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27/12/2015

De Profecia e Inquisição, de Padre Antônio Vieira

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DADOS BIOGRÁFICOS


O HOMEM

Vieira foi um homem “multidimensional”: sacerdote, diplomata, articulador político, missionário, teólogo. Nada pareceu estar fora da área do seu interesse. A exemplo dos grandes escultores medievais esforçou-se para fazer da sua vida uma imensa catedral, “para o maior louvor de Deus”, suspensa com as pedras da palavra, a gramática da fé e a sintaxe da prática. Enquanto outros utilizavam tijolos e argamassa, rochas esculpidas e vitrais, Vieira fez uso de substantivos, verbos e silogismos. O resultado é um colosso erguido sobre 15 tomos de sermões, conformando-se com mais de três milhões de palavras-pedras. Vieira, o “homem-catedral”, tem várias portas. Resta escolher como penetrar em um prédio tão magnífico que é sua a obra escrita há mais de três séculos. Eis o “imperador da língua portuguesa” como disse Pessoa.

Vieira viaja com a família para a Bahia e será na colônia onde passará a maior parte de seus dias no Brasil (52 dos 89 dos que viveu) e onde adquirirá seus primeiros conhecimentos formais, no então Colégio dos Jesuítas em Salvador. No Brasil, manifestará sua vocação religiosa e em maio de 1623, então com 15 anos, professa o noviciado na Companhia de Jesus e em 1634 obtém o mestrado em Artes.

No ano de 1634 Vieira recebe as ordens Sacerdotais e já em 1635 é encarregado da cadeira de Teologia do Colégio Jesuíta. Em 1640 ocorre o fim da União das Coroas Ibéricas, e D. João IV é aclamado rei de Portugal. Sem ter chegado a tempo essa notícia ao Brasil, Vieira proclama o Sermão pelo Bom Sucesso das Armas, evocando e elogiando o Rei Felipe IV da Espanha. Quando chega a caravela anunciando a revolução libertadora e o novo rei, Vieira, certamente como todos os moradores e o vice-rei, fica confuso, mas adere sem titubeio à nova situação.

Em 1641, D. Fernando Mascarenhas, o Padre Antonio Vieira e o Padre Simão de Vasconcelos, são enviados a Lisboa a fim de jurar obediência ao novo rei português, pelo Marquês de Montalvão. Nesse mesmo ano quando da Invasão Holandesa de Salvador, Vieira refugiou-se no interior do Estado, onde iniciou a sua vocação missionária. Um ano depois tomou os votos de castidade, pobreza e obediência, abandonando o noviciado. Não partindo imediatamente para as missões, aprofundou seus estudos de Teologia, Lógica, Física, Metafísica, Matemática e Economia. Após a Restauração da Independência (1640. Em 1641, iniciou a carreira diplomática pois integrou a missão que veio a Portugal prestar obediência ao novo monarca impondo-se pela força de sua retórica e personalidade.

Foi então nomeado pregador real. Seu primeiro sermão (“Sermão dos Bons Anos”), pregado em Lisboa, no dia 1º de Janeiro de 1642, foi um sucesso absoluto. A partir daí, a disputa de lugares na igreja se tornou corrente a expressão “mandar lançar madrugada em São Roque”, devido ao ineditismo dos temas, o arrojo da abordagem e a clareza de seus conceitos, Em 1646 foi enviado à Holanda, no ano seguinte à França, com encargos diplomáticos com o objetivo de negociar junto aos Países Baixos a devolução do Nordeste. Esse episódio deixará duas marcas em sua história: o epíteto de “Judas do Brasil”, por ter sugerido que Portugal entregasse a colônia em troca de capitanias na África e o contato com os primeiros judeus, cristãos-novos, de quem se tornará um defensor e por quem será condenado pela Inquisição posteriormente.

Suas idéias pró-judeus não agradaram muito às elites e ao povo português. Após alguns conflitos acabou voltando ao Brasil e entre 1652 e 1661, atuou como missionário no Maranhão e no Grão-Pará, passando então à defesa enérgica da liberdade dos índios. Com a morte de D. João IV, seu amigo e protetor, voltou tornando-se confessor da Regente, D. Luísa de Gusmão. Com a morte de D. Afonso VI, Vieira não encontrou mais apoio nas cortes lusitanas.

Seu último período de atuação pública foi marcado pelas idéias utópicas (as profecias sebásticas e o Quinto Império) que fez com que entrasse em um perigoso conflito com a Inquisição. Com base em uma de suas cartas dirigidas ao bispo do Japão,em 1659, na qual expunha sua teoria do Quinto Império, segundo a qual Portugal estaria predestinado a ser a cabeça de um grande império do futuro, foi acusado de heresia e obrigado a comparecer ao Tribunal da Santa Inquisição.

É então expulso de Lisboa, desterrado e encarcerado no Porto e depois encarcerado em Coimbra, enquanto os jesuítas perdiam seus privilégios. Como conseqüência de sua defesa da causa indígena foi quase linchado e expulso pelos colonos do Brasil em 1661. Em 1667 foi condenado a internamento e proibido de pregar, mas seis meses depois, a pena foi anulada. Após voltar de Roma em 1671 passou a combater a influência da Inquisição e a união com os cristãos-novos que estavam sofrendo perseguição, mas não conseguiu persuadir a corte dessa vez.

Desiludido com a política palaciana decidiu voltar outra vez para o Brasil, em 1681. Sua partida de Portugal foi acompanhada de grande júbilo, tendo sido realizado inclusive um “auto de fé” em sua homenagem em que um boneco vestido com os trajes jesuítas foi queimado com gritos de: “Vieira, vendido aos judeus e quiçá judeu também ele!”

Em 1688 foi nomeado, então com 80 anos, visitador da Companhia no Brasil, cargo que cumprirá com dificuldades e determinação até 1691. Já velho e doente sofrendo as conseqüências de um intensa militância e de vários anos no cárcere afasta-se da vida pública, dedicou-se à tarefa de continuar a escrever suas obras, visando a edição completa em 15 volumes dos seus Sermões, iniciada em 1679, e a conclusão da Clavis Prophetarum, obra que considerava a mais importante de sua carreira. Em 1694, após cair de uma escada, perde a capacidade de escrever de seu próprio punho e em 10 de junho começou sentir a chegada da morte. Em 18 de julho de 1697, perdeu a voz, silenciaram-se seus discursos. Morria Vieira aos 89 anos de idade. Eis a história do homem Antonio Vieira, padre jesuíta do século XVII.



