15/06/14

Teatro Completo de Qorpo Santo

 Teatro Completo de Qorpo Santo
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A ressurreição da obra

Em 1966, no Clube de Leitura de Porto Alegre, são encenadas as comédias “Mateus e Mateusa”, “Eu sou vida; eu não sou morte” e “As relações naturais”, sob a direção de Antônio Carlos de Sena. A partir de então, outras montagens se seguiram, e a imprensa de Porto Alegre e do centro do país passou a atentar para a obra do escritor sul-riograndense. Essa encenação foi a consagração do trabalho do professor Guilhermino Cesar, que há anos tentava estudar e publicar a obra de Qorpo-Santo. Nessa época, apenas três dos nove volumes da Ensiqlopèdia qorpo-santense eram conhecidos: os de número II, IV e VII. O volume IV, que contém os textos dramáticos do autor devidamente datados, demonstra que Qorpo-Santo os escrevera entre janeiro e julho de 1866. Dos outros volumes constam poemas, reflexões, notas autobiográficas, observações cotidianas, culinária, projetos filosóficos, além de textos que teriam sido publicados no jornal A justiça.

Em 1967, no Correio da manhã, Décio Pignatari proclama que as peças do escritor são exemplos de metateatro, elogiando “o comando da meta-linguagem (sic), de alusão e crítica à linguagem romântica e ao teatro de costumes da época”. O artigo desse importante poeta e crítico literário ainda ressalta o valor do comediógrafo que, segundo ele, “emerge do passado para tonificar  um  pouco  a  anêmica  corrente  sangüínea  da  nossa  literatura dramática  e poética”. Além disso, Pignatari tece comentários sobre as três peças que havia lido na época, “Mateus e Mateusa”, “Eu sou vida; eu não sou morte” e “As relações naturais”, bem como relaciona o que chamou, em Qorpo-Santo, de meta-teatro, com os trabalhos de Ionesco e de Artaud. É o começo de uma crescente valorização que o século XX conferiria à obra de Qorpo-Santo.

No ano seguinte, a montagem de Antônio Carlos de Sena é levada para o Rio de Janeiro e merece uma análise de Yan Michalski, no Jornal do Brasil, onde o autor considera provável que o sul-riograndense seja o precursor mundial do teatro do absurdo. Além disso, elogia a imaginação, o humor e a constante ameaça de tragédia presentes em seu teatro, o que, segundo ele, lembra Beckett e Pinter. O ano de 1968 seria o da grande descoberta da obra de Qorpo-Santo. Três novas montagens teatrais são realizadas de fevereiro a junho, no Rio de Janeiro, e há, inclusive, a proibição de um espetáculo do Teatro Jovem, dirigido por Luiz Carlos Maciel, sob a acusação de adulteração do sentido da peça “As relações naturais”. No segundo semestre, a discussão acerca da descoberta de Qorpo-Santo causa furor em Porto Alegre: vários artigos são publicados na imprensa tentando esclarecer a real participação dos envolvidos na valorização do escritor, além de se criarem partidos antagônicos a favor de Aníbal Damasceno Ferreira e de Guilhermino Cesar, embora nenhum dos dois reivindicasse o título de descobridor.

Desde então, os trabalhos de pesquisa sobre Qorpo-Santo começam a se multiplicar. Entre eles, destacam-se: a compilação das peças do autor, empreendida por Guilhermino Cesar; uma tese de mestrado tratando de aspectos estéticos da obra de Qorpo-Santo, feita por Flávio Aguiar; a pesquisa de Leda Maria Martins, que estabeleceu relações entre o teatro de Qorpo-Santo e as inovações cênicas ocorridas na dramaturgia do século XX; um livro de Eudinyr Fraga, em que Qorpo-Santo é visto como um precursor do surrealismo; um romance de Luiz Antonio de Assis Brasil, tendo o comediógrafo como personagem principal; e a compilação de poemas do escritor realizada por Denise Espírito Santo.

