02/03/14

Livro das Donas e Donzelas, de Júlia Lopes de Almeida

 Livro das Donas e Donzelas, de Júlia Lopes de Almeida
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Livro das Noivas (1896)

Estado incerto, dúbio, o da noiva, ao ver aproximar-se a hora do seu casamento. Tudo em que não pensou durante meses, muitas vezes anos, ocorre-lhe no último dia ao pensamento. Sente-se feliz; sente-se desditosa!

Em fins do século XIX e começo do XX Júlia se preocupou com a instrução das moças, noivas, mães e donzelas da sociedade carioca. Para isso, a mesma encarregou-se da tarefa de escrever o compêndio Livro das Noivas (1896). A necessidade de se escrever um livro deste porte se deu no quadro de mudanças em que se encontrava a capital fluminense, pois havia um processo de transição na sociedade, em que essa passaria de senhorial, com base essencialmente agrária, para uma burguesia, progressivamente urbana e industrial.

Neste sentido, as mulheres se dedicariam e se adaptariam às novas relações sociais da cidade, bem como aos desafios da educação e formação profissional, em contrapartida à vida anterior a esta mudança, em que se dedicavam ao trabalho privado da casa. Sob a égide da República que alvorecia e preocupada com a reviravolta que ocorria no universo feminino a partir de então, Júlia Lopes de Almeida escreveu este primeiro livro voltado para as moças inexperientes que tinham a intenção de se casar.

No que se refere à materialidade, elemento de adornamento para alguns, mas que têm muita importância na pesquisa histórica, como bem mostrou Tania Regina de Luca, é importante estar atento aos “aspectos que envolvem a materialidade dos impressos e seus suportes, que nada têm de natural”. É preciso perceber as “condições técnicas de produção vigentes e a averiguação, dentre tudo que se dispunha, do que foi escolhido e por quê”. Ao manusear o primeiro manual de ciências domésticas de Júlia Lopes de Almeida notou-se a clara função social desses impressos, visto que não eram endereçados a qualquer público, e sim, destinados às moças leitoras das famílias da elite fluminense. Conforme pode-se constar em vários exemplares, O Livro das noivas foi confeccionado com todo o aparato técnico que até então dispunham as tipografias da época.

Trazia a capa dura em vermelho, adornado com uma flor branca e verde e escrito em dourado. Continha tanto os nomes – do livro e da autora – como a imagem da flor em alto-relevo. Segundo Joaquim Marçal Ferreira de Andrade, foi devido ao desenvolvimento do processo chamado autotipia pelo alemão George Meisenbach, patenteada em 1882, que ocorreu uma verdadeira revolução na imprensa ilustrada da época.

Nele, a imagem original de tons contínuos era reproduzida através de uma malha (ou retícula) de vidro, sendo então fragmentada em pequenos pontos, distribuídos de maneira regular e cujo tamanho variava em função da tonalidade específica de cada área da imagem. Através desse processo, gravava-se uma chapa denominada clichê, onde os pontos em alto-relevo, correspondiam as áreas escuras da imagem.

No que diz respeito à ilustração, teve a colaboração dos desenhos de E. Casanova, Roque Gameiro e Julião Machado. Este último,foi considerado por muitos o “pai da caricatura no Brasil” devido à colaboração em periódicos como o Jornal do Brasil e Gazeta de Notícias, o que o tornou um dos mais influentes ilustradores na virada do século.

Cabe destacar no livro o tom de intimidade com que a escritora conduziu a narrativa, recurso utilizado para seduzir o seu público leitor. Como bem lembrado por Lajolo e Zilberman, este auxílio teve êxito para a formação de uma sociedade leitora, que só por volta da segunda metade do século XIX, momento em que o Rio de Janeiro passou a exibir traços necessários para a formação e o fortalecimento de um público leitor. Tal auxílio estava materializado nos mecanismos mínimos para a produção e a circulação da literatura, como tipografias, livrarias e bibliotecas. Observa-se que a escolarização era precária, mas manifestava-se o movimento visando à melhoria do sistema, e o capitalismo ensaiava seus primeiros passos graças à expansão da cafeicultura e dos interesses econômicos britânicos.