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Fonte:

Rodson Ricardo Souza do Nascimento: “O púlpito como cátedra: retórica e educação nos sermões do Pe. Antônio Vieira: 1608-1697”. (Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como exigência para a obtenção do título de Doutor em Educação, sob a orientação do Prof. Dr. José Willington Germano). Natal, 2007.

A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

13/09/2015

O Livro dos Médiuns, de Allan Kardec

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Trajetória histórica do Espiritismo no Brasil

No campo do espiritualismo  popular, ao largo do século XIX, manifestações supra-normais já compunham o imaginário religioso do brasileiro. Antes mesmo do caso das irmãs Fox nos Estados Unidos, já havia registros de reuniões espíritas no Brasil. Em 1967, o Anuário Espírita publicava um fac-símile de um documento procedente da Bahia, onde um juiz do Império, nos idos de 1845, relatava as providências tomadas ao ser informado que, num certo distrito, Mata de São João, eram rotineiras as “...reuniões noturnas em casa certa a pretexto de se ouvirem revelações das almas dos mortos que se fingem aparecer com número crescido de concorrentes...”.

Em tese de doutoramento na Unicamp sobre os espetáculos de circo e teatro em Minas Gerais oitocentista, a professora Regina Horta descreve magias, apresentações de “espiritismo moderno”, manifestações mediúnicas imbricadas à cultura popular. Num evento registrado por um periódico de Ouro Preto em 1891, o “Jornal de Minas”, o artista anunciava que o espetáculo e a demonstração do sobrenatural interessaria “...aos homens de ciência e ao clero, pelas questões de física e psicologia”.

Nesse grande laboratório de mestiçagem biológica e cultural que amalgamou, no terreno religioso, o chamado sincretismo, o Brasil possuía mesmo como uma predisposição cultural a aceitação do espiritismo, enraizada em suas matrizes indígenas e africanas.

No campo do pensamento acerca da imortalidade da alma, destaca-se, também, o eminente político do Império, Marquês de Maricá, cujas reflexões e reuniões filosóficas valeram-lhe diversas prisões ainda no final do século XVIII. Numa de suas indagações, questionava “... De que nos serviria a outra vida se o nosso espírito não conservasse o cabedal de idéias e conhecimentos que adquiriu na primeira, se perdesse a memória da sua identidade individual e intelectual”, numa clara alusão à reencarnação, postulação essa anterior a Kardec.

O fenômeno europeu e estadunidense das mesas girantes chegou ao Brasil em meados de 1853, empolgando salões quase que simultaneamente na Corte do Rio de Janeiro, no Ceará, em Pernambuco e na Bahia.

Foi na capital Imperial que, em 1860, um francês ilustrado, o professor Casimir Lieutaud, diretor-fundador de um colégio onde ensinava a língua francesa e autor de uma gramática com 25 edições até 1957, “Tratado Completo da Conjugação dos Verbos Franceses, Regulares e Irregulares”, publicou a primeira obra de caráter espírita do Brasil, “Les temp sont arrivés” – literalmente, “os tempos chegaram”. Posteriormente, em português, era publicada uma brochura de Kardec intitulada “O Espiritismo na sua mais simples expressão”, em 1862, com três edições sucessivas impressas em Paris no mesmo ano de lançamento da 1ª edição francesa, fato que chamou a atenção do teórico da doutrina.

E na Bahia, um filho de oficial do exército, Luís Olímpio Teles de Menezes, professor de instrução primária e de latim e também autor de teoria lingüistica, a “Ortoépia da Língua Portuguesa”, fundou um grupo familiar de espiritismo, a primeira associação espírita do país, em 1865 e, no ano seguinte, traduziu e publicou em Salvador parte da obra de Allan Kardec, “O Livro dos Espíritos”.

Em julho de 1869, foi lançado, ainda por Teles de Menezes, o primeiro periódico espírita brasileiro, o “Eco d’Além Túmulo”, que trazia, em seu subtítulo, “Monitor do Espiritismo no Brasil”. No informativo, editado em pouco mais de um ano, eram divulgadas matérias locais e reproduzidas páginas e questões publicadas na Revue Spirite (Revista Espírita) – órgão francês de Allan Kardec – e em “O Livro dos Espíritos”.

No entanto, a trajetória do espiritismo no país é permeada por querelas com o clero católico. O arcebispo da Bahia e primaz do Brasil, e também presidente do Instituto Histórico da Bahia, D. Manoel Joaquim da Silveira, em 1867, circulou uma pastoral denunciando os “erros perniciosos do espiritismo”, visto como “essencialmente religioso, ou antes, (...) um atentado contra a religião católica”. Teles de Menezes, membro do mesmo instituto, respondeu com uma carta aberta sustentado a “preexistência, reencarnação e manifestação dos espíritos”.
Quando os integrantes do grupo de Teles de Menezes intentaram a criação de uma “Sociedade Espírita Brasileira”, não obtiveram sucesso justamente pela influência do clero católico. Dois anos depois, em 1873, eles conseguiram fundar uma entidade representativa, a “Associação Espirítica [sic] Brasileira”, enquadrada como organização com finalidade científica, para romper a resistência católica.

A segunda associação do espiritismo surgiu no Rio de Janeiro, o “Grupo Espírita Confúcio”, formado por três expoentes do movimento republicano, Francisco Leite de Bittencourt Sampaio – político, jornalista e alto funcionário público -; Antônio da Silva Neto, engenheiro baiano -; e Joaquim Carlos Travassos – médico e industrial carioca.

A sociedade, fundada em 1873, contava com normas de funcionamento e estatuto jurídico, aspecto pioneiro no país, e lançou uma tendência que se tornou tônica no movimento espírita – a assistência médica com tratamentos homeopáticos gratuitos, receitas atribuídas a influências mediúnicas e recebidas por Bittencourt Sampaio.
Assim, o espiritismo disseminava-se pelo Brasil, com a participação expressiva da classe média e camadas dominantes, e vários grupos sucederam-se, fosse pelo aumento dos adeptos ou disputas pelo controle interno. Chocavam-se os que pretendiam imprimir uma conotação científica aos estudos, com experimentos das manifestações controladas, com aqueles que valorizavam sua dimensão religiosa, preocupando-se com orientações espirituais ligadas ao crescimento moral.

