02/03/14

Coração, Cabeça e Estômago, de Camilo Castelo Branco

 Coração, Cabeça e Estômago, de Camilo Castelo Branco
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O sério em Coração, Cabeça e Estômago


A forma como Coração, Cabeça e Estômago (1862) foi construída é matéria de interesse por si só, e rendeu uma interessante análise feita por Paulo Franchetti (2003), além de também ter sido objeto de estudo para Maria de Lourdes Ferraz (1985). Trata-se de uma pretensa autobiografia, na qual Silvestre da Silva – um narrador autodiegético – escreve a história de sua vida, por ele dividida nas três fases que compõem o título da obra. Depois de sua morte, seus escritos são compilados pelo narrador heterodiegético que se denomina “Editor”, e que insere comentários em diversas passagens do relato de Silvestre. Na primeira parte (“Coração”), temos a história dos sete amores desastrosos do protagonista, e o contraste entre “a mulher que o mundo respeita” e “a mulher que o mundo despreza”. Já na segunda parte (“Cabeça”), temos o relato das suas desventuras no meio intelectual e jornalístico. Por fim, na terceira parte (“Estômago”), Silvestre vai viver no campo, alça-se à carreira política, casa-se com Tomásia, uma morgada rica e rústica, e, depois de tanto comer, acaba morrendo de caquexia.

Maria de Lourdes Ferraz afirma que, “se há intermitências de riso [...] nas novelas de lágrimas, intermitências que são da competência dos ‘à parte’ do autor/narrador que ‘entabula’ com o hipotético leitor comentários ao sucedido, nas novelas onde a facécia domina, as lágrimas são cautelosamente poupadas” (1991, p. 73). Apesar de “cautelosamente poupadas”, em Coração, Cabeça e Estômago as lágrimas, ou melhor, o tom sério também está presente, em meio à comicidade dominante, como procuraremos mostrar a seguir.

Comecemos pelo episódio em que Silvestre é comicamente humilhado pela segunda mulher que amou – depois de ter-lhe entregue uma poesia intitulada “Ela!”, a moça lhe manda um recado: “Gosto muito do seu estilo. Continue, que me entretém. Ontem não lhe apareci porque fui a Oeiras, e li a sua carta na presença de Netuno. Escreva muito, que escreve muito bem” (CCE16, p. 20). Depois desse relato, Silvestre nos conta a triste história dessa senhora, “que eu desculpo e até respeito” (CCE, p. 21), que depois viera a tomar conhecimento: apaixonada, fugira com um conde, “cuidando que a ignomínia lhe viria a dar um marido” (CCE, p. 21). Enganada, acaba virando sua amante, após o conde se casar “para desempenhar o vínculo deteriorado. Do patrimônio da esposa alargou a mesada à amante, que bebia, Deus sabe com que lágrimas, este segundo cálice de vilipendiosa dependência” (CCE, p. 21). Tentara pedir “perdão e asilo” ao pai, mas “nunca teve resposta” (CCE, p. 21). Silvestre conclui afirmando que “quando me deram estes esclarecimentos (1854), continuava ela a viver a expensas do conde e tinha um filho de cinco anos. Não sei mais nada” (CCE, p. 21). Com isso, o Editor insere uma nota de rodapé: 

Chamava-se Margarida a dama. Viveu ainda até 1857 e morreu da febre amarela, e o filho também. Conta-se que o conde, receoso do contágio, não ousara vir a Lisboa, das Caldas da Rainha, onde estava, quando Margarida o mandou chamar para despedir-se. Morreu contemplando os paroxismos do filho. Os criados abandonaram-na no último dia. Estava sozinha quando expirou. O conde está ótimo de saúde e transferiu a mobília de Margarida para os aposentos de uma criada, que a condessa expulsou de casa... (CCE, p. 21).

