gorda tocando a “Dalila” ao piano, e o salão em que eu fazia a ousada tentativa declamadora cheio de meninas da cidade... Eu havia esquecido o resto!
Chegou um dia à minha S. João d’El-Rei o propagandista audaz cujo nome enchia naquele tempo o Brasil. Acabava de praticar uma verdadeira façanha a que os jornais consagravam comentários variados. Sabendo que S. A. o conde d’Eu — o marido da princesa Izabel a quem se atribuía a prática de atos de pouca humanidade como despejar sem nenhuma tolerância os inquilinos dos cortiços de sua propriedade que não estivessem em dia com os aluguéis — estava para empreender uma viagem ao norte, tomou passagem no mesmo navio, e foi por aí afora, em sua companhia, num desafio insólito, pregando, em conferências que fizeram época, o ideal de que se constituíra apóstolo.
Silva Jardim deveria guardar, em toda sua agitada e dramática existência, motivos para nunca mais esquecer-se de sua visita à minha bela cidade, onde canta uma canção nostálgica um riozinho manso e cristalino, que rola num leito de areias brancas por baixo de duas pontes venerandas, e onde se erguem aqueles monumentos de arquitetura colonial que são as igrejas buriladas no granito pelo gênio do Aleijadinho.
É que a minha cidade, que sendo tão pequena encerra dentro de seu seio recordações tão grandes, perdeu naquele dia o governo de si mesma. Esqueceu, lamentavelmente, a tradição de sua encantadora hospitalidade, e não pensou que ia, com seu ato quase selvagem, comprometer gravemente a nomeada, que em toda Minas havia conquistado, de ser um de seus centros sociais mais interessantes, primando pelas boas maneiras, pela cordura e pela boa educação, e sendo, como era, além do mais, profundamente religiosa.
Ou seria esta última razão que a levou a proceder tão mal com seu hóspede, uma vez que a religião, as autoridades eclesiásticas, os padres em geral, combatiam com tenacidade a idéia republicana, procurando fortalecer com todo o seu apoio o trono contra o qual ela investia?
O padre João Manuel havia escandalizado a classe respeitável a que pertencia, lançando numa sessão da antiga Assembléia Geral, naqueles dias, sua ruidosa exclamação: “Abaixo a monarquia e viva a República!”
Silva Jardim não conseguiu realizar sua conferência em S. João d’El Rei. O hotel onde se hospedara — gênero de comércio que não fazia, naquele tempo, na minha querida cidade, a fortuna de ninguém, porque não o permitiam os excessos de sua hospitalidade, abrindo todas as suas casas aos visitantes que de outros lugares a buscavam — foi cercado por uma multidão exaltada que vaiava com estrépito o tribuno, num estranho concerto de assobios e latas vazias. Todas as portas e janelas haviam sido fechadas. Os vidros eram reduzidos a estilhaços pela chuva de projéteis que caía sobre a fachada do sobrado. Os republicanos que se achavam lá dentro, cercando o propagandista, sentiam a iminência de um ataque de consequências mais sérias, e nada podiam fazer para evitá-lo.
A exaltação, que chegara ao seu paroxismo, já havia sugerido à turba a idéia demoníaca de lançar fogo ao hotel. E já uns panos embebidos em querosene estavam sendo postos, para esse fim, junto à porta da entrada, quando um sacerdote varou resolutamente a multidão, e num gesto cheio de enérgica decisão anulou os preparativos do atentado selvagem. Era o padre João de Castro, um apóstolo, um justo, um bom, que durante toda sua existência, tão serena e tão calma, deveria entregar-se ao mister elevado de ensinar a juventude num colégio que era também um asilo, transmitindo-lhe seu saber, a soma de seus conhecimentos, a graça de seu espírito e as belezas de sua inteligência, sem outro interesse senão o de fazer o bem...
Evitou que o hotel fosse incendiado e conseguiu, com uma mediação suasória e cheia de autoridade, que Silva Jardim pudesse sair, na madrugada do dia seguinte, para ir tomar o trem em que deveria prosseguir em sua peregrinação corajosa, em sua missão de semeador do ideal democrático...
