30/12/13

Primeiro Fausto, de Fernando Pessoa

 Fernando Pessoa - Primeiro Fausto - Iba Mendes
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Primeiro Fausto em Fluxo


Postulamos, então, a ideia de um Fausto em fluxo, em processo, inacabável, o qual, lido após a narrativa Fluxo , torna-se o texto precursor desta; o Fausto pessoano como texto original de um palimpsesto cuja última camada exposta  a narrativa Fluxo .

Fernando Pessoa tinha a intenção de escrever três Faustos. Projeto que nunca chegou a terminar, ficando apenas poemas dispersos, incompletos, que só podem ser organizados a partir dos temas comuns.

Apesar de ser uma obra inacabada, fragmentada, o Primeiro Fausto além de permitir a compreensão da gênese heteronímia, traz esboçado como tema central o mistério do mundo. O projeto faustiano repercutiria, portanto, as ressonâncias filosóficas (ontológicas e metafísicas) que ecoam por toda a poesia de Pessoa, em antinomias múltiplas e sucessivas (...) (SEABRA, opus cit. p. 24). O poeta abortou o projeto do drama, disseminando nas obras dos heterônimos os vários pontos de vista nele presentes.

Segundo Seabra, foi o próprio excesso de racionalização do projeto que o levou à impotência da passagem da concepção ao ato criador. Podemos observar essa dificuldade já na complexidade da explicação do poeta:

O conjunto do drama representa a luta entre a Inteligência e a Vida, em que a Inteligência é sempre vencida. A Inteligência é representada por Fausto, e a Vida diversamente, segundo as circunstâncias acidentais do drama. // No 1° ato, a luta consiste em a Inteligência querer compreender a vida, sendo derrotada, e compreendendo só que não podemos compreender a vida. Assim este ato é todo [disquisições] intelectuais e abstratas, em que o mistério do Mundo (tema geral, aliás, uma obra inteira, pois que é o tema central da Inteligência) é repetidamente tratado. (PESSOA, 1976, p.49)

Devido à incompletude da obra pessoana, esta análise limita-se à apreciação crítica da primeira parte, Mistério do mundo , e da segunda, O horror de conhecer . Mesmo porque, nos poemas destas, já encontramos toda a concepção do Fausto pessoano. O poeta português propôs ainda uma outra maneira de compreensão de seu drama  as oposições constantes: Oposição entre a Inteligência e a Vida, em que a Inteligência busca compreender; Oposição entre o Desejo e a Realidade, em que o Desejo busca possuir (compreender de perto); Oposição entre Não-Ser e Ser , em que o Não-Ser busca ser.

Essas oposições, artisticamente representadas pelo mito faústico, consistem numa espécie de figuração do transgressor: com o auxílio do demônio, o homem vai além dos limites impostos por Deus ao saber que as criaturas humanas podem alcançar sobre o sentido das coisas da existência que tanto o angustiam. Angústia traduzida poeticamente assim:

Quero fugir ao mistério
Para onde fugirei?
Ele é a vida e a morte
Ó Dor, aonde me irei? (PESSOA, idem, p.51)

A leitura da narrativa fluxo  de Hilda revela muito sobre esse projeto fáustico pessoano à medida que desenvolve seus principais temas, ou seja, a escritora levaria a cabo aquilo que Pessoa deixou inconcluso; ela teria conseguido adequar a forma de expressão ao conteúdo. Mais justo, porém, seria dizer que aquilo que em Pessoa se apresenta na forma de especulação retórica e, portanto, abstrata, em Hilda vê-se na prática, pois em sua narrativa ela torna possíveis e concretas as cenas de um drama cujos verdadeiros protagonistas são as ideias.:

(...) como é possível que esses que se fazem em mim, que se fizeram e que se farão, não compreendam a impossibilidade de responder coisas impossíveis. Ora vejam só, existo apenas há alguns minutos, essa ninharia de tempo e é claro que não posso responder o que sou. Porque não sei. Até gostaria de dizer, por exemplo, olha, meu amigo é tão simples responder o que sou, sou eu. (HILT, 2003: p.25) [grifo nosso]

Em Fluxo o mistério do mundo se enuncia como o incognoscível, que desencadeia um dilaceramento angustiante. No Primeiro Fausto, esse dilaceramento também reside na consciência de se saber vivo e com a única certeza que é a morte  esta o próprio mistério: o mistério ruiu sobre minha alma / E soterrou-a... Morro consciente . Nesse desenrolar do mistério o grande segredo da busca é que não se encontra resposta alguma, nem mesmo se entende a si:

O segredo da Busca é que não se acha.
Eternos mundos infinitamente,
Uns dentro de outros, sem cessar decorrem
Inúteis: Sóis, Deuses, Deus dos Deuses
Neles intercalados e perdidos
Nem a nós encontramos no infinito. (...) (PESSOA, 1976: p.53)

Embora nada se encontre, é através dessa busca que se reconhece a própria limitação humana do não ser outros, o que acentua mais o desespero e o desamparo:

Devo parar aqui e pensar que se todos fossem Ruiska, se o meu pararia de rodar. Se todos fossem, se o meu ser fosse o ser de todos, ah se o meu ser fosse o ser de todos, uma garra de amor, a tua garra, gavião, em cada peito, cravada para sempre, carregada como um amuleto (...) (HILST, idem, p..60) [grifos nossos]

Aqui percebemos como se encontram os escritores na consciência da multiplicidade falida do eu:

