07/02/15

Um club da má língua, de Fiódor Dostoiévski



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Um club da má língua, de Fiódor Dostoiévski


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O escritor


No início do século XIX, a Rússia era um país imensamente atrasado onde apenas uma pequena parcela da população tinha instrução, sendo que os escritores formavam um grupo seleto dentro de uma sociedade com um regime escravagista e absolutista. Nesse ambiente, os literatos se envolvem com o romantismo e depois com o realismo, que começa a se formar ainda nos anos 20.

Na segunda metade do século XVII, até o começo do século XVIII a Rússia vive um processo de reformas políticas e sociais, empreendidas pelo Czar Pedro I e pela Czarina Catarina II, que tiveram como efeito principal a integração da Rússia na cultura europeia. Na literatura, os poetas Kantemir, Trediakovski e Lomonosov transformam o sistema de versificação tônica em um sistema silábico. Os escritores adaptam-se às principais ideias aristotélicas e, em particular, à concepção dos três estilos literários: lírico, épico e dramático. Mas a decisiva incorporação da literatura russa à modernidade literária só acontece a partir de 1820, com o romantismo, o que teve um efeito catártico e revolucionário nas letras russas. O romantismo russo se encarna na vida e na obra de Alexander Pushkin, que é considerado o maior poeta nacional russo pela decisiva transformação do sistema de gêneros literários, tanto por seu trabalho transcriador e intercultural como pelo caráter inovador de seus versos, imagens e estrofes, assim como por sua reflexiva consciência linguística e literária. Na produção lírica de Pushkin, destacam-se seus grandes poemas épico-narrativos e suas incursões na prosa e no drama. Mas, sobretudo, sua novela em verso Eugenio Oneguin é uma obra marcante para todas as gerações da literatura russa que o sucederam (FRANK, 2008).

A revolução literária de Pushkin é continuada por dois grandes românticos russos Mijail Liérmontov e Nikolai Gógol, com Um herói do nosso tempo e  Almas Mortas, respectivamente. Estas obras contribuíram decisivamente para o desenvolvimento da prosa literária e para a germinação da novela na Rússia, gênero que alcançaria seu máximo apogeu de 1860 a 1890, com a literatura de Dostoiévski, Tolstoi e Turguéniev. A partir de 1890 aparecem na cena literária russa os primeiros poetas simbolistas. Com eles chega o modernismo, que representa a resposta artística da modernização social, econômica e política empreendida pela Rússia no final do século XIX. Uma modernização que gera certa prosperidade nas grandes metrópoles: Moscou e São Petersburgo, onde surge uma nova classe social, a intelligentsia.

Durante o período de sua formação Dostoiévski sofre grande influência do poeta Aleksander Pushkin. Também é importante destacar a influência dos princípios do romantismo metafísico nos anos de formação de Dostoiévski, quando lia tudo de Hoffmann e de Goethe. Sinais da imersão de Dostoiévski na obra de Hoffmann podem ser encontrados nos seus primeiros textos, inclusive A Senhoria. Em 1845, Dostoiévski era um escritor desconhecido e, da noite para o dia, torna-se um sucesso ao receber o apoio de Belínski, principal crítico literário da época, que considerou o seu primeiro romance, Gente Pobre, completamente de acordo com suas buscas ideológicas e com as premissas da "escola natural". O termo "escola natural" foi usado para designar a tendência literária russa que surge a partir da obra de Gógol (BIANCHI, 2006). Na década de 1830, a cultura russa vive uma transição entre o predomínio da literatura romântica e da filosofia idealista alemã e o avanço da influência do romantismo social francês que veio a ser chamado de realismo e na Rússia de naturalismo (FRANK, 2008a, p.141). O impacto da presença do escritor alemão Hoffmann na literatura russa foi muito amplo. Mas também Schiller e Balzac serão influências literárias fundamentais para o jovem escritor Dostoiévski. Balzac não só o influenciou literariamente, como também contribuiu para a sua formação social e política. Como toda a sua geração, Dostoiévski foi também inicialmente influenciado por Gógol e George Sand. Victor Hugo é outro autor francês que influenciou profundamente a escrita de Dostoiévski, no período de 1830, quando seus livros tornam-se um símbolo do humanitarismo social. Quando Dostoiévski escreve o seu romance O Idiota, nas primeiras páginas o príncipe relata os momentos finais da execução em praça pública de um condenado à morte, fato que ele afirma ter presenciado. Nesse trecho do romance Dostoiévski dialoga com a obra Le dernier jour d'um condamné, de Victor Hugo, falando de sua própria experiência e sensações vividas por um condenado à morte, ao esperar pela execução anunciada que, no caso de Dostoiévski, revelou-se uma farsa.


