02/03/14

Luzia-Homem, de Domingos Olímpio

 Luzia-Homem, de Domingos Olímpio
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Luzia-Homem: “uma faca só lâmina”

Ao escreveres um poema
Não dês demasiada importância às palavras.
No poema, as palavras
Não existem verdadeiramente,
Não têm existência de fato.
No poema, as palavras
Não têm consistência, nem são sensíveis ao
tacto.

Jorge Viegas

Luzia-Homem é um romance da segunda metade do século XIX ainda pouco estudado, comparando com outros da mesma época. Dele também existem poucas versões criadas para o cinema. Uma delas é a de 1984, classificada pelas locadoras como pertencente ao gênero drama. O filme tem o mesmo título do romance, com Claudia Ohana, como Luzia, a protagonista.

A sinopse do filme pode ser apresentada como uma história de uma mulher que está dividida entre o amor e a vingança. Ela presencia o assassinato dos pais quando criança e a partir daí é criada por um senhor, com o qual adota os costumes masculinos de vaqueiros no sertão. Depois, com mais idade, sai à procura de vingar seus pais.

Luzia-Homem, como romance, é uma narrativa ficcional e segundo Saer (1991, p.02), se escrevem ficções “para pôr em evidência o caráter complexo da situação, caráter complexo de que o tratamento limitado ao verificável implica uma redução abusiva e um empobrecimento”. Na literatura a ficção é uma das características da obra literária e demonstra uma interpretação subjetiva da realidade na visão do autor. Toda essa narrativa é construída a partir de elementos da realidade empírica, que é onde está inserido o escritor, junto a elementos de sua fantasia.

No romance, a protagonista Luzia enfrenta a seca e trabalha muito para poder sustentar sua mãe doente. Elas contam com a amizade de Alexandre, que no decorrer da história declara seu amor a Luzia. Devido a evitar esse possível relacionamento, Crapiúna, soldado sem escrúpulos, não mede esforços em suas artimanhas. Seus planos são descobertos por Teresinha, que demonstra grande amizade a Luzia, e ele é entregue para os policiais. Não se dando por vencido, Crapiúna foge da cadeia e vai se vingar de todos, mas o final é trágico para ele também, que após matar Luzia, cai no penhasco devido a dor e a falta da visão, pois ela ao lutar, arranca seu olho.

Esse é o romance que nos propomos a ler sob as lentes das teorias de Rancière, visto que toda reflexão desta dissertação está ligada ao que a Partilha do Sensível, de Rancière (2005) nos proporciona. Nessa obra, a partilha do sensível é apresentada como a maneira que a filosofia ou a literatura, a estética ou a história constituem seus discursos. Essa ótica do autor consegue mais respaldo após termos visto os seus argumentos contra a visão do naturalismo como seguidor das regras da mimese e os argumentos de vários autores que o consideram seguidor.

O foco narrativo do romance Luzia-Homem está na terceira pessoa, contando com a objetividade de Olímpio, que é um narrador onisciente, pois cria toda a história narrada, inclusive os pensamentos e sentimentos dos personagens. Escrever sobre o autor Domingos Olímpio é algo perigoso, porque quem conhece a obra Luzia-Homem tem o desejo de por muitos dados sobre o autor, porém cai no fator da “ausência de fontes de pesquisa”. Nas pesquisas sobre o naturalismo muito se fala da biografia dos autores que marcaram a história na segunda metade do século XIX, mas pouco está relacionado a Domingos Olímpio.  

O autor cearense, DOMINGOS OLÍMPIO Braga Cavalcanti (1850-1906)”, segundo Massaud (2001, p.74):

Nasceu em Sobral (Ceará) a 18 de setembro de 1850. Formou-se em direito pela Faculdade de Recife (1873). Depois de algum tempo no Ceará, transferiu-se para Belém (Pará), em 1879, onde se dedicou ao jornalismo, à advocacia e à política. Republicano e abolicionista convicto, nessa altura redigiu uma série de contos que esperava reunir em volume. Mudando-se para o Rio de Janeiro em 1891, continuou na atividade jornalística, e no ano seguinte integrou uma comissão diplomática em Washington. Em 1903, publicou Luzia- Homem, e entre 1904 e 1906 estampou na revista Anais, que acabara de fundar, o romance O Almirante e vários capítulos de outra narrativa, O        Uirapuru. Faleceu na então capital Federal, deixando inéditos contos e peças teatrais, a 06 de outubro de 1906.
  