Em capítulo intitulado “A construção do Leitor”, Lajolo & Zilberman dão exemplos de como foi a estratégia de sedução do público leitor ainda em formação e a consolidação do espaço para que suas obras nascessem, crescessem e se multiplicassem.

Ao publicar Memórias de um sargento de milícias (1852-1853), Manuel de Antonio de Almeida tomou cuidado diante da formação de tal público, sendo representativo seu empenho em tratar o leitor como frágil e despreparado. O escritor parecia conduzir o leitor pela mão, como se o caminho a percorrer – leia-se leitura autônoma da obra – fosse difícil.

Outra conduta bastante frequente do literato, nesse primeiro momento da formação do leitor no Brasil, foi simular reações do leitor e legitimá-las, dando-lhe razão, sugerindo indiretamente sua competência e, às vezes, até mesmo sua superioridade. Indicativas dessa cortesia de salão são expressões que aludem ao fato de o leitor já ter adivinhado o que estaria acontecendo ou ser suficientemente perspicaz para compreender o que se passa e tirar conclusões próprias.

Tais estratégias, se não garantem ao narrador a fidelidade do leitor a um texto que se prolonga, estreitam a cumplicidade entre ambos: o leitor é uma figura para quem se conta, em segredo, os acontecimentos da trama.

A técnica, também aplicada aos romances-folhetins, se adensou na época, tanto que foi mantida no desenrolar do gênero romance e reapareceu anos mais tarde na obra de Machado de Assis. No conto “Questão de vaidade”, datado de 1864, parece não haver limite para o esforço do narrador em estabelecer um clima de intimidade com o leitor. Com este objetivo, Machado traçou um cenário em que o autor e o leitor compartilharam um ambiente comum, íntimo e propício ao desfiar de histórias, ficcionais ou verídicas, como se verá no segmento a seguir, necessariamente longo para exemplificar a contento o que se afirma:

Suponha o leitor que somos conhecidos velhos. Estamos ambos entre as quatro paredes de uma sala; o leitor assentado em uma cadeira com as pernas sobre a mesa, à moda americana, eu a fio comprido em uma rede do Pará que se balouça voluptosamente, à moda brasileira, ambos enchendo o ar de leves e caprichosas fumaças, à moda de toda a gente.

Imagine mais que é noite. A janela aberta deixa entrar as brisas aromáticas do jardim, por entre cujos arbustos se descobre a lua surgindo em um límpido horizonte.

Sobre a mesa ferve em aparelho próprio um pouca de água para fazer uma tintura de chá. Não sei se o leitor adora como eu a deliciosa folha da Índia. Se não, pode mandar vir café e fazer com a mesma água a bebida de sua predileção.

Ora, como é noite, e como não hajam cuidados para nós, temos ambos percorrido toda a planície do passado, apanhando a folha do arbusto que secou ou a ruína do edifício que abateu.

Do passado vamos ao presente, e as nossas mais íntimas confidências se trocam com aquela abundância de coração própria dos moços, dos namorados e dos poetas.

Finalmente, nem o futuro nos escapa. Com o mágico pincel da imaginação traçamos e colorimos os quadros mais grandiosos, aos quais damos as cores de nossas esperanças e de nossa confiança.

Suponha o leitor que temos feito tudo isto e nos apercebemos de que, ao terminar a nossa viagem pelo tempo, é já meia-noite. Seriam horas de dormir se tivéssemos sono, mas cada qual de nós, avivando o espírito pela conversação, mais e mais deseja estar acordado.

Então o leitor que é perspicaz e apto para sofrer uma narrativa de princípio a fim, descobre que eu também me entrego aos contos e novelas, e pede que lhe forje alguma coisa do gênero.

E eu para ir mais ao encontro dos desejos do leitor imaginoso, não lhe forjo nada, alinhavo alguns episódios de uma história que sei, história verdadeira, cheia de interesse e vida. E para melhor convencer o meu leitor vou tirar de uma gaveta algumas cartas em papel amarelado, e antes de começar a narrativa, leio-as, para orientá-lo no que vou lhe contar.

