25/03/16

Sermão do esposo da mãe de Deus, São José, do Padre Antônio Vieira

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Sermões históricos e proféticos

A verdade e a mentira: a verdade do pregador e a mentira dos ouvintes - Sermam da Quinta Dominga da Quaresma Na Igreja da Cidade de São Luis do Maranhão.

O sermão realizado na Igreja Maior da cidade de São Luís, no Maranhão, em 1654, inicia com a alegação: “Si dixero quia non scio eum, ero similis vobis, mendax”. Ioan, 8. Nele, Vieira começa por afirmar, “A verdade e a mentira: a verdade do pregador e a mentira dos ouvintes. As tres especies de mentiras com que os escribas e fariseos hoje contradisseram, caluniaram e quizeram afrontar e deshonrar o Filho de Deos”10. Partindo deste trecho pode antever-se a crítica do Jesuíta a todos os governantes do Maranhão que negavam Cristo através dos actos que cometiam. O discurso envolve a intenção política de os atacar uma vez que se opunham à sua acção evangelizadora. Vieira invocou no sermão a inveja, o ódio, a raiva, a vingança e os interesses dos que governavam.

“(…) Disse-lhes Cristo que era Filho de Deos verdadeiro, a quem eles chamavão Pai sem o conhecerem: disse lhes que os que recebessem, & observassem sua doutrina viverião eternamente, & aqui mentiram não crendo a verdade: Si veritatem dico vobis, quare non creditis mihi? (…). Enfim, mentiram afirmando a mentira, porque disserão que Cristo era samaritano e endemoninhado: Samaritanus es, et daemonium habes. E para mentirem duas vezes em huma mentira, repetirão a mesma blasfemia ratificando o que tinhão dito e alegando-se a si mesmos: Nonne bene dicimus nos? Mal he dizer mal, mas depois de o haverdes dito, dizerdes ainda que dizeis bem, he um mal maior sobre outro mal, porque he estar obstinado nele”.

“No Maranhão até o sol e os céus mentem” afirmava António Vieira porque no “Maranhão não há verdade”. A primeira proposição revela a frustração que o pregador sentia ao analisar a sociedade que o rodeava. A segunda reforça a primeira, utilizando a retórica e a lógica aristotélica, ou seja, o silogismo truncado: se “mentem” “não há verdade”. O que era a verdade e a mentira? A verdade era a palavra do Pregador, ou seja, a doutrina pela qual se salvavam os homens. A mentira era a negação dos homens através das suas acções quando impugnavam a palavra do pregador porque blasfemavam. Aplicando esta lógica o missionário apresentava no discurso duas premissas não contrárias para que os ouvintes chegassem a uma conclusão. Este sermão revela bem a sintonia com os retóricos e o recurso às técnicas usadas pelos autores clássicos. O paralelismo pode verificar-se na obra de Platão, A República, onde se discute que a alma é mais corajosa e sensata quando não é abalada nem alterada.

A analogia é visível na mentira sobre os deuses e na preocupação da integridade/salvação da alma: “(…) e que ninguém venha contar mentiras sobre Proteu e Tétis”. Em ambos os autores é perceptível a mesma finalidade pedagógica. Veja-se o que afirma Platão “(…) chamar-se-ia verdadeira mentira à ignorância que existe na alma da pessoa enganada…Por conseguinte a mentira autêntica é detestada não só pelos deuses, mas também pelos homens”.

Num fragmento do mesmo sermão, ao expor a visão que os alemães tinham dos europeus, Vieira mostra, também, o pecado que ele atribuía ao povo português. Avalie-se a seguinte fábula:

“Dizem que a cabeça do diabo caiu em Espanha, e que por isso somos furiosos, altivos, e com arrogancia graves. Dizem que o peito caiu em Italia, & que daqui lhes veio serem fabricadores de máquinas, não se darem a entender, & trazerem o coração sempre coberto. Dizem que o ventre caiu em Alemanha, & que esta he a causa de serem inclinados à gula, & gastarem mais que os outros com a mesa & com a taça. Dizem que os pes caíram em França, & que daqui nasce serem pouco sossegados, apressados no andar, & amigos de bailes. Dizem que os braços com as mãos & unhas crescidas, um caiu na Holanda, outro em Argel, & que daí lhes veio – ou nos veio – o serem corsários. Esta he a substancia do apologo, nem mal formado, nem mal repartido, porque, ainda que a aplicação dos vicios totalmente não seja verdadeira, tem comtudo a semelhança de verdade, que basta para dar sal à sátira. E, suposto que à Espanha lhe coube a cabeça, cuido eu que a parte dela que nos toca ao nosso Portugal he a lingoa, ao menos assim o entendem as nações estrangeiras que de mais perto nos tratam. Os vicios da lingoa são tantos, que fez Drexélio um abecedario inteiro, & muito copioso deles”.