Através dessa intrusão do narrador heterodiegético, temos um reforço do tom sério de crítica social, contra um tipo de homem, nesse caso, representante de uma nobreza decadente – notemos que tanto Silvestre como o Editor chamam-no apenas de “conde” –, que faz das mulheres puro objeto de seu prazer – ou da manutenção de sua condição social, a partir do casamento por um rico dote –, não tendo o menor respeito por elas ou mesmo o menor sentimento de humanidade. A irônica sentença final desse trecho demonstra um ponto de vista realista da sociedade, pois o conde acaba a história com uma nova amante e, ainda por cima, “ótimo de saúde”. Não há punição pela justiça dos homens, nem providência divina.

O episódio sobre Marcolina, “a mulher que o mundo despreza”, é ainda mais melancólico do que o de Margarida. Nessa longa passagem, ela conta a história de sua vida para Silvestre, que a encontra tísica e se apaixona por ela, constituindo uma outra narração autodiegética, inserida dentro da narração autodiegética de Silvestre. Marcolina inicia o seu relato contando como, ainda criança, ficou na miséria: apesar de seu pai ter sido “empregado na tesouraria, onde ganhava para levar a vida com abundância” (CCE, p. 86), gastava tudo para sustentar um luxo que não podiam ter – “Ouvi dizer que a casa estava trastejada com luxo, em que meu pai se esmerava, por ter sido criado no paço, onde meu avô era cirurgião” (CCE, p. 86). Quando ele morrera, apesar de quase sem recursos, sua mãe – “não tanto por ser bela como por correr fama que tinha dinheiro” (CCE, p. 86) – casara-se com um empregado público, “mais novo e mais pobre que ela” (CCE, p. 86), e continuara gastando abusivamente, somando-se às dívidas os vícios de seu marido: “O que me lembra muito bem é a indigência, e a fome, e a nudez de minhas irmãs” (CCE, p. 87).

Quando o padrasto desaparecera, sua mãe começara a mendigar, e “outras vezes fechava-nos todas na única alcova da casa, e ela ficava na saleta: creio que este fato era mais horrível que pedir esmola” (CCE, p. 87). Aos quatorze anos, Marcolina foi “vendida” por sua mãe a um barão, que assim que a viu “a tremer e a chorar”, “teve piedade” dela. Ela conta que o homem, que “teria cinqüenta anos”, 

[...] lançou-me ao regaço dinheiro em ouro e disse: “Quando sua mãe vier, diga-lhe que está pura, peça-lhe que não a venda, e obrigue-se a sustentá-la com a condição de não a vender. Esse dinheiro é o necessário para um mês; no princípio do mês que vem receberá igual quantia.” E saiu, beijando-me na testa e murmurando, quando me viu estremecer ao contato da sua boca: “Pobre menina!” (CCE, p. 88).

A mãe de Marcolina, no entanto, insistira em fazê-la amante do barão, com “um plano vergonhoso que devia enriquecer-me em poucos anos” (CCE, p. 90). A moça, indignada, acaba pedindo ao barão para que este “me tirasse da companhia de minha mãe e se compadecesse do meu infortúnio” (CCE, p. 91). Apesar de toda a sua opulência – “passados quinze dias, a minha guarda-roupa estava cheia de cetins e veludos. Tinha brilhantes que faziam invejável a minha desonra” (CCE, p. 91) –, Marcolina vivia infeliz, devido à tirania do barão, que não permitia que ela mantivesse contato com as suas irmãs, e também devido à vergonha de sua condição, que, para ela, “não era mais honesta” que a daquela que virara prostituta. Através da voz da narradora, temos uma triste, mas realista, conclusão sobre a vida: “A minha grande desgraça, senhor, era eu não poder destruir os sentimentos da dignidade [...]. As mulheres na minha posição começam a ser felizes quando se enterram de todo no charco das torpezas” (CCE, p. 93).

