17/06/14

George Marcial, de Virgílio Várzea

 George Marcial, de Virgílio Várzea PDF
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Virgílio Várzea: Percurso

Na segunda metade do século XIX, um filho de portugueses, cujo pai comandava uma embarcação transportando mercadorias e imigrantes pelo litoral de uma pequena província dos confins brasileiros, recebeu o mesmo nome de um dos mais estimados escritores do império romano e um dos mais célebres poetas de todos os tempos. Nascido a bordo de um barco, crescido numa pequena ilha subtropical, Virgílio Várzea traz no primeiro nome uma tradição literária muito remota, associada à construção não só da poesia pastoril, mas de uma obra que se tornou marco fundante da civilização latina. Porém, formando um oxímoro, o segundo nome o coloca junto aos vales e planícies. Assim, entre o célebre e o ignoto, delineia-se um Virgílio das terras planas, herdeiro de marcos territoriais e culturais trazidos pelas lides marítimas e pelas fantasias literárias, que bordejou espaços da vida pública desde fins do Império e primórdios republicanos, exercendo ao longo da vida atividades de funcionário público e deputado, jornalista e escritor.

Um século mais tarde seu nome seria especialmente lembrado por ser o mesmo de uma rodovia que conduz à parte norte da ilha-capital, onde anteriormente ficava a antiga freguesia em que nasceu. Mas é bem possível que dentre todos os usuários e turistas que transitam pelas vias chãs que levam ao balneário, poucos saibam que publicava narrativas curtas que em boa parte cabiam na dimensão das edições de bolso, com editoração modesta e muito semelhante a de almanaques, enquanto aspirava um assento na recém-criada Academia Brasileira de Letras. Eis então uma outra característica do protagonista: um escritor nem notável, ilustre ou glorioso, tampouco maldito ou malvisto, clandestino ou infame, cuja produção literária não pode ser alçada ao firmamento, mas também não pode ser jogada à sarjeta. Se seus escritos não pertencem aos cânones da mais alta, erudita ou refinada literatura, nem por isso se constituem em escrituras de caráter meramente popular, marginal ou ordinário. Característica que remete ao contingente de artistas e intelectuais medianos, habitantes de um território localizado entre extremos, mas não menos desejosos de reconhecimento pelas marcas escolhidas para alcançar a posteridade.

Em seus registros biográficos não consta nenhuma grande tragédia ou feito político, econômico, étnico, religioso, familiar ou mesmo pessoal que lhe pudesse assegurar certa notoriedade. Igualmente não constam dados que evidenciem um destino absolutamente errático, desventuroso ou pantanoso e nem uma existência que possa ser destacada como sinistra ou desastrosa. Nem mesmo trata-se de um escritor colhido pela morte prematura, fenômeno que freqüentemente assegura aos aspirantes da vida artística-intelectual certo suspense em torno dos talentos que não se manifestaram a tempo. Na juventude foi amigo e parceiro das primeiras aventuras jornalísticas e literárias de Cruz e Sousa, mais adiante, na idade adulta foi colega de trabalho de Olavo Bilac, porém não se tornou porta-voz devotado à poética simbolista do primeiro parceiro ou parnasiana do segundo poeta. Também foi contemporâneo de Machado de Assis, Euclides da Cunha e Lima Barreto. Mas evitou tematizar, tanto quanto possível, a ambiência do Rio de Janeiro, bem como a do interior territorial com vistas a documentar os sofrimentos e dramas dos esquecidos fora do circuito urbano. Não afeito à maneira machadiana de tratar as elites do circuito cosmopolita, tampouco demonstrou preferência pelos seus segmentos remediados ou miseráveis.

Todavia, se Virgílio Várzea era portador de ambições literárias que não se realizaram, não se pode simplesmente atribuir este fato a sua inscrição isolada ou periférica, uma vez que se trata também de um desafio que coube a muitos escritores de seu tempo. Assim, numa conferência que assinalava os cinqüenta anos da morte de Baudelaire, Paul Valery observou que o autor de As flores do mal foi contemporâneo do romantismo, justo na fase de seu apogeu, sendo que seu desafio era tornar-se um grand poète, mais n’être ni Lamartine, ni Hugo, ni Musset. Nasceria daí um sortilégio de tensões e combinações da poética baudelairiana e que, tanto no que tange a sua temática como a sua abordagem, pagou tributo à embriaguez musical e recorreu à turbulência pictoral das cores e formas, tornando-se o mais misterioso de todos os poetas da literatura ocidental, fenômeno que permite entrever o incessante jogo de articulações entre beleza e morte, efêmero e infinito, modernidade e fantasmagoria.

Ocorre que, longe da busca pela autonomia da obra, tal como o fizeram Mallarmé pelo lado da literatura em findos oitocentistas ou os pós-impressionistas na nascente do século XX, Virgílio Várzea preferiu as assimilações compósitas e as figurações híbridas em tempos art-nouveau. Foi assim que entre 1884 e 1910 guardou particularidades estéticas de um período posteriormente chamado belle époque, cujas publicações foram catalogadas como um opúsculo e duas coletâneas de poemas , cinco coletâneas de contos, um romance , quatro novelas e dois estudos considerados de caráter descritivo, distribuídos entre editoras de sua cidade natal e do Rio de Janeiro, além de seis publicações em casas de edição portuguesas e quatro francesas. Todas estas publicações datam de um tempo lacunar, em que as certezas abolicionistas e as militâncias republicanas foram minguando, enquanto os engajamentos modernistas não eram suficientemente visíveis e nem se definiam ou validavam novas convicções e causas reivindicadas por grupos específicos em nome de vanguardas estéticas. Enquanto assistia às esperanças políticas e estéticas, advindas dos tempos imperiais, resultarem em desapontamentos e abandonos, oscilando entre o cinismo arrivista e a ironia desencantada, certamente não escaparam a este Virgílio as ambições mais pessoais que desnudavam escolhas, confrontando interesses e relativizando grandezas de modo insuspeitável antes do início republicano.

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Fonte:

Rosângela Miranda Cherem: “Aparições da textualidade: dizer e ver um Virgílio”. (Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina, para obtenção do Grau de Doutora em Literatura, sob a orientação do Prof. Dr. Raul Antelo). Florianópolis, 2006.

Notas:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade. Disponível em: repositorio.ufsc.br

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