Em sua complexa formação literária, Dostoiévski reúne leituras vinculadas ao romantismo metafísico cristão e à filantropia do romantismo social francês. "Essas forças em confronto atuaram sobre Dostoiévski como dois imperativos, um de ordem moral, outro religioso, e o equilíbrio dessas pressões opostas ajuda a explicar o impacto sempre trágico de suas melhores obras literárias". (FRANK, 2008a, p.154). Nos anos 40, as questões estéticas, políticas e sociais se encontram muito próximas e a intelligentsia progressista parte para buscas ideológicas intensas para sair da crise, em meio a discussões acaloradas (BIANCHI, 2006). É nesse ambiente que o crítico Belínski passa a criticar o romantismo, acreditando que esta corrente literária endossa um movimento conservador burguês. Belínski se preocupa com o futuro da "escola natural", descobrindo em Gógol o princípio da arte contemporânea. No início da sua atividade como crítico, Belínski dizia que Hoffman era tão grande quanto Shakespeare, mas no momento em que Dostoiévski publica A Senhoria essa posição do crítico havia mudado radicalmente, passando a execrar qualquer influência do hoffmannismo.

Além da sua atividade como escritor, Dostoiévski tem intensa atividade jornalística na década de 1860. As revistas O Tempo e A Época, criadas e dirigidas pelos irmãos Dostoiévski, Fiódor e Mikhail, desempenharam na literatura russa o papel de intérpretes de uma corrente sociocultural independente, chamada de pótchvienitchestvo. Este nome deriva da palavra potchva, que significa solo e também pode ter o sentido de fundação ou apoio. Os principais representantes dessa tendência foram Fiódor Dostoiévski, Nikolai Strákhov e Apolon Grigóriev. Em 1861, O Tempo inicia suas atividades e no anúncio do programa editorial há uma declaração de princípios que foi redigida por Fiódor Dostoiévski, mas não assinada por ele porque como um ex-condenado o seu nome não podia aparecer no editorial da revista. Os pótchvieniki acreditavam que as questões sociopolíticas do momento seriam secundárias em relação à grande tarefa de promover uma nova síntese cultural da Rússia (FRANK, 2002). Esta era uma posição contrária à intelectualidade radical que acreditava que todas as questões eram secundárias em relação à melhoria das condições de vida dos camponeses. No editorial, Dostoiévski tenta colocar sua posição acima da briga entre eslavófilos e ocidentalistas.

Dostoiévski exerce, por alguns anos, a função de editor e colaborador na revista o Tempo, além das suas publicações de folhetins (Humilhados e Ofendidos; Recordações da Casa dos Mortos). Em maio de 1863 a revista literária O Tempo foi fechada pelo governo. Em 1864 os irmãos Dostoiévski lançam outra revista, A Época, na qual é impressa Memórias do Subsolo.    Mikhail morre em 9 de julho de 1864 e Dostoiévski assume a direção da revista que já avolumava dívidas. Ainda assim, continua o trabalho do seu irmão e assume o provimento das necessidades da viúva e dos sobrinhos órfãos. Mais tarde, Dostoiévski irá arrepender-se de não ter fechado a revista naquele momento, pois as dívidas se acumularam arrastando-o a uma situação financeira insustentável. A revista A Época   publicou Memórias do Subsolo, de Dostoiévski;  Os Fantasmas, de Turguiênev;  Lady MacBeth de Mtsensk, de Leskov e as memórias de Apolon Grigóriev. No último número da revista, Dostoiévski publica O Crocodilo, um conto que jamais terminou.

Durante mais de vinte anos, Dostoiévski se encontrará enredado em dívidas advindas da revista literária A Época e dos compromissos assumidos com a família do seu irmão Mikhail, após a sua morte.


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Fonte:
Lílian Maria Fleury Dória: “A criação da voz autoral no processo de transcriação da literatura para o cinema : O homem da cela 1846, roteiro cinematográfico livremente inspirado nas novelas A senhoria e memórias do subsolo de Fiódor Dostoievski”. (Tese de doutorado apresentada Ao instituto de artes/faculdade Da Unicamp para obtenção do Título de doutor, na área de Multimeios. Orientador: prof. Dr. Antonio fernando da conceição passos). Campinas, 2012. Disponível em: www.bibliotecadigital.unicamp.br

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