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13/09/2015

Obras do Diabinho da Mão Furada, de Antônio José da Silva

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Uma novela diabólica: as Obras do Diabinho da Mão Furada, de Antônio José da Silva

É, no mínimo, curioso que, nas apreciações críticas sobre as Obras do Diabinho da Mão Furada, pouco se tenha atentado para a figura de seu personagem principal: o Diabo. Em virtude desse desvio, a escassa fortuna crítica sobre a novela parece ter estagnado, num primeiro momento, na questão da autoria do texto e, num segundo, na sua vinculação com a picaresca espanhola. Na verdade, cada um desses momentos interpretativos está vinculado ao outro, e pode-se dizer que as incertezas da autoria são, de fato, o elemento desestabilizador das várias tentativas de precisar um sentido menos precário para um texto que, publicado apenas nos finais do século XIX, como infere Palma-Ferreira, parece se reportar “a texto escrito originariamente no século XVII” (PALMA-FERREIRA, 1981, p.37).

A levarmos a sério a época indicada por Palma-Ferreira – aliás, uma suposição feita, ao que parece, com base na letra do manuscrito -, teríamos de concluir que a autoria não poderia ser atribuída nem a Antônio José da Silva, a quem tem sido dominantemente delegada, nem a Pedro José da Fonseca, pois que ambos viveram já no transcurso do século XVIII. Tal constatação, afinal, apóia a tese de Palma-Ferreira, que entende ser a novela de fonte anônima, como foram os casos de tantos outros folhetos de cordel dos séculos XVII e XVIII (PALMA-FERREIRA, 1981, p.399).

O próprio Palma-Ferreira é responsável por um estudo comparativo entre as Obras do Diabinho e a novela picaresca espanhola. Em linhas gerais, o que o estudioso demonstra é que a novela portuguesa aproximar-se-ia das conformações de um “pícaro tardio” – já desgastado pelo uso excessivo dos traços originais que impulsionaram a novela picaresca no século XVI -, e em que os seus autores, para escaparem à vigilância da censura do Santo Ofício, eram obrigados a diluir “o verismo na invenção e na metáfora, que é por sua vez um dos elementos fundamentais da literatura barroca” (PALMA-FERREIRA, 1981, p. 34-5).

Palma-Ferreira entende, porém, que nem dessa picaresca “decadente” poder-seia, de fato, aproximar a novela portuguesa, porque, mesmo nessas manifestações tardias, o imaginário seria utilizado como recurso para acentuar as maldades da vida humana – coisa que não aconteceria na obra portuguesa, na qual a recorrência ao sonho desliga a ação da superfície humana e transforma-se em pura alegoria.

Concordando, no geral, com a visão de Palma-Ferreira, apresenta-se, também, o estudo da pesquisadora sueca Ulla M. Trullemans, Huellas de la picaresca em Portugal. Para tal autora, o que caracterizaria a novela portuguesa seria um duplo plano, no qual se oporiam o realismo e o fantástico. A seu ver, ao primeiro plano corresponderiam os episódios mais realistas e populares da obra; nele, a linguagem é simples, sem artifícios, com o uso sistemático de ditos e provérbios. No segundo plano, entretanto, as alusões são mais eruditas, a linguagem descamba para o tom grandiloqüente e os episódios tratam de temas abstratos e irreais. Para Trullemans, essa atitude antitética, que reconhece ser a expressão privilegiada do Barroco, pouco tem a ver com a novela picaresca, e diz que, se se desejasse ver esse influxo na obra portuguesa, haveria de se tomar, dos dois planos nela presentes, aquele que se encontra mais próximo do humano (TRULLEMANS, 1968, p.132-5).

Já por esses poucos aspectos apresentados até aqui, pode-se perceber o caráter ambíguo e problemático que as Obras do Diabinho da Mão Furada colocam para o leitor: têm traços da picaresca, mas, de fato, não o são; foram publicadas no século XIX, mas parecem pertencer ao século XVII; são atribuídas a Antônio José da Silva, por uns, e a Pedro José da Fonseca, por outros – podendo, ainda, não terem sido produzidas por nenhum dos dois.

Aventamos, no início, que talvez a questão da autoria esteja no cerne dessas diabólicas ambigüidades. Assim, ainda que as reflexões produzidas por esse tipo de preocupação crítica sejam menos genuinamente estéticas (como é do gosto de nosso tempo), podem conduzir-nos, no entanto, ao centro de interesse que este estudo quer propor.

Indo direto à questão, pode-se dizer que, ao que tudo indica, a autoria da novela nunca poderá ser definitivamente esclarecida, em virtude, principalmente, da existência de dois manuscritos do texto: um depositado na Biblioteca Nacional de Lisboa e outro na Academia de Ciências da mesma cidade. Nada de estranho haveria nesse fato, não fosse a primeira edição ter sido feita, com base no manuscrito da Biblioteca Nacional, entre os anos de 1860-1861, na Revista Brasileira, por um dos próceres da primeira geração romântica brasileira, o poeta Manuel de Araújo Porto Alegre (1806-1879). É, justamente, a Porto Alegre, repleto das idéias de um nativismo literário exacerbado, próprio de nossos primeiros românticos, que se deve a atribuição original do texto como sendo de Antônio José da Silva. Ocorre que, em 1925, Fidelino de Figueiredo dá à estampa o manuscrito da Academia de Ciências de Lisboa, na Revista de Língua Portuguesa, atribuindo, por sua vez, a obra a Pedro José da Fonseca – dicionarista português a quem o citado manuscrito deve ter pertencido.

A partir daí, a celeuma em torno da autoria do texto ganha contornos mais problemáticos, fazendo ressoar os aspectos tensos de um debate cultural que, pelo menos até meados do século passado, subsistiu nas considerações sobre os relacionamentos entre a literatura portuguesa e a brasileira, em decorrência, sobretudo, da persistência, no Brasil, de uma crítica de raiz nacionalista, herdeira da tradição romântica, de que, como já se disse, Porto Alegre foi um dos iniciadores. Exemplar, nesse sentido, é o estudo de Cândido Jucá Filho sobre Antônio José da Silva, de 1940, em que o crítico tenta provar, por meio do apontamento da ocorrência de “brasileirismos” na linguagem de suas peças, o caráter brasileiro de suas obras – como a querer reivindicá-las como pertencentes ao cânone nacional (JUCÁ FILHO, 1940).

A atribuição ao desconhecido Pedro José da Fonseca, feita por Fidelino de Figueiredo, não parece, entretanto, querer atingir esse âmbito de preocupações. Em verdade, o argumento decisivo de Figueiredo, para desqualificar a designação de Antônio José da Silva como autor do texto, diz respeito a outra questão, que, aliás, leva muito a pensar. Entende, em síntese, Figueiredo que seria pouco provável que um homem que passara a maior parte de sua vida sendo perseguido pelo Santo Ofício pudesse produzir uma obra que soa, no geral, como pia e de declarado louvor à Igreja contra-reformista, principalmente pelo que vai dito, nesse sentido, de maneira explícita, na “Advertência ao Leitor”, no “Proêmio” e na “Protestação” – que emolduram o texto da narrativa propriamente dita.

O raciocínio de Figueiredo deixa entrever que compreende serem as Obras do Diabinho da Mão Furada um texto eminentemente doutrinário, não se destacando em nada daqueles outros textos que compõem a chamada “literatura de proveito e exemplo”, dominante na narrativa portuguesa dos séculos XVII e XVIII. Ora, parece concluir Figueiredo, sendo essa literatura a manifestação expressiva que respaldava o universo mental de que o cristão-novo Antônio José da Silva era vítima, como poderia ter escrito ele um texto sob os seus moldes e sob sua ideologia?

Tal argumento tinha lá o seu peso e ficou, ao que se sabe, sem resposta, até que, em 1973, João Gaspar Simões faz uma nova edição das Obras do Diabinho da Mão Furada, na Coleção Grandes Esquecidos, insistindo na atribuição da autoria a Antônio José da Silva. Refutando, no texto de apresentação da obra, a idéia de Figueiredo, diz que, além de não ser possível provar que os textos do “Proêmio”, da “Advertência ao Leitor” e da “Protestação” tenham sido realmente escritos pelo autor da novela, aventa a hipótese de que, ainda que isso tivesse ocorrido, poder-se-ia entender tal fato como uma estratégia, um premeditado artifício, representando uma “prudente medida de dissimulação”, a fim de não acirrar ainda mais contra si a vigilância inquisitorial, uma vez que as suas obras teatrais eram vistas como impertinentes em relação aos costumes religiosos da época (SIMÕES, 1973, p.11-3).

[...]


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Fonte:
Silva Odil José de Oliveira Filho
(Doutor em Letras pela Universidade de São Paulo (USP), professor de Literatura Portuguesa no Departamento de Literatura da Faculdade de Ciências e Letras da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho” (UNESP), no campus de Assis – SP): "Uma novela diabólica: as Obras do Diabinho da Mão Furada, de Antônio José da Silva". Disponível em: http://www.fclar.unesp.br/

18/06/2015

Statira, e Zoroastes, de Lucas José de Alvarenga

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Aspectos biográficos

“A história de Lucas José de Alvarenga começa em Minas. Ele nasceu na Vila de Sabará, em 1768. Não tendo em seu nascimento coisa de que se vanglorie, nem de que se envergonhe, atribui aos incentivos da mãe a educação que teve. Descendente remota de fidalgos de geração, sua mãe nasceu na Fazenda do Engenho D’Água (Comarca de Sabará), na casa de um tio, coronel do 1º regimento de cavalaria de milícias, onde havia um grande engenho de moer cana e muitas léguas de lavoura e de lavras. Seus pais “conheciam bem as vantagens de uma boa educação” e mesmo vivendo em Minas Gerais, naquele tempo ainda colônia, e “distante da [futura] Corte mais de duas mil léguas” , com seis anos de idade foi para a escola – onde frequentou provavelmente as aulas dos professores régios – e com 16 para 17 anos, na opinião de seus mestres, estava pronto em Gramática Portuguesa, Latina, Francesa, em Lógica, Matemática e Ética e, ainda, em Retórica, Poética e Geometria. Em casa, teve aulas de dança e de música. E “tudo isso sabe Deus, como!”, ele escreveria mais tarde em sua memória autobiográfica.

