10/08/14

O Alfageme de Santarém (Teatro), de Almeida Garrett

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O Alfageme de Santarém. Análise da peça

Concebido, segundo se afirma no prefácio do livro, «em meados de 1839» e assinado em Benfica no 1º de Outubro de 1841, o texto que agora analisamos foi representado pela primeira vez «em março do anno seguinte, no theatro da rua dos Condes» (Amorim 1884: 678) e publicado na Imprensa Nacional em 1842 com um título duplo: O Alfageme de Santarém ou a Espada do Condestável. Curiosamente não aparece na capa o nome de Almeida Garrett, mas uma indicação de ser escrito «pelo auctor de Catão e Auto de Gil-Vicente».

Boa parte da constituição do teatro histórico, seja drama ou comédia, radica na escolha argumental e, em menor medida, na recriação de personagens da época, que em muitas ocasiões são conhecidos pelo público, factor que pode obrigar o autor a permanecer muito atento às características transmitidas por esse referente comum e a construir uma sequência minimamente fiel ao contado pelo discurso histórico.

No caso de O Alfageme de Santarém temos uma obra centrada nos acontecimentos que levaram à mudança de dinastia e à chegada ao trono português da dinastia de Avis. É sabido que este é um dos períodos mais relevantes da história portuguesa, símbolo desde muito cedo da independência do reino e, nomeadamente durante o século XIX, da vontade de autonomia e soberania do povo. Por isso, não resulta estranho Almeida Garrett afirmar no breve prefácio que acompanha a edição da obra:

Quiz-se pintar n’este quadro a face da sociedade em um dos grandes cataclysmos por que ella tem passado em Portugal. (Almeida Garrett 1842: 1)

E, com efeito, não deve ser por acaso que dos vinte e sete dramas históricos do período que vai de 1836 a 1856 – período de máxima efervescência na criação dramática garrettiana –descritos por Ana Isabel de Vasconcelos (2003: 495-551), seis são dedicados apenas a este breve período. Mas, no caso de O Alfageme de Santarém estamos perante o desenvolvimento de uma nova interpretação do episódio do Alfageme de Santarém, aparecido na Crónica do Condestável, como novamente afirma o autor:

Tomou para a primeira luz do quadro as principaes figuras da interessante anecdota da espada de Nun’alvares Pereira e da prophecia do alfageme de Santarem, tam sinceramente contada n’aquelle ingenuo stylo patriarchal da primeira «chronica do Condestabre», d’onde passou depois para os historiadores e poetas que a repettiram. (Almeida Garrett 1842: 1).

Neste sentido, a leitura do texto originário (vid. apêndice 1) e do drama que agora analisamos, resulta enormemente significativa, pois que oferece uma interpretação diferente dos dados básicos oferecidos no texto histórico. Com efeito, Garrett converte a acusação de “cismático” e pró-castelhano que fazem ao Alfageme no texto de origem, assim como o agradecimento de Nuno Álvares Pereira, não apenas num caso de “correcção” de uma espada, mas numa “correcção” de comportamento que se desenvolve à volta do trio amoroso Alfageme-Alda-Nuno. Todavia, a lição do Alfageme visa um objectivo mais amplo, uma vez que será também exemplo ao defender de maneira desinteressada a legitimidade dos infantes D. João e D. Dinis, filhos de D. Pedro I e D. Inês de Castro, e, nomeadamente, ao defender o povo, a quem considera verdadeiro protagonista da pátria, mesmo quando este se mostra volúvel e covarde, incapaz de assumir as suas responsabilidades (acto IV, cena V):

Essas armas que eu vos dei... para quê? Para defenderdes a vossa propria causa. A vossa causa que vós desertastes... que nunca defendestes; porque é ruím sinna do povo que nunca a sua causa soube defender (1842: 96)

Assim, a valentia e generosidade de Nuno Álvares Pereira converte-se numa verdadeira dívida pessoal e a posição ambígua do Alfageme numa atitude de extrema coerência. Por outras palavras, O Alfageme de Santarém propõe uma nova interpretação da história, quase diríamos que uma revisão. No entanto, fá-lo recolhendo os pontos básicos da narrativa original ao longo dos cinco actos, especialmente no primeiro e no quinto, onde concentra esta releitura dos factos narrados na Crónica do Condestável: a correcção da espada, o agradecimento ante a generosidade do Alfageme, a intervenção da sua mulher, a profecia que realiza da nomeação de Nuno Álvares Pereira como Conde de Ourém e o agradecimento deste último pelos serviços do Alfageme. Em qualquer caso, podemos afirmar já que a eleição de um argumento histórico é muito significativa. O passado apresenta-se como mais um conteúdo ideológico da peça.

No que ao tempo diz respeito, observamos que a acção se desenvolve entre o dia 8 de Dezembro de 1383 – como se verifica no parlamento de Mendo da cena 3 do acto IV (1842: 87) –, e o dia 15 de Agosto de 1385 – como explica Alda na primeira cena do acto V (1842: 116). No intervalo destes vinte meses encontramos uma série de personagens que agem e se preocupam pelos graves acontecimentos que o reino português está a viver, após a morte do rei D. Fernando e durante a regência da rainha D. Leonor, período de grande instabilidade e risco de absorção por parte da coroa castelhana. A nível formal, observamos que os acontecimentos são apresentados, como é habitual neste tipo de teatro (Ogando 2004: 95), nas primeiras cenas do acto I e nas dos actos IV e V, que se situam depois de duas elipses temporais, razão pela qual deve situar novamente o público e explicar o acontecido durante as elipses temporais.

