11/01/14

Vários Artigos de Euclides da Cunha

 Euclides da Cunha - Varios Artigos - Iba Mendes
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Euclides da Cunha, viajante naturalista

Ao se deparar com o rio Amazonas pela primeira vez, ficou desapontado com a visão, que não correspondia àquela imagem pré-figurada, alimentada pela leitura de tantos relatos de viajantes. Euclides confessou seu desapontamento em uma carta, escrita dias depois, ao amigo Oliveira Lima:

Quanta coisa a dizer! – o desapontamento que me causou o Amazonas, menos que o Amazonas que eu trazia na imaginação; a estranha tristeza que nos causa esta terra amplíssima, maravilhosa e chata, sem um relevo onde o olhar descanse; e, principalmente, o tumulto, a desordem indescritível, a grande vida à gandaia dos que a habitam... estou numa verdadeira sobrecarga de impressões todas novas, todas vivíssimas e empolgantes. Preciso de uma situação de equilíbrio para o espírito.

“Euclides navega pelos rios Amazonas e Purus com mapas na mão e relatos na cabeça”, afirmou Roberto Ventura. O autor de Os Sertões esperava encontrar a paisagem grandiosa, objeto de contemplação e inspiração dos viajantes que por lá passaram. Em suma, esperava encontrar uma paisagem que havia imaginado e que lhe causasse uma “impressão empolgante”, construída pelas leituras. Contudo, a impressão que teve foi a de um cenário “de todo em todo inferior a um sem-número de outros lugares de nosso país”, “monótono” e que cansava as vistas do observador, com sua uniformidade de relevo e a extensão das águas.

Por isso o desapontamento.

Para uma melhor compreensão desse desapontamento, vale citar dois trechos extraídos das narrativas do casal Agassiz e de Spix & Martius em suas passagens pela região. Sobre o Vale do Amazonas, os Agassiz escreveram:

Tudo o que se ouve contar, tudo o que se lê a respeito da grandeza do Amazonas e seus tributários é incapaz de dar uma idéia da imensidão do seu conjunto. É preciso navegar meses inteiros nessa bacia gigantesca para compreender até que grau extraordinário a água aí subjuga a terra. Esse labirinto aqüoso é bem mais um oceano d'água doce, cortado e dividido pela terra, do que uma rede fluvial. Propriamente falando, o vale não é um vale, é um leito periodicamente descoberto; e deixa de parecer estranho, quando se examinam as coisas sob esse ponto de vista, que a floresta seja menos repleta de vida do que os rios.

E os naturalistas Spix e Martius relataram suas impressões da chegada:

Quando o sol do dia 25 de julho nasceu no claro horizonte, iluminou em torno de nós um labirinto de ilhas grandes e pequenas, e, no fundo do painel, a margem do continente e da fronteira Ilha de Marajó. Ostentava-se cerrada, alta, verde, pujante, a mata em volta, solene e tranqüila, como se acabasse justamente de surgir das águas criadoras. Peixes em cardumes evoluíam rápido na correnteza, e aves de variada plumagem, pousadas nos galhos floridos, pareciam os únicos habitantes daquela grandiosa solidão até que colunas de fumaça azul, elevando-se do seio da mata vivente, significavam-nos a existência dos senhores da terra, como aqui, onde em exuberante plenitude, o mundo das plantas brota de todos os lados, fertilizado pelos raios do sol eqüatorial, acima das águas fecundantes. Este cenário da força criadora do planeta renovava-se continuamente aos nossos olhos, na sua grandiosidade uniforme, quanto mais nos aproximávamos da cidade.

As duas narrativas revelam as impressões que os viajantes tiveram do rio Amazonas. Os relatos dos naturalistas bávaros referem-se, inclusive, ao mesmo ponto de observação: a desembocadura do rio. Diferentemente de Euclides, esses viajantes encontraram a “grandiosidade” da paisagem, a “exuberante plenitude” e a “imensidão de seu conjunto”. Em seu discurso de recepção na Academia Brasileira de Letras, proferido após o retorno ao Rio de Janeiro, Euclides revelou aos acadêmicos o seu desapontamento. Afirmou que esperava sentir o que sentira Hartt e Bates, o que não havia ocorrido. Então, pôs-se a escrever páginas e mais páginas em sua caderneta, elogiando aquele cenário. Por fim, rasgou o que tinha escrito, por considerá-las “páginas inúteis”, sentimentos “inexpressivos” e “vazios”. Ao escrever forçava uma impressão que não tivera.

