27/09/15

Abgar Renault (Compilação): Antologia de Sonetos

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A saudação do peregrino
Jason Carneiro

Poeta, eu vim para buscar-te
à lápide invisível que te oculta
sem te conter – o inútil monumento
à humana pretensão de atar o vento.

Em pessoa compareço ao teu espírito
e nele vejo a noite, dentro dela um curral,
ali um último boi, uma cidade ao longe
e um Ford fordejando na descalça rua,
na alegria da manhã seguinte.

A mim, Poeta, dói-me o que sou.
Doem-me as coisas deste mundo, dói-me saber
da negra solidão que avança sobre os prados
e sobre as casa, e sobre as almas,
e sobre mim. Dói-me o tempo
de estar sem ti num mundo que te esquece
quando eras, mais que necessário, visceral.
Dói não seres mais. Onde a tua voz
no alvoroço deste mundo (e a estrela,
quem louvará?) perdido? Ó azáfama infecundo,
a pressa de buscar e ser não sei o quê,
não sei aonde.

Dói-me o que fez de si o mundo. Dói-me dormires
em Sofotulafai, em Tunis, Barbacena,
a tua gráfica velhice, dói-me o medo
conspurcado de certeza que cantaste
de uma morte que, se enfim chegou, pouco pôde contra ti.

Repetir os versos e as lágrimas e os versos:
eis o que te posso dar, Poeta, eis o que faço,
humildemente, a mão buscando a tua,
nos bergantins dos teus velhos sapatos,
no teu chapéu sonhador,
no desvairo, no goivo, no alaúde.

Si je pouvais à peine prendre ta main,
serias hoje centenário, e nenhuma neve
ferveria neste coração que trago e deixo.


(15/04/2001 – Centenário de Abgar Renault)

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