23/12/15

Quatro Pessoas, de Mário de Andrade

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UM SENTIMENTO NACIONAL

Esteticamente, Andrade (1995a, p. 16) define o Belo como um prazer desinteressado e imediato despertado pela empatia entre o sujeito e o objeto, intermediada fisiologicamente pelos sentidos que determinam os afetos provenientes da sensação de prazer ou desprazer produzida por meio da “atitude de contemplação pura”. Notadamente, a concepção de Belo e de Arte que reproduz em suas aulas deriva, como o academicismo e o modernismo institucionalizado no Brasil, da filosofia kantiana, que o autor aparentemente identifica com o platonismo ao observar que Platão caracteriza o Belo como um deslumbramento na medida em que o define como um “esplendor da Verdade” diante do qual toda necessidade desaparece. Assim, como uma ideia moral, ao lado do Bem e da Verdade, Andrade (1995a, p. 6) reconhece o Belo como um elemento de “normalização do homem” que o satisfaz espiritualmente em sua relação com o corpo humano.

Para o autor, as sensações provocadas por determinados fatores elementares, como o som, o volume, a linha e a cor, constituem sensações “puramente sensuais”, ao passo que as sensações “mais elevadas” constituem, por sua vez, organizações de determinados elementos segundo a forma e a sua universalidade, o que permite ao intelecto julgar o Belo, compreendido como um “sentido superior” desprovido de necessidade e interesse imediato (ANDRADE, 1995a, p. 15). Mas ao resumir as concepções dos estetas provenientes da filosofia e da fenomenologia, eventualmente compreendidas sob o influxo de suas leituras de Freud, observando que a finalidade da arte deriva da universalidade do mundo fenomenal, a qual, apoiada na empatia entre o sujeito e o objeto que precede a sensação do Belo, deve regular a arte compreendida como representação do mundo, Andrade (1995a, p. 18) exclui a arte musical, cujos fatores elementares se configuram como criações puramente humanas, conclui.
  
Ao afirmar que a filosofia do Belo consiste somente em um conhecimento abstrato que impossibilita gozar a arte em toda a sua plenitude e finalidade, Andrade (1995a, p. 78-79) reivindica o aspecto sensorial do sentimento do Belo, a fisiologia dos sentidos censurada pela filosofia. Ao se ater ao aspecto sensorial da recepção musical e propor ao sentido sensual um sentido intelectual, a nacionalização musical marioandradina valoriza a atitude receptiva interessada e, por conseguinte, o corpo: “Nada de teorias precisas e claramente organizadas: o artista deve ter uma ‘estesia’” (ANDRADE, 1989, p. 30), preceituaria vinte anos depois, por meio de seu personagem Janjão, o modernista cujo interesse pelos comportamentos humanos coletivos provocados pelo contato musical, em função da construção de “‘uma arte que interessasse as massas e as movesse’” (ANDRADE, 1989, p. 30), o induz a se debruçar sobre um campo da pesquisa musical estranho para as Belas Artes, sacralizada, segundo o autor, em um momento definido e associado aos prazeres puros e profundos.

Afinal, a contemplação desinteressada das Belas Artes exige, como prescreve Baumgarten (1993, p. 109), a ascese. A ascese, que constitui uma condição para a temperança na Antiguidade, representa um tema recorrente entre os estetas a partir do setecentos, sobretudo para Schopenhauer (2005, p. 486), para quem assumiria a forma da “negação da Vontade de vida”18 por meio do conhecimento que, como quietivo de todo querer ou simplesmente como “quietivo da Vontade”, produziria a resignação (SCHOPENHAUER, 2005, p. 502). Nesse sentido, o estado de contemplação desinteressada do belo significa um instante de ascese em que o sujeito se liberta da Vontade e de si mesmo. Assim, a noção kantiana de desinteresse condiz com um estado de suspensão dos interesses do corpo na contemplação da representação do belo (KANT, 2010, p. 55).