O primeiro desses estudos, As relações naturais e outras comédias, foi publicado em 1969 pela Faculdade de Filosofia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul. Nesse livro, encontram-se  compiladas  nove  comédias  de  Qorpo-Santo,  com  anotações  e  prefácio  de Guilhermino Cesar. São elas: “As relações naturais”, “Mateus e Mateusa”, “Hoje sou um; e amanhã outro”, “Eu sou vida; eu não sou morte”, “Um credor da Fazenda Nacional”, “Um assovio”, “Certa entidade em busca de outra”, “Lanterna de fogo” e “Um parto”.

A obra apresenta trechos da Ensiqlopèdia onde Qorpo-Santo traça sua autobiografia, bem como traz os autos dos exames pelos quais o escritor passou devido aos distúrbios mentais e os despachos do juiz responsável. Também reproduz documentos históricos que oferecem dados sobre a morte do autor, os herdeiros e os bens, e traça a cronologia de sua obra dramática. O livro ainda relaciona o conteúdo dos volumes conhecidos da Ensiqlopèdia (que, na época, eram apenas três) e apresenta um estudo crítico sobre a obra de Qorpo-Santo.

No Estudo Crítico, Cesar afirma que, da Ensiqlopèdia, foram publicados, no mínimo, oito fascículos, dos quais apenas três seriam conhecidos (dois pertencentes ao Professor Dario de Bittencourt e um ao escritor Olyntho Sanmartin). O crítico explica a publicação da obra do escritor sul-riograndense como uma espécie de revide aos jornais da Província, que já não aceitavam seus textos:

Num desses momentos de paz que a Justiça, implacável, lhe concedeu, fundou a Tipografia Qorpo-Santo, à Rua General Câmara, esquina da Rua da Praia; e, como o fizera anteriormente em Alegrete, publicou seus escritos, tornando-se o editor de si mesmo. Desforrou-se, por essa forma, dos jornais gaúchos, que teimavam em recusar-lhe a colaboração. E assim se explica o aparecimento da Enciclopédia ou Seis Meses de uma Enfermidade, coletânea hoje absolutamente rara.

Ainda segundo Cesar, foi Olyntho Sanmartin quem começou a estudar a sério a poesia de Qorpo-Santo, em 1955. Mas assinala que, ao escrever a História da literatura do Rio Grande do Sul, publicada no ano seguinte, ele mesmo não encontrara nada de autoria do poeta e comediógrafo oitocentista nas bibliotecas e arquivos do país. E esclarece que fora Aníbal Damasceno  quem  lhe  indicara  o  professor  Dario  de  Bittencourt  como  detentor  de  um fascículo da Ensiqlopèdia.

Cesar também constata as diferenças que existem entre as peças do autor e o que era produzido pelo teatro da época:

Tais  comédias  não  são  nada  românticas,  quer  no  tema,  quer  na  linguagem  e  na atmosfera,  embora  seu  autor  houvesse  nascido  em  1829.  Apresentam  situações conflituosas peculiares à sociedade gaúcha do século XIX; e, do ponto de vista da expressão verbal, são verdadeiramente surpreendentes: desprezam por completo a linguagem ornamental – comum no melhor teatro da época.


Na linguagem, Qorpo-Santo é, então, analisado como um autor singular, cuja frase seca, sem adjetivos e inversões oracionais, com seu fluxo elocutivo despojado, não caíra no gosto do público mais afeito à declamação, à loquacidade, do que à ação, o que faz dele o mais atual dos autores de seu tempo.


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Fonte:
Douglas Ceccagno: “Ovelhas merinas: malditas feras: O imaginário social no teatro de Qorpo-Santo”. ( “Dissertação  apresentada  como  requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Letras e Cultura Regional, com concentração na área de Literatura e Cultura Regional, pela Universidade de Caxias do Sul. Orientador: Prof. Dr. João Claudio Arendt). Caxias do Sul – RS, 2006.

Notas:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade. Disponível em: www.laab.com.br

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