Mas como teria corrido aquele baile onde um fidalgo da corte, que era também, por certo, um bravo soldado que conquistara na campanha do Paraguai, contra o inimigo estrangeiro, as medalhas que faziam companhia às insígnias honoríficas daquelas duas ordens, perdeu tão preciosa jóia?
Fora num sábado — 9 de novembro. Três dias antes do anúncio.
O “Jornal do Commercio”, procurando satisfazer com uma profusão de minúcias digna de nota o interesse com que a sociedade deveria estar esperando a crônica do grande acontecimento, narrava em sua edição de segunda-feira o que fora o baile. E como a vaidade e o exibicionismo ainda não dominavam tanto naquele tempo, detinha-se muito mais o noticiário na descrição da ilha do que no registro de nomes ou nas indicações dos trajes com que compareceram ao baile as damas da aristocracia carioca. Também não é fácil afirmar, numa fiel reprodução histórica, se já estava em moda a prática de pedir convites para as festas daquela época...
O baile era uma homenagem do governo imperial à República do Chile. Estava ancorado no porto o encouraçado chileno “Cockrane”, e a grande demonstração visava seu comandante e oficialidade.
Reproduzamos a descrição da ilha Fiscal naquela noite festiva. Era de êxtase a impressão que produzia a vista daquele grande foco de luz. Destacava-se na baía a ilha fantástica, iluminada por milhares de luzes e fogos cambiantes, refletindo em vidros de variadíssimas cores, batida constantemente pelos jatos da luz elétrica projetada dos encouraçados “Cockrane”, “Riachuelo” e “Aquidaban”. Da torre do edifício fiscal um poderoso holofote projetava sobre o mar e em terra uma luz da intensidade de 60.000 velas. “Impossível descrever o mágico encanto que ofereciam a ilha, os encouraçados, as lanchas e botes sem conta com fachos iluminativos que coalhavam o mar e cruzavam em todas as direções”. A barca “Ferry”, que conduzia os convidados, estava garbosamente enfeitada e iluminada “a giorno”, o cais Pharoux repleto de povo. Tocava aí a banda de música do Corpo Policial do Rio de Janeiro em grande uniforme. Às 8 1/2 partia a “Primeira”, fazendo depois cinco viagens, e chegando à ilha Fiscal, na última, às 11 1/2. Havia conduzido cerca de quatro mil pessoas, número aumentado pelas que tinham ido em outras embarcações.
SS. MM. Imperiais dirigiram-se para a ilha na barca que partiu às 9 1/2, e SS. AA. a Sra. Condessa e o Sr. Conde d’Eu na seguinte, que deixou o cais pouco depois das 10 horas.
A ilha estava deslumbrante. “Em volta, número avultado de bandeiras chilenas e brasileiras em mastros e hastes, e nas janelas, portas do edifício, terraços, pátio, e dependência, número extraordinário de lanternas venezianas de variadíssimas cores e feitios. Em frente ao cais de desembarque destacava-se um lindo bosque”. Nunca se havia visto festa igual! Dançava-se em seis salas. As duas maiores eram forradas de tapetes encarnados, e estavam ornadas com bandeiras chilenas e brasileiras. As quatro menores estavam mais simplesmente ornadas, mas também com muito gosto. “Nelas havia festões, coroas, âncoras de flores e ornatos”. Todas as portas e janelas tinham preciosíssimas cortinas. A sala reservada à Família Imperial, “e em cujas portas havia amplas cortinas, estava ricamente mobiliada, luxuosamente ornada e profusamente iluminada”. “Havia no interior do edifício bem servido “bufet”. Todo o serviço de iluminação “a giorno” e elétrica foi muito bem feito pela casa Leon Rodde. Era superior a 10.000 o número de lampiões venezianos e copos de cores”. “Era avultadíssimo o número de senhoras, ostentando umas riquíssimas e luxuosas toilettes”. (Indicação de ordem geral que deveria inspirar as particularidades das crônicas futuras). O imperador — não o relata o jornal, mas convidados do festim — passeou durante muito tempo no salão, de um lado para outro, apresentando-lhe nessa ocasião o visconde de Ouro Preto os novos deputados, recentemente reconhecidos. Figurava entre estes, contando 27 anos de idade, o representante do Espírito Santo, Sr. Moniz Freire, que iniciava sua carreira política. Suas Majestades e Altezas retiraram-se pouco depois de meia-noite, “tendo penhorado os nossos hóspedes pela afabilidade e delicadeza com que os trataram”. S. A. o príncipe D. Pedro, que tinha ido com Suas Majestades — jovem e belo, como o mostravam as fotografias — demorou-se ainda algum tempo. “O cardápio era variadíssimo (o decano já não usava a palavra “menu”, preferindo o neologismo de Castro Lopes) e havia em profusão as mais delicadas iguarias”.
