19/06/15

Inspirações do Claustro (Poesia), de Junqueira Freire

Coracao de mulher - Horacio Nunes - Iba Mendes

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Junqueira Freire: um poeta rebelde

Antes de iniciarmos os comentários sobre os poemas selecionados como corpus na poética de Junqueira Freire , optamos por fazer uma breve apresentação do poeta. Vamos a ela. Junqueira faz o percurso pela sátira, pela exposição de uma realidade desfigurada e noturna. Na visão de Freire a vida é mais tediosa e as convenções burguesas são questionadas. As figuras humanas vão sendo manipuladas pelo eu-lírico, quase sempre, consciente da fragilidade da visão positiva e propenso a estabelecer um ponto de vista crítico diante da bondade humana e, em muitos momentos, a fragilidade das convenções religiosas. Poeta da segunda geração romântica Junqueira Freire tem uma obra marcada pelo sentimento religioso, a obsessão pela morte e um sensualismo exacerbado que, em alguns momentos, toco o erotismo. Publicou uma única obra em vida, pouco antes de morrer aos 23 anos intitulada Inspirações do Claustro.
Nasceu em Salvador, no ano de 1832, em virtude de sua saúde precária (problemas cardíacos), fez estudos primários e de latim com dificuldade. Em 1849 entrou para o Licel Provincial e cursou Humanidades, destacou-se como grande aluno e dois anos mais tarde entrou para a Ordem dos Beneditinos. Freire mostrou não ter a menor vocação monástica e se estava no Mosteiro de São Bento de Salvador era apenas para fugir da pressão familiar. Em 1853, pediu a secularização e, no ano seguinte, conseguiu se libertar das disciplinas monásticas, mas seria sacerdote pelo resto de sua vida por causa dos votos eternos. Ao sair do mosteiro, foi viver na casa da mãe, onde fez uma breve autobiografia e reuniu seus poemas no que seria as Inspirações do Claustro. Morreu em 1855, vitima de problemas cardíacos. Em sua obra vemos uma forte critica à religiosidade em uma atitude puramente romântica, mas podemos dizer que na obra de Freire apresenta traços da tradição clássica, como o próprio poeta aponta no prefacio de Inspirações do Claustro: “Pelo lado da arte, meus versos segundo me parece, aspiram casar-se com a prosa dos antigos”. (p.4, 1867).
Freire chegou a publicar um tratado de retórica em 1852, no qual aplicava as convenções tradicionais com exemplos aos autores nacionais. Embora poeta romântico, preferiu que a razão prevalecesse em sua poesia:
A hora da inspiração é um mistério de luz que passa inapercebível. Contudo
eu tenho consciência de que, por mais etéreo que seja aquele momento,
cantei tão somente o que o imperativo da razão inspirou-me como justo.
(FREIRE, 1867, p. 4)
Em seguida comentaremos três poemas de poemas de Freire: “O Jesuíta”, “A Freira”. Entendemos que nesses poemas e em tantos outros, caso por exemplo, de “Meu filho no claustro”, o poeta apresenta uma visão inquietada diante do tema religioso, fato que conduz a presença da ironia em sua obra.
Em “O Jesuíta” a temática central é a referência à chegada dos padres jesuítas ao espaço brasileiro. No poema podemos encontrar uma descrição emocionada do eu-lírico diante da ordem religiosa. O caráter de louvação, no entanto, vai sendo redimensionado pela visão mais lúcida diante da precariedade do sentido de liberdade conseguido pela colonização do nativo.
O eu-lírico narra sua chegada ao espaço brasileiro e o encontro com o indígena. O indígena mira a flecha em sua direção. Este vê que os indígenas possuíam inúmeras riquezas, tais como ouro e prata, mas faltava-lhes a riqueza maior: a crença em Deus. O eu-lírico acredita inicialmente que pode salvar os indígenas convertendo-os à fé cristã mas o olhar do eu-lírico aponta para a desvalorização da cultura indígena, fato que redimensiona a poesia rumo ao caráter ambíguo da ação catequizadora. O poema, nesse nível de leitura, parte da visão religiosa para a deflagração da precariedade dos valores cristãos quando pensados sob a ótica da libertação das nações. É uma inversão da consciência ideal na figura religiosa. O percurso temático em “O Jesuíta” inocenta o nativo e, na medida que apresenta o declínio da crença cristã, aponta para a precariedade das convenções humanas em um bem pleno e divino. O sujeito poético, nesse sentido, contamina a pureza do nativo pelo contato com o jesuíta. Tanto o nativo quanto o jesuíta são absorvidos pela inércia da ação social que endossa a fragilidade do índio, ma não o salva.
Essa atitude temática entra em consonância com a consciência crítica da visão irônica no romantismo, pois é por meio da descrição da bondade inata do nativo que as ações de conversão do gentil em cristão são enfocadas. Nela não há a preservação do sentido de cultura indígena, nem a manutenção dos valores tribais, antes é apresentada a desfigurativização dessa cultura, fato que reorganiza a aparente bondade do jesuíta e, por conseguinte, do homem branco rumo ao viés irônico aqui comentado.
Em “A Freira”, temos um eu-lírico feminino que critica sua vida no convento. Ela não se sente feliz. Queria uma vida diferente em que o sentido de liberdade seja aproximado ao ideal religioso de plenitude espiritual. A brevidade da vida e os lamentos induzem o eu-lirico a uma visão sensual do ambiente eclesiástico. Esta visão carnal e humanizada, na voz do eu-lírico feminino, conduz a uma fragmentação da fé religiosa. A fé, porém, está contida na crença ao aspecto mítico do divino. O que é questionado, nesse sentido, é a vivência individual do sujeito, sua compleição humana leva a imperfeição e a degradação dos ideais puros. Em seu lugar surgem as implicações humanas e a condição humana leva o eu-lírico aos constantes questionamentos observáveis ao longo do poema.
Em “Meu filho no Claustro”, temos um eu-lírico feminino, aproximado à figura de uma mãe que sofre pela escolha infeliz do filho pelo celibato. Podemos ver que esse poema se assemelha tematicamente aos dois poemas comentados, embora deixe entrever questões sociais que motivam a escolha do celibato. Ao associar o poema á Parábola do Filho Prodígio da Bíblia identificamos a ironia contida no percurso temático de Freire, pois o poeta opta por expor a fragmentação da bondade inata sempre associada, em grande parte do romantismo, à figura humana. É preciso sofrer para converter a consciência da fragilidade em pureza individual e isso entra em choque com a visão individualizada do eu-lírico feminino em “Meu filho no claustro”. São as convenções sociais que impelem o jovem a vida eclesiástica, não um percurso vocacional puro. Essa idéia traz à cena a constatação das implicações econômicas e sociais associadas à família burguesa, fato que explica o chora da mãe e, posteriormente, a acomodação, como na parábola bíblica aos desígnios divinos, aqui brevemente questionados pelo tom inquisitivo da voz feminina que chora seu filho no claustro.


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Fonte:
Patrícia Martins Ribeiro de Oliveira
(PIBIC/UEMS- UUC - patricinhaletras@hotmail.com) e Danglei de Castro Pereira (UEMS/UUNA - danglei@uems.br): “A ironia na poesia romântica: Junqueira Freire e Gonçalves Dias”. Disponível em : PPGH – UFBA PROGRAMA DE PÓS-GRADUAÇÃO EM HISTÓRIA – UFBA - http://www.ppgh.ufba.br/

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