Foi a ênfase no aspecto religioso da obra de Kardec, de acordo com o prof.º. Cândido Procópio Ferreira de Camargo, autor da obra clássica da sociologia nacional “Kardecismo e Umbanda”, que constituiu o traço distintivo do espiritismo brasileiro, “... e, talvez, a causa de seu sucesso entre nós”.

Nessa perspectiva, outras entidades iam surgindo. Uma importante dissidência do grupo Confúcio foi a “Sociedade de Estudos Espíritas Deus, Cristo e Caridade”, liderada por Bittencourt Sampaio. Outras cisões ocorrem; em 1877, foi constituída a “Congregação Espírita Anjo Ismael” e, em 1878, o “Grupo Espírita Caridade” – ambos orientados pelo assistencialismo e pela a prática da caridade, numa discordância às discussões científicas. A “Sociedade de Estudos Espíritas Deus, Cristo e Caridade” prosseguiu suas atividades, apesar das dissensões, mas, em 1880, um grupo capitaneado pelo professor Afonso Torterole conseguiu mudar a denominação da instituição para “Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade”. Esta decisão provocou a terceira e última cisão, gerando a formação do “Grupo Espírita Fraternidade”, com Bittencourt Sampaio e dois novos participantes, que tiveram importância no movimento espírita brasileiro, Antônio Luis Sayão e Frederico Pereira da Silva Júnior.

As dissensões internas enfraqueciam o movimento e imprimiam um caráter efêmero aos grupos constituídos. Entre as várias vertentes espiritualistas presentes no país, uma bem articulada foi composta pelos adeptos das idéias de Jean Baptiste Roustaing, cuja obra, publicada em 1866, “Os quatro evangelhos”, suscitou oposição rigorosa dos kardecistas brasileiros. Para as duas correntes, Jesus Cristo não é Deus e seria um espírito altamente evoluído com uma missão especial entre os homens. Mas, enquanto os seguidores de Kardec acreditam que Cristo viveu como homem na Terra, Roustaing sustentou que não faria sentido um ser perfeito encarnar-se como os homens, sendo que seu corpo seria constituído de fluídos – elemento, segundo os espíritas, intermediário entre a matéria e o espírito. Para os kardecistas, essa concepção do corpo de Cristo imprimia um caráter místico e sobrenatural ao espiritismo.

Bittencourt Sampaio era um dos expoentes da vertente de Roustaing.

Em 28 de agosto de 1881, a revista “O Cruzeiro” e o “Jornal do Comércio” informavam, em reportagem sobre uma ordem policial proibindo o funcionamento da “Sociedade Acadêmica Deus, Cristo e Caridade”, e mencionavam as sanções penais àqueles que desobedecessem à determinação. No mesmo dia, representantes da “Sociedade” procuraram o Ministro da Justiça que, por sua vez, afirmou que não haveria perseguições religiosas. Todavia, no dia 30 do mesmo mês, um oficial de justiça apresentou-se com uma intimação, vedando as reuniões daquele grupo espírita.

Uma comissão foi montada para verificar a origem do mandato. Um dos membros era o médico e político mato-grossense, Antônio Pinheiro Guedes que, com outras figuras de certo relevo social, procurou o Segundo Delegado de Polícia da Corte, que tinha assinado o mandato. Constatando que a determinação viera de escalões superiores, recorreram ao próprio imperador D. Pedro II, em setembro de 1881, durante a realização do Primeiro Congresso Espírita Brasileiro, e obtiveram a promessa – que fora cumprida – de que não haveria perseguição.

Esses eventos são relevantes para a compreensão da disseminação do espiritismo. Além de um ambiente cultural propício, como exposto, pelas peculiaridades da formação brasileira, engajaram em suas fileiras importantes elementos de classe média e alta. A rigor, numa análise mais abrangente do movimento espiritualista, há uma distinção entre o alto espiritismo – também conhecido como “mesa Branca”, em que o kardecismo inscreve-se – e o baixo – com os adeptos da Umbanda e do Candomblé, mais notadamente popular.

As atividades assistenciais de Eurípedes Barsanulfo em Sacramento, objeto desta dissertação, também suscitaram reações, que culminaram na abertura de um inquérito policial e jurídico a partir de Uberaba, por conta de seu suposto exercício ilegal da medicina – ponto que abordaremos no capítulo V - item 1.3 desta dissertação (“O Médium - ou, nos passos de ‘tio Sinhô’ Mariano”). Tal como os precursores do movimento espírita, Eurípedes contaria com a omissão e a ajuda velada de membros do judiciário e da política sacramentana.

O ambiente para os adeptos do espiritismo era hostil, numa época em que o catolicismo predominava. A admissão dessa fragilidade levou os espíritas a articularem a fundação, em 1884, da “Federação Espírita Brasileira (FEB)”, com a expectativa de agregar todos os grupos espíritas, independente de suas divergências. Sintonizados com um ideal republicano, essencialmente descentralizado, os elementos que constituíram a FEB optaram para uma organização do espiritismo brasileiro numa base federativa, como o próprio nome da entidade sugeria. Definido um congresso realizado no Rio de Janeiro em 1889, o modelo que contemplava o caráter autônomo dos centros espíritas e da idéia de organização nas províncias que se opunham à centralização da monarquia.

Um dos nomes de relevo convertido ao espiritismo e que teve um papel agregador no emergente movimento espírita, foi o médico e político cearense Adolfo Bezerra de Menezes Cavalcante (1831-1900). Quando se desligou em definitivo da política, em 1886, passou a dedicar-se integralmente ao espiritismo, escrevendo com o pseudônimo de Max no célebre “O Paiz”, dirigido por Quintino Bocaiúva. Presidiu a FEB em dois momentos: o primeiro, em 1889, marcou a decisão do princípio federativo da entidade.  Sem preocupar-se com o lado científico do movimento, vinculava-se às tendências mais religiosas do espiritismo, se aproximando do pensamento de Roustaing. Em decorrência do acirramento das disputas, não completou um ano à frente da FEB, afastando-se da direção do movimento. Entretanto voltou a presidir a entidade entre 1895 e 1900, período em que as características atuais do espiritismo foram consolidadas, assinalando a supremacia do grupo religioso.

