18/05/14

Prosopopeia, de Bento Teixeira

 Prosopopeia, de Bento Teixeira
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Análise da “Prosopopéia”

A Prosopopéia é um poema em que são louvados os feitos sublimes e heróicos de Jorge d'Albuquerque, estruturados na concepção épica (com Proposição, Invocação, Dedicatória, Narração, Descrição de Pernambuco, Canto de Proteu e Epílogo). As 94 estrofes (estâncias) compõem­se de oitos versos decassílabos cada, os quais permanecem heróicos em quase todo o poema, embora, às vezes, mostrem­se sáficos. As rimas se dão entre o primeiro, o terceiro e o quinto versos; o segundo, o quarto e o sexto; o sétimo e o oitavo. Por tudo o que já foi especificado no presente trabalho, evidencia­se que a obra de Bento Teixeira merece ser re­lida no século XXI, para que a pós­modernidade possa resgatá­la e dar­lhe novos sentidos, diferentes dos que a crítica tradicional tem dado, mostrando que esse “riscunho” é atemporal e plurissignificativo. Sob essa ótica, o autor deste ensaio realiza a sua tarefa, ciente de que se trata de um fazer arriscado, mas acreditando na sua validade historial.

De início, evocar­se­ão as duas etapas da leitura hermenêutica, a compreensão e a interpretação: ou seja, primeiro se compreende a obra, para depois interpretá­la. Essa abordagem do texto é fundamental para que se construa uma análise literária. Esclareça­se que o objetivo deste trabalho é promover uma significação aberta da obra de Bento Teixeira, o que faculta um exercício crítico baseado em “recortes” do poema – deixando­se explícito que, se partes do texto não foram trabalhadas, não foi por descuido do ensaísta, nem por falta de valor estético dos versos do poeta. A análise não terá caráter linear e, se for preciso, juntar­se­ão passagens de estrofes variadas da Prosopopéia. Como toda leitura começa pelo título da obra, busque­se o significado de “prosopopéia”. De acordo com o dicionário Novo Aurélio, a palavra “prosopopéia” designa uma figura de linguagem que vivifica o que é inanimado, permitindo­lhe agir, mover­se e falar; confere, também, o dom da fala a seres humanos distantes ou falecidos e, ainda, a bichos. Seguindo essa definição, percebe­se que o(s) texto(s), em si, é/são inanimados(s) e carente(s) de um leitor que possa dar­lhe(s) vida, através da construção de sentido(s). A partir de agora, a função deste pesquisador será a de dar vida à Prosopopéia, colocá­la para falar, tirá­la das cinzas, assim como uma fênix radiosa. Lido o título, partir­se­á para a investigação do “Prólogo”, que é cheio de significância:

Se é verdade o que diz Horácio que Poetas e Pintores estão no mesmo predicamento; e estes pera pintarem perfeitamente ũa Imagem, primeiro na lisa távoa fazem riscunho, pera depois irem pintando os membros dela extensamente, até realçarem as tintas, e ela ficar na fineza de sua perfeição; assim eu, querendo dibuxar com obstardo pinzel de meu engenho a viva Imagem da vida e feitos memoráveis de vossa mercê, quis primeiro fazer este riscunho, pera depois, sendo­me concedido por vossa mercê, ir mui particularmente pintando os membros desta Imagem, se não me faltar a tinta do favor de vossa mercê, a quem peço, humildemente, receba minhas Rimas, por serem as primícias com que tento servi­lo. E porque entendo que as aceitará com aquela benevolência e brandura natural, que custuma. Respeitando mais a pureza do ânimo que a vileza do presente, não me fica mais que desejar, se não ver a vida de vossa mercê augmentada e estado prosperado, como todos os seus súbditos desejamos.

O trecho da poética horaciana, referido no “Prólogo” da obra de Bento Teixeira, cria uma abertura altamente polissêmica, para o entendimento do lugar da Prosopopéia na História da Literatura Brasileira. Caso se aceite que Jorge d'Albuquerque Coelho é uma alegoria do Brasil, pode­se compreendê­la como uma referência do poeta ao início da literatura essencialmente brasileira. Entretanto, Bento Teixeira sabe que o seu intento acolhe riscos e, concomitantemente, delineia o rascunho de uma identidade literária. Não foi à toa que escolheu utilizar, dentre todos os gêneros, o épico, associado à afirmação de uma sociedade. Observe­se que não se está confundindo o autor Bento Teixeira com o eu poemático. Confira­se a primeira estância da Prosopopéia: Cantem Poetas o Poder Romano, Sobmetendo Nações ao jugo duro; O Mantuano pinte o Rei Troiano, Descendo à confusão do Reino escuro: Que eu canto um Albuquerque soberano, Da Fé, cara Pátria firme muro, Cujo valor e ser, que o Ceo lhe inspira, Pode estancar a Lácia e Grega Lira. No primeiro verso, o verbo cantar, conjugado no tempo presente do modo subjuntivo, permite a seguinte leitura: deve­se duvidar dos textos dos poetas – Virgílio, Horácio e Ovídio –, ou melhor, do que eles cantaram ou, então, do que se propuseram a cantar. Isso não é nada, perto da matéria cantada pelo novo eu poemático, uma vez que o modo subjuntivo indica incerteza. No terceiro verso, o verbo pintar, igualmente no subjuntivo, lançará dúvida sobre a imagem do “Rei Troiano”. A ofensa, no entanto, é destinada ao poeta Virgílio. Já no quinto verso, o eu poemático utilizará o verbo cantar em referência ao seu herói, no modo indicativo, para conferir certeza ao seu relato. Contudo, o que diferenciará os heróis romanos, do herói “brasileiro”, é que este será soberano, não pela força, mas pela fé e integridade moral. Os romanos, ao contrário, submeteram nações pela força. Abaixo, leia­se a segunda estância:

As Délficas irmãs chamar não quero, Que tal invocação é vão estudo; Aquele chamo só, de quem espero A vida que se espera em fim de tudo. Ele fará meu Verso tão sincero, Quanto fora sem ele tosco e rudo, Que per rezão negar não deve o menos Quem deu o mais a míseros terrenos. Geralmente, a crítica tem associado “As Délficas irmãs” às nove musas do monte Parnaso, filhas da deusa da memória, Mnemósine, e Zeus. Todavia, as “As Délficas irmãs” podem estar relacionadas às sibilas de Delfos, pitonisas do deus Apolo, que prediziam o futuro através de versos, os quais, para serem entendidos, precisariam ser decifrados. O eu poemático, ao abdicar do auxílio das musas ou das pitonisas, assume a figura de profeta e, mais adiante, registrará os vaticínios do deus Proteu. O poeta abdica da colaboração das Musas e invoca a figura de Deus, sem nomeá­lo. Mais à frente, a figura de Proteu é quem assume o lugar das musas e de Deus. Esta estância, assim como a XV, mostra bem a crise maneirista de busca por uma identidade.
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Fonte:

Leonel Isac Maduro Velloso: “Bento Teixeira: o talento de sua mão”. Rede de Letras. Disponível em: www.estacio.br/publicacoes/redeletras

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