22/11/13

A Poesia de Álvares de Azevedo

 Alvares de Azevedo - Poesia - Iba Mendes
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Álvares de Azevedo e o Romantismo brasileiro

O Romantismo apresentou momentos-limites em relação à sociedade, por vezes estabeleceu uma dimensão mais aberta para o social e, em outras, retrocedeu para o instinto de pura subjetividade. Tanto no modo mais social, como no voltado para o indivíduo, o Romantismo brasileiro divulgou belas obras e teve consagrado os nomes de  diversos autores. Dentre os principais, como Gonçalves Dias, Casimiro de Abreu e  Castro Alves, surge um jovem poeta da Faculdade de Direito de São Paulo chamado de  Manuel Antônio Álvares de Azevedo. Cada um desses foi responsável pela propagação e o crescimento da literatura no Brasil, porém até que a poesia desses autores conquistasse o público, um processo gradual se iniciou na Europa e se propagou pelo mundo: o Romantismo.

Enquanto estilo de época ou movimento cultural, o Romantismo pode ser  associado à Revolução Francesa, em 1789, e também à ascensão da burguesia e do liberalismo. Após a Revolução, nota-se o crescimento econômico burguês, que  vagarosamente assume o lugar da antiga classe dominante, a aristocracia, que dominava  a economia e as artes de modo geral. Tudo seguia de acordo com o que fora estipulado pela nobreza. Portanto, com essa mudança, afirma-se que o Romantismo foi um movimento tipicamente burguês, já que este, aos poucos, tomou o poder.

Outra revolução que podemos atrelar a este período é a Revolução Industrial, iniciada na Inglaterra por volta de 1760, por meio da aplicação de maquinaria mecânica às indústrias. Diante deste quadro de mudanças que abalariam a estrutura político-cultural da Europa, há um progressivo desenvolvimento do homem europeu embalado pela crescente burguesia, que teria forte papel nas transformações do antigo sistema. A burguesia iniciou uma nova etapa tornando o comércio de livre acesso, não se intrometendo no mercado econômico.

O período do Romantismo é fruto de dois grandes acontecimentos na  história da humanidade, ou seja, a Revolução Francesa e suas derivações, e a Revolução industrial. As duas revoluções provocaram e geraram novos  processos, desencadeando forças que resultaram na formação da sociedade moderna, moldando em grande parte os seus ideais (sociais). (GUINSBURG, 2005, p.24)

Se antes o Classicismo era dominado pela força da aristocracia, o Romantismo seria liderado pela classe burguesa, que apresentava valores distintos da anterior. Com a vigência de uma nova ordem, o liberalismo ganhou forças, à medida que apontava para a valorização do indivíduo e a capacidade geradora de cada um. Logo, estaria neste ponto um dos fundamentos deste período, anunciando que era livre a qualquer pessoa o poder e a habilidade de criar, tanto na arte quanto na literatura, e que não estava mais reservados a uma pequena elite a produção intelectual como era feito antes.

Com a ascensão da burguesia, a arte passou a ser vista com novos olhares, o artista entendeu, a partir desta mudança, que o burguês era o detentor do dinheiro para  financiar suas obras. No entanto, essa mesma classe carecia de cultura e de mais conhecimento no campo das artes. Foi então preciso que houvesse uma transformação cultural que acompanhasse esse momento, assim como estava acontecendo no âmbito político.

O século XIX havia sido marcado pela chegada de princípios liberais da  burguesia, que permitiram a livre concorrência entre os indivíduos, sem que o Estado interviesse na produção e, também, permitiu oportunidades iguais para as pessoas, sem que uma classe social prevalecesse em relação à outra. Desta maneira, o Romantismo se constituiu no movimento que trazia liberdade de expressão para os poetas e grandes  pensadores, como também lhes concedia o direito de criação. Assim modificam,   vagarosamente, o padrão clássico introduzindo novas formas guiadas por sua própria inspiração. 
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Diante disto, constatamos os motivos que permitiram a concepção de um novo padrão estético, que revolucionou o século XIX. Esse novo estilo pretendia mostrar à velha aristocracia que, apesar de não possuir “sangue azul” ou uma linhagem de estirpe, poderia compensar essas faltas com um novo padrão de beleza, no qual os próprios burgueses poderiam ser identificados. Segundo J. Guinsburg, 

