04/03/14

A Campanha Abolicionista, de José do Patrocínio

 A Campanha Abolicionista, de José do Patrocínio
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José do Patrocínio: um intelectual brasileiro do final do século XIX e início do XX
A imprensa, como lugar de fala de Patrocínio, foi também a porta-voz de idéias e valores de pessoas influentes na sociedade da Corte, da segunda metade do século XIX, principalmente por políticos que se faziam jornalistas. O jornalismo não era uma profissão que se aprendia na universidade e sim na prática cotidiana da redação, até porque não existia curso de jornalismo. Entretanto, não era qualquer um que assumia a edição / direção de um jornal, mas pessoas letradas e com reconhecimento suficiente para assumir tal cargo - os intelectuais.
Mas, como conceituar os intelectuais? Segundo o autor Jean-François Sirinelli a conceituação do termo intelectual passa por problemas que ele diagnostica de problema de “‘compreensão’ e ‘extensão’ do termo intelectual”.  A compreensão do que é intelectual interfere na sua extensão, que por sua vez pode englobar ou excluir, deste grupo, determinados elementos sociais/ profissões.
No entendimento de Jean-François Sirinelli podemos entender os intelectuais por meio de duas visões: a mais ampla, onde os intelectuais seriam os criadores e mediadores culturais; e a de proporção mais restrita, pela noção de engajamento social, com função reconhecida pela sociedade como peculiar, por ser fruto de um grupo que possui “notoriedade eventual ou [...] especialização [...]”.
Antonio Gramsci também se dedica a conceituar os intelectuais e a identificar a sua função social. Segundo Gramsci, em cada grupo social existem os intelectuais orgânicos, ou seja, intelectuais produzidos pela classe para formular e legitimar idéias e princípios, dando a classe “homogeneidade e consciência da própria função não apenas no campo econômico, mas também no social e no político.”  
Existe, ainda, outra categoria de intelectuais chamada de intelectual tradicional, assim intitulada por assumirem uma postura de neutralidade diante dos interesses defendidos por outros grupos sociais, se apresentando como uma categoria autônoma. No geral Gramsci considera todos os homens intelectuais, “mas nem todos os homens desempenham na sociedade a função de intelectuais", a diferença se estabelece na função que executa socialmente, a partir de uma especialização adquirida pela educação, ou seja, os intelectuais para Gramsci são aqueles que cumprem uma função organizada na sociedade.
Para Pierre Bordieu, os intelectuais são aqueles que detêm capital cultural, possuidores de uma competência técnica “[...] que lhes é reconhecida socialmente [...]" E este reconhecimento social imprime a necessidade dos intelectuais em marcar a sua diferenciação frente àqueles que não fazem parte de seu campo, impondo-se, assim, como singulares uma vez que seu universo estaria separado do mundo comum. O lugar próprio dos intelectuais é o campo intelectual, onde se estabelece suas categoria de seleção e consagração, onde formaliza o habitus do grupo e se institui as relações sociais de negociação e conflito, tendo em vista a acumulação de capitais específicos e o monopólio da autoridade científica e o domínio da técnica.
[...] o fato de pertencerem ao campo intelectual implica em interesses específicos, [...], cargos acadêmicos ou contratos editoriais, resenhas ou cargos universitários, e também sinais de reconhecimento e gratificações frequentemente imperceptíveis para quem não pertence ao universo em questão, mas através das quais ocorrem todos os tipos de pressões e censura sutis.
O campo é o formador de interesses, o que motiva o homem, dotado de um determinado habitus, a empreender a sua ação / estratégia dentro de uma determinada demanda social. O habitus, como esquemas fundamentais e categorias do pensamento socializadas, possibilita recuperar o indivíduo como agente da história, pois suas convicções e práticas são produtos possíveis de uma conjuntura e do campo do qual pertence. Assim, os indivíduos são situados histórica e socialmente. Por isso, considero enriquecedor trabalhar com os conceitos de campo intelectual e habitus de Pierre Bordieu.
O habitus nos permite compreender as estratégias de Patrocínio relacionadas à sociedade em que vivia, onde suas experiências em diversas instâncias (família, faculdade, imprensa, clubes) possibilitavam a reestruturação constante do habitus individual, da sua identidade. Assim, o indivíduo não é dotado de especificidades estranhas ao seu tempo quando tomado como objeto histórico.
É evidente que devemos fazer algumas ressalvas, quanto à utilização dos conceitos de campos e habitus formulados por Bordieu, uma vez que no período em destaque neste trabalho, fim do século XIX e início do XX, não existia uma autonomia para os intelectuais, o que implica na ausência de uma institucionalização do campo intelectual. No entanto, podemos já vislumbrar um encaminhamento neste sentido a partir de inúmeros fatores, como: a evidência na imprensa do conflito entre os diferentes projetos de nação (abolição, república, monarquia federativa, divisão ou monopolização da propriedade de terra); o compartilhamento, entre os intelectuais, da valorização da sua prática no jornal e no parlamento colocando-se como representantes do povo / da nação / dos escravos; e a consagração, dada pela sociedade e seus pares, aos intelectuais que alcançavam prestígio e autoridade. Dessa forma, podemos pensar a virada do século XIX para o XX como um encaminhamento para a institucionalização do campo intelectual com a profissionalização dos intelectuais.