O leitor arranja as suas pernas, muda de charuto, e tira da algibeira um lenço para o caso de ser preciso derramar algumas lágrimas. E, feito isso, ouve as minhas cartas e as minhas narrativas.

Suponha o leitor tudo isto e tome as páginas que vai ler como uma conversa à noite, sem pretensão nem desejo de publicidade.

Anos mais tarde, com a mesma proposta dos escritores Manuel Antonio de Almeida e Machado de Assis, é a vez de Júlia Lopes conduzir uma narrativa íntima com suas leitoras. A relação é de estreita intimidade tanto que por todo o livro vê-se a escritora chamar seu público leitor de “amigas”. Para respaldar esta aproximação, ela apresentou-se no livro como uma “velha conhecida” para suas leitoras. Aquela que vivenciara várias experiências comuns a todas as outras mulheres, entre elas, mães, moças, senhoras e noivas com quem Júlia procurou dialogar e ter uma íntima relação. Este tom fica claro nas palavras “as minhas leitoras que me desculpem, lembrando-se que isto não é literatura, mas uma palestra apenas”.

O livro é dividido em três partes. A primeira consiste nas seguintes crônicas: “O dia do casamento”, “Saber ser pobre”, “A roupa branca”, “A poesia da vida”, “Os doentes”, “Os livros”, “Belas artes”, “Concessões para a felicidade”, “Os bailes”, “As jóias”, “Os pobres”, “Falta de tempo”, “Carta a uma noiva”. Nesta primeira parte, o conselho foi dirigido às damas e donzelas nubentes, que aspiravam ensinamentos referentes ao grande dia de suas vidas, o casamento. Essas crônicas também pretendiam instruir em relação à convivência social, ao saber portar-se em situação de pobreza, com observações referentes ao altruísmo e, o principal eixo que praticamente em todas as suas obras pode-se encontrar, o incentivo à leitura. Percebe-se na narrativa uma preocupação em preparar as noivas para os conflitos que envolvem o casamento, o comportamento adequado e os primeiros anos de convivência em uma situação de estreita intimidade com o futuro marido.

Já na segunda parte figuram os seguintes textos: “A mesa”, “A cozinha”, “Os animais”, “As aves”, “Os criados”, “Notas de uma ménagère”, “Floricultura”, “Horticultura”, “Da sala à cozinha”. Nesses, os ensinamentos destinam-se às mulheres que já se encontravam casadas. As instruções recaíam no aperfeiçoamento da mulher em relação aos seus afazeres de ménagere: como se portar em determinadas situações domésticas, de que maneira organizar e disponibilizar os vários recintos da casa, qual deve ser a relação entre uma ménagere e um criado, além de sugestões para as mulheres aperfeiçoarem-se em floricultura e horticultura.

Por fim, no último capítulo podem ser vistas as crônicas: “Uma carta”, “Ser mãe”, “Entre dois berços”, “As crianças”, “Educação”, “Carinhosa hospitalidade” e “Carta de uma sogra”. Essa última parte concluiu a seqüência de pensamentos da autora, segundo a qual a mulher já se preparou para o matrimônio; tem conhecimento de como administrar um lar - tanto do ponto de vista físico, como arrumar e dispor os móveis pela casa - bem como tratar dos seus criados. Porém, ainda há uma última preocupação, com a incumbência de instruir as damas para serem mães. Como uma mãe deve se portar? Como educar seus filhos? E como às vezes uma sogra pode representar o papel de mãe de uma nora?

Apesar das três fases apresentadas por Júlia Lopes - noiva, esposa e mãe - a partir daqui, dividirá a análise em temáticas, dedicando-se primeiramente à higienização da família.


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Fonte:
Deivid Aparecido Costruba: “Conselho às minhas amigas”: Os manuais de ciências domésticas de Júlia Lopes de Almeida (1896 e 1906). (Dissertação apresentada à Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP – Universidade Estadual Paulista para a obtenção do título de Mestre em História (Área de conhecimento: História e Sociedade) Orientador: Prof. Dr. Milton Carlos Costa). Assis, 2011.

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