Esses são dados rápidos da vida e obras de Olímpio. O fato de ele ter nascido em Sobral e escrito o livro sobre a mesma cidade natal, será analisado no decorrer deste texto. Neste momento, vamos conhecer brevemente sua vida política e profissional. Nas informações dadas por Merquior (1979, p.117), Domingos Olímpio:

Ligou-se ao grupo positivista de Capistrano de Abreu e Araripe Junior. Promotor público em sua cidade nativa, Sobral, lançou-se na imprensa política, chocando-se com os “donos” do Ceará da época. Transferindo-se para Belém, lá fez campanha pelo abolicionismo e pela República. Com o novo regime, passou para o Rio, trabalhando como advogado e jornalista, e integrou a delegação que, sob a chefia do Rio Branco, defendeu o Brasil na questão das Missões.

Uma pessoa que participou ativamente de todos esses fatos citados por Merquior, não foi alguém que apenas passou pela vida, mas que sem dúvida ajudou a construir uma história brasileira melhor. Mesmo participando de tantos cargos e atividades revolucionárias, Olímpio conseguiu tempo para a literatura. No total das obras temos: Romances: Luzia-Homem (1903), O Negro, O Uirapuru, Almirante. Peças de teatro: A Perdição (1874), Rochedos que Choram, Túnica Nessus, Tântalo, Um Par de Galhetas, Os Maçons e o Bispo, Domitila. Outros: História da Missão Especial de Washington, relato; A Questão do Acre, história; A Loucura na Política, biografia. Algumas de suas obras não haviam sido publicadas quando faleceu.

Quanto à carreira profissional, Coutinho (2001) cita que Olímpio:

Exerceu a atividade jornalística no Rio de Janeiro, em periódicos como O Comércio, Jornal do Comércio, Correio do Povo, Cidade do Rio, Gazeta de Notícias e O País. Dirigiu o periódico Os Anais, semanário que contou com a colaboração de muitos escritores brasileiros e portugueses. (...) Apresentou candidatura para a Academia Brasileira de Letras, mas foi derrotado pelo poeta Mário de Alencar, filho do romancista cearense José de Alencar, tendo contado apenas com o apoio de Olavo Bilac, que faria um elogioso necrológio de Domingos Olímpio, ou Pojucã, um de seus pseudônimos.

 Para Oliveira Junior (2007, p.21), Domingos Olímpio “sofre de um injurioso infortúnio crítico, fato que o tem condenado à situação de indigência intelectual”. Muitas de suas produções ainda não foram encadernadas e continuam desconhecidas pelos leitores. A popularidade de seu melhor romance, Luzia-Homem é o que “o salva do ostracismo – e paradoxalmente amplifica o silêncio em torno de seu nome”. Infelizmente, mesmo com a popularidade do romance, o autor não conseguiu fazer parte da Academia Brasileira de Letras, como já afirmou Coutinho (2001), mas quanto a Academia Cearense de Letras, foi de muito merecimento Domingos Olímpio, o autor de Luzia-Homem, ser “Patrono da Cadeira no. oito”. Há no romance Luzia-Homem, que Domingos Olímpio publicou em 1903, uma demonstração de admiração por parte do narrador à paisagem de Sobral. Isso é muito bem expressado nas primeiras frases do texto: “O Morro do Curral do Açougue emergia em suave declive da campinha ondulada.” (OLÍMPIO, 1993, p.17). O autor demonstra carinho quando escreve essa frase para iniciar sua história e também demonstra sua inclinação aos preceitos românticos.


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Fonte:
Marta Bergamin: “Luzia-Homem só lâmina: uma leitura do romance de Domingos Olímpio (1903)”. (Dissertação apresentada ao Curso de Mestrado em Ciências da Linguagem da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Ciências da Linguagem. Orientador: Prof. Dr. Antônio Carlos Gonçalves dos Santos). Palhoça, 2010.

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