Em contraposição, a estesia reivindicada por Andrade denomina a etapa da recepção sensorial que compreende o contato com uma obra de arte e os efeitos provocados pelo referido contato sobre o corpo. A estesia equivale, portanto, a sensações produzidas fisiologicamente, como a comoção que precederia o julgamento cognitivo (ANDRADE, 1989, p. 79-80), caracterizada por uma imediaticidade e uma tactilidade geral que psicologicamente deve visar, conforme preceitua Janjão, a uma caracterização racial. Mais, portanto, que simplesmente “um gozo sensual”, como reitera Siomara Ponga (ANDRADE, 1989, p. 134). Assim, a criação musical brasileira deve ser fisio e psicologicamente nacional, ou seja, fisiologicamente imediata e interessada, e psicologicamente caracterizada pela determinação da sensação sonora da qual decorre a dinamogenia, o movimento corporal resultante de um ato reflexo.

Ainda em meados dos anos 1920, ao se insurgir contra a afirmativa de que a arte musical representa “a mais atrasada das artes”, derivada de uma compreensão das artes como imitação da natureza que, apesar de seu “prazer todo sensual”, desvalorizaria “a mais vaga e a menos intelectual de todas as artes”, Andrade sustenta a sua superioridade justamente na estesia. Ao constatar, a respeito da obra de Bach, que “a menos importante das suas fugas demonstra a estesia de que ele se serviu”, Andrade (2009, p. 292-295) conclui que a arte musical, “libertada da palavra”, antecipa, com a “criação subconsciente” de Bach e Mozart, o ideal de arte pura, por sua capacidade de produzir comoções de que a natureza se revela incapaz. E revela como destino do modernismo brasileiro a edificação de “uma nova estesia, completa, serena, mais humanamente universal” (ANDRADE, 2009, p. 329). Se, vinte anos mais tarde, Andrade revisa o conceito de estesia com outro apelo, vale considerar em que medida a autonomia da arte pura sorbevive em seu nacionalismo musical.

Conforme o autor, visando a um sentido nacional, o aspecto sensorial do sentimento do Belo se associa psicologicamente ao conhecimento, de modo que a sensação se torna objeto de compreensão. A compreensão musical, contudo, requer afinidades eletivas que despertem associações com conhecimentos de tempo, de temperamento e de sensibilidade, conjetura Andrade (1995a, p. 42), que encontra o conceito de “afinidades eletivas”19 em Hanslick (2002, p. 75), para quem a natureza dotou de afinidade eletiva o material elementar da arte musical, cuja “moção emocional”, segundo Hanslick (2002, p. 18), depende de fatores como nacionalidade, temperamento, idade e conjuntura. Por fim, Andrade (1995a, p. 47) sugere que, em vez de intelectual, a compreensão musical seja subconsciente. Assim, define a compreensão musical como a assimilação absoluta e imediata que caracteriza a atividade subconsciente, independente, como a contemplação desinteressada do Belo, de necessidade e interesse imediato. A compreensão musical permanece, no entanto, associada de certo modo ao estado da fisiologia criado pela comoção e ao desejo, de que a arte constitui a sublimação. Como “realização de amor” movida pela “necessidade de comunicação”, a obra de arte deriva de um desejo de desejo, uma vez que o artista “quer ser correspondido no seu amor” (ANDRADE, 1995a, p. 56).


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Fonte:

Tiago Hermano Breunig: “Estesia em tese: a nacionalização musical de Mário de Andrade”. (Tese de doutorado submetida ao Programa de Pós-Graduação em Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina para a obtenção do Grau de Doutor em Literatura, área de concentração Literaturas, linha de pesquisa Poesia e Aesthesis, sob orientação da Profa. Dra. Susana Célia Leandro Scramim, orientação no exterior do Prof. Kenneth David Jackson, Ph.D., e coorientação do Prof. Dr. Sérgio Paulo Ribeiro de Freitas). Florianópolis 2015

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

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