De Minas rumou para Coimbra e, aprovado nos exames preparatórios, ingressou no curso de Direito. Durante essa época, começou a fazer versos, principalmente os de improviso, atividade que exerceria por toda a vida. Em Portugal, ficou gravemente doente, mas mesmo assim conseguiu concluir os estudos, formando-se em 1799. Como vários outros letrados luso-brasileiros de seu tempo, abraça a ideia de que já não é exclusivamente a nobreza de sangue o que conta. Os novos tempos tinham aberto espaço para a nobreza de mérito. Desde a infância em Minas, quando seus pais lhe enchiam de mimos pelos sucessos escolares, tinha tomado gosto pelos estudos. E é na formação que vai projetar suas maiores esperanças, acreditando que “é a educação e não o nascimento, ou a ilustre genealogia dos homens, que os faz distinguir entre os mais”.



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Fonte:
Anita Correia Lima de Almeida (Professora DEHIS/UNIRIO): Um ilustrado mineiro no governo de Macau”. Disponível em: http://www.humanas.ufpr.br/

05/06/2015

Romances e novelas, de Joaquim Norberto de Sousa Silva


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INTRODUÇÃO
É o romance entre nós de tão moderna data que se não deve esperar por ora senão débeis ensaios, mormente daqueles que nem um interesse ou glória colhem de suas lucubrações, pois toda a pena que entre nós se não prostitui às paixões políticas tem de mendigar, como o desditoso Savage, um pedaço de papel em que eternize os pensamentos de uma imaginação que Deus iluminou como os raios cheios de luz de sua inteligência:
E a pátria por quem tanto hão feito os filhos
Que digno prêmio lhes ha dado? A fome!
Empreendendo a publicação de uma coleção de romances e novelas, contos e legendas, comecei por aqueles que, escritos de há muito, se achavam dispersos por vários jornais de efêmera existência e limitada circulação; circunstâncias, porém, inopinadamente sobrevindas, obstam que por enquanto realize de todo em todo o meu desígnio: satisfazer-me-ei sobre melhores auspícios? — Deus o sabe!
Só para esta pequena explicação, que não para outra coisa, lanço estas palavras às primeiras páginas deste livro, que lhe sirvam de prólogo; não repetirei pois o hino dos mártires da imprensa literária não subvencionada pelos ídolos da política de hoje e de ontem. Baldado é mostrar ainda uma vez o desapreço em que tem vegetado na nossa terra os que se dão às letras — vocação irrisória! De nossos antepassados não só partilhamos a glória e o gênio, como ainda nos veio por herança a indiferença da pátria. “Ninguém, diz o eloqüente escritor português, jovem de brilhante talento, aprecia o que se consome de coragem e de esforço para resistir às lutas que assaltam qualquer vocação literária; é um longo poema de sofrimento: o mundo só se lembra das agonias de um escritor quando elas se terminam por uma sanguinolenta catástrofe”.
 Aqui, como lá também, a posteridade admirará tanta resignação a par e passo de onerosos sacrifícios, de árduas fadigas e de tanto tempo desperdiçado em pura perda de interesses mais reais senão menos honrosos.
 Mostrava-se D. João de Castro tão desinteressado em todas as suas ações que até cortava na sua quinta de Sintra as árvores úteis para plantar e deixar vingar as de nem um préstimo; — quem o fizesse hoje dir-se-ia que oferecia uma sátira aos homens do tempo de agora; — eu, se o imitasse, não escreveria para a imprensa não política.
 Niterói, maio de 1852.

04/06/2015

A Massambu, de Duarte Paranhos Schutel

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Nota

Maçambu ou Macembu: — rio de curta extensão do continente da província de Santa Catarina; nasce das serras do Tabuleiro e Cambirela e deságua légua e meia ao sul da freguesia da Enseada de Brito, defronte da extremidade meridional da ilha, um pouco para dentro da baía. É navegável por pequenas embarcações até três ou quatro léguas acima de sua foz, que é longa mas pouco profunda.. Perto de sua barra no lugar da Passagem há um pequeno povoado pela estrada, que segue para o sul. 

16/02/2015

Carlota Ângela, de Camilo Castelo Branco

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O fulcro da Novela Camiliana

Um dos aspectos que singulariza Camilo Castelo Branco é o cabedal da sua obra. Além de ter publicado abundantemente, ele atuou em diversos gêneros de escrita. Foi ao mesmo tempo poeta, teatrólogo, romancista, crítico, editor e tradutor. A sua extensa produção supera uma centena de títulos. Desde os primeiros versos – Pundonores  Desagravados (1845) – até Nas Trevas (1890), uma das suas últimas publicações, nunca parou de escrever. À guisa de ilustração, entre os anos de 1863 e 1865 Camilo publica doze romances, oito volumes de memórias, críticas e narrativas, dois volumes de poesia e uma comédia14. Paulo Franchetti explica que Camilo foi o primeiro escritor português a viver apenas do oficio. Numa sociedade que não dispunha de um número expressivo de leitores, nem tempo em que os direitos autorais estavam começando a ser reconhecidos (a lei dos direitos de autor, proposta por Garrett, é de 1851), Camilo teve de escrever muito (2003, p. 09).

Apesar da acentuada variedade e extensão, o legado camiliano tem sido sistematizado sem que esses traços sejam efetivamente levados em conta. Antônio José Saraiva e Óscar Lopes, em sua História da Literatura Portuguesa, traçam um quadro evolutivo em que a ficção camiliana aparece dividia em três estágios. O primeiro, que vigorou até meados de 1850, seria marcado por uma obra ainda pouco distinta em relação às tendências de ficção em prosa vigentes em Portugal. Nesse momento, Camilo teria escrito, sob a influência de Alexandre Herculano, alguns folhetins de cunho histórico e moralista; dos escritores românticos franceses, obras em que predominava o tom idealista; e dos pré-românticos ingleses, o romance negro de aventuras e o melodrama.

O segundo estágio se dá a partir de meados de 1850, momento em que Camilo teria atingido a maturidade literária. Nesse período, teriam sido fixadas as novelas passional e satírica. O romance Onde Está a Felicidade? (1856), considerado por muitos críticos como um marco na prosa ficcional portuguesa, também é dessa época. O último estágio é singularizado, segundo Lopes e Saraiva (1996), por uma evolução acentuada da ficção camiliana em direção ao Realismo/Naturalismo. Essa fase seria assinalada pelas Novelas do  Minho (1875-77), por Eusébio Macário (1879)  e A Corja (1880).

Malgrado esse modelo de sistematização, o mais corrente é dividir a ficção camiliana em apenas duas categorias basilares: a novela passional e a novela satírica. António José Saraiva e Óscar Lopes, embora tenham estabelecido as três fases anteriormente aludidas, demonstram predileção pela divisão bipolar. Eles assinaram uma das mais conhecidas descrições desse último modelo. De acordo com Franchetti (2003, p. 10) Não erraremos muito se afirmarmos que a “novela camiliana” é, no vocabulário crítico atual, um termo que recobre, na interpretação canônica de António José Saraiva e Óscar Lopes, a produção do autor dividida em duas linhas cristalizadas [...], que funcionam como pólos de tensão entre os quais oscila o restante da sua obra romanesca.

Nas palavras desses críticos “[...] estas duas tendências alternativas, que o novelista raro conseguiu resolver numa síntese, ficando assim ao nível da oposição idealismo-materialismo, culminam, respectivamente, em Amor de Perdição (1862), e A Queda de um Anjo (1866)” (SARAIVA; LOPES, 1996, p. 783). A novela passional17, conforme essa descrição, é caracterizada pela preeminência do idealismo amoroso, em que o sentimento homônimo é promovido à categoria do incomensurável, assumindo o estatuto de religião, de maneira tal que as tentativas de consumação do amor são acompanhadas pela lembrança do pecado, como se as mais profundas relações afetivas entre homem e mulher nunca devessem sair do plano super-real do sagrado, do inatingível, e a mulher amorosa tivesse necessariamente de ser vítima angélica ou uma aniquiladora “mulher fatal” (1996, p. 784).

Demarcando esse gênero em termos menos idealísticos, Massaud Moisés (1987, p. 89) assim o define:

[...] [envolve] sempre personagens de um mundo de espectros, por assim dizer, tal clima carregado de obsessões, idéias fixas, a conduzir para desenlaces trágicos ou dramáticos através de atos extremistas baseados na paixão desenvolvida ao grau mais elevado. Criaturas impulsionadas por uma espécie de fatalismo do sentimento, entregam-se ao amor, que é paixão e não desejo de elevar-se pela contemplação do outro, - guiadas por instintos, por imperiosas necessidades físicas. A exacerbação dos sentimentos arrasta-as a negar qualquer força coercitiva, social ou moral, de que sobrevêm; orientarem-se por códigos individualistas ou de base exclusivamente sentimental. Está-se em pleno clima romântico, onde o ato mais absurdo se explica pelas razões do coração.

