19/01/14

Eu e Outras Poesias, de Augusto dos Anjos

 Augusto dos Anjos - Eu e Outras Poesias - Iba Mendes
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As cidades de Augusto dos Anjos

É interessante o fato de que Augusto dos Anjos tenha relegado a seus poemas mais longos temas como a cidade e a loucura. Os poemas mais curtos e menos prolixos muitas vezes refletem, como já foi mostrado no capítulo anterior, a questão do olhar passivo frente à natureza e seus efeitos inexoráveis.

Talvez seja uma questão de escolha, mesmo porque os temas metafísicos desenvolvidos nos poemas mais curtos exigiriam uma eloqüência mais condizente com estruturas longas. Mas a questão parece ser outra: a própria tendência de imobilidade do eu-lírico nos sonetos (apenas observar) contrasta com um ato de andar, ou com uma sucessão de alucinações que, na maioria das vezes, acaba em reflexões metafísicas muito parecidas com as dos sonetos. Um exemplo disso é “Poema Negro”, escrito em 1906. Os primeiros versos não definem um lugar exato. São meras reflexões: “A passagem do século me assombra. / Para onde irá corrrendo a minha sombra / Nesse cavalo de eletricidade?” (ANJOS, 1994, p. 286)

A cena seguinte se dá no cemitério, onde o eu-lírico arranca “os cadáveres das lousas”. A morte aparece com seu cutelo que, em um primeiro momento, causa medo, mas que leva o eu-lírico a imprecações à natureza que mata os homens, e à própria condição de estar em um mundo hostil:

Tu não és minha mãe, velha nefasta!
Com o teu chicote frio de madrasta
Tu me açoitaste vinte e duas vezes...
Por tua causa apodreci nas cruzes,
Em que pregas os filhos que produzes
Durante os desgraçados nove meses!
(ANJOS, 1994, p. 287)

As imprecações são sucedidas pela imagem de Roma na sexta-feira santa. Na igreja de São Pedro, o corpo de Jesus jaz morto, o que causa agonia no eu-lírico. Segue uma nova reflexão tipicamente influenciada por teorias científicas e que refletem, dentro do poema, uma briga entre monismo e dualismo, razão e fé. Jesus é eterno através de moléculas e genes:

Não! Jesus Não morreu! Vive na serra
Da Borborema, no ar de minha terra,
Na molécula e no átomo... Resume
A espiritualidade da matéria
E ele é quem embala o corpo da miséria
E faz da cloaca uma urna de perfume.
(1994, p. 288)

A proximidade com Jesus é por si só grotesca, nesta e em outras passagens do Eu, e será tratada posteriormente, em um capítulo próprio. Aqui, apenas ressaltamos essas passagens de situações que levam a reflexões típicas nos sonetos. Neles, na maioria das vezes, não há a necessidade de mudança de cena que desperte a reflexão angustiada. Essa estrutura temática, de alguma forma, lembra o quadro Hamlet e Horário no cemitério, de Delacroix, já citado no capítulo sobre o grotesco. Nele, a imagem do crânio de Yorick desperta em Hamlet (completamente ensimesmado e alheio dentro do quadro) uma atitude de repulsa e, talvez, reflexão.

Nos poemas longos, essas estruturas temáticas são sucessivas e requerem uma mobilidade maior. Não é à toa que há sempre uma espécie de caminhada (ou corrida) por parte do eu-lírico e, por conseqüência, uma estrada. Em “Poema Negro”: “Nesta sombria análise das cousas, / Corro. Arranco os cadáveres das lousas / E as suas partes podres examino...” (1994, p.286). A estrada também aparece na alucinação que tem como palco Roma: “Não há ninguém na estrada da Ripetta. / Dentro da igreja de S. Pedro, quieta, / As luzes funerais arquejam fracas...” (1994, p.288).

