08/02/15

Ramo de Flores, de João de Deus


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Seção João de Deus

Atribuídos ao poeta português João de Deus (1830-1896), a 1a edição de Parnaso de além-túmulo (1932) trazia seis poemas: “As lágrimas”, “O Céu”, “Morrer”, “O mau discípulo”, “Na estrada de Damasco” e “Parnaso de além-túmulo”, soneto que deu o título ao livro de Chico Xavier. Na edição seguinte (1935), foram acrescentados sete novos poemas: “Angústia materna”, “Lamentos do órfão”, “O leproso”, “Bondade”, 1a “Oração”, “A Fortuna” e 2a “Oração”. Não houve acréscimos na 3a edição (1939), mas na 4a (1944), oito novos poemas foram incluídos: “Além”, “Soneto”, “A Prece”, “Fraternidade”, “Lembrai a chama”, “Eterna mensagem”, “No Templo da Educação” e “Na noite de Natal”. Esta seção da antologia, portanto, é formada por 21 poemas.

A bibliografia sobre João de Deus, no que se refere aos aspectos formais e estilísticos de sua poesia, é escassa. Para direcionar o estudo dos poemas mediúnicos atribuídos ao autor de Campo de flores, serão considerados alguns apontamentos de Cleonice Berardinelli, presentes no estudo introdutório de uma antologia do poeta; uma observação de Saraiva e Lopes e algumas considerações de Naief Sáfady.

Conforme sugere Cleonice Berardinelli, o tema da poesia de João de Deus pode ser sintetizado no amor: “amor à mulher e amor a Deus.” Isso já revela uma diferença em relação aos poemas de Parnaso. Deste, não faz parte o amor do poeta à mulher, mas canta-se com recorrência o amor a Deus e o amor entre mães e filhos, tema este também presente em Campo de flores.

Em “Lágrimas”, a busca do prazer no gozo carnal significa “Só a ilusão/ Duma ventura.” Aqueles que participam dessa busca são tidos por “Fracas criaturas/ Baldas de amor.” No poema, a ilusão carnal é contraposta ao “amor divino/ Que dá ventura,/ Tranqüilidade,/ Felicidade”.

Algumas vezes, para designar o conceito de amor, a palavra vem com letra maiúscula, como em:

Pátria ditosa e linda, e onde o mal
Desaparece ao meigo olhar do Amor,

“O Céu”,

Dignos do Amor

Inigualável,

Incomparável,

Do Criador!

“O mau discípulo”, última estrofe

Dois milênios contando o grande ensino Do Amor, o luminoso bem divino,

“Soneto”,

O amor divino também aparece como lei:


Em benefício Da lei do amor, Do sacrifício!...

“O mau discípulo”,

O Amor é a lei, Que me ensinaste

1a “Oração”,

Seguem alguns outros casos desse amor divino:
  
Da caridade, O puro amor.

“O mau discípulo”,

Quando aprouver Ao Deus de Amor Oferecer

Rude amargor Ao nosso ser.

“Na estrada de Damasco”,

Do eterno amor Do bom Jesus.
idem, última estrofe

Na ascensão para o Belo e para o Amor.

“Parnaso de além-túmulo”,

Concedei-nos vosso amor, A vossa misericórdia,

2a “Oração”,

Da prece, água do amor, pura e divina, “A Prece”,


Nos poemas “Angústia materna” e “Lamentos do órfão”, o amor da mãe que perde o filho e o do filho que perde a mãe, respectivamente, estão expressos em seus lamentos de saudade:

“Ó Lua branca, suave e triste,

— A Mãe pedia, fitando o céu — Dize-me, Lua, se acaso viste

Nos firmamentos o filho meu.

“Angústia materna”,

Minha mãezinha, alguém me disse, Que tu te foste, triste sem mim;

Já não me embala tua meiguice, E não podias partir assim.

“Lamentos do órfão”,

Um modo de adjetivação típico de João de Deus destacado por Cleonice Berardinelli são as comparações e as “comparações em cadeia”, utilizadas normalmente para caracterizar a mulher amada. Em Parnaso, o mais comum são as comparações entre pessoas e flores, o que também ocorre no livro de João de Deus Campo de flores. Eis alguns exemplos de comparações simples e em cadeia:

Então serei Ramo perdido, Árido e seco Pelo vergel Enflorescido.

“O mau discípulo”,

Meu anjo belo como a açucena, “Angústia materna”,

Sempre a meus olhos, estás bonita Qual uma rosa, como um jasmim!