Qual era o diagnóstico traçado para o povo ibérico? Os alemães atribuíram a queda da cabeça do Diabo a Espanha. Vieira apontou a língua como a parte que toca a Portugal. O Jesuíta observara que os portugueses eram viciados no pecado da língua, isto é, na blasfémia.

Apregoou com mágoa a catástrofe que decorria dos ataques dos holandeses no Maranhão, a guerra da Restauração e a intriga dos governantes. A justificação residia, em última análise, no pecado da língua que negava a graça de Deus.

O Padre António Vieira fez realçar a maldade da língua com uma citação de S. Tiago: “não há fera mais dificultosa de enfrear que a lingoa. Para se por o freio na lingoa, hão se de meter as cabeçadas na imaginação.” Para tal reforçou a ideia dizendo que “Os falsos testemunhos formão se na lingoa: os juizos temerarios formão se na imaginação; & como da imaginação à lingoa há tão pouca distancia, para que não haja falsos testemunhos na lingoa, proibe que não haja juizos temerarios na imaginação”.

Falou também da mentira dos ouvidos e da mentira dos olhos. Da primeira disse,

“Defende-vos lá agora das vossas mentiras, com dizer que dissestes as mesmas palavras que ouvistes, & que não acrescentastes nada”. Da segunda afirmou “Se quem vai vigiar, & espreitar a vossa vida, & a vossa honra levar alguma nuvem diante dos olhos, (…) por mais que a vossa vida, & a vossa honra seja tão clara e tão pura como hum cristal, há lhe de parecer escura e tenebrosa”.

Com estas palavras o que é que procurava o pregador?

Mostrar que a balança em que se pesavam as consciências na outra vida era muito delicada e o Inferno seria o resultado da desgraça por se ter cometido um falso testemunho. O remédio, esse, “…está em huma consciencia muito bem examinada, em huma confissão muito bem feita”. Expõe no final do sermão o objectivo da nova pastoral, posta em prática depois do Concílio de Trento, que dava relevância à confissão.

História do Futuro, Esperanças de Portugal e Quinto império. Verdade e Utilidades da História do Futuro.

No capítulo IV das Utilidades da História do Futuro, o Padre António Vieira referiu que a blasfémia dos homens foi dizer que Moisés libertou o povo escolhido do cativeiro do Egipto, negando assim o poder de Deus que “abriu o Mar Vermelho e afogou nele Faraó e seus exércitos (…) mas nos homens que deviam dar a Deus toda a glória (pois toda era sua), referirem-se a Moisés, era descortesia; atribuírem-na ao ídolo, era blasfémia, e não a darem a Deus toda, era ingratidão suma”. Mais uma vez, num tom satírico e mordaz, ele acusou os homens de serem mal-agradecidos. Era esta ingratidão dos homens que ele projectava na sua oratória com o intuito de salvar todos os que o ouvissem.

Um dos objectivos que ele se propunha com a História do Futuro era exaltar nela a fé e o triunfo da Igreja, para glória de Cristo, para felicidade e paz universal. Ao mesmo tempo que o Jesuíta focava a blasfémia como uma das causas encontradas para a desgraça do reino apontava, também, a esperança de um mundo melhor através da nova pastoral e o desejo da unificação da Igreja. Esta tinha um papel preeminente, prestava um duplo serviço a Deus e ao Princípe, pois submetia ao Estado, não apenas os corpos e as faculdades dos subditos, mas ainda as almas e as consciências.

“Já Deus, Portugueses, nos livrou do cativeiro, já por mercê de Deus triunfamos de Faraó e do poder de seus exércitos; já os vimos, não uma, mas muitas vezes, afogados no Mar Vermelho de seu próprio sangue. (…).”