O processo de cura e difusão de receitas médicas gratuitas popularizaram o espiritismo e contribuíram com a sua disseminação. Analisando as transformações advindas com a proclamação da República e a desintegração de uma sociedade patriarcal e semi-patriarcal sob o regime do trabalho livre, Gilberto Freyre, em “Ordem e Progresso”, analisou a expansão do movimento espírita à luz dessas mudanças. O sociólogo destacou o caráter beneficente das associações e algumas semelhanças em suas atividades com as confrarias católicas; a fundação da FEB, tendo como um de seus mentores um general de exército, depois marechal Francisco Ewerton Quadros, que fez parte de uma Assistência aos Necessitados ao lado de uma Escola de Médiuns; e, em 1912, fundou-se também no Rio de Janeiro, um hospital espírita para “... pessoas atacadas de alienação mental que quisessem submeter-se ao tratamento pelas correntes fluídicas organizadas pelo astral superior”.

O sentido religioso do espiritismo predominou em superação às tendências científicas, e a FEB marcou uma nova etapa do movimento no Brasil, proporcionando uma maior coerência e homogeneidade na difusão da doutrina. Nas primeiras décadas do século XX, seu crescimento foi notável, extrapolando os limites de Salvador e do Rio de Janeiro, seus pólos originais.

Um elemento também muito importante para a expansão do kardecismo pelo Brasil foi a utilização maciça dos órgãos de imprensa, que atingia os segmentos letrados da população – sua principal faixa social. Após a publicação de “O Eco D’Além Túmulo”, do pioneiro Teles  de Menezes em Salvador, foi lançado, em 1883, no Rio de Janeiro, o “Reformador”, denominado “mensário religioso do Espiritismo cristão”. Com a fundação da Federação Espírita Brasileira no ano seguinte, esse jornal tornou-se órgão oficial da nova instituição que agregava vários grupos.

Passo também importante para a divulgação do espiritismo com ênfase na leitura e no estudo, ainda foi a instalação, em 1897, de uma editora especializada pela FEB, que vem funcionando até hoje, com a publicação de obras de autores brasileiros e estrangeiros.

A República, por outro lado, endurecera a posição contra as atividades espíritas, numa tentativa, talvez, de apaziguar as relações com a Igreja, estremecidas com o desatrelamento com o Estado. O Código Penal de 1890 era enfático: “É crime praticar o Espiritismo, a magia e seus sortilégios, usar de talismãs e cartomancia (...), inculcar curas de moléstia (...) e subjugar a credulidade pública. Pena: prisão celular de 1 a 6 meses e multa de 100 a 500$”. O “Reformador” denunciava em suas páginas a repressão policial contra o movimento, que chegava ao cúmulo de espancamento físico e apedrejamento aos recintos singelos pelo país afora.

Porém surgiam inúmeros expoentes da doutrina e grupos espíritas que irradiavam a religião em todas as regiões do Brasil.

Em São Paulo, o líder pioneiro foi um português nascido no interior lusitano, Antônio Gonçalves da Silva Batuíra (1839-1909). Filho de humildes camponeses, tendo completado apenas a educação primária, veio com cerca de 11 anos para o Brasil, aportando, inicialmente, no Rio de Janeiro, mudando para Campinas e depois São Paulo. Como entregador de jornais, aprendeu a arte tipográfica e, com as economias reunidas, montou um pequeno teatro, que funcionou entre 1860 e 1870, no qual encenava diversas peças, muitas vezes, com a lotação máxima de duzentas pessoas.

O pobre português prosperou na vida, comprando terrenos numa região desabitada, o Lavapés, que logo, diante do avanço da cidade, se valorizaria. Consta que inúmeras vezes acolheu escravos fugidos, e que, quando descobertos, envidava todos os esforços para comprar-lhes a liberdade. A descoberta do espiritismo ocorreu quando uma tragédia repentina o desestabilizou, o falecimento do filho único de sua segunda esposa, D. Maria das Dores Coutinho, um menino de apenas doze anos. A dor seria logo reconfortada pelo contato com a doutrina espírita da qual Batuíra tornou-se um entusiasmado divulgador.

Foi com a sua dedicação que surgiu em São Paulo um importante núcleo espírita, o primeiro com sede própria na América do Sul, construída na rua Lavapés, n.º 4, contando com a divulgação pela “Revista Verdade e Luz”, cujo primeiro número foi lançado em 20 de maio de 1890. Batuíra praticava a homeopatia e era considerado médium curador.

Numa sintonia com a trajetória e as postulações de Allan Kardec, o terreno da educação também foi profícuo para o desenvolvimento da doutrina e a fundamentação de uma denominada pedagogia espírita. Nomes como Anália Franco, Eurípedes Barsanulfo e Herculano Pires foram essenciais a essa gestação.

Figura proeminente na história paulistana do início do século XX, Anália Franco (1856-1919) foi uma mulher além de seu tempo – professora, teatróloga e jornalista, tendo também ideais feministas, republicanos e abolicionistas. Nascida em Resende, no interior fluminense, trabalhou como assistente de sua mãe, educadora primária. Em São Paulo, formou-se como normalista, em 1876, e teve uma atuação ímpar no campo educacional.

À ocasião da promulgação da Lei do Ventre Livre, em 1871, várias crianças negras filhas de escravas eram expulsas da fazenda e o destino, na maioria das vezes, era a roda da Santa Casa de Misericórdia – dispositivo discreto, que permitia o depósito anônimo de bebês rejeitados pelo muro da instituição. Quando tomou conhecimento da situação, Anália Franco fez um apelo às fazendeiras e pretendeu transferi-las de São Paulo para o interior.

Uma proprietária rural cedeu-lhe uma casa para a instalação de uma escola primária, sob a condição de não misturar crianças brancas e negras. Diante da imposição e do impasse, Anália fez questão de pagar o aluguel, o que comprometia a metade dos seus ganhos. Mas, nos dizeres da fazendeira, a escola tornou-se um “albergue de negrinhos”, removendo logo a professora de sua propriedade.