Avessa ao idealismo passional, a novela satírica desenharia um quadro social no qual a vida estaria dirigida pela ganância pecuniária, pelos prazeres mais imediatos e vulgares, e pela ânsia de prestígio e/ou ascensão social, em que “[...] o autor ergue de quando em quando um véu de considerações moralistas” (1996, p. 785). Esse tipo de novela identificar-se-ia com uma aproximação de Camilo com o Realismo/Naturalismo.

Como exposto no item 1.2, determinados setores da crítica costumam lançar mão da biografia para compreender a produção literária camiliana. É oportuno acrescentar que, além de ser adotada como índice exegético, a vida de Camilo também serve de base para se justificar a divisão da sua obra em duas categorias básicas. Alexandre Cabral (1961) sugere que a novela passional originou-se a partir da apropriação do clima emocional da época, que teria sido marcado por uma atmosfera saturada de paixões e lágrimas, de grandezas e misérias. Conseqüentemente, as personagens mover-se-iam na ficção, tal como o seu criador. A novela satírica, por sua vez, seria uma conseqüência do ressentimento de Camilo com a sociedade. O autor do Dicionário de Camilo Castelo Branco justifica a suposta inconformidade camiliana da seguinte forma:

Pondo de lado os sofismas, a verdade é apenas esta: as almas eleitas consideravam-se espoliadas na repartição dos benefícios e honrarias da sociedade. Realmente, os gênios, os talentos, os indivíduos inteligentes vegetavam, viam-se na subalterna e vexatória situação de arrebanhar as migalhas que caíssem das mesas opulentas. Por isso, eles se vingam dos nababos, ridicularizando-os na gazeta e no livro [...] (1961, p.10-11).

Confrontando os argumentos de Cabral com a trajetória de Camilo, é possível identificar uma contradição na explicação biografista que o crítico oferece para a polarização passional/satírica. Como é possível sustentar a tese do idealista ressentido, se Camilo não se singularizou em relação ao caráter dos oportunistas e devassos que criou na sua ficção? Como se sabe, o escritor de São Miguel de Ceide manteve relacionamentos extraconjugais; envolveu-se em negociatas e raptos; mendigou títulos nobiliárquicos comprados com dinheiro ou com influência de poderosos; mudou seguidamente de posição e partido político, desdizendo o que prometera ou jurara. Sendo assim, essa elucidação da polarização e os argumentos que lhes servem de base são questionáveis. Essa forma de ler a ficção camiliana parece ser demasiadamente simplificadora, pois impede uma investigação mais ampla que considere, sobretudo, questões elementares dessa obra, tais como a análise do estilo notadamente polifônico e dialógico do narrador camiliano, o qual se compraz em evidenciar que a ficção é uma esfera situada nos termos da linguagem, no discurso. Enquanto chave de leitura, esse pressuposto mostra-se inoperante para promover o contato do público moderno e contemporâneo com a obra de Camilo.

Embora divida o legado do romancista em duas tendências, a crítica considera a novela passional o ponto alto da produção literária camiliana, o seu produto mais genuíno e bem acabado. Massaud Moisés (1967) classifica-a como o fulcro dessa obra. Saraiva e Lopes (1996, p. 784) defendem que “[...] a novela camiliana típica é [...] a novela dos grandes penitentes do amor”. Jacinto do Prado Coelho (1946, p. 499), por sua vez, afirma: “[...] dois amantes em lutas com uma sociedade injusta – eis, em síntese, a novela camiliana. Os preconceitos, os ódios, as ambições tendem a separá-los; mas o seu amor resiste a tudo isso”. Em razão disso, a novela satírica acaba sendo vista como secundária e de menor importância estética.

Tem sido praxe imputar a Camilo, senão a paternidade, pelo menos a responsabilidade pela difusão e a fixação da novela passional. A respeito dessa questão, Fidelino de Figueiredo emite entusiasticamente este juízo:

[Camilo] depurou o gênero sentimental, porque eliminou tudo que lhe era estranho, divagações, peripécias, elementos cômicos. Na história dos gêneros literários, o autor que cria é na maior parte dos casos um depurador e um condensador; depura o gênero que lhe é estranho e condensa nele tudo que legitimamente lhe pertence. O romance camiliano é a quinta essência do lirismo passional. (1918, p. 283).

Concorre para essa inculcação, o inabalável prestígio do romancista em questão como o escritor mais nomeado do Romantismo português. Levando em consideração o emprego de determinados expedientes românticos pela novela passional, em particular, a exarcebação amorosa-sentimental, tanto o referido prestígio quanto essa imputação se enrobustecem num reforço mútuo.

Eduardo Lourenço aponta a vocação sentimental do povo lustitano como uma das possíveis causas do florescimento passional no texto camiliano. Il est assez étrange de penser que notre imaginaire de peuple à vocation sentimentale, passionnée et passionnelle, depuis des siècles voué aux élans et dérives de l’amour le plus « derramado », le plus flamboyant, ait eu besoin, en plein XIXe siècle, d’être réinventé. Et toutefois c’est exactement cela que Camilo signifie. […] Au tournant du siècle, au moment où la seconde révolution industrielle arrive aux plages lusitaniennes, Camilo propose à ses concitoyens un ailleurs convaincant, des histoires d’amour et de mort, de sacrifices et de repentirs, de vengeance et de remords, des histoires bien à nous […].(1985, p. 29, grifo do autor).

Embora acrescente um dado novo – a pretensa vocação sentimental do povo português, passível de questionamento (sublinhe-se), posto que se baseia numa visão estereotipada e desconsidera a vigorosa tradição satítica lusitana, na qual o próprio Camilo se inclui – a explicação de Eduardo Lourenço embasa-se no clima espiritual romântico para justificar os traços e determinantes da obra em questão.

João Camilo dos Santos (1991) hesita em aceitar o modo como a novela passional está cirscunscrita no âmbito da ficção camiliana, bem como a sua descrição mais habitual. Ele alerta que o mote da relação amorosa irrompe em Camilo sob a coerção dos poderes econômico e social.

[...] o amor não podia [aparecer-lhe] como inseparável das outras relações sociais nem das formas de estruturação do poder familiar e social, cujas bases econômicas eram flagrantemente evidentes e poderososas. Ao « estudar » o amor, Camilo denuncia os mecanismos de funcionamento das relações pessoais em sociedade; e explica a lógica a que obedecem, a ordem a que têm de submeter-se às relações particularmente intensas que são as relações amorosas. O matrimônio e o patrimônio confundem-se, interferem constantemente um com o outro (1991, p. 63)19.

Face às observações de Santos, duas questões se impõem: terá Camilo assimiliado e culminado na tradição literária portuguesa a sacralização do amor? Será Camilo essencialmente um escritor ultra-romântico, autor, sobretudo, de novelas passionais?



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Fonte:
Moizeis Sobreira de Sousa
: “Ficção camiliana: a escrita em cena”. ( Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Literatura Portuguesa do Departamento  de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para a obtenção do título de Mestre em Letras. Orientador: Prof. Dr. Paulo Fernando da Motta de Oliveira). São Paulo, 2009. Disponível em: www.dominiopublico.gov.br

15/11/2014

Crônicas e Novelas, de Olavo Bilac

 Crônicas e Novelas, de Olavo Bilac pdf gratis
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Olavo Bilac: um cronista carioca da gemma

“Olavo Bilac é carioca da gemma”. Com essa afirmação, Guimarães Passos iniciou o retrato do cronista, na edição de março de 1893, sua “Biographia Express” — coluna que assinava na revista literária O Álbum, dirigida por Artur Azevedo (cf. DIMAS: 2006, p. 34).

A nosso ver, entretanto, a longa citação que se segue, parte de uma entrevista realizada com Olavo Bilac pelo cronista-repórter João do Rio, em 1904, constitui, a mais bela e harmoniosa descrição do poeta-cronista — ou cronista-poeta — e, portanto, julgamos importante transcrevê-la neste trabalho:

A originalidade desse homem reside na sua sensibilidade extrema e sorridente, na sua impecabilidade, nessa doçura como que rítmica que harmoniza os seus períodos e o acompanha na vida. Bilac chegou à perfeição — é sagrado. Não há quem não o admire, não há quem não o louve. As fadas, que são quase uma verdade, fizeram da sua existência uma sinfonia deliciosa, e como o seu talento não tem desfalecimentos e a sua atividade é sempre fecunda, a admiração se perpetua. É o poeta da cidade como Catulo o era de Roma e como Apuleio o era de Cartago. Todos o conhecem e todos o respeitam. Os editores vendem anualmente quatro mil exemplares de seu livro de versos, realizando o que até então era o impossível.

Onde vá, o louvor acompanha-o. A cidade ama-o. Nenhum poeta contemporâneo teve o destino luminoso de empolgar exclusivamente a admiração. Ele é o pontífice dos artistas e dos que o não são. Há homens que guardam em cofres tudo quanto tem escrito de esparso na sua múltipla colaboração jornalística e não há um dia em que pelo menos não receba dos confins da província ou dos bairros aristocráticos meia dúzia de cartas chamando-o de admirável. E nunca a sua túnica branca teve uma ruga desgraciosa, nunca nos seus períodos a elegância deixou de brilhar. Quando escreve, os jornais aumentam a tiragem com as suas crônicas, e o seu estilo impecável aureola de simpatia todos os assuntos; quando fala, as suas palavras admiráveis, talhadas como em mármore e diamante, lembram os jardins de Academos e as prosas sábias do cais de Alexandria, no tempo dos Ptolomeus. E todos sentem a fascinação do encanto — as turbas confusas e os homens inteligentes.