Quanto à localização espacial, embora possa apresentar normalmente uma menor importância na configuração do drama histórico (Ogando 2004: 133), no caso d’O Alfageme de Santarém parece-nos muito relevante por várias razões. Primeiramente, pela unidade de espaço verificada nos cinco actos que, se não era o mais habitual nos dramas românticos, também não o era no teatro de Garrett. Porém, o cenário descrito na didascália inicial mantém uma presença constante ao longo dos cinco actos:

É no suburbio de Santarém, ditto A Ribeira. À esquerda uma casa antiga, apalaçada, com vestigios de grandeza senhorial, mas muito arruinada, com escada exterior de pedra, descuberta e praticavel, e collocada de modo que os actores, quando descem, ficam com a face para o spectador. No alto da escada, patim com parapeito, e cuberto com uma parreira. – À direita uma casa abarracada mas vasta e bem reparada, em que estão os armazens e serralharias do Alfageme, cujas forjas acesas e trabalhando são visiveis para o espectador: a parte mais posterior da casa é mais antiga e acanhada, com sos duas janelinhas agudas e porta no meio. – No fundo Marvila ou parte alta de Santarem. – Em baixo corre o Tejo. – Da esquerda vem a estrada de Lisboa, pela direita se sobe para Santarém. – No meio da scena, entre as duas casas, alguma árvore. – É de hynverno. – A mesma vista em todos os actos. (Almeida Garrett 1842: 5)

Pode-se observar assim que toda a acção se desenvolve num espaço público, no mesmo limiar da casa e oficinas do alfageme e da casa da família Paes, D. Guiomar e D. Mendo Paes, que moram agora com Froilão-Dias e Alda. Esta unidade espacial contrasta com a maior complexidade das personagens e até com a variação temporal, e obriga o autor a configurar os outros espaços relevantes na história – a cidade de Lisboa, a parte alta de Santarém, Abrantes ou o campo da batalha de Aljubarrota – mediante discursos indirectos, criando vários espaços ausentes, mais ou menos afastados do espaço patente. Da mesma maneira, têm uma relativa significação os espaços patentes, especialmente o interior das oficinas do Alfageme, que se fazem presentes na acção mediante os sons e cantigas dos trabalhadores.

Uma segunda razão na singularidade do espaço, que nos parece de maior importância, é a presença de uma velha e humilde casa integrada na poderosa casa do alfageme, ambas símbolo do seu magnífico comportamento e carácter, uma vez que consegue enriquecer-se mas que permanece ligado às origens, como explica D. Guiomar:

Guiomar.– Vès aquellas casarias todas, com tanta forja e trabalhar, tanta gente occupada, tantos armazens cheios de armas de toda a sorte e valia? – Pois tudo isso tem elle feito. A casita do pae era so aquillo que se ve la canto, no fim, com a portinha baixa e duas janellas estreitas, que o filho não quiz mudar, nem pôr á feição do resto da casa, por honra e memoria do pae, diz elle. (Almeida Garrett 1842: 8-9).

Como veremos, esta é uma das características fundamentais da figura do alfageme que «faz soberba e vaidade do que a mais gente se invergonha» (ib., 9), representando assim a capacidade do povo para ascender mediante o trabalho, a honestidade e a consciência da sua pertença a uma terra e ao povo português.

Em terceiro lugar, existe uma última razão que confere enorme relevância à situação espacial, embora proceda de outro texto, as Viagens na minha Terra, onde o término da viagem iniciada pelo narrador – Santarém, lhe permite fazer alusões a esta história, e mais concretamente ao espaço, que se fora símbolo de glória no passado, em 1843 tinha desaparecido completamente:

Cruzámos a povoação em todos os sentidos, procurando rastrear algum vestígio, confrontar algum sítio onde pudéssemos colocar, pela mais atrevida suposição que fosse, a tenda do nosso alfageme com as suas espadas bem «corregidas», as suas armaduras luzentes e bem postas — e o jovem Nun’Álvares passeando ali por pé, ao longo do rio — como diz a crónica — namorado daquela perfeição de trabalho, e dando a «correger» a bela espada velha de seu pai ao rústico profeta que tantos vaticínios de grandeza lhe fez, que o saudou condestável, conde de Ourém e salvador da sua pátria.

Nada pudemos descobrir com que a imaginação se iludisse sequer, que nos desse, com mais ou menos anacronismo, uma leve base tão-somente para reconstruirmos a gótica morada do célebre cutileiro-profeta que a história herdou das crónicas romanescas, e hoje o romance outra vez reclama da história. (1846, 2º vol.: 123)

O espaço ganha deste modo conotações simbólicas “mitificadoras” que estabelecem diferenças entre o passado e o presente – recurso frequentemente utilizado Garrett ao longo de todo este romance – que, com pouco esforço, poderemos trasladar à caracterização espacial d’O Alfageme de Santarém.

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Fonte:

Iolanda Ogando: O Alfageme de Garrett. A história, o teatro e a nação. Revista Limite. Vol. 1, 2007, pp. 137-158. Universidad de Extremadura. Disponível em: www.revistalimite.es

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