Vieira narrou com emoção que os Portugueses conheceram o cativeiro (União Ibérica) mas que tinham como consolação a carta e a tradição de São Bernardo que profetizava “Lia-se no juramento de El-Rei D. Afonso Henriques e na promessa do santo ermitão, que, na décima sexta geração atenuada, poria Deus os olhos de sua misericórdia no Reino. Lia-se nas célebres tradições de Gregório de Almeida no seu Portugal Restaurado, que o tempo desejado havia de chegar, e as esperanças dele se haviam de cumprir no ano sinalado de quarenta”

O sermão História do Futuro tem como motivo principal a sucessão dos quatro impérios. As aspirações messiânicas ao Quinto Império significam a superação espiritual, por redução da multiplicidade histórica ou temporal e da variedade geográfica ou espacial a um todo único, contínuo, sem partes. A noção de um só Império participa da obsessão da totalidade, seja ela de poder, monarchia, de língua, de religião: um só rebanho, um só pastor; o herege, o gentio e o judeu aliados ao católico, “unidas todas as seitas do mundo”, feita a “concórdia de uma só fé e religião”.

A ideia de que o mundo era “geometricamente o mundo”, de que Portugal seria o local predestinado pelo “Supremo Arquitecto”, foi a forma como profetizou que Deus escolheria Portugal para criar o mundo mais perfeito. A geometria e a arquitectura eram metáforas que se podem ler como a construção de uma realidade melhor, perfeita, onde certamente, não haveria lugar para a blasfémia. Na Europa a ruptura tornou-se irreversível com a Reforma, gerando-se ao mesmo tempo rivalidades nacionais. A solução da Contra-Reforma mais não fez que agudizar as separações, e a paz da Vestefália (1648) consagrou a situação de facto e institucionalizou um equilíbrio de identidades nacionais com religiões diferentes.

A Companhia de Jesus, o agente mais dinâmico de uma ideologia restauradora e integralista, foi-se revelando incapaz de reconstituir a unidade perdida. Confundia-se a unificação com o domínio e as Coroas tornaram-se agressivas, economicamente e ideologicamente23. Daí que Vieira tivesse a necessidade de pregar a unidade, o todo, criado pelo Supremo Arquitecto. Só assim se pode compreender a divulgação do Quinto Império como aquele que levaria à instauração da paz e à eliminação das diferenças.

A explicação que Vieira encontrou para o “cativeiro” da União Ibérica foi o resultado da blasfémia contida na crença dos “ídolos” e no desvio dos crentes. No entanto, o autor não se limitou a diagnosticar os problemas mas projectava no futuro a esperança de Portugal atingir a perfeição e a harmonia através dos preceitos morais pós-tridentinos. Para terminar, não se pode deixar de ligar as ideias milenaristas com o sentido profético que o Padre António Vieira atribuiu ao Quinto Império, como o mundo utópico onde se encontraria a paz e o amor, onde a devoção estaria ao serviço da Igreja e da Pátria. O autor aproximava-se dos humanistas como Campanella e More que propuseram nas suas respectivas obras Cidade do Sol e Utopia paradigmas de mundos ideais, melhores, onde todos os homens encontrariam a felicidade que, para o Jesuíta, só era possível com a salvação da alma.

Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda Em Maio e Junho de 1640, os Holandeses cercavam a Baía, “capital” do Brasil.

“Os Portugueses sentiam-se à beira de uma catástrofe. A esquadra enviada de Lisboa para romper o cerco dispersara-se no mar e o que restara dela tinha sido desbaratado pelos Holandeses. Não havia esperança de outros socorros e a cidade estava na expectativa de uma situação tão penosa como a de 1624, quando os Holandeses a tinham dominado, obrigando os colonos a fugirem para as fazendas do interior ou para o sertão. As igrejas tinham sido profanadas, tendo os Padres tido muita dificuldade em salvar objectos sagrados.”

Nesta guerra confrontavam-se protestantes e católicos. O que estava em causa era o domínio do açúcar e o destino religioso da América. O Bispo da Baía comandara as forças que expulsaram o invasor. Foi este povo angustiado e oprimido que assistiu ao

Sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal contra as de Holanda, na Igreja de Nossa Senhora da Ajuda.