Por volta de 1887, em Taubaté - SP, ela fundou o primeiro abrigo de órfãos e crianças abandonadas, criando a primeira Casa Maternal. Repudiada por escravocratas e oligarcas locais, contou, no entanto, com o precioso auxílio de abolicionistas, disseminando escolas maternais pelo interior paulista. Na capital, fundou uma revista denominada “Álbum de Meninas”, cujo subtítulo frisava: “Revista Literária e educativa dedicada às jovens brasileiras”, em 1898, e, com um grupo de senhoras de todos os níveis sociais, lançou a Associação Feminina Beneficente e Instrutiva de São Paulo, em 1901, cuja lista de associados logo chegaria a 2000 signatários. O objetivo da entidade era oferecer a instrução e o amparo a crianças pobres e mães desamparadas.

Seis anos após a fundação, a associação mantinha e orientava, só na capital, 22 escolas maternais e duas noturnas, enquanto no interior funcionavam cinco escolas maternais. Ao todo, cerca de duas mil crianças pobres recebiam a educação. Havia ainda um “Liceu Feminino Noturno”, em São Paulo, com mais de cem alunas, e outro, em Santos.

Nos idos de 1910, a dona Anália Franco, por ocasião da visita de um músico e militar, organizou uma atividade inédita, a primeira banda de música feminina do país, denominada Dramático musical. Em decorrência da eclosão da Primeira Guerra Mundial (1914/1918) e o corte de ajudas voluntárias, a associação atravessou por dificuldades, e a solução encontrada pela dona Anália Franco, para contornar as dificuldades, foi promover excursões da Banda Musical e do Grupo Dramático pelo interior paulista para angariar os recursos necessários.

Quanto à conversão de Anália Franco ao espiritismo, não existe, segundo seus pesquisadores, uma indicação precisa sobre essa circunstância. Até 1901, pouco se sabe acerca dessa militante da educação feminina no Brasil. Católica moderada, é provável que, durante uma crise de cegueira momentânea em que estivera recolhida e distante das atividades sociais por volta de 1899, ela teria se aproximado da doutrina espírita. Existem documentos de 1903 demonstrando sua vinculação ao Centro Espírita de São Paulo, no largo do Arouche, onde instalou, de acordo com as atas da entidade, uma escola maternal pela manhã.

Eurípedes Barsanulfo foi o grande nome do espiritismo na primeira metade do século XX e sua trajetória a partir de Sacramento, contribuiu decisivamente para a ampliação da doutrina kardecista pelo Triângulo Mineiro e pelos interiores de São Paulo e Goiás. Apenas em linhas gerais – o tema é aprofundado no capítulo V deste trabalho – vale adiantar as circunstâncias de seu engajamento. Um advogado e coronel de Uberaba promovia sessões espíritas domiciliares, e, participando num desses eventos, o empresário espanhol Fernando Peiró converteu-se à doutrina. Seu contador na firma de cal era Mariano da Silva, o “Sinhô”, tio de Barsanulfo. Assustado com os acontecimentos sobrenaturais na Fazenda Santa Maria – pancadas na parede, sons de pedra no telhado, sumiço de objetos –, convidou o espanhol a fim de analisar o fenômeno, e Peiró entendeu que seriam manifestações mediúnicas.

Mariano abraçou o movimento e dessa adesão surgiu, em 1900, o primeiro centro espírita do interior mineiro, o “Fé e Amor”, na pequena localidade rural de Santa Maria.

Filho de uma humilde, mas emergente família, que prosperava pelo comércio, Eurípedes Barsanulfo era um jovem com muitas atividades, contador da empresa do pai, a “Casa Mogico”, vereador e ainda que autodidata, professor do Lyceu Sacramentano. Era católico fervoroso, mas foi por intermédio do tio que descobrira o espiritismo numa sessão em Santa Maria em que o Bezerra de Menezes e São Vicente de Paulo teriam se manifestado, orientando-o sobre os seus compromissos espirituais.

Seu engajamento ao espiritismo, o ativismo contínuo e perseverante e a fama arrebatada pelas curas e manifestações mediúnicas, bem como as atividades no Collégio Allan Kardec e na farmácia gratuita contribuíram decisivamente para a irradiação do espiritismo e fizeram de Eurípedes um dos ícones da doutrina de Kardec no Brasil.

O legado de Anália Franco e Eurípedes Barsanulfo no campo educacional teria sua sistematização numa linha de reflexão denominada pedagogia espírita, surgida no final dos anos 1940, a partir da articulação e coordenação do intelectual José Herculano Pires (1914/1979). Paulista nascido em Avaré, graduou-se em filosofia pela USP e, numa extensa produção, que inclui poesia, ficção, filosofia, espiritismo e parapsicologia, deixou mais de 80 obras.

Em 1948, com a participação de jornalistas e militantes da imprensa paulista, sob a presidência de Herculano Pires, foi fundado o Clube de Jornalistas Espíritas de São Paulo, com estudo sistemático do Livro dos Espíritos. No ano seguinte, o grupo realizou, também em São Paulo, o “Primeiro Congresso Educacional Espírita Paulista”, convocado pela “USE – União das Sociedades Espíritas do Estado de São Paulo”, fundada em 1947. Dos debates e teses apresentadas para a fixação das bases da Educação espírita, foi concretizada a criação do Instituto Espírita de Educação em São Paulo contando com sede própria. Em 1951, no “Segundo Congresso”, foi determinada a instalação do “Instituto Educacional Espírita Metropolitano”, dedicado aos estudos e pesquisas pedagógicas.

Na história do espiritismo no Brasil, a religião de Kardec enfrentou a oposição ruidosa do clero católico, rusgas com o sistema repressivo e com o judiciário. Certo livro de Xavier Oliveira, em 1931, “Espiritismo e Loucura”, atacou a doutrina, comparando “O Livro dos Médiuns” com a cocaína. Com a efetivação do Estado Novo, a repressão ao movimento foi intensificada. No final dos anos 1930 era a vez dos protestantes distribuírem panfletos no Rio de Janeiro contra o espiritismo.


O movimento prosseguiu a jornada, angariando adesões, expandindo os centros e as atividades de cura ganhavam respeito. Em 1939, realizava-se o “Primeiro Congresso Brasileiro de Jornalistas e Escritores Espíritas”, no Rio de Janeiro e, em 1944, surgia a “Cruzada dos Militares Espíritas”. Foi em 1946, no governo de Gaspar Dutra, que a nova Constituição do país assegurava e garantia, finalmente, a ampla liberdade religiosa no país.