“Lamentos do órfão”,

Fraternidade é árvore bendita, Cujas flores e ramos de esperança Buscam a luz eterna que se agita, Rumo ao país ditoso da bonança.

“Fraternidade”,

Eu vi mulheres

Nos seus prazeres,

Jovens e belas,

Alvas estrelas

De formosura,

Rindo e cantando Dentro da noite Da desventura. Pobres donzelas, Fanadas flores...

Luz sem fulgores,

“As lágrimas”,

A amarga dor,

Lágrimas belas,

Gotas singelas,

Meigas, serenas, Eram açucenas De fino olor Do espaço azul!

idem,

Era uma alma Formosa e bela: Fúlgida estrela De puro alvor, Que habitava Qual uma flor

O espaço infindo,

“O mau discípulo”,

Outro aspecto da poesia de João de Deus, apontado por Cleonice Berardinelli, diz respeito aos metros utilizados pelo poeta. Escreve a crítica:

Não sei de outro poeta da língua portuguesa — excetuando o nosso Gonçalves Dias — que tenha utilizado tão ampla e artisticamente os variadíssimos metros que sete séculos de poesia lhe proporcionavam: redondilhos maiores e decassílabos, em maior número; hexassílabos bastante numerosos; redondilhos menores, tetrassílabos e eneassílabos em menor proporção; e, alternando com estes, trissílabos e monossílabos. É de se lamentar que não tenha usado o belo verso de arte-maior que o Romantismo começara a desenterrar do esquecimento. Da sua versatilidade em passar de um ritmo a outro é exemplo plenamente realizado o poema A vida. Também múltiplos são os talhos estróficos, em que a variedade provém do número de versos ou da alternância de metros em cada estrofe.

A diversidade de metros também está presente na seção João de Deus de Parnaso. Os poemas longos, como “O mau discípulo” (616 versos), “As lágrimas” (290 versos), “A estrada de Damasco” (264 versos) foram escritos em tetrassílabos. Preferiu-se esse metro para os poemas mais narrativos. Como exemplo, eis a seguinte passagem:

Porém, um dia,

Disse Jesus

A quem vivia

Em meio à luz:

“Filho querido, Estremecido, Dos meus afetos! Tu necessitas Buscar a Vida Em meio às vagas Das provações! Dentro das lutas, Tredas disputas Do Bem, do Mal, É que verei

Se o que ensinei Ao teu valor, Aproveitaste

E assimilaste Em benefício Da lei do amor, Do sacrifício!...

“O mau discípulo”,

A redondilha maior é o metro de três poemas, um dos quais — 2a “Oração” —, a cada estrofe, alterna os versos de sete sílabas com versos trissílabos, o que sugere a presença de duas vozes no poema:

Maria! — consolação

Dos pobres, dos desgraçados,

Dos corações desolados

Na aflição,

Compadecei-vos, Senhora,

De tão grandes sofrimentos,

Deste mundo de tormentos,

Que apavora.

Livrai-nos do abismo tredo Dos males, dos amargores, Protegei os pecadores
No degredo.

2a “Oração”,

O poema “Bondade” foi escrito com versos de oito sílabas, com acentos em 4-8. Nele, algumas figuras morais são personificadas:

Vê-se a miséria desditosa

Perambulando numa praça;

Sob o seu manto de desgraça

Clama o infortúnio abrasador.

Eis que a Fortuna se lhe esconde;

E passa o gozo, muito ao largo;

E ela chora, ao gosto amargo,

O seu destino, a sua dor.

Mas eis que alguém a reconforta: É a bondade. Abre-lhe a porta; E a fada, à luz dessa manhã,

Diz-lhe a sorrir: — Tens frio e fome? Pouco te importe qual o meu nome, Chega-te a mim: sou tua irmã.

“Bondade”

Em versos eneassílabos, canta-se a saudade da mãe que perdeu o filho e a do filho

órfão:
  
A Morte ingrata, fria e impiedosa,

Deixou vazio meu doce lar,

Deixou minhalma triste e chorosa,

Roubou-me o sonho — deu-me o penar.

Se tu soubesses, Lua serena,

Como era grácil, que encantador Meu anjo belo como a açucena, Cheio de vida, cheio de amor!...”

“Angústia materna”,

Outros meninos alegres vejo, Numa alegria terna e louçã,
Que exclamam rindo dentro dum beijo: “Como eu te adoro, minha mamã!”