Ao perceber que Augusto, o guarda-livros do barão, “novo como [ela]” (CCE, p. 94), tinha-lhe estima, Marcolina afirma que “conheci então o amor, à força de pensar que sentimento seria o que ele me causava” (CCE, p. 94). Quando o barão descobre que sua amante amava o caixeiro, começa a ter vários acessos de ciúme: “cobriu-me de injúrias; das injúrias passou às lágrimas; das lágrimas tornou aos insultos; e, quando eu menos podia esperar uma vilania sem nome, deu-me uma bofetada” (CCE, p. 96). Pouco depois, ameaça matar-lhe; mais tarde manda-lhe devolver todos os vestidos e jóias, e ir embora; porém, quando ela estava prestes a sair, lançou-se-me aos pés o barão, abraçou-me pela cintura abafado pelos soluços; disse-me até, no seu desvario, que iríamos para França, e lá casaria comigo. Causou-me riso e compaixão este desatino!... Cedi, deixei-me ir quase nos braços dele até ao meu quarto. Parecia louco de alegria o pobre homem! Trouxe-me as jóias, tirou do dedo um grande brilhante, que ele chamou anel de casamento, e quis à força que eu o pusesse entre outros, posto que podia abranger três dos meus dedos. (CCE, p. 99).

Quando o barão morre, sua esposa volta do Brasil para herdar a fortuna, e Marcolina fica apenas com as suas jóias. Ao reencontrar Augusto, é pedida por este em casamento; ela, porém, não teve “um mês de contentamento”, uma vez que “Augusto transfigurou-se, se não era hipócrita [...]. Era libertino, dissipador, jogador e até embriagado o vi muitas vezes” (CCE, p. 107). Após o marido ter gastado o que lhe restava do dinheiro das jóias, “recebi dele uma carta em que me dizia adeus para sempre” (CCE, p. 108). Com isso, a personagem é deixada na miséria, obrigando-se a se prostituir para sustentar as suas irmãs, até encontrar Silvestre, que se dispõe a ajudá-la, ao que ela comenta: “Que generosa alma a sua! Não sabe em que mundo está!...” (CCE, p. 110). Em pouco tempo, Marcolina recebe uma carta de suas irmãs avisando que o padrasto voltara rico da África: ela, no entanto, já estava à beira da morte. Silvestre, por sua vez, encerra o capítulo afirmando: “amei-a porque era mais pura, mais virgem e mais santa que a outra respeitada do mundo17; e porque, em ódio à sociedade, que a desprezava, não posso vingá-la senão amando-a com eterna saudade” (CCE, p. 112).

Como vimos, esse episódio constitui uma forte crítica à sociedade que faz das mulheres mercadoria. Apesar de criticar o materialismo que compõe a sociedade burguesa, o romance, através da voz da personagem, traz um retrato do barão – representante de uma burguesia composta pelos brasileiros de torna-viagem, que enriquecem no Brasil e quando voltam a Portugal compram um título e uma amante –, distinto do de um antagonista: “era um coração como poucos. As ameaças das pistolas, os insultos, a requisição das jóias e dos vestidos, tudo isto, que parece vilania, era nele uma sublime maneira de exprimir o seu muito ciúme e paixão” (CCE, p. 100). Tal afirmação de Marcolina não nos parece ser irônica, uma vez que, pelos atos do barão – a começar pela piedade que teve por ela quando criança –, é possível ver que ele pelo menos demonstrava ter sentimentos, ainda que estes por vezes se 17 Discutiremos a condição das mulheres “que o mundo respeita” no capítulo 3.2. mostrassem violentos e possessivos. Ao contrário de Augusto, este sim, responsável pela sua desgraça, uma vez que, se não fosse por ele, a moça teria conseguido se sustentar com o dinheiro das jóias que o barão lhe deixara.

Com isso, temos uma amostra da ambigüidade com que são construídas as personagens camilianas, que não se dividem facilmente em “heróis”, “vítimas”18 ou “vilões”. A estética da ambigüidade, aludida por Carlos Reis e Maria da Natividade Pires (1999), é aqui aplicada por Eunice Cabral, que aponta “a ‘eterna saudade’ da amada morta” como um “tema obrigatório das novelas passionais de Camilo”, que “poderia não surgir numa novela humorística, como é Coração, Cabeça e Estômago”          (2008, p. 14). Segundo a ensaísta, “os efeitos da estética da ambigüidade fazem-se sentir em todos os domínios e, nessa medida, o leitor tanto reconhece traços da novela passional, num registro de dramaticidade muito marcado, como ‘tropeça’ em trechos do mais puro gozo e chacota à personalidade romântica da época [...]” (2008, p. 14). Tais trechos serão trabalhados por nós no próximo capítulo; por ora, interessa-nos somente mostrar a presença do tom sério num romance cômico.