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Fonte:
Anderson C.F. Brettas: 
"Eurípedes Barsanulpho e o Collégio Allan Kardec: Capítulos de História da Educação e a Gênese do Espiritismo nas Terras do Alto Paranaíba e Triângulo Mineiro - 1907/1918. (Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do título de mestre junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação, sob a orientação do prof.º Dr. José Carlos Souza Araújo. Universidade Federal de Uberlândia - Faculdade de Educação -Programa de Pós-Graduação em Educação). Uberlândia, 2006.

O Evangelho Segundo o Espiritismo, de Allan Kardec

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As Mesas Girantes em Paris

O caso das irmãs Fox, paradigma do moderno espiritismo, ganhou repercussão e logo extrapolaria as fronteiras estadunidenses. A família ficou abalada com o fenômeno, efeito atribuído às irmãs; afastadas de casa, morando com o irmão David Fox, os mesmos ruídos eram ouvidos. Embora fossem feitos esforços para que o público ignorasse essas manifestações, elas tornaram-se conhecidas. E quando as meninas viajavam, o fenômeno as acompanhava nas casas em que se hospedavam. Com o tempo, foi estabelecido um sistema de códigos para compreender cada letra de acordo com o número de batidas.

O pesquisador do espiritismo e o principal biógrafo brasileiro de Allan Kardec, Zeus Wantuil assim descreve o encontro das irmãs com intelectuais e religiosos:

[...] Numa Sessão realizada em Nova Iorque, em 1850, sentados ao redor de uma mesa, vemos o Ver. Griswold, o novelista Fenimore Cooper, o historiador J. Bancroft, o Dr. Hawks, os doutores J.W. Francis e Marcy, o poeta quaker Willis, o popeta Bryant, o general Lyman e o periodista Bigelow, do Evening Post. Todos eles se manifestaram satisfeitos com a sessão, e declararam: ‘ As maneiras e a conduta das jovens (isto é, das irmãs Fox) são tais que tudo se inclina a favor delas.

O movimento espiritualista nos Estados Unidos avançou rapidamente, numa interação com o protestantismo de diferentes grupos e seitas por intermédio de enfoques educacionais, tendo diversas publicações e grupos de estudo. A primeira organização espírita regular foi constituída em Nova Iorque, em 10 de junho de 1854, sendo denominada “Sociedade para a difusão do Conhecimento Espírita”, entre cujos membros, contava com um Juiz, Edmonds, e o governador de Wisconsin, Tallmadge.

Poucos anos após os acontecimentos de Hydesville, as mesas girantes se tornaram um modismo na Europa, sensação nas reuniões dos círculos abastados da sociedade, sobretudo, em Paris e Lyon. Os jornais anunciavam esses fenômenos estranhos sem, contudo, indagar suas causas.

A “mesa girante” consistia num móvel redondo com três pés, à qual os participantes invocavam a manifestação de forças sobrenaturais. Com a suposta presença, a mesa dava saltos e girava, indicando as letras do alfabeto de acordo com os códigos estabelecidos.

O pensamento positivista estava em voga na Europa do século XIX e poucos atribuíam tais efeitos à manifestação demoníaca, ainda que o Santo Ofício condenasse as mesas em 1856, alegando que havia interferências do hipnotismo ou do magnetismo.

De fato, os magnetistas acreditavam que os fenômenos das mesas girantes poderiam ser causados por fluidos elétricos ou magnéticos, ou ainda, por algum outro tipo de manifestação desconhecida, porém similar. O fundador dessa filosofia – o magnetismo animal, também chamado de mesmerismo – foi o médico e filósofo austríaco Franz Anton Mesmer.

Para esse estudioso, que freqüentava círculos ocultistas e alquímicos em seu país, seguindo a linha do famoso místico Paracelsus, haveria correspondência entre o mundo exterior – o macrocosmo – e as diferentes partes do organismo – o microcosmo.

A tese de formatura de Mesmer em Medicina descrevia a influência planetária por intermédio de um fluído magnético universal com poderes sobre a matéria viva. Haveria ainda, o magnetismo animal que existiria em duas formas antagônicas, emanando nos lados direito e esquerdo do corpo humano. A cura das enfermidades ocorreria pela restauração do equilíbrio entre os fluidos. Baseado nessas premissas, elaborou uma terapia que consistia na fixação dos olhos e na aplicação de passes magnéticos com o uso das mãos.


O pedagogo Hippolyte-Léon Denizard Rivail, adepto de Mesmer, fazia parte da Sociedade de Magnetismo de Paris. E, a propósito, compartilhava da mesma opinião do Santo Ofício na condenação das mesas girantes.


Fonte:
Anderson C.F. Brettas: 
"Eurípedes Barsanulpho e o Collégio Allan Kardec: Capítulos de História da Educação e a Gênese do Espiritismo nas Terras do Alto Paranaíba e Triângulo Mineiro - 1907/1918. (Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do título de mestre junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação, sob a orientação do prof.º Dr. José Carlos Souza Araújo. Universidade Federal de Uberlândia - Faculdade de Educação -Programa de Pós-Graduação em Educação). Uberlândia, 2006.

O Livro dos Espíritos, de Allan Kardec

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Fundamentos da Filosofia Espírita

Embasado pela observação, comparação e verificação dos fatos, Denizard Rivail concluíra que ali estavam mesmo espíritos dos desencarnados. Um curioso paradoxo num século caracterizado pelo materialismo alemão, pelo positivismo francês, e pelo ceticismo; um dedicado discípulo do notável Pestallozi aplicava os métodos científicos empíricos no desvendamento e análise do mundo dos mortos.

A chamada doutrina espírita, sistematizada pelo pedagogo, já sob o pseudônimo de Allan Kardec, tem seu alicerce nos cinco livros publicados por ele que, reunidos, formam o pentatêuco kardequiano. Por intermédio dos médiuns, conduzia perguntas aos espíritos, que eram analisadas, comparadas e sistematizadas. O resultado dessa pesquisa foi “O Livro dos Espíritos”, publicado, pela primeira vez, em 1857, contendo 1018 perguntas e respostas sobre temas e questões que tangenciam a doutrina espírita. Posteriormente, outras obras seriam editadas: “O Livro dos Médiuns” (1861); “O Evangelho Segundo o Espiritismo” (1864); “O Céu e o Inferno” (1865); e “A Gênese” (1868). Em 1864, seria lançado um resumo da doutrina em “O que é o Espiritismo”, e, após sua morte, foi compilada “Obras Póstumas” (1890). Kardec lançou e dirigiu, ainda, a “Revue Spirite”, difundida sob sua responsabilidade por 11 anos, e fundou a “Société Parisienne d’Étude Spirites”, fatos que redundaram na forte expansão do movimento espírita francês, que logo atingiria nosso país (abordado no 2º Capítulo da presente, “Apropriação e disseminação do espiritismo no Brasil”).