Sinto um anseio sublime e santo, De nos meus braços, mãe, te beijar;
E abraço o espaço, beijo o meu pranto, Somente a mágoa vem-me afagar.

“Lamentos do órfão”,

São sonetos os dez poemas escritos em decassílabos. Eis a seguir o soneto “Parnaso de além-túmulo”, que dá título ao livro, exemplo em que o poeta se refere a um outro plano de vida e ao tipo de poesia que lá se pratica:

Além do túmulo o Espírito inda canta

Seus ideais de paz, de amor e luz,

No ditoso país onde Jesus

Impera com bondade sacrossanta.

Nessas mansões, a lira se levanta Glorificando o Amor que em Deus transluz, Para o Bem exalçar, que nos conduz

À divina alegria, pura e santa.

Dessa Castália eterna da Harmonia

Transborda a luz excelsa da Poesia,

Que a Terra toda inunda de esplendor.

Hinos das esperanças espargidos

Sobre os homens, tornando-os mais unidos,

Na ascensão para o Belo e para o Amor.

Ainda seguindo os apontamentos de Cleonice Berardinelli, em seguida ao trecho acima transcrito, ela continua:

A harmonia e a musicalidade dos versos de João de Deus são em parte decorrentes dessa mestria na escolha de seus metros e na sua execução, e ainda no emprego dos processos estilísticos, na maioria de cunho popular. Não encontramos estribilhos propriamente ditos em seus poemas, mas repetições parciais que lhe dão uma simetria de caráter melódico bem ao gosto da poesia transmitida oralmente; em alguns casos, temos a repetição da primeira estrofe na última (cf. Espera), em outros a repetição dos primeiros versos da estrofe nos últimos (cf. Estrela), em outros, mais comuns, são as mesmas palavras que se repetem dentro da mesma estrofe ou de estrofes sucessivas, estabelecendo um elo fônico de alto valor musical.

Um caso de repetição parcial está presente no poema 2a “Oração”. Na parte formada por oito estrofes de redondilhas maiores combinadas com trissílabos, a oitava estrofe retoma parcialmente a primeira:

Vós que sois a mãe bondosa De todos os desvalidos Deste vale de gemidos.
Mãe piedosa!...

1 Vós que sois Mãe carinhosa Dos fracos, dos oprimidos Deste vale de gemidos,

Mãe bondosa!

Várias outras ocorrências de repetições que remetem à poesia de cunho popular e oral são encontradas, principalmente, nos poemas “Angústia materna” e “Lamentos do órfão”. Note-se a musicalidade gerada pelo recurso em questão e pelo uso dos acentos na 4a e 9a sílabas poéticas:

Disse-lhe a Lua — “Eu sei do encanto, Dum filho amado que a gente tem;
E das ausências conheço o pranto, Oh! se o conheço, conheço-o bem!...”

“Angústia materna”,
Do Senhor tenho doce trabalho, Missão que é toda só de alegrias: Flores reparto cheias de orvalho, Flores que afastam as agonias.”

Em mim a noite não tem guarida, Aqui terminam os dissabores; Aqui em tudo floresce a vida, Vida risonha, cheia de flores!...”

Disse-lhe o filho — “Tive deveras Muita saudade, mãezinha amada, Senti a falta das primaveras, Senti a falta desta alvorada!...

Há quantos dias que te procuro, Que te procuro chamando em vão!...

Tudo é silêncio tristonho e escuro, Tudo é saudade no coração.

“Lamentos do órfão”,

Inquiro o vento: — “Quando verei

Minha mãezinha boa e querida?”

E o vento triste diz-me: — “Não sei!...

Só noutra vida, só noutra vida!...”

Pergunto à fonte, pergunto à ave, Quando regressas dos Céus supremos, E me respondem em voz suave:

“Nós não sabemos! nós não sabemos!...”

E digo ao sino na tarde calma: “Onde está ela, meu doce bem?” Ele responde, grave, à minhalma: “Além na luz! Na luz do Além!...”

De Cleonice Berardinelli, eis a última observação que será tomada para esse cotejo: “Do mais gracioso e original da sua poesia são os poemas dialogados ou supostamente dialogados — supostamente, pois sente-se a presença do interlocutor, mas este não fala”. Quanto a esse aspecto, as passagens dialogadas acima citadas já servem como exemplo. Como poema supostamente dialogado, tome-me o caso da 2a “Oração”.