É o portador do espírito da Hélade. No portal da sua morada bem se podia gravar o misterioso enigma da Antologia: "Nasci no bosque sagrado e sou feito de ferro. Tornei-me o secreto depositário das musas e quando falo, intérprete e confidente único, ressoa o bronze eternamente."

E, entretanto, há por vezes no seu sorriso uma irônica amargura, na sua voz, que se vela, a secreta tristeza de quem está resignado a não dizer grandes verdades necessárias, e na sua alma, destinada à aclamação, uma delicadeza, uma modéstia infinita. Dois escritores ele os lê diariamente, ou pela manhã antes de começar a trabalhar, ou à noite antes de dormir — Renan e Cervantes. A vida fê-lo vestir os ímpetos e a imensa paixão lírica no burel de uma suave ironia. Quem o lê pensa em Luciano de Samósata, no ridículo do herói manchego, no travo das fantasias desfeitas. Mas, de raro em raro, surgem, como a reivindicação das idéias generosas, as tristes e delicadas imprecações da sua prosa, e em conversa muita vez quando todos riem, um doloroso suspiro de cansaço e tédio passa no seu lábio, de todos despercebido. E é ainda essa alma esquisita que cora e se confunde, quando pela milésima vez numa tarde alguém se lembra de dizer que o acha incomparável.

Talvez, por isso, o poeta sensual dos amores imensos, o vate embevecido nas vozes das estrelas, aquele que durante vinte anos dera intenções e idéias à natureza e comentara com um piparote céptico as ações dos homens, curvou-se um dia para a vermina com o fulgor do seu espírito luminoso e resolveu protegê-la. Bilac hoje é um apóstolo-socialista pregando a instrução.
Todos os problemas da vida ele os pode encarar como Capus os trata nas suas peças. A instrução das crianças e o bem dos miseráveis preocupam-no seriamente. (RIO: 1907, p. 5)

O ano de 1865 já estava findando quando o “Príncipe dos Poetas Brasileiros” veio ao mundo. Seu nome completo é um perfeito alexandrino e, segundo o biógrafo Raymundo Magalhães Júnior, “interpretado por alguns como predestinação para as letras poéticas” (MAGALHÃES JR.: 1974, p. 7). De fato, Olavo Brás Martins de Guimarães Bilac foi reconhecido e admirado por todos como o maior poeta brasileiro de sua época, recebendo em vida todas as merecidas glórias. Além disso, engana-se, inclusive, quem pensa que os modernistas não o admiravam. Apesar da irreverência com que tratavam o poeta, nas palavras de Menotti Del Picchia, “discuti-lo era amá-lo” (PICCHIA: 2007, p. 15). Ruy Castro, em seu romance Bilac vê estrelas, na pequena biografia sobre o escritor-personagem, escreveu:

A escola poética que o teve como maior expoente no Brasil, o parnasianismo, foi o grande alvo da crítica dos modernistas de 1922, embora eles reconhecessem o valor de Bilac. Mário de Andrade, na época, classificou-o de “o malabarista mais genial do verso em português”. E, na década de 1910, Oswald de Andrade vinha frequentemente ao Rio render-lhe homenagem. (CASTRO: 2004, p. 148)

Olavo Bilac nasceu na cidade do Rio de Janeiro, a Corte, no dia 16 de dezembro. No ano anterior, 1864, havia iniciado a Guerra do Paraguai, conflito no qual Brasil, Argentina e Uruguai formaram a Tríplice Aliança para juntos lutarem contra aquele país do interior da América do Sul e cujo governante — Solano López — buscava uma saída para o mar, disputando com os outros três um domínio sobre a navegação nos rios Paraná e Paraguai. Naquela época, a família do Dr. Brás Martins dos Guimarães Bilac vivia em um modesto sobrado localizado na antiga Rua da Vala — recém rebatizada Rua Uruguaiana — esquina com Rua do Ouvidor.

Olavo passou parte da infância sem a presença do pai, que também não presenciou seu nascimento. Meses antes, o Dr. Brás partira para o campo de batalha como médico. Retornou apenas em 1870, com o fim da guerra, quando Olavo contava quatro anos de idade.

Desejoso de que seu filho seguisse a sua carreira, o médico preocupou-se em dar a Olavo a melhor educação possível. Aos 14 anos de idade, ele era um prodígio na tenra adolescência. Naquela época, a idade mínima para ingressar em cursos superiores era 18 anos. Segundo Magalhães Jr., porém, era comum que rapazes precoces, a título excepcional, fossem matriculados em cursos superiores, “mediante autorização do Poder Legislativo, referendada pelo imperador” (MAGALHÃES JR.: 1974, p. 18). Foi assim que, correspondendo aos anseios do pai e a contragosto seu, ele ingressou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

Em 1883, Bilac publicou seu primeiro verso em um periódico: a Gazeta Acadêmica, uma folha organizada pelos estudantes da Faculdade de Medicina e que tinha Bilac como um de seus redatores. Sua participação, porém, não se resumiu aos versos e à sala de redação, visto que ele também escreveu artigos para o jornal.

Apesar de não ter dificuldades nos estudos, tendo sido, inclusive, nomeado preparador de fisiologia, Bilac não se sentia em nada atraído pela medicina. Nas palavras do biógrafo Fernando Jorge, “o micróbio da literatura” já o havia atacado e ele tinha “mais prazer em conversar sobre Théophile Guatier, Baudelaire, Leconte de Lisle, Alfred de Musset, Théodore de Banville, François Coppé, do que tecer considerações a respeito da fisiologia do trato digestivo” (JORGE: 2007, p. 44).

Quando o Dr. Brás e sua família se mudaram para o subúrbio do Engenho Novo, Bilac viu-se distante da efervescência do centro da cidade e, consequentemente, do velho casarão da Rua da Misericórdia, onde se situava a Faculdade de Medicina. Para evitar as longas viagens e também porque a cada dia se tornava mais atraído pelo requinte e pela elegância da Rua do Ouvidor e pela vida boêmia, “ele preferia ficar no centro, dormindo nas ‘repúblicas’ dos colegas ou passando as noites na ‘Maison Moderne’, célebre café-concerto da época” (JORGE: 2007, p. 52).

Ainda nos tempos da Faculdade de Medicina, Bilac fez algumas amizades que, de alguma forma ou de outra, acabaram exercendo certa “influência” em sua vida literária. Entre esses amigos estavam Artur de Oliveira, Alberto de Oliveira e Paula Nei.

Como se sabe, para os escritores da época — poetas ou não —, o jornal era o principal veículo de divulgação de suas obras. Ter um poema publicado em uma página ou um romance no folhetim era um passo para fama. Obviamente alguns periódicos tinham mais prestígio do que outros. Segundo Nélson Werneck Sodré, a Gazeta de Notícias, fundada em 1875 por Manuel Carneiro, Ferreira de Araújo e Elísio Mendes, em apenas sete anos já havia se tornado “o melhor jornal da época” (SODRÉ: 1998, p. 245). Era diferente dos demais em vários aspectos: “moderno, de espírito adiantado”, com caricaturas diárias, entrevistas e reportagens fotográficas e fornecendo ampla informação (cf. JORGE: 2007, p. 51); seus exemplares eram vendidos avulsos, enquanto os de outros só o eram por assinatura; seu preço era acessível às massas, um exemplar custava 40 réis (cf. SODRÉ: 1999 p. 224). Nas palavras de Bilac, a folha era também, no início da década de 1880, “o único jornal que acolhia e prezava a literatura” (BILAC: 1997, p. 716). Cabe ainda destacar que, entre seus colaboradores mais famosos, estavam Machado de Assis e Eça de Queiroz, além de Alberto de Oliveira, amigo de Bilac.

Olavo não era diferente dos jovens literatos de sua juventude. Também ele alimentava o sonho de fazer parte da Gazeta. Por esse motivo, invejava seus colaboradores regulares, segundo nos revela em Ironia e Piedade, coletânea de crônicas selecionadas por ele e publicadas em 1916:

Escrevendo este nome [Ferreira de Araújo], revivo muitos anos da minha mocidade. Este nome e estas velhas laudas vêm lembrar-me o tempo em que, desconhecido e feliz, com o cérebro e o coração cheio de esperanças e de versos, eu parava muitas vezes, naquela feia esquina da travessa do Ouvidor, e quedava a namorar, com olhos gulosos, as duas portas estreitas da velha Gazeta, que, para minha ambição literária, eram as duas portas de ouro da fama e da glória. (...) escrever na Gazeta; ser colaborador da Gazeta; ser da casa, estar ao lado da gente ilustre que lhe dava brilho, — que sonho! (BILAC: 1997, p. 715).

Para Fernando Jorge, Olavo “alimentava mais o desejo de tornar-se colaborador da Gazeta do que vir a ser um médico conceituado, dono de larga clientela” (JORGE: 2007, p. 51). Não era o dinheiro que o fazia sonhar com a folha — a quem tratava como uma “linda rapariga” — e sim a ideia de ver seu nome consagrado em suas páginas.

