12/07/14

A angústia do infinito (Poemas), de Luiz Delfino dos Santos

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Corpo mitológico: Luiz Delfino e o mito

A teu poder quero dar limites, Concedendo-te posição tão alta,
Que nem me importa que tu mesma dites Sentença absolvendo-se da falta.
E neste inferno aceito sem rancor Que teu prazer provoque a minha dor.
(William Shakespeare)

Nos capítulos anteriores apontamos como objeto de estudo, na lírica delfiniana, o corpo erótico relacionado aos sentidos, a nudez erótica, a submissão, o fetichismo e morte; e o corpo místico, dando ênfase ao sagrado e ao profano, analisando poemas referentes a Adão e Eva; e ao sagrado, representado na figura de Jesus Cristo, sobretudo sua morte e ressurreição, como também a idéia de Deus: para o eu-poético de Delfino, Ele existe ou não? Analisamos para tanto poemas em que se questiona sobre a Sua existência ou, em que considerava, ser Helena o seu Deus e o seu céu.

Em vista disso, trabalharemos, neste capítulo, com o corpo mitológico, principalmente, com poemas que exaltam a mulher, elevando-a ao patamar de uma deusa, sendo comparada a grandes nomes da mitologia grega e romana, conforme veremos nas páginas seguintes. Além disso, exploraremos também poemas em que Helena é comparada à pérola, que têm o intuito de elevar

Helena à categoria de Deusa; assim como, a análise de poemas que exaltam outros seres e deuses da mitologia, os quais nos mostram quão grande era o conhecimento de Delfino sobre esse tema.

Faz-se necessário também entender o que é o mito, pois em alguns momentos a mulher é colocada como mito de beleza. Para tanto, utilizamo-nos de teóricos como Eliade, Barthes, Mènard, Commelin, entre outros. Alguns poemas serão ilustrados com imagens que, no nosso entender, servem para melhor visualização de nossa análise e possível inspiração para Luiz Delfino, mostrando-nos, além disso, o seu conhecimento das artes plásticas.

Consoante Mircea Eliade, o mito é o relato de uma história verdadeira, ocorrida nos tempos dos primórdios, quando, com a interferência de entes sobrenaturais, uma realidade passou a existir, seja uma realidade total, o cosmo, ou tão somente um fragmento, um monte, uma pedra, uma ilha, uma espécie animal ou vegetal, um comportamento humano. Mito é, pois, a narrativa de uma criação: conta-nos de que modo algo, que não era, começou a ser. Ele pode se exprimir ao nível da linguagem e assim ele é, antes de tudo, uma palavra que circunscreve e fixa um acontecimento

O mito expressa o mundo e a realidade humana, mas sua essência é efetivamente uma representação coletiva, que chegou até nós através de várias gerações. E, na medida em que pretende explicar o mundo e o homem, isto é, a complexidade do real, o mito não pode ser lógico: ao contrário, é ilógico e irracional. Abre-se como uma janela a todos os ventos; presta-se a todas as interpretações. Decifrar o mito é, pois, decifrar-se. E, como afirma Barthes, o mito não pode, conseqüentemente, " ser um objeto, um conceito ou uma idéia: ele é um modo de significação, uma forma". Assim, não se há de definir o mito "pelo objeto de sua mensagem, mas pelo modo como a profere".

É aquela ficção, aquela mentira primordial que nos desvela o corpo da verdade. É o modo originário de interpretação da realidade, certa forma de pensamento válida como qualquer outra e das mais ricas que existem. E como mentira primordial não seria explicada pela razão. No entanto, para Kujawski, a contraposição entre mito e razão é enganosa; o mito tem a sua razão própria e característica, sua lógica peculiar, e a razão não passa de um mito entre outros.

O mito se define como uma narrativa arquetípica. Os feitos da história e da razão passam, mas o mito permanece. O mito é o supremo condensador de tempo, espaço e sentido. Mas não se queira substituir a razão pelo mito. Basta ampliar o alcance da razão com as lentes do mito. Não cabe propor a volta ao mito, assim como Rousseau pregava a volta à natureza. Razão e mito devem andar lado a lado, caminhar juntos. Por isso, não se fale em volta ao mito. A função do mito está em ampliar nossa consciência, de modo a nos colocar em plena harmonia intelectual e vital com a realidade.

Assim, esse capítulo terá duas seções: a primeira, referente a poemas em que Helena é vista como uma deusa, comparada a deusas da mitologia; e, a segunda, a poemas em que aparecem outros seres mitológicos que não se relacionam diretamente a Helena, mas que são importantes para entendermos a intertextualidade presente na obra de Luiz Delfino.

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Fonte:
Renata Lopes Pedro: “A imortalidade de Helena: o corpo na lírica de Luiz Delfino”. (Tese apresentada como requisito parcial à obtenção do grau de Doutor em Teoria Literária, Curso de Pós-graduação em Literatura, Universidade Federal de Santa Catarina. Orientador: Prof. Dr. Lauro Junkes). Florianópolis, 2008.

Notas
A imagem inserida no texto não se inclui na referida obra. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da obra em sua totalidade. Disponível em: repositorio.ufsc.br

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