Segundo os críticos Saraiva e Lopes, a Bíblia é a principal fonte literária de João de Deus69. É previsível, portanto, porque consoante ao cristianismo de Parnaso e do autor de Campo de flores, que as referências bíblicas figurem nesses poemas. Além das dezenas de menções a Jesus e a Deus, eis alguns exemplos mais diretos de matriz bíblica:

Gemas brilhantes, Alvinitentes, Ricas, fulgentes E deslumbrantes, Que nem Ofir Pôde possuir.

“As lágrimas”, penúltima estrofe

Perambulou
Qual Aasvero,

“O mau discípulo”,
“Na estrada de Damasco”

(título do poema)

Prisioneiros da dor que fere e espanta, Tende na vossa fé a bíblia santa,
“Além”, 2

O coração tocado de agonias, O Mestre chora como Jeremias,
“Soneto”,

No egoísmo da triste Humanidade, Demorando as vitórias do Evangelho.

Ainda e sempre o Evangelho do Senhor É a mensagem eterna da Verdade, Senda de paz e de felicidade,

Na luz das luzes do Consolador.

“Eterna mensagem”,

Distribuía o Mestre os dons divinos

Da luz do seu Espírito sem jaça,

E exclama, enquanto a turba observa e passa:

— “Deixai virem a mim os pequeninos!...”

“No Templo da Educação”,

O seguinte exemplo está mais próximo do conjunto de Parnaso do que das referências bíblicas da poesia de João de Deus:

O Evangelho, na luz do Espiritismo,

É a escada de Jacob vencendo o abismo, Trazendo ao mundo o verbo de Jesus.

“Eterna mensagem”,

Na edição comemorativa de Parnaso de além-túmulo (1972), a referência crítica do estudo de Elias Barbosa sobre os poemas da seção João de Deus foram algumas passagens do mencionado livro de Naief Sáfady. Para o presente estudo, serão tomadas como referência duas constantes da obra do poeta português, apresentadas pelo crítico. A primeira é a recorrência da palavra luz e suas variantes, com diversos sentidos, em Campo de flores. Para Sáfady, “a própria razão de ser da expressão poética de João de Deus está na luz, cujo anseio é vital — de um vital poético, bem entendido”.

Em Parnaso, a luz física pode estar em contraste com a luz moral. Veja-se a antítese:

E vi que as flores, As pedrarias
Tão luminosas, Eram sombrias, Eram trevosas,

“As lágrimas”,

A luz, na mediunidade, é normalmente um atributo das virtudes morais:


Quando voltavam

Do seu exílio,

Eram saudados

Por mensageiros

De amor e luz Do bom Jesus,

“As lágrimas”,

Nessas moradas Iluminadas
Do nosso Pai!

“O mau discípulo”,

Todo o esplendor Da minha luz, Do meu amor!

É o caminho Que nos conduz

À     salvação,

À perfeição,
À 
região Da pura luz!


Nosso Senhor, Mestre da luz,

“Na estrada de Damasco”,

A eterna luz, Do eterno amor Do bom Jesus.

“Na estrada de Damasco”, última estrofe

Distribuía o Mestre os dons divinos Da luz do seu Espírito sem jaça,

“No Templo da Educação”,

Essa luz moral é algo que se conquista:


E se aprenderes Saber viver, Sorrir, sofrer, Conquistarás A grande paz, A grande luz

“O mau discípulo”,

Nessa batalha

Que empreenderei, Quero ganhar

E conquistar A luz, o pão,

“O mau discípulo”,

Seguem algumas outras variações assumidas pela luz nos poemas de Parnaso:
  
Lembrou de Deus, Do seu amor,

A implorar

Da luz dos Céus Consolação!

“O mau discípulo”,

Sabes do pranto Das minhas dores, No meu viver
Sem luz, sem flores,

Se teu corpo é lama e pus Em meio dos sofrimentos, Tua alma é réstea de luz Dos eternos firmamentos.

“O leproso”,

Pedindo a luz, Pedindo o bem E a salvação.

1a “Oração”,

Senda de paz e de felicidade, Na luz das luzes do Consolador.
“Eterna mensagem”,

Mostrou, em tudo e por tudo, A luminosa humildade!...

“Na noite de Natal”.


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Fonte:
Alexandre Caroli Rocha: “A poesia transcendente de Parnaso de além-túmulo”. (Dissertação apresentada ao curso de Teoria Literária do Instituto de Estudos da Linguagem da Universidade Estadual de Campinas, como requisito parcial para obtenção do título de Mestre em Teoria e História Literária. Orientador: Prof. Dr. Haquira Osakabe). Campinas, 2001.

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