Em “Queixas Noturnas”, há novamente o ato de andar e a estrada:

Quem foi que viu minha dor chorando?
Saio. Minh’alma sai agoniada.
Andam monstros sombrios pela estrada
E pela estrada, entre estes monstros, ando.
(1994, p. 291)

Em “A ilha de Cipango”:

Estou sozinho! A estrada se desdobra
Como uma imensa e rutilante cobra
De epiderme finíssima de areia...
E por essa finíssima epiderme
Eis-me passeando como um grande verme
Que, ao sol, em plena podridão, passeia!
(1994, p.282)

Obviamente que a temática ainda não é necessariamente a cidade, mas fica claro que a condição do eu-lírico, sobretudo nos poemas longos, é a de quem passeia. Essa atitude de andar pode lembrar o flâneur baudelairiano, mas o olhar de Baudelaire é mais distante, de quem observa com mais discrição a frieza urbana. O eu-lírico de Augusto dos Anjos parece, em primeiro lugar, passear dentro de si mesmo. O cenário horrendo, ao mesmo tempo em que é causa de suas reflexões, é a conseqüência melancólica da contemplação de sua própria angústia. A vida é tão horrível por dentro quanto por fora. Em “As cismas do destino”:

Recife. Ponte Buarque de Macedo.
Eu, indo em direção à casa do Agra,
Assombrado com minha própria sombra magra,
Pensava no Destino, e tinha medo!
[...]

Tal uma horda de cães famintos,
Atravessando uma estação deserta.
Uivava dentro do eu, com a boca aberta
A matilha espantada dos instintos!
(1994, p. 211)

Augusto dos Anjos repete essa relação tempestuosa em quase todos os poemas longos, destacando-se aqui “Monólogo de uma sombra”, “As cimas do destino” e “Os doentes”, poemas esses que revelam uma maturidade de estilo em que o olhar do eu-lírico deixa de apenas focar a si mesmo e passa a mostrar o outro, ou a decadência ao redor. O restante (talvez “Noite de um Visionário” ainda se encaixe mais nessa tendência) não releva com a mesma força a paisagem urbana, sendo ela apenas pretexto para uma viagem filosófica de quem se alheia do ambiente. Há singularidades como as de “Uma noite no Cairo”, em que a cidade egípcia é descrita sem nenhuma interferência reflexiva, mas o poema, de 1905, ainda guarda resquícios de um Romantismo tardio e de uma influência simbolista (via Cruz e Sousa) que faz dele um poema mediano.

Dos poemas curtos, o que mais releva as relações urbanas (pensando aqui em uma aproximação com Baudelaire) é “O Lupanar”. Sua temática é a vida no prostíbulo, e a promiscuidade como uma atitude animal (natural, do ponto de vista científico):

Este lugar, moços do mundo, vede:
É o grande bebedouro coletivo,
Onde os bandalhos, como um gado vivo,
Todas as noites, vêm matar a sede!
(1994, p. 228)

Não há uma crítica moral, tampouco a admiração. Para uma visão científica em que a imortalidade se resume “na molécula e no átomo”, “é mister que o gênero humano entre” no Lupanar. Somos animais e, enquanto animais, tendemos à sobrevivência.

Esse olhar científico, mesmo quando mesclado a uma reflexão sobre a própria condição (como em “Noite de um Visionário”), leva a uma frieza que difere do distanciamento do olhar baudelairiano. Baudelaire busca a transcendência, a eternidade naquilo que é decadente e perecível. Augusto dos Anjos, mesmo quando dá relevância a alucinações, deixa que o crivo filosófico impere. O aqui e agora é o eterno, porque é orgânico e, enquanto o organismo puder se multiplicar, será sempre eterno. A visão monista impera, e a transcendência aqui é singular: a cidade é um organismo vivo, doente, e seus membros (prostitutas, cães, párias e lázaros) apenas são meros instrumentos para a continuidade do processo evolutivo, ainda que estejam corrompidos.

