26/12/15

O Morto: Memórias de um fuzilado, de Coelho Neto

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O “SOLDADO DESCONHECIDO”

No dia 5 de outubro de 2011, a presidente do Brasil, Dilma Roussef, chegou à Bulgária, terra do seu pai, para um compromisso oficial de dois dias. Encontrando-se na capital Sófia com o presidente búlgaro, Georgui Parvanov, recebeu deste a maior condecoração daquela república: a ordem Stara Planina. Depois, ela participou de uma cerimônia que nos chamou a atenção: “Dilma colocou uma coroa de flores com as cores da bandeira brasileira no túmulo do soldado desconhecido [...]. Diante do monumento, ela foi recebida oficialmente por seu anfitrião, com honras militares e os hinos das duas nações” (DILMA INICIA..., 2011).

Cerimônias como essa não devem, no entanto, causar-nos estranheza, pois túmulos de soldados desconhecidos são mais comuns do que imaginamos. Tanto que existe até o Dia do Soldado Desconhecido, comemorado em vários países em 28 de novembro. Numa simples pesquisa ao site Wikipédia (2012a), é possível localizar diversos monumentos erigidos pelas nações em honra a soldados desconhecidos, como aquele da Bulgária, mortos em batalha, cujos corpos não foram identificados. Às vezes, trata-se de um túmulo simbólico, chamado de cenotáfio, isto é, sem que necessariamente haja restos mortais dentro dele.

No rastro do Wikipédia (2012a) e de Silva et al. (1966), encontramos vários desses monumentos, da Polônia à Austrália, da Argentina à Rússia, do Chile à Inglaterra, da França à Índia. Enquanto o mais antigo conhecido é o Landsoldaten (“Soldado de Infantaria”), de 1849, da Primeira Guerra de Schleswig (1848-1851), em Frederícia (Dinamarca), talvez o mais famoso seja o “Túmulo ao Soldado Desconhecido” norte-americano, atração turística do Cemitério Nacional de Arlington (Vírgínia). Deste, Silva et al. (1966, p. 1403) dizem que:

coube ao sargento Younger, sobrevivente da guerra, condecorado pelos governos francês e americano, designar, entre quatro esquifes, o do Soldado Desconhecido. Com os olhos vendados, depositou num esquife um buquê de flores: era assim designado o Soldado Desconhecido americano. No dia 11 de novembro de 1921, era o esquife conduzido ao cemitério de Arlington, sendo ali inumado. A inscrição do túmulo dizia: “Aqui repousa, em honra e glória, um soldado americano, somente conhecido por Deus”.

Edificar e consagrar túmulos de soldados desconhecidos tombados em guerra, a partir da I Guerra Mundial (1914-1918), parece ter sido uma tendência consequente à iniciativa britânica para com um herói não identificado, morto na Guerra e sepultado com honras nacionais, em 1920, na Abadia de Westminster. Esse soldado simbolicamente representava todos os demais soldados do Império Britânico mortos em combate. O caso britânico é muito parecido com o americano na forma da escolha, ou, antes, por ser mais antigo, serviu-lhe de modelo: “para ser escolhido o Soldado Desconhecido inglês, muitos corpos foram exumados nos campos de campanha, em Flandres, e um oficial, de olhos vendados, tocou com a mão direita um dos esquifes” (SILVA et al., 1966, p. 1403).

Depois vieram os exemplos notáveis da França, com seu famoso túmulo ao soldado desconhecido sob o Arco do Triunfo, em Paris, também inaugurado em 1921, escolhido pelo soldado Auguste Thin, dentre oito esquifes que se achavam na câmara mortuária da cidadela de Verdun (MOMENTOS..., 2012); e também da Bélgica, Itália, Polônia, Portugal, Grécia e Iugoslávia, todos inaugurados na década de 1920.

No Brasil, talvez o monumento mais expressivo, nesse sentido, seja o erigido no Rio de Janeiro, em 1960, em homenagem aos “pracinhas”, combatentes brasileiros mortos na Itália, durante a II Guerra Mundial (1939-1945), cujos restos mortais foram resgatados do cemitério de Pistoia, na Itália (SILVA et al., 1966, p. 1404; WIKIPÉDIA, 2012b).