É como se tudo o que foi criado nos últimos duzentos anos, obra de literatura, pintura, teatro, escultura, arquitetura, houvesse surgido do confronto e da união com este “espírito” mágico, que, buscando as esferas mais profundas do homem, reptou o consagrado, o estabelecido, o modelado aparentemente desde e para todo o sempre, efetuando uma  revolução fundamental na conceituação e na realização de todas as artes, mesmo daquelas que não sentiram ou expressaram de modo imediato ou
feliz os efeitos da fermentação romântica. (GUINSBURG, 2005, p.13)

Acompanhando as tendências mundiais, o Brasil sofreu grandes mudanças  políticas que marcaram a primeira metade do século XIX. Uma dessas transformações mais significativas foi a vinda da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, em 1808, que desembocou na elevação do Brasil à categoria de Reino, em 1816, e determinou, conseqüentemente, a abertura dos portos às nações amigas. Por meio da transferência da família real para o Brasil, no período de menos de cinqüenta anos tem-se a independência do país, em 1822, o primeiro reinado até 1831, o período de regência entre 1831 a 1840 e o início do segundo reinado, que por fim se estendeu até 1889, quando foi proclamada a república no Brasil.

Tais transformações favoreceram o país em alguns aspectos, como a criação de escolas, museus, bibliotecas, juntamente com a circulação regular de jornais e revistas, graças à criação da Imprensa Nacional. A vida cultural do Brasil se alterou completamente neste aspecto, pois acabou gerando a capital intelectual do país, de onde  se desenvolvia a imprensa e se ampliava o público leitor.

Com a independência da nação, o Romantismo foi ganhando forças e, com isso, podemos afirmar que o movimento romântico brasileiro coincidiu com o momento decisivo de formação da nacionalidade. Para Antonio Candido, é graças a dois fatores  importantes, como a independência política e o Romantismo, que alguns países vêm expressando na arte uma nova visão de realidade, tanto individual, quanto social e natural.

Manteve-se durante todo o Romantismo este senso de dever patriótico, que levava os escritores não apenas a cantar a sua terra, mas considerar as suas próprias obras contribuição ao progresso. Construir uma “literatura  nacional” é afã, quase divisa, proclamada nos documentos do tempo até se tornar enfadonha. (CANDIDO, 2007, p.10)

Devido às condições específicas do país, o Romantismo no Brasil apresenta, além de alguns pontos em comum com o europeu, outros elementos próprios, que  resultam da adaptação à realidade brasileira. Esse movimento se adequou ao estilo cultural do Brasil, por isso apresentou muitas características e gerações distintas uma das outras. “Já disse alguém que houve tantos romantismos quanto românticos, o que  seria, por outro lado, a máxima concretização do Romantismo no seu caráter individualista.”

Tais “romantismos” podem ser configurados nas diferentes gerações românticas, pois há uma grande diferença entre a poesia feita no início do Romantismo brasileiro e a que surgiu no final do mesmo período. A fim de marcar os limites desta dissertação, concentrar-nos-emos no eixo central pertencente ao poeta em questão, Álvares de Azevedo. Portanto, indicaremos os temas pertinentes que se incluem em sua geração ultra-romântica.


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Fonte:
Sue Helen da Silva Vieira: “Álvares de Azevedo: “A Ironia no Amor Ou o Amor na Ironia”. (Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Letras Vernáculas da Universidade Federal do Rio de Janeiro, como parte dos requisitos necessários à obtenção do título de Mestre em Letras Vernáculas (Literatura Brasileira). Orientador: Alcmeno Bastos. Rio de Janeiro, 2009

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