A própria fusão grotesca da cidade com órgãos vitais do corpo é fácil de ser percebida em versos como os de “Os Doentes”:

Mordia-me uma obsessão má de que havia,
Sob os meus pés, na terra onde eu pisava,
Um fígado doente que sangrava
E uma garganta de órfã que gemia!
(1994, p. 236)

Em outra passagem do mesmo poema:

Começara a chover. Pelas algentes
Ruas, a água, em cachoeiras desobstruídas,
Encharcava os buracos das feridas,
Alagava as medulas dos Doentes!
(1994, p.239)

Os primeiros versos de “Noite de um Visionário” novamente retomam a idéia de pisar, atolar em algo pútrido:

Número cento e trinta e três. Rua Direita.
Eu tinha a sensação de quem se esfola
E inopinadamente o corpo atola
Numa poça de sangue liquefeita!
(1994, p. 275)

A relação com o ato de pisar e atolar é sugestiva, justamente porque relega ao que é pisado a baixeza, a torpeza, a impureza. As ruas e estradas, quando comparadas a serpentes rastejantes (como já foi visto em “A ilha de Cipango”), podem despertar no leitor a simbologia do pecaminoso e do impuro (a queda do Éden). Essa relação com o que está embaixo, mas não exatamente fora (pisar e atolar pressupõem contato), mostra uma proximidade que está além da simples observação. Tudo está a sangrar como as chagas dos lázaros, inclusive o próprio eu-lírico. A angústia reside no tomar parte desse organismo corrompido de vícios e enfermidades que é a cidade.

Algumas recorrências temáticas, como o fato de andar sozinho pelas estradas e ruas, marcam esses poemas. Outra delas é a presença da noite enquanto palco desses passeios. É em seus vazios e obscuridades que as sensações e as alucinações do eu-lírico afloram. Em “As Cismas do Destino”:

Na austera abóboda alta o fósforo alvo
Das estrelas luzia... O calçamento
Sáxeo, de asfalto, rijo, atro e vidrento,
Copiava a polidez de um crânio calvo.
(1994, p.211)

Novamente a estrada serve de ponto de partida para a sensação de ver parte do organismo (crânio) através da noite. Em “Queixas noturnas”:

Como um ladrão sentado numa ponte
Espera alguém, armado de arcabuz,
Na ânsia incoercível de roubar a luz,
Estou à espera de que o sol desponte!
(1994, p.291)

Nos primeiros versos de “Os doentes”:

Como uma cascavel que se enroscava,
A cidade dos lázaros dormia...
Somente, na metrópole vazia,
Minha cabeça autônoma pensava!
(1994, p.236)

Percebe-se mais uma vez presença da serpente, do vazio e da noite. Os versos seguintes, já citados, mostram a sensação amarga de pisar em um fígado doente e em uma garganta. A relação com o andar é por demais sugestiva. Se, no capítulo anterior, o olho era o órgão que aproximava o eu-lírico do mistério da morte (ainda que, ao mesmo tempo, o afastasse), aqui o contato primeiro com a “metrópole vazia” acontece com os pés.

O ato de passear é justamente uma das marcas da poesia de Baudelaire. Em “Une Charogne”, por exemplo, a lembrança despertada é a visão da carniça durante uma caminhada com a amada. Em relação às grandes cidades, esse olhar agora se concentrará para focar a multidão que passa e povoa as ruas de Paris. Segundo Walter Benjamin:

É precisamente esta imagem da multidão das metrópoles que se tornou determinante para Baudelaire. Se sucumbia à violência com que ela o atraía para si, convertendo-o, enquanto flâneur, em um dos seus, mesmo assim não o abandonava a sensação de sua natureza inumana. Mistura-se a ela intimamente, para, inopinadamente, arremessá-la no vazio com um olhar de desprezo. (1991, p.121)



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Fonte:
Vagner Coletti: “As flores do mal e eu: um olhar pelo prisma do grotesco”. (Análise comparativa de Les Fleurs du Mal, de Charles Baudelaire, e Eu, de Augusto dos Anjos Tese de doutorado em Estudos Literários apresentada à Comissão do Programa de Pós-Graduação da Universidade Estadual Paulista “Júlio de Mesquita Filho”, Campus de Araraquara, como parte dos requisitos para a obtenção do título de Doutor em Letras. Orientadora: Profa. Dra. Guacira Marcondes Machado). Araraquara, 2008.

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