Devemos citar mais uma passagem séria, presente na segunda parte do romance (“Cabeça”), na qual Silvestre denuncia, segundo Jacinto do Prado Coelho, “o materialismo corruptor do meio portuense” (2001, p. 204), criticando a roubalheira da alta burguesia, o livre comércio de escravos, a opinião pública que respeita (apenas) quem tem dinheiro – não importa de onde ele venha –, e a “subserviência do jornalismo portuense à gente de dinheiro” (COELHO, 2001, p. 204):

Cansei-me de ouvir dizer que a segunda cidade de Portugal é um enxame de moedeiros falsos, de contrabandistas, de mercadores de negros, de exportadores de escravos e de magistrados de alquilaria. Venalidade, crueza e latrocínio são os três eixos capitais sobre que roda, no entender da crítica mordente, o maquinismo social de cem mil almas. A minha análise aprofunda mais o espírito vital do Porto.

Ali, o viver íntimo tem faces desconhecidas ao olho da polícia e da economia social. Conhecem-se as librés dos chatins de negros; discrimina-se pelo brasão o fabricante de notas falsas do outro seu colega heráldico, opulentado em roubos ao fisco; ignora-se, todavia, o mais observável e ponderoso da biografia desses vultos, que a fortuna estúpida colocou à frente dos destinos e da civilização do Porto.
 [...] O jornalismo do Porto está acorrentado às ucharias dos ricos. O jornalista por via de regra é um pobre homem, que vive do estipêndio cobrado com franciscana humildade à porta do assinante. Para os festins do fidalgo de raça era chamado o versista com as consoantes prévias do soneto na algibeira, onde não havia outra coisa. Nos tumulentos jantares do fidalgo de indústria há talher para o gazeteiro, que já deixou na estante dos caixotins a local sumarenta, inspirada pelo antegosto das viandas, que lhe arrastam na torrente a alma para o estômago. (CCE, p. 138-139). 

Assim sendo, temos uma forte crítica à transformação da arte – e do jornalismo – em mercadoria, a partir da qual o narrador iguala a condição de dependência do artista para com o mecenas, com a situação atual, em que o escritor/jornalista depende da aprovação dessa elite corrupta para vender a sua obra. Tal obra, por sua vez, fica comprometida pelo “antegosto das viandas, que lhe arrastam a alma para o estômago”, fazendo com que o artista troque seus princípios pelo dinheiro. Nessa denúncia, podemos depreender também uma autocrítica, uma vez que Camilo era um escritor comercial e, como vivia de sua pena, também dependia do seu editor e do seu leitor, precisando se preocupar em escrever aquilo que iria agradá-los. Há, porém, certas formas de “cavar” essa liberdade em meio à dependência, e é isso que Camilo fazia: escrevia romances ao gosto do público, mas não deixava de registrar a sua visão de mundo, uma visão, por sinal, bastante crítica e realista.

Essa visão realista também está presente na última parte do romance, na qual Silvestre se casa com uma herdeira rica e rústica, e passa a levar uma vida voltada ao estômago, “[...] de maneira que todas as minhas faculdades de ora em diante em volta do estômago se movem, o estômago as rege, e não há-de alguma idéia preocupar-me sem sair elaborada nas mesmas cinco horas que os fisiologistas assinam às funções digestivas” (CCE, p. 175). Nesse momento, Silvestre finalmente é reconhecido pela opinião pública, conseguindo eleger-se regedor por meios escusos: ele mandara seu criado roubar o cavalo do vigário, principal cabo eleitoral de seu adversário, fazendo com que ele desistisse de participar das eleições: “O vigário, azoado com a perda, e tolhido de arengar aos paroquianos das aldeias vizinhas, sentiu-se baldo de entusiasmo e patriotismo e deixou o seu correligionário em campo. Venci as eleições por espantosa maioria” (CCE, p. 179).