O discurso proferido por Vieira é extraordinário porque o orador não se dirige aos fiéis mas ao povo de Moisés, e ao próprio Deus em nome do seu povo25. Tomando como tema um texto do salmo 43 no qual David diz: “acorda Senhor, porque dormes?” declara, assim, que não se propõe converter os pecadores, mas o próprio Deus. Roga a Deus que ajude os portugueses a libertarem-se do jugo dos holandeses. A sua narração enche-se da História de Portugal, dos feitos dos reis portugueses, apelando à misericórdia divina e à remissão dos pecados da língua do quais resultavam catástrofes.

Desde cedo que os reis portugueses se preocuparam com as blasfémias porque se pensava que aquelas atraiam a pestilência, as fomes, os terramotos, as guerras, como resultado da ira divina. Deste modo, D. Dinis legislou contra os que renegassem da fé por palavras: “que daqui em deante quem quer que descreer de Deus e da Sancta Maria sa madre, e os doestar, que lhi tirem a lingua pelo pescoço e o queymen”. Também D. João I mostrou preocupação em acabar com as blasfémias e, por isso, publicou a 3 de Janeiro de 1416, uma lei que punia os blasfemos. Posteriormente, as Ordenações Afonsinas, cuja vigência iria perdurar até à publicação das Ordenações Manuelinas (1513/1514), definiam que competia à justiça eclesiástica apreciar os casos de blasfémia e proferir a sentença adequada. Para combater a blasfémia, as Ordenações Filipinas, publicaram uma lei, de 27 de Julho de 1582, § 35 (Livro V, Título II) que continuava com as medidas tomadas pelos anteriores reis, com ligeiras modificações quanto ao destino dos degredados. No reinado de D. João IV foram confirmadas as Ordenações Filipinas, pela lei de 29 de Janeiro de 1643, devendo vigorar enquanto as circunstâncias da guerra não permitissem elaborar uma nova recompilação das leis.

No sermão contra os holandeses, o missionário invocou de uma forma brilhante a ira divina. Responsabilizou Deus pela evolução funesta da guerra. Reclamava a Deus uma explicação e uma consequência positiva com a vitória dos portugueses. Vieira interpelou Deus do seguinte modo:

“Pois é possível, Senhor, que hão-de ser vossas permissões argumentos contra a vossa Fé? É possível que se hão-de ocasionar de nossos castigos blasfémias contra vosso nome? Que diga o herege (o que treme de o pronunciar a língua), que diga o herege, que Deus está holandês? Oh, não permitais tal, Deus meu, não permitais tal, por quem sois! Não o digo por nós, que pouco ia em que nos castigásseis; não o digo pelo Brasil, que pouco ia em que o destruísseis; por vós o digo e pela honra de vosso Santíssimo Nome, que tão imprudentemente se vê blasfemado: Propter nomen tuum. Já que o pérfido calvinista dos sucessos que só lhe merecem nossos pecados faz argumento da religião, e se jacta insolente e blasfemo de ser a sua verdadeira, veja ele na roda dessa mesma fortuna, que o desvanece, de que parte está a verdade.

Segundo a opinião de António Saraiva, o sermão pelo Bom Sucesso das Armas de Portugal trata-se de um jogo dramático e não de uma simples súplica amplificada. Job, evocado por Vieira, exprime uma relação dramática entre Deus e a criatura e revela a autonomia radical do homem perante Deus, seu criador.

Na conclusão do sermão o pregador já não se dirige a Deus mas a Cristo. Vieira seguiu a estratégia que aprendera na sua ordem, isto é, transmitir aos fiéis uma carga muito rica de sentimentos: a súplica, a censura, a carícia, o conselho quase paternal, a ameaça; e se não chega a cair na blasfémia, passeia perigosamente à beira desse abismo para fazer tremer os seus ouvintes. Estes faziam parte do espectáculo, pois eram os figurantes mudos, cujos sentimentos se exprimem pela voz do pregador-corifeu. Desempenham o papel do coro, no teatro grego.

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Fonte:

Ana Ruas Alves: " A Verdade e a Mentira: a blasfémia no discurso do Padre António Vieira" (Universidade de Coimbra - anaruasalves@gmail.com). Disponível em: http://www.ecsbdefesa.com.br


Nota:
A imagem inicial inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

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