04/03/14

Motta Coqueiro, ou a pena de morte, de José do Patrocínio

 Motta Coqueiro, ou a pena de morte, de José do Patrocínio
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José do Patrocínio e o romance Motta Coqueiro ou a pena de morte.

O século XIX no Brasil figurou como um período de muitos acontecimentos-chaves que fizeram do Brasil colônia em uma nação em formação. Na primeira metade do século citado, a vinda da família real, em 1808, e a independência política, em 1822, inauguraram um novo relacionamento entre o Brasil e Portugal, que trouxe para a nação brasileira uma série de transformações políticas, econômicas, sociais, culturais, etc. Na segunda metade, a abolição dos escravos, em 1888, e a proclamação da República, em 1889, constituíram momentos de partida para repensar e reestruturar o Brasil como uma nação envolta à busca de ideais, tais como cidadania, progresso, cientificidade, etc.

Principal centro político e cultural do Brasil no século XIX, como escreve Humberto Fernandes Machado (2007),

o Rio de Janeiro era um espaço repleto de contrastes, caracterizado pela incorporação das novidades européias e das idéias de progresso e civilização que se opunham ao escravismo. Essa peculiaridade da cidade favoreceu o envolvimento da população na campanha abolicionista. (MACHADO, 2007, p. 01),

foi o palco mais ilustre de toda uma luta pró-Abolição dos escravos. Por certo, não só uma cidade restrita a esta luta, mas a questões nacionais.

Neste período, o discurso de nacionalidade assume uma preponderância entre os intelectuais, políticos, literatos, militares, etc. não só diante dos eventos históricos supracitados. Perpassa praticamente pelo século XIX todo, obviamente com especificidades locais, temporais e culturais, mas fortemente vinculado a discutir os problemas brasileiros impeditivos ao progresso intelectual, econômico, social, cultural, evidenciando que o Brasil, para crescer, deveria lidar com os seus dilemas internos. O Positivismo, de acordo com Sílvio Romero, João Camilo de Oliveira Torres, Ivan Monteiro de Barros Lins, Mozart Pereira Soares, entre outros, teve um papel formador e decisivo na intelectualidade neste contexto das últimas décadas do século XIX. Assim, falando sobre a influência das idéias de Comte no Brasil, fundador do Positivismo, Soares (1998) afirma:

O que ele não contava é que viesse a ser o Brasil o país em que encontraria o mais favorável dos ambientes para exercer a sua influência cultural, filosófica, científica, política e religiosa, a ponto de marcar incisivamente sua presença nas instituições sociais e de haver determinado o surgimento, até aqui, do único templo para suas prédicas, construído segundo as indicações gerais do Catecismo. (SOARES, 1998, p. 87)

A Literatura não esteve ausente deste discurso de nacionalidade brasileira no século XIX. Como salienta Heloísa Toller Gomes, em As marcas da escravidão O negro e o discurso oitocentista no Brasil e nos Estados Unidos (1994):

Com a ampliação do espaço público burguês e o acelerado desenvolvimento tecnológico da imprensa, o discurso literário oitocentista beneficiou-se do acesso a círculos novos de leitores e tornou-se cada vez mais insistente na abordagem de temas sociais. (GOMES, 1994, p.131)

O discurso literário, além do jornal e da tribuna parlamentar, foi potencialmente um canal expressivo e público de questões explícitas e implícitas deste discurso de nacionalidade, na divulgação e na compreensão da sociedade brasileira, em meio a anseios, dilemas, perspectivas e projetos que permearam o desejo de se construir uma nação forte e não mais genuflexa aos interesses de Portugal e de outras nações. Neste contexto em que a Literatura se exibe como um dos veículos do discurso promotores de nacionalidade e brasilidade, o Romantismo e o Realismo brasileiros, excetuadas algumas particularidades, por exemplo, o ultra-romantismo, colaboraram em muito para enunciar e/ou propor um discurso em torno de um ufanismo brasileiro, sem semelhantemente ocultar os dilemas e problemáticas da nação brasileira, e sem abrir mão de se construir uma literatura propriamente brasileira, com conteúdos e formas lingüísticas, inclusive, mais brasileiras e menos lusitanas ou estrangeiras.

Partindo deste prisma, em que a Literatura se insurge como uma fonte importante para visualizar e narrar o discurso da nacionalidade e da brasilidade no século XIX, esta forma de expressão artística ganha uma conotação histórica e potencialmente alternativa para o estudo e compreensão da História do Brasil, além de outras ciências humanas e sociais. Muitas obras literárias do século XIX, tanto românticas quanto realistas, relevam algumas particularidades dos modus vivendi dos brasileiros daquele período; pontuam o posicionamento ideológico do literato que escreve e do público que o recepciona, dão mostras de assuntos em discussão na sociedade; constroem uma imagem sobre o Brasil e o seu povo; fomentam o debate público e político em torno de temas preocupantes, etc. Como dizem Ângela Vianna Botelho e Liana Maria Reis (2001), em seu Dicionário Histórico Brasil Colônia e Império, além da Imprensa, como um expressivo meio de divulgação da propaganda abolicionista, também a literatura foi um importante veículo divulgador de idéias, particularmente através do maior poeta abolicionista, Castro Alves (2001:194).

Dentro deste amplo discurso em torno da nacionalidade e da brasilidade, o dilema da escravidão preenche uma dimensão importante, pois é este dilema, na crença de muitos intelectuais, que ata ou desata o nó para a formação de uma identidade nacional e para o progresso do país, como faz bem notar Everton Vieira Vargas (2007:133), em O legado do discurso: brasilidade e hispanidade no pensamento social brasileiro e latino-americano. Daí a temática Abolição dos escravos ser um assunto freqüente, alvo de discussão no século XIX, sobretudo, depois de 1850, quando se dá o fim do tráfico negreiro e se começa a pensar em um novo modelo econômico para adotar no Brasil, caso a escravidão findasse. Entra em jogo, com o fim do tráfico negreiro, não só a questão econômica, mas também a preocupação com um modelo de sociedade, de cultura, de identidade, etc. que se procuraria delinear para o futuro do país.

Obviamente estas questões não surgiram da noite para o dia, elas tomam mais corpo com a promulgação da Lei do ventre livre, em 1871; com o surgimento e crescimento de associações abolicionistas; e, sobretudo, com presença e ações destacadas de arautos, oriundos tanto da classe popular quanto da elite, tanto de pele negra quanto branca, tanto vinda da tribuna do parlamento ou fora dele, que engendraram uma atmosfera de luta pela Abolição dos escravos. O Brasil do século XIX assistiu a uma profusão de personagens e ações promotoras da Abolição. Muitos destes personagens eram literatos e escreveram o dilema da escravidão em suas páginas.


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Fonte:
Marcos Teixeira de Souza (Unigranrio), Jose Geraldo Rocha (Unigranrio). “José do Patrocínio: para além da memória de um abolicionista.” Revista Magistro Vol. 2 Num.1, 2011 - Revista do Programa de Pós-Graduação em Letras e Ciências Humanas – UNIGRANRIO, disponível em http://publicacoes.unigranrio.edu.br/

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