Essa ampla expansão não pode ser descolada do turbilhão de crenças e filosofias que conviviam com o cientificismo europeu pelo viés do neocolonialismo. Noções como carma, corpo astral, reencarnação e outras similares vinham das colônias orientais da Inglaterra e da França. Mesmo na antigüidade, o conceito metempsicose – crença de que uma mesma alma pode animar sucessivamente corpos diversos, de homens, animais ou vegetais –, agregado por filósofos como Pitágoras ou Platão, estava presente nos textos Upanishadas, da milenar Índia. Todavia Kardec refutava a idéia de transmigração da alma de homens para animais; com uma perspectiva evolucionista, entendia que o espírito poderia estacionar, nunca retroceder ou degenerar.

O espiritismo, delimitado e designado no Brasil como kardecismo, pode ser compreendido como sistema complexo de pensamento, abarcando princípios filosóficos, científicos e religiosos. Seu eixo central é a idéia milenar baseada na doutrina hinduísta da reencarnação – com a diferença já assinalada – e a possibilidade concreta de comunicação entre os mortos – classificados, genericamente, como “espíritos desencarnados”– realizada por intermédio de pessoas dotadas de capacidade para o transe psiquíco, os médiuns, durante a sessão espírita (chamada de “mesa branca”, num contraponto às crenças afro-brasileiras, discriminadas como “baixo espiritismo”).

Num processo de sincretismo doutrinário, é acrescentado à lógica estrutural oriental da reencarnação o elemento essencial do cristianismo contido nos Evangelhos: a ética da caridade. Jesus Cristo é considerado a maior entidade já encarnada e governador espiritual do planeta, e Kardec entendeu que o maior mandamento é o amor ao próximo, considerado a virtude suprema.

Sucintamente, apresentamos um esboço do pensamento de Kardec exposto pelo autor ao longo de suas obras – o pentatêuco, além do “O que é o Espiritismo” e “As Obras Póstumas”. O espiritismo é uma ciência, compreendendo duas partes: uma experimental, sobre as manifestações em geral, e outra filosófica, sobre as manifestações inteligentes. A verdadeira doutrina espírita está no ensinamento dado pelos espíritos, e a aprendizagem ocorre por um estudo sério e continuado, feito no silêncio e recolhimento.

A rigor, os espíritos não são nem bons nem maus por natureza; são eles próprios que se melhoram, transitando de uma ordem inferior para uma superior. Assim, o aperfeiçoamento do espírito é o fruto de seu próprio trabalho e processo contínuo de educação, não podendo, numa única existência corpórea, adquirir todas as qualidades morais e intelectuais necessárias à condução do objetivo – a purificação, alcançada por uma sucessão de vidas, em cada uma adquirindo elementos no caminho do progresso “A encarnação não é imposta ao espírito, no princípio, como punição; ela é necessária ao cumprimento das ordens de Deus (...)”, enfatiza Kardec. “Os espíritos encarnados constituem a humanidade, que não é circunscrita à Terra, mas que povoa todos os mundos disseminados no espaço(...)”. A vida espiritual é a vida normal; a vida corpórea é transitória e passageira.

O esquecimento de existências anteriores é uma dádiva divina, sendo os homens poupados de lembranças, na maioria das vezes, dolorosas e penosas; por outro lado, a diversidade das aptidões inatas é a prova de que a alma já vivera. “Nenhum espírito está nas condições de não se melhorar nunca; de outro modo, estaria fatalmente destinado a uma eterna inferioridade, e escaparia da lei do progresso que rege, providencialmente, todas as criaturas”.
Outra categoria essencial à compreensão do pensamento kardequiano é a noção do livre arbítrio, preconizado nos primórdios do cristianismo por Santo Agostinho (354/430 d.C.):

Deus, sendo soberanamente justo, deve considerar igualmente todos os seus filhos; é por isso que dá a todos o mesmo ponto de partida, a mesma aptidão, as mesmas obrigações a cumprir e a mesma liberdade de agir [grifo do autor]; todo privilégio seria uma preferência, e toda preferência, uma injustiça. Mas a encarnação não é, para todos os Espíritos senão um estado transitório; é uma tarefa que Deus lhes impõem, na sua entrada na vida, como primeira prova que farão do seu livre arbítrio.

Na condição de movimento religioso, Kardec frisava que o espiritismo, longe de negar o Cristianismo e o Evangelho, os esclarecia e difundia à luz das novas revelações acerca do que o Cristo fez e disse.

[o espiritismo] traz a luz sobre os pontos obscuros de seus ensinamentos, de tal sorte que aqueles para quem certas partes do Evangelho eram ininteligíveis, ou pareciam inadmissíveis, as compreendem, sem esforço, com a ajuda do Espiritismo, e as admitem; vêem melhor a sua importância , e podem separar a realidade da alegoria; o Cristo lhes parece maior: não é mais simplesmente um filósofo, é um Messias divino [grifo do autor].

Uma plêiade de intelectuais diversos aderiram, em algum momento, às idéias apresentadas por Kardec, numa lista extensa, que inclui, entre outros, figuras como o astrônomo Camille Flammarion, o escritor Léon Denis, o antropólogo italiano Ernesto Bozzano, o escritor inglês Arthur Conan Doyle, imortalizado pelo clássico detetive Sherlock Holmes; Alexandre Dumas, outra celebridade da literatura universal; o médico italiano César Lombroso, psiquiatra forense, que se notabilizou pelos estudos no campo das relações físicas e mentais, que, mais tarde seriam, conhecidos como antropologia criminal.