É digno de destaque o fato de que, pelas mãos do amigo Alberto de Oliveira, Bilac teve a alegria de ver seu soneto “A sesta de Nero” publicado na primeira página da Gazeta de Notícias, na edição de 31 de agosto de 1884. Em suas próprias palavras:

Nunca esquecerei, em cem anos que viva, a manhã do ano de 1884, em que vi um dos meus primeiros sonetos na primeira página da Gazeta. Doce e clara manhã! — talvez fosse, realmente, uma agreste manhã, feia e chuvosa, mas a minha alegria, o meu orgulho de rimador novato, a minha vaidade de poeta impresso eram capazes de acender um sol de verão na mais nevoenta alvorada de inverno... (BILAC: 1997, p. 716).

A publicação de “A sesta de Nero” na Gazeta de Notícias trouxe a possibilidade de colaboração em outros periódicos, mas isso só aconteceu no ano seguinte, pois Olavo, no segundo semestre de 1884, teve que se dedicar aos exames da Faculdade de Medicina. De acordo com a extensa pesquisa realizada sobre esse autor por Antonio Dimas, no ano de 1885, Olavo colaborou em quatro periódicos: Diário de Notícias, Gazeta de Sapucaia, A Estação e A Semana. Contudo, o pesquisador informa em seu relevante trabalho — Bilac, o jornalista — que a colaboração de Bilac nos três primeiros não foi por ele confirmada em sua pesquisa, e sim informada por seus biógrafos (cf. DIMAS: 2006, v. 2, p. 573).

Segundo Magalhães Júnior, o primeiro soneto de Bilac publicado em A Estação foi “Vox Dei”, em 30 de setembro de 1885 (MAGALHÃES JR.: 1974, p. 41). Porém, foi com o soneto “Fiat Lux” que o autor conquistou o periódico A Semana. Sua colaboração nessa folha, que teve a poesia como gênero preferencial, se estendeu até 1894, tendo sido interrompida entre os anos de 1889 e 1893 (cf. DIMAS: 2006, v. 2, p. 573).

O ano de 1886 pode ser considerado por muitos admiradores da poesia bilaquiana como o da sua verdadeira consagração como poeta. Isto porque, em 31 de julho, foi publicado em A Semana aquele que talvez seja o seu soneto mais famoso: “Ora (direis) ouvir estrelas! Certo”. Com isso, finalmente a porta da fama estava aberta, todavia, outra lhe foi fechada.

Em 1886, Olavo decidiu abandonar os estudos de medicina com a intenção de ingressar na Faculdade de Direito, em São Paulo. Obviamente, o Dr. Brás não aprovou a decisão do filho e muito menos concordava com seu comportamento boêmio naquela época. Segundo Fernando Jorge, para o médico, poeta “era sinônimo de indivíduo madraço” (JORGE: 2007, p. 55) — em outras palavras, alguém que não trabalha, nem estuda. O biógrafo relata, “baseado na narrativa que Henrique Orciuoli fez em seu livro sobre Bilac”, o episódio em que Olavo foi expulso de casa pelo pai, após chegar alcoolizado à sua casa, já de madrugada, e acompanhado de Paula Nei. Sem saber para onde ir, o jovem buscou auxílio com o próprio Paula Nei, que o acolheu em seu quarto de pensão (cf. JORGE: 2007, p. 55-56).

Além do fato de não ter vocação alguma para medicina, outro motivo que o levou a trocar esse curso pelas leis foi seu amor pela irmã do amigo Alberto de Oliveira, Amélia. Olavo sabia que só poderia conquistar a aprovação da família de um compromisso com a moça se tivesse ao menos um anel e um canudo de bacharel. Desejava, também, mostrar ao seu pai que não precisava ser médico para ser alguém na vida.

Bilac mudou-se para São Paulo em abril de 1887, onde freqüentou como ouvinte as aulas da Faculdade de Direito do Largo de São Francisco. Destaque-se que, para os homens de letras da época, a carreira de advogado era a única opção (cf. COSTA: 2005, p. 49). Para sustentar-se, escrevia no Diário Mercantil e na Vida Semanária; além disso, continuou a colaborar em A Semana (cf. BUENO: 1996, p. 70). Mas ele não nascera para nenhuma das profissões imperiais — medicina, engenharia e direito — e não tardou em abandonar o estudo das leis e voltar para o Rio de Janeiro, em 1888.

Coelho Neto, em seu romance “autobiográfico” A Conquista, publicado em 1899, narra seu primeiro encontro com Olavo Bilac. Nele o escritor adota o pseudônimo Anselmo. O diálogo entre os dois, e o amigo em comum Freitas, é reproduzido ipsis verbis pelo biógrafo Fernando Jorge, que esclarece:

Octávio Bivar é o pseudônimo transparente que ele (Coelho Neto) usou para encobrir a figura do poeta (Bilac). Quanto ao caráter autêntico deste livro (A Conquista), podemos apresentar o depoimento de Humberto de Campos, (...), pois (...) era amigo íntimo de Coelho Neto: “(...) é um capítulo da vida do autor; porque nele figuram os homens de letras mais ilustres de seu tempo, os quais atravessam, sob nomes mal disfarçados, (...)” (Crítica, 2ª Série.) Consulte-se, a este respeito, o livro que Paulo Coelho Neto publicou em 1942 sobre seu pai. (JORGE: 2005, p. 70-71)

Dessa obra, dois diálogos são dignos de reprodução. No primeiro deles, Olavo, após ter recitado um de seus poemas, fornece sua opinião sobre prosa e poesia. No segundo, após ter dito a Coelho Neto que não trabalhava em jornais, ele aconselha o novo amigo, que acabara de entrar para a Gazeta da Tarde, a não fazer notícias e manter-se artista.

Restituamos brevemente o contexto: Freitas, Anselmo e Bivar estão no Gambrinus, uma desconhecida taberna. Após o poeta declamar “O Julgamento de Frinéia”, segue-se o seguinte diálogo:

— Soberbo! — exclamou o Freitas reclamando mais cerveja. Anselmo ficou algum tempo a olhar o poeta, sem dizer palavra, arroubado.
— Agora, o senhor: recite-nos alguma coisa.
— Isto não faz versos, disse, com desprezo, o Freitas. É só prosa chilra.
— Faz muito bem. A prosa; se não tem a nobreza do verso, é mais ampla; o pensamento move-se livremente no período sem os apertos da métrica, sem a preocupação monótona da rima. A prosa! A excelsa prosa! Não imagina como eu amo a prosa, acho-a até mais difícil do que o verso. A prosa marmórea de um Flaubert, de um Saint-Victor... oh!
— Preferes, então, a prosa ao verso?
— Prefiro.
— E por que não fazes, de preferência, prosa?
— Hei de fazê-la.
— Ora, qual!
— Hás de ver.
— Tu és poeta e hás de ser sempre poeta, quer queiras, quer não.
— De acordo, mas poesia não quer dizer rima, poeta não é o que faz estrofes. Há por aí muito animal que faz versos impecáveis e que tem tanto de poeta como eu tenho de cantor de árias. A estrofe é um excipiente, é um meio de expressão, é a plástica. O sentimento é tudo. (COELHO NETO: 1899, p. 107)

Freitas se despede de Anselmo e Bivar. Os novos amigos decidem dar uma volta pela cidade. Quebrando o silêncio, Anselmo pergunta a Bivar em que jornal ele trabalha e obtém a seguinte resposta:

— Eu? Não trabalho em jornais. Considero a imprensa uma indústria intelectual. Entra a gente para o jornalismo com um bando de idéias originais e retalha-as para o varejo do dia a dia. Quando vejo um poeta o um prosador a fazer notícias, tenho piedade. (...) Eu, se me metesse a fazer notícias, enlouquecia. Sinto-me incapaz, a local aterra- me. Tentei, uma vez, redigir a mais simples das notícias: um caso banal de polícia. Pois, meu amigo, saiu-me um substancioso artigo político. Quem pode compor um período perfeito numa sala de redação, interrompendo-se, de instante a instante, para acudir à reclamação de um sujeito que pede providências contra a falta d'água? É hediondo!
— Pois eu vou trabalhar na Gazeta.
— Vai escrever crônicas...
— Não sei ainda.
— Não faça notícias; a notícia embota. Ataque as instituições, desmantele a sociedade, conflagre o país, excite os poderes públicos, revolte o comércio, assanhe as indústrias, enfureça as classes operárias, subleve os escravos, mas não escreva uma linha, uma palavra sobre notas policiais, nem faça reclamos. Mantenha-se artista: nem escriba nem camelote. (COELHO NETO: 1899, p. 108)

Bivar acrescenta que um homem de talento não deve se render aos caprichos do dono do jornal, que apenas quer explorá-lo, sem lhe dar o devido crédito, pois isso seria um suicídio. Para o poeta:

O livro fica, o jornal passa e raramente deixa vestígio. O artigo do dia mata o artigo da véspera, a opinião de hoje prevalece, a de ontem morre, mas com o artista consciencioso, não. Demais, meu amigo, egoísmo antes de tudo: o jornal é o redator político, o mais... que vale? Fica-se sempre à sombra, por mais que se faça. Não vale a pena. O trabalho de um ano no jornal não vale uma página requintada de um livro de Arte. (COELHO NETO: 1899, p. 109)

Anselmo, então, quer saber o que fazer. A isso, Bivar responde:

— Escreva livros.
— Para quê, se não há quem os edite?
— Escreva contos, fantasias, crônicas.
— Não pagam. Fazem ainda grande favor quando os publicam.
— Pois, meu amigo, que me venham pedir versos ou prosa de graça. Quer saber? Os culpados da depreciação literária são os próprios literatos: Alencar vendia os seus romances ao Garnier por quatrocentos mil réis. Quantas edições tem O Guarani? Está ainda na primeira e éconhecido em todo o Brasil. O editor fez com o romance o milagre de Tiberíade: multiplicou-o. Se houvesse fiscalização a coisa seria outra. (COELHO NETO: 1899, p. 109)

Aparentemente, Coelho Neto seguiu o conselho do novo amigo, pois escreveu mais de cinquenta livros. Por outro lado, Bilac rendeu-se ao jornal, profissionalizando-se como jornalista. Por toda a vida, ele acreditou na importância dos livros, principalmente para a formação de um povo. Contudo, era com o dinheiro do jornal e não do livro (mesmo tendo publicado verdadeiros best-sellers para a época) que pagava as suas contas no fim do mês e isso lhe permitia viver com certo luxo, a ponto, inclusive, de poder viajar mais de uma vez para a Europa (cf. COSTA: 2005, p. 48).