A Academia Brasileira de Letras é um claro exemplo desse processo. Criada em 1897 com o intuito de ser um espaço para valorizar e estudar a língua e a literatura, um lugar da arte e não da política. E sentaram nas cadeiras da Academia Brasileira de Letras jornalistas, políticos e funcionários públicos que participavam ativamente da imprensa e do parlamento nas décadas finais do século XIX. José do Patrocínio já aparecia na primeira lista de intenção de membros, formulada por Lúcio de Mendonça durante a criação da instituição. Patrocínio acabou ocupando a cadeira de número 21 e escolheu como patrono o abolicionista Joaquim Serra.
Como podemos observar a discussão sobre a conceituação de intelectuais é complexa e ao mesmo tempo crucial para o entendimento e produção de uma história dos intelectuais. Os trabalhos, aqui apresentados, nos possibilitam algumas considerações, tais como: os intelectuais formam um grupo específico, com destaque e reconhecimento da sociedade e de seus pares; sua função está atrelada ao conhecimento adquirido.
Proponho pensar José do Patrocínio como intelectual do fim do século XIX e início do XX. Com formação universitária obtida no curso de Farmácia, pela Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, ingressou no jornalismo e aos poucos ganhou reconhecimento da sociedade como o jornalista abolicionista da Corte do Rio de Janeiro, graças às redes de amizades iniciadas na faculdade e a participação em sociedades e clubes, como o Clube Republicano de São Cristovão e posteriormente na Confederação Abolicionista, em 1883. Segundo Ana Carolina Feracin da Silva, José do Patrocínio acionou no início de sua carreira “os mecanismos de dependência para estabelecer-se socialmente", ou seja, a partir dos laços de amizades estabelecidos nos diversos espaços que freqüentava – faculdade, clubes, jornais – o jornalista abolicionista conseguiu se inserir “naquele mundo predominantemente branco e letrado".
Patrocínio conseguiu criar e aproveitar as oportunidades e, gradativamente, foi reconhecido como um renomado orador e jornalista. Reconhecimento dado pela sociedade e em especial pelos letrados, que dialogaram com Patrocínio na imprensa a favor ou contra ele. A sua ação como jornalista e abolicionista o incluiu no grupo dos intelectuais, ou seja, das pessoas reconhecidamente engajadas nas questões sociais e políticas do país, pessoas que formularam diversos projetos para o enquadramento da nação na civilização e no progresso tão sonhados nos anos finais do século XIX e início do XX.
A notoriedade, a especialização e o engajamento, de que fala Sirinelli, permitiram o ingresso de Patrocínio no grupo dos intelectuais, formado por advogados, médicos, políticos e funcionários públicos.
Por fim cabe ressaltar uma prática comum do habitus dos intelectuais brasileiros do fim do século XIX e início do XX, a retórica. Da prática jesuítica à reforma pombalina, a retórica esteve presente como disciplina nas escolas médias e superiores em Portugal. A arte de persuadir e convencer o público leitor / ouvinte esteve presente, no século XIX, nas discussões políticas do Parlamento e da imprensa. A virtude e competência eram qualidades de um perfeito orador, pois validavam tanto quem falava quanto os seus argumentos. Daí a presença, nos jornais e panfletos, de uma linguagem, por vezes, violenta, o excesso de verbalismo e figuras de linguagens. Para José Murilo de Carvalaho a retórica deve ser entendida como uma chave de compreensão dos textos do século XIX, levando em conta as seguintes características: relação estreita entre argumento e orador, a importância do auditório e o fato do campo da argumentação estar aberto a novos argumentos.
Nos anos finais do século XIX os conteúdos desta retórica passavam pela questão abolicionista e a forma ideal de governo – monarquia ou república – que gerou conflitos, tensões e também cordialidades entre os intelectuais. Patrocínio atuou na imprensa, nas conferências e comícios a serviço da causa abolicionista, onde foram constantes os conflitos entre os intelectuais que muitas vezes criavam seu próprio jornal para legitimar suas idéias políticas e sociais como expressões da Nação. A imprensa se instituiu como o lugar onde se estabeleciam as relações de poder e disputas, entre os intelectuais, pela construção e condução de um projeto nacional que direcionasse o Brasil para o progresso.
A escrita e a oratória de José do Patrocínio foram frequentemente pontuadas pelos seus contemporâneos como emotiva, quando desejava convencer seu público, e por vezes agressiva no ataque aos seus adversários, com intuito de desmoralizá-los.
Vejamos agora a imprensa, o lugar de atuação de Patrocínio ao longo de sua vida.


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Fonte:
Rita de Cássia Azevedo Ferreira de Vasconcelos: “República sim, escravidão não: O Republicanismo de José do Patrocínio e sua vivência na República”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal Fluminense. Mestrado em História Contemporânea I na Universidade Federal Fluminense. Orientador: Prof. Dr. Humberto Fernandes Machado). Niterói, 2011

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