A natureza passou a ser – principalmente por aqueles que estavam distantes dela – idealizada e até mitificada pelos homens, por volta do final do setecentos. Os relatos de viagens, nos diz Márcia Naxara, provocavam nos leitores a sensação de uma proximidade com essa natureza distante. As viagens pitorescas e as narrativas que as sucedem são pois “construídas culturalmente” e o que se procura está, pelo menos em parte, presente na mente e na imaginação daqueles que as produzem. É possível, dessa forma, compreender a decepção do escritor e sua insistente procura pela paisagem imaginada.

Falemos um pouco sobre esses viajantes que tanto contribuíram para a interpretação de Euclides sobre a Amazônia. A partir do século XVIII, a busca do homem em obter um maior conhecimento da natureza e da sociedade, trouxe um novo alento às viagens ultramarinas, realizadas por interesses artísticos e científicos, visando uma ampla apreensão do mundo e pautadas pelo desenvolvimento da ciência e pelo surgimento de novas sensibilidades diante do mundo natural.

Essas viagens foram difundidas e incentivadas pelas academias e sociedades científicas com o intuito de melhor conhecer as potencialidades das colônias (minérios, flora, fauna, hidrografia), para melhor aproveitá-las, de acordo com os interesses econômicos e expansionistas da época. Munidos de instrumentos e aparelhos, os naturalistas cruzaram os oceanos para observar, coletar, registrar, inventariar, sistematizar e classificar, em suma, tornar conhecidas as espécies e os recursos disponíveis na natureza. Sobre tais “viagens filosóficas”, Alexandre Rodrigues Ferreira comentou:

Do que tenho visto, e informado separadamente, apresento agora este extracto pela razão, que vou dizer; porque, comprehendendo a historia philosophica e política de todo qualquer estabelecimento um grande numero de observações dependentes de muitos conhecimentos, ou sejam simples ou combinados, é quazi impossível, ainda aos que têm a memoria bastantemente cultivada, têl-os todos presentes, para uzar d'elles, quando a occasião o pedir.

Segundo Karen Macknow Lisboa havia também nessas viagens, uma preocupação em “apagar os resquícios de uma geografia e cartografia outrora fantásticas”. Entretanto, essa procura em esclarecer os mitos e as lendas propagadas na era dos descobrimentos (século XVI), apesar de própria do pensamento ilustrado e do racionalismo científico da época, contrastava com a “curiosidade” e “imaginação”, que cercavam os viajantes e as descrições do Novo Mundo.

Motivadas por “razões científicas”, estenderam-se pelo oitocentos, principalmente com a vinda da família real, em 1808, e a autorização para a entrada de viajantes estrangeiros no país. Márcia Naxara ressalta que, na segunda metade do século XIX, as viagens e observações científicas tomaram novas proporções, com o debate acerca do evolucionismo, no qual a natureza e o homem americanos ocuparam um importante papel. Foi ainda no XIX, aponta a autora, que ocorreu a “valorização da subjetividade” na observação da natureza. Uma valorização que acompanhava o espírito romântico da época e se deu simultaneamente ao interesse pelo conhecimento científico. Às pretensas objetividade e neutralidade dos viajantes naturalistas, somavam-se a contemplação e exaltação da natureza, no qual sensações e emoções, provocadas pelo contato com esse cenário, tomavam o corpo e a mente desses homens, levando-os a expressarem suas impressões e sentimentos, através da palavra e da representação pictórica.

Como resultado dessas expedições – e forma de divulgação das observações científicas e das impressões sobre a natureza –, encontramos os relatos, narrativas, descrições e diários de viagem. Karen Lisboa acentua que o “deslocamento físico do autor pelo espaço geográfico, por tempo determinado” e a posterior “transformação do observado e do vivido em narrativa” é a condição indispensável para caracterizar um texto como “literatura de viagens”. Num primeiro momento, ao apresentar descrições e imagens do Brasil, essa literatura dialogava com o público leitor europeu e, como realçou Flora Süssekind, essa produção intelectual, ao longo do século XIX, foi importante para afirmar a unidade e coesão nacional (num momento de construção de identidades) e mostrar ao brasileiro, como deveria ser visto o Brasil.

Outro aspecto que marcou a produção dessa literatura foi a descrição da fauna, da flora, da vida social, das relações de trabalho e da economia, realizada pelos viajantes, independentemente das razões de sua viagem. A experiência da viagem deveria ser sempre relatada e, no caso dos naturalistas, juntamente com o registro e a coleta do material. “Vale o vivido, se escrito”, afirmou Süssekind. Era também através do escrito, que aqueles que não podiam se deslocar experimentavam a sensação dos viajantes.