É digno de nota que, em seu caso, a profissionalização não significou a submissão à vontade do dono do jornal ou da revista. Em um de seus ensaios sobre Bilac, o professor Antonio Dimas tece algumas considerações sobre Sarcey (1827 – 1899), figura que dominou na França a crítica de teatro na segunda metade do século XIX. Segundo o estudioso, Bilac sentia-se atraído pela firmeza profissional do crítico francês. As palavras que Dimas escreve sobre o pensamento de Sarcey bem podem ser utilizadas para mostrar a opinião de Bilac com relação ao profissional de letras — escrevesse ele prosa ou verso, em jornais, livros ou revistas:

Se lhe era garantido acesso a um veículo onde expunha, toda semana, seu ponto de vista profissional, nada mais justo que o remunerassem pelas mesmas opiniões que lhe haviam assegurado a respeitabilidade intelectual. Afinal, tinham sido elas as responsáveis pelo convite e era por causa delas que o público, com certeza, haveria de procurar pelo jornal que as estampasse. (DIMAS: 2006, p. 136)

No mesmo ensaio, Dimas nos fala sobre as reivindicações feitas por Bilac para que as atividades intelectuais tivessem um amparo legal, citando como exemplo uma crônica de janeiro de 1897, publicada em A Bruxa, na qual o cronista “denuncia a voracidade dos editores estabelecidos no Brasil” (cf. DIMAS: 2006, p. 136). Crítica semelhante já foi mencionada anteriormente, quando reproduzimos o diálogo entre Bilac e Coelho Neto.

Importa ainda mencionar que, em 1904, o jornalista e escritor João do Rio decidiu satisfazer a curiosidade do público sobre o que pensavam os literatos da época, por muitos considerados ídolos. A enquete, feita com vários escritores, foi publicada em 1904, na Gazeta de Notícias e, posteriormente, fez parte da coletânea O momento literário, publicada em 1907. Entre as várias perguntas feitas pelo entrevistador, a que mais interessa aos propósitos de nossa investigação é: “O jornalismo, especialmente no Brasil, é um fator bom ou mau para a arte literária?”.

Abrindo a série, está a entrevista com Olavo Bilac. Se, quando jovem, o poeta afirmara ao amigo Coelho Neto que “um homem de talento que se mete em jornais suicida-se” (COELHO NETO: 1889, p. 109), anos depois, em 1904, ele declarava:

O jornalismo é para todo o escritor brasileiro um grande bem. É mesmo o único meio do escritor se fazer ler. O meio de ação nos falharia absolutamente se não fosse o jornal — porque o livro ainda não é coisa que se compre no Brasil como uma necessidade. O jornal é um problema complexo. Nós adquirimos a possibilidade de poder falar a um certo número de pessoas que nos desconheceriam se não fosse a folha diária; (...) Todos os jornais do Rio não vendem, reunidos, cento e cinqüenta mil exemplares, tiragem insignificante para qualquer diário de segunda ordem na Europa. São oito os nossos! Isso demonstra que o público não lê — visto o prestígio representativo gozado pelo jornalista. E por que não lê? Porque não sabe! (...) Há hoje mais um milhão de analfabetos que em 1890! E digam depois que não é preciso criar escolas e difundir a instrução. Um povo não é povo enquanto não sabe ler. Admiras-te dessa minha transformação? O poeta, que ama as cigarras e os flamboiants, o sonhador, que em tudo vê a poesia, batendo-se por um grave problema social!... Ah! meu amigo! Para mim esta é a última etapa do aperfeiçoamento, e o jornalismo é um bem. (...) Oh! sim, é um bem. Mas se um moço escritor viesse, nesse dia triste, pedir um conselho à minha tristeza e ao meu desconsolado outono, eu lhe diria apenas: Ama a tua arte sobre todas as coisas e tem a coragem, que eu não tive, de morrer de fome para não prostituir o teu talento! (RIO: 1907, p.6-7)

Nesta entrevista, Bilac demonstrou toda sua preocupação com a educação no Brasil. Não é de se admirar que o poeta e cronista se tornasse um grande entusiasta das reformas modernizadoras de Pereira Passos, prefeito do Distrito Federal, a cidade do Rio de Janeiro, entre 1902 e 1906, durante o governo de Rodrigues Alves.

Não é demais observar que os ideais republicanos de ordem e progresso sempre estiveram presentes no pensamento de Olavo Bilac. A esse respeito, lembremo-nos de que ele escreveu a letra do Hino à Bandeira Nacional (1906), cujos versos enunciam:

I.
Salve lindo pendão da esperança!
Salve símbolo augusto da paz!
Tua nobre presença à lembrança
A grandeza da Pátria nos traz.
Refrão:
Recebe o afeto que se encerra
em nosso peito juvenil,
Querido símbolo da terra,
Da amada terra do Brasil!

II.
Em teu seio formoso retratas
Este céu de puríssimo azul,
A verdura sem par destas matas,
E o esplendor do Cruzeiro do Sul.
(Refrão)

III.
Contemplando o teu vulto sagrado,
Compreendemos o nosso dever,
E o Brasil por seus filhos amado,
poderoso e feliz há de ser!
(Refrão)

IV.
Sobre a imensa Nação Brasileira,
Nos momentos de festa ou de dor,
Paira sempre, sagrada bandeira
Pavilhão da justiça e do amor!
(Refrão)

Os versos de Olavo Bilac são uma mostra de seu patriotismo, além, é claro, da sua maestria poética. A titulo de curiosidade, acrescentamos que o hino foi composto, em parceria musical com Antonio Francisco Braga, a pedido de Pereira Passos, então prefeito do Distrito Federal.

Anos antes, porém, ainda nos primeiros anos da jovem República, ele não se furtou a criticar as atitudes autoritárias de Floriano Peixoto, que havia assumido a presidência da República após a renúncia de Deodoro da Fonseca. Sua atuação política como jornalista na época levou-o à prisão, em 1892, por quatro meses, na Fortaleza da Laje, no Rio de Janeiro, e, no ano seguinte, ao “exílio” em Minas Gerais, onde permaneceu até 1894.

Bilac colaborou, ao longo de sua carreira jornalística, em vários periódicos — jornais e revistas — do Rio de Janeiro e de São Paulo. O pesquisador Antonio Dimas leu e sumariou cerca de mil e seiscentas crônicas da autoria do poeta (cf. DIMAS: 2006, v.2, p. 461). Em 1908, Bilac encerrou sua carreira jornalística, passando a dedicar-se — até sua morte, em 1918 — a campanhas cívicas e conferências.

Dos jornais para os quais colaborou, a Gazeta de Notícias foi a folha que mais contribuições recebeu. Foi também nesse periódico de grande prestígio que Bilac substituiu, em 1897, aquele que até então — e podemos dizer até hoje — era o maior romancista brasileiro e cronista de grande prestígio na época: Machado de Assis. Em crônica de 1903, sobre o periódico, Bilac deixou registradas as seguintes linhas sobre o Bruxo do Cosme Velho:

(...) Machado de Assis, um nababo egoísta, que, um belo dia, ali por volta de 1897, meteu dentro de um saco as luzes e os perfumes, as estrelas e as rosas que costumava espalhar por essa seção, e levantou acampamento, obrigando o leitor, habituado ao licor precioso do seu estilo, a contentar-se com a água chilra do meu. (BILAC: 1996, p. 59)

Nas palavras de Antonio Dimas, “ao contrário de seu antecessor na Gazeta de Notícias, Bilac não titubeava em opinar sobre os mais diversos assuntos que interessassem diretamente à organização da sociedade civil” (DIMAS: 1996, p. 15). De fato, em sua coluna, Bilac escreveu sobre os mais variados temas e, quando, em sua opinião, necessário fosse, atacou a sociedade em que vivia. O cronista deixou de lado a “pompa e circunstância” do parnasianismo, e produziu crônicas de grande leveza, fácil compreensão e, muitas vezes, com alto cunho didático.