Evidentemente, o espiritismo não ficaria imune a contestações e repressões. Apenas para ilustrar, dois episódios são notórios nesse meio. Em 1862, o padre Lepeyre, da Companhia de Jesus, chegou a afirmar que era mesmo possível o contato com os mortos, mas que os bons espíritos só se manifestavam dentro das igrejas e que, ademais, fora daquele ambiente só almas demoníacas surgiriam. Outro fato foi o denominado “auto-de-fé de Barcelona”, quando um livreiro francês, radicado na Espanha, Maurice Lachâtre, encomendou a Kardec seus livros para divulgá-los. Entretanto, não contava com a intolerância do bispo da cidade, que ordenou a apreensão e a incineração dos livros numa grande fogueira. Decerto, o gesto do clérigo, o último ato da inquisição espanhola, teve enorme eco na imprensa local e internacional, servindo para atiçar as curiosidades e divulgar o termo espiritismo. Mesmo no Brasil, certo padre, Oscar Quevedo, vem ganhando notoriedade, há décadas, no esforço de desmistificar os fenômenos espíritas pela vertente da parapsicologia.



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Fonte:
Anderson C.F. Brettas:
"Eurípedes Barsanulpho e o Collégio Allan Kardec: Capítulos de História da Educação e a Gênese do Espiritismo nas Terras do Alto Paranaíba e Triângulo Mineiro - 1907/1918. (Dissertação apresentada como requisito parcial para a obtenção do título de mestre junto ao Programa de Pós-Graduação em Educação, sob a orientação do prof.º Dr. José Carlos Souza Araújo. Universidade Federal de Uberlândia - Faculdade de Educação -Programa de Pós-Graduação em Educação). Uberlândia, 2006.

14/07/2014

As Religiões no Rio, de João do Rio

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João do Rio: uma novidade do século xx
           
A concepção da imprensa como uma empresa visando ao lucro chegou ao Brasil na medida em que o próprio sistema capitalista começava a se compor no país. Muito por isso, o jornal brasileiro vai demorar mais de cem anos para consolidar a técnica da pirâmide invertida nos textos (década de 1950), em comparação com o jornal produzido nos Estados Unidos.

Essa mudança começou a dar-se, substancialmente, na virada do século XIX para o século XX, como atesta Nelson Werneck Sodré:

Nos fins do século XIX, estava se tornando evidente, assim, a mudança na imprensa brasileira: a imprensa artesanal estava sendo substituída pela imprensa industrial. A imprensa brasileira se aproximava, pouco a pouco, dos padrões e das características peculiares a uma sociedade burguesa (SODRÉ, 1983, p. 281).

A transição do modelo de jornal partidário para uma empresa de comunicação começa já nas últimas décadas do século XIX. No entanto, trata-se de uma lenta passagem, muito devido ao momento turbulento em que se vivia. Com a ainda incipiente República que fora instaurada em 1889, os jornais de cunho político, com a predominância do artigo de fundo e da opinião, ainda tinham a sua função, uma vez que serviam como arma aos defensores do regime que fora combalido, o monárquico.

A imprensa se consolida como uma grande estrutura quando o regime republicano começa a se legitimar, pelos menos nas aparências. Como afirma Nelson Werneck Sodré, era uma República consolidada “em suas exterioridades formais”, pois o país passava por uma estagnação econômica, uma elevada carga tributária, além da estagnação política, com oligarquias absolutas gerindo o Estado como se fossem “fazendas particulares” (SODRÉ, 1983).

A imprensa de caráter artesanal, neste momento, predominava somente no interior, nas pequenas cidades, apenas circundando os jornais mais prósperos. Isso porque, nas grandes metrópoles, nas capitais, “já não havia lugar para esse tipo de imprensa”, pois o “jornal ingressara, efetiva e definitivamente, na fase industrial, era agora empresa” (SODRÉ 1983, p. 275).

Embora nessa época seja inegável o crescimento da imprensa como indústria de
notícias, que ali houve o princípio do soterramento do jornal individual em que a opinião valia mais do que qualquer outra coisa, a época dos 1900 no Brasil é ainda assim experimental, como atesta Carlos Eduardo Lins da Silva:

[...] a falta de condições na economia local de sustentar essa vontade faz com que ela se frustre, embora alguns jornais consigam sobreviver (como o Jornal do Brasil e o Estado de São Paulo, ambos inaugurados no século 19 e ainda hoje entre os 4 maiores diários do país). A fragilidade dessa ‗aventura industrial‘ até a segunda metade deste século é inquestionável (Apud Sales, 2006, p. 80).

Tem-se, ao mesmo tempo, no Brasil de 1900, um lento processo de desenvolvimento do capitalismo. E, como o jornalismo lida com o poder, essas mudanças refletem no jornal, e denotam uma contradição: há jornais com feições empresariais inseridos num contexto em que o poder se encontra numa fase pré-capitalista. Nelson Werneck Sodré aponta essa defasagem como forma de explicar o quão, à época, soava natural ao presidente Campos Sales13 comprar a opinião da imprensa “e de confessar nuamente essa conduta” (1983, p. 277).

Com a nova imprensa, muda-se, portanto, até como se compra o lado editorial de um jornal. Não há mais como comprar monetariamente o dono, haja vista a complexidade que foi atribuída à empresa jornalística; é preciso mais: o jornal a ser corrompido passou a receber negócios que proporcionassem dinheiro (SODRÉ, 1983).


Diante desse quadro, tem-se, nos primórdios do século XX, uma imprensa dividida pelo servilismo ao governo ou pela oposição ferrenha. Luís Edmundo apresentava um imenso pessimismo em relação ao jornalismo que se praticava à época, inclusive com uma carga de saudosismo do modo que se fazia jornalismo, que ele denomina de “aquele jornalismo desenvolto, após o grito do Ipiranga”. Segundo ele, o jornalismo, “na assomada do século em que vivemos, nada mais é do que um tráfico de espertos [...] à revelia das aspirações e interesses do país” (EDMUNDO Apud SODRÉ, 1983, p.279).



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Fonte:
Lucas Osório Rizzatti: “João do Rio: o escritor da vida real: a apuração jornalística e o texto de reportagem em A alma encantadora das ruas”. (Trabalho de conclusão de curso apresentado à Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo. Orientadora: Prof.ª Mestre Rosa Nívea Pedroso). Porto Alegre, 2009.

27/05/2014

A Bíblia Sagrada (Completa) - Antigo e Novo Testamento

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