19/03/16

Sermão de Santo Inácio, do Padre Antônio Vieira

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Sermão de Santo Inácio, do Padre Antônio Vieira



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O que é o Sermão

A pequena ficção que antecede ambicionou despertar  em quem a leu alguns dos fenômenos que trataremos neste trabalho. Fenômenos  estruturantes do homem, portanto corriqueiros  e  que  nos  passam  por  triviais.  O  intuito  foi  tocar  de  modo  tênue  em imaginações,  lembranças,  motivações,  sentimentos,  bem  como  evocar  impressões (simpatia, antipatia), pensamentos e idéias, dar juízo, propiciar crítica, abarcar a racionalidade. Seguindo a dica dada pelo próprio objeto de estudo, consideramos que o caminho para se atingir o entendimento propriamente passa por outros fenômenos oriundos da vida psíquica. O próprio personagem remetente da carta transita entre a ressonância que lhe faz o sermão e sua capacidade analítica sobre mesmo, buscando sempre uma síntese. Por tanto, o fato de experienciar as informações, levar em conta suas apercepções, sua consciência imediata auxiliam a intelecção, contribuindo em nosso caminho de expor as idéias da melhor maneira possível, evidenciando sua razoabilidade, buscando o assentir.

Também foi intenção do conto/carta introduzir o tema dos sermões segundo a perspectiva que escolhemos abordá-los. São respeitados em sua perspectiva de oratória sagrada, prática cultural e produção linguística e literária, o que é pertinente ao método que escolhemos. Não obstante, nosso enfoque se dá na ideia de dinamismo psíquico e saberes psicológicos que os sermões contêm. Sendo tais elementos observados na própria construção dos sermões tanto particularmente em sua produção e acomodação, enquanto gênero. Os sermões são também considerados enquanto portadores e transmissores de teoria, advinda da psicologia filosófica que ecoa no período.

Em nosso entender, o sermão é por natureza um gênero “literário” e de oratória (prática cultural) prescritivo, ou seja, busca a afirmação de significados e sentidos. Para Vieira e sua cultura, o discurso é da ordem do instrumental, não se fecha em si, é para além dele, uma busca pela verdade. O discurso é um meio e não um fim, não se restringe apenas em literatura ficcional. Há uma teleologia, ou seja, o discurso busca sua finalidade. Há uma busca do “bem viver”, digamos uma pedagogia do bem viver, sempre atravessada pelas questões materiais da conformação histórica e da perspectiva relacional com o transcendente: a verdade deve contemplar o Estado e a Divindade, ação política e prescrição teológica e doutrinária.

Os sermões de Vieira estão embebidos em uma matriz epistêmica de orientação aristotélico-tomista e agostiniana. Destarte, desta derivam tanto uma visão de homem (uma antropologia filosófica cristã) como um modelo de funcionamento do que poderíamos chamar de “psiquismo”, identificado principalmente com o termo alma. Segundo os pressupostos da época, potências internas e externas, paixões, apetites, vontade, intelecto e espírito são os elementos, que se articulam de maneira dinâmica e contínua, compondo a alma. Falamos aqui de uma psicologia filosófica que remonta ao mundo helênico, porém no século XVII é perpassada pelo humanismo e cristianismo. Tal antropologia e “psicologia” tomam corpo, materialidade, nos sermões a partir da oratória, ou seja, são comunicados através de preceitos definidos, forjados pela tradição.

Tais preceitos são em sua gênese a utilização da retórica. É através da retórica que melhor se informa, se apetece e se persuade o outro.

O sermão enquanto gênero de oratória religiosa possui regras e princípios que o regem formando certa sintaxe. Quatro partes estruturantes – exórdio, evocação, confirmação e peroração – constituem o esqueleto ao qual o pregador deverá dar carne e sangue através de ideias, alegorias, exemplos, metáforas, sentenças, soprando-lhe nas narinas através da pronúncia, o modo de dizer. O exórdio é o princípio da narração, pela qual se dispõe o destinatário para ouvir. Nele expõem-se o plano das principais ideias que serão desenvolvidas, e sua temática (matéria),os quais são normalmente extraídos da Sagrada Escritura. Serve para captar a benevolência do ouvinte. Objetiva tornar o ouvinte atento e dócil (GRANADA, 1945). Na evocação , o orador invoca o auxílio divino para a exposição de suas ideias, busca autorização e autoridade para a prédica. É na confirmação que se dará a amplificação do tema, seu desenvolvimento de modo artificioso, escrutinando suas partes. Perfazendo o sermão vem a peroração. Recapitulam-se as principais ideias, retoma-se a matéria e exorta-se o auditório a mover-se em direção ao que foi desvelado e proposto como nova prática.



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Fonte:
Sandro Rodrigues Gontijo:
“Imaginação e memória nos sermões de Antônio Vieira”. (Dissertação apresentada à Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras de Ribeirão Preto da USP, como parte das exigências para a obtenção do título de  Mestre em Ciências, Área: Psicologia. Orientadora: Prof. Dra. Marina Massimi). Ribeirão Preto – SP, 2011. Disponível em: www.teses.usp.br

Nota:
A imagem inicial inserida no texto não se inclui na referida tese.
As notas e referências bibliográficas de que faz menção o autor estão devidamente catalogadas na citada obra.
O texto postado é apenas um dos muitos tópicos abordados no referido trabalho.
Para uma compreensão mais ampla do tema, recomendamos a leitura da tese em sua totalidade.

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