12/07/14

A Alma Encantadora das Ruas, de João do Rio

 A Alma Encantadora das Ruas, de João do Rio - pdf gratuito
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João do Rio entre a reportagem e a literatura

A produção jornalística de Paulo Barreto, sob o pseudônimo de João do Rio, se constitui, hoje, em seu maior legado. Mesmo assim, Paulo Barreto nasceu escritor e sempre conciliou essa sua carreira com a profissão de jornalista, nunca deixando de produzir narrativas ficcionais.

Como já fora sublinhado neste trabalho, em 1905, ele estampou na Gazeta de Notícias uma enquete dirigida aos principais intelectuais da época. Entre as questões elencadas, havia uma estritamente relacionada com o debate em torno do jornalismo e da literatura: “o jornalismo, especialmente no Brasil, é fator bom ou mau para a arte literária?” – foi, de longe, a questão que mais provocou polêmica. A compilação das respostas foi publicada em livro três anos depois, chamado de O Momento Literário.

Paulo Barreto acabou perguntando aos outros o que ele já fazia na prática, como João do Rio: a convergência entre jornalismo e literatura. Segundo Marcelo Bulhões, em sua produção, é possível identificar recursos literários importantes, como um “ processo narrativo que atualiza os acontecimentos, presentificando-os, por assim dizer, fazendo com que o leitor acompanhe o desenrolar da ação como se fosse uma testemunha” (2006, p. 57). Para Bulhões, “torna-se compatível, no fim das contas, o caráter informativo com o traço ficcional próprio do gênero conto [...] o jornalístico-informativo convive, em rica ambigüidade, com o literário-ficcional” (2006, p. 57). João Carlos Rodrigues, analisando o A alma encantadora das ruas, comenta que “há momentos em que não sabemos mais se estamos lendo uma grande reportagem ou pura literatura” (RODRIGUES, 1996, p. 70).

A questão ficcional também aparece quando se analisa a figura e a função do narrador. Em João do Rio, o repórter não se mostra distanciado ou indiferente. Na visão de Cremilda Medina, João do Rio abusa da primeira pessoa, soando inclusive “egocêntrico”: “A reportagem de João do Rio apresenta um ‗autor‘ e não um repórter como narrador intermediário, impessoal, do fato jornalístico” (MEDINA, 1976, p. 72). O repórter acaba sendo mais um personagem entre tantos outros, um narrador da aventura que é fazer uma reportagem: “Em última instância, tratar-se-ia de um jornalismo auto-referente, a um passo da atitude metalingüística, uma vez em que se narra e se tematiza a própria atividade de reportar e de escrever” (BULHÕES, 2006, p. 63).

Portanto, quanto ao tratamento estilístico do texto de João do Rio, podem-se resumir suas características, segundo Cremilda Medina: há a descrição de ambientes e fatos e também o repórter como narrador; há o diálogo repórter-fonte (segundo Cremilda Medina, é um recurso que dinamiza a narração, mas que está excessivamente centralizado no escritor); o rimo narrativo da reportagem está presente (um ritmo de cenas e situações com caráter dinâmico, fixando o leitor); por último, tem-se as frases e os recursos literários, que, segundo a autora, muitas vezes são vistos como deslizes retóricos. (MEDINA, 1976).

Com todas essas particularidades que se parecem distantes do anacrônico, porém quase imortal, mito da objetividade jornalística, a riqueza do texto de João do Rio foi tratada como um legado menor de sua obra. Para a maioria dos estudiosos, João do Rio tem a sua importância na história da imprensa brasileira por trazer para as redações uma noção o repórter como profissional de rua, que utilizasse o expediente da entrevista e da observação in loco. Já no seu tratamento estilístico, apontam que João não conseguiu firmar um estilo de se escrever jornalismo:

Nelson Werneck Sodré, ao traçar o perfil de Paulo Barreto, identifica-o como ‗jornalista cuja contribuição não foi no terreno da linguagem, mas no uso de métodos que, não sendo novos, foram apurados por ele, aproveitados, praticados com inteligência, a entrevista e o inquérito e a reportagem em particular‘. Para Cremilda Medina, Paulo Barreto inovou ‗principalmente ao nível do conteúdo informativo e dos métodos de captação dos dados, portanto, ao nível da reportagem. Como redator ou estilista, preso a um tratamento literário muitas vezes esteticamente criticável, não consegue firmar um estilo jornalístico (VERNIERI, 2009, p. 19-20).

No entanto, não se pode relegar a um plano inferior o modo original com que ele lidava com o real e o ficcional, ou seja, a forma com que João do Rio se apropriava das informações e as colocava no papel também são importantes. Não se ater a isso, é deixar “de lado a possibilidade das influências recíprocas entre a literatura e a reportagem no que concerne ao modo de narrar uma história” (VERNIERI, 2009, p. 20). Susana Vernieri aponta que, hoje, incrementar o texto jornalístico da reportagem com tons literários (primeira pessoa, adjetivações, diálogos) é comum e visto com bons olhos, sobretudo depois do fenômeno exitoso do new journalism, nas décadas de 1960 e 1970:

Quando João do Rio, na abertura do século, começa a publicar na Gazeta de Notícias suas crônicas referentes às religiões do Rio de Janeiro, ‗muita gente duvidou então da veracidade do que era revelado num estilo ágil, vivo, trepidante, num processo novo de apresentar a informação‘. Abria-se, assim, na imprensa brasileira, uma maneira nova de informar, que não se impôs e que, imprudentemente, serviu como mais um argumento para desacreditar o cronista junto aos jornalistas e aos escritores. Ambiguamente, o autor não se situava nem em um campo, nem em outro. Verificar o fato ‗in loco‘ e, depois, conferir-lhe uma roupagem que tendia para a literatura desapontava as expectativas e criava a confusão (DIMAS Apud VERNIERI, 2009, p. 20).

Esse cruzamento vanguardista – ou a “confusão” – que João do Rio proporcionou aos embasbacados leitores do início do século XX seria apenas mais uma polêmica realização sua, ente tantas outras. Em seus escritos e em sua trajetória profissional, João do Rio acaba por deixar claro que a ambiguidade não reside apenas na relação flâneur x jornalista, no quesito realidade x ficção, ou ainda no eterno dilema jornalismo x literatura. Essas relações aparentemente contrastantes, mas que nele se complementaram com distinta adequação, podem ser compreendidas como uma indelével marca, não só na sua obra, mas, igualmente, na sua vida. Dessa forma, nas próximas páginas, procurar-se-á analisar as implicações e as conexões entre o repórter e o escritor em uma de suas mais impactantes obras.



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Fonte:
Lucas Osório Rizzatti
: “João do Rio: o escritor da vida real  A apuração jornalística e o texto de reportagem em A alma encantadora das ruas”. (Trabalho de conclusão de curso apresentado à Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação da Universidade Federal do Rio Grande do Sul como requisito parcial para obtenção do título de Bacharel em Comunicação Social, habilitação em Jornalismo. Prof.ª Mestre Rosa Nívea Pedroso(Orientadora). Porto Alegre, 2009.
Notas
A imagem inserida no texto não se inclui na referida obra. As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra. O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho. Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da obra em sua totalidade.

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