Ao servir-se o champagne, o visconde de Ouro Preto, presidente do Conselho, recordou os serviços prestados ao Brasil pelo almirante Cockrane, dirigindo-se depois “em termos os mais afetuosos” ao ministro e oficiais da nação amiga, “levantando um viva à República do Chile”. O comandante Bannem respondeu à saudação, “mostrando-se grato e reconhecido pelas gentilezas dispensadas”. Eram 6 horas da manhã quando se retiraram os últimos convidados da memorável festa, “impossível de descrever com minúcias pela sua invejável grandiosidade”. Foi seu organizador o barão de Sampaio Viana “que depois a entregou ao Sr. Comendador Hasselmann”.
Não registra o grande órgão que naquela mesma noite, enquanto a corte, o governo e a sociedade dançavam na ilha Fiscal, estavam reunidos secretamente no Club Militar os chefes e organizadores de uma outra grande festa — essa de natureza cívica — que seis dias depois deveria realizar-se no campo de Sant’Ana.
O baile terminara na madrugada de 10 de novembro. A l.° de novembro ocorria a revolução que substituía o império pela república.
9 de agosto de 1930. Baile no palácio Itamarati. Festa deslumbrante. Nenhum anúncio de jóia perdida no dia seguinte... Inauguravam-se as novas dependências, e o palácio da rua Marechal Floriano Peixoto apresentava aspectos empolgantes. Cerca de cinco mil convivas para ali se transportaram em automóveis de todas as marcas. Alguns até em táxis e em máquinas já fora da moda... Haviam sido impressos apenas dois mil convites, mas a necessidade de atender aos pedidos teve de elevar esse número para mais do dobro. À cerimônia da inauguração haviam comparecido, à tarde, S. Ex. o Sr. Washington Luís, presidente da República, ministros, altas autoridades, membros do corpo diplomático, deputados e senadores. Entre os convivas do baile achava-se um ancião de nobre aspecto, trazendo cruzado sobre a alvura do peitilho da camisa, um fitão vermelho e branco. Insígnia honorífica que ninguém procurou saber o que era. Admirável democracia que acolhia numa de suas festas — das mais brilhantes e suntuosas de quantas se realizaram nos últimos tempos no Rio de Janeiro — entre suas autoridades, e como hóspede do ministro das Relações Exteriores, o Sr. Otávio Mangabeira, o último dos netos do imperador deposto a 15 de novembro — o príncipe D. Pedro de Orleans e Bragança, cercado de todas as deferências a que tinha direito pelo seu passado e por sua antiga hierarquia.
S. A. demorou-se, dessa vez, muito mais do que no baile da ilha Fiscal, tendo-lhe sido reservado um lugar na mesa especial destinada às altas autoridades, em que pouco depois de l hora era servida a lauta ceia oficial no salão da Biblioteca, recentemente inaugurado. Para os outros convidados havia um profuso e bem servido “bufet”. Os jornais oposicionistas consagravam uma referência especial, na crônica desse baile, à abundância do champagne que ali se havia consumido.
Festa deslumbrante, também difícil de descrever! Nos inúmeros e amplos salões, decorados com requinte de gosto e de arte, correram animadas as danças até de madrugada.
Madrugada de 10 de agosto. Cinquenta e três dias depois, a 3 de outubro, o Rio Grande do Sul, Minas Gerais e a Paraíba do Norte, com seus governos, suas polícias militares, seus tesouros, e dizem que também com suas populações, desencadeavam no país a revolução que deveria destruir a República constitucional, depondo o Sr. Washington Luís, o regime da lei e a ordem jurídica dominantes...
Registremos, na crônica desses fatos, a influência, ou a simples coincidência desses dois bailes no destino.
Aqui, não é somente a história que se repete. São também os bailes. Bailes revolucionários!

[Capítulo do Livro]

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