Bilac também colaborou em outro periódico de significativa importância: a revista ilustrada Kosmos: Revista Artística Científica e Literária. O primeiro número saiu em janeiro de 1904, no ano seguinte ao início das reformas empreendidas pelo prefeito Pereira Passos para modernizar e embelezar o Distrito Federal, e um dos principais órgãos de divulgação do novo tipo de sociedade que se desejava. Era uma publicação mensal muito bem cuidada, com elegante acabamento, nos moldes modernos dos semanários internacionais. Além de manifestações artísticas e literárias, a revista continha crônicas e reportagens sobre eventos sociais da elite endinheirada da cidade do Rio de Janeiro. Era para essa elite que Bilac escrevia, bem ao gosto do senso comum, procurando mostrar a seu público-leitor um Rio de Janeiro que se modernizava para se transformar em vitrine do Brasil moderno — mesmo que não fosse possível igualar-se a Paris, que, na sua opinião, era inigualável.

Reiteremos: Bilac era apaixonado por Paris. A esse respeito, dizia-se que ele havia se contaminado pelo vírus da cidade-luz. Segundo Elias Thomé Saliba, em suas cartas e escritos privados, o poeta e cronista referia-se ao Brasil com mau humor. Acreditamos, porém, que ele nunca deixou de amar sua pátria. Em 1904, por exemplo, encontrando-se em Paris, escreveu uma carta a Coelho Neto, dizendo ter saudade “da porcaria, do mijo, da estupidez, do mexerico, da safadeza da pátria” (SALIBA: 2008, p. 341). Apesar disso, sonhava com um Rio de Janeiro limpo e civilizado como a Paris que tanto admirava.

Em crônica publicada em O Estado de São Paulo, em 20 de novembro de 1897, Bilac descreveu um sonho: havia aceitado ser prefeito do Distrito Federal e sua principal missão era limpar a cidade. Apesar de todo o empenho, a cidade crescia e ele, com auxílio de seus varredores, não conseguia se livrar do lixo e da poeira deixados pela administração passada. Convencido de que tal empreitada era humanamente impossível de ser realizada, pediu exoneração do cargo. Nesse momento, o cronista acordou (BILAC: 2006, v. 2, p. 233).

Segundo mencionamos na introdução deste trabalho, foi justamente a leitura dessa “crônica-sonho” que nos despertou o interesse em pesquisar e divulgar as idéias de um grande cronista, que, infelizmente, é muito mais lembrado nos dias de hoje, nas escolas e universidades, como o parnasiano Príncipe dos Poetas Brasileiros. Muito do que Bilac escreveu sobre sua “Sebastianópolis” ainda é, para tristeza nossa, uma grande verdade. E, apesar de afirmar que a crônica é passageira, mais de cem anos depois, o Rio de Janeiro, assim como o Brasil, ainda enfrenta os males por ele apontados. Suas crônicas, repletas de uma visão eufórica sobre reformas da cidade e modernização, podem muito bem serem vistas como uma “cartilha”. Elas foram o meio do qual o cronista se utilizou para tentar instruir o seu público-leitor e fazê-lo acreditar no modelo republicano de ordem e progresso. Nelas, Bilac incluía noções de civilidade, higienização e sanitarismo, que deveriam acompanhar o movimento de urbanização pelo qual o Rio de Janeiro passava de modo a transformar-se em uma cidade digna do título de capital federal e vitrine do Brasil moderno.

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Fonte:
Mônica Proença da Silva: “O sonho de Bilac ou como transformar Sebastianópolis em vitrine do Brasil moderno”. (Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre ao Programa de Pós-Graduação em Letras, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro. Área de concentração: Literatura Brasileira. Orientadora: Profª Drª Ana Lúcia Machado de Oliveira). Rio de Janeiro, 2010.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade. Disponível digitalmente no site: Domínio Público

31/08/2014

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30/08/2014

Maria Moisés, de Camilo Castelo Branco

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Honoré de Balzac e Camilo Castelo Branco: convergências e divergências

[Camilo] narra, estuda, romanceia a vida social nas suas diferentes fases com desanuviado e despreocupado espírito. Rebenta-lhe a ironia espontânea e graciosa, no dissecar, – como Balzac, as aparências brilhantes, devassando-se-lhes a vacuidade ou sujidade do íntimo. Espraia-se-lhe naturalmente a malícia da observação positiva, ao divagar pelos arcanos da sociedade tão amiudamente convencional, mentirosa e soberba. Vai terra a terra gracejando com as vaidades,  desvarios  e fraquezas humanas, desnudando a vida de exageros subjetivos, de deslumbrantes ouropéis, sem se importar com o que ela devia ou podia ser, mas tentando mostrá-la tal qual é nos pontos em que a estuda, sem objurgatórias nem lamúrias.

Luciano Cordeiro
Camilo: Evocações e Juízos, Antologia de Ensaios.

O século XIX é um período de profundas transformações socioculturais no âmbito europeu, em decorrência, principalmente, das Revoluções Industrial e Francesa, em Inglaterra e França, respectivamente. Isto porque estas revoluções, ambas ocorridas em meados do século XVIII, deflagram a decadência do mundo antigo, com seus valores aristocráticos e sua arte cortesã, e determinam o surgimento do mundo moderno, capitalista e burguês.

No que concerne às mudanças na forma de concepção da arte literária desse período, tema que aqui nos interessa focar, segundo Arnold Hauser, em sua História Social da Literatura e da Arte, a classe média alcança o poder econômico, social e político na Europa e faz com que “a arte cerimonial das cortes” (1973, p. 646) perca seu prestígio e ceda o poder artístico ao gosto desta classe, de modo que, já no final do século XVIII e início do século XIX, “a única arte digna de consideração na Europa [...] é a burguesa” (1973, p. 646).

Nesse sentido, a arte cortesã, marcadamente decorativa, cerimonial e ostentativa, é suplantada, paulatinamente, pela arte de gosto burguês, focada no indivíduo e em suas experiências cotidianas vividas em um mundo no qual os valores tradicionais, como a imobilidade social, a honra e a família, dissolvem-se, e o dinheiro se torna o elemento sine qua non para a vida em sociedade. Entretanto, vale notar que, para além da alteração na mundividência literária do período, a transformação do concerto social oitocentista acarretou outra fundamental mudança no que tange àquele que antecede a obra literária, o escritor.

Se no mundo tradicional o mecenato era o responsável pela sobrevivência e prestígio do escritor, no mundo capitalista o autor se depara com a inaudita empreitada de comercializar suas obras, que se tornam bens de consumo, mercadorias das quais passa a advir o sustento dos homens de letras. Sob este prisma, como decorrência incontornável desta nova ordem mundial, os escritores oitocentistas encontram-se, inexoravelmente, atrelados às regras do mercado editorial e às expectativas de leitura do público oitocentista que surgem com a ascensão da burguesia.

No que diz respeito às expectativas de leitura desse novo público, de acordo com a crítica Sandra Vasconcelos, os leitores buscavam em obras literárias “um meio expressivo mais simples, direto e, portanto, mais próximo da linguagem cotidiana do homem comum” (2002, p. 15). E o gênero literário que surge de modo a atender estes anseios é o romance, forma que intenciona ser um “relato autêntico das experiências reais dos indivíduos” (2002, p. 14) e que “levanta de forma aguda o problema da correspondência entre a obra literária e a realidade que ela imita.” (2002, p. 13).

Em síntese, encontramos na Europa do século XIX um público leitor ávido por romances e um mercado editorial sedento por autores que os escrevessem de forma a agradar e suprir essa demanda gerando proveitos financeiros: um movimento capitalista próprio do mundo moderno que indica claramente que a literatura passa a ser bem agregado de valor comercial.

Entretanto, essa nova conjuntura mundial não se dá ao mesmo tempo em todos os países. Em Portugal, por exemplo, esse processo de mercantilização do meio artístico ocorre com aproximadamente trinta anos de defasagem em relação aos grandes centros europeus – no espaço português, o século XIX somente tem seu início efetivo com a Revolução Liberal de 1820. Uma diferença temporal que influencia diretamente na produção literária comercial no país, pois, enquanto na França autores profissionais como Honoré de Balzac já estavam praticamente encerrando sua carreira – Balzac morre em 1850 –, em Portugal este ofício está em vias de se iniciar. Camilo Castelo Branco, o primeiro profissional das letras em seu país, publica seu primeiro romance de atualidade em 1854, o volume A filha do arcediago.
  
Com efeito, esses dois autores europeus são considerados grandes expoentes, em suas respectivas literaturas nacionais, desse novo modelo artístico que inaugura a profissão das letras: Balzac e Camilo experimentam, em França e Portugal, respectivamente, as mazelas e as benesses da carreira literária, deparando-se com a árdua empreitada de suprir os anseios romanescos do público burguês e do mercado editorial oitocentista. Por si só, esta coincidência histórico-social já nos encaminha a uma comparação entre eles, uma equiparação muito recorrente na crítica portuguesa. Por exemplo, Silva Pereira, em seu Universo Ilustrado, de 1877, afirma: “Hoje temos o festejado romancista Camilo Castelo Branco, dito o nosso Balzac.” (PEREIRA apud CASTRO, 1960, p. 121).  

Contudo, ao adentrarmos aos meandros de seus cânones romanescos, torna-se ainda mais inevitável essa comparação. A seguir, faremos um breve panorama das principais linhas de força que regem os legados de ambos os autores, a fim de podermos evidenciar algumas convergências existentes entre eles. Para tanto, um estudo muito relevante feito acerca desta temática será constantemente utilizado como referência: trata-se da análise de Aníbal Pinto de Castro, renomado crítico literário português, sobre a influência de Balzac na Literatura Portuguesa, intitulada Balzac em Portugal, de 1960. Ainda, é necessário notar que, dada a magnitude das obras balzaquiana e camiliana – a Comédie Humaine possui 88 exemplares e os romances camilianos somam 54 volumes– o recorte que aqui se fará tem como intuito salientar, essencialmente, os aspectos que nos conduzirão ao nosso estudo, a ser expresso e justificado no momento oportuno.