Uma vez eleito presidente da Câmara, Silvestre mostra-se oportunista e corrupto: “Estreou-se nas funções municipais mandando construir uma porca nova para o sino da igreja e compor uma estrada descalçada que lhe passava à porta; depois propôs em sessão que se pedisse ao governo uma estrada do Porto a Chaves, com um ramal por Soutelo [onde morava]” (CCE, p. 206). Ao descobrirem que o político, depois de ter se endividado no Porto, tinha feito um casamento rico, os credores quiseram cobrá-lo, remetendo “deprecadas para ele ser citado com sua mulher” (CCE, p. 207). No entanto, “se saiu Silvestre com uma escritura nupcial, em que os bens havidos e por haver de sua mulher ficavam isentos de pagar as dívidas do marido, contraídas até a data do casamento” (CCE, p. 207). O seu sogro, por sua vez, elogiou-lhe o estratagema: “O sargento-mor, conquanto fosse caráter dos bons tempos, transigiu com as velhacadas do genro e admirou-lhe a esperteza” (CCE, p. 208).

Como Jacinto do Prado Coelho afirma, temos uma “conclusão pessimista cinicamente exposta: neste mundo são os velhacos que triunfam” (1996, p. 142), uma vez que só a partir de trapaças Silvestre consegue ser bem-sucedido. Contudo, explica-nos Eunice Cabral, “não irá ser o materialismo do ‘estômago’ que proporcionará a felicidade ao protagonista” (2008, p. 19). Óscar Lopes, por sua vez, defende que “a felicidade gastronômica e rural do protagonista [...] não se pode acolher sem ironia; trata-se de uma ‘felicidade estúpida’” (1994, p. 53). Podemos depreender essa idéia a partir do comentário do Editor, que enfatiza a gordura de Silvestre – que “embargava-lhe a ação e abafava-lhe o espírito nas enxúndias” (CCE, p. 208) – como símbolo de uma vida bruta e vazia:

Mais de uma vez tentei espertar o entorpecido engenho do meu amigo, recordando as nossas palestras literárias nos cafés e citando passagens mais conhecidas dos seus folhetins. Silvestre acordava por instantes, ouvia-me com aspecto melancólico de saudade; mas logo retomava o ar alarve e motejador de quem se bandeia com os mofadores das letras [...]. Mal posso perdoar ao mundo que o exilou da pátria luminosa do espírito para as trevas estúpidas de uma vida cuja felicidade eu desejaria, como vingança, a quem ma aconselhasse. (CCE, p. 210-211, grifo nosso).

É devido a essa constatação que a morte de Silvestre, provocada pelo excesso de comida – numa crítica à acumulação promovida pelo capitalismo –, possui um tom melancólico, ainda que permeado de comentários cômicos. Como forma de síntese de sua vida, temos o poema derradeiro de Silvestre, que termina com as seguintes palavras:

Cabeça e coração senti sem vida,
No estômago busquei uma alma nova
E encontrá-la pensei... Crença perdida!
Mulher aos pés o coração me sova;
Foge ao mundo a razão espavorida;
E por muito comer eu desço à cova! (CCE, p. 222).
  
Se o idealismo amoroso do coração e o idealismo intelectual da cabeça não lhe trouxeram felicidade, o materialismo do estômago também não. Como vimos a partir desses trechos, Coração, Cabeça e Estômago também pode ser lido, segundo Maria de Lourdes Ferraz, como “uma busca desatinada de um sentido para vida. Nestas circunstâncias o destino da busca é ocasião de risos e lágrimas, de tragédias e de ridículos onde bons e maus sentimentos [...] ladeiam os seus anversos ou os seus reversos” (1997, p. 84). Silvestre tentara encontrar um sentido para a sua vida, mas falhara na missão.


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Fonte:
Luciene Marie Pavanelo: “Entre o coração e o estômago: o olhar distanciado de Camilo Castelo Branco”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Literatura Portuguesa do Departamento de Letras Clássicas e Vernáculas da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, para a obtenção do título de Mestre em Letras. Orientador: Prof. Dr. Paulo Motta Oliveira). São Paulo, 2008
 

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