27/12/15

De Profecia e Inquisição, de Padre Antônio Vieira

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DADOS BIOGRÁFICOS


O HOMEM

Vieira foi um homem “multidimensional”: sacerdote, diplomata, articulador político, missionário, teólogo. Nada pareceu estar fora da área do seu interesse. A exemplo dos grandes escultores medievais esforçou-se para fazer da sua vida uma imensa catedral, “para o maior louvor de Deus”, suspensa com as pedras da palavra, a gramática da fé e a sintaxe da prática. Enquanto outros utilizavam tijolos e argamassa, rochas esculpidas e vitrais, Vieira fez uso de substantivos, verbos e silogismos. O resultado é um colosso erguido sobre 15 tomos de sermões, conformando-se com mais de três milhões de palavras-pedras. Vieira, o “homem-catedral”, tem várias portas. Resta escolher como penetrar em um prédio tão magnífico que é sua a obra escrita há mais de três séculos. Eis o “imperador da língua portuguesa” como disse Pessoa.

Vieira viaja com a família para a Bahia e será na colônia onde passará a maior parte de seus dias no Brasil (52 dos 89 dos que viveu) e onde adquirirá seus primeiros conhecimentos formais, no então Colégio dos Jesuítas em Salvador. No Brasil, manifestará sua vocação religiosa e em maio de 1623, então com 15 anos, professa o noviciado na Companhia de Jesus e em 1634 obtém o mestrado em Artes.

No ano de 1634 Vieira recebe as ordens Sacerdotais e já em 1635 é encarregado da cadeira de Teologia do Colégio Jesuíta. Em 1640 ocorre o fim da União das Coroas Ibéricas, e D. João IV é aclamado rei de Portugal. Sem ter chegado a tempo essa notícia ao Brasil, Vieira proclama o Sermão pelo Bom Sucesso das Armas, evocando e elogiando o Rei Felipe IV da Espanha. Quando chega a caravela anunciando a revolução libertadora e o novo rei, Vieira, certamente como todos os moradores e o vice-rei, fica confuso, mas adere sem titubeio à nova situação.

Em 1641, D. Fernando Mascarenhas, o Padre Antonio Vieira e o Padre Simão de Vasconcelos, são enviados a Lisboa a fim de jurar obediência ao novo rei português, pelo Marquês de Montalvão. Nesse mesmo ano quando da Invasão Holandesa de Salvador, Vieira refugiou-se no interior do Estado, onde iniciou a sua vocação missionária. Um ano depois tomou os votos de castidade, pobreza e obediência, abandonando o noviciado. Não partindo imediatamente para as missões, aprofundou seus estudos de Teologia, Lógica, Física, Metafísica, Matemática e Economia. Após a Restauração da Independência (1640. Em 1641, iniciou a carreira diplomática pois integrou a missão que veio a Portugal prestar obediência ao novo monarca impondo-se pela força de sua retórica e personalidade.

Foi então nomeado pregador real. Seu primeiro sermão (“Sermão dos Bons Anos”), pregado em Lisboa, no dia 1º de Janeiro de 1642, foi um sucesso absoluto. A partir daí, a disputa de lugares na igreja se tornou corrente a expressão “mandar lançar madrugada em São Roque”, devido ao ineditismo dos temas, o arrojo da abordagem e a clareza de seus conceitos, Em 1646 foi enviado à Holanda, no ano seguinte à França, com encargos diplomáticos com o objetivo de negociar junto aos Países Baixos a devolução do Nordeste. Esse episódio deixará duas marcas em sua história: o epíteto de “Judas do Brasil”, por ter sugerido que Portugal entregasse a colônia em troca de capitanias na África e o contato com os primeiros judeus, cristãos-novos, de quem se tornará um defensor e por quem será condenado pela Inquisição posteriormente.

Suas idéias pró-judeus não agradaram muito às elites e ao povo português. Após alguns conflitos acabou voltando ao Brasil e entre 1652 e 1661, atuou como missionário no Maranhão e no Grão-Pará, passando então à defesa enérgica da liberdade dos índios. Com a morte de D. João IV, seu amigo e protetor, voltou tornando-se confessor da Regente, D. Luísa de Gusmão. Com a morte de D. Afonso VI, Vieira não encontrou mais apoio nas cortes lusitanas.

Seu último período de atuação pública foi marcado pelas idéias utópicas (as profecias sebásticas e o Quinto Império) que fez com que entrasse em um perigoso conflito com a Inquisição. Com base em uma de suas cartas dirigidas ao bispo do Japão,em 1659, na qual expunha sua teoria do Quinto Império, segundo a qual Portugal estaria predestinado a ser a cabeça de um grande império do futuro, foi acusado de heresia e obrigado a comparecer ao Tribunal da Santa Inquisição.

É então expulso de Lisboa, desterrado e encarcerado no Porto e depois encarcerado em Coimbra, enquanto os jesuítas perdiam seus privilégios. Como conseqüência de sua defesa da causa indígena foi quase linchado e expulso pelos colonos do Brasil em 1661. Em 1667 foi condenado a internamento e proibido de pregar, mas seis meses depois, a pena foi anulada. Após voltar de Roma em 1671 passou a combater a influência da Inquisição e a união com os cristãos-novos que estavam sofrendo perseguição, mas não conseguiu persuadir a corte dessa vez.

Desiludido com a política palaciana decidiu voltar outra vez para o Brasil, em 1681. Sua partida de Portugal foi acompanhada de grande júbilo, tendo sido realizado inclusive um “auto de fé” em sua homenagem em que um boneco vestido com os trajes jesuítas foi queimado com gritos de: “Vieira, vendido aos judeus e quiçá judeu também ele!”

Em 1688 foi nomeado, então com 80 anos, visitador da Companhia no Brasil, cargo que cumprirá com dificuldades e determinação até 1691. Já velho e doente sofrendo as conseqüências de um intensa militância e de vários anos no cárcere afasta-se da vida pública, dedicou-se à tarefa de continuar a escrever suas obras, visando a edição completa em 15 volumes dos seus Sermões, iniciada em 1679, e a conclusão da Clavis Prophetarum, obra que considerava a mais importante de sua carreira. Em 1694, após cair de uma escada, perde a capacidade de escrever de seu próprio punho e em 10 de junho começou sentir a chegada da morte. Em 18 de julho de 1697, perdeu a voz, silenciaram-se seus discursos. Morria Vieira aos 89 anos de idade. Eis a história do homem Antonio Vieira, padre jesuíta do século XVII.



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Fonte:

Rodson Ricardo Souza do Nascimento: “O púlpito como cátedra: retórica e educação nos sermões do Pe. Antônio Vieira: 1608-1697”. (Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Rio Grande do Norte, como exigência para a obtenção do título de Doutor em Educação, sob a orientação do Prof. Dr. José Willington Germano). Natal, 2007.

A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.
As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

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