20/12/15

"A escrava que não é Isaura", de Mário de Andrade


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À PROCURA DE UM NOVO LIRISMO: MÁRIO DE ANDRADE

Mário de Andrade, em seu ensaio A escrava que não é Isaura (escrito entre 1922 e 1924), questiona em tom contundente qual seria a obrigação do artista: “preparar obras imortais que irão colaborar na alegria das gerações futuras ou construir obras passageiras mas pessoais em que as suas impulsões líricas se destaquem para os contemporâneos como um intenso, veemente grito de sinceridade?” (ANDRADE, 1980, p. 237).

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O conceito de poesia, central na poética de Mário de Andrade, é por ele expresso primeiro no “Prefácio interessantíssimo” de Paulicéia desvairada, tomado de Dermée, e que será reformulado e complexificado logo em seguida, em A escrava que não é Isaura. Também sua teoria do harmonismo, da combinação dos sons simultâneos, tomada de Jean Epstein, será também ali reformulada para polifonismo. Esta teoria mostra a ênfase na técnica, na construção, o lado construtivo – intencional – que se mistura à sinceridade, ao componente lírico, na poesia lírica de Mário de Andrade

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Em A escrava que não é Isaura, Mário retoma a equação do poeta dadaísta e a reformula para “Lirismo puro + Crítica + Palavra = Poesia” (ANDRADE, 1980, p. 258). Ao acrescentar à equação “Palavra” e trocar “Arte” por “Crítica”, Mário parece fugir ainda mais da inspiração, da sinceridade. A poesia é feita por palavras a partir do trabalho crítico, porém sem abrir mão da inspiração, daquilo que arrisca a poesia, de um ponto de incitamento ou afecção, ou seja, daquilo que, para Blanchot, é a abertura às forças do fora, ao abismo da perda de Eurídice, devendo sua feitura ser rearticulada sempre entre retorno e desvio.

Mário encena estes aspectos aparentemente contraditórios – intencionalismo e sinceridade – e a partir de um desejo ético-estético – sua missão social – , estabelece dolorosamente um intencionalismo sincero e uma sinceridade intencional. Se a sinceridade é fingida, ela é porém uma dor deveras sentida, como nos fala Ana Cristina Cesar em seu artigo “O poeta é um fingidor” a propósito desta exigência radical em Mário de Andrade.

Nosso poeta modernista estava à procura de um novo lirismo, enquanto concepção de poesia, à procura de construir uma “máquina de comover”, de um lirismo que fosse também crítico. Seria preciso que o francês Jean-Michel Maulpoix, que empreende uma importante pesquisa sobre o lirismo enquanto concepção de poesia, enfim, daquilo que arrisca o poeta e como espaço de crítica, e que em 2009 publicou Pour un lyrisme critique, lesse com urgência Mário de Andrade.

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Fonte:

Masé Lemos (UERJ): "À procura de um novo lirismo: Mário de Andrade". Matraga, Rio de Janeiro, v.17, n.27, jul./dez. 2010. Disponível em: http://www.pgletras.uerj.br/

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