Ao falarmos em Honoré de Balzac e em sua Comédie Humaine, conjunto de romances cujo objetivo fundamental é o de observar e analisar a sociedade francesa do século XIX, o primeiro aspecto inerente a sua ficção que vem à tona é a finalidade realista de retratar e de estudar, sistematicamente, o “homem em função de seu meio social” (CASTRO, 1960, p. 21), ou seja, o homem integrado à sociedade francesa de sua contemporaneidade: “Le grand réalisme authentique ne répresente donc pas l’homme et la société d’un point de vue uniquement abstrait et subjectif, mais les met en scène dans leur totalité mouvante, objective.” (LUKÁCS, 1999, p. 09).

 Segundo George Lukács, em seu Balzac et le réalisme français, este aspecto é precisamente o que caracteriza os romances balzaquianos, nos quais o homem nunca é visto de forma estanque da sociedade, mas sim “[...] indissolublement lié à la vie de la societé,  à ses luttes,  à sa politique; c’est de là qu’ils [les hommes] naissent objectivement, c’est là qu’ils débouchent objectivement.” (1999, p. 12). De fato, o romancista francês prima por transpor literariamente os movimentos sociais que o circundam, com especial atenção àqueles relacionados ao sistema capitalista tão característico de seu tempo.

Segundo Balzac, ele intenciona ser aquele que traduz literariamente aquilo que a sociedade francesa engendra em sua História, um “historiador de costumes”:

“[...] O acaso é o maior romancista do mundo; para ser fecundo basta estudá-lo. A sociedade francesa ia ser o historiador, eu nada mais seria do que seu secretário. Ao fazer o inventário dos vícios e das virtudes, ao reunir os principais fatos das paixões, ao pintar os caracteres, ao escolher os acontecimentos mais relevantes da sociedade, ao compor os tipos pela reunião dos traços dos múltiplos caracteres homogêneos, poderia, talvez, alcançar escrever a história esquecida por tantos historiadores, a dos costumes. Com muita paciência e coragem, eu realizaria para a França do século XIX esse livro que todos lamentamos não nos terem deixado Roma, Atenas, Tiro, Mênfis, a Pérsia, a Índia sobre a civilização e que, a exemplo do padre Barthélemy, o corajoso e paciente Monteil tentara para a Idade Média, mas sob forma pouco atraente”. (DE BALZAC, 1993, p. 670)

Dessa forma, como consequência direta desse objetivo de análise social expresso por Balzac, encontramos na Comédie Humaine numerosas personagens marcantemente verossímeis, homens e mulheres abordados enquanto “produto[s] da sociedade” (CASTRO, 1960, p.22) francesa do século XIX. Lembremo-nos, por exemplo, de algumas personagens de Le père Goriot (1834), um dos mais célebres romances balzaquianos, como Eugène de Rastignac, o jovem arrivista, senhora Vauquer, a avarenta dona da pensão homônima, Cristophe e Sylvie, ambos empregados da pensão, Vautrin, o ambicioso pensionista que se revela um criminoso foragido da justiça, entre tantas outras personagens que representam “tipos” (CASTRO, 1960, p. 31) muito característicos do argentário século XIX francês que Balzac fez presente em sua ficção.

Sendo que todo esse estudo social realizado pelo escritor francês acompanha, na maior parte de sua produção romanesca, uma estrutura narrativa peculiar: “localização da ação – apresentação das personagens – desenvolvimento da ação – desenlace” (CASTRO, 1960, p. 151). Eugénie Grandet (1833), romance que integra as “Scènes de la vie de province”, é um exemplo muito claro deste esquema narrativo: nas primeiras páginas, temos a descrição da cidade provinciana de Saumur, local onde a ação romanesca se desenrola; logo em seguida nos são apresentadas as personagens fundamentais da trama: Félix Grandet, um avarento típico, sua ingênua filha, Eugénie Grandet, sua dedicada esposa, senhora Grandet, sua devotada empregada, Nanon, seu sobrinho, o ambicioso Charles, e alguns moradores de Saumur, como as famílias Cruchot e Grassins; posteriormente, dá-se o desenvolvimento dos sucessos a partir da observação detalhada das personagens interagindo entre si e com a sociedade – Félix Grandet em sua saga de acumulação de capital e Eugénie Grandet esperando pelo primo Charles que partira para a Índia em busca de fortuna; e, nas últimas páginas, ocorre o desfecho da ação – Charles volta da Índia ambicioso e corrompido demais para lembrar-se do amor que jurara a Eugénie, que herda a imensa fortuna do pai, pratica a caridade com este dinheiro, mas não faz uso dele em proveito próprio e termina a intriga romanesca sem encontrar a felicidade.

Desse modo, estamos diante de um esquema narrativo calcado na descrição detalhada do ambiente e das personagens e na observação dos efeitos decorridos da interação destas com aquele. Um modelo literário que caiu nas graças do público e do mercado editorial oitocentista, justamente pelo motivo principal apontado por Vasconcelos, a proximidade com o real, e que proporcionou a Honoré de Balzac, ainda em vida, ser um autor abundantemente lido e apreciado não só na França, mas em muitos países que tinham acesso aos volumes da Comédie Humaine.

De fato, Camilo Castelo Branco é um desses apreciadores de Balzac. Como leitor assíduo, em seus escritos sempre se refere ao antecessor francês, seja por meio de alusões vagas e genéricas ou analogias muito precisas. Por exemplo, em um de seus romances, Onde está a Felicidade? (1856), o ponto de vista da personagem balzaquiana Vautrin é recuperado e compartilhado pelo protagonista camiliano Guilherme do Amaral. Em um diálogo logo no início da narrativa, Guilherme alude ao pensamento de Vautrin a fim de se caracterizar enquanto um homem indiferente às mulheres:

─Não: não quero [relacionar-me com mulheres]. Há em mim a preexistência de todas as desilusões. [...] Dispenso as experiências ociosas.
─Deve parecer-lhe bem infame este mundo! Como julga os homens?
─Como os julgou Vautrin, o homem estóico de Balzac.
─Vautrin é má autoridade; se bem me recordo, era um forçado das galés.
─Que importa! A desgraça desvendara-o: tinha a ciência das lágrimas. [...] (CASTELO BRANCO, 1983, p. 205)

Para além de referências como essa, podemos notar a adoção por parte de Camilo de títulos em seu legado ficcional muito semelhantes àqueles utilizados por Honoré de Balzac, como em uma miscelânea de oito breves ficções e duas peças intitulada Cenas Contemporâneas (1855-1856), ou em outra miscelânea nomeada de Cenas Inocentes da Comédia Humana (1863) ou também no romance Cenas da Foz (1857), todos os três em uma alusão à nomenclatura das partes integrantes dos “Estudos dos Costumes” da Comédie Humaine intituladas de “Cenas”, como as “Cenas da vida provinciana”, na qual figura incluído, por exemplo, o mencionado romance Eugénie Grandet.

 Ainda, podemos mencionar que Camilo se vale, em seus escritos, de muitos dos procedimentos balzaquianos. No que se relaciona     à estrutura narrativa, podemos apontar uma primeira convergência. Peguemos o já referido Onde está Felicidade?: nele encontramos o mesmo esquema empregado por Balzac8. Nas primeiras páginas, temos um prólogo que localiza, de modo conotativo, a ação romanesca – por meio da análise da infausta trajetória do avarento João Antunes da Mota, o narrador camiliano descreve o ambiente sórdido e capitalista que enquadra os sucessos da trama; em seguida, temos a descrição das personagens que participam da ação: Guilherme do Amaral, um jovem rico e elegante de Beira Alta, Augusta, uma jovem costureira portuense, Francisco, tecelão e primo de Augusta, e o jornalista, personagem não nomeada e confidente do casal Guilherme e Augusta; posteriormente, temos o decorrer dos acontecimentos – Guilherme seduz Augusta e abandona-a grávida e desonrada; e, por fim, o desenlace: Augusta e Francisco descobrem, ao enterrarem o filho natimorto de Guilherme, o tesouro escondido de João Antunes da Mota, casam-se e tornam-se os ricos e, portanto, honrados barões de Amares, deixando Guilherme do Amaral, um Homem de Brios, extremamente surpreso e enciumado, na última cena do romance, devido ao fato de sua antiga amante não sofrer mais por ter sido preterida e ter ascendido socialmente sem a sua ajuda.

Em seguida, podemos ressaltar a constituição verossímil das personagens também presente na ficção camiliana. Se em França do século XIX, um Rastignac ou um M. Grandet são tipos muito possíveis, até mesmo prováveis, um Guilherme do Amaral, o galante sedutor que mencionamos acima, ou um João Antunes da Mota, o avarento que figura no mesmo romance de Amaral, também o são no Portugal oitocentista.

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Fonte:

Ana Luísa Patrício Campos de Oliveira: Honoré de Balzac e Camilo Castelo Branco: a crítica social oitocentista em perspectiva comparada (versão corrigida). (Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Estudos Comparados de Literaturas de Língua Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para obtenção do título de Doutor em Letras. Orientador: Prof. Dr. Paulo Fernando da Motta de Oliveira). São Paulo, 2013.
Notas
A imagem inserida no texto não se inclui na referida obra. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da obra em sua totalidade. Disponível em: www.teses.usp.br