Seduzidos pelo que consideravam “exótico” e “desconhecido” e atraídos pelas “maravilhas” e “mistérios” presentes nas narrativas dos tempos das conquistas, esses viajantes, antes mesmo de embarcarem, já tinham uma imagem “pré-concebida” da paisagem brasileira, o que permite compreender a dificuldade em fundar uma imagem original e “singular” da paisagem e do Brasil, como um todo. O ponto de vista a ser adotado era sempre “pré-dado” ou “previamente determinado” pelos escritos anteriores, que moldavam a visão e a imaginação. A declaração de Alfred Russel-Wallace ilustra o peso desse imaginário: “Entrementes, nossos cérebros estavam ocupados visualizando as maravilhosas cenas que deveríamos contemplar em seus escuros recessos, e ansiávamos pelo tempo em que teríamos a necessária liberdade de explorá-las”.

Ao falar do desapontamento de Euclides da Cunha, Flora Süssekind afirma que tal sensação não deve ser atribuída apenas à imagem ideal formada por suas leituras dos relatos de viajantes, mas também a “intensidade da expectativa” e a “imagem prévia”, foram decisivas. Um olhar armado pelas leituras, mas desarmado pelo surgimento da paisagem: “É a partir desse confronto entre olhar previamente direcionado, paisagem real e olhar agora desarmado – mas consciente da figuração utópica que o habita - que Euclides constrói o seu relato sobre a Amazônia”.

Euclides da Cunha era um conhecedor desses relatos e não deixou apenas se levar pelas imagens pré-figuradas que traziam, mas também observou-os de modo crítico. O escritor ressaltou, em primeiro lugar, a dificuldade de conhecer a totalidade da Amazônia, fator que resultou em uma série de estudos específicos de botânica, zoologia, geologia, entre outras áreas; em segundo lugar, criticou a presença dos viajantes em um único ponto (geralmente o rio Amazonas), não explorando outras localidades da região. A partir dessas duas características levantadas, Euclides afirmou que os viajantes “reduziram-se a geniais escrevedores de monografias”.

Entre os apontamentos feitos por Arthur Cézar Ferreira Reis, encontramos duas observações, a nosso ver, pertinentes à análise das relações entre Euclides da Cunha e os viajantes que passaram pela Amazônia. Reis questiona se o pouco tempo em que Euclides ficou na região (um ano) e o reduzido campo geográfico de observação (o rio Purus) foram suficientes para alcançar as conclusões apresentadas em seus estudos. Como vimos, ao falar desses viajantes, Euclides pontuou que “nenhum deixou a calha principal do grande vale”, mas é possível verificar que ele também construiu a sua interpretação de modo semelhante, sem explorar outras áreas.

O escritor fez alusão também às descrições e análises dos viajantes em suas narrativas e relatos, no qual as hipóteses científicas se misturam com os mitos e com as fantasias, isto é, com todo um imaginário criado em torno da região, de forma que: “[...] às induções avantajam-se demasiado os lances da fantasia. As verdades desfecham em hipérboles”. Porém, mesmo consciente desse amálgama entre ciência e imaginação, podemos notar que ele não conseguiu (ou não quis) abandonar essas descrições, em detrimento da visão de um “Amazonas real”.

Ansioso em partir logo para as cabeceiras do Purus, colocou-se em uma posição semelhante à dos viajantes, atiçado pela curiosidade:

[...] Não te direi os dias que aqui passo, a aguardar o meu deserto, o meu deserto bravio e salvador onde pretendo entrar com os arremessos britânicos de Livingstone e a desesperança italiana de um Lara, em busca de um capítulo novo no romance mal-arranjado desta minha vida.

Em outras correspondências, remetidas ainda em Manaus, refere-se à sua viagem como uma “partida rumo ao desconhecido”, onde iria “se perder nas tristes solidões”. Esperava uma viagem repleta de adversidades: “Mas nem quero imaginar os empeços, as dificuldades, os perigos e até as torturas que nos esperam...” Tomado por esse imaginário, provavelmente alimentado pelo que leu e ouviu dizer, Euclides da Cunha, ao que parece, demonstrava compartilhar dessas idéias fantasiosas e ansiava, realmente, encontrar, uma Amazônia que possuísse mistérios a desvendar, outra característica que aproxima a sua interpretação à tradição dos viajantes do XVIII e XIX.

O encanto com o cenário natural amazônico só veio a acontecer depois da leitura de uma monografia, fornecida por Jacques Huber, que o escritor leu durante toda uma madrugada e que lhe despertou a “comoção” até então não sentida. Euclides da Cunha passou a ver com outros olhos a “superfície lisa” e “barrenta”; o rio e a vegetação passaram a ter um novo aspecto.


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Fonte:
Fabrício Leonardo Ribeiro: “Febre na Selva: A Amazônia na interpretação de Euclides da Cunha”. (Dissertação de Mestrado, apresentada ao Programa de Pós-graduação em História da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Faculdade de História, Direito e Serviço Social, para obtenção do Título de Mestre em História. Orientadora: Prof (a). Dr (a). Márcia Regina Capelari Naxara.). Franca, 2007.

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