O caso de Portugal, citado acima, é de grande interesse para nós, pois mereceu de Coelho Netto (2007, p. 19-22) uma crônica, por ocasião do fato. Tal consagração se deu, na realidade, em relação a dois soldados, um morto na França, e outro em Moçambique, cuja autorização de traslado dos corpos foi dada pelo governo em março de 1921. Todo o cerimonial, de repercussão nacional, desde o embarque até o sepultamento oficial, tomou vários dias do mês de abril. Detalhes dos fatos, várias fotografias e até um vídeo podem ser vistos no site português Momentos de História (2012).

Intitulada “O soldado desconhecido”, a crônica de Coelho Netto foi publicada originalmente na sua coluna semanal no jornal carioca A Noite (31 mar. 1921), e coligida em

Às quintas, publicação de 1924. Coelho Netto (2007), ali, elogia a bravura e o esforço de todos os soldados que dignificaram a nação de Portugal, em suas conquistas, e toma o “soldado desconhecido” como símbolo de todos os anônimos, assim na morte como na vida, que se entregaram pela pátria lusitana. Ele diz:

As Nações não escolhem, não têm preferências, buscam apenas no morto um distintivo que lhe assinale a origem e, tanto que o descobrem, tomam-no a si e, desde logo, aquele despojo anônimo da Morte, transfigurado em símbolo, é inscrito na ata da cerimônia sublime com o nome de Povo mártir, esse “Ninguém” que é tudo, esse tumulto que entra na História dissolvido em heroísmo, como o sal no oceano (COELHO NETTO, 2007, p. 20).

E “esse ninguém que é tudo” é especialmente invocado para designar o coração de um Povo, no caso o português, mas bem poderia ser, para Coelho Netto, o brasileiro, eis por que esse cerimonial deveria servir, segundo ele, de exemplo às nações:

E que monumento mais significativo e mais verdadeiro poderia, cada uma das Nações guerreiras, erigir em memória do seu Povo do que esse, constituído de um bocado desse mesmo Povo?

O bronze é metal, o mármore é pedra, e que neles afeiçoa a figura é o estatuário. O soldado desconhecido é corpo, plasma divino em terra, foi o sacrário de uma alma, latejou nele um coração cheio de amor patriótico, amor tão grande que suplantou todos os outros amores, levando-o a morrer por ele em terra alheia, só porque para terra tal, ao apelo de outros que se ajuntavam, em enxame, em volta da Humanidade, seguira a bandeira do seu Portugal, tão pequenino na geografia e tão grande em projeção na História (COELHO NETTO, 2007, p. 20-21).

Sendo o que sobrou de uma vida, sucumbido no anonimato, esse misterioso defunto havia de falar sem palavras. Para Coelho Netto, o culto à memória do herói ignoto serviria de consolo poético a todas as mães e esposas cujos filhos ou maridos, dados como mortos/ desaparecidos, caíram em terra estranha: “Esse soldado desconhecido, que entra a terra portuguesa representando o Povo luso, passará ante os olhos das mulheres de luto como uma urna colhendo lágrimas”. E completa: “Todas poderão ver nele o que perderam – o sem nome terá todos os nomes; o desconhecido será o amado de todos; o anônimo será a multidão, um símbolo como a bandeira, que também é nada e é tudo” (COELHO NETTO, 2007, p. 21).

O herói-morto-desconhecido abarca, pois, sentidos de existência, de continuidade, de comunhão perpétua, e é tomado aqui como elemento inspirador de integração coletiva em torno da ideia de nação, pois, mesmo depois de extinto da terra, permanece espiritualmente a ela ligado (no seu legado e no símbolo que representa para os vivos). Escolher heróis desconhecidos como símbolos pátrios equivale a dizer que a Pátria hoje amada já foi amada antes, e a corrente que passa de geração a geração não pode ser quebrada, pois é um vínculo espiritual a unir os de agora com os que já se foram e com os do porvir. Eis uma das facetas da propaganda nacionalista moderna.


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Fonte:
Claunísio Amorim Carvalho: “O insigne pavilhão: nação e nacionalismo na obra do escritor Coelho Netto”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História Social (Mestrado Acadêmico) da Universidade Federal do Maranhão, como requisito para a obtenção do grau de Mestre em História Social. Orientadora: Prof.ª Dr.ª Maria Izabel Barboza de Morais Oliveira). São Luís, 2012.

Nota:
A imagem inserida no texto não se inclui na referida tese.

As referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.

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