Paro à beira de mim e me debruço...
Abismo... E nesse abismo o Universo.
Com seu tempo e seu spaço, um astro, e nesse
Alguns há, outros universos, outras
Formas do Ser com outros tempos, spaços
E outras vidas diversas desta vida... (PESSOA, 1976, p.56)[grifo nosso]


Pessoa tinha consciência da limitação da própria linguagem - único caminho de expressão  e este parece ter sido o motivo de não concluir a produção da obra. Ele aborta o projeto por saber da impossibilidade de expressar com precisão a tensão entre as ideias em versos de maneira retórica, ou seja, o projeto é malogrado na passagem da abstração para prática:

Mundo, confranges-me por existir.
Tenho-te horror porque te sinto ser
E compreendo que te sinto ser
Até às fezes da compreensão
Bebi a taça [...] do pensamento
Até ao fim; reconheci-a pois
Vazia, e achei horror. Mas eu bebi-a.
Raciocinei até achar verdade,
Achei-a e não a entendo. Já se esvai
Neste desejo de compreensão,
Inalteravelmente,
Neste lidar com seres e absolutos,
O que em mim, por sentir, me liga à vida
E pelo pensamento me faz homem. (PESSOA, idem, p.52)

Se, para Pessoa, a criação dessa obra obsessivamente perseguida esbarra na dificuldade da própria emergência da dramaticidade intrínseca à linguagem poética, em Hilst   a exploração dessa dramatização (diríamos melhor tragicidade) da linguagem que move a criação:

Meu Deus, quem é essa que assim fala? Ruiska, meu nome é Palavrarara. Palavrarara! (...) O poder de dizer sem ninguém entender. Compreendo muito bem senhora. O poder de calar. A oferenda. O altar. (HILST, 2003, p.55)

Os recursos linguísticos que permitem criar novos vocábulos, como a justaposição em palavrarara, são simultaneamente a marca da transgressão e do domínio sobre a linguagem, que distingue aqueles que t m o poder de dizer sem ninguém entender . Contudo, por mais hábil que seja o escritor ele esbarra sempre na impossibilidade da plenitude do domínio, porque a linguagem, por mais que seja esteticamente trabalhada, nunca será suficiente para dar conta da atualização permanente e infinda da existência.  

Leyla Perrone-Moisés explica que a literatura nasce de uma dupla falta. A primeira é experimentada por todos os seres humanos, pois o mundo em que vivemos não nos é
 satisfatório. A segunda, sentem-na os artistas que buscam na literatura uma alternativa, seja positiva ou negativa, de reconstrução do real.

Na sua gênese e na sua realização, a literatura aponta sempre para o que falta, no mundo e em nós. Ela empreende dizer as coisas como são, faltantes, ou como deveriam ser, completas. Trágica ou epifânica, negativa ou positiva, ela está sempre dizendo o que o real não satisfaz. (PERRONE- MOÍSES, 2006, p.104)

 a substituição da falta pela escrita . Posto que, para a criação literária, os escritores se valham da linguagem, e esta nunca seja plenamente suficiente, a linguagem também será sentida como falta.

No texto Fluxo , como em todos os registros emocionais hilstianos, toda essa impossibilidade culmina numa reflexão metalinguística  na maioria das vezes sarcástica:

Escuta, anão, estou pensando. Em quê? Na coexistência, nesse ser dos outros. Vai falando. Me ouves? Claro, mas vou fritando esses peixes, nem imaginas como foi duro pescar este aqui, todo prateado, olha (..) vê, é dificílimo, acalma-te, come peixe, agora sim está frito, estás frito também, pois coexistes. (HILST, opus, cit, p.72) (grifo nosso)

Como se angústia do nome e da coisa refletisse a obsessão por sentidos que resultam numa fissura linguística dada pela ambiguidade sarcástica ( frito , em seu sentido literal, de assado, em tensão com frito , em sentido figurado, com sérios problemas). Consideração que nos remete, novamente, ao pensamento de Foucault:
  
A ideia de que, destruindo as palavras, não são nem ruídos nem puros elementos arbitrários que se reencontram, mas outras palavras que, pulverizadas por sua vez, liberam outras essa ideia é ao mesmo tempo o negativo de toda a ciência moderna das línguas e o mito no qual transcrevemos os mais obscuros poderes da linguagem, e os mais reais. (FOUCAULT, idem, 123)

A consciência de que criar pela palavra significa, de certo modo, destruí-la em seus sentidos originais ou convencionais move a literatura de Hilda Hilst. Tem-se a dramatização da linguagem e a teatralização da escritura: as palavras, enquanto jogos sonoro-verbais tornam-se ecos de resposta para o nada que se encontra na busca. Para Hilst, a tragédia da condição humana se resolve na transgressão da linguagem lugar obscuro de refúgio do ser que se especula metafisicamente. E resolve-se porque se aceita que não há saída a não ser rir-se da ironia por estar vivo.


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Fonte:
Sherry Morgana Justino de Almeida: “Do drama estático de Fernando Pessoa à prosa do êxtase de Hilda Hilst: Uma escritura teatral”. (Tese apresentada como requisito complementar para obtenção do grau de Doutor em Letras, área de concentração em Teoria da Literatura, do Programa de Pós-graduação em Letras da Universidade Federal de Pernambuco. Orientador: Prof.ª Dr.ª Ermelinda Maria de Araujo Ferreira) Recife, 2013

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